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2010/10/30
Se os recursos fossem ilimitados não precisaríamos da esquerda para nada
“Assumindo recursos infinitos, a economia continuará a crescer, em média, com mais ou menos crises pelo meio”, prevê candidamente o Ricardo Schiappa. “Quase todos nós tendemos a encarar a presente crise como uma breve pausa no processo de crescimento”, escreve naturalmente o João Pinto e Castro. Neste caso não me parece que seja isto que ele pensa, mas de qualquer maneira o que me incomoda é o “quase todos nós” que o João familiarmente escreve. “Quase todos nós” achamos que o crescimento não parará. Que é como quem diz que “quase todos nós” achamos que os recursos naturais são inesgotáveis. Estamos aqui a falar do setor primário: sem ele não há comida. Mas mesmo o setor terciário, o das “ideias”, das “oportunidades”, que contribuem para o crescimento económico e em teoria podem ser inesgotáveis, não o é na vida real.
Estes “quase todos nós” a que o João Pinto e Castro se refere somos nós, do hemisfério norte, que crescemos e vivemos habituados a uma economia do desperdício. Tal facto é particularmente notório nos EUA, mas também se verifica na Europa. Continuamos a conduzir estupidamente os nossos carros, mesmo em percursos de centenas de metros, mesmo em localidades bem servidas de transportes públicos, como se o petróleo fosse inesgotável e o espaço para circular e estacionar nas cidades fosse infinito (sem falar nos enormes prejuízos ecológicos, de que o aquecimento global é só um exemplo). Continuamos criminosamente a comer jaquinzinhos e petingas, sem nos preocuparmos se no futuro os nossos filhos poderão comer carapaus e sardinhas frescos, capturados no mar. E assim sucessivamente – os exemplos não são poucos.
Que as pessoas de direita pensem, erradamente, que os recursos são inesgotáveis, ainda compreendo. O que não consigo entender é que tal passe sequer pela cabeça de pessoas que se digam de esquerda. Marx, provavelmente o primeiro ecologista, apercebeu-se da finitude dos recursos, ou não teria escrito “O Capital”.
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2010/02/10
Sobre violação de emails (de trabalho)
Vale a pena ler o editorial da Nature sobre o caso dos emails roubados aos investigadores de climatologia. Cheguei lá via Klepsýdra.
Também publicado no Esquerda Republicana
"Nothing in the e-mails undermines the scientific case that global warming is real — or that human activities are almost certainly the cause. That case is supported by multiple, robust lines of evidence, including several that are completely independent of the climate reconstructions debated in the e-mails."Transcrevo mesmo as palavras do Rui Curado Silva:
Não vale a pena os niilistas do costume recorrerem à esquizofrenia conspirativa tentando descredibilizar a revista Nature. É a melhor revista científica, onde são publicados os melhores trabalhos científicos. É na Nature que se publica a ciência que dá prémios Nobel, é na Nature que se publica a ciência que nos permite ter uma vida extremamente confortável atrás de televisores, de volantes de automóveis, de écrans de computadores, que nos permite usar um GPS para nos orientarmos no deserto, enviar satélites de comunicações para o espaço e desfrutar da enciclopédia infinita que é a internet. É por ali que passa a verdadeira ciência. Qual é a ciência associada às parcas referências dos niilista do aquecimento global? Talvez a ciência da exploração de poços de petróleo...
Também publicado no Esquerda Republicana
2010/01/13
Sai um subsídio para o blasfemo ir estudar
Quem contrapõe valores quase instantâneos, medidos ao longo de dias, a valores médios, medidos ao longo de muitos anos, não percebe nada de estatística. Deveria sair um subsídio era para o João Caetano Dias (um engenheiro do Técnico) ir repetir a cadeira de Probabilidades e Estatística. Ele já não se lembra do que é uma média.
Também publicado no Esquerda Republicana
Também publicado no Esquerda Republicana
2010/01/01
Se os recursos fossem ilimitados, não precisaríamos da esquerda para nada
“Assumindo recursos infinitos, a economia continuará a crescer, em média, com mais ou menos crises pelo meio”, prevê candidamente o Ricardo Schiappa. “Quase todos nós tendemos a encarar a presente crise como uma breve pausa no processo de crescimento”, escreve naturalmente o João Pinto e Castro. Neste caso não me parece que seja isto que ele pensa, mas de qualquer maneira o que me incomoda é o “quase todos nós” que o João familiarmente escreve. “Quase todos nós” achamos que o crescimento não parará. Que é como quem diz que “quase todos nós” achamos que os recursos naturais são inesgotáveis. Estamos aqui a falar do setor primário: sem ele não há comida. Mas mesmo o setor terciário, o das “ideias”, das “oportunidades”, que contribuem para o crescimento económico e em teoria podem ser inesgotáveis, não o é na vida real.
