Texto de José Saramago, Público, El Pais e Folha de São Paulo, 19/09/2001
Algures na Índia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá "ver" cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes.
Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um
negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro. Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras. Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova York. Dois aviões comerciais norte-americanos, sequestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico, lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo.
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2010/06/19
2010/06/11
João Resina Rodrigues (1930-2010)
Estudante de Engenharia Química no Instituto Superior Técnico, tendo sido colega de curso de Maria de Lurdes Pintasilgo, viria posteriormente a ordenar-se sacerdote, tendo-se doutorado em Filosofia na Universidade de Lovaina. Regressou ao Instituto Superior Técnico como docente de História da Ciência, tendo testemunhado de perto as convulsões e crises académicas da escola antes de 1974. Ao mesmo tempo manteve sempre a atividade de sacerdote, sendo prior da Capela do Rato, que funcionava como lugar de reunião de católicos antisalazaristas. Por estas razões era elemento suspeito para o regime fascista, tendo sido vigiado pela PIDE durante as suas homilias e mesmo fora da igreja.
Já depois do 25 de Abril continuou como sacerdote e a dar aulas de física (História das Ideias e Mecânica Analítica) no Instituto Superior Técnico, tendo sido professor de grande parte dos elementos deste blogue. Das suas aulas recordo o profundo respeito pela diversidade de opiniões. Resina era um homem que sabia ouvir, e respeitava quem pensasse de forma diferente da sua. Nas suas aulas falava-nos do valor inquestionável da ciência (ele próprio foi cientista) e jamais se serviu da sua posição de docente no ensino superior público para qualquer tipo de proselitismo. Fazia questão de frisar que não estava interessado ali em saber se éramos crentes ou não.
A sua posição sobre o aborto, que podemos ler nesta entrevista a António Marujo, e que podemos sumarizar como “as leis do Estado não têm que traduzir a posição da Igreja Católica”, demonstram como um sacerdote católico pode entender o que é a laicidade. É pena que haja tão poucos assim.
Já depois do 25 de Abril continuou como sacerdote e a dar aulas de física (História das Ideias e Mecânica Analítica) no Instituto Superior Técnico, tendo sido professor de grande parte dos elementos deste blogue. Das suas aulas recordo o profundo respeito pela diversidade de opiniões. Resina era um homem que sabia ouvir, e respeitava quem pensasse de forma diferente da sua. Nas suas aulas falava-nos do valor inquestionável da ciência (ele próprio foi cientista) e jamais se serviu da sua posição de docente no ensino superior público para qualquer tipo de proselitismo. Fazia questão de frisar que não estava interessado ali em saber se éramos crentes ou não.
A sua posição sobre o aborto, que podemos ler nesta entrevista a António Marujo, e que podemos sumarizar como “as leis do Estado não têm que traduzir a posição da Igreja Católica”, demonstram como um sacerdote católico pode entender o que é a laicidade. É pena que haja tão poucos assim.
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2010/05/14
Um 13 de Maio com tolerância de ponto
Enquanto no Técnico recebiam a visita do diretor-geral do CERN, que dava uma palestra, eu aqui no Minho tive que pedir que os seguranças me abrissem a porta do lugar de trabalho. Mas tinha marcado uma reunião com um aluno, à mesma hora em que o Papa rezava missa em Fátima.
2010/05/12
Foi a 24 de Abril
Bandeira do PCP impede funeral (via Um Tal de Blog).
Publicado originalmente no Esquerda Republicana
Publicado originalmente no Esquerda Republicana
2010/05/10
Benfica campeão (2)
...com a bênção do papa. Era giro olhar para aquela turba a festejar no Marquês de Pombal sob um retrato gigantesco do papa. Mais giro ainda é supor como deixam a cidade para o cortejo da visita de amanhã.
2010/04/26
A minha política é o trabalho dignificado e com direitos para toda a gente
O que se escreve sobre a “tolerância de ponto” a propósito da visita do Papa em dois conhecidos blogues da esquerda portuguesa?
