2015/03/01

o Avesso do Avesso - nove anos

De acordo com o sitemeter, 218802 visitas, 277479 carregamentos de página. O motigo, a que achava tanta graça, infelizmente acabou!

2015/02/28

A minha ficção científica

Este fabuloso livrinho, que incluía logo a abrir uma notável história do grande Carl Barks chamada "Os Micropatos do Espaço."

Este outro fabuloso livrinho, que incluía uma história em que o Pateta e o sobrinho viajam ao passado para tentarem alterá-lo... e finalmente descobrirem que o passado é imutável. Li-a com seis anos e nunca me esqueci dela, nem quando estudava relatividade no Técnico. Também vim para física por culpa deste livrinho.

Na morte do dr. Spock

Entretanto toda a gente se despede daquele ator do Star Wars. (Ou Star Trek? Nunca distingui.) Lamento pelo senhor, mas quanto a ficção científica sempre fui como o Carl Sagan: "A ciência é muito mais excitante que a ficção científica. E tem a vantagem de ser verdadeira." Pasmo com a quantidade de fãs que a ficção científica tem, e questiono quantos desses fãs saberão as leis de Newton? Da termodinâmica? De Faraday?

2015/02/02

As tendências dos desportivos



Sabe-se que cada um dos três jornais desportivos tem uma preferência por cada um dos três grandes. Hoje é um daqueles dias em que, olhando para as respetivas capas e vendo o "animal" mencionado em cada manchete, isso fica perfeitamente demonstrado.

2015/01/23

Miguel Galvão Teles (1939-2015)



Grande advogado, grande sportinguista, grande homem. Da notícia do Expresso:


Os amigos recordam-no como um jurista brilhante e um homem generoso que tinha um talento especial para o futebol. No final da década de 1950, quando frequentavam a Faculdade de Direito de Lisboa, "até lhe dizíamos que era uma pena ser tão bom em Direito porque [caso contrário] poderia ir para a Académica", conta o ex-Presidente da República Jorge Sampaio, seu colega de curso.



Nascido na Foz do Douro a 4 de outubro de 1939, Miguel Galvão Teles (MGT) não chegava a ser um mês mais novo do que Jorge Sampaio. Os dois conheceram-se aos 10 anos nos bancos do liceu Pedro Nunes, de onde transitaram para o Passos Manuel e, em 1956, para a Faculdade de Direito de Lisboa que ainda funcionava nas instalações do Campo de Santana.



Foi aí que MGT voltou a ser colega de Jorge Santos [tio materno do secretário-geral do PS, António Costa], com quem frequentara o ensino primário na Escola Francesa no Pátio do Tijolo, em Lisboa."Na faculdade jogávamos futebol todos os domingos, no INEF, com o Jorge Sampaio, o Afonso Barros, o Zé Manel Galvão Teles que era primo direito do Miguel, o Vítor Wengorovius, o Vera Jardim" e outros, conta Jorge Santos que mais tarde trabalhou com MGT no mesmo escritório de advogados: "O escritório foi fundado por mim, pelo Vera Jardim e pelo Macedo Cunha; mais tarde, juntaram-se o Jorge Sampaio, Castro Caldas, e o Miguel que tinha uma cabeça privilegiada como jurista", acrescenta Jorge Santos.



O ex-ministro da Justiça, Vera Jardim, recorda que MGT saiu desse escritório "já depois do 25 de Abril de 1974 para ir ajudar o pai".



Da greve académica de 1962 à JUC



"O Miguel foi o melhor aluno do nosso curso, e acabou com média de 18" lembra Vera Jardim: "Chegou a começar o doutoramento, mas devia querer fazer uma tese tão boa", tão inovadora que acabou por ficar pelo caminho. "Cheguei a ir vê-lo ao hotel do Luso, onde esteve isolado vários meses a trabalhar no doutoramento. A mim aconteceu-me o mesmo, ainda comecei a trabalhar na tese em Direito Constitucional mas fiquei pelo caminho".



Na crise académica de 1962, MGT "acompanhou a greve" lembra o seu colega de curso Vera Jardim que com ele partilhou também a militância na JUC - Juventude Universitária Católica: "O Miguel fez parte do Conselho Fiscal da Associação Académica presidida por Jorge Sampaio e esteve comigo quando fui presidente da JUC".



Na altura, MGT cursava o 6º ano de Ciências Histórico-Jurídicas na FDL, e o seu pai,o célebre professor de Direito, Inocêncio Galvão Teles, era diretor da faculdade. No final da crise académica, o Governo de Salazar puniu disciplinarmente 21 estudantes que tinham feito greve de fome, com a expulsão, por 30 meses, de todas as escolas de Lisboa. Galvão Teles foi um dos co-autores da contestação jurídica aos processos disciplinares - o que constitui um dos seus primeiros trabalhos como jurista.