Estes “quase todos nós” a que o João Pinto e Castro se refere somos nós, do hemisfério norte, que crescemos e vivemos habituados a uma economia do desperdício. Tal facto é particularmente notório nos EUA, mas também se verifica na Europa. Continuamos a conduzir estupidamente os nossos carros, mesmo em percursos de centenas de metros, mesmo em localidades bem servidas de transportes públicos, como se o petróleo fosse inesgotável e o espaço para circular e estacionar nas cidades fosse infinito (sem falar nos enormes prejuízos ecológicos, de que o aquecimento global é só um exemplo). Continuamos criminosamente a comer jaquinzinhos e petingas, sem nos preocuparmos se no futuro os nossos filhos poderão comer carapaus e sardinhas frescos, capturados no mar. E assim sucessivamente – os exemplos não são poucos.
Que as pessoas de direita pensem, erradamente, que os recursos são inesgotáveis, ainda compreendo. O que não consigo entender é que tal passe sequer pela cabeça de pessoas que se digam de esquerda. Marx, provavelmente o primeiro ecologista, apercebeu-se da finitude dos recursos, ou não teria escrito “O Capital”.
Estes “quase todos nós” a que o João Pinto e Castro se refere somos nós, do hemisfério norte, que crescemos e vivemos habituados a uma economia do desperdício. Tal facto é particularmente notório nos EUA, mas também se verifica na Europa. Continuamos a conduzir estupidamente os nossos carros, mesmo em percursos de centenas de metros, mesmo em localidades bem servidas de transportes públicos, como se o petróleo fosse inesgotável e o espaço para circular e estacionar nas cidades fosse infinito (sem falar nos enormes prejuízos ecológicos, de que o aquecimento global é só um exemplo). Continuamos criminosamente a comer jaquinzinhos e petingas, sem nos preocuparmos se no futuro os nossos filhos poderão comer carapaus e sardinhas frescos, capturados no mar. E assim sucessivamente – os exemplos não são poucos.
Que as pessoas de direita pensem, erradamente, que os recursos são inesgotáveis, ainda compreendo. O que não consigo entender é que tal passe sequer pela cabeça de pessoas que se digam de esquerda. Marx, provavelmente o primeiro ecologista, apercebeu-se da finitude dos recursos, ou não teria escrito “O Capital”.
2009/12/28
2009/11/19
Como se deslocam os portugueses nas cidades europeias?
Há um mito – talvez seja mais correcto falar-se numa desculpa – para o hábito errado (pelo menos por parte de quem habita nas áreas metropolitanas de Lisboa ou Porto) dos portugueses se transportarem sempre de carro, para onde quer que vão. Não importa se os transportes públicos estejam cada vez melhores, pelo menos em Lisboa. O Metro está cada vez mais eficiente e com melhores ligações. Já se podem fazer transferências gratuitas entre autocarros. O serviço nocturno da rede de autocarros foi melhorado e ampliado. Os comboios suburbanos estenderam o seu serviço pela madrugada nas vésperas de fim de semana e feriados. Mas os portugueses – sendo que os lisboetas sem qualquer desculpa – insistem que o serviço de transportes públicos “não é adequado”. Dado que outros povos da Europa não exibem este comportamento e utilizam correntemente os transportes públicos, poderíamos ser levados a pensar que, apesar de tudo o que enumerei, o problema estaria nos transportes portugueses. Dado que “lá fora” se anda de transporte público, se tivéssemos transportes como “lá fora” talvez os usássemos. Quem continua a defender esta ideia (ou mais correctamente a usar esta desculpa) que explique este exemplo (a que cheguei via o Menos um Carro).
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2009/10/30
Pedalar para Fugir do Preconceito
O meu amigo MC faz notar, no Menos um Carro, o texto Pedalar para Fugir do Preconceito. A ler com atenção.
