Mostrar mensagens com a etiqueta Médio Oriente. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Médio Oriente. Mostrar todas as mensagens
2014/07/04
2010/08/17
Na sequência do desenho de André Carrilho
Um vídeo notável de Norman Finkelstein via Renato Teixeira. A ver com atenção.
2010/08/16
A evolução das espécies
Desenho de André Carrilho publicado a 01-08-2010 no Diário de Notícias.
A impunidade de Israel explica-se pelas reações como as que assistimos a propósito desta desenho. Israel (e a "comunidade israelita") ou não se apercebem ou fingem não se aperceber do mal que causam aos outros (os palestinianos). E têm a desfaçatez de falarem em nome de "toda a gente": "toda a gente" terá ficado indignada com este desenho, segundo o sr. Carp (exceto os anti-semitas, claro). Olhe, sr. Carp: eu não fiquei. O que me indigna, e o que deveria indignar "toda a gente", é o tratamento diariamente inflingido por Israel ao povo palestiniano.
A impunidade de Israel explica-se pelas reações como as que assistimos a propósito desta desenho. Israel (e a "comunidade israelita") ou não se apercebem ou fingem não se aperceber do mal que causam aos outros (os palestinianos). E têm a desfaçatez de falarem em nome de "toda a gente": "toda a gente" terá ficado indignada com este desenho, segundo o sr. Carp (exceto os anti-semitas, claro). Olhe, sr. Carp: eu não fiquei. O que me indigna, e o que deveria indignar "toda a gente", é o tratamento diariamente inflingido por Israel ao povo palestiniano.
2010/06/04
Israel: traçar uma linha
Embora fosse sempre de uma brutalidade descabida, o ataque desta segunda feira até teria legitimidade se fosse perpetrado em águas de Israel. Mas foi-o em águas internacionais (e mesmo que fosse nas águas de Gaza, estas pertencem à Autoridade Palestiniana, sujeita a um bloqueio ilegal por parte de Israel). O governo israelita mostrou toda a sua crueldade, e mostrou também que não tem limites na sua atuação. Age sempre em total impunidade. Talvez isso esteja finalmente para acabar.
Se os atentados de 11 de Setembro de 2001 permitiram traçar uma linha entre os antiamericanos primários, para quem tudo vale desde que seja contra os EUA, e o resto das pessoas, proporcionando uma (creio que saudável) demarcação, o ataque ao navio turco permite fazer o mesmo em relação aos apoiantes incondicionais de Israel. Quem apoiar, entender, justificar uma atitude destas deixou de distinguir o bem do mal. Está totalmente cego pelo ódio. É isso que se passa com o governo israelita e, receio, com uma boa parte do povo que o elegeu. É isso que os torna perigosos para o mundo.
A diferença (bastante significativa, porém) entre os antiamericanos lunáticos e os pró-israelitas igualmente lunáticos é que nenhum dos primeiros pode escrever um pequeno naco de prosa como este e ser levado a sério. Os segundos podem. Podem repetir esta chantagem até à náusea porque ela até hoje, podem crer, faz efeito.
Dada a crueldade do mais recente ato de Israel, condenado mesmo por muitos dos seus tradicionais apoiantes (que felizmente não perderam totalmente a capacidade de discernimento), pode ser que essa velha chantagem deixe de fazer efeito. E pode ser que, graças a isso, Israel possa finalmente ser tratado como os outros países.
Adenda: o Arrastão tem coligido documentos interessantes. Destaco este muito interessante texto do Bruno Sena Martins.
Também publicado no Esquerda Republicana
Se os atentados de 11 de Setembro de 2001 permitiram traçar uma linha entre os antiamericanos primários, para quem tudo vale desde que seja contra os EUA, e o resto das pessoas, proporcionando uma (creio que saudável) demarcação, o ataque ao navio turco permite fazer o mesmo em relação aos apoiantes incondicionais de Israel. Quem apoiar, entender, justificar uma atitude destas deixou de distinguir o bem do mal. Está totalmente cego pelo ódio. É isso que se passa com o governo israelita e, receio, com uma boa parte do povo que o elegeu. É isso que os torna perigosos para o mundo.
A diferença (bastante significativa, porém) entre os antiamericanos lunáticos e os pró-israelitas igualmente lunáticos é que nenhum dos primeiros pode escrever um pequeno naco de prosa como este e ser levado a sério. Os segundos podem. Podem repetir esta chantagem até à náusea porque ela até hoje, podem crer, faz efeito.
Dada a crueldade do mais recente ato de Israel, condenado mesmo por muitos dos seus tradicionais apoiantes (que felizmente não perderam totalmente a capacidade de discernimento), pode ser que essa velha chantagem deixe de fazer efeito. E pode ser que, graças a isso, Israel possa finalmente ser tratado como os outros países.
Adenda: o Arrastão tem coligido documentos interessantes. Destaco este muito interessante texto do Bruno Sena Martins.
Também publicado no Esquerda Republicana
2009/02/13
"Israel ainda pode vir a ser a terra do comunismo"
Um pouco de esperança, apesar dos desoladores resultados das eleições legislativas. Apontamentos interessantes, nomeadamente: um israelita que tenha sido contra a guerra de Gaza não tem muito por onde escolher. Entrevista publicada no Público.
Ele acredita em Mandela, Marx e Moisés
06.02.2009, Alexandra Lucas Coelho, em Telavive
Israel ainda pode vir a ser a terra do comunismo, segundo Dov Hanin. Sim, o comunismo falhou no século XX, mas a lição a tirar não é o capitalismo. Israel nunca esteve tão à direita. Em quem pode votar quem não apoiou a guerra? Num comunista. 85 por cento dos jovens de Telavive queriam-no para presidente da câmara
É uma espécie de senha. Pergunta-se a um israelita jovem, secular, cosmopolita, de esquerda, em quem vai votar e ele responde: Dov Hanin. Pergunta-se a outro - e outro - e outro, quem há de interessante na política israelita, e a resposta é: Dov Hanin.
A quatro dias das eleições, Israel está mais à direita que nunca nas sondagens. O líder da extrema-direita, Avigdor Lieberman, sobe, vai em terceiro lugar à frente dos trabalhistas, e Bibi Netanyahu já disse que, se for mesmo primeiro-ministro, lhe dá um ministério "importante".
A esquerda sente-se deprimida. Os políticos não o dirão, mas nas famílias de esquerda as conversas vão desde votar em Tzipi Livni para derrotar Netanyahu até sair do país. O centro-esquerda tem a opção de votar nos moderados do Meretz, mas isso é para quem apoiou a guerra de Gaza.
Em quem podem votar os israelitas que não apoiaram a guerra de Gaza? Em Dov Hanin.
O mais espantoso - num país tão consumista e americanizado como Israel - é que Dov Hanin é um comunista. Não um ex-comunista, um comunista-comunista.
Mas há três meses, quando se candidatou à Câmara de Telavive, as últimas sondagens deram-lhe nada menos que 85 por cento dos votos na faixa abaixo dos 35 anos - ou seja, a esmagadora maioria da juventude.
Foi com esses votos que Hanin acabou por ter uns notáveis 35 por cento do total dos votos, correndo contra o presidente da câmara, que se recandidatava com o apoio de todos os partidos, incluindo os religiosos.
Esta rara campanha - um comunista de um lado, todos os outros unidos do outro, e o comunista leva mais de um terço - foi "uma manifestação clara" de que há algo de novo na sociedade israelita, resume Dov Hanin, sentado num dos muitos cafés acolhedores de Telavive.
Uma hora depois, despede-se a dizer: "Ainda não verá a nova esquerda nestas eleições. Provavelmente, vai vê-la nas próximas."
Verdes e voluntários
Pai de três filhos, neto de rabinos da Bielorrússia, este advogado de 50 anos tem uma boa amostra do país na sua própria família alargada, "aí umas 150 pessoas", que discutem intensamente. Desde a direita do Likud ao próprio Dov, passando pelos partidos religiosos, há votantes para tudo - menos Lieberman.
A conversa começa com Hanin a oferecer um caderninho reciclado, que no verso é um bloco e no reverso é campanha. "As pessoas podem usá-lo." A mensagem é: não gastar dinheiro em coisas inúteis, até porque não o têm.
"Fizemos a campanha da câmara com o entusiasmo dos jovens. No dia das eleições, tínhamos 2500 voluntários por toda a cidade. Andar por Telavive era uma espécie de revolução. Éramos os únicos na rua. Não tínhamos dinheiro para grandes cartazes, então só fizemos uns anúncios que as pessoas podiam pôr nas varandas, e 3000 varandas em Telavive puseram-nos. Foi espantoso." Cada anúncio, diz, custou "menos de dois dólares".
Entretanto, as mesmas sondagens que lhe davam 85 por cento na faixa "menos de 35 anos" davam-lhe apenas 15 na faixa "acima de 50". "Ensinei Direito e Ciência Política e não conheço paralelo de uma divisão tão grande entre novos e velhos."
Os novos serão os menos ideológicos. Têm menos memória da guerra fria e do comunismo. O que é que Dov Hanin e o seu partido Hadash - que junta árabes e judeus - têm que os atraia?
"Há uma linha em Israel, que é a política de poder. Muita gente acredita nela, até as 'pombas' do Meretz, que apoiaram a guerra de Gaza. Mas quando se usa o poder encontra-se resistência, e usa-se mais poder, e há mais resistência, e do sangue vem mais violência. Esta é a História de Israel." E qual é a alternativa? "Não nos construírmos como uma fortaleza, mas como um lugar que procura uma relação neutra com o mundo árabe."
Dov Hanin não é sionista. Explica o seu não-sionismo assim: "Uma pessoa está a afogar-se no mar. Tem o direito de trepar para cima de um pedaço de madeira com uma pessoa lá em cima? A minha resposta é: sim, absolutamente. Mas tem o direito de deitar ao mar a outra pessoa? A minha resposta é: não, absolutamente. Essa é a diferença entre mim e um sionista."
Não questiona a fundação de Israel: "Os judeus foram vítimas de uma tragédia imensa no século XX. Têm o direito de se autodeterminar. O que não têm é o direito de discriminar os árabes. Portanto, se Estado judaico quer dizer autodeterminação, sim, se quer dizer discriminação nacional, não."
Há quem pense assim e defenda a solução de um único Estado, binacional, com judeus e palestinianos. Mas Hanin acredita em dois Estados. "Esta terra desenvolveu-se historicamente de forma diferente, e é a vontade destas duas nações viver separadamente."
Se fosse primeiro-ministro, "Jerusalém seria dividida em duas capitais". E quanto ao direito de retorno de quase dois milhões de palestinianos refugiados no Líbano, Jordânia e Síria? "Primeiro, reconhecer que têm esse direito. E depois a sua implementação prática tem que ser negociada entre as duas partes."
Estaria disposto a retirar centenas de milhares de colonos da Cisjordânia e Jerusalém-Leste? É possível? "É. Israel aborveu mais de um milhão de pessoas da ex-União Soviética, e muitos nem falavam hebraico. Os colonos ao menos falam hebraico."
Qualquer judeu tem o direito de vir para Israel. É o que se chama fazer aliyah. Dov Hanin manteria isto? "Israel deve continuar aberto a todos os judeus perseguidos por serem judeus."
Corrigir o século XX
Hanin sabe que a sua popularidade não vem de ser comunista, pelo contrário. Há quem o escolha apesar dele ser comunista e há quem o escolheria se ele não fosse um comunista.
"Como é possível votar num comunista em 2009?" é a pergunta de muitos israelitas de esquerda, que até acham Hanin "um homem bom", ou um "homem decente".