No Cinco Dias, para o patusco António Figueira “mais um feriado é sempre mais um feriado”. Os outros que trabalhem. Que é como quem também diz: menos um imposto pago é sempre menos um imposto pago (os outros que paguem). E assim por diante. E ainda vem com a inevitável comparação com os feriados religiosos. Os feriados religiosos até poderiam nem ser obrigatórios (é outra discussão) mas, mesmo sendo-o, estão previstos e planeados. Não são uma medida avulsa e casuística. Não afetam a economia por isso. Mas melhor ainda é quando o António deseja que festividades de diversas religiões fossem reconhecidas como feriados e, reconhecendo que este é um país de “caretas” (por sinal o António deve ser o tipo mais bota-de-elástico da blogosfera portuguesa) ameaça… emigrar! Caro António, sugiro que imprimas esta declaração e a vás entregando junto com os pedidos de visto de trabalho, a ver qual país é que te aceita…
Já no Vias de Facto, Miguel Serras Pereira insurge-se contra um grupo do Facebook já aqui mencionado pelo Ricardo Alves: “eu trabalho e não quero tolerância de ponto no dia 13 de Maio”. Não parece preocupar Miguel Serras Pereira que haja trabalhadores (não funcionários públicos) que não tenham direito à tal tolerância. Nem que alguns, precários a recibos verdes, que até podem ser católicos e, legitimamente, gostassem de tirar um dia de férias para irem ver o Papa, não o possam fazer. E não parece preocupá-lo, também, que haja funcionários públicos que queiram trabalhar (será seguramente o que eu vou fazer). Não passa pela cabeça do Miguel Serras Pereira, pelos vistos, que haja quem queira trabalhar, e que fazer um protesto, ou uma greve, nunca é (ou nunca deve ser) sinónimo de dizer-se que não se quer trabalhar. Bem pelo contrário – por isso, e só por isso, é ofensiva a expressão “a minha política é o trabalho”, despropositadamente citada por Miguel Serras Pereira, que troca tudo.
Passemos por cima do que Serras Pereira considera “politicamente desastroso”: “dada a crise que atravessamos, não podemos perder tempo de trabalho” (pelos vistos para Serras Pereira a crise não existe ou, se existe, os outros – não necessariamente os ricos -que a paguem: ele é que não). O autor do Vias de Facto sugere protestos alternativos, “puxando um pouco pela imaginação”. (Sempre a “imaginação” a descredibilizar a esquerda. Pior que a “imaginação” só o “sonho”.) Que protestos seriam? Um “encontro-convívio-jornada de onde saísse a reivindicação de transformar essa data num feriado anual celebrando a "liberdade de consciência" e/ou a "cidadania laica", que, de resto, a Constituição em vigor consagra.” Quererá Serras Pereira um feriado por tudo o que a constituição em vigor consagra? Mas, mesmo pondo esta questão de parte, atentemos no essencial: o Papa visita Portugal (um direito inquestionável, desde que não seja pago pelos nossos impostos). Só os católicos o deveriam receber (e não o Estado). A resposta de quem defende a laicidade deveria ser a indiferença (tornando este um dia normal – de trabalho). Serras Pereira propõe que o país passe a dedicar um feriado anual a esta data? O Papa deveria sentir-se mesmo importante… E propõe que toda a gente celebre este evento… com um “encontro-convívio-jornada”. O saudoso Odorico Paraguassu, na sua sabedoria, chamava à sua oposição “esquerda cervejista”. O Miguel Serras Pereira assume-se como um membro de pleno direito da “esquerda cervejista”. A este ponto chegámos.
Recordo, a propósito, uma ocasião em que assisti a um debate, na Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, onde participou um dos membros do Vias de Facto, Diana Andringa. Aproximavam-se na altura, todos o pressentiam, tempos (que viriam a ser sangrentos para alguns colegas meus) de combate às propinas, no fim do cavaquismo, e Andringa deixou-nos (eu era caloiro) um conselho que eu nunca esqueci até hoje, e que foi mais ou menos assim: “não bebam e nem joguem às cartas nas manifestações – dá um mau aspeto do caraças”. Miguel Serras Pereira, pelos vistos, quer transformar os protestos em “encontros-convívio”, provavelmente com bebida e jogos de cartas. A Diana Andringa que lhe ensine alguma coisa, se conseguir.
E assim vai certa “esquerda”: só serve para pedir mais um feriadinho. A “jornada suplementar pela batalha da produção” em que se tornou o feriado de 10 de Junho de 1975 (numa iniciativa da Intersindical) seria impensável hoje, por muitas razões (a principal das quais a que cada vez menos pertence ao povo o que o povo produz). Mas, mesmo que pertencesse, uma “batalha da produção” como resposta à crise seria impensável para quem “mais um feriado é sempre mais um feriado”. Quem pensa assim, mesmo à luz da doutrina comunista, não produz muito. E também não lhe deveria pertencer muito.