2009/10/09
A minha declaração de voto em Lisboa
Voto em António Costa. Porque foi o único candidato que fez um esforço efectivo para unir a esquerda. Porque a eleição de Santana Lopes (que seria muito má para a cidade – o triunfo do automóvel privado) é um perigo real, que não se deve subestimar, pelo que não deve haver votos perdidos ou dispersados. Acima de tudo, porquje creio que Costa mostrou, nestes dois anos, que é um excelente Presidente. E, queira-se ou não, é Costa que tem marcado a agenda destas autárquicas lisboetas (o que, contra um adversário como Santana, é notável). Uma pequena mas significativa demonstração deste facto é o desmascarar definitivo das intenções políticas da corporação do automóvel (ao que este clube, que já foi respeitável, chegou!). Independentemente das óbvias motivações políticas do seu presidente, o ACP quer eleger os ciclistas como inimigos. E quem quiser esta guerra perde (é isso que eu costumo dizer aos meus amigos do Menos Um Carro – defender os peões e os ciclistas, mas sem declarar guerra aberta aos automobilistas: convencê-los). Por uma Lisboa sustentável e plural, o meu voto só pode ser em António Costa.
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2009/09/25
Semana da Mobilidade/Massa Crítica
Esta foi a semana da Mobilidade. Para um balanço, ler o sempre atento Menos Um Carro. Esta noite há festa de ciclistas em Alfama. Lá estarei (depois da noite dos investigadores).
2009/04/29
Ruído de fundo
Foi na apresentação do novo livro do José Mário Silva, na livraria Pó dos Livros em Lisboa. Enquanto Jorge Silva Melo perorava sobre bares supostamente "decrépitos", ouviam-se buzinas cá fora. Pessoas na assistênci abandonavam o recinto para se certificarem de que não era o seu carro que estava a causar problemas de circulação. Eu sabia que a minha bicicleta é que não era.
Adenda: a foto é do Luis Rainha, que a tirou sem ninguém dar por isso.
2009/03/06
Bicicleta paga, MEC de brinde
O meu apreço por ciclistas é zero. São sugadores de recursos asfaltados que não só não pagam como enervam os automobilistas pagadores, que ziguezagueiam a ver se os conseguem evitar. (Miguel Esteves Cardoso, PÚBLICO, 27-02-2009
O meu apreço por quem escreve estes dislates (e muitos outros, há muitos anos) é zero. É (desde há décadas) um sugador de recursos impressos que não só não paga, como enerva os leitores pagadores, que ziguezagueiam e saltam páginas a ver se conseguem evitar a sua prosa imbecil.
Leitura complementar: De quem me sinto mais longe (política e ideologicamente) na República Portuguesa; Ó MEC, fale por si; A cepa torta do MEC; 48 anos de cepa torta; finalmente, Obsessões, pelo indispensável João Branco.
2009/01/23
O João faz falta (2)
Só faltou ele dizer que é engenheiro aeroespacial... do Técnico! Para castigo, este texto leva a etiqueta "LEFT". No fundo o João deveria ter andado na LEFT.
2008/12/06
O João faz falta
Façam o favor de assinarem a petição que o João Branco propôs a promover o alargamento às bicicletas dos benefícios fiscais dados aos carros eléctricos pela lei do OE2009.
2008/11/21
A falta de cultura ciclista
A Assembleia Municipal de Lisboa reprovou (com votos do PSD e do PCP) a criação de uma rede de bicicletas partilhadas em Lisboa, baseada em argumentos falsos e preconceituos como "a falta de tradição de tráfego de bicicletas em Lisboa" e "as condições do relevo da cidade. Bem esteve o presidente da câmara, António Costa: "não há tradição de andar de bicicleta enquanto não se der condições para isso". Fico a aguardar pelos 40 km de ciclovias.
Entretanto, para ilustrar como o preconceito contra a bicicleta parte muitas vezes dos jornais, publico aqui uma carta que enviei ao Provedor dos Leitores do Diário de Notícias e que não foi publicada, acerca de uma reportagem no final do mês de Agosto (e indisponível na rede).
Entretanto, para ilustrar como o preconceito contra a bicicleta parte muitas vezes dos jornais, publico aqui uma carta que enviei ao Provedor dos Leitores do Diário de Notícias e que não foi publicada, acerca de uma reportagem no final do mês de Agosto (e indisponível na rede).