"Para mim, o comunismo é a tentativa radical de mudar o mundo", diz Hanin, para começo de resposta. "Vai dizer-me que já foi tentado, e tem razão. Essa tentativa falhou, e foram cometidos vários erros e crimes. O estalinismo foi um erro e criou muitos crimes. O estalinismo foi o maior desastre do comunismo. Muita gente concluiu que a única alternativa era o capitalismo e eu não aceito isso. A verdadeira lição é aprender com o que aconteceu no século XX. Não quero repetir esses erros."
Então, além do conflito israelo-palestiniano, que faria Hanin se fosse primeiro-ministro? "Libertava mais esferas da dominância do mercado. Um sistema em que cada cidadão tivesse direito a segurança social, saúde e educação financiadas pelo Estado." E nacionalizava bancos. "Há dois ou três anos as pessoas achariam isto perigoso, e veja-se o que aconteceu na América e em Inglaterra." A crise mundial, diz, "foi um sinal de como o capitalismo podia falhar".
Defender tudo isto tem um preço: "Agitaram bandeiras a chamar-me anti-sionista e apoiante dos refuseniks, por eu ter sido advogado de refuseniks." Como a esmagadora maioria dos israelitas, Hanin fez o serviço militar (entre 1976 e 1979, uma fase calma), mas recusou servir nos territórios palestinianos. Aqueles que recusam o próprio serviço militar são muito poucos e muito mal-vistos. "O Exército é a instituição mais forte de Israel", resume Hanin.
Exemplo de uma sociedade próxima do seu ideal? Pensa e não acha. "Há exemplos que podemos tirar de uma e de outra." Quais? "A segurança social da Escandinávia. O sistema de saúde em Cuba." Fica por aqui. O que ia buscar à América? "A cultura pop, o movimento antiguerra do Vietname, Martin Luther King." Obama? "Tem potencial. Espero que tenha a coragem de fazer o necessário."
Exemplos de líderes? "Nelson Mandela", responde de imediato. "Um líder da mudança, de uma mudança muito complicada, um homem sensato." Mais? "Karl Marx, claro. O maior pensador de todos, na capacidade de analisar a sociedade." Quando a crise rebentou, muito se disse que Keynes estava actual. "Keynes é um reformador, mas Marx está mais vivo que nunca. O que não terá chorado ou rido nesta crise..." E finalmente? "Moisés, o líder dos escravos, aquele que os levou da escravatura egípcia para o deserto, e nessa viagem longa fez deles um povo muito interessante. Foi um libertador. Pode perguntar-me: acha que Moisés existiu? Não importa. Vive na memória e na tradição das pessoas."
Essas pessoas são Israel, e o que Hanin gostava era que "Israel fosse o lugar de uma ideia para outras sociedades".
Ele acredita em Mandela, Marx e Moisés
06.02.2009, Alexandra Lucas Coelho, em Telavive
Israel ainda pode vir a ser a terra do comunismo, segundo Dov Hanin. Sim, o comunismo falhou no século XX, mas a lição a tirar não é o capitalismo. Israel nunca esteve tão à direita. Em quem pode votar quem não apoiou a guerra? Num comunista. 85 por cento dos jovens de Telavive queriam-no para presidente da câmara
É uma espécie de senha. Pergunta-se a um israelita jovem, secular, cosmopolita, de esquerda, em quem vai votar e ele responde: Dov Hanin. Pergunta-se a outro - e outro - e outro, quem há de interessante na política israelita, e a resposta é: Dov Hanin.
A quatro dias das eleições, Israel está mais à direita que nunca nas sondagens. O líder da extrema-direita, Avigdor Lieberman, sobe, vai em terceiro lugar à frente dos trabalhistas, e Bibi Netanyahu já disse que, se for mesmo primeiro-ministro, lhe dá um ministério "importante".
A esquerda sente-se deprimida. Os políticos não o dirão, mas nas famílias de esquerda as conversas vão desde votar em Tzipi Livni para derrotar Netanyahu até sair do país. O centro-esquerda tem a opção de votar nos moderados do Meretz, mas isso é para quem apoiou a guerra de Gaza.
Em quem podem votar os israelitas que não apoiaram a guerra de Gaza? Em Dov Hanin.
O mais espantoso - num país tão consumista e americanizado como Israel - é que Dov Hanin é um comunista. Não um ex-comunista, um comunista-comunista.
Mas há três meses, quando se candidatou à Câmara de Telavive, as últimas sondagens deram-lhe nada menos que 85 por cento dos votos na faixa abaixo dos 35 anos - ou seja, a esmagadora maioria da juventude.
Foi com esses votos que Hanin acabou por ter uns notáveis 35 por cento do total dos votos, correndo contra o presidente da câmara, que se recandidatava com o apoio de todos os partidos, incluindo os religiosos.
Esta rara campanha - um comunista de um lado, todos os outros unidos do outro, e o comunista leva mais de um terço - foi "uma manifestação clara" de que há algo de novo na sociedade israelita, resume Dov Hanin, sentado num dos muitos cafés acolhedores de Telavive.
Uma hora depois, despede-se a dizer: "Ainda não verá a nova esquerda nestas eleições. Provavelmente, vai vê-la nas próximas."
Verdes e voluntários
Pai de três filhos, neto de rabinos da Bielorrússia, este advogado de 50 anos tem uma boa amostra do país na sua própria família alargada, "aí umas 150 pessoas", que discutem intensamente. Desde a direita do Likud ao próprio Dov, passando pelos partidos religiosos, há votantes para tudo - menos Lieberman.
A conversa começa com Hanin a oferecer um caderninho reciclado, que no verso é um bloco e no reverso é campanha. "As pessoas podem usá-lo." A mensagem é: não gastar dinheiro em coisas inúteis, até porque não o têm.
"Fizemos a campanha da câmara com o entusiasmo dos jovens. No dia das eleições, tínhamos 2500 voluntários por toda a cidade. Andar por Telavive era uma espécie de revolução. Éramos os únicos na rua. Não tínhamos dinheiro para grandes cartazes, então só fizemos uns anúncios que as pessoas podiam pôr nas varandas, e 3000 varandas em Telavive puseram-nos. Foi espantoso." Cada anúncio, diz, custou "menos de dois dólares".
Entretanto, as mesmas sondagens que lhe davam 85 por cento na faixa "menos de 35 anos" davam-lhe apenas 15 na faixa "acima de 50". "Ensinei Direito e Ciência Política e não conheço paralelo de uma divisão tão grande entre novos e velhos."
Os novos serão os menos ideológicos. Têm menos memória da guerra fria e do comunismo. O que é que Dov Hanin e o seu partido Hadash - que junta árabes e judeus - têm que os atraia?
"Há uma linha em Israel, que é a política de poder. Muita gente acredita nela, até as 'pombas' do Meretz, que apoiaram a guerra de Gaza. Mas quando se usa o poder encontra-se resistência, e usa-se mais poder, e há mais resistência, e do sangue vem mais violência. Esta é a História de Israel." E qual é a alternativa? "Não nos construírmos como uma fortaleza, mas como um lugar que procura uma relação neutra com o mundo árabe."
Dov Hanin não é sionista. Explica o seu não-sionismo assim: "Uma pessoa está a afogar-se no mar. Tem o direito de trepar para cima de um pedaço de madeira com uma pessoa lá em cima? A minha resposta é: sim, absolutamente. Mas tem o direito de deitar ao mar a outra pessoa? A minha resposta é: não, absolutamente. Essa é a diferença entre mim e um sionista."
Não questiona a fundação de Israel: "Os judeus foram vítimas de uma tragédia imensa no século XX. Têm o direito de se autodeterminar. O que não têm é o direito de discriminar os árabes. Portanto, se Estado judaico quer dizer autodeterminação, sim, se quer dizer discriminação nacional, não."
Há quem pense assim e defenda a solução de um único Estado, binacional, com judeus e palestinianos. Mas Hanin acredita em dois Estados. "Esta terra desenvolveu-se historicamente de forma diferente, e é a vontade destas duas nações viver separadamente."
Se fosse primeiro-ministro, "Jerusalém seria dividida em duas capitais". E quanto ao direito de retorno de quase dois milhões de palestinianos refugiados no Líbano, Jordânia e Síria? "Primeiro, reconhecer que têm esse direito. E depois a sua implementação prática tem que ser negociada entre as duas partes."
Estaria disposto a retirar centenas de milhares de colonos da Cisjordânia e Jerusalém-Leste? É possível? "É. Israel aborveu mais de um milhão de pessoas da ex-União Soviética, e muitos nem falavam hebraico. Os colonos ao menos falam hebraico."
Qualquer judeu tem o direito de vir para Israel. É o que se chama fazer aliyah. Dov Hanin manteria isto? "Israel deve continuar aberto a todos os judeus perseguidos por serem judeus."
Corrigir o século XX
Hanin sabe que a sua popularidade não vem de ser comunista, pelo contrário. Há quem o escolha apesar dele ser comunista e há quem o escolheria se ele não fosse um comunista.
"Como é possível votar num comunista em 2009?" é a pergunta de muitos israelitas de esquerda, que até acham Hanin "um homem bom", ou um "homem decente".
"Para mim, o comunismo é a tentativa radical de mudar o mundo", diz Hanin, para começo de resposta. "Vai dizer-me que já foi tentado, e tem razão. Essa tentativa falhou, e foram cometidos vários erros e crimes. O estalinismo foi um erro e criou muitos crimes. O estalinismo foi o maior desastre do comunismo. Muita gente concluiu que a única alternativa era o capitalismo e eu não aceito isso. A verdadeira lição é aprender com o que aconteceu no século XX. Não quero repetir esses erros."
Então, além do conflito israelo-palestiniano, que faria Hanin se fosse primeiro-ministro? "Libertava mais esferas da dominância do mercado. Um sistema em que cada cidadão tivesse direito a segurança social, saúde e educação financiadas pelo Estado." E nacionalizava bancos. "Há dois ou três anos as pessoas achariam isto perigoso, e veja-se o que aconteceu na América e em Inglaterra." A crise mundial, diz, "foi um sinal de como o capitalismo podia falhar".
Defender tudo isto tem um preço: "Agitaram bandeiras a chamar-me anti-sionista e apoiante dos refuseniks, por eu ter sido advogado de refuseniks." Como a esmagadora maioria dos israelitas, Hanin fez o serviço militar (entre 1976 e 1979, uma fase calma), mas recusou servir nos territórios palestinianos. Aqueles que recusam o próprio serviço militar são muito poucos e muito mal-vistos. "O Exército é a instituição mais forte de Israel", resume Hanin.
Exemplo de uma sociedade próxima do seu ideal? Pensa e não acha. "Há exemplos que podemos tirar de uma e de outra." Quais? "A segurança social da Escandinávia. O sistema de saúde em Cuba." Fica por aqui. O que ia buscar à América? "A cultura pop, o movimento antiguerra do Vietname, Martin Luther King." Obama? "Tem potencial. Espero que tenha a coragem de fazer o necessário."
Exemplos de líderes? "Nelson Mandela", responde de imediato. "Um líder da mudança, de uma mudança muito complicada, um homem sensato." Mais? "Karl Marx, claro. O maior pensador de todos, na capacidade de analisar a sociedade." Quando a crise rebentou, muito se disse que Keynes estava actual. "Keynes é um reformador, mas Marx está mais vivo que nunca. O que não terá chorado ou rido nesta crise..." E finalmente? "Moisés, o líder dos escravos, aquele que os levou da escravatura egípcia para o deserto, e nessa viagem longa fez deles um povo muito interessante. Foi um libertador. Pode perguntar-me: acha que Moisés existiu? Não importa. Vive na memória e na tradição das pessoas."
Essas pessoas são Israel, e o que Hanin gostava era que "Israel fosse o lugar de uma ideia para outras sociedades".
