2006/03/23

Utilitário... para Brecht

Praticamente desconheço a obra de Brecht. Para além de A Ópera de Três Vinténs, que vi há uns naos no Teatro Aberto, só conheço um fragmento de uma peça em que o autor condena Galileu por ter recuado perante o Tribunal da Inquisição. Por esta peça o autor já não me inspirava grande simpatia: será que Brecht julga que Galileu teria prestado um melhor serviço à humanidade sujeitando-se a ser um mártir como Giordano Bruno? Teria Brecht noção do que estava a dizer?
Recentemente, depois de ter lido este texto da sua autoria no Aspirina B, Brecht deixou de me inspirar simpatia. Por estas duas amostras parece-me um autor totalitário.

10 comentários:

Luis disse...

Já pensaste na possibilidade do post do Nuno ser uma carta aberta ao João Miranda?

Filipe Moura disse...

Não me interessa minimamente o destinatário do post do Nuno; estou interessado no texto de Brecht. Mas é evidente que não pode ser uma "carta aberta". Sabes, geralmente as cartas abertas têm um destinatário...
Já agora: o João Miranda é um tipo muitíssimo inteligente. É demagógico até dizer chega, por vezes a roçar os limites da desonestidade intelectual, mas de idiota é que não tem nada. Mas de qualquer maneira não me parece que a pessoa ou pessoas em questão sejam "idiotas", para levarem com esta resposta.

Manuel Resende disse...

Sou mesmo parvo: estive aqui a mandar umas bocas infindáveis sem ter ido ler o texto da Aspirina B.

Nem sei se o meu anterior comentário já está publicado, e meto outro.

Francamente, Filipe, onde está o totalitarismo desse texto que linkas. Acaso ele se arma em polícia? Acaso é um interrogatório? Acaso quer impedir o outro de ser o que é? Não, apenas lhe apetece dizer o que tem na cabeça e que acha que o outro é, e, para tal, imagina uma cena em que pode fazer isso. O idiota pode ser qualquer um de nós, ou ele próprio autor.

Por amor de Deus...

Coisas muito piores fizeram os dadaistas, com toda a razão, perante a barbárie civilizada da primeira guerra mundial.

Manuel Resende disse...

O anterior comentário não saiu...

E era tão inteligente,fosga-se

Luis disse...

Quanto ao João Miranda estamos de acordo.

A questão é que eu gosto do texto do Brecht, acho-o muito Schpenhaueriano.

Filipe Moura disse...

Pelo texto no Aspirina B detecto tiques autoritários indesmentíveis. Ele não dá oportunidade ao acusado de se defender. O facto de ser "imaginário" não conta. Quem imagina uma cena assim tem tiques e apetites totalitários.
Livra, prefiro o velho Sartre, apesar de também o conhecer muito mal.

Luis disse...

Eu leio o texto do Brecht exactamente ao contrário de ti. Para mim aquele texto do Brecht é uma caricatura do uso de argumentos iniciáticos, ou de autoridade. E nós sabemos que estas coisas nunca acontecem na blogosfera ...

Em quem é que o NRA estava a pensar, para mim também não é muito relevante.

Nelson disse...

o Brecht é um idiota.

Lutz disse...

Filipe, não julgue brecht com base do teu conhecimento fragmentário.
Quanto ao Galilei, o fragmento que pareces conhecer é a indignação do seu aluno sobre a revogação do mestre. Falhaste o final e a pointe da peça, Galileu revogou para poder concluir o seu trabalho e de enviá-lo clandestinamente para Holanda, onde acaba de ter efeito.
O que é paradigmático para a postura de Brecht. Brecht não defende o "antes quebrar do que vergar", é um advogado da "resilience":

"Sobre o porte:
A sabedoria é a uma consequência do porte. Como não é o objectivo do porte, a sabedoria não pode motivar ninguém para a imitação do porte.
Assim como eu como, não comerão. Mas se comem como eu, isso será vos útil.
O que digo aqui: que o porte cria os actos, assim poderá ser. Mas têm que ordenar as necessidades, para que assim seja.
Muitas vezes vejo, diz o pensador, tenho o porte do meu pai. Mas os actos do meu pai não cometo. Porque é que cometo outros actos? Porque há outras necessidades. Mas vejo que o porte dura mais do que a forma de agir: Ele resiste às necessidades.
Certas pessoas só podem fazer uma coisa, se não querem perder a face. Como não conseguem seguir às necessidades, perecem facilmente. Mas quem tem um porte, este pode fazer muitas coisas e não perde a sua face."

(Bertolt Brecht: Histórias do Sr. Keuner)

Lutz disse...

Outro exemplo para reabilitar o Brecht:

Aos que vierem depois de nós

1

Realmente, vivo em tempos sombrios!
A palavra inocente é tola. Uma testa sem rugas
Denota insensibilidade. Aquele que ri
Só ainda não recebeu
A terrível notícia.

Que tempos são estes, em que
Falar de árvores quase é um crime,
Porque implica silêncio sobre tantos horrores!
Aquele que ali cruza tranquilamente a rua
Já não está contactável pelos amigos
Que estão em apuros?

É verdade: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditem: é puro acaso. Nada
Do que faço justifica que eu possa comer até fartar-me.
Por acaso estou poupado. (Se a sorte me abandonar estou perdido).

Dizem-me: "Tu come, bebe! Alegra-te, que tens!"
Mas como posso comer e beber, se
Ao faminto arranco o que como, e se
O copo de água falta ao sedento?
Mas apesar disso como e bebo.

Também gostaria de ser sábio.
Nos livros antigos diz como é ser sábio:
É manter-se afastado das lutas do mundo e passar o breve tempo
Sem medo.

Também dispensar da violência,
Retribuir o mal com o bem,
Não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
Consta que é sábio.
Tudo disso não sou capaz.
Realmente, vivo em tempos sombrios.

2

Às cidades cheguei em tempos de desordem,
Quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos de revolta
E indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
Que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão entre às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me encarreguei sem cuidado
E a natureza vi sem paciência.
Assim passou o tempo
Que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o carrasco.
Era muito pouco o que eu podia.
Mas os governantes
Se sentavam, sem mim, mais seguros, — esperava eu.
Assim passou o tempo
Que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas.
E o objectivo
Encontrava-se muito distante.
Via-se claramente,
Ainda que mal atingível, para mim.
Assim passou o tempo
Que me foi concedido na terra.

3

Vocês, que surgirão da maré
Em que perecemos,
Lembrar-se-ão também,
Quando falam das nossas fraquezas,
Dos tempos sombrios
De que puderam escapar.

Pois íamos, mudando mais frequentemente de país do que de sapatos,
Através das lutas de classes, desesperados,
Quando havia só injustiça e nenhuma revolta.

E, contudo, sabemos:
Também o ódio contra a baixeza
Distorce a cara.
Também a raiva sobre a injustiça
Torna a voz rouca. Ai nós,
Que quisemos preparar o terreno para a bondade
Não pudemos ser bons.

Vocês, porém, quando chegar o momento
Em que o homem seja do homem um amigo,
Lembram-se de nós
Com indulgência.