Exmo Senhor Provedor:
O que me leva a escrever-lhe é a reportagem intitulada "Isso 'tá difícil mas não desespere, agora é a descer", da autoria da jornalista Ana Bela Ferreira, publicada no passado dia 31 de Agosto na rubrica dominical "na pele de..."
A ideia desta rubrica é boa: transmitir ao leitor como é estar na pele de alguma profissão ou, neste caso concreto, de uma situação (ser ciclista em Lisboa). Mas eu sou ciclista em Lisboa (todos os dias, na deslocação para o trabalho), e posso garantir-lhe que a impressão que a jornalista transmite ao leitor não corresponde minimamente ao que é na realidade ser-se ciclista em Lisboa. Os exemplos são vários, mas começa pela escolha do itinerário, passando por bairros típicos de Lisboa como Alfama e o Castelo de São Jorge. Um itinerário que nunca um ciclista escolheria, a não ser que quisesse carregar a bicicleta às costas! Parecia que a jornalista queria demonstrar por si própria que nos bairros típicos de Lisboa é difícil andar de bicicleta. Mas isso qualquer lisboeta sabe - não é preciso uma reportagem para o provar! O que era suposto ser uma reportagem saiu um relato pessoal de uma aventura, de como a jornalista estava cansada, cheia de fome e com vontade de tomar banho depois de se ter metido naquilo, intercalado com os comentários dos (provavelmente surpreendidos) moradores e dosturistas. Se a ideia era mostrar aos turistas que os lisboetas não têm a noção do que é andar de bicicleta, creio que foi bem sucedida!
Há dois pormenores que revelam como a jornalista estava completamente fora da realidade. O primeiro foi quando referiu que pensou ter uma matrícula e fazer um seguro só para andar de bicicleta - algo que eu nunca fiz e nem conheço quem tenha feito nas várias cidades onde já vivi e onde já andei sempre de bicicleta. Mas, curiosamente, a avaliar pelas fotografias, a mesma jornalista que estava preocupada com o fazer um seguro... não se preocupou em usar um capacete! E andou a descer ruas íngremes sem capacete (algo que um verdadeiro ciclista não faria)!
O outro pormenor onde se viu a completa despreparação da jornalista foi quando, ao parar para o almoço, teve que escolher uma esplanada onde pudesse estacionar a bicicleta ao seu alcance, pois não tinha nenhum cadeado para a prender! Nenhum ciclista se preocupa com a matrícula ou o seguro, poucos andam sem capacete e nenhum anda sem um bom cadeado - nenhum se veria numa situação como a da jornalista que, ainda assim, foi relatada na reportagem como se fosse uma situação típica ao andar de bicicleta em Lisboa.
Resumindo: a jornalista (e o seu editor - a culpa não é só dela) pensaram que bastava saber andar de bicicleta para escrever uma reportagem sobre andar de bicicleta em Lisboa. Não bastava - era necessário um muito maior trabalho de preparação para a reportagem, que lamentavelmente não foi feito. Bastaria a jornalista (que evidentemente não faz, e continua a não fazer, a mais pequena ideia de como é andar quotidianamente de bicicleta em Lisboa) ter contactado com quem o fizesse. Com grupos de ciclistas. Aliás é essa a prática habitual nesta rubrica semanal do DN, e é por isso que esta rubrica é geralmente bem feita. Mas não foi o caso desta suposta reportagem, que na verdade é um aglomerado de frases na primeira pessoa que relatam uma experiência pessoal que só diz respeito à sua autora. E que por isso mesmo não se pode considerar bom jornalismo. É grave que seja publicado no DN. Mais do que este trabalho jornalístico em concreto, mais do que esta jornalista, importa chamar a atenção dos editores e responsáveis. È verdadeiramente de lamentar que de tal experiência pessoal resultem conclusões como as que no final são apresentadas ao leitor: "Lisboa ainda não é uma cidade de ciclistas" e "até lá temos que meter a bicicleta no carro e ir passear até ao Parque das Nações". Deve ser esta a experiência da jornalista de andar de bicicleta quotidianamente em Lisboa (daí a ausência do cadeado, por exemplo). Mas tais conclusões são falsas e são contraditas pelo dia-a-dia - cada vez se vêm mais ciclistas em Lisboa, especialmente jovens -, e por diversos estudos académicos que demonstram que a bicicleta em Lisboa (fora dos bairros típicos) é uma alternativa válida.
