Carlos Vidal não tem aquele dom tipicamente bushista (e de que eu tanto gosto) da transparência – “I mean what I say and I say what I mean”, como diria a desbocada matriarca Barbara (ou pelo menos a sua caricatura do Conan O’Brien). Vidal brindou-nos durante uma ou duas semanas com textos sobre a temática da arte “que não é para toda a gente”. Apontei algumas contradições nesses textos, mas escapou-me na altura a mais óbvia: dizer que algo não deve ser acessível a todos é a melhor maneira de despertar curiosidade sobre esse algo. É um recurso do artista que nos quer provocar. No fundo, o homem só quer que a gente ligue alguma coisa ao que ele escreve, e fica nitidamente nervoso se não lhe prestam a atenção de que se julga merecedor: recorde-se por exemplo até que ponto ele chegou só porque o Daniel Oliveira não lhe respondeu a um comentário no blogue.
A melhor coisa a fazer seria portanto o contrário daquilo que ele tão enfaticamente me pede, apesar de ser o contrário do que quer (estão a ver onde entra a cena dos Bush?): justamente, não lhe ligar nenhuma. Tentar não dar por ele. Passar por cima dos seus textos. No fundo, fazer como se ele não existisse.
Só que tal seria difícil (dado o estilo espalhafatoso do autor, cheio de imagens, negritos e maiúsculas, e a sua linguagem assumidamente populista). E mesmo que fosse fácil seria absurdo. Porquê? Simples: é evidente que quando lemos um blogue colectivo deve haver uma certa identidade entre os seus elementos. Aliás, o blogue deve ter uma identidade como um todo. Caso contrário, não faz sentido que as pessoas se juntem para escrever.
É claro que os membros de blogues colectivos não devem concordar em tudo entre si, e podem (e devem) debater, e mesmo polemizar. Mesmo assim creio que devem ter algo em comum. Era assim que eu concebia o Cinco Dias: um colectivo de pessoas de esquerda, de tendências diferentes, que fossem capazes de debater entre si. E é naqueles dois aspectos que surgem os meus problemas com Carlos Vidal. Para começar, há muito pouco que eu possa a dizer que tenho em comum com o senhor. Qualquer leitor do Cinco Dias poderá aferir isso, das divergências que temos tido e têm sido manifestas. Dos seus textos, os únicos com que posso dizer que estou minimamente de acordo são os recentes sobre o conflito israelo-palestiniano. É muito pouco como denominador comum para escrevermos no mesmo blogue, a menos que fosse um blogue exclusivamente sobre este conflito. Mas o principal problema tem a ver com o outro aspecto: a capacidade de debater. E creio não ser injusto ao verificar que essa capacidade em Vidal é praticamente inexistente. Tirando dois ou três louvaminheiros, Vidal não é capaz de ter uma conversa com um comentador sem lhe colar rótulos políticos, ameaçar censurar (por opiniões “impróprias”) ou mesmo insultar. Os insultos ocorrem principalmente quando Vidal faz a sua jogada preferida, que já deve ser conhecida de todos: foge do assunto em debate e desvia-o para a sua área de eleição (a arte). Mesmo que ninguém tenha falado, mesmo que ninguém queira falar de arte, Vidal faz questão de responder a todos os debates como se debates de arte se tratassem, para os assuntos que ele domina, para então poder fazer o que melhor sabe: aplicar “argumentos” de autoridade (que não são argumentos nenhuns) e chamar ignorantes aos seus interlocutores. Foi assim quando escrevi um texto sobre Manoel de Oliveira, um texto que não era de forma nenhuma destinado a Vidal e onde eu exprimia a minha perspectiva de amador perante a obra do cineasta (um direito inalienável que qualquer espectador tem). Vidal quis ver naquele texto uma crítica cinematográfica (algo que não era nem nunca pretendeu ser) e respondeu com a famosa série “a arte não deve estar acessível a todos”.
Um exemplo mais recente passou-se na reacção a este texto da Palmira Silva. O texto original não tem absolutamente nada a ver com arte mas que foi logo atacado nos comentários por Vidal como se tivesse (leiam e confirmem). Nos exemplares comentários de Vidal (que Sokal gostaria de ler) podem ler-se afirmações deliciosas como “Quando estou por Londres ou Paris, o que se lê é Deleuze, Foucault, Derrida e não Sokal. Pelos vistos, Sokal, agora inesperadamente desenterrado (vá lá saber-se porquê) não existe em lado nenhum.” Ou “Sokal, ele está esquecido e Lacan ou Deleuze ou Derrida são dos autores mais importantes em qualquer ramo de estudos nos Estados Unidos e ocupam mais de metade das estantes de filosofia entre Londres e Nova Iorque, etc, etc. Felizmente, sinal de inteligência. Sokal, zero. O obtuso já desapareceu. Finito. ZERO !!”
Recorde-se que quem escreveu isto (ou, noutra parte, “Fico a saber que de arte e estética contemporânea nada sabem. (…) Passem pelo Prado e vejam o Rembrandt, que é o que deveriam fazer para respeitarem os outros e aquilo que não sabem. Ou comecem pelo Giotto, já agora. (…) Vão-se lixar com o vosso Sokal”) insurgia-se contra a arte “popular” e os artistas que são apreciados por multidões mas que não deveriam ser para todos (mas pelos vistos a popularidade já serve se for para avaliar “os livros que se lêem” em Paris ou Londres ou Nova Iorque). Mas o mais engraçado é a forma deste artista avaliar um cientista: para Vidal, a forma de um cientista provar que está vivo será não escrever artigos, dar palestras e ser citado pelos seus pares (algo que Sokal continua a fazer muito bem), mas vender uns livros que sejam discutidos em círculos filosóficos! (Para governo de Carlos Vidal o caso Sokal continua bem vivo e tem tido novos desenvolvimentos – ver a cronologia completa aqui.)
A questão abordada pela Palmira neste texto – o combate ao obscurantismo resultante do relativismo pós-moderno - é para mim de extrema importância. É que não é só nos mercados financeiros especulativos que há fraudes. Neste caso trata-se de uma denúncia de fraudes intelectuais. Para mim este é um combate político absolutamente prioritário, e é-me difícil partilhar um blogue com quem a ele se oponha, principalmente da forma tão veemente como Vidal o faz. Para além de, em termos estritamente pessoais (e profissionais), ser-me difícil partilhar um blogue com quem julga – escreveu-o duas vezes, aqui e no Jugular – que “Badiou, como Cavaillés, Albert Lautman (…), são filósofos matemáticos (alguns só matemáticos) que sabem mais - tecnicamente - de matemática que todos os matemáticos cá do burgo juntos.” (Paul Cohen já é outro nível, mas desse não falou Sokal.) Há limites mínimos de respeito; quando não existem por parte do nosso interlocutor, não adianta manter uma discussão. Para além de que em matemática, e em ciência em geral, não estamos habituados a esse tipo de “argumentos” de autoridade. Pelo menos a avaliar por Vidal, esta é uma diferença fundamental entre ciência e arte. Dito isto, é claro que esta opinião é risível, e muita gente se vai rir dela. Como já disse várias vezes, visto de fora Carlos Vidal é muito cómico. Quem não o consegue ver de fora… deve sair.
Para que fique bem claro, e em resumo: o meu problema com Carlos Vidal nem são propriamente as suas posições (políticas e não só), apesar de eu discordar totalmente de grande parte delas. Não teria problemas com posições divergentes se Vidal as soubesse defender. O problema é que Vidal apresenta as suas posições num estilo populista sem nunca se preocupar em argumentar para as defender, e quando confrontado é nítido que não sabe debater (algo que – já o escrevi e reitero – é característico de muitos sectores do meio académico português: não é só Carlos Vidal). O meu problema com Vidal, bem mais do que de opiniões, é de estilo. Afinal o estilo sempre serve para alguma coisa!
Dito isto, e porque Carlos Vidal é membro do Cinco Dias, não estou disposto a continuar a pertencer a este colectivo. É uma decisão difícil, porque aqui encontro pessoas com quem é um prazer partilhar um blogue. Era isso que ainda me fazia hesitar. Ainda no passado fim de semana, após me ter encontrado com o Nuno Ramos de Almeida, não pensava tomar esta decisão. Digamos que a questão do Sokal me fez ver claramente que o equilíbrio que o Nuno nos pedia (a mim e ao Carlos Vidal) era instável e na prática impossível de alcançar, a menos que eu não escrevesse o que quisesse escrever (algo que nunca ninguém impediu ninguém no Cinco Dias) ou declarasse sistematicamente “para mim, o Vidal não existe”. Em ambos os casos é melhor sair. Deixo um abraço a todos os outros colegas de blogue e um especial ao Nuno, que me convidou e a quem serei sempre grato. Nuno, desculpa qualquer coisa mas, convenhamos, depois disto, se eu não saísse doentinho seria eu.
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2009/01/02
2008/12/17
Isto diverte mas começa a ser cansativo
Nos meus textos e nos comentários (aos meus e aos do Carlos Vidal) eu disse não sei quantas vezes que não pretendo tornar a arte mais “fácil” ou mais acessível. Nesse sentido arte e ciência não são democráticas: não é qualquer um que pode começar a fazê-las. Sou totalmente contra os governos darem qualquer tipo de indicações aos investigadores ou aos artistas para seguirem linhas pré-determinadas. Sou investigador e isso afecta-me. A liberdade académica é fundamental. A arte, a ciência, tudo o que involva criação requer liberdade e não democracia (que como já disse várias vezes são coisas diferentes e por vezes incompatíveis). Não é isso que está em causa.
O que entendo por “democratizar a ciência” ou “democratizar a arte” é torná-las acessíveis aos cidadãos que por elas se interessarem, mesmo sem serem especialistas, sem nunca alterar o seu conteúdo. Por “tornar acessíveis” entendo fazer divulgação (algo que nem todos os cientistas ou artistas são obrigados ou vocacionados a fazer), ou em alternativa permitir que se faça divulgação desse mesmo trabalho para quem esteja interessado. Este público não é especialista e não deve ser tratado como tal. É até provavelmente à partida muito ignorante, mas é interessado e tem o direito de ver a sua curiosidade satisfeita.