Também publicado no Esquerda Republicana
No Cinco Dias, para o patusco António Figueira “mais um feriado é sempre mais um feriado”. Os outros que trabalhem. Que é como quem também diz: menos um imposto pago é sempre menos um imposto pago (os outros que paguem). E assim por diante. E ainda vem com a inevitável comparação com os feriados religiosos. Os feriados religiosos até poderiam nem ser obrigatórios (é outra discussão) mas, mesmo sendo-o, estão previstos e planeados. Não são uma medida avulsa e casuística. Não afetam a economia por isso. Mas melhor ainda é quando o António deseja que festividades de diversas religiões fossem reconhecidas como feriados e, reconhecendo que este é um país de “caretas” (por sinal o António deve ser o tipo mais bota-de-elástico da blogosfera portuguesa) ameaça… emigrar! Caro António, sugiro que imprimas esta declaração e a vás entregando junto com os pedidos de visto de trabalho, a ver qual país é que te aceita…
Já no Vias de Facto, Miguel Serras Pereira insurge-se contra um grupo do Facebook já aqui mencionado pelo Ricardo Alves: “eu trabalho e não quero tolerância de ponto no dia 13 de Maio”. Não parece preocupar Miguel Serras Pereira que haja trabalhadores (não funcionários públicos) que não tenham direito à tal tolerância. Nem que alguns, precários a recibos verdes, que até podem ser católicos e, legitimamente, gostassem de tirar um dia de férias para irem ver o Papa, não o possam fazer. E não parece preocupá-lo, também, que haja funcionários públicos que queiram trabalhar (será seguramente o que eu vou fazer). Não passa pela cabeça do Miguel Serras Pereira, pelos vistos, que haja quem queira trabalhar, e que fazer um protesto, ou uma greve, nunca é (ou nunca deve ser) sinónimo de dizer-se que não se quer trabalhar. Bem pelo contrário – por isso, e só por isso, é ofensiva a expressão “a minha política é o trabalho”, despropositadamente citada por Miguel Serras Pereira, que troca tudo.
Passemos por cima do que Serras Pereira considera “politicamente desastroso”: “dada a crise que atravessamos, não podemos perder tempo de trabalho” (pelos vistos para Serras Pereira a crise não existe ou, se existe, os outros – não necessariamente os ricos -que a paguem: ele é que não). O autor do Vias de Facto sugere protestos alternativos, “puxando um pouco pela imaginação”. (Sempre a “imaginação” a descredibilizar a esquerda. Pior que a “imaginação” só o “sonho”.) Que protestos seriam? Um “encontro-convívio-jornada de onde saísse a reivindicação de transformar essa data num feriado anual celebrando a "liberdade de consciência" e/ou a "cidadania laica", que, de resto, a Constituição em vigor consagra.” Quererá Serras Pereira um feriado por tudo o que a constituição em vigor consagra? Mas, mesmo pondo esta questão de parte, atentemos no essencial: o Papa visita Portugal (um direito inquestionável, desde que não seja pago pelos nossos impostos). Só os católicos o deveriam receber (e não o Estado). A resposta de quem defende a laicidade deveria ser a indiferença (tornando este um dia normal – de trabalho). Serras Pereira propõe que o país passe a dedicar um feriado anual a esta data? O Papa deveria sentir-se mesmo importante… E propõe que toda a gente celebre este evento… com um “encontro-convívio-jornada”. O saudoso Odorico Paraguassu, na sua sabedoria, chamava à sua oposição “esquerda cervejista”. O Miguel Serras Pereira assume-se como um membro de pleno direito da “esquerda cervejista”. A este ponto chegámos.
Recordo, a propósito, uma ocasião em que assisti a um debate, na Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, onde participou um dos membros do Vias de Facto, Diana Andringa. Aproximavam-se na altura, todos o pressentiam, tempos (que viriam a ser sangrentos para alguns colegas meus) de combate às propinas, no fim do cavaquismo, e Andringa deixou-nos (eu era caloiro) um conselho que eu nunca esqueci até hoje, e que foi mais ou menos assim: “não bebam e nem joguem às cartas nas manifestações – dá um mau aspeto do caraças”. Miguel Serras Pereira, pelos vistos, quer transformar os protestos em “encontros-convívio”, provavelmente com bebida e jogos de cartas. A Diana Andringa que lhe ensine alguma coisa, se conseguir.
E assim vai certa “esquerda”: só serve para pedir mais um feriadinho. A “jornada suplementar pela batalha da produção” em que se tornou o feriado de 10 de Junho de 1975 (numa iniciativa da Intersindical) seria impensável hoje, por muitas razões (a principal das quais a que cada vez menos pertence ao povo o que o povo produz). Mas, mesmo que pertencesse, uma “batalha da produção” como resposta à crise seria impensável para quem “mais um feriado é sempre mais um feriado”. Quem pensa assim, mesmo à luz da doutrina comunista, não produz muito. E também não lhe deveria pertencer muito.