2009/02/11
"A ascensão da extrema-direita em Israel é alarmante"
A propósito das eleições em Israel, vale a pena recordar uma entrevista de Tom Segev a Alexandra Lucas Coelho no Público. Destaco:
Tom Segev, 64 anos, é um dos mais relevantes e traduzidos historiadores israelitas. Publicou “One Palestine Complete”, “The Seventh Million”, “Elvis in Jerusalem” e “1967”. Acabou de escrever uma biografia de Simon Wiesenthal, o “caçador” de nazis. Esta entrevista foi feita na sua casa de Jerusalém, cheia de livros e com uma velha primeira página de jornal emoldurada. É do dia em que o Estado de Israel foi declarado.
Entre os israelitas, esta guerra parece ter sido a mais popular em anos. É verdade?
Foi definitivamente mais popular que a anterior do Líbano, que não correu bem.
Há quem fale em euforia.
Não foi euforia, mas as pessoas dizem que algo tinha que ser feito contra o Hamas. Temos esta tradição de acreditar que determinamos a política palestiniana bombardeando o Hamas, ou quem não gostamos. E convencemo-nos de que é só uma organização terrorista. Mas é também um movimento político e religioso genuíno.
A tentativa de ditar aos palestinianos os seus líderes não resulta. Estão a disparar rockets até hoje.
O que é que a satisfação quanto à guerra revela sobre o estado da sociedade israelita?
Primeiro, nenhum país pode viver com rockets nas suas cidades. Netanyahu continua a dizer às televisões do mundo, consoante de onde vêem: “Imagine que isto acontecia em Lisboa...”
Com a diferença de que Lisboa não ocupa Espanha.
Mas é verdade que não é possível viver com rockets, sobretudo antes de eleições. Portanto, por várias razões, a sociedade israelita moveu-se para a direita – para a extrema-direita.
Agora temos um partido de extrema-direita muito forte [Yisrael Beytenu, dirigido por Avigdor Lieberman, em terceiro nas sondagens, à frente dos trabalhistas]. É o nosso Haider. O ódio racista agora é legítimo, ele está a legitimá-lo. E não é dirigido contra os palestinianos nos territórios, pior, é dirigido contra palestinianos que são cidadãos israelitas. É xenófobo, é racista. Este é o tipo de partido por causa do qual Israel chamou o seu embaixador na Áustria, quando Haider teve 25 por cento dos votos.
Porque é que é forte? Porque há um sentimento de desespero quanto à paz. A maior parte dos israelitas já não acredita na paz. Dêem-lhes paz, eles ficarão felizes, mas já não acreditam nisso.
Isto é fúria, mas também há um elemento de vingança.
Tendo em conta que não há hipótese de paz, que os palestinianos continuam a disparar rockets, que os governos anteriores falharam, primeiro com a guerra no Líbano, depois com toda a corrupção de Olmert – e este corrupto Olmert, que toda a gente odeia, vem com estranhas declarações sobre como devíamos devolver os territórios –, as pessoas moveram-se para o outro lado. Acho que é natural.
E não nos devemos enganar. Não são só pessoas vindas da Rússia. São também israelitas nascidos aqui. Portanto, ele [Lieberman] está a trazer ao de cima o pior que temos.
Geralmente diz-se que não há nenhuma sociedade democrática sem cerca de cinco por cento de fascistas. Mas este partido é muito mais forte. Acho isso alarmante.
O psiquiatra palestiniano Eyad Sarraj diz que a sociedade israelita está doente.
Não é como se o Hamas fosse um movimento liberal, democrático, aberto... O melhor que se pode dizer é que temos duas sociedades doentes, aqui. O Hamas é apoiado por uma maioria de pessoas em Gaza – porque é que apoiam uma organização tão horrível? Para mim, qualquer sociedade que se desloque em números maciços para a extrema-direita está de alguma forma doente. O fascismo é uma espécie de doença.
O desespero quanto à paz, o sentimento de que a política não serve para nada, e a continuação do terrorismo palestiniano – tudo isto levou a Lieberman.
A guerra em Gaza fortaleceu Lieberman?
Absolutamente. E é também um resultado de Lieberman, porque este é o tipo de pessoas que pressiona o governo, e com a eleição era inevitável que a guerra acontecesse.
Começou quando começou por causa dos rockets, das eleições, de serem os últimos dias de Bush, de ser época de festas, e de os céus estarem azuis, tornando fácil os aviões voarem. Era inevitável.
Não nos levou a lado algum. Não há um cessar-fogo que não pudéssemos ter alcançado antes. E a coisa alarmante é o pouco que os israelitas se estão a importar com a destruição de Gaza.
2009/01/15
"A guerra contra Gaza já estava na agenda"
Artigo de José Goulão no Le Monde Diplomatique
Para entender o que está a passar-se actualmente em Gaza é necessária muito mais informação do que a proporcionada pela chusma de comentadores instantâneos que invadem as rádios e televisões e pelos enviados ou residentes que, não conseguindo entrar na faixa invadida, se conformam em ser veículos bisonhos, acomodados e passivos da realidade fabricada no Estado-Maior israelita. Ao menos podiam dar conta de episódios das importantes manifestações internas israelitas contra a guerra, mas parece que isso poderia parecer uma perigosa dissonância. É natural concluir-se que, tal como a agressão militar tem vido a ser preparada há mais de seis meses, também a correspondente acção de propaganda foi montada durante o mesmo período.
A primeira vez que estive em Gaza foi em Fevereiro de 1988. A primeira Intifada começara pouco mais de dois meses antes precisamente naquele território ocupado, com uma dinâmica e persistência que surpreendeu a própria Resistência Nacional Palestiniana dirigida pela Organização de Libertação da Palestina (OLP).
Nessa altura o Hamas não era mais do que um grupinho fundamentalista inspirado nos Irmãos Muçulmanos, organização fundada no Egipto em 1928, que se dedicava a agitação religiosa e alguma assistência social. Em 1988, porém, o Hamas foi ganhando fôlego, pretendendo distinguir-se pela chama revolucionária, decretando greves gerais e acções de resistência próprias que nunca convergiam com as desencadeadas pelas direcções da Intifada e da OLP. O Hamas actuava, visivelmente, como uma organização divisionista, potencialmente perturbadora da mobilização popular.
Hoje, apesar de o pudor ou o desconhecimento impedirem comentadores e enviados ou residentes de se debruçarem sobre tal facto, já não é novidade que os serviços secretos israelitas, a Mossad, tiveram um papel determinante no relançamento e engrandecimento do Hamas. Tal foi reconhecido mesmo por ex-ministros israelitas e está profusamente demonstrado por informação disponível na Internet. Nem dá muito trabalho.
Essa foi a génese do Hamas que hoje conhecemos. Como atingiu as dimensões actuais? Sempre à sombra da guerra e do boicote aos processos de negociações conduzido pelos governos de Israel e as administrações norte-americanas - primeiro mediadoras do processo de Oslo e depois as cabeças de cartaz do falecido Quarteto (Estados Unidos, Rússia, União Europeia e Nações Unidas), que já nascera moribundo.
Quando se iniciou a Autonomia Palestiniana como processo transitório para um Estado independente e Yasser Arafat regressou à Palestina, no Verão de 1994, a voz do Hamas mal se ouvia. As populações palestinianas dos territórios estavam em festa e acreditavam no bom desfecho de todo o processo.
Shimon Peres, Benjamin Netanyahu, Ehud Barak, Ariel Sharon e Ehud Olmert, mais Bill Clinton e, sobretudo, George W. Bush foram inviabilizando paulatinamente as negociações israelo-palestinianas, assumissem as formas que assumissem, enquanto a Fatah (força dominante da OLP) e a Autoridade Palestiniana se foram enrodilhando na falta de alternativas estratégicas às negociações.
Essas foram assumidas pelo Hamas, que capitalizou gradualmente o descontentamento popular, mesmo de vastos sectores não religiosos ou religiosos não radicais, até se transformar na maior organização da Resistência e ganhar as eleições gerais palestinianas de 2006. O não reconhecimento do governo do Hamas pelos Estados Unidos, Israel e o mundo em geral - nem mesmo em aliança com a Fatah - poupou o movimento islâmico ao desgaste do exercício do poder e de ser forçado a actuar no terreno em vez de privilegiar a propaganda nas mesquitas e a mobilização paramilitar.
Quando a Fatah e o Hamas chegaram ao limiar da guerra civil, em 2007, o grupo islâmico assumiu o controlo de Gaza, enquanto Israel aproveitava a ocasião para impor um rigoroso bloqueio humano e de bens essenciais ao território. Em fase de plena construção do muro que fracciona a Cisjordânia em autênticos bantustões, a balcanização dos territórios palestinianos aprofundou-se.
A tomada de Gaza pelo Hamas terá surpreendido o mundo, mas não os dirigentes de Israel. Basta conhecer o Plano Dagan.
Meir Dagan é o chefe da Mossad, reconduzido por sucessivos governos israelitas desde o início do século. Ele idealizou uma estratégia de actuação que se tornou a cartilha de Ariel Sharon praticamente desde que este ressurgiu em força com a mediática invasão da Esplanada das Mesquitas em 2000, tolerada pelo então chefe do governo, Ehud Barak (o ministro que agora conduz a agressão a Gaza), e que inviabilizou a possibilidade iminente de palestinianos e israelitas se entenderem nas negociações de Taba, no Egipto.
Percorramos, em síntese, alguns passos previstos no Plano Dagan. A operação «Vingança Justificada» tinha como objectivo enfraquecer, tornar maleável ou mesmo destruir a Autoridade Palestiniana. Sahul Mofaz, enquanto ministro da Defesa, apresentou-a com o título «A destruição da Autoridade Palestiniana e o desarmamento de todas as forças armadas». Isso, contudo, não impediu Israel e os Estados Unidos de fornecerem armas à Fatah na fase em que incentivavam a guerra civil entre os dois principais movimentos palestinianos. Entretanto, Israel exige agora o desarmamento do Hamas como pressuposto para um cessar-fogo.
Outro ponto do Plano Dagan era o desaparecimento de cena de Yasser Arafat (um velho objectivo de Sharon desde a invasão do Líbano em 1980) e a sua substituição por uma direcção da Autoridade Palestiniana mais colaborante com Israel. Um objectivo como este mantém acesa a tese do assassínio do histórico dirigente palestiniano. A balcanização dos territórios palestinianos, o lançamento de vagas de terror contra as populações e o bloqueio de Gaza são outros aspectos do plano. Sem esquecer que, quando estava prestes a ser acordada a trégua de meados de 2008 em Gaza, Ehud Barak notificou as Forças Armadas para prepararem uma operação de grande envergadura contra este território para desencadear daí a alguns meses. Lendo o Plano Dagan não é de descartar que em alguma fase deste processo Israel abra uma «válvula de escape» em Gaza para que haja uma fuga em massa - limpeza étnica é a expressão correcta -, eventualmente para a Jordânia, atendendo ao comportamento actual do Egipto. Neste contexto é natural que venham à memória as conhecidas palavras de Ariel Sharon: «Não é necessário criar outro Estado palestiniano. A Jordânia é a Palestina».
Para entender o que está a passar-se actualmente em Gaza é necessária muito mais informação do que a proporcionada pela chusma de comentadores instantâneos que invadem as rádios e televisões e pelos enviados ou residentes que, não conseguindo entrar na faixa invadida, se conformam em ser veículos bisonhos, acomodados e passivos da realidade fabricada no Estado-Maior israelita. Ao menos podiam dar conta de episódios das importantes manifestações internas israelitas contra a guerra, mas parece que isso poderia parecer uma perigosa dissonância. É natural concluir-se que, tal como a agressão militar tem vido a ser preparada há mais de seis meses, também a correspondente acção de propaganda foi montada durante o mesmo período.