Disse a Marcello que era de esquerda quando este o convidou



"Conheci o Miguel quando éramos miúdos. Os nossos pais eram amigos e apesar de ele ter menos quatro anos do que eu, jogava à bola connosco porque era mesmo muto bom", contou ao Expresso Miguel Caetano, filho do professor de Direito e último chefe de Governo do Estado Novo Marcello Caetano.



"O meu pai achava-o brilhante e teve um verdadeiro desgosto por ele não ter feito o doutoramento. Quando o convidou para ser assistente dele na cadeira de Direito Constitucional, o Miguel respondeu-lhe que tinha ideias socialistas. O meu pai disse-lhe que isso não interessava para o caso e foi o MGT que fez a última revisão do 'Manual de Ciência Política e Constitucional', que foi publicado quando Marcello já era chefe do Governo", acrescenta Miguel Caetano.


Ao contrário do seu colega de curso Vera Jardim, MGT começou a trabalhar como assistente na FDL mal terminou o curso: "O Miguel ficou livre da tropa e eu não. A minha geração foi a última em que ainda houve muita gente a ficar livre da tropa, porque fomos 'às sortes' antes de a guerra colonial ter começado".

Desse curso de 1956/1961 fizeram ainda parte Sousa e Brito, José Augusto Seabra, Lebre de Freitas e Luiz Braz Teixeira. "O Lebre de Freitas foi o único a doutorar-se", diz Vera Jardim.


Miguel Caetano lembra ainda que MGT teve sempre uma relação "muito correta" com o velho mestre mesmo quando este já estava no exílio: "Sempre que foi ao Brasil informou-nos e fez questão de visitar o meu pai. Depois disso fui-o encontrando pela vida fora, até porque fizemos ambos parte do grupo que apoiou o general Ramalho Eanes".

Quando Marcello sucedeu a Salazar, MGT conseguiu obter junto deste um salvo-conduto para o seu amigo Eurico Figueiredo vir a Portugal. Dirigente estudantil durante a crise de 1962, Eurico exilara-se em Genebra, para não participar na guerra colonial.



De cigarro na boca a ditar o acordo de Cahora Bassa



Em 1975, Jorge Sampaio era secretário de Estado da Cooperação e fez-se acompanhar por Miguel GalvãoTeles quando participou nas negociaçoes do acordo da Hidroelétrica de Cahora Bassa no Songo. "O Miguel foi o jurista mais imaginativo de várias gerações e isso foi visível na redação do acordo de Cahora Bassa", diz Jorge Sampaio ao Expresso.



Nos bastidores de uma negociação em que para além da delegação portuguesa estavam presentes as delegações de Moçambique e África do Sul - e que tinha por objetivo defender os interesses de Portugal e de Moçambique - MGT ia fumando cigarros enquanto "ditava um acordo extraordinário a andar de um lado para o outro" conta Sampaio: "Eu limitava-me a escrever...", acrescenta.



MGT teve de regressar de urgência a Lisboa, uma vez que a futura mulher adoecera gravemente, chegando a entrar em coma.



A pedido do VI Governo Provisório, fez parte de um grupo 'ad-hoc' que elaborou o parecer sobre o reconhecimento, por Portugal, do Estado e governo de Angola. O mesmo grupo redigiu a proclamação de independência lida em Luanda, a 11 de Novembro de 1975, pelo último alto-comissário português, Leonel Cardoso.



Defensor da causa de Timor



Este enorme domínio do Direito Internacional Público foi importante "na causa de Timor de que foi um enorme defensor", lembra Jorge Sampaio, acrescentando que teve um papel importante no Tribunal de Justiça tal como o seu pai Inocêncio Galvão Teles intervira nos finais da década de 1950 numa acção judicial intentada por Portugal contra a Índia, no Tribunal Internacional de Justiça, para fazer valer o direito de passagem de Portugal através de território indiano, com vista à instauração da sua soberania sobre os enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli [nessa altura o TIP deu razão a Portugal].



No caso de Timor, MGT foi co-autor do documento assumido pelo Estado português, não reconhecendo a independência unilateral de Timor-Leste declarada pela Fretilin em 1975. Durante anos seguiu atentamente o dossiê Timor, tendo participado nas negociações do chamado Timor Gap, sobre a delimitação das respectivas águas territoriais.



O advogado Ricardo Sá Fernandes recorda a brilhante peça de Direito que MGT apresentou numa arbitragem internacional sobre a questão dos direitos petrolíferos de Timor contra a Austrália no início deste século.



Entre o PS e o grupo de Eanes



Logo a seguir ao 25 de Abril, foi um dos co-autores da Lei Constitucional nº 3/74, que definiu a estrutura constitucional transitória, e que vigorou até à Constituição de 1976. Foi ainda um dos autores da legislação que proibiu a saída de capitais do país.