Era isto que eu tinha para lhe dizer, senhor Provedor.
Muito obrigado pela sua atenção. Aceite os meus melhores cumprimentos.
2008/09/22
Na semana da mobilidade
Mais uma vez, o “Dia sem carros” que, em Lisboa, consiste em fechar o trânsito entre o Rossio e o Terreiro do Paço. De utilidade muito duvidosa esta medida. Bem mais úteis são as medidas anunciadas para o transporte público nocturno ao fim de semana e véspera de feriado. De parabéns a Câmara Municipal de Lisboa, Secretaria de Estado dos Transportes e Ministério da Administração Interna.
O “Dia sem carros” é presentemente uma iniciativa simbólica que não incomoda ninguém, e não resolve o problema principal – andar de carro, em Portugal, é uma questão de status. Ainda “parece mal” andar de transporte público ou bicicleta. O “crédito fácil”, a “bolha” que parece que está a rebentar e que se traduz em os portugueses viverem aima das suas possibilidades também se reflecte no número elevado de carros novos. No entanto, conforme é visível, cada vez há mais portugueses a andarem de bicicleta. Por muito que isso custe aos bondosos proponentes destas campanhas cívicas, tal atitude dos portugueses só começou quando começaram a sentir no bolso os efeitos da – abençoada! – “crise do petróleo”.
É útil aliás perder um pouco de tempo a ler os comentários dos leitores destas notícias e comparar os comentários dos portugueses residentes no estrangeiro com alguns dos de residentes em Portugal. Como sempre, em Portugal, o bom exemplo tem que vir de fora – dos países onde há muito andar de bicicleta é um hábito corrente. Talvez assim se torne moda – se torne chic!
O “Dia sem carros” é presentemente uma iniciativa simbólica que não incomoda ninguém, e não resolve o problema principal – andar de carro, em Portugal, é uma questão de status. Ainda “parece mal” andar de transporte público ou bicicleta. O “crédito fácil”, a “bolha” que parece que está a rebentar e que se traduz em os portugueses viverem aima das suas possibilidades também se reflecte no número elevado de carros novos. No entanto, conforme é visível, cada vez há mais portugueses a andarem de bicicleta. Por muito que isso custe aos bondosos proponentes destas campanhas cívicas, tal atitude dos portugueses só começou quando começaram a sentir no bolso os efeitos da – abençoada! – “crise do petróleo”.
É útil aliás perder um pouco de tempo a ler os comentários dos leitores destas notícias e comparar os comentários dos portugueses residentes no estrangeiro com alguns dos de residentes em Portugal. Como sempre, em Portugal, o bom exemplo tem que vir de fora – dos países onde há muito andar de bicicleta é um hábito corrente. Talvez assim se torne moda – se torne chic!
2008/06/06
O "status" de andar de bicicleta
Ainda no rescaldo do Dia do Ambiente, destaco um bom texto - já com alguns dias -, vejam bem, de Luís Rocha (o "mata-mouros" que escreve sempre a azul), no Blasfémias (não é todos os dias): "É tudo uma questão de status". Já não digo que Luís Rocha ande de bicicleta (o relevo do Porto de facto não ajuda muito), mas espero ao menos que não ande de carro e aproveite o excelente Metro do Porto. Será?
Efectivamente, em Portugal quem não anda de carro não tem "status" - e é nestes pequenos pormenores que se vê como somos um país de gente pobre, que dá muito valor às aparências, preza o enriquecimento fácil e despreza o trabalho. Pode comer-se mal, mas ai de nós se não formos de carrinho. Para não ir de transportes públicos, por exemplo, diz-que que eles "não funcionam bem" (em Lisboa poderiam funcionar melhor, de facto, mas parece que há quem queira ter uma estação de metro sempre à porta, e não se lembre que numa cidade atafulhada de carros não andam nem os carros, nem os autocarros). Para não ir de bicicleta, inventam-se as desculpas mais baratas, como o "relevo de Lisboa" (as colinas de Lisboa são evidentemente acidentadas, mas a maior parte da área da cidade é quase plana ou pouco inclinada, Avenida da Liberdade incluída). Ou, como não poderia deixar de ser, o "status"! É neste texto da sua colega Helena Matos, um belo exemplo de como um suposto "feminismo" pode servir para disfarçar o reaccionarismo. Mas o preço do petróleo tem subido, e há de continuar a subir. Só que enquanto eu vir as nossas cidades cheias de carros privados, não me venham dizer que a gasolina está cara. Leiam a resposta do Tárique.