Também publicado no Esquerda Republicana
2010/04/19
2010/01/19
O casamento gay de Santo António
Claramente o casamento civil é uma instituição laica, e isso é válido também para os casamentos civis "de Santo António", apoiados financeiramente pela Câmara Municipal de Lisboa. Uma vez aprovado (como julgo que esperamos) o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a questão do apoio financeiro a esses casamentos por altura do Santo António teria que se pôr (e a resposta correta seria, claramente, a não discriminação, como manda a constituição). Mas essa questão só deveria ser posta nessa altura: tudo o que fosse pô-la antes da aprovação definitiva da lei seria uma provocação inútil e com consequências nefastas. Não me refiro somente à opinião dominante na sociedade sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo: refiro-me mesmo aos agentes que ainda têm que intervir no processo (Presidente da República; juízes do Tribunal Constitucional). Provocar a Igreja Católica pode ter graça para alguns, mas provocar estes senhores (e alguns deles podem sentir-se provocados por esta questão dos casamentos de Santo António) pode ter consequências desagradáveis, numa altura em que a lei ainda não passou (e não se sabe se passa).
Foi isso que eu pensei quando soube que esta questão se punha: falta de sentido de oportunidade. E é bem possível que a Fernanda tenha razão: pode ter sido uma ratoeira lançada pela Igreja Católica. E que a Câmara Municipal de Lisboa mordeu.
Texto também publicado no Esquerda Republicana
Foi isso que eu pensei quando soube que esta questão se punha: falta de sentido de oportunidade. E é bem possível que a Fernanda tenha razão: pode ter sido uma ratoeira lançada pela Igreja Católica. E que a Câmara Municipal de Lisboa mordeu.
Texto também publicado no Esquerda Republicana
2009/05/18
Nos 50 anos do Cristo Rei

Já aqui tinha deixado claro que não aprecio particularmente estátuas gigantescas de Jesus Cristo. De qualquer maneira gosto do Cristo Rei e acho que faz falta uma vista como aquela sobre Lisboa (que tinha que ser construída, ao contrário de no Rio, onde já havia Corcovado antes do Redentor). É sobretudo para isso que o Cristo Rei serve: para uma bela vista panorâmica sobre Lisboa. Apesar de tudo, o Cristo Redentor do Rio de Janeiro tem uma vantagem em relação à sua imitação lisboeta: está de costas voltadas para a Mata da Tijuca, onde não mora ninguém. A estátua do Cristo Rei volta ostensivamente as costas à população de Almada (e da Margem Sul em geral). Se alguém se interrogou sobre a força do PCP nesta região, talvez esta explicação ajude.
2009/03/25
Sobre as declarações do Papa

Há simplesmente que reconhecer que, tratando-se de sexualidade, o Papa não sabe do que está a falar.
Fotografia roubada ao Rui Curado Silva
2009/03/10
O mundo é simples: os judeus não conhecem limites
Com toda a sinceridade: quando li no Público de há uma semana uma matéria sobre o queijo da serra kosher, duvidei da sua relevância. Não do queijo kosher e dos seus fabricantes, a quem felicito pela iniciativa de divulgar o que de melhor há em Portugal por outras comunidades e desejo as maiores felicidades. Mas a relevância da notícia em si. O Público interessa-se pelo queijo kosher mas nunca se interessou pelo peixe congelado “Gonsalves” (assim com “s” para os americanos pronunciarem bem) vindo de Peniche, que eu comprava nos EUA. Da mesma forma também nunca se interessou pela comida das comunidades imigrantes em Portugal – já há lojas especializadas em produtos da Europa de leste, pelo menos em Lisboa, bem como da China e da Índia ou do Brasil ou África. Mas não é de se estranhar: afinal trata-se do mesmo jornal que conta entre os seus colunistas (para defender incondicionalmente Israel) com Esther Mucznik, representante de uma confissão religiosa ultraminoritária em Portugal, mas nem um único negro.
Foi por esse critério do Público que eu achei natural a referência ao queijo kosher. Mas qual não é o meu espanto quando descubro que há quem ache que tal artigo não é propaganda (gratuita) suficiente, e depois de tudo o que eu disse ainda consegue encontrar nele… anti-semitismo! Um gajo qualquer decide fabricar queijo kosher para exportação; o Público dedica duas páginas a tão importante e relevante matéria e ainda é anti-semita! Sinceramente tal blogue, em vez de “Boina Frígia”, deveria chamar-se “kippah”. Dá má fama à República – republicanos são estes. Mas nem se pense que isto tem algo a ver com república ou monarquia – o blogue onde encontrei a referência a tal texto até tem autores com fama de terem simpatias monárquicas. Não sei se tal é o caso de Henrique Burnay. Burnay não é nome de banqueiro? Pois… bem me queria parecer. Não há paciência para esta gente. Eu, pelo menos, não tenho.