A primeira vez que estive em Gaza foi em Fevereiro de 1988. A primeira Intifada começara pouco mais de dois meses antes precisamente naquele território ocupado, com uma dinâmica e persistência que surpreendeu a própria Resistência Nacional Palestiniana dirigida pela Organização de Libertação da Palestina (OLP).
Nessa altura o Hamas não era mais do que um grupinho fundamentalista inspirado nos Irmãos Muçulmanos, organização fundada no Egipto em 1928, que se dedicava a agitação religiosa e alguma assistência social. Em 1988, porém, o Hamas foi ganhando fôlego, pretendendo distinguir-se pela chama revolucionária, decretando greves gerais e acções de resistência próprias que nunca convergiam com as desencadeadas pelas direcções da Intifada e da OLP. O Hamas actuava, visivelmente, como uma organização divisionista, potencialmente perturbadora da mobilização popular.
Hoje, apesar de o pudor ou o desconhecimento impedirem comentadores e enviados ou residentes de se debruçarem sobre tal facto, já não é novidade que os serviços secretos israelitas, a Mossad, tiveram um papel determinante no relançamento e engrandecimento do Hamas. Tal foi reconhecido mesmo por ex-ministros israelitas e está profusamente demonstrado por informação disponível na Internet. Nem dá muito trabalho.
Essa foi a génese do Hamas que hoje conhecemos. Como atingiu as dimensões actuais? Sempre à sombra da guerra e do boicote aos processos de negociações conduzido pelos governos de Israel e as administrações norte-americanas - primeiro mediadoras do processo de Oslo e depois as cabeças de cartaz do falecido Quarteto (Estados Unidos, Rússia, União Europeia e Nações Unidas), que já nascera moribundo.
Quando se iniciou a Autonomia Palestiniana como processo transitório para um Estado independente e Yasser Arafat regressou à Palestina, no Verão de 1994, a voz do Hamas mal se ouvia. As populações palestinianas dos territórios estavam em festa e acreditavam no bom desfecho de todo o processo.
Shimon Peres, Benjamin Netanyahu, Ehud Barak, Ariel Sharon e Ehud Olmert, mais Bill Clinton e, sobretudo, George W. Bush foram inviabilizando paulatinamente as negociações israelo-palestinianas, assumissem as formas que assumissem, enquanto a Fatah (força dominante da OLP) e a Autoridade Palestiniana se foram enrodilhando na falta de alternativas estratégicas às negociações.
Essas foram assumidas pelo Hamas, que capitalizou gradualmente o descontentamento popular, mesmo de vastos sectores não religiosos ou religiosos não radicais, até se transformar na maior organização da Resistência e ganhar as eleições gerais palestinianas de 2006. O não reconhecimento do governo do Hamas pelos Estados Unidos, Israel e o mundo em geral - nem mesmo em aliança com a Fatah - poupou o movimento islâmico ao desgaste do exercício do poder e de ser forçado a actuar no terreno em vez de privilegiar a propaganda nas mesquitas e a mobilização paramilitar.
Quando a Fatah e o Hamas chegaram ao limiar da guerra civil, em 2007, o grupo islâmico assumiu o controlo de Gaza, enquanto Israel aproveitava a ocasião para impor um rigoroso bloqueio humano e de bens essenciais ao território. Em fase de plena construção do muro que fracciona a Cisjordânia em autênticos bantustões, a balcanização dos territórios palestinianos aprofundou-se.
A tomada de Gaza pelo Hamas terá surpreendido o mundo, mas não os dirigentes de Israel. Basta conhecer o Plano Dagan.
Meir Dagan é o chefe da Mossad, reconduzido por sucessivos governos israelitas desde o início do século. Ele idealizou uma estratégia de actuação que se tornou a cartilha de Ariel Sharon praticamente desde que este ressurgiu em força com a mediática invasão da Esplanada das Mesquitas em 2000, tolerada pelo então chefe do governo, Ehud Barak (o ministro que agora conduz a agressão a Gaza), e que inviabilizou a possibilidade iminente de palestinianos e israelitas se entenderem nas negociações de Taba, no Egipto.
Percorramos, em síntese, alguns passos previstos no Plano Dagan. A operação «Vingança Justificada» tinha como objectivo enfraquecer, tornar maleável ou mesmo destruir a Autoridade Palestiniana. Sahul Mofaz, enquanto ministro da Defesa, apresentou-a com o título «A destruição da Autoridade Palestiniana e o desarmamento de todas as forças armadas». Isso, contudo, não impediu Israel e os Estados Unidos de fornecerem armas à Fatah na fase em que incentivavam a guerra civil entre os dois principais movimentos palestinianos. Entretanto, Israel exige agora o desarmamento do Hamas como pressuposto para um cessar-fogo.
Outro ponto do Plano Dagan era o desaparecimento de cena de Yasser Arafat (um velho objectivo de Sharon desde a invasão do Líbano em 1980) e a sua substituição por uma direcção da Autoridade Palestiniana mais colaborante com Israel. Um objectivo como este mantém acesa a tese do assassínio do histórico dirigente palestiniano. A balcanização dos territórios palestinianos, o lançamento de vagas de terror contra as populações e o bloqueio de Gaza são outros aspectos do plano. Sem esquecer que, quando estava prestes a ser acordada a trégua de meados de 2008 em Gaza, Ehud Barak notificou as Forças Armadas para prepararem uma operação de grande envergadura contra este território para desencadear daí a alguns meses. Lendo o Plano Dagan não é de descartar que em alguma fase deste processo Israel abra uma «válvula de escape» em Gaza para que haja uma fuga em massa - limpeza étnica é a expressão correcta -, eventualmente para a Jordânia, atendendo ao comportamento actual do Egipto. Neste contexto é natural que venham à memória as conhecidas palavras de Ariel Sharon: «Não é necessário criar outro Estado palestiniano. A Jordânia é a Palestina».
2009/01/12
Não há «israelitas» nem «palestinianos»
Artigo de António Vilarigues no Público de 9 de Janeiro. Tomo a liberdade de o reproduzir aqui, pois considero que sumariza muito bem tudo o que está em questão no conflito israelo-palestiniano.
Em 1947, a ONU aprova um plano de partilha da Palestina em dois estados: um judaico, com um milhão de habitantes, 510 mil dos quais árabes; um árabe, com 814 mil habitantes, 10 mil dos quais judeus.
Jerusalém, cidade santa para três religiões, ficaria com estatuto de cidade internacional. Segundo as estimativas da época, a população árabe da Palestina era de um milhão e 300 mil pessoas e a judaica rondava o meio milhão.
A 15 de Maio de 1948, David Ben Gurion proclama o nascimento do Estado de Israel. Com uma fronteira radicalmente diferente da aprovada pela ONU. Com um território um terço superior ao acordado. A "Grande Israel" estava em marcha. O Estado Palestiniano era um nado-morto. Até hoje!
No seguimento destes acontecimentos, a ONU aprova, em 1949, a Resolução 194, que decide permitir aos refugiados que o desejem o regresso às suas casas com direito a compensações pela destruição dos seus bens. Só que em 1948, David Ben Gurion, então primeiro-ministro, declarou: "Devemos impedir o seu regresso a qualquer preço". Hoje são mais de três milhões.
Na sequência da Guerra dos Seis Dias, em 1967, Israel ocupa o resto da Palestina (Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém-Leste). Ao arrepio da Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU, nesse mesmo Verão a colonização dos territórios ocupados começa com a construção de novos colonatos. Lucidamente, David Ben Gurion defende a não colonização, prevendo as consequências da transformação do seu país em potência ocupante. Hoje existem mais de 200 mil colonos instalados em colonatos nos territórios ocupados.
Esta é a raiz real e profunda do conflito. Só com a retirada do exército israelita para as posições anteriores às ocupações de 1967 e a destruição do muro; só com o desmantelamento de todo o sistema de colonatos israelitas; só com o fim do cerco a Gaza; só com a solução da questão dos refugiados palestinianos de acordo com as resoluções da ONU, só com o reconhecimento do direito do povo palestiniano à edificação do seu Estado, livre, independente e viável com capital em Jerusalém Leste, lado a lado com Israel; só verificadas todas estas condições é que poderemos falar de uma real paz justa e duradoura na região.
Em Israel e no campo palestiniano todos os intervenientes políticos o sabem. Dos dois lados há quem lute consequentemente por esta solução. Dos dois lados há quem a procure destruir e inviabilizar.
A chamada comunidade internacional omite que, quer na sociedade israelita, quer na sociedade palestiniana, há forças sociais e políticas bem diferenciadas. Esconde que há radicais dos dois lados da barricada. E moderados. E forças consequentes. Fala do terrorismo palestiniano, que é real. Mas aceita de bom grado chefes de Governo terroristas (Begin, Shamir, Sharon) que afirmam alto e bom som que primeiro há que matá-los (os palestinianos) para só depois negociar. Que proclamam que a Palestina é a Jordânia. Aceita governos de Israel onde participam partidos, com vários ministérios, que, em palavras e actos, negam TODOS os direitos aos palestinianos.
Há quem seja incapaz de ver os acontecimentos de forma diferente da redutora divisão entre bons de um lado e maus de outro. Felizmente há outros exemplos. Como o professor Richard Falk, relator especial do Conselho dos Direitos Humanos da ONU. Como Daniel Barenboim e Mariam Said, os promotores da paz através da música. Como o PC de Israel e a Frente Democrática para a Paz e a Igualdade que nestes dias se reuniram em Ramalah com representantes de facções da esquerda palestiniana, incluindo a Frente Democrática para Libertação da Palestina, a Frente Popular para a Libertação da Palestina e o Partido do Povo Palestino (comunistas). Como os militares que se recusam a disparar e a bombardear a Palestina. Como tantos e tantos outros que em Israel e na Palestina defendem um processo de paz genuíno. O trágico, dizem, é que isto é possível. Só é preciso querer.
2009/01/05
"Se a Europa se cala, que falem os europeus!"
2008/12/30
Perguntas e Respostas sobre a última guerra israelo-palestiniana
Por Margarida Santos Lopes no Público. Vale a pena ler.
Quem começou as hostilidades?
A 4 de Novembro deste ano, Israel assassinou seis membros do Hamas, violando uma "tahdiyeh" ou trégua, que estabeleceu (mas nunca reconheceu publicamente) com o movimento islâmico, sob mediação egípcia, a 17 de Junho. O Hamas intensificou o lançamento de mísseis e morteiros sobre cidades israelitas – em sete anos, estes disparos mataram pelo menos 20 civis. Israel retaliou sujeitando a Faixa de Gaza a um duro bloqueio económico – com restrição de entrada de alimentos e medicamentos e cortes de combustível –, agravando uma situação humanitária que o Banco Mundial e ONG descreveram como "catastrófica". Khaled Meshaal, o chefe do Hamas exilado em Damasco, justificou a decisão de revogar a "tahdiyeh", a partir do dia 18 de Dezembro, invocando as execuções dos seus operacionais e o cerco a que Gaza está sujeita.
Porquê atacar agora?
Para alguns analistas, Israel quis aplicar um duro golpe ao Hamas, ainda quem sem a ambição de o eliminar, como tentou, mas fracassou, com o Hezbollah no Líbano, em 2006. Também quis, escreveu o jornal francês "Libération", mudar as regras do jogo antes de uma "desacreditada Administração Bush" sair de cena e Barack Obama entrar na Casa Branca. Decisivo foi também o facto de Israel estar em campanha eleitoral, e de as sondagens beneficiarem o líder da oposição direitista, Benjamin Netanyahu.
Que solução para o conflito?