No caso dos artistas, a divulgação mais imediata consiste na realização de exposições, abertas a todos os que as quiserem ver. Não há absolutamente nenhuma bitola diferente para as ciências e as artes. Defendo exactamente a mesma coisa. O que verifico é que os cientistas estão muito mais habituados a este procedimento. Certos artistas pelos vistos resistem. Não podem fazê-lo se receberem dinheiro do estado (enquanto artistas). Mas, repito, não defendo que o Estado interfira na sua liberdade e na sua criatividade de nenhum modo.
Tudo isto vem a propósito dos textos de Carlos Vidal. No mais recente, Carlos Vidal atribui-me entre outros qualificativos uma frase que nunca escrevi: “a função de qualquer artista [é] fazer com que as pessoas gostem um pouco mais de arte”.
O que eu escrevi (nos comentários) foi “Entendo que faz parte da minha função fazer com que as pessoas gostem mais um pouco de física. Tal como faz parte da função de qualquer artista fazer com que as pessoas gostem um pouco mais de arte.” “Faz parte” no sentido explicado nos parágrafos acima. E “faz parte” dessa função: nunca “é” essa função, unicamente (nem sequer principalmente). Mas quem é pago pelo Estado não se pode furtar a essa função.
A outra frase que Vidal me atribui até é verdadeira mas está descontextualizada. Escrevi “querer tornar a arte acessível a todos não implica necessariamente ter que fazer concessões”, exactamente no mesmo sentido em que (mais uma vez...) acima escrevi. “Acessível” nesta frase no sentido de “estar acessível” e não de “ser acessível”. São duas coisas muito diferentes (a língua portuguesa tem essa riqueza de distinguir o “ser” do “estar”). A minha tese resume-se na frase “a arte não tem que ser acessível, mas deve estar acessível”. Parece uma tese bastante óbvia mas pelos vistos não é para toda a gente. Carlos Vidal defendeu aqui que “Uma obra de arte não pode nem deve estar acessível a qualquer pessoa”. Para não deixar dúvidas, acrescentou: “a arte não pode ser para todos!” É contra esta posição que eu me tenho vindo a insurgir.
Carlos Vidal não entendeu (ou fingiu que não entendeu, por lhe dar jeito) a minha distinção entre “ser” e “estar” acessível, e tem-me vindo a responder (nos comentários e em texto) como se eu defendesse que a arte tem que “ser” acessível, algo que não defendo e nunca defendi. Não têm pois qualquer procedimento as respostas que me tem vindo a dar. Este tipo de confusões e desarticulação do pensamento não é novidade em Carlos Vidal, conforme os seus leitores poderão testemunhar.
Com que critério julga Vidal quem é ou não merecedor de conhecer as obras de arte? A sua iluminada cabecinha, pois com certeza. Vejamos o julgamento que faz de mim. Sem me conhecer de lado nenhum, nem o que eu sei nem deixo de saber, declara que “a ciência que eu sei” (e pelos vistos, se ele não me conhece, a ciência em geral) é “estrita, reduzida e muito especializada” (ficamos esclarecidos). Decide que, se eu me dedicasse só a ela, “todos teríamos a ganhar com isso”. (Devo agradecer o elogio? E se o Vidal se dedicasse só à arte?) E finalmente manda-me calar, algo que os leitores que fazem comentários simpáticos ao PS sabem que é o que Vidal melhor sabe fazer: “Quem não percebe isto porque é que não se cala e fala de física, só?? Custa muito ?????”
(Para não me acusarem de descontextualizar, esta frase vinha a propósito da “crítica de arte”, algo que nunca fiz nem tive alguma vez pretensões de fazer. Vidal confunde uma legítima opinião sobre um filme de um espectador com uma crítica profissional de cinema.)
Finalmente, Vidal proíbe a minha entrada nas suas exposições. Para que conste (sinto-me orgulhoso): “nunca admitirei a entrada de F. Moura numa galeria onde tenha obras minhas expostas. Isto é irrevogável, caríssimos.”
Curiosamente este mesmo autor que acha que a arte (em particular a sua arte, como referiu) “não é para todos” e me proibiu de a ver não se coibiria, dias depois, de exibir aqui, no Cinco Dias, desenhos de sua autoria.
Isto é comigo. E com outros leitores? De Carlos Miguel Fernandes, por exemplo, diz que a sua “arrogância reaccionária julga-se conhecedora de crítica”. Apesar de “não saber quem CMF é” nem “lhe interessar”, Vidal declara taxativamente que CMF “não poderá alguma vez ser” um “apaixonado sensível das imagens”. Pois acontece que Carlos Miguel Fernandes, para além de cientista, é um já reconhecido fotógrafo com um currículo considerável de exposições e obra publicada.
Assim se demonstra o belo resultado que teria a aplicação do critério que Vidal defende: quem teria acesso à arte seriam os “escolhidos”. Por quem? Por quem já tem acesso à arte. Os melhores não seriam necessariamente os escolhidos, como o exemplo do Carlos Miguel Fernandes confirma.
Infelizmente, este caso exemplar ilustra bem o estado bafiento de algumas universidades portuguesas. Carlos Vidal é assistente da Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Conforme aqui já tem defendido, só lá deve ter acesso quem tiver passado pela sua formação, pela sua “escola”, que consiste em “desigualdades académicas, disciplina, hierarquia e gajas”. Quando o interlocutor é alguém que nunca passou pela escola mas é famoso e reconhecido internacionalmente, como Jorge Calado, baixam logo a cabecinha. Quem não é conhecido, mesmo que tenha valor, como o Carlos Miguel Fernandes, é logo automaticamente barrado. Não é “da escola”, e não há escola como “a nossa”. Melhor retrato da academia tradicional portuguesa não há.
Com os insultos e delírios de Carlos Vidal posso eu bem, e julgo que o Carlos Miguel Fernandes também. Afinal, como eu já tenho dito, visto de fora isto até é divertido. Daqui de dentro começa é a ser cansativo. O problema (não é meu, mas não deixa de ser um problema) é que quem emite estes juízos baseados em puro preconceito é professor e – ele próprio o admite – aplica estes critérios aos seus alunos (e aos futuros colegas). E quer que se aplique a todos os cidadãos que ele entender.
Como resolver este problema? Não sei; no caso concreto do meio académico, o ministro Mariano Gago terá as suas ideias. Entretanto no Cinco Dias a gente vai-se rindo com o espectáculo.
O que entendo por “democratizar a ciência” ou “democratizar a arte” é torná-las acessíveis aos cidadãos que por elas se interessarem, mesmo sem serem especialistas, sem nunca alterar o seu conteúdo. Por “tornar acessíveis” entendo fazer divulgação (algo que nem todos os cientistas ou artistas são obrigados ou vocacionados a fazer), ou em alternativa permitir que se faça divulgação desse mesmo trabalho para quem esteja interessado. Este público não é especialista e não deve ser tratado como tal. É até provavelmente à partida muito ignorante, mas é interessado e tem o direito de ver a sua curiosidade satisfeita.
No caso dos artistas, a divulgação mais imediata consiste na realização de exposições, abertas a todos os que as quiserem ver. Não há absolutamente nenhuma bitola diferente para as ciências e as artes. Defendo exactamente a mesma coisa. O que verifico é que os cientistas estão muito mais habituados a este procedimento. Certos artistas pelos vistos resistem. Não podem fazê-lo se receberem dinheiro do estado (enquanto artistas). Mas, repito, não defendo que o Estado interfira na sua liberdade e na sua criatividade de nenhum modo.
Tudo isto vem a propósito dos textos de Carlos Vidal. No mais recente, Carlos Vidal atribui-me entre outros qualificativos uma frase que nunca escrevi: “a função de qualquer artista [é] fazer com que as pessoas gostem um pouco mais de arte”.
O que eu escrevi (nos comentários) foi “Entendo que faz parte da minha função fazer com que as pessoas gostem mais um pouco de física. Tal como faz parte da função de qualquer artista fazer com que as pessoas gostem um pouco mais de arte.” “Faz parte” no sentido explicado nos parágrafos acima. E “faz parte” dessa função: nunca “é” essa função, unicamente (nem sequer principalmente). Mas quem é pago pelo Estado não se pode furtar a essa função.
A outra frase que Vidal me atribui até é verdadeira mas está descontextualizada. Escrevi “querer tornar a arte acessível a todos não implica necessariamente ter que fazer concessões”, exactamente no mesmo sentido em que (mais uma vez...) acima escrevi. “Acessível” nesta frase no sentido de “estar acessível” e não de “ser acessível”. São duas coisas muito diferentes (a língua portuguesa tem essa riqueza de distinguir o “ser” do “estar”). A minha tese resume-se na frase “a arte não tem que ser acessível, mas deve estar acessível”. Parece uma tese bastante óbvia mas pelos vistos não é para toda a gente. Carlos Vidal defendeu aqui que “Uma obra de arte não pode nem deve estar acessível a qualquer pessoa”. Para não deixar dúvidas, acrescentou: “a arte não pode ser para todos!” É contra esta posição que eu me tenho vindo a insurgir.
Carlos Vidal não entendeu (ou fingiu que não entendeu, por lhe dar jeito) a minha distinção entre “ser” e “estar” acessível, e tem-me vindo a responder (nos comentários e em texto) como se eu defendesse que a arte tem que “ser” acessível, algo que não defendo e nunca defendi. Não têm pois qualquer procedimento as respostas que me tem vindo a dar. Este tipo de confusões e desarticulação do pensamento não é novidade em Carlos Vidal, conforme os seus leitores poderão testemunhar.
Com que critério julga Vidal quem é ou não merecedor de conhecer as obras de arte? A sua iluminada cabecinha, pois com certeza. Vejamos o julgamento que faz de mim. Sem me conhecer de lado nenhum, nem o que eu sei nem deixo de saber, declara que “a ciência que eu sei” (e pelos vistos, se ele não me conhece, a ciência em geral) é “estrita, reduzida e muito especializada” (ficamos esclarecidos). Decide que, se eu me dedicasse só a ela, “todos teríamos a ganhar com isso”. (Devo agradecer o elogio? E se o Vidal se dedicasse só à arte?) E finalmente manda-me calar, algo que os leitores que fazem comentários simpáticos ao PS sabem que é o que Vidal melhor sabe fazer: “Quem não percebe isto porque é que não se cala e fala de física, só?? Custa muito ?????”
