Mostrar mensagens com a etiqueta Esquerda. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Esquerda. Mostrar todas as mensagens

2014/12/07

"O gajo que lhes atira mais às trombas"

Esta entrevista de Mário Soares a Clara Ferreira Alves, no Expresso, é um extraordinário testemunho. Merece bem ser lida.


A célebre imagem no arquipélago das Seychelles, em novembro de 1995, numa das últimas viagens de Estado enquanto Presidente da República, por ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Anda nisto, a viagem da vida, há nove décadas - este domingo é dia de aniversário. "Não gosto nada de ter 90 anos." É a máxima queixa física que se lhe ouve. Pergunto-lhe se não está a ficar pessimista com o estado do país, ele que sempre foi um otimista. "Pessimista? Nada! O estado do país é uma infâmia! Mas há de mudar, os portugueses são ótimos!" Digo-lhe que quando ele usa palavras mais violentas ou desbragadas para criticar certos políticos de direita, a reação é acusá-lo de estar muito velho e não saber o que diz. "Um dia também vão ser velhos e não é nada fácil"

Esta conversa à mesa foi escrita antes de rebentar o caso da detenção e suspeitas de corrupção de Sócrates e o seu cortejo de pequenos e grandes escândalos. A conversa vinha a propósito dos 90 anos de Mário Soares, este domingo, e a publicação a 27 de novembro de um livro de escritos políticos do tempo do exílio de Paris, "Cartas e Intervenções Políticas no Exílio". Posteriormente, pedi-lhe que comentasse o caso de Sócrates, quando não se sabiam ainda as acusações ou outras peças processuais senão as das fugas de informação. Mário Soares respondeu: "Não vou por agora dizer mais nada. Disse o que tinha a dizer no 'Diário de Notícias'". Onde escreveu: "O que foi feito a um ex-primeiro-ministro, com enorme aparato lesivo do segredo de Justiça, não pode passar em vão". E, rematando a nossa segunda conversa: "Estou, como calcula, muito maldisposto com tudo isto e extenuado".

Fica irritado quando as pessoas lhe dizem que tomaram elas chegar aos 90 anos assim e que ele está muito bem. "Pois, mas quem tem 90 anos sou eu e não é fácil. Não gosto nada de ter 90 anos". Esta a máxima queixa física que se lhe ouve. Pergunto-lhe se não está a ficar pessimista com o estado do país, ele que sempre foi um otimista. "Pessimista? Nada! O estado do país é uma infâmia! Mas há de mudar, os portugueses são ótimos!" Sempre lhe ouvi esta frase, "os portugueses são ótimos", às vezes transformada em "os nossos jovens são ótimos". Ouvi-a muitas vezes quando fizemos um programa para a RTP chamado "O Caminho Faz-se Caminhando", a frase do poeta espanhol António Machado (da geração de 27) que ele tanto gostava de citar na política quando ainda era um político ativo.

Almoçámos num dos seus restaurantes favoritos, um restaurante popular. Bebe um moscatel como aperitivo enquanto espera, porque chega sempre antes de toda a gente, incrivelmente pontual como foi toda a vida. E, dantes, incrivelmente maldisposto quando os outros não respeitavam a pontualidade. Hoje, está mais calmo em matéria de horários. Escolhe uma costeleta com batata frita e grelos salteados, com uma sopa. "A primeira coisa que vou comer é uma sopa". Há uns anos, lembro-me de um repasto num restaurante fino no Douro, e de outro repasto finíssimo em Espanha, em que a cozinha tendia para o molecular, versão copiada do género inventado por Ferran Adrià. Soares resmungou o tempo todo, suspirando que aquele estilo não era o seu, clamando por um prato vital, cheio, tradicional. Em casa, mandava sempre fazer uns petiscos de que gostava, como pataniscas de bacalhau ou peixinhos da horta.

É por isto que gosta deste restaurante, lá se diz na entrada Comida Tradicional Portuguesa. "A melhor comida do mundo", na opinião dele. Meia garrafa de vinho branco gelado, alentejano, porque eu vou comer garoupa. "Bebemos o que quiser, eu prefiro branco, mas se gosta mais de tinto..." Mete-se com o empregado, "o baiano", "um grande amigo meu", porque os brasileiros lhe lembram um dos seus países queridos, o Brasil. Agarra o braço do "baiano", que é do interior da Baía e já sabe os gostos dele, adianta serviço. "O senhor doutor costuma comer a sopa, vou trazer." "Sopa de rúcula? O que é isso, rúcula? Sopa de rúcula? Nunca ouvi falar! É bom?" Todos o tratam com respeito e com afeto e de outras mesas chegam pessoas a cumprimentá-lo como se o conhecessem de sempre. "Este não conheço de lado nenhum, mas ele parece que me conhece a mim, é natural". O baiano convence-o de que a sopa de rúcula é excelente. "Venha a sopa de rúcula, que raio de nome!"

UMA VIDA CHEIA
Anda nisto, a viagem da vida, há nove décadas. Com muito gosto. Fundador do Partido Socialista. Fundador, ou um dos pais fundadores, da democracia portuguesa nascida da revolução de abril. Foi sempre um europeísta e um internacionalista. E sempre reclamou o título de patriota. "Como é que se pode não ser patriota quando se gosta de Portugal?" Sempre lhe ouvi estas palavras.

Já não viaja tanto como dantes, desde a doença (uma encefalite, infeção aguda do cérebro) e tem pena. Nunca foi a Timor, o único lugar onde se fala português onde não foi. "E agora já não irei". A Fundação Mário Soares alberga um arquivo de Timor. Nem vai já a Paris, para onde viajava todos os outonos. Paris sempre foi a sua cidade, a do exílio, das memórias, das amizades políticas, da cultura francesa, das livrarias donde regressava carregado de sacos, dos jornais e revistas de cujos diretores era amigo (como o do "Nouvel Observateur", Jean Daniel) dos bouquinistes do Sena e dos bons restaurantes e vinhos. De "mon ami Mitterrand". Depois da doença foi lá "por causa de um livro que lá publiquei em francês. E antes disso, fui porque sou presidente de um prémio que atribuímos ao Presidente da República ainda ele não era Presidente, o Hollande. Ele pediu-me para ir entregar-lhe o prémio e eu fui. Estava melhor do que estou hoje. Correu lindamente".