Para Israel, dizem analistas, o pior cenário seria o Hezbollah, apoiado pela Síria e financiado pelo Irão, abrir uma "segunda frente" no Líbano. O movimento xiita terá cerca de 40 mil mísseis e provou, em 2006, que sabe resistir ao reputadamente "mais poderoso exército do Médio Oriente". Outro receio é o da eclosão de uma revolta popular na Cisjordânia, onde Mahmoud Abbas tem sido incapaz de obter significativas concessões de Israel: os colonatos continuam a expandir-se, as incursões militares prosseguem, os «checkpoints» não são desmantelados e 6000 prisioneiros permanecem nas cadeias. O cenário mais realista parece, assim, o de negociar uma nova trégua. (...) Conclui Yossi Alpher : "Israel vai ter de escolher se reconhece que o Hamas está para ficar e o aceita como interlocutor, por muito que isso seja intragável, ou se reocupa a Faixa de Gaza, derruba o Hamas e acarreta com todos os custos que isso envolverá."
2008/12/26
A "Intifada judaica" e o "pogrom palestiniano"
Artigo de Margarida Santos Lopes no Público de 06.12.2008
Exército foi colocado em estado
de alerta total depois de ataques de colonos extremistas em Hebron, visando árabes e até soldados
Avi Issacharoff, colunista do diário hebraico Ha'aretz, não poupou ontem nas palavras para condenar as acções no dia anterior em Hebron, na Cisjordânia. "Uma família palestiniana inocente, num total de 20 pessoas. Todas mulheres e crianças, excepto três homens. A cercá-los, algumas dezenas de judeus encapuzados tentando linchá-los. É um pogrom. Isto não é uma brincadeira de palavras nem tem um duplo significado. É um pogrom no pior sentido da palavra."
"Primeiro, os homens mascarados incendiaram a lavandaria à entrada da casa e depois tentaram deitar fogo a um quarto. As mulheres gritaram por ajuda, Allahu Akhbar [Deus é grande]. No entanto, os vizinhos estavam demasiado assustados para se aproximarem, aterrorizados com os guardas armados de Kiryat Arba [um colonato nas imediações] que tinham isolado o imóvel. (...) Pouco mais de uma hora depois, chegou uma unidade das forças especiais de polícia para dispersar a multidão de homens mascarados. (...) Ao deixar a casa, um colono disse a um dos agentes: 'Nazis, tenham vergonha!'"
Issacharof é um respeitado jornalista, documentarista e autor do livro The Seventh War: How we won and how we lost the war with the Palestinians, escrito em parceria com Amos Arel, um dos maiores peritos em questões militares e de defesa de Israel - também ele colunista do Ha'aretz.
O jornal juntou a sua voz à de Issacharof ao escrever, em editorial, o que só o grande filósofo e cientista judeu Yeshayhu Leibovitz, que morreu em 1994, ousara antes dizer: "É difícil ignorar o modo como a política e a sociedade israelitas fecharam os olhos ao crescente terrorismo judaico."
"Esta semana, Israel chegou a um ponto de não retorno, que também determinará quem controla o Estado: o sistema de justiça e um Governo eleito democraticamente ou o terrorismo judaico. (...) O futuro do Estado sionista judaico está refém daqueles que rezam pela sua destruição. Nenhuma justificação moral, nem sequer a justa reivindicação moral de um lar nacional para o povo judeu, ficará de pé, dentro ou fora do país, perante a capitulação ao terror."
2008/11/25
"Há uma arrogância implícita nos jornalistas..."
Vale a pena ler a entrevista a Daniel Okrent, antigo provedor dos leitores do The New York Times, no Público. Deixo aqui alguns destaques.
O assunto mais emotivo nos Estados Unidos é Israel, as pessoas de ambos os lados sentem-no muito intensamente, e se publicássemos algum artigo sobre Israel ou a Palestina levávamos pancada de um lado ou do outro. E muitas vezes vi que as pessoas desvalorizavam algo com o argumento de que se tratava de apoiantes sionistas, mas isso não é um ponto de vista razoável. Qualquer artigo recebia centenas de cartas no dia a seguir, era impossível... É de loucos, as pessoas sentem esse assunto de forma muito intensa e por isso torna-se extremamente difícil ouvir as queixas ligadas a esse assunto.
Respondi a queixas específicas mas não escrevi sobre o assunto até ao final do mandato. Algumas pessoas acham que agi de uma forma covarde, mas eu sabia que se o fizesse mais cedo iria perder as pessoas de um lado ou do outro. Existe um grupo chamado Camera – Comité para Exactidão na Cobertura do Médio Oriente na América, de análise de notícias, que é de influência sionista. Gostavam muito de mim, porque eu falava com eles e reagia sempre às queixas, fazia questão de que os repórteres respondessem, só diziam coisas boas sobre mim. (...)
Novas notícias são melhores do que velhas notícias. Por isso houve uma tendência para escrever mais sobre o Obama porque ele era uma história melhor. E isso foi verdade mas deixou uma má impressão, porque o leitor mediano não compreende que novas notícias são mais interessantes do que as velhas notícias, que um novo homem que chega ao palco, seja branco ou negro ou democrata ou republicano, vai ser sempre mais interessante... E o Obama tinha todas estas características e tornou-as tão interessantes. Havia o dobro de repórteres no avião dele, do que no avião do McCain. Era uma história melhor.
2008/11/05
2008/07/31
Mearsheimer e Walt atacaram o AIPAC mas apoiam J Street
Continuando o texto anterior:
Em 2006, quando John J. Mearsheimer, da Universidade de Chicago, e Stephen Walt, de Harvard, publicaram The Israel Lobby amd the US Foreign Policy, primeiro um artigo na London Review of Books (LRB) e depois um livro (em 2007), receberam mais insultos que elogios. Quebraram um tabu, ao afirmar que, depois da Guerra Fria, Israel se tornou um fardo mais do que um trunfo estratégico para os Estados Unidos. Dois anos depois, o aparecimento de J Street vai ao encontro de uma das suas recomendações, no capítulo final: "A criação de um 'novo lobby' que pressione a favor de políticas mais inteligentes".
Falando em seu nome e no de Mearsheimer, numa entrevista ao P2 por e-mail, Walt esclarece que nenhum deles esteve envolvido na génese de J Street: "Achamos que é um desenvolvimento positivo [embora] não tenhamos provas de que haja uma ligação directa com o nosso livro. O que é mais evidente é que ambos [o livro e o novo lobby] reflectem uma crescente tomada de consciência de que a política dos Estados Unidos para o Médio Oriente é obviamente má e não serve os interesses da América nem os de Israel. Nós enfatizamos isto no nosso livro, mas outras pessoas, incluindo os fundadores de J Street, seguramente que compreenderam isto muito antes de o nosso livro ter sido publicado."
"Não há nada de errado em ter uma comunidade pró-israelita politicamente influente nos Estados Unidos, se [o objectivo] for lutar por políticas com sentido estratégico e moral, em vez das políticas contraproducentes dos grupos que o AIPAC [American Israel Political Action Committee] tem apoiado", frisam Walt, 53 anos, e Mearsheimer, de 61, seguidores da teoria do "realismo ofensivo", segundo a qual o interesse nacional deve ser a única motivação da política externa de um país.
Ambos mantêm a afirmação de que "o apoio incondicional de Israel - sobretudo das suas políticas brutais em relação aos palestinianos nos territórios ocupados - é uma das razões, ainda que não a única razão, do anti-americanismo crescente no mundo árabe e islâmico". E acrescentam: "Uma política mais equilibrada dos EUA em relação a Israel e aos árabes não resolveria todos os problemas na região mas afastaria um dos principais focos de tensão e facilitaria a resolução de outros problemas. Também achamos que uma política mais equilibrada seria do interesse de Israel, porque estaria mais em consonância com as noções básicas de decência e justiça."
Em The Israel Lobby, encomendado (em 2002) e rejeitado (em 2004) pela Atlantic Monthly, Mearsheimer e Walt recomendam que Israel seja tratado como "um país normal". Esse é também um velho sonho sionista, mas que prazo para isso ser possível? "Se começarmos a ter um discurso mais aberto e honesto sobre Israel e os Estados Unidos, as atitudes e as políticas podem mudar rapidamente", respondem. "Mas, claro, é por isso que grupos no [velho] lobby se esforçam tão arduamente por impedir uma discussão franca."
Apesar de acusações de "anti-semitismo", de "ensaio conspirativo" ou de "trabalho científico medíocre", os autores de The Israel Lobby garantem que as suas carreiras, como membros de uma elite académica (Walt foi, entre 2002 e 2006, reitor da Kennedy School of Government em Harvard), não foram arruinadas. "É cedo para avaliar o impacto do nosso livro, mas acreditamos que contribuímos para um debate mais livre sobre esta questão importante. Ainda é muito complicado um diálogo crítico sobre a política israelita, as relações Estados Unidos-Israel e o próprio lobby."
"Silenciar o debate, caluniando as pessoas como 'anti-semitas', é inconsistente com os princípios da liberdade de expressão e dificulta ainda mais a discussão séria de assuntos vitais", concluem os dois autores. "Se não pudermos discutir esses assuntos, os EUA vão provavelmente continuar as suas políticas insensatas no Médio Oriente, em detrimento de todos os envolvidos". M.S.L.
"Há um novo lobby judeu na América e não tem medo de criticar Israel"
O seguinte artigo do Público de 22 de Julho aborda um dos poucos temas tabu nos EUA: é impossível ter-se uma posição (moderadamente) pró-palestiniana no conflito israelo-árabe. Um político que não jure "apoio incondicional a Israel" não tem hipótese de ser eleito. Um comentador que critique frontalmente Israel nos EUA não pode ser levado a sério.
Felizmente há um grupo - de judeus - que pretende altera minimamente est situação. Conseguirá? Pelo "apoio incondicional" a Israel já manifestado por Barack Obaa, este novo e bem vindo lóbi judeu ainda tem muito que fazer. Boa sorte é o que eu lhes desejo.
Felizmente há um grupo - de judeus - que pretende altera minimamente est situação. Conseguirá? Pelo "apoio incondicional" a Israel já manifestado por Barack Obaa, este novo e bem vindo lóbi judeu ainda tem muito que fazer. Boa sorte é o que eu lhes desejo.
Chama-se J Street. Porque não há rua J em Washington e porque a K Street está cheia de lobbies que "apoiam ruidosamente Israel em situações de guerra mas ficam silenciosos em negociações de paz". Tem um poderoso adversário: o grande lobby judeu AIPAC, "infiltrado" pela direita israelita, por neo-conservadores e cristãos fundamentalistas. Mas também um potencial aliado: Barack Obama, que hoje chega a Jerusalém.
Em Washington não há nenhuma J Street (as ruas horizontais vão directamente do I ao K), mas é aqui que as palavras de Barack Obama durante a visita que hoje inicia a Israel serão ouvidas, provavelmente, com mais atenção. J Street é o nome de um novo lobby judeu nos Estados Unidos que alguns analistas prevêem irá "mudar o mapa político americano e do Médio Oriente".
Reparem no que diz ao P2, por telefone, Daniel Levy, um dos cem membros do conselho consultivo de J Street. "Hoje em dia, é muito difícil dizer 'Eu apoio Israel, ponto final'. Porque a pergunta a seguir é. 'Que Israel? Israel dos colonos ou Israel que quer acabar com a ocupação? Israel que quer destruir o Hamas ou Israel que acredita que é preciso negociar, ainda que indirectamente, com o Hamas? Israel que quer reter os Montes Golã e não acha importante dialogar com a Síria ou Israel que quer tratados de paz com os vizinhos sendo que isso implica devolver territórios?"