(Para não me acusarem de descontextualizar, esta frase vinha a propósito da “crítica de arte”, algo que nunca fiz nem tive alguma vez pretensões de fazer. Vidal confunde uma legítima opinião sobre um filme de um espectador com uma crítica profissional de cinema.)
Finalmente, Vidal proíbe a minha entrada nas suas exposições. Para que conste (sinto-me orgulhoso): “nunca admitirei a entrada de F. Moura numa galeria onde tenha obras minhas expostas. Isto é irrevogável, caríssimos.”
Curiosamente este mesmo autor que acha que a arte (em particular a sua arte, como referiu) “não é para todos” e me proibiu de a ver não se coibiria, dias depois, de exibir aqui, no Cinco Dias, desenhos de sua autoria.
Isto é comigo. E com outros leitores? De Carlos Miguel Fernandes, por exemplo, diz que a sua “arrogância reaccionária julga-se conhecedora de crítica”. Apesar de “não saber quem CMF é” nem “lhe interessar”, Vidal declara taxativamente que CMF “não poderá alguma vez ser” um “apaixonado sensível das imagens”. Pois acontece que Carlos Miguel Fernandes, para além de cientista, é um já reconhecido fotógrafo com um currículo considerável de exposições e obra publicada.
Assim se demonstra o belo resultado que teria a aplicação do critério que Vidal defende: quem teria acesso à arte seriam os “escolhidos”. Por quem? Por quem já tem acesso à arte. Os melhores não seriam necessariamente os escolhidos, como o exemplo do Carlos Miguel Fernandes confirma.
Infelizmente, este caso exemplar ilustra bem o estado bafiento de algumas universidades portuguesas. Carlos Vidal é assistente da Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Conforme aqui já tem defendido, só lá deve ter acesso quem tiver passado pela sua formação, pela sua “escola”, que consiste em “desigualdades académicas, disciplina, hierarquia e gajas”. Quando o interlocutor é alguém que nunca passou pela escola mas é famoso e reconhecido internacionalmente, como Jorge Calado, baixam logo a cabecinha. Quem não é conhecido, mesmo que tenha valor, como o Carlos Miguel Fernandes, é logo automaticamente barrado. Não é “da escola”, e não há escola como “a nossa”. Melhor retrato da academia tradicional portuguesa não há.
Com os insultos e delírios de Carlos Vidal posso eu bem, e julgo que o Carlos Miguel Fernandes também. Afinal, como eu já tenho dito, visto de fora isto até é divertido. Daqui de dentro começa é a ser cansativo. O problema (não é meu, mas não deixa de ser um problema) é que quem emite estes juízos baseados em puro preconceito é professor e – ele próprio o admite – aplica estes critérios aos seus alunos (e aos futuros colegas). E quer que se aplique a todos os cidadãos que ele entender.
Como resolver este problema? Não sei; no caso concreto do meio académico, o ministro Mariano Gago terá as suas ideias. Entretanto no Cinco Dias a gente vai-se rindo com o espectáculo.
2008/12/16
A arte para o povo explicada aos velhinhos que gostam de elites
Rómulo de Carvalho escreveu “Física Para o Povo”:

Paul Krugman fala de economia para o povo (via João Pinto e Castro).
Herman José fez “Cozinho Para o Povo”:
Googlei “arte para o povo”. O primeiro resultado da pesquisa foi Diego Rivera, o famoso pintor mexicano que gostava que a sua arte estivesse em sítios públicos para poder ser contemplada por todos. Por isso Rivera (e muitos dos seus contemporâneos mexicanos) gostava de pintar sobretudo murais.
Rivera demonstra que querer tornar a arte acessível a todos não implica necessariamente ter que fazer concessões. É conhecida a história da sua disputa com Nelson Rockefeller, a propósito do mural que o milionário lhe encomendou para o Rockefeller Center em Manhattan. Rivera queria incluir a figura de Lenine no mural; Rockefeller recusava, mas Rivera incluiu-a à mesma. O mural nunca chegou a ser exposto em público e acabou por ser destruído. A história é conhecida: foi contada por exemplo no filme Frida. Um filme de Hollywood. Outro exemplo de “arte para o povo”.
“A massificação destrói a “aura” que envolve as obras de arte”, escreveu alguém num comentário no Cinco Dias. Façamos disto uma causa: destruir a aura da arte elitista. Destruir a aura das elites.

Paul Krugman fala de economia para o povo (via João Pinto e Castro).
Herman José fez “Cozinho Para o Povo”:
Googlei “arte para o povo”. O primeiro resultado da pesquisa foi Diego Rivera, o famoso pintor mexicano que gostava que a sua arte estivesse em sítios públicos para poder ser contemplada por todos. Por isso Rivera (e muitos dos seus contemporâneos mexicanos) gostava de pintar sobretudo murais.
Rivera demonstra que querer tornar a arte acessível a todos não implica necessariamente ter que fazer concessões. É conhecida a história da sua disputa com Nelson Rockefeller, a propósito do mural que o milionário lhe encomendou para o Rockefeller Center em Manhattan. Rivera queria incluir a figura de Lenine no mural; Rockefeller recusava, mas Rivera incluiu-a à mesma. O mural nunca chegou a ser exposto em público e acabou por ser destruído. A história é conhecida: foi contada por exemplo no filme Frida. Um filme de Hollywood. Outro exemplo de “arte para o povo”.
“A massificação destrói a “aura” que envolve as obras de arte”, escreveu alguém num comentário no Cinco Dias. Façamos disto uma causa: destruir a aura da arte elitista. Destruir a aura das elites.
2008/12/06
O João faz falta
Façam o favor de assinarem a petição que o João Branco propôs a promover o alargamento às bicicletas dos benefícios fiscais dados aos carros eléctricos pela lei do OE2009.
2008/11/16
Um bushista no 5 Dias

“Bushista” é com certeza na óptica do Carlos Vidal, e esse bushista sou eu. Sim, eu, que considero Bush o pior presidente dos Estados Unidos, que levou o país (e desgraçadamente muitos atrás dele) para uma guerra injustificada e sem saída onde se perderam muitas vidas e muitos outros valores, que reestabeleceu a tortura, que desrespeitou os direitos humanos, que aumentou as desigualdades, que protegeu os amigos ricos, que é o principal responsável pela crise internacional. No entanto, estou perante alguém que diz “não distinguir politicamente” George W. Bush de José Sócrates. Eu nem sei quem é que o Carlos distingue destes dois; sei, claramente, que não quero que uma pessoa que afirma isto me distinga deles. Se essa pessoa não os distingue, afirmo taxativamente que não quero ser eu o distinguido. É como “bushista” que eu quero que essa pessoa me veja.
Já em 2001 Bush afirmou que “quem não estava com ele estava com os terroristas”. E a verdade é que eu estive com ele. Vi o atentado ocorrer a poucas dezenas de milhas de onde vivia e não pude aceitar que tantos inocentes morressem, por muito justas que fossem as críticas aos EUA. Por isso apoiei e continuo a apoiar a luta contra o terrorismo. A luta contra o terrorismo mesmo, e não manobras de distracção como a invasão do Iraque.
Já nessa altura muita gente me chamou “bushista”. Se eu tivesse a mesma miopia política dessa gente (algo que infelizmente a maioria dos “bushistas” a sério tem), diria que quem me considera “bushista” é igualzinho a Bin Laden. Mas prefiro passar por cima disso e não perder tempo com essa gente. Prefiro continuar a apoiar Sócrates quando achar que deve ser apoiado e a criticá-lo quando achar que merece ser criticado.
2008/11/13
Como esses estúpidos selvagens chegaram a dominar Washington
Regresso após uma ausência (devida a isto e a uma mudança). Deveria ter escrito sobre as eleições americanas, mas não encontraria muito mais para dizer que o que foi dito pelo Luís Rainha (façam favor de ver bem o vídeo) e citado pelo Nuno Ramos de Almeida (texto de George Monbiot). Enquanto não escrevo eu mesmo algo sobre Sarah Palin e Bush, deixo-vos o texto de Monbiot.
Como esses estúpidos selvagens chegaram a dominar Washington
Como a política nos EUA chegou a ser dominada por pessoas que fizeram da ignorância uma virtude? Num ponto isso é fácil de responder. Na nação mais poderosa do planeta, um em cada cinco adultos acredita que o sol gira em torno da terra; só 26% aceitam que a evolução ocorre por seleção natural e dois terços dos jovens adultos são incapazes de encontrar o Iraque num mapa.
George Monbiot
Como se permitiu que se chegasse a esse ponto? Como a política nos EUA chegou a ser dominada por pessoas que fizeram da ignorância uma virtude? Foi a caridade que permitiu que um parente mais próximo do homem chegasse a gastar dois mandatos como presidente? Como foi possível que Sarah Palin, Dan Quayle e outros estúpidos do gênero chegassem aonde chegaram? Como foi possível que os comícios republicanos em 2008 fossem tomados por gritarias ignorantes insistindo que Barack Obama era um muçulmano e terrorista?
Como muitos deste lado do Atlântico, eu fui por muitos anos encantado com a política americana. Os EUA têm as melhores universidades do mundo e atrai as mentes mais brilhantes. Domina descobertas na ciência e na medicina. Sua riqueza e seu poder dependem da aplicação do conhecimento. Ainda assim, de maneira única dentre as muitas nações desenvolvidas (com a exceção possível da Austrália), o conhecimento é uma desvantagem política grave nos EUA.