Em 1978 aderiu ao PS, juntamente com o grupo de Jorge Sampaio, com quem convivia deste os tempos do liceu e faculdade. Membro do Conselho de Estado entre 1982 e 1986, por nomeação do então Presidente Ramalho Eanes, participou na fundação do Partido Renovador Democrático. Manuela Eanes, que foi sua contemporânea na faculdade, diz que está chocada com a sua partida.



Eanes, profundamente sentido com o desaparecimento de um companheiro, disse ao Expresso: "Usufruí da sua colaboração, do seu apoio e da sua crítica, muitas vezes acerada. Primeiro, no Conselho da Revolução, sobretudo na elaboração e execução do Pacto MFA-Partidos; a seguir, na Presidência da República; depois, como conselheiro de Estado; depois, ainda, no PRD, no seu propósito utópico de devolver a democracia à cidadania, de sociabilizar a política e de politizar a sociedade".



Com Jorge Sampaio, foi, ainda que num plano informal, um dos seus principais conselheiros constitucionais. Condecorado por Eanes com a Ordem do Infante D. Henrique e por Sampaio com a Ordem Militar de Cristo.



Num treino do Sporting com Sampaio



O advogado que poderia ter sido um grande jogador de futebol, sentou-se um dia no banco para assistir a um treino do Sporting com o ex-Presidente Jorge Sampaio. "Não me lembro bem do ano" mas deve ter sido pela década de 1980, conta Sampaio. Vera Jardim também lembra a paixão que MGT tinha pelo Sporting, clube de foi Presidente da mesa da Assembleia Geral durante 11 anos.



O historiador José Hermano Saraiva, que foi seu professor de Organização Política e Administrativa da Nação no liceu Passos Manuel, recordava-o como um dos dois alunos "mais inteligentes que tive em toda a minha vida". Apesar disso, MGT viria a confessar que, enquanto jovem estudante, a sua "grande ambição era jogar à bola", desporto onde se iniciou com um grupo de amigos e uma bola de trapos nos becos do bairro de Campo de Ourique.



O legado



Alguns anos depois de ter deixado o escritório de advogados onde trabalhou com Jorge Santos, Vera Jardim e Jorge Sampaio, foi um dos sócios fundadores da sociedade de advogados Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados.



Deixa viúva e quatro filhos. Era irmão do realizador Luís Galvao Teles, e de José Carlos e de Margarida Galvão Teles.

2015/01/08

Filipa Vacondeus

Entretanto hoje foi o funeral de Filipa Vacondeus. Filipa Vacondeus (e "O Tal Canal" e "Cozinho Para o Povo") foi um dos casos em que a caricatura deu popularidade e reconhecimento à caricaturada. Sem querer tirar o mérito aos seus programas de culinária (ainda no dia em que morreu eu estava com o seu primeiro livro na mão), muito mais gente passou a conhecer a Filipa graças ao "Cozinho para o Povo". Numa altura em que tanto se fala de caricaturas, vale a pena referir a Filipa como alguém que, inteligentemente, nunca se importou de ser caricaturada. Só ganhou com isso. Creio que todos a recordaremos com saudade.

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2014/12/07

"O gajo que lhes atira mais às trombas"

Esta entrevista de Mário Soares a Clara Ferreira Alves, no Expresso, é um extraordinário testemunho. Merece bem ser lida.


A célebre imagem no arquipélago das Seychelles, em novembro de 1995, numa das últimas viagens de Estado enquanto Presidente da República, por ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Anda nisto, a viagem da vida, há nove décadas - este domingo é dia de aniversário. "Não gosto nada de ter 90 anos." É a máxima queixa física que se lhe ouve. Pergunto-lhe se não está a ficar pessimista com o estado do país, ele que sempre foi um otimista. "Pessimista? Nada! O estado do país é uma infâmia! Mas há de mudar, os portugueses são ótimos!" Digo-lhe que quando ele usa palavras mais violentas ou desbragadas para criticar certos políticos de direita, a reação é acusá-lo de estar muito velho e não saber o que diz. "Um dia também vão ser velhos e não é nada fácil"

Esta conversa à mesa foi escrita antes de rebentar o caso da detenção e suspeitas de corrupção de Sócrates e o seu cortejo de pequenos e grandes escândalos. A conversa vinha a propósito dos 90 anos de Mário Soares, este domingo, e a publicação a 27 de novembro de um livro de escritos políticos do tempo do exílio de Paris, "Cartas e Intervenções Políticas no Exílio". Posteriormente, pedi-lhe que comentasse o caso de Sócrates, quando não se sabiam ainda as acusações ou outras peças processuais senão as das fugas de informação. Mário Soares respondeu: "Não vou por agora dizer mais nada. Disse o que tinha a dizer no 'Diário de Notícias'". Onde escreveu: "O que foi feito a um ex-primeiro-ministro, com enorme aparato lesivo do segredo de Justiça, não pode passar em vão". E, rematando a nossa segunda conversa: "Estou, como calcula, muito maldisposto com tudo isto e extenuado".