Foi por esse critério do Público que eu achei natural a referência ao queijo kosher. Mas qual não é o meu espanto quando descubro que há quem ache que tal artigo não é propaganda (gratuita) suficiente, e depois de tudo o que eu disse ainda consegue encontrar nele… anti-semitismo! Um gajo qualquer decide fabricar queijo kosher para exportação; o Público dedica duas páginas a tão importante e relevante matéria e ainda é anti-semita! Sinceramente tal blogue, em vez de “Boina Frígia”, deveria chamar-se “kippah”. Dá má fama à República – republicanos são estes. Mas nem se pense que isto tem algo a ver com república ou monarquia – o blogue onde encontrei a referência a tal texto até tem autores com fama de terem simpatias monárquicas. Não sei se tal é o caso de Henrique Burnay. Burnay não é nome de banqueiro? Pois… bem me queria parecer. Não há paciência para esta gente. Eu, pelo menos, não tenho.
2008/05/27
O previsível CAA
Havia boas razões para apoiar quer o Chelsea quer o Manchester United na final da Liga dos Campeões. Eu fiquei contente pela vitória do Manchester, que queria que ganhasse. Porque o contrário era uma derrota do Mourinho (e eu gosto do Mourinho). E, sobretudo, pelo Cristiano Ronaldo.
Como era de se esperar, o Carlos Abreu Amorim estava pelo Chelsea. Não pelo Ricardo Carvalho nem pelo Paulo Ferreira, nem pelo Drogba ou pelo Ballack: seguramente, pelas origens do treinador Avram Grant.
Ah, como eu tenho pena que o Avram Grant não vá para treinador do Benfica, como se chegou a falar! Lá teríamos o CAA no Estádio da Luz, de kippah vermelha, a torcer pelo Benfica.
Como era de se esperar, o Carlos Abreu Amorim estava pelo Chelsea. Não pelo Ricardo Carvalho nem pelo Paulo Ferreira, nem pelo Drogba ou pelo Ballack: seguramente, pelas origens do treinador Avram Grant.
Ah, como eu tenho pena que o Avram Grant não vá para treinador do Benfica, como se chegou a falar! Lá teríamos o CAA no Estádio da Luz, de kippah vermelha, a torcer pelo Benfica.
2008/05/02
Proselitismo de 1º de Maio
Em plena Alameda, na concentração da CGTP, resguardados da multidão, cá atrás, dois mórmones perguntam-me, com sotaque americano: "o senhor não quer preencher o nosso questionário?" Bem em frente ao antigo Império, sede da Igreja Universal do Reino de Deus.
2008/02/06
2007/12/05
Petições, indignações e afirmações
Circula uma petição na rede a pedir à Câmara Municipal de Lisboa a edificação de um memorial às vítimas do massacre judaico de 1506. Pessoalmente apoio essa edificação (ou, mais genericamente, de um memorial às vítimas da Inquisição, que inclui os judeus), tal como defendo a edificação de um outro memorial que ninguém defende ou para o qual não se fazem petições: às vítimas da colonização portuguesa, em particular da escravatura. Não pretendo com estes memoriais fazer acertos de contas com a História, nem acho que de forma nenhuma Portugal se deva envergonhar do seu passado. Mas hoje deve recordar-se de alguns crimes trágicos (a inquisição e a escravatura à cabeça), e admitir que os cometeu. Esses memoriais servem para manter essa memória sempre viva.
Dito isto (e espero que tenha ficado bem claro), parece-me interessante averiguar a forma como episódios como o de 1506 em Lisboa são vistos, ainda nos dias de hoje, por quem certamente estaria na linha da frente da defesa da construção do memorial agora em questão. Um exemplo elucidativo é o de George Steiner, ensaísta, filho de judeus vienenses exilados nos EUA para escapar ao nazismo e ao Holocausto. Na recente conferência “A Ciência Terá Limites?”, realizada no final de Outubro na Fundação Calouste Gulbenkian, Steiner afirmou que “uma civilização que mata os seus judeus não recupera”. Eu sou o primeiro a defender que uma civilização que expulsa os seus judeus fica muitíssimo mais pobre (já nem falo em matá-los). Se os mata, então, comete um crime hediondo. Agora… não recupera? Não recupera porquê? Será alguma cabala? E será só com os judeus? Se matar os muçulmanos, os cristãos, os negros, os ciganos, os gays, já recupera? E se essa civilização, depois de matar os judeus, construir um memorial, já pode recuperar ou ainda não chega?