Que avaliação faz do mandato de François Hollande, que é geralmente considerado uma desgraça? "Eu digo o mesmo. Não estou contente com o mandato do Hollande". Obama é o seu favorito, "uma grande figura, aquele Congresso de direita não o deixa governar, são antidemocratas". "O Hollande é um socialista, eu conheci-o no tempo do Mitterrand, ele levava a pasta do Mitterrand". Quando lhe digo que Hollande não foi treinado por Mitterrand, um grande sedutor, para lidar elegantemente com as histórias de mulheres, e que a história de alcova em que se meteu é lamentável e deu cabo dele, Soares acena com a cabeça. "Pode ter dado cabo dele mas também deu cabo dela. Uma mulher furiosa, nada mais". Haveria gente mais interessante para ter ficado com o trono do Partido Socialista? "Havia, a filha do Delors, Martine Aubry. Ativíssima. Não sei se ela é candidata ao que quer que seja, mas é uma socialista autêntica". E Manuel Valls, o primeiro-ministro francês, que sugeriu retirar a palavra Socialista de Partido Socialista? "Uma besta! Não podia continuar como primeiro-ministro. Eu escrevi um artigo nessa altura sobre isso em que dizia que aquele tipo devia ir para a rua imediatamente. Um Presidente que é eleito como socialista e que tem um primeiro-ministro que diz que quer deitar o socialismo fora! Eu demitia-o, evidentemente. É infeto que Hollande o mantenha".

SOCIALISMO DE BOA SAÚDE
Será o socialismo uma relíquia? A verdade é que existe uma crise grave dos partidos socialistas na Europa. "Nem em todos. O futuro é socialista. Porque este estado de coisas, estes regimes em que os tipos de direita fazem tudo o que querem às pessoas, não se pode manter". No caso de Espanha, abre uma exceção de caráter para Mariano Rajoy. "Não acho que seja um vigarista. Pode ser um homem pouco inteligente, se quiser, mas tem a vantagem de ser galego e os galegos são amigos de Portugal". Quando lhe digo que em Espanha o PSOE não tem já um Felipe González, ele responde que não, mas "tem um tipo extraordinário e um grande socialista, o Pedro Sánchez. Tenho a melhor opinião dele". Não acha nada que o socialismo vá acabar, pelo contrário. "O socialismo é fundamental para que a União Europeia continue. A UE foi feita com dois partidos, o Democrata-Cristão e o Socialista. E a União vai continuar". A posição alemã e a intransigência quanto ao défice, com os planos de austeridade, são "coisas que será bom discutir à distância, quando o tempo passar e se vir o resultado. Eu não gostaria de calçar os sapatos da sra. Merkel porque a Alemanha está em decadência. O que se passa na Alemanha é o contrário do crescimento económico". Não estará o capitalismo numa fase diferente, mais avançada, tecnológica, academicamente obscura, do que no tempo em que ele era o chefe do Partido Socialista? O empreendedorismo e a livre iniciativa como inimigos declarados do contrato social? "Não! Você acha que há livre iniciativa num Governo como o português ou o espanhol?" Bom, eu quero dizer com isto iniciativa privada. "Ah! Isso é uma coisa diferente! Ah! Muito diferente! Nada de livre".

Os socialistas ou se reformam ou morrem, é a tese da direita, e não só da direita. "Coitada da direita! É preciso acabar com a direita! É isso. Já lhe disse que quem fez a Europa, a União Europeia, foi o socialismo democrático e a democracia cristã. O que existem agora são partidos que historicamente não fazem sentido".

Quando lhe pergunto qual é que ele acha que é o pior governo da Europa, com exclusão da Hungria, que é um caso que roça a autocracia, ele diz que "o Governo português é muito mau, é péssimo!" Também não modera a crítica ao Presidente da República, que acha irremediavelmente comprometido com o caso BPN. "O Eanes, o Sampaio e eu nunca fomos assim". O Presidente já disse que não haveria eleições antecipadas, ponto final. Ou seja, mais um ano deste Governo? "Se calhar... ele o disse".

Digo-lhe que quando ele usa palavras mais violentas ou desbragadas para criticar certos políticos de direita, a reação é acusá-lo de estar muito velho e não saber o que diz. "Bom, a verdade é que eu estou realmente muito velho!" Muita gente está a ser atacada por delito de velhice e não perceber o mundo em que vivemos hoje. "Já reparei nisso. O ataque aos velhos. Estão no seu direito. Um dia também vão ser velhos e não é nada fácil!"

ORGULHO NA FUNDAÇÃO
Fica enervado quando lhe digo que é atacado por causa da Fundação Mário Soares, que é acusado de ter atacado o Governo quando lhe retiraram parte do subsídio público da Fundação e diz-me que nunca foi nada disso e que a Fundação não depende disso. "Fiz a Fundação com o dinheiro, as doações que me deram para uma campanha eleitoral, e que não usei. Não gastei. Fui [ter com os doadores] para o devolver, está aqui o vosso dinheiro, mas eles não o quiseram de volta porque já estava nas escritas deles. Ora eu não ia ficar com o dinheiro. Disse que ia criar uma Fundação, desde que eles assim o entendessem e ficassem membros fundadores da Fundação. A Fundação nunca gastou esse dinheiro com que se fundou, nunca tocámos nesse dinheiro. Se tivermos amanhã uma dificuldade de dinheiro, esse dinheiro está lá, faz parte da Fundação. A Fundação não depende de nenhum Governo. Agora se quer falar disso a sério, tem de me deixar contar a história toda, não uma parte dela. Estou muito orgulhoso do trabalho da Fundação". Anos atrás, lembro-me de o ouvir dizer que todo o dinheiro que recolhia do intenso trabalho quando se retirou da política, nomeadamente livros e programas de televisão que fez, investiu na Fundação a que chamava "uma amante muito cara". Diz que não se lembra de me dizer isso e que a história da Fundação não pode ser assim contada, num restaurante.

O mau feitio não mudou com os anos e o bom feitio também não. Nunca foi homem de fundos rancores ou ódios. "Nunca tive mau feitio, sempre considerei os tipos com qualidade, mesmo quando não eram meus amigos ou eram meus inimigos no tempo em que eu tinha funções políticas. Qualidade é o que me interessa. O Eanes é um tipo de qualidade, como o Sá Carneiro era". Compara a postura deles com a de um membro do Governo sobre o qual conta uma história pouco exemplar que se passou com ele noutro restaurante. Pergunto-lhe se posso publicar a história com nomes e ele diz que não. "Pode mas não deve. Já tenho demasiadas coisas em cima de mim". Falo-lhe das coisas terríveis que escrevem sobre ele na internet, do falso e difamatório texto com a minha assinatura posto a circular todos os meses (desde há anos) e em que ele é atacado de uma forma soez e canalha. Truques de vingança e propaganda que não existiam no tempo em que ele era político. "A internet? Não leio. Não quero saber. Você quer que eu leia a internet? Nunca me preocupei com o que dizem sobre mim e não vou agora começar. O diz que disse não tem nenhum valor! Todos os dias sou confrontado com senhoras e cavalheiros que me vêm abraçar e dizer 'livre-nos dessa malandragem!' Todos os dias!"