Fica irritado quando as pessoas lhe dizem que tomaram elas chegar aos 90 anos assim e que ele está muito bem. "Pois, mas quem tem 90 anos sou eu e não é fácil. Não gosto nada de ter 90 anos". Esta a máxima queixa física que se lhe ouve. Pergunto-lhe se não está a ficar pessimista com o estado do país, ele que sempre foi um otimista. "Pessimista? Nada! O estado do país é uma infâmia! Mas há de mudar, os portugueses são ótimos!" Sempre lhe ouvi esta frase, "os portugueses são ótimos", às vezes transformada em "os nossos jovens são ótimos". Ouvi-a muitas vezes quando fizemos um programa para a RTP chamado "O Caminho Faz-se Caminhando", a frase do poeta espanhol António Machado (da geração de 27) que ele tanto gostava de citar na política quando ainda era um político ativo.

Almoçámos num dos seus restaurantes favoritos, um restaurante popular. Bebe um moscatel como aperitivo enquanto espera, porque chega sempre antes de toda a gente, incrivelmente pontual como foi toda a vida. E, dantes, incrivelmente maldisposto quando os outros não respeitavam a pontualidade. Hoje, está mais calmo em matéria de horários. Escolhe uma costeleta com batata frita e grelos salteados, com uma sopa. "A primeira coisa que vou comer é uma sopa". Há uns anos, lembro-me de um repasto num restaurante fino no Douro, e de outro repasto finíssimo em Espanha, em que a cozinha tendia para o molecular, versão copiada do género inventado por Ferran Adrià. Soares resmungou o tempo todo, suspirando que aquele estilo não era o seu, clamando por um prato vital, cheio, tradicional. Em casa, mandava sempre fazer uns petiscos de que gostava, como pataniscas de bacalhau ou peixinhos da horta.

É por isto que gosta deste restaurante, lá se diz na entrada Comida Tradicional Portuguesa. "A melhor comida do mundo", na opinião dele. Meia garrafa de vinho branco gelado, alentejano, porque eu vou comer garoupa. "Bebemos o que quiser, eu prefiro branco, mas se gosta mais de tinto..." Mete-se com o empregado, "o baiano", "um grande amigo meu", porque os brasileiros lhe lembram um dos seus países queridos, o Brasil. Agarra o braço do "baiano", que é do interior da Baía e já sabe os gostos dele, adianta serviço. "O senhor doutor costuma comer a sopa, vou trazer." "Sopa de rúcula? O que é isso, rúcula? Sopa de rúcula? Nunca ouvi falar! É bom?" Todos o tratam com respeito e com afeto e de outras mesas chegam pessoas a cumprimentá-lo como se o conhecessem de sempre. "Este não conheço de lado nenhum, mas ele parece que me conhece a mim, é natural". O baiano convence-o de que a sopa de rúcula é excelente. "Venha a sopa de rúcula, que raio de nome!"

UMA VIDA CHEIA
Anda nisto, a viagem da vida, há nove décadas. Com muito gosto. Fundador do Partido Socialista. Fundador, ou um dos pais fundadores, da democracia portuguesa nascida da revolução de abril. Foi sempre um europeísta e um internacionalista. E sempre reclamou o título de patriota. "Como é que se pode não ser patriota quando se gosta de Portugal?" Sempre lhe ouvi estas palavras.

Já não viaja tanto como dantes, desde a doença (uma encefalite, infeção aguda do cérebro) e tem pena. Nunca foi a Timor, o único lugar onde se fala português onde não foi. "E agora já não irei". A Fundação Mário Soares alberga um arquivo de Timor. Nem vai já a Paris, para onde viajava todos os outonos. Paris sempre foi a sua cidade, a do exílio, das memórias, das amizades políticas, da cultura francesa, das livrarias donde regressava carregado de sacos, dos jornais e revistas de cujos diretores era amigo (como o do "Nouvel Observateur", Jean Daniel) dos bouquinistes do Sena e dos bons restaurantes e vinhos. De "mon ami Mitterrand". Depois da doença foi lá "por causa de um livro que lá publiquei em francês. E antes disso, fui porque sou presidente de um prémio que atribuímos ao Presidente da República ainda ele não era Presidente, o Hollande. Ele pediu-me para ir entregar-lhe o prémio e eu fui. Estava melhor do que estou hoje. Correu lindamente".