"Hoje, já não é convincente o argumento de que o modo incondicional como a América apoia Israel é bom para a América e para Israel", frisa Levy, asseverando que J Street não terá medo de enfrentar um primeiro-ministro israelita que não comungue as posições do grupo - sondagens apontam como favorito em próximas legislativas o "falcão" Benjamin Netanyahu. E até podem acusá-lo de ser "anti-semita" ou "self-hating Jew" (judeu que se odeia a si próprio) - expressões frequentemente usadas para silenciar os críticos das acções de Israel. "Os israelitas, por estreita ou larga margem, podem eleger um líder que se opõe ao processo de paz, mas não seremos apoiantes de opositores de paz.".
"Haverá pessoas que irão intimar-nos: 'Vocês têm de apoiar o governo israelita!'", reconhece Levy. "Mas eu responderei que isso não se aplica a nenhum outro país. Eu posso ser pró-Venezuela e não apoiar a política de Hugo Chávez. Posso ser um grande admirador da República Checa mas posso não achar uma boa ideia instalar ali um sistema americano de defesa antimíssil. Todos nós, na América, sobretudo os judeus, temos ligações emocionais a Israel, mas não podemos deixar de ser racionais, como se Israel vivesse noutro planeta. Será uma política destrutiva ajudar Israel avaliando-o segundo padrões diferentes. Israel precisa de fronteiras negociadas e reconhecidas. Às vezes abraçamos Israel quase até à morte. Amamos Israel de uma maneira que não é saudável. É como darmos as chaves do carro a um amigo embriagado."
Israel é o maior receptor de ajuda dos Estados Unidos (3000 milhões de dólares anuais). No entanto, como já havia notado Levy num artigo na American Prospect, não é submetido a qualquer pressão. Pelo contrário, "pode gozar uma ocupação de luxo - já gastou mais de dez mil milhões de dólares em colonatos desde 1967." Ora, este "vício de mau comportamento sem consequências conduz à tentação de uma escalada (...) e estrangula uma solução viável de dois Estados."
Alternativa ao AIPAC
As palavras são duras, mas Levy é um "peso-pesado". Cientista político de origem inglesa, é filho de Michael Levy, membro da Câmara dos Lordes, líder da comunidade judaica no Reino Unido e um dos maiores angariadores de fundos da campanha de Tony Blair. Foi conselheiro de três líderes israelitas - Ehud Barak, Yossi Beilin e Haim Ramon. Participou nas negociações com os palestinianos em 1995 (Oslo B) e em 2001 (Taba). Foi um dos principais redactores da Iniciativa de Genebra (um ambicioso plano de paz) e agora é senior fellow da Century Foundation e da New American Foundation. O seu blogue, Prospects for Peace, é um dos mais lidos na Web.
Não o confundam com os anti-sionistas de extrema-esquerda Noam Chomsky ou Norman Finkelstein. Mas também não o incluam no grupo de neo-conservadores de Bernard Lewis. Assumidamente "liberal e progressista", coloca-se no "centro político". Embora não pertença ao "núcleo duro" de J Street, cujo director executivo é Jeremy Ben-Ami, antigo conselheiro do ex-Presidente Bill Clinton e neto dos fundadores de Telavive, Daniel Levy tem sido descrito como "o ideólogo" e Ben-Ami como o "chefe de operações" do novo lobby.
E este, apresentando-se como "braço político do movimento pró-Israel e pró-paz" nos EUA (as suas bases são organizações como American for Peace Now e Israel Policy Forum), quer ser "uma alternativa" ao velho establishment judaico, "infiltrado" pela direita israelita do Likud, pelos neocon e por cristãos evangélicos fundamentalistas. Ou como Levy os caracterizou, "uma combinação que tem sido um desastre para a política americana e para Israel."
É uma tarefa árdua, "redefinir o que é ser pró-Israel", já que o AIPAC tem 200 funcionários, 100 mil membros e um orçamento anual de 60 milhões de dólares, enquanto J Street tem quatro funcionários, 1,5 milhões de dólares e, por enquanto, apenas 40 mil "filiados". Nada que atemorize Daniel Levy. "Conseguir a adesão de 40 mil pessoas em apenas três meses é significativo", sublinha. Mais: do orçamento de 1,5 milhões, cerca de 1,1 milhões já foram angariados online.
A Internet é uma das ferramentas com que J Street tenciona fazer a diferença. "Estamos a usar os instrumentos modernos de organização política, como o MoveOn.org [um projecto virtual que inspirou também a campanha de Obama]. Queremos criar uma grande circunscrição online, que permita financiar candidatos favoráveis à paz, já que somos também um PAC [Political Action Committee]".
Uma morada na Internet
Entre os primeiros candidatos ao Congresso apoiados por J Street está um republicano, Charles Boustany, o que responde às dúvidas dos que se interrogavam sobre se o novo lobby só estaria ao lado de democratas. Há quem acredite que estes apoios vão abalar, ainda que modestamente, a influência do big brother AIPAC no Capitólio. Exemplo: Agora, sempre que alguém vir o seu financiamento reduzido por ter feito declarações que o AIPAC considera "anti-Israel", pode sempre telefonar para J Street a pedir o dinheiro que faltou, ainda que J Street seja mais um endereço URL do que um edifício.
O nome foi propositadamente escolhido para preencher um vazio, tem explicado Ben-Ami. Porque não há rua J em Washington e porque a K Street está cheia de lobbies que "apoiam ruidosamente Israel em situações de guerra mas ficam silenciosos em negociações de paz". Esta frase, colocada num anúncio no New York Times, é uma implícita referência ao AIPAC com o qual muitos judeus americanos e israelitas já não se identificam.
Entre os 100 membros do conselho consultivo de J Street há rabis, académicos, políticos, CEO e prémios Nobel. E entre os supporters (apoiantes) em Israel estão diplomatas, políticos, ex-generais e antigos operacionais dos serviços secretos. É o caso de Yossi Alpher, que foi responsável da Mossad e agora colabora no site israelo-palestiniano bitterlemons.
Inquirido pelo P2 sobre a sua adesão ao novo lobby, Alpher respondeu por e-mail: "Estou convicto de que Israel merece estar mais bem representado entre os judeus americanos no que diz respeito a questões do processo de paz. J Street, ao contrário do AIPAC, é muito mais representativo da opinião dos judeus americanos."
Isso não dissuadiu, porém, Barack Obama de discursar na conferência anual da AIPAC. O senador do Illinois, cujo nome do meio é Hussein, tinha de provar as suas credenciais "pró-Israel", até porque precisa do eleitorado judeu que está a ser cortejado pelos republicanos em swing states, como a Florida. Foi aplaudido de pé quando declarou que "Jerusalém permanecerá a capital de Israel e deve continuar indivisível".
Claro está que os árabes, encorajados por anteriores declarações de Obama em que admitiu "não concordar com todas as acções do Estado de Israel" e retratou o conflito israelo-palestiniano como "uma ferida aberta que infecta toda a política externa dos EUA" (The Atlantic), ficaram decepcionados. Dias depois, Obama deu uma entrevista à CNN, esclarecendo que o estatuto de Jerusalém " é uma questão a ser negociada pelas partes".
Levy achou importante esta clarificação. "Ele aceitou os 'Parâmetros Clinton', ou seja, que os bairros árabes em Jerusalém serão palestinianos e os bairros judeus serão israelitas. O que ele quis dizer é que não deve haver um arame farpado a dividir a cidade como em 1967 [antes da Guerra dos Seis Dias], e até admitiu que a frase que usou [na convenção do AIPAC] não foi bem escolhida. Também disse que Israel precisa, para sua segurança, de uma solução de dois Estados. E esta é uma posição encorajadora."
Além disso, mais do que a referência à Jerusalém, o que foi importante, para Levy, no discurso de Obama ao AIPAC foi a promessa de que resolver o conflito israelo-palestiniano será uma prioridade. O apoio que exprimiu às negociações entre Israel e a Síria. E a afirmação de que, na abordagem ao Irão, privilegiará a diplomacia e não uma nova guerra.
O Irão e o reverendo Hagee
Quanto ao generalizado sentimento israelita de que o Irão constitui uma ameaça existencial e tem de ser contido, a análise de Levy é esta: "Acho que, em Israel, há uns genuinamente preocupados e outros que criam um pânico desnecessário, por causa das coisas nojentas que o Presidente [Mahmoud] Ahmadinejad diz e também das ambições do Irão de ser uma potência regional. Há uma mobilização em Israel para a necessidade de bombardear o Irão. Os israelitas olham para o passado e dizem: 'Bombardeámos o reactor no Iraque, bombardeámos algo na Síria e por isso OK, podemos bombardear os vizinhos, porque resulta. O problema é que o debate público não está a considerar que a situação no Irão é muito diferente e muito perigosa se houver uma guerra."
Levy compara o ambiente em Israel com o que existe em muitas sociedades em conflito. "Os israelitas são frequentemente tentados a pensar: 'Não há solução, vamos bombardeá-los', o que até é compreensível, mas não é uma boa política. Uma maioria de israelitas apoiou a guerra no Líbano há dois anos, mas agora admitem que foi um fucking mistake, mas na altura achavam que era uma grande ideia. A maioria dos israelitas apoia ataques militares na Faixa de Gaza mas também apoia o cessar-fogo com o Hamas. Há muitas dissonâncias nas sociedades em conflito. Eu creio que os israelitas ficariam muito felizes se houvesse uma solução diplomática para o Irão."
Levy está, por isso, entusiasmado com a campanha de J Street contra uma guerra no Irão: "Uma carta a todos os candidatos ao Congresso obteve mais de 30 mil assinaturas online numa semana". Outro sucesso que o novo lobby reclama é uma petição que forçou o candidato republicano, John McCain, a renegar o apoio do reverendo John Hagee, pastor da congregação Christians United for Israel (CUI), aliada do AIPAC.
Na ânsia de apressar o "segundo regresso do Messias", Hagee fez recentemente um sermão que causou uma onda de repulsa: "Deus disse a Jeremias: 'Enviarei muitos pescadores e depois enviarei muitos caçadores'. Os pescadores são os sionistas, homens como Theodor Herzl. (...) E os caçadores? Hitler foi um caçador. Como é que isso [o Holocausto] aconteceu? Porque Deus permitiu que acontecesse. Por que aconteceu? Porque Deus disse: 'A minha máxima prioridade é fazer retornar o povo judeu à Terra de Israel."
2008/07/19
2008/05/14
"Nunca haverá uma solução militar"
Via Esquerda Republicana, cheguei a um artigo do maestro israelo-argentino Daniel Baremboim a propósito dos 60 anos de Israel no El País. Um extracto:
En la actualidad, muchos israelíes no tienen ni idea de lo que sienten los palestinos, de cómo es la vida en una ciudad como Nablus, una prisión con 180.000 reclusos en la que no hay ni restaurantes, ni cafés ni cines. ¿Qué ha ocurrido con la famosa inteligencia judía? Ni siquiera estoy hablando de justicia o de amor. ¿Por qué se continúa alimentando el odio en la franja de Gaza? Nunca podrá haber una solución militar, porque dos pueblos luchan por una sola tierra. Por fuerte que sea Israel, siempre sufrirá inseguridad y miedo. El conflicto se devora a sí mismo y al alma judía, y siempre se le ha permitido que lo haga. Quisimos hacernos con tierras que nunca pertenecieron a los judíos y construir en ellas asentamientos. En ese hecho, los palestinos ven, y con razón, una provocación imperialista. Su resistencia, su no, es absolutamente comprensible, pero no los medios que utilizan para llevarla a cabo, ni tampoco la violencia o la inhumanidad indiscriminada.