A ENCEFALITE
"Estou numa fase da minha vida que é a última. Vou fazer 90 anos. Tive uma encefalite que me enfraqueceu". Uma infeção geralmente viral a que poucos sobrevivem e muitos menos na idade dele. O que assinala a sua robustez. "Tenho um bom coração, tudo aqui dentro do peito está em ótimas condições, impecável. Agora as pernas... as pernas chateiam-me. Fora as outras coisas". Cada dia é um ato de heroísmo naquela idade? "Não! Felizmente não. Os médicos sabem tomar conta de um tipo, sabem o que fazem. Quem me salvou foi o António Damásio, sou muito amigo dele. Houve duas pessoas que me salvaram, a primeira foi a Maria de Sousa, a que eu chamo 'a sábia' e que por acaso foi a minha casa naquele dia tomar o pequeno-almoço, vinda do Porto. Ela é como se fosse família. Disseram-lhe que eu tinha ido para o hospital e ela foi lá ter a correr. Eu estava em coma e ela entrou em contacto com o Damásio".

Digo-lhe que a família dele, a mulher e os filhos, praticamente acamparam nos cuidados intensivos e nunca o deixaram sozinho, quase me fazendo lembrar as famílias de ciganos que acampam no hospital para nunca abandonarem um dos seus. A lealdade da tribo. "A minha família, claro.

Reconciliei-me agora com a minha filha". Os rumores diziam que ele estava zangado com o filho, João, por causa dos apoios a Seguro e Costa e ele diz: "Fiz as pazes com a minha filha, com quem me tinha zangado por causa de certos cuidados médicos que tenho de ter e o meu filho foi o intermediário. Não estávamos zangados, nunca estive zangado com o João! A relação com a família é ótima, como sempre foi. É a família, e podem dizer de nós o que quiserem".

É extraordinário, dada a intriga e críticas violentas que correm à simples menção do nome Mário Soares, que nesta idade ele ainda seja considerado um inimigo político. "Sou o gajo que lhes atira mais às trombas, que quer você? E não digo mais nada, não quero falar mais de política. Porque sou um cidadão especial". Especial porquê? "Pelos cargos que desempenhei e pelas coisas que fiz. Sou um cidadão livre mas especial. Primeiro, desde os 14 anos que sou político. Segundo, desde sempre escrevi o que quis. E registei tudo aquilo que me disseram. Registei tudo. Tenho tudo escrito desde os meus 14 anos. Se quiser dar-me a honra de visitar a minha biblioteca para ver o que está guardado verá que está lá tudo o que escrevi desde os 14 anos, o que publiquei e não publiquei e tudo o que me responderam e disseram". A biblioteca, que ele arrumou há poucos anos no andar de cima da casa do Campo Grande, comprado para o efeito, é um verdadeiro arquivo da História de Portugal. Visitei-a quando Mário Soares andava a arrumá-la, empoleirado, ordenando temas e datas e mostrando os livros, as primeiras edições, com orgulho. Tem lá o seu escritório com vista para terraço arranjado com plantas pelo amigo Gonçalo Ribeiro Telles. Nunca vi estes registos, estes diários, e pergunto-lhe se não deveriam estar na Fundação Mário Soares ou mesmo, um dia, na Biblioteca Nacional. "Não estão, não estão nem num lado nem noutro. Estão na biblioteca da minha casa. E saiu na quinta-feira [27 de novembro], como sabe, um livro meu com tudo o que escrevi entre 1970 e 1974, esses registos". "Cartas e Intervenções Políticas no Exílio", editado na Temas e Debates pela sua velha amiga e editora Guilhermina Gomes, a diretora editorial. Estes são os anos em que estava em Paris. "Está lá tudo, nestes escritos, porque eu falei com toda a gente. É História. E tenho livros de toda a gente. Tudo o que me escreveram e disseram e tudo o que lhes disse e escrevi está lá". Estas são as verdadeiras 'Memórias', as que se pensava que nunca tinha tido tempo para escrever.

Uma das grandes influências na sua formação política e republicana foi do pai, João Soares. Mas houve outros: "O Mário de Azevedo Gomes, o Hélder Ribeiro, o António Sérgio, talvez tivessem ainda mais importância do que o meu pai. Todos contribuíram". E Álvaro Cunhal? "Numa certa altura, sim, depois deixou de ter e depois tive de o combater. Sou muito diferente do Cunhal". Cunhal era ou não uma grande figura? "Não tão grande como dizem, era um leninista". Entre a gente que conheceu nos verdes anos, e nos maduros, os políticos nacionais e internacionais com quem privou, do amigo Mitterrand ao amigo Willy Brandt, e a gente que vê hoje deslizar pela política, nota uma grande diferença. Tem saudades desse tempo? "Não". Soares nunca quer falar do passado e detesta a nostalgia. O futuro sempre lhe interessou mais. "E assim continuo, o que me importa e interessa é o futuro". Na idade dele, seria de esperar que o futuro lhe importasse menos do que a memória. É uma forma de altruísmo pensar o futuro onde não se vai estar. Soares foi dos primeiros a interessar-se pelo estado do planeta, a sua preservação, e a preservação dos mares como património da Humanidade. No que foi ajudado pelo seu grande amigo, o cientista Mário Ruivo, uma autoridade em oceanos. Foi um ecologista quando ainda não se falava em alterações climáticas ou a ecologia era confundida com manobras comunistas de distração e manipulação. Verde por fora vermelho por dentro era o grito contra a ecologia. "Sempre me preocupei com o planeta, você não imagina o estado em que está este planeta! É fundamental salvar os oceanos e não estamos a fazê-lo, fartei-me de organizar coisas para isso. E o ano passado, com as marés de inverno, o litoral português desapareceu. A areia foi-se e este ano vai ser pior. É preciso impedir esta catástrofe".

E está confiante no futuro? Ou numa mudança política em Portugal? "Dentro de um ano este Presidente deixa de ser importante, o que não é pouco".

Uma das libertações da idade é que ele, que nunca foi paciente, pode dar inteira liberdade à sua impaciência. "Cada vez tenho menos paciência para certas coisas".

ADMIRAÇÃO POR OBAMA
Nesta altura da refeição ele mandaria vir, in illo tempore, um charuto. Ou fumaria, uns anos antes disso, um cigarro. O cigarro nunca pareceu nele um adereço natural. "Nem cigarro nem charuto, agora, e nunca engoli o fumo". Digo que está como o Presidente Bill Clinton, que diz que experimentou marijuana mas nunca engoliu. Mário Soares gosta de Bill Clinton, que conheceu, e da "madame Clinton". "Mas Obama é o meu favorito, sem dúvida. Um tipo de uma categoria excecional". A Administração Obama perdeu esta eleição intercalar. "Ele não perdeu as eleições, foram os democratas que perderam as eleições, o que é um bocado diferente". Regresso às derrotas dos partidos socialistas e sociais-democratas, que parecem nunca se terem recomposto da queda do Muro. "Não existem, ou melhor, não têm existido durante este período, mas vão ter de existir ou a União Europeia vai para o charco". Acha que existe uma hipótese de Marine Le Pen ganhar as presidenciais em França? "Existe, mas espero que não ganhe". Não acha que seja o fim da União Europeia se Le Pen ganhar, e aprecia Jean-Claude Juncker, está convicto de que ele segurará. "Conheço o Juncker muito bem, acho que ele impedirá a União Europeia de se partir". E se o Reino Unido quiser sair? "Oxalá, não tem para onde ir". E a ligação com a América, não será tudo o que precisam? "Os ingleses nunca deixaram que os americanos fizessem parte da Commonwealth, nunca criaram esse espaço como nós fizemos como espaço da lusofonia incluindo o Brasil. E nunca deixaram porque têm medo dos americanos".