Que avaliação faz do mandato de François Hollande, que é geralmente considerado uma desgraça? "Eu digo o mesmo. Não estou contente com o mandato do Hollande". Obama é o seu favorito, "uma grande figura, aquele Congresso de direita não o deixa governar, são antidemocratas". "O Hollande é um socialista, eu conheci-o no tempo do Mitterrand, ele levava a pasta do Mitterrand". Quando lhe digo que Hollande não foi treinado por Mitterrand, um grande sedutor, para lidar elegantemente com as histórias de mulheres, e que a história de alcova em que se meteu é lamentável e deu cabo dele, Soares acena com a cabeça. "Pode ter dado cabo dele mas também deu cabo dela. Uma mulher furiosa, nada mais". Haveria gente mais interessante para ter ficado com o trono do Partido Socialista? "Havia, a filha do Delors, Martine Aubry. Ativíssima. Não sei se ela é candidata ao que quer que seja, mas é uma socialista autêntica". E Manuel Valls, o primeiro-ministro francês, que sugeriu retirar a palavra Socialista de Partido Socialista? "Uma besta! Não podia continuar como primeiro-ministro. Eu escrevi um artigo nessa altura sobre isso em que dizia que aquele tipo devia ir para a rua imediatamente. Um Presidente que é eleito como socialista e que tem um primeiro-ministro que diz que quer deitar o socialismo fora! Eu demitia-o, evidentemente. É infeto que Hollande o mantenha".

SOCIALISMO DE BOA SAÚDE
Será o socialismo uma relíquia? A verdade é que existe uma crise grave dos partidos socialistas na Europa. "Nem em todos. O futuro é socialista. Porque este estado de coisas, estes regimes em que os tipos de direita fazem tudo o que querem às pessoas, não se pode manter". No caso de Espanha, abre uma exceção de caráter para Mariano Rajoy. "Não acho que seja um vigarista. Pode ser um homem pouco inteligente, se quiser, mas tem a vantagem de ser galego e os galegos são amigos de Portugal". Quando lhe digo que em Espanha o PSOE não tem já um Felipe González, ele responde que não, mas "tem um tipo extraordinário e um grande socialista, o Pedro Sánchez. Tenho a melhor opinião dele". Não acha nada que o socialismo vá acabar, pelo contrário. "O socialismo é fundamental para que a União Europeia continue. A UE foi feita com dois partidos, o Democrata-Cristão e o Socialista. E a União vai continuar". A posição alemã e a intransigência quanto ao défice, com os planos de austeridade, são "coisas que será bom discutir à distância, quando o tempo passar e se vir o resultado. Eu não gostaria de calçar os sapatos da sra. Merkel porque a Alemanha está em decadência. O que se passa na Alemanha é o contrário do crescimento económico". Não estará o capitalismo numa fase diferente, mais avançada, tecnológica, academicamente obscura, do que no tempo em que ele era o chefe do Partido Socialista? O empreendedorismo e a livre iniciativa como inimigos declarados do contrato social? "Não! Você acha que há livre iniciativa num Governo como o português ou o espanhol?" Bom, eu quero dizer com isto iniciativa privada. "Ah! Isso é uma coisa diferente! Ah! Muito diferente! Nada de livre".

Os socialistas ou se reformam ou morrem, é a tese da direita, e não só da direita. "Coitada da direita! É preciso acabar com a direita! É isso. Já lhe disse que quem fez a Europa, a União Europeia, foi o socialismo democrático e a democracia cristã. O que existem agora são partidos que historicamente não fazem sentido".

Quando lhe pergunto qual é que ele acha que é o pior governo da Europa, com exclusão da Hungria, que é um caso que roça a autocracia, ele diz que "o Governo português é muito mau, é péssimo!" Também não modera a crítica ao Presidente da República, que acha irremediavelmente comprometido com o caso BPN. "O Eanes, o Sampaio e eu nunca fomos assim". O Presidente já disse que não haveria eleições antecipadas, ponto final. Ou seja, mais um ano deste Governo? "Se calhar... ele o disse".

Digo-lhe que quando ele usa palavras mais violentas ou desbragadas para criticar certos políticos de direita, a reação é acusá-lo de estar muito velho e não saber o que diz. "Bom, a verdade é que eu estou realmente muito velho!" Muita gente está a ser atacada por delito de velhice e não perceber o mundo em que vivemos hoje. "Já reparei nisso. O ataque aos velhos. Estão no seu direito. Um dia também vão ser velhos e não é nada fácil!"