Efectivamente, em Portugal quem não anda de carro não tem "status" - e é nestes pequenos pormenores que se vê como somos um país de gente pobre, que dá muito valor às aparências, preza o enriquecimento fácil e despreza o trabalho. Pode comer-se mal, mas ai de nós se não formos de carrinho. Para não ir de transportes públicos, por exemplo, diz-que que eles "não funcionam bem" (em Lisboa poderiam funcionar melhor, de facto, mas parece que há quem queira ter uma estação de metro sempre à porta, e não se lembre que numa cidade atafulhada de carros não andam nem os carros, nem os autocarros). Para não ir de bicicleta, inventam-se as desculpas mais baratas, como o "relevo de Lisboa" (as colinas de Lisboa são evidentemente acidentadas, mas a maior parte da área da cidade é quase plana ou pouco inclinada, Avenida da Liberdade incluída). Ou, como não poderia deixar de ser, o "status"! É neste texto da sua colega Helena Matos, um belo exemplo de como um suposto "feminismo" pode servir para disfarçar o reaccionarismo. Mas o preço do petróleo tem subido, e há de continuar a subir. Só que enquanto eu vir as nossas cidades cheias de carros privados, não me venham dizer que a gasolina está cara. Leiam a resposta do Tárique.
2008/05/07
Santa Apolónia e a crise alimentar
Imperdível o artigo de Miguel Sousa Tavares no Expresso desta semana.
Acompanhado pelo seu incontornável ministro dos Gastos Públicos, Mário Lino, José Sócrates anunciou mais uma "obra estruturante" para o país: investir cerca de duzentos milhões de euros do Estado para multiplicar por quatro a área do terminal marítimo de contentores de Alcântara, no coração de Lisboa. A obra é um velho sonho do Porto de Lisboa - tapar o rio com contentores ou o que seja para que os lisboetas desfrutem dele o menos possível. E é também um velho sonho da empresa que detém, por concessão, o monopólio do negócio dos contentores no porto de Lisboa: a Liscont, pertencente à Mota-Engil (sim, a de Jorge Coelho). Para servir os interesses da empresa, o Estado vai então gastar dinheiro a dragar o rio e a enterrar o comboio e redesenhar os acessos rodoviários à zona, porque não é brincadeira fazer escoar milhares de contentores diariamente do centro da cidade. Oferece-lhe ainda uma área de luxo para desfrute em exclusivo e a histórica Gare Marítima de Alcântara, com os painéis de Almada, por onde gerações de portugueses partiram para a emigração ou para a Guerra de África e gerações de turistas desembarcaram em busca da cidade debruçada sobre o rio. Mas a Liscont também investe a sua parte: 227 milhões. Condoído do seu esforço, porém, o Governo compensa-a por esse magnânimo gesto, prorrogando-lhe por mais vinte e sete anos, até 2042, o monopólio que detém e que expirava dentro de sete anos.
Portanto, saem dali os paquetes de passageiros que, desde que me lembro, desde que o meu avô me levava a vê-los em criança e eu aos meus filhos, era a única coisa de interesse em Alcântara e uma das coisas que faziam de Lisboa uma cidade diferente. E para onde vão? Vão para onde deviam ir os contentores: para uma extrema da cidade e da frente de rio, para Santa Apolónia. Parece-vos absurdo que se lembrem de pôr os turistas a desembarcar numa ponta desabitada da cidade e os contentores a desembarcarem nas Docas, junto aos Jerónimos e à Torre de Belém? Não, não é absurdo: faz parte de um plano maquiavélico do Porto de Lisboa (mais um), arquitectado passo a passo. Com o abandono da Doca de Passageiros de Alcântara e a sua transferência para Santa Apolónia, onde nenhuma infra-estrutura existe para os acolher, o Porto de Lisboa tem assim uma excelente oportunidade para lançar mãos àquilo de que mais gosta: a construção e especulação imobiliária à beira-rio. A APL propõe-se construir um contínuo de edifícios em Santa Apolónia ocupando uma frente de rio de 600 metros para o novo terminal de passageiros (até se prevê a construção de um hotel, partindo do raciocínio lógico que os turistas, uma vez acostados ao cais, abandonarão os seus camarotes já pagos a bordo para se irem instalar no hotel em frente ao navio...). De modo que, de um só golpe e com a habitual justificação do interesse público para enganar tolos, os engenheiros que nos governam acabam de roubar mais um bom pedaço de rio a Lisboa: 600 metros em Santa Apolónia e outros tantos em Alcântara. Chama-se a isto uma expropriação pública em benefício de interesses particulares.