O Brasil tem recursos económicos que não temos, e no caso da PT não demonstrou grande solidariedade lusófona. "Os brasileiros têm grandes problemas, estão aflitíssimos. Isso da PT foi tudo uma estupidez. O modo como o Governo resolveu destruir o aparelho do BES prejudicou tudo o resto, não perceberam como o grupo era importante para a economia e deram cabo de tudo. E hoje toda a gente ficou danada, foi tudo mal resolvido. Atiraram tudo abaixo sem nenhuma vantagem para Portugal". Mas os administradores do BES não cometeram demasiados erros e trafulhices? "Claro que cometeram, e toda a gente parece que sabia disso e não se importava".

A situação de Portugal incomoda-o. A venda de ativos e centros de decisão nacionais, a alienação de bens a preços de saldo. "Hoje, Portugal não existe. Se for de Bragança ao Algarve a pé não encontra ninguém. Não há terras cultivadas, populações, vida. Estes gajos estão a destruir o nosso país, estão a vender tudo, só falta a TAP". Inconsciência do Governo? Aperto? Ideologia? "É também inconsciência. Falta de experiência". Atravessamos um momento de algum desespero? "Algum é favor. Desespero mesmo". Há um certo medo que faz recordar o marcelismo, o fim do regime. "O Caetano? O Caetano era outra coisa, não era como estes tipos, pode crer".

Nesta altura, Bagão Félix, que estava a almoçar numa mesa do mesmo restaurante, aproxima-se para cumprimentar "o senhor doutor". E cumprimenta-o pela excelente forma. "Na minha idade nunca se está em grande forma. Tive uma encefalite que me dá grandes lapsos de memória mas o que é interessante é que resisti quando toda a gente dizia que eu ia morrer!" Bagão Félix diz que o pai, com 94 anos, acaba de renovar a carta de condução. "Eu isso não faço, a partir dos 80 anos deixei de beber whisky e bebidas assim, deixei de fumar, deixei de guiar". Mário Soares era um péssimo condutor, há que dizê-lo, e um passageiro apressado e apreciador de velocidade. A mecânica nunca foi o seu forte.

SEM RANCORES
Estamos no fim do repasto, sem doces nem café. Pergunto-lhe se está um bocado amargurado com a pátria, se estas crises lhe roem os anos que lhe restam. "Nada! Não tenho amargura. O que me interessa é o futuro e no futuro o socialismo vai regressar, não tenho nenhuma dúvida. Acha que os bandidos e os mercados não vão mandar nisto para sempre?" Respondo que não me parece tão certo o triunfo do socialismo. Ou dos ecologistas. A China e os EUA, os dois maiores poluidores reunidos em cimeira recente, não vão deixar de poluir o planeta, e a Índia recusa-se a deixar de usar o carvão. Ou seja, o capitalismo nascente e o velho capitalismo americano não estão dispostos a deixar de ganhar dinheiro, como compete ao capitalismo. E a Rússia? "O Putin, ex-KGB, é um filho da mãe, muito diferente de Gorbatchov". E no Médio Oriente "nunca houve tantas guerras como há hoje". Das personagens políticas com as quais se correspondeu e conheceu e de quem foi amigo, destaca François Mitterrand, "um grande intelectual e amigo", Willy Brandt e Helmut Schmidt. "Estes, sim, eram grandes políticos alemães".

Vai continuar a escrever no "Diário de Notícias", mas decidiu que não se mete mais em política. "Já tenho chatices que me cheguem, tenho de cuidar dos livros". Mas que é que lhe podem fazer? Que "chatices" pode vir a ter com os seus inimigos? Digo-lhe, a brincar, que não o podem deportar para São Tomé ou exilar em Paris. "Não, não podem, mas se pudessem neste momento não me dava jeito. Tenho de estar cá, em Portugal".

2013/11/16

Livre

Eu preferia que fosse penalti, mas se é livre é livre. Boa Rui Tavares!


2013/11/10

Nos 100 anos de Cunhal

Imperdível lição de história consistem as entrevistas ao Expresso.

"Olhou ainda o Ceú e Fez-se de Novo à Chuva"


(Retirado de O Castendo.)

2013/03/06

Hugo Chavez (1954-2013)


Vale a pena recordar dados do Banco Mundial (no Ladrões de Bicicletas), e ler este artigo de Ignacio Ramonet e Jean-Luc Mélenchon (no esquerda.net), do qual transcrevo algumas passagens.

Um líder político deve ser valorizado por seus atos, não por rumores veiculados contra ele. Os candidatos fazem promessas para ser eleitos: poucos são aqueles que, uma vez no poder, cumprem tais promessas. Desde o início, a proposta eleitoral de Chávez foi muito clara: trabalhar em benefício dos pobres, ou seja – naquele momento – a maioria dos venezuelanos. E cumpriu sua palavra.

Por isso, este é o momento de recordar o que está verdadeiramente em jogo nesta eleição, agora que o povo venezuelano é convocado a votar. A Venezuela é um país muito rico, pelos fabulosos tesouros de seu subsolo, em particular o petróleo. Mas quase toda essa riqueza estava nas mãos da elite política e das empresas transnacionais. Até 1999, o povo só recebia migalhas. (...)

Na política externa, apostou na integração latino-americana e privilegiou os eixos sul-sul, ao mesmo tempo que impunha aos Estados Unidos uma relação baseada no respeito mútuo… (...)

Tal furacão de mudanças inverteu as estruturas tradicionais do poder e trouxe a refundação de uma sociedade que até então havia sido hierárquica, vertical e elitista. Isso só podia desencadear o ódio das classes dominantes, convencidas de serem donas legítimas do país. (...)

Alguém viu um “regime ditatorial” estender os limites da democracia em vez de restringi-los? E conceder o direito de voto a milhões de pessoas até então excluídas? (...) Chávez demonstrou que é possível construir o socialismo em liberdade e democracia. E ainda converte esse caráter democrático numa condição para o processo de transformação social. (...)