ORGULHO NA FUNDAÇÃO
Fica enervado quando lhe digo que é atacado por causa da Fundação Mário Soares, que é acusado de ter atacado o Governo quando lhe retiraram parte do subsídio público da Fundação e diz-me que nunca foi nada disso e que a Fundação não depende disso. "Fiz a Fundação com o dinheiro, as doações que me deram para uma campanha eleitoral, e que não usei. Não gastei. Fui [ter com os doadores] para o devolver, está aqui o vosso dinheiro, mas eles não o quiseram de volta porque já estava nas escritas deles. Ora eu não ia ficar com o dinheiro. Disse que ia criar uma Fundação, desde que eles assim o entendessem e ficassem membros fundadores da Fundação. A Fundação nunca gastou esse dinheiro com que se fundou, nunca tocámos nesse dinheiro. Se tivermos amanhã uma dificuldade de dinheiro, esse dinheiro está lá, faz parte da Fundação. A Fundação não depende de nenhum Governo. Agora se quer falar disso a sério, tem de me deixar contar a história toda, não uma parte dela. Estou muito orgulhoso do trabalho da Fundação". Anos atrás, lembro-me de o ouvir dizer que todo o dinheiro que recolhia do intenso trabalho quando se retirou da política, nomeadamente livros e programas de televisão que fez, investiu na Fundação a que chamava "uma amante muito cara". Diz que não se lembra de me dizer isso e que a história da Fundação não pode ser assim contada, num restaurante.

O mau feitio não mudou com os anos e o bom feitio também não. Nunca foi homem de fundos rancores ou ódios. "Nunca tive mau feitio, sempre considerei os tipos com qualidade, mesmo quando não eram meus amigos ou eram meus inimigos no tempo em que eu tinha funções políticas. Qualidade é o que me interessa. O Eanes é um tipo de qualidade, como o Sá Carneiro era". Compara a postura deles com a de um membro do Governo sobre o qual conta uma história pouco exemplar que se passou com ele noutro restaurante. Pergunto-lhe se posso publicar a história com nomes e ele diz que não. "Pode mas não deve. Já tenho demasiadas coisas em cima de mim". Falo-lhe das coisas terríveis que escrevem sobre ele na internet, do falso e difamatório texto com a minha assinatura posto a circular todos os meses (desde há anos) e em que ele é atacado de uma forma soez e canalha. Truques de vingança e propaganda que não existiam no tempo em que ele era político. "A internet? Não leio. Não quero saber. Você quer que eu leia a internet? Nunca me preocupei com o que dizem sobre mim e não vou agora começar. O diz que disse não tem nenhum valor! Todos os dias sou confrontado com senhoras e cavalheiros que me vêm abraçar e dizer 'livre-nos dessa malandragem!' Todos os dias!"

A ENCEFALITE
"Estou numa fase da minha vida que é a última. Vou fazer 90 anos. Tive uma encefalite que me enfraqueceu". Uma infeção geralmente viral a que poucos sobrevivem e muitos menos na idade dele. O que assinala a sua robustez. "Tenho um bom coração, tudo aqui dentro do peito está em ótimas condições, impecável. Agora as pernas... as pernas chateiam-me. Fora as outras coisas". Cada dia é um ato de heroísmo naquela idade? "Não! Felizmente não. Os médicos sabem tomar conta de um tipo, sabem o que fazem. Quem me salvou foi o António Damásio, sou muito amigo dele. Houve duas pessoas que me salvaram, a primeira foi a Maria de Sousa, a que eu chamo 'a sábia' e que por acaso foi a minha casa naquele dia tomar o pequeno-almoço, vinda do Porto. Ela é como se fosse família. Disseram-lhe que eu tinha ido para o hospital e ela foi lá ter a correr. Eu estava em coma e ela entrou em contacto com o Damásio".

Digo-lhe que a família dele, a mulher e os filhos, praticamente acamparam nos cuidados intensivos e nunca o deixaram sozinho, quase me fazendo lembrar as famílias de ciganos que acampam no hospital para nunca abandonarem um dos seus. A lealdade da tribo. "A minha família, claro.

Reconciliei-me agora com a minha filha". Os rumores diziam que ele estava zangado com o filho, João, por causa dos apoios a Seguro e Costa e ele diz: "Fiz as pazes com a minha filha, com quem me tinha zangado por causa de certos cuidados médicos que tenho de ter e o meu filho foi o intermediário. Não estávamos zangados, nunca estive zangado com o João! A relação com a família é ótima, como sempre foi. É a família, e podem dizer de nós o que quiserem".