E, como de costume, quando se trata de dispor da cidade e do rio, com pontes ou terminais de contentores, é Sócrates e a sua equipa do Ministério das Obras Inúteis quem faz a festa e lança os foguetes. Se é que Lisboa tem um presidente de Câmara, mais uma vez ninguém o viu nem ouviu.
À falta de outros interessados no assunto e face à suprema nulidade política dos governantes do mundo desenvolvido, é a ONU apenas que parece preocupada com a escalada avassaladora do preço dos alimentos, a acrescentar à da energia. Entregues a si próprios, os mercados e os governos reagem de acordo com a lei do salve-se quem puder, dando um lindo exemplo prático das delícias da globalização: os países exportadores de alimentos fecham as portas de saída para evitar problemas políticos internos; os países exportadores de petróleo recusam-se a intervir no mercado para fazer estancar a subida do crude, empolada artificialmente; e os que não têm petróleo, como a Itália e a Inglaterra, regressam em força ao carvão e que se lixe o aquecimento global, com o incremento da mais poluidora fonte de energia. Assim entramos numa espiral de loucos: a alta do preço do petróleo faz subir o preço dos alimentos e o preço destes o do petróleo; os especuladores da finança e do imobiliário, cuja ganância mergulhou a economia mundial em crise, fogem agora das bolsas para as matérias-primas, como o petróleo, os alimentos e a água, fazendo aumentar ainda mais o seu preço; os países que têm dinheiro mas precisam de energia dedicam-se a comprar terras aos pobres de África e da Ásia para nelas produzir biocombustíveis, a partir dos cereais; menos terras agrícolas, menos comida ainda: aqueles que não têm nem alimentos, nem energia nem terras disponíveis, só podem esperar morrer de inanição - segundo a ONU são trezentos milhões em todo o mundo ameaçados de morrer de fome.
Mas a crise do preço da alimentação é também um momento de ajuste de contas com o passado recente, em países como Portugal. Antes de entrarmos na UE produzíamos mais de metade do que comíamos, tínhamos ainda um mundo rural e agrícola e um país relativamente equilibrado entre o interior e o litoral, a província e as grandes cidades. Mais de duas décadas depois, o que vemos? Produzimos menos de um quarto daquilo que comemos; à força de subsídios, desmantelámos a frota pesqueira e deitámos fora toda uma cultura e saber que demorara gerações infinitas a apurar, passando a importar todo o peixe que vem à mesa; gastámos fortunas a pagar aos agricultores para eles abandonarem os campos ou ficarem sentados a ver em que paravam as modas, sem investir, sem inovar, sem arriscar - até lhes demos uma barragem, a maior da Europa, para eles se distraírem a fazer regadio, já que diziam que as culturas de sequeiro não davam, mas, assim que se viram com a barragem feita, venderam as terras aos espanhóis, agarraram nas mais-valias que os contribuintes lhes tinham facultado e agora só querem regressar ao local do crime para fazer urbanizações turísticas à beira de Alqueva; de caminho, desmantelámos a fileira florestal tradicional, substituindo-a por um oceano de pinheiros e eucaliptos, contribuindo ainda mais para a desertificação e os incêndios de Verão, porque um ex-ministro, hoje muito bem na vida, declarou solenemente que "os eucaliptos são o nosso petróleo verde"; enfim, como resultado último de toda esta clarividência, gastámos os rios de dinheiros europeus que nos poderiam e deveriam ter garantido a solvabilidade e independência económica para sempre, a construir auto-estradas e duas megacidades onde as pontes e os terminais de transportes de toda a ordem nunca são suficientes para acolher o Portugal que fugiu do interior morto.
Demos cabo do país e não foi por falta de avisos nem por particular estupidez dos governantes. Foi, claramente, para servir os interesses particulares que vegetam perpetuamente à sombra do Estado. Essa clique infecta dos falsos empresários e dos traficantes de influências que sugam toda a riqueza do país.