O mais escandaloso, na atual campanha difamatória, é a pretensão de que a liberdade de expressão esteja restrita na Venezuela. A verdade é que o setor privado, contrário a Chávez, controla amplamente os meios de comunicação. (...) De 111 canais de televisão, 61 são privados, 37 comunitários e 13 públicos. Com a particularidade de que a parte da audiência dos canais públicos não passa de 5,4%, enquanto a dos canais privados supera 61%… O mesmo cenário repete-se nos meios radiofónicos. E 80% da imprensa escrita está nas mãos da oposição, sendo que os jornais diários mais influentes – El Universal e El Nacional – são abertamente contrários ao governo.

Nada é perfeito, naturalmente, na Venezuela bolivariana – e onde existe um regime perfeito? Mas nada justifica essas campanhas de mentiras e ódio. A nova Venezuela é a ponta da lança da onda democrática que, na América Latina, varreu os regimes oligárquicos de nove países, logo depois da queda do Muro de Berlim, quando alguns previram o “fim da história” e o “choque de civilizações” como únicos horizontes para a humanidade.

2011/12/24

2011/06/03

O meu voto

Não dou, de forma nenhuma, importância a Miguel Serras Pereira ou João Tunes para, afinal, não votar no Bloco de Esquerda só por causa deles. Também não dou essa importância ao meu amigo Ricardo Santos pois, apesar de lhe ter dito o contrário (e na altura em que lho disse não estava a fazer bluff), e apesar do seu (se calhar incorrigível) sectarismo (e de muitos outros militantes do PCP), vou votar na CDU nestas eleições. Tal justifica-se por votar em Braga, e as sondagens porem em risco a eleição de um deputado com valor, Agostinho Lopes, que, sendo muito próximo de Carlos Carvalhas, representa um setor não tão ortodoxo do PCP. Se votasse, por exemplo, em Coimbra, o sentido do meu voto seria de certeza outro (no Bloco de Esquerda). Se votasse em Lisboa, Porto ou Setúbal, talvez – friso o talvez – fosse outro. Em Braga achei esta solução de compromisso. Não espero muito deste meu voto. Espero que o PCP seja igual ao que sempre foi, e face ao governo que se adivinha eu quero oposição total (e nisso o PCP é bom). Por não esperar nada do PCP, não me apetece castigá-los tanto. Apetece-me castigar todos os partidos de esquerda: o PCP, pois claro, mas mais o Bloco. Pela sua indefinição ideológica, por num dia apoiar um candidato presidencial para no dia seguinte apresentar uma moção de censura: apetece-me castigar quem procede desta forma. Também me apetece castigar o PS, em quem votei nas últimas eleições, por me ter defraudado. E é isto. Muito negros tempos se adivinham; espero que, ao menos, nas próximas eleições legislativas, consiga votar com mais convicção.

2010/11/16

Chegando a Vias de Facto

O meu texto Semântica no Trabalho originou uma discussão interessante no Vias de Facto, que eu vou tentar abordar de forma sintética. A minha ideia era contrapor, ou mesmo refutar, uma tese do Miguel Madeira que me pareceu simplista. Não era apresentar uma tese nova, alternativa. O Miguel Madeira agarrou-se a uma tese que ele pelos vistos julga que eu defendi. Mas não o vi em lado nenhum defender a sua tese inicial, que eu critiquei. Nos comentários ao texto do Miguel, Manuel Resende, tradutor e cultivador de cenouras que eu tive o prazer de conhecer no salão nobre do Hotel de Ville de Paris aqui há uns anos, perora sobre um futuro tecnológico onde desaparecerão os trabalhos desagradáveis como limpar as retretes. Intuo do texto do Manuel que não sou o único a urinar no pomar (no meu caso, da minha avó), mas para um pomar é uma coisa; para cima das cenouras (ou da salsa) é outra. (Eu sei, é o que fazem os animais selvagens, mas adiante.) E defecar, então, nem pensar (eu é que não queria andar num pomar com esse tipo de adubo não compostado). Isto é para dizer ao Manuel que podemos ser muito tecnológicos e dar excelentes aplicações aos nossos detritos: acho tudo isso ótimo. Mas enquanto não descobrirmos alternativas precisaremos sempre de retretes nas nossas casas e teremos que as limpar. O resto é ficção científica, género que nunca me agradou. O cervejista Miguel Serras Pereira (este meu texto é tão palavroso e tem tantos links que até parece um dos dele) pega no comentário do Manuel Resende, num texto onde conclui várias coisas. Conclui (bem) que "a interiorização" de uma moral "seria o perfeito oposto da autonomia quer no plano colectivo, quer no da esfera individual" (as minhas objeções à autonomia irrestrita passam por aqui). E conclui (e eu discordo) que o comunismo "só é concebível em condições de abundância e disponibilidade de recursos rigorosamente ilimitadas". Pelo contrário, eu diria isso do autonomismo: só funcionaria em comunidades muito mais pequenas, com populações que não fossem forçadas a conviver e partilhar recursos quotidianamente, isto é, se houvesse muito menos população e menor consumo de recursos. Disso mesmo se parece ter apercebido o Pedro Viana, que conclui que é necessário "educar para a autonomia e a frugalidade, o que é incompatível com a promoção da dependência e alienação nas actuais sociedades centradas no consumo", mas desde que exista um estado social que "assegure os mínimos". Ora se os mínimos têm de ser assegurados pelo estado é porque dele dependemos, não é? A autonomia e a independência morrem aqui. Por outro lado, concordo inteiramente com o Pedro ser necessário educar ("interiorizar uma moral", diria o Miguel Serras Pereira) para a frugalidade - escrevi isso aqui. A proibição total de publicidade é uma ideia gira, embora algo radical: o que pensaria dela o Luís Rainha? Não consigo discutir com Zé Neves nem com alguém que chame "formulação cretina" à designação "esquerda cervejista". Não por me chamar cretino a mim; com insultos posso eu bem. Mas por chamar cretino ao Odorico Paraguaçu. Não consigo discutir com quem chama cretino ao Odorico: são demasiadas divergências ideológicas.

2010/10/31

Os limites e as confusões do Nuno

Escreve o Nuno Ramos de Almeida: “Um dos princípais passos no sentido de uma emancipação global é recusar os limites do pensável que a ideologia do capitalismo nos impõe. (...) Do meu ponto de vista, o erigir de reformas parciais como o alfa e omega de toda a política significa aceitar esses limites. Um verdadeiro partido socialista deve propor medidas que melhorem a vida das pessoas, mas não pode desistir da ideia de uma transformação radical da sociedade. A sua função principal é tornar essa transformação pensável e, como tal, possível.” Nuno, nem todos os limites nos são impostos pela ideologia capitalista. Posso querer um moto-contínuo ou, mais ainda, uma máquina de produzir energia; posso querer que o calor flua naturalmente dos objetos mais frios para os mais quentes. Mas tal não me serve de nada, pois não os consigo obter. Não consigo obter tais máquinas, mas consigo pensar sobre elas. Como tal, evidentemente é falso que tudo o que seja pensável seja possível. Não é a ideologia capitalista a responsável por nada disto, mas a natureza que, ao contrário do que um teu muito histriónico colega defende, não é nenhuma construção social. E que nos impõe limites, esses sim intransponíveis. No teu “ponto de vista” sobre as reformas parciais, não explicitas de que limites falas: se os naturais, se os impostos pelo capitalismo. Discordo de que aceitar reformas parciais seja aceitar os limites “do capitalismo” (embora concorde que seja aceitar limites não impostos pela natureza, que eu classificaria como éticos). O “socialismo científico” consiste em saber distinguir os diferentes tipos de limites. Pelo teu texto, é um conceito que pelos vistos tu deixaste cair. É pena. Assim, creio que não vais a lado nenhum.