Esta extraordinária afirmação de George Steiner foi proferida na mesma semana em que se discutia a “teoria empírica” de James Watson, de que os negros são menos inteligentes que os brancos, baseada na observação dos seus empregados. Ninguém ficou indiferente às declarações de Watson: pessoas houve que, a meu ver bem, as condenaram como racistas e não-científicas; outras houve que (com alguns argumentos que reconheço serem válidos) defenderam a liberdade de expressão do cientista. Mas ninguém ousou sequer criticar esta afirmação (igualmente racista) de Steiner. Porquê?
Houve uma polémica esta semana no blogue da revista Atlântico, e no seu centro estava André Azevedo Alves. Tal como há uns meses houve outra grande polémica no Blasfémias, e no seu centro estavam os textos de Pedro Arroja. Do que conheço não vejo grande diferença entre as ideias de Azevedo Alves ou de Arroja (vejo uma grande diferença no estilo, e apesar de tudo prefiro de longe o deste último). Relativamente a Azevedo Alves as posições (particularmente na direita blogosférica) dividiram-se, mas os textos de Arroja foram condenados unanimemente. (Um bom exemplo desta dualidade de critérios é mesmo o director da Revista Atlântico.) Porquê?
Nem toda a direita procedeu assim, no entanto: Carlos Abreu Amorim, no Blasfémias, distanciou-se tanto dos textos de Azevedo Alves como dos de Arroja. Deveremos portanto gabar a coerência do truculento blasfemo? Não esperem por isso. Ainda esta semana foi votado um empréstimo bancário na Câmara Municipal de Lisboa, que foi prontamente condenado no blogue onde Abreu Amorim escreve. E alguém duvida de que este ultraliberal (e “mata-mouros” ainda por cima) é contra tamanho empréstimo, preferindo antes dispensar pessoal, cortar despesas e privatizar? Pois, e voltando onde este já longo texto começou, este mesmo autor usou o seu espaço de opinião no “Correio da Manhã” para exigir a uma câmara sobreendividada que construa um memorial aos judeus assassinados em Lisboa em 1506, insurgindo-se contra o adiamento desta proposta (não se falou em recusa da proposta, mas sim em adiamento)! Independentemente do empréstimo, o memorial seria mais importante que as dívidas da câmara! Mais uma vez, porquê?
A chave para a resposta a todos estes “porquês” está, creio, na afirmação de Steiner. De todos aqueles a quem apontei incoerências, estou certo de que nenhum condenaria essa afirmação. Eu considero-a racista e condeno-a, como já referi. Sou a favor da humildade e do reconhecimento dos nossos erros; por isso sou favorável à construção dos memoriais que referi, haja dinheiro para isso. O que eu não posso aceitar – é frontalmente contra os meus princípios, causando-me reacções viscerais – é que alguém se considere naturalmente melhor do que os outros, sem nunca ter de o demonstrar.
Dito isto (e espero que tenha ficado bem claro), parece-me interessante averiguar a forma como episódios como o de 1506 em Lisboa são vistos, ainda nos dias de hoje, por quem certamente estaria na linha da frente da defesa da construção do memorial agora em questão. Um exemplo elucidativo é o de George Steiner, ensaísta, filho de judeus vienenses exilados nos EUA para escapar ao nazismo e ao Holocausto. Na recente conferência “A Ciência Terá Limites?”, realizada no final de Outubro na Fundação Calouste Gulbenkian, Steiner afirmou que “uma civilização que mata os seus judeus não recupera”. Eu sou o primeiro a defender que uma civilização que expulsa os seus judeus fica muitíssimo mais pobre (já nem falo em matá-los). Se os mata, então, comete um crime hediondo. Agora… não recupera? Não recupera porquê? Será alguma cabala? E será só com os judeus? Se matar os muçulmanos, os cristãos, os negros, os ciganos, os gays, já recupera? E se essa civilização, depois de matar os judeus, construir um memorial, já pode recuperar ou ainda não chega?
Esta extraordinária afirmação de George Steiner foi proferida na mesma semana em que se discutia a “teoria empírica” de James Watson, de que os negros são menos inteligentes que os brancos, baseada na observação dos seus empregados. Ninguém ficou indiferente às declarações de Watson: pessoas houve que, a meu ver bem, as condenaram como racistas e não-científicas; outras houve que (com alguns argumentos que reconheço serem válidos) defenderam a liberdade de expressão do cientista. Mas ninguém ousou sequer criticar esta afirmação (igualmente racista) de Steiner. Porquê?