Los israelíes debemos finalmente encontrar el valor para no reaccionar ante esa violencia, el valor de ser fieles a nuestra historia. Los palestinos no podían esperar que después del Holocausto nos ocupáramos de alguien que no fuéramos nosotros mismos: teníamos que sobrevivir. Ahora que lo hemos hecho, unos y otros debemos mirar colectivamente hacia delante. Aún no ha nacido el primer ministro israelí capaz de esa empresa. Fundamentalmente, hoy en día no hemos avanzado nada respecto a 1947, cuando las Naciones Unidas votaron la partición de Palestina. Peor aún: en 1947 todavía era posible imaginarse un Estado binacional, pero, 60 años después, parece algo inconcebible. Hoy en día, los israelíes, al referirse a una solución basada en la existencia de dos Estados, hablan de separación, de divorcio: ¡qué cinismo! Normalmente, los divorcios afectan a personas que en su día se quisieron... (...) Hace años que no vivo en Israel y soy muy consciente de que mi perspectiva es la de un forastero. A veces, la gente me pregunta "¿qué es un judío?". La respuesta es la siguiente: un judío que tiene experiencias antisemitas en el Berlín de 2008 es diferente al que las tenía en 1940. El de 1940 se sentía amenazado; el de la actualidad puede pensar en su propia tierra, en Israel. Hoy en día puedo decirle al antisemita que "o bien aprendes a vivir conmigo o podemos seguir cada uno nuestro camino. Y punto", y esto supone una diferencia fundamental. A medio plazo, soy pesimista respecto a Oriente Próximo, pero a largo plazo soy optimista. O encontramos una forma de vivir con el otro o nos matamos.
2008/05/08
Luzes e sombras de Israel
Luces y sombras de Israel
Por MARIO VARGAS LLOSA
Si el conflicto palestino israelí no existiera, o hubiera sido ya resuelto de manera definitiva, el mundo entero vería en Israel uno de los éxitos más notables de la historia contemporánea: un país que en poco más de medio siglo -nació como Estado en 1948- consigue pasar del tercer al primer mundo, se convierte en una nación próspera y moderna, integra en su seno a inmigrantes procedentes de todas las razas y culturas -aunque, por lo menos en apariencia, de una misma religión-, resucita como idioma nacional una lengua muerta, el hebreo, y la vivifica y moderniza, alcanza altísimos niveles de desarrollo tecnológico y científico, y se dota de armas atómicas y de un ejército equipado con la infraestructura más avanzada en materia bélica y capaz de poner en pie de guerra en brevísimo plazo a un millón de combatientes (la quinta parte de su población).
Este logro es todavía más significativo si se tiene en cuenta que la Palestina donde llegaron los primeros sionistas procedentes de Europa, en 1909, era la más miserable provincia del imperio otomano, un páramo de desiertos pedregosos convertido ahora, gracias al trabajo y al sacrificio de muchas generaciones, en poco menos que un vergel. Es verdad que Israel ha contado con una generosa ayuda exterior, procedente principalmente de Estados Unidos, del que recibe anualmente cerca de tres mil millones de dólares, y de la diáspora judía, un factor que hay que tener en cuenta, pero que de ninguna manera explica por sí solo la impresionante transformación de Israel en uno de los países más desarrollados y de más altos niveles de vida del mundo. Por ejemplo, Egipto recibe una ayuda más o menos equivalente de Estados Unidos y nadie diría que le ha sacado el menor provecho para el conjunto de su población. Y los grandes países productores de petróleo, como Venezuela o Arabia Saudí, sobre quienes el oro negro hace llover desde hace muchos años una vertiginosa hemorragia de dólares, siguen, debido a la ineficiencia, el despotismo y la cancerosa corrupción de sus gobiernos, profundamente enraizados en el subdesarrollo. Ninguno de ellos ha aprovechado de sus recursos y de las oportunidades creadas por la globalización como Israel.
Es verdad que, en los últimos años, a medida que, gracias a su despegue industrial, sobre todo en el campo de las nuevas tecnologías, el crecimiento económico israelí se disparaba y el país dejaba de ser rural y se volvía urbano, la sociedad más o menos igualitaria y solidaria con la que soñaban las primeras generaciones de sionistas, y de la que todavía era posible encontrar huellas en el Israel que yo conocí hace treinta años, iba siendo reemplazada por otra, mucho más dividida y antagónica, donde las distancias entre los sectores más ricos y los más pobres aumentaban de manera dramática y el idealismo de los pioneros y fundadores de Israel iba siendo reemplazado por el egoísmo individualista y el materialismo generalizado que es rasgo universal de todas las grandes sociedades contemporáneas.
Israel se jacta de haber cumplido esta veloz trayectoria histórica hacia el bienestar dentro de la legalidad y la libertad, respetando los valores y principios de la cultura democrática, algo que ha brillado y sigue brillando por su ausencia en todo el Medio Oriente. Ésta es una verdad relativa, que exige importantes matizaciones. Israel es una democracia en el sentido cabal de la palabra para todos los ciudadanos judíos israelíes quienes viven, en efecto, dentro de un Estado de Derecho, que respeta los derechos humanos, garantiza la libertad de expresión y de crítica, y en la que quien siente vulnerados sus derechos puede recurrir a unos jueces y tribunales que funcionan con independencia y eficiencia. He estado cinco veces en Israel, a lo largo de tres décadas, y siempre me ha impresionado la energía y la firmeza con que se practica allí la crítica, y la diversidad de opiniones en los periódicos y revistas publicados allí en lenguas a mi alcance, en debates y discusiones o pronunciamientos públicos de partidos, instituciones o figuras individuales formadoras de opinión. No creo exagerado afirmar que probablemente en ninguna otra sociedad se critica de manera tan constante, y a veces tan acerba, a los gobiernos de Israel como entre los propios israelíes.
Estas excelentes costumbres democráticas se reducen considerablemente, y a veces desaparecen por completo, cuando se trata del millón y pico de árabes israelíes -musulmanes en su gran mayoría y una minoría cristiana- que constituyen aproximadamente el 20 por ciento de la población. En teoría son ciudadanos a carta cabal, con los mismos derechos y deberes que los judíos. Pero, en la práctica no lo son, sino ciudadanos discriminados, para los que no existen las mismas oportunidades de que gozan aquellos y que tienen tanto los accesos a los servicios públicos -educación, salud- como al empleo, la adquisición de propiedades, o el simple movimiento físico, mediatizados, recortados o suprimidos con el argumento de que estas cortapisas y limitaciones son indispensables para la seguridad de Israel.
Pero los ciudadanos árabes israelíes, pese a todo ello, viven en condiciones envidiables si se compara su caso con el de los millones de palestinos del West Bank y, hasta ayer, de la Franja de Gaza, es decir los territorios que Israel ocupó en 1967, luego de la Guerra de los Seis días, en que derrotó a los Ejércitos de Siria, Jordania y Egipto. (El West Bank estaba entonces bajo el dominio jordano y Gaza bajo el egipcio). Esta victoria, de la que la gran mayoría de los israelíes se sienten orgullosos por razones militares y/o religiosas -su pequeño país derrotaba en un cerrar de ojos a una gran coalición militar del mundo árabe y recuperaba para los judíos la totalidad del ámbito de su historia bíblica-, convirtió a Israel en algo que ha sido su pesadilla desde entonces y lo que ha contribuido más que nada a desencadenar la antipatía o la franca hostilidad hacia sus gobiernos de una buena parte de la opinión pública internacional: en un país colonial. Y nada corrompe tanto a una nación, desde los puntos de vista cívico y moral, como volverse una potencia colonizadora. Coincidiendo con aquella conflagración de 1967, el general de Gaulle hizo entonces una descripción de los israelíes que generó una gran polémica (y mereció, entre otras muchas, la respuesta encendida de Raymond Aron). Los llamó "pueblo de elite, seguro de sí mismo y dominador". No estoy seguro de que entonces fuera cierto; pero sí lo estoy de que, de entonces a ahora, insensiblemente, y debido a la conquista de aquellos territorios así como a su enriquecimiento y poderío, Israel se ha ido acercando a lo que, cuando fue lanzada, nos pareció a muchos una injusta y exagerada descripción.En lo que concierne a su relación con los palestinos, todas son sombras que maculan moralmente el formidable progreso material y social de Israel. En los 38 años de ocupación, los palestinos han visto sus tierras expropiadas e invadidas por cientos de miles de colonos que, casi siempre alegando los derechos divinos, se posesionaban de un lugar y de unos campos, los cercaban y venía luego el Ejército a proteger su seguridad y a consumar el despojo, manteniendo a raya o expulsando a los despojados. Pese a las duras rivalidades que las enfrentan, tanto la izquierda como la derecha israelí, han coincidido en esta política de apoyar la multiplicación y el ensanchamiento de los asentamientos por colonos convencidos de que, actuando de este modo, cumplían la voluntad de Dios. Este proceder abusivo ha sido el mayor obstáculo para un acuerdo de paz, pues, a la vez que, de palabra, los gobiernos israelíes decían siempre desearla, en la práctica la desmentían con una política que a ojos vista iba aumentando y refrendando la ocupación colonial.
No hay duda alguna de que, debido a sus enormes divisiones políticas internas, a la práctica del terrorismo, a la ineficiencia y torpeza de sus líderes, los palestinos han defendido muy mal su causa, desaprovechando a veces oportunidades como la que, a mi juicio -el tema es objeto de tremendas controversias en Israel y en Palestina- representaron las negociaciones de Camp David y de Taba en el año 2000, en los finales del gobierno laborista de Ehud Barak. Pero, aun así, y sin que ello signifique la menor justificación del salvajismo irracional de los atentados contra la población civil y de las bombas de los suicidas palestinos -voladura de autobuses, restaurantes, cafés, discotecas, tiendas-, los atropellos cometidos por el Gobierno israelí contra la población palestina en general -puniciones colectivas, demoliciones de casas, asesinato de líderes terroristas aunque para ello sea inevitable que mueran civiles inocentes, detenciones arbitrarias, torturas indiscriminadas, juicios de caricatura en que los jueces condenan a los acusados a largas penas sin que los abogados defensores puedan siquiera conocer el acta de acusación, que se mantiene secreta por razones de inteligencia militar, etcétera- son injustificables e indignas de un país civilizado.
Después del fracaso de los acuerdos de Oslo, que habían despertado tanta euforia en todo el mundo y en especial en Israel -yo estuve allí por aquellos días y viví ese entusiasmo-, y luego de la subida al poder de Ariel Sharon, bestia negra de los pacifistas y de todos los partidos moderados del país, las esperanzas de paz parecían enterradas por un buen tiempo. Nadie había promovido tanto como aquél la política de los asentamientos de colonos en los territorios ocupados ni nadie había saboteado con tanta vehemencia todos los intentos de solución negociada del conflicto -desde Oslo a Camp David y Taba- como el líder del Likud. ¿Quién hubiera dicho que la misma persona que dirigió la invasión militar de Líbano, que estuvo implicada en las matanzas de refugiados palestinos de Sabra y Shatila y que con su paseo provocador por la Plaza de las Mezquitas contribuyó a desatar la segunda Intifada y a frustrar los acuerdos de paz de Oslo, iba pocos años después, de manera unilateral, a cerrar los 21 asentamientos coloniales de la Franja de Gaza y a devolver esta tierra arrebatada al pueblo palestino?
¿Qué ha habido detrás de esta audaz iniciativa? ¿Una concesión táctica, para distraer la atención internacional mientras Israel acentúa la política de apropiación de las tierras del West Bank? ¿O un intento serio de mostrar al mundo la voluntad de Israel de poner de una vez por todas un fin razonable a este conflicto? ¿Qué piensan de ello los israelíes y los palestinos? Para tratar de averiguarlo, acabo de pasar quince días en Israel y en los territorios ocupados, hablando con gente de toda condición e ideología, viendo y oyendo lo más que podía y tratando de sobrevivir al calor, la intensidad de las vivencias y la fatiga. Porque en Israel y en Palestina se vive más que en otras partes y el tiempo parece durar allá menos que en el resto del mundo. Acaso esa sea la razón por la que tres de las cuatro grandes religiones de la historia de la humanidad tengan allí sus raíces y por la que ese puñado de kilómetros cuadrados haya hecho correr desde hace cuatro milenios más sangre y locura que cualquier otra región del mundo.