2010/10/30

Se os recursos fossem ilimitados não precisaríamos da esquerda para nada

“Assumindo recursos infinitos, a economia continuará a crescer, em média, com mais ou menos crises pelo meio”, prevê candidamente o Ricardo Schiappa. “Quase todos nós tendemos a encarar a presente crise como uma breve pausa no processo de crescimento”, escreve naturalmente o João Pinto e Castro. Neste caso não me parece que seja isto que ele pensa, mas de qualquer maneira o que me incomoda é o “quase todos nós” que o João familiarmente escreve. “Quase todos nós” achamos que o crescimento não parará. Que é como quem diz que “quase todos nós” achamos que os recursos naturais são inesgotáveis. Estamos aqui a falar do setor primário: sem ele não há comida. Mas mesmo o setor terciário, o das “ideias”, das “oportunidades”, que contribuem para o crescimento económico e em teoria podem ser inesgotáveis, não o é na vida real. Estes “quase todos nós” a que o João Pinto e Castro se refere somos nós, do hemisfério norte, que crescemos e vivemos habituados a uma economia do desperdício. Tal facto é particularmente notório nos EUA, mas também se verifica na Europa. Continuamos a conduzir estupidamente os nossos carros, mesmo em percursos de centenas de metros, mesmo em localidades bem servidas de transportes públicos, como se o petróleo fosse inesgotável e o espaço para circular e estacionar nas cidades fosse infinito (sem falar nos enormes prejuízos ecológicos, de que o aquecimento global é só um exemplo). Continuamos criminosamente a comer jaquinzinhos e petingas, sem nos preocuparmos se no futuro os nossos filhos poderão comer carapaus e sardinhas frescos, capturados no mar. E assim sucessivamente – os exemplos não são poucos. Que as pessoas de direita pensem, erradamente, que os recursos são inesgotáveis, ainda compreendo. O que não consigo entender é que tal passe sequer pela cabeça de pessoas que se digam de esquerda. Marx, provavelmente o primeiro ecologista, apercebeu-se da finitude dos recursos, ou não teria escrito “O Capital”.

2010/08/11

António Dias Lourenço (1915-2010)

É de pessoas assim que o PCP se deve orgulhar. Vale a pena ler o depoimento do Nuno Ramos de Almeida e esta pequena biografia, de que destaco as seguintes partes:

"Sou membro do Comité Central do PCP, mas recuso-me a dizer seja o que for", declarou, quando foi preso pela primeira vez, em 1949, antes de ser espancado a cassetete com a preocupação de manter uma expressão que não fosse de dor, como conta no documentário "O Segredo", de Edgar Feldman.

Na fuga de Peniche, quando viu que o grupo de pescadores com quem seguia queria entregá-lo à polícia, abriu o jogo: "Sou membro do PCP, acabei de fugir do Forte, vocês têm de me ajudar". Eles ajudaram.

Em 1960, é Dias Lourenço quem organiza a fuga de Álvaro Cunhal e de mais dez membros do PCP, num "trabalho meticuloso e sigiloso que durou muitos meses", como o próprio recordou numa entrevista dada em 2004 ao jornal Setúbal em Rede.

Entre 1962 e Abril de 1974, haveria de voltar à prisão onde "não podia inventar nada, porque nem papel tinha para escrever".

Mas Dias Lourenço "ia pensando em tudo, fazendo versos, cantando cá para mim", como recorda numa das muitas vezes que voltou a Peniche para recordar passo a passo a audaciosa fuga de 1954.

"Engendrou tudo sozinho, estudou as marés, avisou que ia partir, destruiu a vedação de uma cela solitária, atirou-se ao mar em pleno Dezembro - quando a polícia chegou ao local, constatou que é preciso gostar muito da liberdade para fugir daquela maneira".

2010/05/29

A esquerda cervejista volta a atacar

Tendo a concordar em parte com Carlos Vidal (uma vez teria que ser): o título “A crise dos poderosos é a festa dos oprimidos” para a “concentração anticapitalista” marcada para amanhã, antes do protesto organizado pela CGTP, é muitíssimo infeliz. Para além de que, como escreve nos comentários o Nuno Ramos de Almeida, ir a uma manifestação para criticar quem a organiza é uma profunda descortesia e falta de consideração. Mas cortesia e consideração são coisas que os setores como os que promovem (ia dizer “organizam”, mas isso é muito pouco anarquista) esta “concentração anticapitalista” não conhecem. Afinal, não nos podemos esquecer de que foram precisamente elementos ligados a setores como aqueles (não estou a falar dos promotores desta concentração em particular, que eu nem sei quem são) que foram à celebração do 1º de Maio de 2009 organizada pela CGTP para atacar Vital Moreira. Para evitar confusões apesar de tudo injustas, se calhar até acaba por ser bom para a CGTP esta demarcação – para demonstrar que uns não têm nada a ver com os outros.
É claro que não posso concordar plenamente com Vidal – afinal, são frequentes os apoios a atos violentos por parte deste artista plástico, entre os quais o ataque a Vital Moreira, que Vidal saudou entusiasticamente. As contradições de Vidal são apontadas por Ricardo Noronha, mas nem creio que mereçam tanta atenção: como o próprio Ricardo Noronha aponta, toda a gente já percebeu que Vidal pertence à “ala psiquiátrica”.
Mais significativo parece-me o apoio entusiástico que no “Vias de Facto” e noutros blogues (como apontou o Ricardo Alves) se dá à tal concentração. Conforme suspeitava aqui, agora confirma-se: o blogue onde escreve Diana Andringa, a jornalista que deu aos caloiros do Técnico o conselho que nunca esqueci (“não bebam nem joguem cartas numa manifestação – dá um mau aspeto do caraças!”) é um arauto da “esquerda festiva” (e que, quando calha, parte umas montras, quando não faz pior). Como irão os (oprimidíssimos) membros do Vias de Facto fazer a festa amanhã à tarde? Não querem que seja feriado? A Diana também vai? Também festeja? Estou morto por saber. E triste por a esquerda chegar a isto.

Também publicado no Esquerda Republicana

2010/05/12

Foi a 24 de Abril

Bandeira do PCP impede funeral (via Um Tal de Blog).