Houve uma polémica esta semana no blogue da revista Atlântico, e no seu centro estava André Azevedo Alves. Tal como há uns meses houve outra grande polémica no Blasfémias, e no seu centro estavam os textos de Pedro Arroja. Do que conheço não vejo grande diferença entre as ideias de Azevedo Alves ou de Arroja (vejo uma grande diferença no estilo, e apesar de tudo prefiro de longe o deste último). Relativamente a Azevedo Alves as posições (particularmente na direita blogosférica) dividiram-se, mas os textos de Arroja foram condenados unanimemente. (Um bom exemplo desta dualidade de critérios é mesmo o director da Revista Atlântico.) Porquê?
Nem toda a direita procedeu assim, no entanto: Carlos Abreu Amorim, no Blasfémias, distanciou-se tanto dos textos de Azevedo Alves como dos de Arroja. Deveremos portanto gabar a coerência do truculento blasfemo? Não esperem por isso. Ainda esta semana foi votado um empréstimo bancário na Câmara Municipal de Lisboa, que foi prontamente condenado no blogue onde Abreu Amorim escreve. E alguém duvida de que este ultraliberal (e “mata-mouros” ainda por cima) é contra tamanho empréstimo, preferindo antes dispensar pessoal, cortar despesas e privatizar? Pois, e voltando onde este já longo texto começou, este mesmo autor usou o seu espaço de opinião no “Correio da Manhã” para exigir a uma câmara sobreendividada que construa um memorial aos judeus assassinados em Lisboa em 1506, insurgindo-se contra o adiamento desta proposta (não se falou em recusa da proposta, mas sim em adiamento)! Independentemente do empréstimo, o memorial seria mais importante que as dívidas da câmara! Mais uma vez, porquê?
A chave para a resposta a todos estes “porquês” está, creio, na afirmação de Steiner. De todos aqueles a quem apontei incoerências, estou certo de que nenhum condenaria essa afirmação. Eu considero-a racista e condeno-a, como já referi. Sou a favor da humildade e do reconhecimento dos nossos erros; por isso sou favorável à construção dos memoriais que referi, haja dinheiro para isso. O que eu não posso aceitar – é frontalmente contra os meus princípios, causando-me reacções viscerais – é que alguém se considere naturalmente melhor do que os outros, sem nunca ter de o demonstrar.
2007/10/10
Superioridade civilizacional
Não tenho problemas em admitir que há países objectivamente mais desenvolvidos do que outros e onde se vive melhor, mesmo se isso já me custou chamarem-me elitista ou colonialista. Essa minha apreciação tem a ver com factos concretos e não implica um julgamento sobre os respectivos povos, que acredito que possam sempre desenvolver-se. Sei que o caminho para o desenvolvimento não é único, mas há aspectos que considero indiscutíveis.
Os aspectos em que os EUA são mais desenvolvidos prendem-se com o empreendedorismo do povo americano, que se traduz numa sociedade baseada na tecnologia e no progresso. Os aspectos em que a Europa é mais desenvolvida são (considero) civilizacionais. Um deles, de que muito me orgulho, é a rejeição do ensino do criacionismo por parte do Conselho da Europa, apesar do voto contra a resolução por parte de representantes de partidos de direita, entre os quais João Bosco Mota Amaral. O outro é a reduzida aplicação da pena de morte. Prefiro viver num país que tem um modelo social, onde o porte de armas não é livre, mas também onde não se ensina o criacionismo na escola e onde a pena de morte foi banida. Gorada que foi a instauração do dia europeu contra a pena de morte para hoje, graças ao veto da Polónia, faço votos para que em breve esta seja uma realidade em toda a Europa e,espero eu, um dia em todo o mundo.
Os aspectos em que os EUA são mais desenvolvidos prendem-se com o empreendedorismo do povo americano, que se traduz numa sociedade baseada na tecnologia e no progresso. Os aspectos em que a Europa é mais desenvolvida são (considero) civilizacionais. Um deles, de que muito me orgulho, é a rejeição do ensino do criacionismo por parte do Conselho da Europa, apesar do voto contra a resolução por parte de representantes de partidos de direita, entre os quais João Bosco Mota Amaral. O outro é a reduzida aplicação da pena de morte. Prefiro viver num país que tem um modelo social, onde o porte de armas não é livre, mas também onde não se ensina o criacionismo na escola e onde a pena de morte foi banida. Gorada que foi a instauração do dia europeu contra a pena de morte para hoje, graças ao veto da Polónia, faço votos para que em breve esta seja uma realidade em toda a Europa e,espero eu, um dia em todo o mundo.