Houve exceções ao longo do século passado – Franklin Roosevelt, JF Kennedy e Bill Clinton temperaram seu intelectualismo com um toque de senso comum e sobreviveram -, mas Adlai Stevenson, Al Gore e John Kerry foram respectivamente fulminados por seus oponentes por serem membros de uma elite cerebral (como se isso não fosse uma qualificação para a presidência). Talvez o momento decisivo no colapso da política inteligente tenha sido a resposta de Ronald Reagan a Jimmy Carter, no debate presidencial de 1980. Carter – tropeçando um pouco, usando longas palavras – cuidadosamente enumera os benefícios do sistema nacional de saúde. Reagan sorri e diz: “Lá vem você de novo”. Seu próprio programa de saúde teria apavorado muitos americanos, caso tivesse sido explicado tão cuidadosamente como o fez Carter, mas ele tinha encontrado a fórmula para se prevenir de questões políticas sérias ao fazer com que seus oponentes parecessem intelectuais “engomados” que não mereciam confiança.
Não foi sempre assim. Os pais fundadores da República – Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, James Madison, John Adams, Alexander Hamilton e outros – estavam entre os maiores pensadores de sua época. Eles não sentiam necessidade de tornar isso um segredo. Como o projeto por eles construído degenerou-se em George W. Bush e Sarah Palin?
Num ponto isso é fácil de responder. Políticos ignorantes são eleitos por povos ignorantes. A educação norte-americana, assim como seu sistema de saúde, é notória por seus fracassos. Na nação mais poderosa do planeta, um em cada cinco adultos acredita que o sol gira em torno da terra; só 26% aceitam que a evolução ocorre por seleção natural; dois terços dos jovens adultos são incapazes de encontrar o Iraque num mapa, dois terços dos votantes norte-americanos não são capazes de nomear três organizações governamentais; a competência matemática dos adolescentes de 15 anos nos Estados Unidos está em vigésimo quarto dos vinte e nove países da OECD.
Mas isso só aumenta o mistério: como tantos cidadãos norte-americanos tornaram-se tão estúpidos, e desconfiados da inteligência? Até onde li, o livro de Susan Jacoby, The Age of America Unreason [algo como A Era da des-Razão Americana], fornece uma explicação completa. Ela mostra que a degradação da política norte-americana resulta de uma série de tragédias interligadas.
Um tema é muito familiar e claro: religião – particularmente religião fundamentalista – torna você estúpido. Os EUA é o único país rico em que o fundamentalismo cristão é vasto e crescente.
Jacoby mostra que já houve uma certa lógica nesse anti-racionalismo. Durante as algumas décadas após a publicação de A Origem das Espécies, por exemplo, os americanos tinham boas razões para rejeitar a teoria da seleção natural e para tratar os intelectuais públicos com suspeita. Desde o começo, a teoria de Darwin foi misturada, nos EUA, com a filosofia brutal – agora conhecida como darwinismo social – do escritor britânico Herbert Spencer. A doutrina de Spencer, promovida na imprensa popular com o financiamento de Andrew Carnegie, John D. Rockefeller e Thomas Edison, sugeria que os milionários estavam no topo da escala estabelecida pela evolução. Ao impedir os desajustados de serem eliminados, a intervenção governamental enfraquecia a nação. A maioria das desigualdades econômicas eram tanto justificáveis como necessárias.
O darwinismo, em outras palavras, tornou-se indistinguível da forma mais bestial do laissez-faire econômico. Muitos cristãos responderam a isso com náusea. É profundamente irônico que a doutrina rejeitada um século atrás por proeminentes fundamentalistas como William Jennings Bryan seja agora determinante para o pensamento da direita cristã. Fundamentalistas modernos rejeitam a ciência darwinista da evolução e aceitam a pseudociência do darwinismo social.
Mas há outras razões, mais poderosas, que explicam o isolamento intelectual dos fundamentalistas. Os EUA são peculiares ao delegarem o controle da educação a autoridades locais. Ensinar nos estados do sul era ser dominado por uma elite aristocrática e ignorante de donos de terras, e um grande abismo educacional foi aberto. “No sul”, escreve Jacoby, “só o que pode ser descrito é que um bloqueio intelectual foi imposto para manter do lado de fora idéias que pudessem ameaçar a ordem social”.
A Convenção Batista do Sul, agora a maior congregação religiosa dos EUA, era para a escravidão e a segregação o que a Igreja Reformada Holandesa (Dutch Reformed Church) era para o apartheid na África do Sul. Ela fez mais do que qualquer força política para manter o sul estúpido. Nos anos 60 tentou disseminar a desagregação estabelecendo um sistema privado de escolas e universidades cristãs. Hoje, um estudante pode ir do jardim da infância até o mais alto grau de estudos sem qualquer exposição ao ensino secular. As crenças batistas do sul também passam imunes ao sistema de escola pública. Uma enquete feita por pesquisadores na Universidade do Texas em 1998 revelou que um em cada quatro professores de biologia das escolas do estado acreditavam que humanos e dinossauros viveram na Terra ao mesmo tempo.
Essa tragédia vem sendo assistida pela fetichização americana da auto-educação. Apesar de seu lamento por sua falta de educação formal, a carreira de Abraham Lincoln é repetidamente citada como evidência de que a boa educação fornecida pelo estado não é necessária: tudo de que se precisa para ter sucesso é determinação e individualismo vigoroso. Isso pode ter servido bem para as pessoas quando os genuínos movimentos de auto-educação, como o que se construiu em torno dos Little Blue Books na primeira metade do século XX estiveram em voga. Na era do info-entreternimento (1), esse tipo de coisa é receita para a confusão.
Além da religião fundamentalista, talvez a razão mais potente para o combate dos intelectuais na eleição seja que o intelectualismo tem sido equiparado à subversão. O breve flerte de alguns pensadores com o comunismo há muito tempo atrás tem sido usado para criar uma impressão na mente do público de que todos os intelectuais são comunistas. Quase todo dia homens como Rush Limbaugh e Bill O’Reilly vociferam contra as “elites liberais” que estão destruindo a América.
O espectro das grandes cabeças alienígenas subversivas foi crucial para a eleição de Reagan e de Bush. Uma elite intelectual genuína – como os neocons (alguns deles ex-comunistas) em torno de Bush – deu o tom dos conflitos políticos como uma batalha entre americanos comuns e bem sucedidos e super-educados pinkos (2). Qualquer tentativa de desafiar as idéias da elite intelectual da direita tem sido atacada, com sucesso, como sendo elitismo.
Obama tem muito a oferecer aos EUA, mas nada disso vai parar se ele vencer. Até que os grandes problemas do sistema educacional sejam revertidos ou que o fundamentalismo religioso perca sua força, haverá oportunidade política para que gente como Bush e Palin ostentem sua ignorância.
Publicado originalmente no Guardian, em 28 de outubro de 2008
O artigo também está publicado na página de George Monbiot
2008/11/07
Assim se passou um aniversário
Sentado no meu (antigo) gabinete do IST, a desocupá-lo e a transferir ficheiros de computador. A ouvir Chico Buarque, nem dei por ele. Foi bom.
(Refiro-me ao aniversário da Rvolução de Outubro. O meu aniversário foi gentilmente assinalado pelo Nuno, a quem agradeço.)
(Refiro-me ao aniversário da Rvolução de Outubro. O meu aniversário foi gentilmente assinalado pelo Nuno, a quem agradeço.)
2008/10/29
Cinco Dias alargados
O horário é de Inverno, os dias ficam mais curtos, e convidam mais à leitura. Por isso os "Cinco Dias" não encurtam, mas alargam. Novos colaboradores vão entrar no Cinco Dias. Aqui apresento três.
O João Branco é um engenheiro aeroespacial, e é (mais um) gajo do Técnico. Viveu alguns anos na Holanda e gosta muito desse estranho país onde as pessoas se preocupam mais com o que fumam do que com o que comem. É um ciclista e algarvio militante, para quem as desigualdades em Portugal são culpa dos "homens do norte" (classificação que obviamente inclui os lisboetas).
O Paulo Jorge Vieira é um bairradino cidadão do mundo. Geógrafo de formação pela Universidade de Coimbra, é um trabalhador precário representante da "Geração 500 euros", que nunca sabe como vai ser o seu dia de amanhã. É activista na área dos direitos sexuais - feminista e direitos LGBT -, sócio fundador e actual presidente da direcção da associação "Não Te Prives". Foi membro da Comissão Excutiva do Fórum Social Portugues e da Comissão Executiva dos "Jovens Pelo Sim". Casou-se noutro dia em frente à Assembleia da República. A cerimónia até foi transmitida pela televisão, mas não foi válida.
O Rui Curado Silva é físico nuclear/astrofísico. Fez estudos de doutoramento em Estrasburgo e de licenciatura em Coimbra, onde presentemente é investigador. É também um divulgador da astronomia junto do público. É europeísta, ecologista e interessa-se pelo problema do aquecimento global. É autor do excelente blogue Klepsýdra.
O João, o Paulo e o Rui são para mim três queridos amigos, com quem é um prazer partilhar este espaço. Muito bem vindos e boas postagens!
O João Branco é um engenheiro aeroespacial, e é (mais um) gajo do Técnico. Viveu alguns anos na Holanda e gosta muito desse estranho país onde as pessoas se preocupam mais com o que fumam do que com o que comem. É um ciclista e algarvio militante, para quem as desigualdades em Portugal são culpa dos "homens do norte" (classificação que obviamente inclui os lisboetas).
O Paulo Jorge Vieira é um bairradino cidadão do mundo. Geógrafo de formação pela Universidade de Coimbra, é um trabalhador precário representante da "Geração 500 euros", que nunca sabe como vai ser o seu dia de amanhã. É activista na área dos direitos sexuais - feminista e direitos LGBT -, sócio fundador e actual presidente da direcção da associação "Não Te Prives". Foi membro da Comissão Excutiva do Fórum Social Portugues e da Comissão Executiva dos "Jovens Pelo Sim". Casou-se noutro dia em frente à Assembleia da República. A cerimónia até foi transmitida pela televisão, mas não foi válida.
O Rui Curado Silva é físico nuclear/astrofísico. Fez estudos de doutoramento em Estrasburgo e de licenciatura em Coimbra, onde presentemente é investigador. É também um divulgador da astronomia junto do público. É europeísta, ecologista e interessa-se pelo problema do aquecimento global. É autor do excelente blogue Klepsýdra.
