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2010/11/16

Uma sugestão aos autonomistas

Na terça feira, enquanto estava encalhado no comboio em Vila Nova de Gaia, fui avançando na leitura do Guerra e Paz. (Na verdade eu li foi durante a viagem. Enquanto o comboio esteve parado em Gaia, fazendo-me perder duas ligações, eu não consegui ler nada, stressado que estava a protestar por mais um suicida ter tido a desconsideração de se atirar à linha de comboio, prejudicando a vida de quem queria ir trabalhar, quando tinha o rio Douro ali mesmo ao lado.) A páginas tantas (530, para ser exato), cheguei à seguinte passagem, que aqui transcrevo:
"A tradição bíblica ensina-nos que a felicidade do primeiro homem antes da queda consistia na ausência de trabalho, isto é, na ociosidade. O gosto da ociosidade manteve-se no homem réprobo, mas a maldição divina continua a pesar sobre ele, não só por ser obrigado a ganhar o pão de cada dia com o suor do seu rosto, mas também porque a sua natureza moral o impede de encontrar satisfação na inactividade. Uma voz secreta diz ao homem que ele é culpado de se abandonar à preguiça. E, no entanto, se o homem pudesse achar um estado em que cumpria um dever, embora inactivo, esse estado viria a encontrar uma das condições da sua felicidade primitiva. Esta condição de ociosidade imposta e não censurável é aquela em que vive toda uma classe social, a dos militares. Em tal ociosidade está e estará o principal atractivo do serviço militar."
Guerra e Paz é uma obra fundamental e Tolstoi é mesmo um génio, pois descobriu o que deveriam os autonomistas fazer: talvez devessem era ir todos para a tropa.

2010/05/19

O “Caso República” aos olhos de hoje

Cartoon de Sam

O PREC português foi rico em episódios notáveis. Alguns ternurentos, como a formação de cooperativas e o assalto aos latifúndios. Alguns trágicos, como os atentados às sedes do PCP no norte do país, as redes bombistas, os assassinatos de militantes de esquerda. Alguns (muito) cómicos, como o primeiro-ministro que declara ao presidente da república encontrar-se “em greve”, que ser sequestrado era “uma coisa que chateava, pá” e, perante uma granada, que “era só fumaça” e “o povo era sereno”.
Todos estes episódios fazem parte da nossa história e, para quem os viveu, da memória coletiva. Mas são nossos, portugueses. O “Caso República”, de que passam hoje 35 anos, pelo contrário, é um episódio que merece ser estudado e meditado a nível internacional, nos cursos de Ciência Política, pelo que tem de fascinante e paradigmático.
No “Caso República” (os mais moços podem recordá-lo, ou mesmo aprendê-lo, aqui) estão em confronto a um nível elementar, e por isso bastante profundo, o capital, o trabalho, a liberdade intelectual e de imprensa e, sobretudo, as relações e hierarquias entre profissões diferentes. Para uma pessoa de direita, creio que o lado certo só pode ser um (mesmo se o jornal fosse afeto ao PS, como era!). Para uma pessoa de esquerda, creio que a resposta já não é nada óbvia. É claro que para os artistas Bastos o lado certo só pode ser o outro, sem discussão, e ainda hoje atiram essa questão aos interlocutores, como que para atestarem a “pureza ideológica”.

2009/12/16

Duas ou três coisas sobre o “caso Berlusconi”