Publicado originalmente no Esquerda Republicana

2010/04/26

A minha política é o trabalho dignificado e com direitos para toda a gente

O que se escreve sobre a “tolerância de ponto” a propósito da visita do Papa em dois conhecidos blogues da esquerda portuguesa?

No Cinco Dias, para o patusco António Figueira “mais um feriado é sempre mais um feriado”. Os outros que trabalhem. Que é como quem também diz: menos um imposto pago é sempre menos um imposto pago (os outros que paguem). E assim por diante. E ainda vem com a inevitável comparação com os feriados religiosos. Os feriados religiosos até poderiam nem ser obrigatórios (é outra discussão) mas, mesmo sendo-o, estão previstos e planeados. Não são uma medida avulsa e casuística. Não afetam a economia por isso. Mas melhor ainda é quando o António deseja que festividades de diversas religiões fossem reconhecidas como feriados e, reconhecendo que este é um país de “caretas” (por sinal o António deve ser o tipo mais bota-de-elástico da blogosfera portuguesa) ameaça… emigrar! Caro António, sugiro que imprimas esta declaração e a vás entregando junto com os pedidos de visto de trabalho, a ver qual país é que te aceita…

Já no Vias de Facto, Miguel Serras Pereira insurge-se contra um grupo do Facebook já aqui mencionado pelo Ricardo Alves: “eu trabalho e não quero tolerância de ponto no dia 13 de Maio”. Não parece preocupar Miguel Serras Pereira que haja trabalhadores (não funcionários públicos) que não tenham direito à tal tolerância. Nem que alguns, precários a recibos verdes, que até podem ser católicos e, legitimamente, gostassem de tirar um dia de férias para irem ver o Papa, não o possam fazer. E não parece preocupá-lo, também, que haja funcionários públicos que queiram trabalhar (será seguramente o que eu vou fazer). Não passa pela cabeça do Miguel Serras Pereira, pelos vistos, que haja quem queira trabalhar, e que fazer um protesto, ou uma greve, nunca é (ou nunca deve ser) sinónimo de dizer-se que não se quer trabalhar. Bem pelo contrário – por isso, e só por isso, é ofensiva a expressão “a minha política é o trabalho”, despropositadamente citada por Miguel Serras Pereira, que troca tudo.
Passemos por cima do que Serras Pereira considera “politicamente desastroso”: “dada a crise que atravessamos, não podemos perder tempo de trabalho” (pelos vistos para Serras Pereira a crise não existe ou, se existe, os outros – não necessariamente os ricos -que a paguem: ele é que não). O autor do Vias de Facto sugere protestos alternativos, “puxando um pouco pela imaginação”. (Sempre a “imaginação” a descredibilizar a esquerda. Pior que a “imaginação” só o “sonho”.) Que protestos seriam? Um “encontro-convívio-jornada de onde saísse a reivindicação de transformar essa data num feriado anual celebrando a "liberdade de consciência" e/ou a "cidadania laica", que, de resto, a Constituição em vigor consagra.” Quererá Serras Pereira um feriado por tudo o que a constituição em vigor consagra? Mas, mesmo pondo esta questão de parte, atentemos no essencial: o Papa visita Portugal (um direito inquestionável, desde que não seja pago pelos nossos impostos). Só os católicos o deveriam receber (e não o Estado). A resposta de quem defende a laicidade deveria ser a indiferença (tornando este um dia normal – de trabalho). Serras Pereira propõe que o país passe a dedicar um feriado anual a esta data? O Papa deveria sentir-se mesmo importante… E propõe que toda a gente celebre este evento… com um “encontro-convívio-jornada”. O saudoso Odorico Paraguassu, na sua sabedoria, chamava à sua oposição “esquerda cervejista”. O Miguel Serras Pereira assume-se como um membro de pleno direito da “esquerda cervejista”. A este ponto chegámos.

Recordo, a propósito, uma ocasião em que assisti a um debate, na Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, onde participou um dos membros do Vias de Facto, Diana Andringa. Aproximavam-se na altura, todos o pressentiam, tempos (que viriam a ser sangrentos para alguns colegas meus) de combate às propinas, no fim do cavaquismo, e Andringa deixou-nos (eu era caloiro) um conselho que eu nunca esqueci até hoje, e que foi mais ou menos assim: “não bebam e nem joguem às cartas nas manifestações – dá um mau aspeto do caraças”. Miguel Serras Pereira, pelos vistos, quer transformar os protestos em “encontros-convívio”, provavelmente com bebida e jogos de cartas. A Diana Andringa que lhe ensine alguma coisa, se conseguir.

E assim vai certa “esquerda”: só serve para pedir mais um feriadinho. A “jornada suplementar pela batalha da produção” em que se tornou o feriado de 10 de Junho de 1975 (numa iniciativa da Intersindical) seria impensável hoje, por muitas razões (a principal das quais a que cada vez menos pertence ao povo o que o povo produz). Mas, mesmo que pertencesse, uma “batalha da produção” como resposta à crise seria impensável para quem “mais um feriado é sempre mais um feriado”. Quem pensa assim, mesmo à luz da doutrina comunista, não produz muito. E também não lhe deveria pertencer muito.

Também publicado no Esquerda Republicana

2010/03/11

Não foi para isto

35 anos se passam sobre uma data que marcou a modernização da economia portuguesa na década de 70. Com efeito, nessa época a regra nos países europeus era as grandes empresas, os principais meios de produção serem considerados estratégicos e estarem nas mãos do estado. A isto acrescentou regalias para os trabalhadores que há quem ainda hoje não aceite, como os subsídios de férias e Natal e o salário mínimo. O que o governo do “terrível revolucionário” Vasco Gonçalves se limitou a fazer foi o mesmo que se fazia na Europa.
35 anos se passaram, e discute-se o PEC. O PEC que tem medidas muito positivas e há muito reivindicadas, como a criação de um novo escalão de IRS para os rendimentos mais altos e a taxação das mais-valias. Também concordo com o fim dos benefícios fiscais anunciados, e não me faz confusão os não-aumentos na função pública e a suspensão de obras públicas como o TGV até melhor data (embora, como afirma o João Vasco, tal medida venha dar razão ao PSD e lance dúvidas sobre se o PS mudou de ideias ou se (e nos) enganou nas contas – qualquer uma delas é má). Mas tais medidas não são suficientes para compensarem tudo o que o governo se prepara para anunciar, nomeadamente um pacote de privatizações de empresas e serviços públicos de que o estado não pode abrir mão, a começar pelos Correios e pela Rede Energética Nacional. Concordo: um governo socialista não privatiza os correios (nem a REN). Os socialistas têm de levantar-se e dizer "BASTA!”
Mesmo nas restantes empresas, e independentemente do que se achar que o Estado deve deter (e eu acho que deve detê-las), como anuncia o Daniel Oliveira, tais privatizações fazem mal ao défice.
Não direi que para mim tal intenção constitui a “gota de água” porque infelizmente representa muito mais do que uma gota (se só quisessem privatizar uma gota, estaríamos nós bem). De qualquer maneira, e uma vez que escrevo sobre política sem nenhum interesse que não seja o de exprimir as minhas opiniões e partilhá-las com os leitores, da mesma forma que anunciei antes das eleições que iria votar no PS, anuncio agora que, a confirmar-se este programa, se houvesse neste momento eleições não votaria no PS. Se o governo levar as privatizações avante, deixa de contar com o meu apoio.