O João, o Paulo e o Rui são para mim três queridos amigos, com quem é um prazer partilhar este espaço. Muito bem vindos e boas postagens!
2008/10/28
Prémio "dardos"

Recebi o prémio "dardos" do simpático blogue "Homem ao mar!" de M. Ferrer, a quem agradeço a gentileza. É suposto eu indicar 15 (quinze) blogues! Para evitar um crescimento tão acentuadamente exponencial do número de blogues contemplados, vou só indicar dois: O Nadir dos Tempos e Klepsýdra. As razões da escolha? Passem pelo Cinco Dias e perceberão.
2008/10/24
A blogosfera agora tem o seu Carlos Castro
Há uma semana, escrevi que “a Fernanda tem não uma mas duas causas na vida: o casamento dos homossexuais e o aumento das rendas de casa.” Qualquer leitor do Cinco Dias sabia que se tratava de uma provocação à Fernanda Câncio, na sequência de uma polémica que aqui tivemos no verão e que agora não poderíamos retomar nos mesmos moldes. Qualquer leitor do Cinco Dias sabe, se tiver acompanhado essa polémica, que eu e a Fernanda estamos de lados opostos nessa questão (a do aluguer de casas – não a do casamento de homossexuais) e havemos de continuar a estar - tal é irreparável. Os leitores do Cinco Dias sabem que tal divergência (antiga) entre mim e a Fernanda não teve absolutamente nada a ver com as ocorrências recentes no blogue. Os leitores mais atentos do Cinco Dias sabem que eu gosto de dirigir este tipo de provocações à Fernanda, em postagens e em comentários. Os leitores do Cinco Dias, que obviamente conhecem a Fernanda, sabem ver aquela minha frase como uma provocação e não mais do que isso. O que nem mesmo os leitores do Cinco Dias saibam, mas eu acrescento, é que já o faço há mais de dois anos (aqui e aqui), quando nem eu nem a Fernanda sonhávamos que haveríamos de partilhar um blogue, e o Cinco Dias ainda nem existia. E que nunca deixei de fazer, mesmo quando ela já era membro residente e eu só comentava. E que nem por isso a Fernanda se opôs a que eu entrasse para o blogue. Não se pode por isso concluir desta minha provocação que existe alguma “ferida aberta”. Da minha parte – aqui falo em meu nome pessoal, e é só isso que posso fazer – não existe nenhuma ferida aberta (ou fechada) com os autores do Jugular, blogue de que serei leitor e comentador, e a quem desejo toda a felicidade.
Só que Paulo Pinto Mascarenhas conclui, na sua coluna semanal sobre blogues no Jornal de Negócios, que “as feridas da cisão à esquerda continuam longe de cicatrizadas”, baseado justamente naquelas minhas palavras. Não sei que interesse este tipo de fofocas da blogosfera terá seja para quem for: quem acompanha os blogues está a par do que se passa, e quem não acompanha, não é graças a elas que passará a acompanhar. Mas o Paulo Pinto Mascarenhas escreve-as no jornal, e está no seu direito – mesmo que sejam falsas, como é o caso, e dêem uma impressão errada do que se passa a quem não acompanha o caso na blogosfera. É para escrever as suas crónicas que lhe pagam. É esse o tipo de jornalismo que Paulo Pinto Mascarenhas estava habituado a fazer no semanário onde colaborou, antes de se tornar assessor no governo do fundador e figura tutorial desse mesmo semanário: um jornalismo que procura criar casos onde não há, e os envolvidos são sempre adversários políticos. É a isso que se resume a sua crónica – pelo menos a desta semana – no Jornal de Negócios. Seria interessante no entanto ver como tal crónica se referiria a um “caso” que ocorresse num blogue seu (ou que lhe fosse próximo politicamente). Já ocorreu pelo menos um caso no passado.
Só que Paulo Pinto Mascarenhas conclui, na sua coluna semanal sobre blogues no Jornal de Negócios, que “as feridas da cisão à esquerda continuam longe de cicatrizadas”, baseado justamente naquelas minhas palavras. Não sei que interesse este tipo de fofocas da blogosfera terá seja para quem for: quem acompanha os blogues está a par do que se passa, e quem não acompanha, não é graças a elas que passará a acompanhar. Mas o Paulo Pinto Mascarenhas escreve-as no jornal, e está no seu direito – mesmo que sejam falsas, como é o caso, e dêem uma impressão errada do que se passa a quem não acompanha o caso na blogosfera. É para escrever as suas crónicas que lhe pagam. É esse o tipo de jornalismo que Paulo Pinto Mascarenhas estava habituado a fazer no semanário onde colaborou, antes de se tornar assessor no governo do fundador e figura tutorial desse mesmo semanário: um jornalismo que procura criar casos onde não há, e os envolvidos são sempre adversários políticos. É a isso que se resume a sua crónica – pelo menos a desta semana – no Jornal de Negócios. Seria interessante no entanto ver como tal crónica se referiria a um “caso” que ocorresse num blogue seu (ou que lhe fosse próximo politicamente). Já ocorreu pelo menos um caso no passado.
2008/10/22
O Luís Lavoura tem sempre alguma razão
...ou não fosse ele físico teórico. Aqui se confirma:
"Comentário de Luis Lavoura
Data: 27 Junho 2008, 12:44
O Filipe Moura ganha facilmente a aposta.
De facto acho que nao faz sentido nenhum a Fernanda (e nao so) estar neste blogue na companhia de comunistas mal reciclados como o Nuno Ramos de Almeida ou o Filipe Moura. E que, se o objetivo da Fernanda e defender os direitos e liberdade dos homossexuais, nao precisa de andar em tao mas companhias, nos no Movimento Liberal Social tambem o fazemos. A diferenca e que somos a favor da liberdade na sua totalidade. Nao somos apenas a favor da liberdade de uma pessoa namorar com quem quiser, somos tambem a favor de ela poder arrendar a sua casa a quem quiser e ao preco que quiserem combinar. Acho que faz sentido ser coerente.
A Fernanda pense bem."
Agora de facto o Luis nunca tem toda a razão. Neste caso, quando afirma que o objectivo da Fernanda Câncio é defender os direitos dos homossexuais, assim, como se fosse o único. São extremamente injustas as pessoas que afirmam que a única causa da Fernanda é o casamento dos homossexuais. Conforme se confirma pelo seu primeiro texto no novo blogue Jugular, a Fernanda tem não uma mas duas causas na vida: o casamento dos homossexuais e o aumento das rendas de casa.
(Fernanda, um dia gostaria de voltar a encontrar-te, e que então me explicasses como podes pôr no mesmo texto as palavras "igualdade", "senhorios" e "inquilinos". "Igualdade", "senhorios" e "inquilinos" são três coisas incompatíveis, pelo menos na minha limitada cabeça.)
Despeço-me dos meus companheiros do Cinco Dias: foi um grande prazer conhecer-vos e espero que a gente se continue a encontrar por aí. Saúdo os membros do novo Jugular. (Saravá companheiro Vasco. Ana e Maria João: acreditam que o café da Dona Maria foi trespassado? Vi isso quando passei por lá noutro dia.) Vou continuar a ler-vos com prazer, e com certeza que haveremos de partilhar outras lutas no futuro. Até lá, eu continuo do avesso do avesso. E quem vier atrás que feche a porta.
Tenho coligido aqui no Avesso do Avesso todos os meus textos publicados na blogosfera. Aqui ficou então um texto meu publicado no Cinco Dias na semana passada, por altura da crise que assolou o blogue.
"Comentário de Luis Lavoura
Data: 27 Junho 2008, 12:44
O Filipe Moura ganha facilmente a aposta.
De facto acho que nao faz sentido nenhum a Fernanda (e nao so) estar neste blogue na companhia de comunistas mal reciclados como o Nuno Ramos de Almeida ou o Filipe Moura. E que, se o objetivo da Fernanda e defender os direitos e liberdade dos homossexuais, nao precisa de andar em tao mas companhias, nos no Movimento Liberal Social tambem o fazemos. A diferenca e que somos a favor da liberdade na sua totalidade. Nao somos apenas a favor da liberdade de uma pessoa namorar com quem quiser, somos tambem a favor de ela poder arrendar a sua casa a quem quiser e ao preco que quiserem combinar. Acho que faz sentido ser coerente.
A Fernanda pense bem."
Agora de facto o Luis nunca tem toda a razão. Neste caso, quando afirma que o objectivo da Fernanda Câncio é defender os direitos dos homossexuais, assim, como se fosse o único. São extremamente injustas as pessoas que afirmam que a única causa da Fernanda é o casamento dos homossexuais. Conforme se confirma pelo seu primeiro texto no novo blogue Jugular, a Fernanda tem não uma mas duas causas na vida: o casamento dos homossexuais e o aumento das rendas de casa.
(Fernanda, um dia gostaria de voltar a encontrar-te, e que então me explicasses como podes pôr no mesmo texto as palavras "igualdade", "senhorios" e "inquilinos". "Igualdade", "senhorios" e "inquilinos" são três coisas incompatíveis, pelo menos na minha limitada cabeça.)
Despeço-me dos meus companheiros do Cinco Dias: foi um grande prazer conhecer-vos e espero que a gente se continue a encontrar por aí. Saúdo os membros do novo Jugular. (Saravá companheiro Vasco. Ana e Maria João: acreditam que o café da Dona Maria foi trespassado? Vi isso quando passei por lá noutro dia.) Vou continuar a ler-vos com prazer, e com certeza que haveremos de partilhar outras lutas no futuro. Até lá, eu continuo do avesso do avesso. E quem vier atrás que feche a porta.
Tenho coligido aqui no Avesso do Avesso todos os meus textos publicados na blogosfera. Aqui ficou então um texto meu publicado no Cinco Dias na semana passada, por altura da crise que assolou o blogue.
2008/09/08
Os snipers no BES e nas FARC
Regressando de viagem verifico que pelo Blasfémias pouco mudou.