É extraordinário, dada a intriga e críticas violentas que correm à simples menção do nome Mário Soares, que nesta idade ele ainda seja considerado um inimigo político. "Sou o gajo que lhes atira mais às trombas, que quer você? E não digo mais nada, não quero falar mais de política. Porque sou um cidadão especial". Especial porquê? "Pelos cargos que desempenhei e pelas coisas que fiz. Sou um cidadão livre mas especial. Primeiro, desde os 14 anos que sou político. Segundo, desde sempre escrevi o que quis. E registei tudo aquilo que me disseram. Registei tudo. Tenho tudo escrito desde os meus 14 anos. Se quiser dar-me a honra de visitar a minha biblioteca para ver o que está guardado verá que está lá tudo o que escrevi desde os 14 anos, o que publiquei e não publiquei e tudo o que me responderam e disseram". A biblioteca, que ele arrumou há poucos anos no andar de cima da casa do Campo Grande, comprado para o efeito, é um verdadeiro arquivo da História de Portugal. Visitei-a quando Mário Soares andava a arrumá-la, empoleirado, ordenando temas e datas e mostrando os livros, as primeiras edições, com orgulho. Tem lá o seu escritório com vista para terraço arranjado com plantas pelo amigo Gonçalo Ribeiro Telles. Nunca vi estes registos, estes diários, e pergunto-lhe se não deveriam estar na Fundação Mário Soares ou mesmo, um dia, na Biblioteca Nacional. "Não estão, não estão nem num lado nem noutro. Estão na biblioteca da minha casa. E saiu na quinta-feira [27 de novembro], como sabe, um livro meu com tudo o que escrevi entre 1970 e 1974, esses registos". "Cartas e Intervenções Políticas no Exílio", editado na Temas e Debates pela sua velha amiga e editora Guilhermina Gomes, a diretora editorial. Estes são os anos em que estava em Paris. "Está lá tudo, nestes escritos, porque eu falei com toda a gente. É História. E tenho livros de toda a gente. Tudo o que me escreveram e disseram e tudo o que lhes disse e escrevi está lá". Estas são as verdadeiras 'Memórias', as que se pensava que nunca tinha tido tempo para escrever.

Uma das grandes influências na sua formação política e republicana foi do pai, João Soares. Mas houve outros: "O Mário de Azevedo Gomes, o Hélder Ribeiro, o António Sérgio, talvez tivessem ainda mais importância do que o meu pai. Todos contribuíram". E Álvaro Cunhal? "Numa certa altura, sim, depois deixou de ter e depois tive de o combater. Sou muito diferente do Cunhal". Cunhal era ou não uma grande figura? "Não tão grande como dizem, era um leninista". Entre a gente que conheceu nos verdes anos, e nos maduros, os políticos nacionais e internacionais com quem privou, do amigo Mitterrand ao amigo Willy Brandt, e a gente que vê hoje deslizar pela política, nota uma grande diferença. Tem saudades desse tempo? "Não". Soares nunca quer falar do passado e detesta a nostalgia. O futuro sempre lhe interessou mais. "E assim continuo, o que me importa e interessa é o futuro". Na idade dele, seria de esperar que o futuro lhe importasse menos do que a memória. É uma forma de altruísmo pensar o futuro onde não se vai estar. Soares foi dos primeiros a interessar-se pelo estado do planeta, a sua preservação, e a preservação dos mares como património da Humanidade. No que foi ajudado pelo seu grande amigo, o cientista Mário Ruivo, uma autoridade em oceanos. Foi um ecologista quando ainda não se falava em alterações climáticas ou a ecologia era confundida com manobras comunistas de distração e manipulação. Verde por fora vermelho por dentro era o grito contra a ecologia. "Sempre me preocupei com o planeta, você não imagina o estado em que está este planeta! É fundamental salvar os oceanos e não estamos a fazê-lo, fartei-me de organizar coisas para isso. E o ano passado, com as marés de inverno, o litoral português desapareceu. A areia foi-se e este ano vai ser pior. É preciso impedir esta catástrofe".

E está confiante no futuro? Ou numa mudança política em Portugal? "Dentro de um ano este Presidente deixa de ser importante, o que não é pouco".

Uma das libertações da idade é que ele, que nunca foi paciente, pode dar inteira liberdade à sua impaciência. "Cada vez tenho menos paciência para certas coisas".

ADMIRAÇÃO POR OBAMA
Nesta altura da refeição ele mandaria vir, in illo tempore, um charuto. Ou fumaria, uns anos antes disso, um cigarro. O cigarro nunca pareceu nele um adereço natural. "Nem cigarro nem charuto, agora, e nunca engoli o fumo". Digo que está como o Presidente Bill Clinton, que diz que experimentou marijuana mas nunca engoliu. Mário Soares gosta de Bill Clinton, que conheceu, e da "madame Clinton". "Mas Obama é o meu favorito, sem dúvida. Um tipo de uma categoria excecional". A Administração Obama perdeu esta eleição intercalar. "Ele não perdeu as eleições, foram os democratas que perderam as eleições, o que é um bocado diferente". Regresso às derrotas dos partidos socialistas e sociais-democratas, que parecem nunca se terem recomposto da queda do Muro. "Não existem, ou melhor, não têm existido durante este período, mas vão ter de existir ou a União Europeia vai para o charco". Acha que existe uma hipótese de Marine Le Pen ganhar as presidenciais em França? "Existe, mas espero que não ganhe". Não acha que seja o fim da União Europeia se Le Pen ganhar, e aprecia Jean-Claude Juncker, está convicto de que ele segurará. "Conheço o Juncker muito bem, acho que ele impedirá a União Europeia de se partir". E se o Reino Unido quiser sair? "Oxalá, não tem para onde ir". E a ligação com a América, não será tudo o que precisam? "Os ingleses nunca deixaram que os americanos fizessem parte da Commonwealth, nunca criaram esse espaço como nós fizemos como espaço da lusofonia incluindo o Brasil. E nunca deixaram porque têm medo dos americanos".