2010/03/10

Os preços planificados do “Pingo Doce”

Continuemos a falar do comércio a retalho, só que desta vez de legumes frescos.
Costumo brincar com os meus amigos economistas, dizendo-lhes que enquanto a física consegue prever com todo o rigor certas grandezas a economia não é capaz de prever sequer o preço do quilo da alface. Bem: não no “Pingo Doce” onde, desde Outubro de 2009 (pelo menos), o kg da alface tem sido sempre a 1,49 €. O mesmo com o espinafre e o tomate: sempre ao mesmo previsível preço.
O rapaz da foto entra-nos todos os dias em casa (para quem vê televisão), a anunciar que, na cadeia de lojas que ele promove, basicamente os preços são fixos, à boa maneira socialista (dizem que Salazar fazia o mesmo, pelo menos com o preço do pão, nem que tivesse que lhe diminuir o tamanho…). Enquanto nas outras lojas os preços flutuam com o mercado, com a lei da oferta e da procura e com as condições climatéricas (algo que, especialmente com um inverno rigoroso como o que temos tido, naturalmente afeta e muito o preço dos legumes frescos), no “Pingo Doce” os preços não aumentam (mas também não diminuem – não variam).
É curioso que os economistas, mais liberais ou mesmo mais keynesianos, gastaram nas duas últimas décadas tanto latim a explicarem-nos os problemas de uma economia planificada, e agora ninguém reclama por o “Pingo Doce” estar a planificar a economia (fixar preços é típico de uma economia planificada, e não de uma economia livre).
Dir-me-ão que o “Pingo Doce” é uma empresa privada, que pode vender os produtos aos preços que quiser numa economia livre, enquanto o estado fixar os preços é diferente. Mas será assim tão diferente? Terão os produtores liberdade de negociar livremente com o “Pingo Doce” o preço das suas colheitas? Não estou de modo nenhum a acusar o “Pingo Doce” de nada, mas sei que muitas vezes os grandes retalhistas exercem pressões enormes sobre os produtores, sendo que em muitas localidades detêm praticamente o monopólio. Os produtores têm que aceitar os preços que os grandes retalhistas oferecem; não têm escolha. Não sei se é esta a situação do “Pingo Doce” (repito – não estou a acusar ninguém), e pode ocorrer com outros retalhistas, hipermercados ou não. Sei é que esta situação hipotética não é a de uma economia livre.
Mas admitamos que nada disto se passa: o “Pingo Doce” é uma marca séria, e decidiu manter um compromisso com os clientes. Mesmo que a intenção do “Pingo Doce” não seja essa, a verdade é que todos aqueles anúncios são uma exaltação das virtudes da economia planificada como há muito não se via (e espanta-me, falo a sério, que nenhum economista comente este assunto). Ao ver aquele rapaz rechonchudo a repetir que “só o “Pingo Doce” respeita o seu dinheiro” por não variar os preços, questionamo-nos se não seria melhor que fosse assim com tudo. As lojas todas, todo o comércio. Não só o “Pingo Doce”. Desde que não houvesse esmagamento dos produtores. Se há pressões sobre os produtores, é intolerável; se não há, afinal a economia planificada funciona! Não é assim? Não consta que o “Pingo Doce” dê prejuízo!
Sim, e o rapaz é rechonchudo. Só num anúncio, o “Pingo Doce” reabilita a planificação da economia e os gordos para a publicidade. Quer-me parecer que o “Pingo Doce” está a tentar atrair clientes de esquerda.

Também publicado no Esquerda Republicana

2010/01/08

Resumo do dia


Bom resumo no Jugular (a quem roubei a ilustração): um passo importante na luta pelo fim da discriminação (mas a luta continua). Por outro lado, tenho saudades do tempo em que havia uma ministra da educação (e não eram os sindicatos a mandar no ministério).

2010/01/03

Fuga para a vitória


A sensacional fuga do forte de Peniche por parte de Álvaro Cunhal e outros dirigentes comunistas faz hoje 50 anos. A ler a evocação no Diário de Notícias de hoje (inclui também uma entrevista a Eugénia Cunhal). Tal como eu, o jornalista sonha com o dia em que este episódio passe ao grande ecrã. Através de um estúdio de Hollywood? Não me admiraria nada.

2010/01/01

Se os recursos fossem ilimitados, não precisaríamos da esquerda para nada

“Assumindo recursos infinitos, a economia continuará a crescer, em média, com mais ou menos crises pelo meio”, prevê candidamente o Ricardo Schiappa. “Quase todos nós tendemos a encarar a presente crise como uma breve pausa no processo de crescimento”, escreve naturalmente o João Pinto e Castro. Neste caso não me parece que seja isto que ele pensa, mas de qualquer maneira o que me incomoda é o “quase todos nós” que o João familiarmente escreve. “Quase todos nós” achamos que o crescimento não parará. Que é como quem diz que “quase todos nós” achamos que os recursos naturais são inesgotáveis. Estamos aqui a falar do setor primário: sem ele não há comida. Mas mesmo o setor terciário, o das “ideias”, das “oportunidades”, que contribuem para o crescimento económico e em teoria podem ser inesgotáveis, não o é na vida real.
Estes “quase todos nós” a que o João Pinto e Castro se refere somos nós, do hemisfério norte, que crescemos e vivemos habituados a uma economia do desperdício. Tal facto é particularmente notório nos EUA, mas também se verifica na Europa. Continuamos a conduzir estupidamente os nossos carros, mesmo em percursos de centenas de metros, mesmo em localidades bem servidas de transportes públicos, como se o petróleo fosse inesgotável e o espaço para circular e estacionar nas cidades fosse infinito (sem falar nos enormes prejuízos ecológicos, de que o aquecimento global é só um exemplo). Continuamos criminosamente a comer jaquinzinhos e petingas, sem nos preocuparmos se no futuro os nossos filhos poderão comer carapaus e sardinhas frescos, capturados no mar. E assim sucessivamente – os exemplos não são poucos.
Que as pessoas de direita pensem, erradamente, que os recursos são inesgotáveis, ainda compreendo. O que não consigo entender é que tal passe sequer pela cabeça de pessoas que se digam de esquerda. Marx, provavelmente o primeiro ecologista, apercebeu-se da finitude dos recursos, ou não teria escrito “O Capital”.

2009/12/04

Parabéns, Tiago!

Hoje à noite lá estarei.