João Miranda continua entretido com as suas teses libertárias, mas não percebo como pode falar em “presunção de inocência” (neste caso necessariamente do falecido assaltante) num crime que era flagrante e que estava a ser transmitido em directo pela TV. Se a polícia tivesse que pressupor sempre inocência, nunca poderia actuar e mais valia acabar com ela. No fundo, segundo a lógica habitual de Miranda milícias privadas não custariam dinheiro ao contribuinte.
Mas ocorreu-me uma comparação interessante entre o assaltante do BEs e o membro das FARC assassinado no resgate de Ingrid Betancourt e outros reféns das FARC. Este último resgate teve o júbilo merecido e justificado da maioria da blogosfera portuguesa (o meu incluído). No entanto, e embora este motivo não seja suficiente para eu lamentar a operação, tenho pena de que tenha havido uma baixa, de um guerrilheiro das FARC. Embora não defenda nem um bocadinho procedimentos das FARC (apesar de achar que existem justas razões de queixa contra o governo colombiano), aqui admito que tive pena de que aquele homem tinha morrido. E tive pena por várias razões: ele não era um dos comandos principais das FARC e, sobretudo, teve azar – estava no momento errado na hora errada.
Ao contrário do assaltante do BES, que em conjunto com o seu colega era totalmente responsável pelo que se estava a passar e deveria saber os riscos que corria, ainda assim tomando a decisão de manter o rapto e não se render, quando teve oportunidades para isso. O guerrilheiro das FARC está certo que se juntou à organização por escolha sua, e um pouco responsável seria sempre, mas não era de longe o único responsável por aquela situação. Não sabemos se teve oportunidade de se render no acto do resgate. E não há dúvida de que, em vez dele, poderia ter sido outro qualquer a morrer, pelo que evidentemente teve azar. Eu tive pena dele.
Cronistas como Ferreira Fernandes dedicaram uma crónica inteira a dizer que a morte do guerrilheiro das FARC foi justa e valeu a pena. Mas coerentemente Ferreira Fernandes também defendeu a morte do assaltante do BES.
O resgate de Ingrid Betancourt foi efusivamente comemorado no Blasfémias, onde João Miranda continua a lamentar a morte do assaltante do BES por parte da polícia do Estado. Por que razão não lamentou então João Miranda a morte do combatente das FARC?
João Miranda continua entretido com as suas teses libertárias, mas não percebo como pode falar em “presunção de inocência” (neste caso necessariamente do falecido assaltante) num crime que era flagrante e que estava a ser transmitido em directo pela TV. Se a polícia tivesse que pressupor sempre inocência, nunca poderia actuar e mais valia acabar com ela. No fundo, segundo a lógica habitual de Miranda milícias privadas não custariam dinheiro ao contribuinte.
Mas ocorreu-me uma comparação interessante entre o assaltante do BEs e o membro das FARC assassinado no resgate de Ingrid Betancourt e outros reféns das FARC. Este último resgate teve o júbilo merecido e justificado da maioria da blogosfera portuguesa (o meu incluído). No entanto, e embora este motivo não seja suficiente para eu lamentar a operação, tenho pena de que tenha havido uma baixa, de um guerrilheiro das FARC. Embora não defenda nem um bocadinho procedimentos das FARC (apesar de achar que existem justas razões de queixa contra o governo colombiano), aqui admito que tive pena de que aquele homem tinha morrido. E tive pena por várias razões: ele não era um dos comandos principais das FARC e, sobretudo, teve azar – estava no momento errado na hora errada.
Ao contrário do assaltante do BES, que em conjunto com o seu colega era totalmente responsável pelo que se estava a passar e deveria saber os riscos que corria, ainda assim tomando a decisão de manter o rapto e não se render, quando teve oportunidades para isso. O guerrilheiro das FARC está certo que se juntou à organização por escolha sua, e um pouco responsável seria sempre, mas não era de longe o único responsável por aquela situação. Não sabemos se teve oportunidade de se render no acto do resgate. E não há dúvida de que, em vez dele, poderia ter sido outro qualquer a morrer, pelo que evidentemente teve azar. Eu tive pena dele.
Cronistas como Ferreira Fernandes dedicaram uma crónica inteira a dizer que a morte do guerrilheiro das FARC foi justa e valeu a pena. Mas coerentemente Ferreira Fernandes também defendeu a morte do assaltante do BES.
O resgate de Ingrid Betancourt foi efusivamente comemorado no Blasfémias, onde João Miranda continua a lamentar a morte do assaltante do BES por parte da polícia do Estado. Por que razão não lamentou então João Miranda a morte do combatente das FARC?
2008/08/13
O outro texto do João Miranda
Refiro-me agora ao texto publicado no Blasfémias sobre o assalto à dependência do Banco Espírito Santo em Lisboa. Começo por esclarecer a minha posição: concordo com o procedimento da polícia. Embora lamente sinceramente que tenha sido perdida uma vida, estavam outras vidas, perfeitamente inocentes, em jogo, pelo que creio que a opção não poderia ter sido outra. Dito isto, também não concordo que se equivalham as posições do João Miranda e da maior parte das pessoas que criticam a actuação da polícia neste caso. É que quis-me parecer (mas posso estar errado) que o que mais incomoda o João Miranda é, mais do que a morte em si, o facto de esta ter sido perpetrada por um agente do Estado (polícia, neste caso). Sendo assim, e para esclarecer melhor esta minha dúvida, gostaria de colocar algumas questões ao João Miranda, nomeadamente:
- Qual é a opinião do João Miranda sobre a pena de morte? O João já escreveu sobre isto, mas não é um juiz um agente do Estado?
- Qual é a opinião do João Miranda sobre o livre porte de armas?
- Tomaria o João Miranda a mesma posição sobre a morte caso a mesma operação de resgate (com a mesma morte do assaltante) tivesse sido efectuada por um privado? Digamos que por vigilantes contratados pelo próprio banco e não pelo Estado?
2008/07/28
O besteirol dos 500 anos
No rescaldo da atribuição do Prémio Camões 2008 a João Ubaldo Ribeiro, achei que vinha a propósito recordar aqui um artigo deste autor, publicado em 2000, sobre a famosa polémica do "achamento" versus "descobrimento" do Brasil. Sobre este assunto, creio que o autor de Viva o Povo Brasileiro sabe muito bem o que diz. É um texto polémico, porém.
O besteirol dos 500 anos, João Ubaldo Ribeiro, O Estado de S. Paulo, 24/04/2000
Levando-se em conta nossa pitoresca realidade contemporânea, até que a quantidade de besteiras ditas e escritas sobre o controvertido aniversário do Brasil não dá para surpreender. O que chateia um pouquinho é que diversas dessas besteiras continuarão a perseguir-nos pela vida afora, algumas talvez trazendo conseqüências indesejadas. A principal delas, naturalmente, é a de que o Brasil começou em 1500, quando nem mesmo no nome isso aconteceu, posto que éramos uma ilha quando os portugueses primeiro viram as terras daqui e, durante muito tempo, o Brasil que duvidosamente existia não tinha nada a ver com o Brasil de hoje.
A impressão que se tem é que, do povo às autoridades e mesmo aos entendidos, acha-se que o Brasil já estava no mapa, com as fronteiras e características atuais, no momento em que Cabral chegou. Teria tido até um nome nativo, já proposto, pelos mais exaltados, para substituir "Brasil": Pindorama, designação supostamente dada pelos índios ao nosso país. Não sou historiador, mas também não sou tão burro assim para acreditar que os índios tinham qualquer noção geopolítica, ou alguma idéia de que pertenciam a um "país" chamado Pindorama. Não havia qualquer país, é claro, nem sequer a palavra Pindorama devia fazer sentido para os ocupantes que os portugueses encontraram aqui, se é que ela era usada mesmo. No máximo, significaria o único mundo conhecido deles. Parece assim que os nossos índios administravam impérios e cidades como os dos maias, astecas ou incas, quando na verdade, que perdura até hoje, viviam neoliticamente e a maioria esgotava o numerais em três - era o máximo que conseguiam contar e o resto se designava como "muito".
O besteirol dos 500 anos, João Ubaldo Ribeiro, O Estado de S. Paulo, 24/04/2000
Levando-se em conta nossa pitoresca realidade contemporânea, até que a quantidade de besteiras ditas e escritas sobre o controvertido aniversário do Brasil não dá para surpreender. O que chateia um pouquinho é que diversas dessas besteiras continuarão a perseguir-nos pela vida afora, algumas talvez trazendo conseqüências indesejadas. A principal delas, naturalmente, é a de que o Brasil começou em 1500, quando nem mesmo no nome isso aconteceu, posto que éramos uma ilha quando os portugueses primeiro viram as terras daqui e, durante muito tempo, o Brasil que duvidosamente existia não tinha nada a ver com o Brasil de hoje.
A impressão que se tem é que, do povo às autoridades e mesmo aos entendidos, acha-se que o Brasil já estava no mapa, com as fronteiras e características atuais, no momento em que Cabral chegou. Teria tido até um nome nativo, já proposto, pelos mais exaltados, para substituir "Brasil": Pindorama, designação supostamente dada pelos índios ao nosso país. Não sou historiador, mas também não sou tão burro assim para acreditar que os índios tinham qualquer noção geopolítica, ou alguma idéia de que pertenciam a um "país" chamado Pindorama. Não havia qualquer país, é claro, nem sequer a palavra Pindorama devia fazer sentido para os ocupantes que os portugueses encontraram aqui, se é que ela era usada mesmo. No máximo, significaria o único mundo conhecido deles. Parece assim que os nossos índios administravam impérios e cidades como os dos maias, astecas ou incas, quando na verdade, que perdura até hoje, viviam neoliticamente e a maioria esgotava o numerais em três - era o máximo que conseguiam contar e o resto se designava como "muito".
2008/07/18
Da conversa de Lula com o "doutor Mário"
... (quarta à noite, na RTP1), ficam principalmente estas frases, que cito de memória: "agora, que exerço o poder, não tenho o direito de sonhar mais. O mandato é de quatro anos, e eu tenho que fazer o melhor possível." Só mesmo um homem muito sábio como Lula para arrumar numa frase a "imaginação ao poder" e os soixante-huitards (que mais depressa votam nos tucanos que nele).