2007/10/08
Richard Dawkins e as palavras que não podem ser ditas
Richard Dawkins em entrevista ao The Guardian (via O Insurgente):
When you think about how fantastically successful the Jewish lobby has been, though, in fact, they are less numerous I am told - religious Jews anyway - than atheists and [yet they] more or less monopolise American foreign policy as far as many people can see. So if atheists could achieve a small fraction of that influence, the world would be a better place.Mais um anti-semita...
2007/04/05
“Those people can be so touchy!”
É claro que não se pode criticar a Bomba Inteligente sem aparecerem logo os fãs. E é mais claro ainda que não se pode associar a palavra “judeu” a um adjectivo depreciativo sem aparecerem logo acusações de “anti-semita”. Há três anos que ninguém me chamava “anti-semita”. Já tinha saudades. Devo este insulto, desta vez, ao leitor Júlio Silva Cunha, nos comentários, que aparentemente se incomodou por eu ter explicitado a religião de Sarah Silverman quando lhe chamei racista.
Há uns meses a actriz Daniela Ruah era a capa da revista Notícias Sábado. Daniela, para quem não a conhece, é protagonista de uma telenovela actualmente em exibição na TVI. O título de capa da revista era “a bela judia”. E, de facto, correspondia à verdade: Daniela é bela e consta que é judia. Mas também corresponderia totalmente à verdade um título como “a judia da voz esganiçada”. Eu que o diga, que todas as quintas feiras (como hoje) apanho uma bem sefardita dor de cabeça graças aos gritos daquela actriz na referida novela, que tenho que ver (e mais a ligação diária ao programa As Bombas e os Inteligentes. O que um tipo tem que aturar se quer ver do princípio o Dr. House!
Não vi Júlio Silva Cunha nem nenhum leitor da revista chamar “anti-semita” àquela capa, apesar de o “judia” ser bem explícito. Porquê? Porque vinha acompanhado de um elogio. Já um título como “a judia da voz esganiçada” seria rapidamente considerado ofensivo para toda a comunidade judaica. Indignações selectivas... que nem têm a ver com tratar-se de judeus. Se se substituísse “judia” por “negra”, ou “católica” ou “portuguesa” a indignação seria a mesma. E porquê? Porque a etnia (neste caso, “judia”) não tem nada a ver com a voz esganiçada. Mas também não tem nada a ver com a beleza...
No caso de Sarah Silverman incluí uma referência à sua etnia, associada ao seu racismo. Não porque, evidentemente, o racismo seja associável aos judeus. Bem pelo contrário: devido ao racismo de que sempre forma vítimas, parece-me ainda mais chocante encontrar um judeu (ou um negro) racista. Daí a minha referência.
Sarah Silverman é uma boa representante daquilo a que se chama uma “princesa judia”, um conceito bem definido nos EUA e com direito a entrada na wikipédia (será que Júlio Silva Cunha também vê anti-semitismo na wikipédia?). O melhor exemplo de uma “princesa judia” na blogosfera portuguesa é, justamente, a bomba inteligente Carla Quevedo (demonstra-o quotidianamente no seu blogue). Bem mais do que a saudosa Ana Albergaria, com quem eu tive algumas altercações (mas de quem tenho sinceras saudades). A Ana Albergaria manifestava alguma preocupação com o mundo que a rodeava (mesmo que eu nunca concordasse com ela), nunca escondia o que era e tinha um grande sentido de humor (até ensinava a malta a fazer croquetes!). A aburguesada blogosfera portuguesa (de esquerda e de direita) gosta muito da escrita da “princesa judia” portuguesa. Eu, que sou culturalmente proletário, não gosto de príncipes nem de princesas, judeus ou de qualquer outra etnia. Mas desejo a todos (de qualquer crença ou não-crença) uma Páscoa feliz e cheia de coisas boas.
2007/03/27
Liberalismo e catolicismo
Do mais interessante que se pode ler na blogosfera presentemente são as reflexões de Pedro Arroja, com as quais concordo na maior parte. É claro que Pedro Arroja utiliza aquelas reflexões para defender o liberalismo, quando eu acho que só podem ser aplicadas justamente para mostrar os problemas do liberalismo. Daí a irritação que estas reflexões têm vindo a causar aos seus colegas de blogue. A não perder, aqui e aqui. Esta última, então, bem gostaria de a ter escrito, pois descreve uma experiência que me é bem familiar.
2007/03/13
Gostei de ler
- Copenhaga e nós, no Vida Breve;
- Autoridade livre, Opinião pública e 4 instituições protestantes de descoberta da verdade, no Blasfémias.
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