O Brasil tem recursos económicos que não temos, e no caso da PT não demonstrou grande solidariedade lusófona. "Os brasileiros têm grandes problemas, estão aflitíssimos. Isso da PT foi tudo uma estupidez. O modo como o Governo resolveu destruir o aparelho do BES prejudicou tudo o resto, não perceberam como o grupo era importante para a economia e deram cabo de tudo. E hoje toda a gente ficou danada, foi tudo mal resolvido. Atiraram tudo abaixo sem nenhuma vantagem para Portugal". Mas os administradores do BES não cometeram demasiados erros e trafulhices? "Claro que cometeram, e toda a gente parece que sabia disso e não se importava".

A situação de Portugal incomoda-o. A venda de ativos e centros de decisão nacionais, a alienação de bens a preços de saldo. "Hoje, Portugal não existe. Se for de Bragança ao Algarve a pé não encontra ninguém. Não há terras cultivadas, populações, vida. Estes gajos estão a destruir o nosso país, estão a vender tudo, só falta a TAP". Inconsciência do Governo? Aperto? Ideologia? "É também inconsciência. Falta de experiência". Atravessamos um momento de algum desespero? "Algum é favor. Desespero mesmo". Há um certo medo que faz recordar o marcelismo, o fim do regime. "O Caetano? O Caetano era outra coisa, não era como estes tipos, pode crer".

Nesta altura, Bagão Félix, que estava a almoçar numa mesa do mesmo restaurante, aproxima-se para cumprimentar "o senhor doutor". E cumprimenta-o pela excelente forma. "Na minha idade nunca se está em grande forma. Tive uma encefalite que me dá grandes lapsos de memória mas o que é interessante é que resisti quando toda a gente dizia que eu ia morrer!" Bagão Félix diz que o pai, com 94 anos, acaba de renovar a carta de condução. "Eu isso não faço, a partir dos 80 anos deixei de beber whisky e bebidas assim, deixei de fumar, deixei de guiar". Mário Soares era um péssimo condutor, há que dizê-lo, e um passageiro apressado e apreciador de velocidade. A mecânica nunca foi o seu forte.

SEM RANCORES
Estamos no fim do repasto, sem doces nem café. Pergunto-lhe se está um bocado amargurado com a pátria, se estas crises lhe roem os anos que lhe restam. "Nada! Não tenho amargura. O que me interessa é o futuro e no futuro o socialismo vai regressar, não tenho nenhuma dúvida. Acha que os bandidos e os mercados não vão mandar nisto para sempre?" Respondo que não me parece tão certo o triunfo do socialismo. Ou dos ecologistas. A China e os EUA, os dois maiores poluidores reunidos em cimeira recente, não vão deixar de poluir o planeta, e a Índia recusa-se a deixar de usar o carvão. Ou seja, o capitalismo nascente e o velho capitalismo americano não estão dispostos a deixar de ganhar dinheiro, como compete ao capitalismo. E a Rússia? "O Putin, ex-KGB, é um filho da mãe, muito diferente de Gorbatchov". E no Médio Oriente "nunca houve tantas guerras como há hoje". Das personagens políticas com as quais se correspondeu e conheceu e de quem foi amigo, destaca François Mitterrand, "um grande intelectual e amigo", Willy Brandt e Helmut Schmidt. "Estes, sim, eram grandes políticos alemães".

Vai continuar a escrever no "Diário de Notícias", mas decidiu que não se mete mais em política. "Já tenho chatices que me cheguem, tenho de cuidar dos livros". Mas que é que lhe podem fazer? Que "chatices" pode vir a ter com os seus inimigos? Digo-lhe, a brincar, que não o podem deportar para São Tomé ou exilar em Paris. "Não, não podem, mas se pudessem neste momento não me dava jeito. Tenho de estar cá, em Portugal".

2014/11/27

A geração da televisão a preto e branco está a desaparecer

Primeiro foi Anthímio de Azevedo, agora Sousa Veloso. Em jeito de homenagem a este último, recordo mais um momento de génio do Herman.