Não posso de forma nenhuma apoiar acções como a de que o primeiro ministro italiano foi vítima. Mas o facto de ter sido vítima deste acto tresloucado não faz de maneira nenhuma de Berlusconi um herói, ao contrário do que afirma Ferreira Fernandes. Herói teria sido se enfrentasse uma multidão adversa. Mas o acto de Silvio Berlusconi ao exibir a sua face ferida e deformada àquela multidão (mesmo se esta lhe fosse maioritariamente adversa) não é um enfrentamento: o ataque de que Berlusconi foi vítima foi, claramente, um acto isolado, de uma pessoa. Não foi nenhum linchamento popular. Berlusconi não se esconder, repito, não tem nada de heróico.
O autor deste lamentável incidente foi identificado e, dentro da sua (in)imputabilidade, foi ou vai ser responsabilizado pelo seu acto. Entretanto parece que o autor já tem mais de 30000 “amigos” no Facebook. Quantos destes “amigos” eram capazes de praticar e dar a cara por um acto destes? Tornar-se amigo no Facebook, escrever em blogues, comentar em jornais é muito fácil. Diz-se que o governo de Berlusconi foi o responsável pelo esmagamento dos protestos de Génova, em 2001. Como tal, quem lá estava “sorri” ao ver Berlusconi “esmagado”. Eu não estava em Génova em 2001, mas estava na Assembleia da República em 1993 (com muitos colegas de curso de membros deste blogue), quando o governo de Cavaco Silva também esmagou brutalmente, sem justificação, protestos contra a lei das propinas. Os subscritores portugueses deste grupo do Facebook também estariam dispostos a atirar uma réplica da Catedral de Milão, ou do Centro Cultural de Belém, a Cavaco Silva, assim que o vissem? (Este não é um apelo à violência, que eu condenaria. É uma questão de retórica.)
Muito interessantes os debates que têm ocorrido sobre o assunto no Cinco Dias e no Arrastão (vale a pena ler os textos e os comentários), nomeadamente sobre o papel do Estado como agente da luta de classes (que eu recuso – o Estado deve ser neutro) e monopolizador da violência. Não se pode “acabar” com a violência, por isso ser “contra” ela não tem muita utilidade prática. Pode ser-se contra a violência indiscriminada e irresponsável – o recurso à violência tem de ser mesmo o último recurso, mas por não podermos acabar com a violência não podemos exluir este recurso. sendo assim, o importante é que quem recorre à violência o faça mandatado pela sociedade, seja sempre identificado e possa ser responsabilizado (ou os seus superiores hierárquicos) pelos seus actos perante a sociedade.

Uma semana depois, vale a pena ler o artigo (premonitório) de José Saramago sobre o "no B-day":

Itália não merece o destino que Berlusconi lhe traçou com criminosa frieza e sem o menor vestígio de pudor político, sem o mais elementar sentimento de vergonha própria. Quero pensar que a gigantesca manifestação contra a "coisa" Berlusconi, na qual estas palavras irão ser lidas, se converterá no primeiro passo para a libertação e a regeneração de Itália. Para isso não são necessárias armas, bastam os votos.

2009/02/25

Em Braga, indecências nem no Carnaval


Passei o Carnaval como de costume no distrito de Aveiro (reportagem fotográfica no fim de semana!). Quando vi o telejornal à noite e ouvi este caso, nem queria acreditar. Faço minhas as palavras do Pedro Morgado: "Para lá do evidente moralismo, esta afirmação abre mais um precedente gravíssimo. Nem quero imaginar o que sucederia se estivesse nas mãos da PSP decidir o que deve e o que não deve ser exposto numa Feira do Livro..." Felizmente o Ministério da Administração Interna já condenou a medida...
(Ilustração roubada ao Pedro Vieira)

2009/02/20

Vera Fisher


Já foi a mulher mais desejada do Brasil. Agora ainda é bonita, e ouve conselhos que o João Branco também deveria ouvir (ver entre os minutos 6:44 e 7:22).

2008/05/26

Um governo de esquerda

“A igualdade é o valor mais nobre da democracia”, declarou a nova ministra da Igualdade de Espanha, a andaluza Bibiana Aído, no seu discurso de posse. (Via Corta-Fitas.)

2008/04/28

Max Mosley e os traseiros açoitados

No meu texto Viva a liberdade, viva a igualdade, viva a democracia referia-me a liberdades cívicas e, exclusivamente, a liberdades que interferem com as liberdades de outros. (Nos comentários dei o exemplo da liberdade de circular de carro dentro de uma cidade quando existem transportes públicos, o exemplo acabado de uma liberdade burguesa.) Restrições a esse tipo de liberdades são necessárias se se quer combater as desigualdades e lutar por um mundo mais sustentável.
Nada disso tem a ver com liberdades pessoais, de comportamentos que só digam respeito ao próprio indivíduo (e a adultos que voluntariamente se associem). Pertence a este grupo a privacidade sexual, incluindo fetiches que nos possam parecer repugnantes e que estejam associados a uma simbologia e a factos históricos que repudiamos. É este o caso das fantasias sexuais de Max Mosley, presidente da Federação Internacional do Desporto Automóvel, que mais uma vez faltou a um Grande Prémio de Fórmula 1. O passado político do seu pai não se recomenda mesmo nada, mas tal não torna legítimo julgar as suas fantasias sexuais, e muito menos pedir a sua demissão por um caso que não tem nada a ver com a Fórmula 1. Sobre este assunto, recomendo uma das recentes colunas “Piedra de Toque” de Mário Vargas Llosa.