Também ficou muito bem a Mário Soares citar Fidel Castro, no fim da entrevista: os homens de esquerda no poder têm que ser "cavaleiros da esperança".
Também ficou muito bem a Mário Soares citar Fidel Castro, no fim da entrevista: os homens de esquerda no poder têm que ser "cavaleiros da esperança".
2008/07/17
Re: Debate sobre a Regionalização - a questão do Porto
Caro Pedro,
respondendo sinteticamente (e em estéreo):
1 - Muito obrigado pelos teus esclarecimentos. Desconhecia o facto de o centro histórico de Gaia já ter pertencido ao Porto, bem como o porto de Leixões. Eu sou favorável a municípios fortes, pelo que nada tenho a opor a essa putativa união (nem teria que me opor ou deixar de opor). Só referi essa questão porque achei graça à forma como ela foi posta no tal debate a que assistimos, na intervenção do público: houve quem falasse em o Porto "anexar" ou "absorver" Gaia. Achei graça à leviandade com que se falava em absorver, como se os gaienses, que presentemente até são mais que os portuenses (daí a minha sugestão de Gaia absorver o Porto), não fossem para ali chamados! Mas é preciso dizer que também houve quem falasse em "unir" Porto, Gaia e Matosinhos (sem falar em "absorver").
2 e 3 - Essas são as questões mais interessantes. Haveremos de as continuar a debater. Mas mantenho a impressão de que ninguém anseia mais a regionalização do que o Porto, e na verdade muitos supostos regionalistas no Porto ambicionam mais do que a regionalização. Não é "Lisboa" ter medo do Porto: é o resto do país ter medo do separatismo. Basta considerar o discurso dos regionalistas mais inflamados - o que não falta são candidatos a Umberto Bossi.
4 - Sobre o estafado argumento "constitucional", tu não o usas, e nem ninguém do Blasfémias (ninguém do Blasfémias defende a nossa constituição). Mas olha que há muita gente, principalmente à esquerda, que o usa. Suspeito mesmo que alguns elementos do Norteamos o apoiam. Já experimentaste perguntar-lhes?
Também foi um prazer conhecer-te pessoalmente, e até à próxima. Até lá haveremos de continuar a debater.
respondendo sinteticamente (e em estéreo):
1 - Muito obrigado pelos teus esclarecimentos. Desconhecia o facto de o centro histórico de Gaia já ter pertencido ao Porto, bem como o porto de Leixões. Eu sou favorável a municípios fortes, pelo que nada tenho a opor a essa putativa união (nem teria que me opor ou deixar de opor). Só referi essa questão porque achei graça à forma como ela foi posta no tal debate a que assistimos, na intervenção do público: houve quem falasse em o Porto "anexar" ou "absorver" Gaia. Achei graça à leviandade com que se falava em absorver, como se os gaienses, que presentemente até são mais que os portuenses (daí a minha sugestão de Gaia absorver o Porto), não fossem para ali chamados! Mas é preciso dizer que também houve quem falasse em "unir" Porto, Gaia e Matosinhos (sem falar em "absorver").
2 e 3 - Essas são as questões mais interessantes. Haveremos de as continuar a debater. Mas mantenho a impressão de que ninguém anseia mais a regionalização do que o Porto, e na verdade muitos supostos regionalistas no Porto ambicionam mais do que a regionalização. Não é "Lisboa" ter medo do Porto: é o resto do país ter medo do separatismo. Basta considerar o discurso dos regionalistas mais inflamados - o que não falta são candidatos a Umberto Bossi.
4 - Sobre o estafado argumento "constitucional", tu não o usas, e nem ninguém do Blasfémias (ninguém do Blasfémias defende a nossa constituição). Mas olha que há muita gente, principalmente à esquerda, que o usa. Suspeito mesmo que alguns elementos do Norteamos o apoiam. Já experimentaste perguntar-lhes?
Também foi um prazer conhecer-te pessoalmente, e até à próxima. Até lá haveremos de continuar a debater.
2008/07/11
Do Porto
Desde anteontem encontro-me no Porto a participar em mais um Oporto Meeting on Geometry, Topology and Physics. Mas ontem à noite aproveitei para assistir a um debate sobre regionalização promovido pela Câmara Municipal do Porto e moderado por Rui Rio (ele mesmo). Ao contrário do que é costume em Lisboa, no Porto havia intervenção do público, no final. Intervim como agente provocador. Aqui estão as linhas mestras do meu comentário:
- deixei bem claro que a descentralização era indispensável e não tinha nenhum problema em especial com a regionalização. O problema era mesmo o Porto;
- falou-se no debate que o Porto deveria absorver Gaia (assim mesmo, abertamente), formando uma só cidade. A ideia não era má, mas algo incorrecta: o certo seria Gaia absorver o Porto (e acabar de vez com o Porto);
- todo o país tem que se queixar do centralismo e das desigualdades regionais, mas só no Porto se fala de regionalização. O que motiva o Porto não é a descentralização mas a inveja de Lisboa e uma nova centralização, a norte (o centralismo tripeiro);
- eu votaria contra a regionalização. Para votar a favor teria de se regionalizar todo o país excepto o Porto. A região norte seria à volta do Porto; o Porto seria um enclave nortenho da região de Lisboa;
- a quem invoca a constituição para defender a regionalização, recordo que na altura em que isso foi escrito (1975) o socialismo também era um imperativo constitucional. E que tal se, antes de implantarmos a regionalização, implantássemos o socialismo?
2008/07/09
As duas faces do proteccionismo no arrendamento
Vale a pena atentar nos comentários que um tal “Luís” (não é Lavoura nem Rainha), que alguma relação terá com a Associação Lisbonense de Proprietários, tem vindo a deixar nos meus textos. É isso que faço agora. Diz Luís:
É notável a convicção com que afirma que os imóveis “não existiriam”. Bem, não é essa a história de todos os imóveis construídos em Lisboa durante o Estado Novo. Há bairros sociais como o Arco Cego, Alvalade (atrás do Campo Grande) e a Encarnação. Não são as zonas mais dinâmicas de Lisboa, é verdade, mas ainda hoje existem e estão para durar.
Mesmo assim, se é verdade que grande parte de Lisboa foi construída no Estado Novo com o objectivo de arrendar, tal resultou de um contrato social. Imposto pelo salazarismo, é certo, mas nem por isso deixa de ser um contrato. Em que consistia o tal contrato? Em troca de acesso à compra de prédios para alugar, era imposto o congelamento de rendas. Aos senhorios Salazar facilitava a compra de casa (como facilitou muita coisa, noutra escala, a senhores como Mello e Champalimaud); aos inquilinos, era facilitado o arrendamento. O Luís lá terá as suas razões para afirmar que a construção destes prédios “deu casa a muita gente” e “não teria sido possível” se não fosse para arrendar. O que o Luís se esqueceu de perguntar foi: teriam esses prédios sido construídos, teriam essas casas sido ocupadas sem o regime de congelamento de rendas imposto por Salazar? Pois é…
De qualquer maneira não defendo de forma nenhuma o congelamento de rendas como opção ideal. Se na prática indirectamente o defendo (ou seja, se sou contra um aumento brutal das rendas) é porque tal é um mal menor. Com efeito, a meu ver a grande injustiça do mercado imobiliário está na grande concentração de prédios inteiros nessas famílias de senhorios do tempo do salazarismo (pequenos burgueses proprietários protegidos por Salazar – verdadeiros Champalimauds de trazer por casa). Uma concentração que, hoje em dia, em pleno século XXI, várias décadas depois do Estado Novo, não faz sentido absolutamente nenhum.
Dito isto, não sou contra o mercado de aluguer de casas, embora ache que não deva ser encorajado. Mas acho notável o descaramento dos vários herdeiros dos protegidos de Salazar que têm comentado os meus textos, quando afirmam que hoje em dia, com a precariedade e a instabilidade, é preferível alugar uma casa a comprá-la e que é melhor ter um senhorio “à antiga” do que ter o banco como senhorio. Embora reconheça que é preocupante a quantidade de crédito mal-parado em Portugal e me revoltem os enormes lucros do sector bancário (muito à custa dos empréstimos para comprar casa), tal comparação é profundamente desonesta. Se tudo correr bem, em condições normais, ao fim de um certo número de anos a casa comprada está paga ao banco e pertence a quem pediu o empréstimo. Hoje em dia é ainda mais uma operação de risco, e por isso quem a faz merece apoio e admiração. Uma casa alugada está a ser paga uma vida inteira pelo inquilino para no fim ficar… para os netos e bisnetos dos pequenos burgueses que compraram o prédio. Bem entendemos onde eles querem chegar, bem percebemos o que eles têm a ganhar (com um novo contrato ou se a renda for descongelada) e bem dispensamos os seus “conselhos”.
Fique sabendo que grande parte de Lisboa foi construída dos anos 30 em diante, com o objectivo de arrendar. Sim, foi a aplicação de poupanças. Deu emprego a muita gente e permitiu a muito mais ter habitação. De forma geral, os prédios foram construídos com esse fim específico. Não existiriam se assim não fosse.
É notável a convicção com que afirma que os imóveis “não existiriam”. Bem, não é essa a história de todos os imóveis construídos em Lisboa durante o Estado Novo. Há bairros sociais como o Arco Cego, Alvalade (atrás do Campo Grande) e a Encarnação. Não são as zonas mais dinâmicas de Lisboa, é verdade, mas ainda hoje existem e estão para durar.