(Original no El Pais, 18/09/2005, na sequência de uma visita do autor e da filha a Israel)
Por MARIO VARGAS LLOSA
Si el conflicto palestino israelí no existiera, o hubiera sido ya resuelto de manera definitiva, el mundo entero vería en Israel uno de los éxitos más notables de la historia contemporánea: un país que en poco más de medio siglo -nació como Estado en 1948- consigue pasar del tercer al primer mundo, se convierte en una nación próspera y moderna, integra en su seno a inmigrantes procedentes de todas las razas y culturas -aunque, por lo menos en apariencia, de una misma religión-, resucita como idioma nacional una lengua muerta, el hebreo, y la vivifica y moderniza, alcanza altísimos niveles de desarrollo tecnológico y científico, y se dota de armas atómicas y de un ejército equipado con la infraestructura más avanzada en materia bélica y capaz de poner en pie de guerra en brevísimo plazo a un millón de combatientes (la quinta parte de su población).
Este logro es todavía más significativo si se tiene en cuenta que la Palestina donde llegaron los primeros sionistas procedentes de Europa, en 1909, era la más miserable provincia del imperio otomano, un páramo de desiertos pedregosos convertido ahora, gracias al trabajo y al sacrificio de muchas generaciones, en poco menos que un vergel. Es verdad que Israel ha contado con una generosa ayuda exterior, procedente principalmente de Estados Unidos, del que recibe anualmente cerca de tres mil millones de dólares, y de la diáspora judía, un factor que hay que tener en cuenta, pero que de ninguna manera explica por sí solo la impresionante transformación de Israel en uno de los países más desarrollados y de más altos niveles de vida del mundo. Por ejemplo, Egipto recibe una ayuda más o menos equivalente de Estados Unidos y nadie diría que le ha sacado el menor provecho para el conjunto de su población. Y los grandes países productores de petróleo, como Venezuela o Arabia Saudí, sobre quienes el oro negro hace llover desde hace muchos años una vertiginosa hemorragia de dólares, siguen, debido a la ineficiencia, el despotismo y la cancerosa corrupción de sus gobiernos, profundamente enraizados en el subdesarrollo. Ninguno de ellos ha aprovechado de sus recursos y de las oportunidades creadas por la globalización como Israel.
Es verdad que, en los últimos años, a medida que, gracias a su despegue industrial, sobre todo en el campo de las nuevas tecnologías, el crecimiento económico israelí se disparaba y el país dejaba de ser rural y se volvía urbano, la sociedad más o menos igualitaria y solidaria con la que soñaban las primeras generaciones de sionistas, y de la que todavía era posible encontrar huellas en el Israel que yo conocí hace treinta años, iba siendo reemplazada por otra, mucho más dividida y antagónica, donde las distancias entre los sectores más ricos y los más pobres aumentaban de manera dramática y el idealismo de los pioneros y fundadores de Israel iba siendo reemplazado por el egoísmo individualista y el materialismo generalizado que es rasgo universal de todas las grandes sociedades contemporáneas.
Israel se jacta de haber cumplido esta veloz trayectoria histórica hacia el bienestar dentro de la legalidad y la libertad, respetando los valores y principios de la cultura democrática, algo que ha brillado y sigue brillando por su ausencia en todo el Medio Oriente. Ésta es una verdad relativa, que exige importantes matizaciones. Israel es una democracia en el sentido cabal de la palabra para todos los ciudadanos judíos israelíes quienes viven, en efecto, dentro de un Estado de Derecho, que respeta los derechos humanos, garantiza la libertad de expresión y de crítica, y en la que quien siente vulnerados sus derechos puede recurrir a unos jueces y tribunales que funcionan con independencia y eficiencia. He estado cinco veces en Israel, a lo largo de tres décadas, y siempre me ha impresionado la energía y la firmeza con que se practica allí la crítica, y la diversidad de opiniones en los periódicos y revistas publicados allí en lenguas a mi alcance, en debates y discusiones o pronunciamientos públicos de partidos, instituciones o figuras individuales formadoras de opinión. No creo exagerado afirmar que probablemente en ninguna otra sociedad se critica de manera tan constante, y a veces tan acerba, a los gobiernos de Israel como entre los propios israelíes.
Estas excelentes costumbres democráticas se reducen considerablemente, y a veces desaparecen por completo, cuando se trata del millón y pico de árabes israelíes -musulmanes en su gran mayoría y una minoría cristiana- que constituyen aproximadamente el 20 por ciento de la población. En teoría son ciudadanos a carta cabal, con los mismos derechos y deberes que los judíos. Pero, en la práctica no lo son, sino ciudadanos discriminados, para los que no existen las mismas oportunidades de que gozan aquellos y que tienen tanto los accesos a los servicios públicos -educación, salud- como al empleo, la adquisición de propiedades, o el simple movimiento físico, mediatizados, recortados o suprimidos con el argumento de que estas cortapisas y limitaciones son indispensables para la seguridad de Israel.
Pero los ciudadanos árabes israelíes, pese a todo ello, viven en condiciones envidiables si se compara su caso con el de los millones de palestinos del West Bank y, hasta ayer, de la Franja de Gaza, es decir los territorios que Israel ocupó en 1967, luego de la Guerra de los Seis días, en que derrotó a los Ejércitos de Siria, Jordania y Egipto. (El West Bank estaba entonces bajo el dominio jordano y Gaza bajo el egipcio). Esta victoria, de la que la gran mayoría de los israelíes se sienten orgullosos por razones militares y/o religiosas -su pequeño país derrotaba en un cerrar de ojos a una gran coalición militar del mundo árabe y recuperaba para los judíos la totalidad del ámbito de su historia bíblica-, convirtió a Israel en algo que ha sido su pesadilla desde entonces y lo que ha contribuido más que nada a desencadenar la antipatía o la franca hostilidad hacia sus gobiernos de una buena parte de la opinión pública internacional: en un país colonial. Y nada corrompe tanto a una nación, desde los puntos de vista cívico y moral, como volverse una potencia colonizadora. Coincidiendo con aquella conflagración de 1967, el general de Gaulle hizo entonces una descripción de los israelíes que generó una gran polémica (y mereció, entre otras muchas, la respuesta encendida de Raymond Aron). Los llamó "pueblo de elite, seguro de sí mismo y dominador". No estoy seguro de que entonces fuera cierto; pero sí lo estoy de que, de entonces a ahora, insensiblemente, y debido a la conquista de aquellos territorios así como a su enriquecimiento y poderío, Israel se ha ido acercando a lo que, cuando fue lanzada, nos pareció a muchos una injusta y exagerada descripción.En lo que concierne a su relación con los palestinos, todas son sombras que maculan moralmente el formidable progreso material y social de Israel. En los 38 años de ocupación, los palestinos han visto sus tierras expropiadas e invadidas por cientos de miles de colonos que, casi siempre alegando los derechos divinos, se posesionaban de un lugar y de unos campos, los cercaban y venía luego el Ejército a proteger su seguridad y a consumar el despojo, manteniendo a raya o expulsando a los despojados. Pese a las duras rivalidades que las enfrentan, tanto la izquierda como la derecha israelí, han coincidido en esta política de apoyar la multiplicación y el ensanchamiento de los asentamientos por colonos convencidos de que, actuando de este modo, cumplían la voluntad de Dios. Este proceder abusivo ha sido el mayor obstáculo para un acuerdo de paz, pues, a la vez que, de palabra, los gobiernos israelíes decían siempre desearla, en la práctica la desmentían con una política que a ojos vista iba aumentando y refrendando la ocupación colonial.
No hay duda alguna de que, debido a sus enormes divisiones políticas internas, a la práctica del terrorismo, a la ineficiencia y torpeza de sus líderes, los palestinos han defendido muy mal su causa, desaprovechando a veces oportunidades como la que, a mi juicio -el tema es objeto de tremendas controversias en Israel y en Palestina- representaron las negociaciones de Camp David y de Taba en el año 2000, en los finales del gobierno laborista de Ehud Barak. Pero, aun así, y sin que ello signifique la menor justificación del salvajismo irracional de los atentados contra la población civil y de las bombas de los suicidas palestinos -voladura de autobuses, restaurantes, cafés, discotecas, tiendas-, los atropellos cometidos por el Gobierno israelí contra la población palestina en general -puniciones colectivas, demoliciones de casas, asesinato de líderes terroristas aunque para ello sea inevitable que mueran civiles inocentes, detenciones arbitrarias, torturas indiscriminadas, juicios de caricatura en que los jueces condenan a los acusados a largas penas sin que los abogados defensores puedan siquiera conocer el acta de acusación, que se mantiene secreta por razones de inteligencia militar, etcétera- son injustificables e indignas de un país civilizado.
Después del fracaso de los acuerdos de Oslo, que habían despertado tanta euforia en todo el mundo y en especial en Israel -yo estuve allí por aquellos días y viví ese entusiasmo-, y luego de la subida al poder de Ariel Sharon, bestia negra de los pacifistas y de todos los partidos moderados del país, las esperanzas de paz parecían enterradas por un buen tiempo. Nadie había promovido tanto como aquél la política de los asentamientos de colonos en los territorios ocupados ni nadie había saboteado con tanta vehemencia todos los intentos de solución negociada del conflicto -desde Oslo a Camp David y Taba- como el líder del Likud. ¿Quién hubiera dicho que la misma persona que dirigió la invasión militar de Líbano, que estuvo implicada en las matanzas de refugiados palestinos de Sabra y Shatila y que con su paseo provocador por la Plaza de las Mezquitas contribuyó a desatar la segunda Intifada y a frustrar los acuerdos de paz de Oslo, iba pocos años después, de manera unilateral, a cerrar los 21 asentamientos coloniales de la Franja de Gaza y a devolver esta tierra arrebatada al pueblo palestino?
¿Qué ha habido detrás de esta audaz iniciativa? ¿Una concesión táctica, para distraer la atención internacional mientras Israel acentúa la política de apropiación de las tierras del West Bank? ¿O un intento serio de mostrar al mundo la voluntad de Israel de poner de una vez por todas un fin razonable a este conflicto? ¿Qué piensan de ello los israelíes y los palestinos? Para tratar de averiguarlo, acabo de pasar quince días en Israel y en los territorios ocupados, hablando con gente de toda condición e ideología, viendo y oyendo lo más que podía y tratando de sobrevivir al calor, la intensidad de las vivencias y la fatiga. Porque en Israel y en Palestina se vive más que en otras partes y el tiempo parece durar allá menos que en el resto del mundo. Acaso esa sea la razón por la que tres de las cuatro grandes religiones de la historia de la humanidad tengan allí sus raíces y por la que ese puñado de kilómetros cuadrados haya hecho correr desde hace cuatro milenios más sangre y locura que cualquier otra región del mundo.
(Original no El Pais, 18/09/2005, na sequência de uma visita do autor e da filha a Israel)
2007/10/08
Richard Dawkins e as palavras que não podem ser ditas
Richard Dawkins em entrevista ao The Guardian (via O Insurgente):
When you think about how fantastically successful the Jewish lobby has been, though, in fact, they are less numerous I am told - religious Jews anyway - than atheists and [yet they] more or less monopolise American foreign policy as far as many people can see. So if atheists could achieve a small fraction of that influence, the world would be a better place.Mais um anti-semita...
Subscrever:
Mensagens (Atom)