Não me admira nada que até o presidente da Companhia das Lezírias - uma empresa estatal que ocupa as melhores terras agrícolas de Portugal e que o empresário Américo Amorim tentou há tempos privatizar a seu favor - venha dizer que não pode deixar de aproveitar a "oportunidade" do futuro aeroporto de Alcochete para se lançar também na especulação imobiliária em parte dos terrenos que lhe cabe administrar. A bem do "ordenamento do território", é claro. A sua desfaçatez é um exemplo eloquente das razões pelas quais chegámos a este ponto de desesperança. Mas será que o senhor, ao menos, não lê jornais e não sabe que estamos à beira de uma severa crise alimentar? Será que não lhe explicaram que o objectivo da Companhia das Lezírias é a agricultura e não a especulação turística? Ou achará, como o eng.º Sócrates, que, no futuro vamos todos comer betão e jogar golfe?
2008/05/06
O metro mais bem planeado e os autarcas mais inteligentes
Há sessenta anos que há aeroporto na Portela, e há cinquenta que há metropolitano em
Lisboa. Há quantos anos há metro no aeroporto (dentro da cidade)? Ainda não há; estão a construí-lo. Há cinquenta anos que os utentes do Aeroporto de Lisboa poderiam usar o metro para lá chegar – se a estação do aeroporto existisse. Não existe, e os autocarros são escassos e não estão preparados para bagagens – na sua maioria, os utentes têm que ir de carro ou táxi. Parece que a estação de metro finalmente vai ser inaugurada… pela mesma altura em que o aeroporto da Portela supostamente será desactivado.
Não sei há quantos anos existe a estação de comboios de Santa Apolónia, mas foi muito antes de haver metro. Desde que há metro que os utentes da estação de Santa Apolónia poderiam usar o metro para lá chegar – se a estação de Santa Apolónia existisse. Já existe: foi inaugurada há quatro meses. Construí-la foi uma monumental obra pública, que teve seriíssimos problemas durante a sua execução, demorou anos e anos e custou o triplo ou o quádruplo do inicialmente previsto. E quatro meses depois de inaugurada a conclusão de tão longa empreitada, tão trabalhosa, tão cara e tão custosa para os lisboetas, qual é a ideia? Encerrar a estação de Santa Apolónia à actividade ferroviária (e guardá-la para “terminal de cruzeiros” – é bem sabido que quem faz cruzeiros em Portugal anda de metro todos os dias). Digam lá – há coisa mais bem planeada que o metro de Lisboa? Haverá pessoas mais iluminadas que os autarcas de Lisboa?
Lisboa. Há quantos anos há metro no aeroporto (dentro da cidade)? Ainda não há; estão a construí-lo. Há cinquenta anos que os utentes do Aeroporto de Lisboa poderiam usar o metro para lá chegar – se a estação do aeroporto existisse. Não existe, e os autocarros são escassos e não estão preparados para bagagens – na sua maioria, os utentes têm que ir de carro ou táxi. Parece que a estação de metro finalmente vai ser inaugurada… pela mesma altura em que o aeroporto da Portela supostamente será desactivado.
Não sei há quantos anos existe a estação de comboios de Santa Apolónia, mas foi muito antes de haver metro. Desde que há metro que os utentes da estação de Santa Apolónia poderiam usar o metro para lá chegar – se a estação de Santa Apolónia existisse. Já existe: foi inaugurada há quatro meses. Construí-la foi uma monumental obra pública, que teve seriíssimos problemas durante a sua execução, demorou anos e anos e custou o triplo ou o quádruplo do inicialmente previsto. E quatro meses depois de inaugurada a conclusão de tão longa empreitada, tão trabalhosa, tão cara e tão custosa para os lisboetas, qual é a ideia? Encerrar a estação de Santa Apolónia à actividade ferroviária (e guardá-la para “terminal de cruzeiros” – é bem sabido que quem faz cruzeiros em Portugal anda de metro todos os dias). Digam lá – há coisa mais bem planeada que o metro de Lisboa? Haverá pessoas mais iluminadas que os autarcas de Lisboa?
2008/04/21
Quem é o responsável pela crise alimentar?
Um muito interessante artigo de Nicolau Santos no Expresso.
2008/03/28
Em Portimão
(Mais um) excelente texto do Tárique.
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