Mesmo assim, se é verdade que grande parte de Lisboa foi construída no Estado Novo com o objectivo de arrendar, tal resultou de um contrato social. Imposto pelo salazarismo, é certo, mas nem por isso deixa de ser um contrato. Em que consistia o tal contrato? Em troca de acesso à compra de prédios para alugar, era imposto o congelamento de rendas. Aos senhorios Salazar facilitava a compra de casa (como facilitou muita coisa, noutra escala, a senhores como Mello e Champalimaud); aos inquilinos, era facilitado o arrendamento. O Luís lá terá as suas razões para afirmar que a construção destes prédios “deu casa a muita gente” e “não teria sido possível” se não fosse para arrendar. O que o Luís se esqueceu de perguntar foi: teriam esses prédios sido construídos, teriam essas casas sido ocupadas sem o regime de congelamento de rendas imposto por Salazar? Pois é…
De qualquer maneira não defendo de forma nenhuma o congelamento de rendas como opção ideal. Se na prática indirectamente o defendo (ou seja, se sou contra um aumento brutal das rendas) é porque tal é um mal menor. Com efeito, a meu ver a grande injustiça do mercado imobiliário está na grande concentração de prédios inteiros nessas famílias de senhorios do tempo do salazarismo (pequenos burgueses proprietários protegidos por Salazar – verdadeiros Champalimauds de trazer por casa). Uma concentração que, hoje em dia, em pleno século XXI, várias décadas depois do Estado Novo, não faz sentido absolutamente nenhum.
Dito isto, não sou contra o mercado de aluguer de casas, embora ache que não deva ser encorajado. Mas acho notável o descaramento dos vários herdeiros dos protegidos de Salazar que têm comentado os meus textos, quando afirmam que hoje em dia, com a precariedade e a instabilidade, é preferível alugar uma casa a comprá-la e que é melhor ter um senhorio “à antiga” do que ter o banco como senhorio. Embora reconheça que é preocupante a quantidade de crédito mal-parado em Portugal e me revoltem os enormes lucros do sector bancário (muito à custa dos empréstimos para comprar casa), tal comparação é profundamente desonesta. Se tudo correr bem, em condições normais, ao fim de um certo número de anos a casa comprada está paga ao banco e pertence a quem pediu o empréstimo. Hoje em dia é ainda mais uma operação de risco, e por isso quem a faz merece apoio e admiração. Uma casa alugada está a ser paga uma vida inteira pelo inquilino para no fim ficar… para os netos e bisnetos dos pequenos burgueses que compraram o prédio. Bem entendemos onde eles querem chegar, bem percebemos o que eles têm a ganhar (com um novo contrato ou se a renda for descongelada) e bem dispensamos os seus “conselhos”.
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Habitação,
Lisboa
2008/07/08
Segurança
Há um argumento curioso dos defensores do arrendamento de casa – que geralmente defendem também a precariedade laboral. Estes senhores primeiro querem acabar com tudo o que seja segurança no emprego, para depois dizerem que “já não há empregos seguros” que permitam comprar casa - com a instabilidade laboral, hoje em dia quem não herdou uma casa ou não tem pais que lha ofereçam só deve alugar casa e não comprar.
Mais vale estas pessoas defenderem de vez, e abertamente, que querem acabar com o direito à casa própria (tal como querem acabar com o emprego seguro). Eu admito - considero que o mercado de aluguer de casas deve ser a excepção e não a regra. Deve ser desencorajado ao máximo. A menos que desejem uma situação como a da música do vídeo (ouçam até ao fim).
Mais vale estas pessoas defenderem de vez, e abertamente, que querem acabar com o direito à casa própria (tal como querem acabar com o emprego seguro). Eu admito - considero que o mercado de aluguer de casas deve ser a excepção e não a regra. Deve ser desencorajado ao máximo. A menos que desejem uma situação como a da música do vídeo (ouçam até ao fim).
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Cinco Dias,
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Lisboa
2008/07/07
Uma terra sem senhorios
Nesta questão das rendas de casa há vários aspectos que acho espantosos.
Acho espantoso que quem defende a “iniciativa” e o “empreendedorismo” acabe a defender uma actividade que de iniciativa e empreendedorismo tem muito pouco ou quase nada. Que empreendedorismo existe em gastar dinheiro em casas para alugar, em vez de fazer aplicações no banco ou jogar na bolsa? Que benefícios traz tal actividade para o crescimento da economia? Que empregos se criam? Que riqueza é produzida em concentrar-se um recurso que deve ser finito e, portanto, não produzido mais do que o necessário (a habitação nas grandes cidades) nas mãos de alguns senhorios endinheirados?
Dir-me-ão: a actual lei das rendas tem paradoxos? Pois é verdade. E conduz a situações ridículas? Pois conduz. Não sou um defensor da actual lei e nem da actual situação, mas não tenho nenhuma simpatia por senhorios ou pelo aluguer de casas enquanto ocupação permanente, e não posso apoiar nenhuma lei que estimule esta actividade. Reconheço que o mercado de aluguer é necessário, mas deve ser complementar, e baseado nas casas que não estão ocupadas por alguma razão. Não deve ser o fundamento, a razão de uma casa, pelo menos de uma casa particular. Uma segunda casa particular num raio mínimo de quilómetros deveria ser para vender e não para alugar. Deveria pagar impostos altos.
De entre as críticas que me fizeram foi a de “não conhecer bem outras realidades”. Pois nos EUA conheci dois casos de “senhorios” cuja única “profissão” era alugar quartos e estúdios a estudantes e investigadores (sem passar recibos e sem pagar impostos). Ganhavam o suficiente assim não só para comerem e eventualmente pagarem um seguro de saúde, mas para manterem as casas para alugarem e terem carros. Não faziam absolutamente mais nada. Não estudavam, não trabalhavam, não progrediam. Nem precisavam, com as casas que tinham recebido de herança. Não eram nenhuns coitados. Este modelo de sociedade ou estilo de vida não são defensáveis nem devem ser encorajados.
Há inquilinos que pagam rendas ridiculamente baixas e de coitados não têm nada, é verdade, mas a diferença em relação aos senhorios é que também há muitos casos de inquilinos com rendimentos de miséria. Nunca conheci nenhum senhorio que fosse pobre. Mesmo assim, gostam de se passar por gente “modesta” que investiu as suas “poupanças” numas “casas” para alugar como “complemento de reforma”. Pois bem, supondo que essas “casas” correspondem no mínimo a um prédio (muitas vezes correspondem a mais), receber rendas de dezenas de euros pelos apartamentos desse prédio correspondem a um bom “complemento de reforma”, pelo menos no que eu entendo por “complemento”. Quem chama a rendas de centenas de euros (a multiplicar por um prédio inteiro) “complemento de reforma” tem uma reforma muito boa! Não deve ter nenhum discurso miserabilista e nem merece compaixão. Em qualquer dos casos, tal rendimento (“complemento” ou não) não resulta de nenhum trabalho ou esforço. Eu não sou contra as pessoas enriquecerem, desde que trabalhem para isso.
O mais curioso é que os maiores defensores do arrendamento de casas têm todos casa própria! Defendem o estímulo do arrendamento, mas arrendar casa não é com eles. Quem os quer ver é nas suas casinhas próprias. Se viver em casa alugada é tão bom, por que não alugam as suas casas uns aos outros e deixam os trabalhadores terem casa própria, uma ambição justa e legítima?
Acho espantoso que quem defende a “iniciativa” e o “empreendedorismo” acabe a defender uma actividade que de iniciativa e empreendedorismo tem muito pouco ou quase nada. Que empreendedorismo existe em gastar dinheiro em casas para alugar, em vez de fazer aplicações no banco ou jogar na bolsa? Que benefícios traz tal actividade para o crescimento da economia? Que empregos se criam? Que riqueza é produzida em concentrar-se um recurso que deve ser finito e, portanto, não produzido mais do que o necessário (a habitação nas grandes cidades) nas mãos de alguns senhorios endinheirados?
Dir-me-ão: a actual lei das rendas tem paradoxos? Pois é verdade. E conduz a situações ridículas? Pois conduz. Não sou um defensor da actual lei e nem da actual situação, mas não tenho nenhuma simpatia por senhorios ou pelo aluguer de casas enquanto ocupação permanente, e não posso apoiar nenhuma lei que estimule esta actividade. Reconheço que o mercado de aluguer é necessário, mas deve ser complementar, e baseado nas casas que não estão ocupadas por alguma razão. Não deve ser o fundamento, a razão de uma casa, pelo menos de uma casa particular. Uma segunda casa particular num raio mínimo de quilómetros deveria ser para vender e não para alugar. Deveria pagar impostos altos.
De entre as críticas que me fizeram foi a de “não conhecer bem outras realidades”. Pois nos EUA conheci dois casos de “senhorios” cuja única “profissão” era alugar quartos e estúdios a estudantes e investigadores (sem passar recibos e sem pagar impostos). Ganhavam o suficiente assim não só para comerem e eventualmente pagarem um seguro de saúde, mas para manterem as casas para alugarem e terem carros. Não faziam absolutamente mais nada. Não estudavam, não trabalhavam, não progrediam. Nem precisavam, com as casas que tinham recebido de herança. Não eram nenhuns coitados. Este modelo de sociedade ou estilo de vida não são defensáveis nem devem ser encorajados.
Há inquilinos que pagam rendas ridiculamente baixas e de coitados não têm nada, é verdade, mas a diferença em relação aos senhorios é que também há muitos casos de inquilinos com rendimentos de miséria. Nunca conheci nenhum senhorio que fosse pobre. Mesmo assim, gostam de se passar por gente “modesta” que investiu as suas “poupanças” numas “casas” para alugar como “complemento de reforma”. Pois bem, supondo que essas “casas” correspondem no mínimo a um prédio (muitas vezes correspondem a mais), receber rendas de dezenas de euros pelos apartamentos desse prédio correspondem a um bom “complemento de reforma”, pelo menos no que eu entendo por “complemento”. Quem chama a rendas de centenas de euros (a multiplicar por um prédio inteiro) “complemento de reforma” tem uma reforma muito boa! Não deve ter nenhum discurso miserabilista e nem merece compaixão. Em qualquer dos casos, tal rendimento (“complemento” ou não) não resulta de nenhum trabalho ou esforço. Eu não sou contra as pessoas enriquecerem, desde que trabalhem para isso.
O mais curioso é que os maiores defensores do arrendamento de casas têm todos casa própria! Defendem o estímulo do arrendamento, mas arrendar casa não é com eles. Quem os quer ver é nas suas casinhas próprias. Se viver em casa alugada é tão bom, por que não alugam as suas casas uns aos outros e deixam os trabalhadores terem casa própria, uma ambição justa e legítima?
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