Mostrar mensagens com a etiqueta Política. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Política. Mostrar todas as mensagens

2015/04/22

O "voto de apesar" de Passos Coelho e o PS

A patetice dita por Aguiar Branco aquando da morte no mesmo dia de Manoel de Oliveira e Silva Lopes não passa disso: uma patetice sem importância. Criticável num político experiente, mas sem grande significado.
O "voto de apesar", como alguém muito bem lhe chamou, de Passos Coelho sobre a morte de Mariano Gago não é nenhuma gafe. É Passos Coelho autêntico e genuíno. O mesmo que acha que "uma enxada fica tão bem" aos desempregados, e que o povo português é "piegas". É o Passos de sempre. Nunca enganou ninguém. Em 2011 ainda havia uma vontade do povo de inverter o ciclo político, mas em 2015, se o PS for competente, só quem partilha estas ideias de Passos votará no PSD. É o que tiver que ser. As próximas eleições não vão ser ganhas ao centro (já as de 2011 não foram). É preciso que o PS compreenda isto. António José Seguro nunca compreendeu, e uma boa parte do PS nunca compreenderá.

2014/12/07

"O gajo que lhes atira mais às trombas"

Esta entrevista de Mário Soares a Clara Ferreira Alves, no Expresso, é um extraordinário testemunho. Merece bem ser lida.


A célebre imagem no arquipélago das Seychelles, em novembro de 1995, numa das últimas viagens de Estado enquanto Presidente da República, por ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Anda nisto, a viagem da vida, há nove décadas - este domingo é dia de aniversário. "Não gosto nada de ter 90 anos." É a máxima queixa física que se lhe ouve. Pergunto-lhe se não está a ficar pessimista com o estado do país, ele que sempre foi um otimista. "Pessimista? Nada! O estado do país é uma infâmia! Mas há de mudar, os portugueses são ótimos!" Digo-lhe que quando ele usa palavras mais violentas ou desbragadas para criticar certos políticos de direita, a reação é acusá-lo de estar muito velho e não saber o que diz. "Um dia também vão ser velhos e não é nada fácil"

Esta conversa à mesa foi escrita antes de rebentar o caso da detenção e suspeitas de corrupção de Sócrates e o seu cortejo de pequenos e grandes escândalos. A conversa vinha a propósito dos 90 anos de Mário Soares, este domingo, e a publicação a 27 de novembro de um livro de escritos políticos do tempo do exílio de Paris, "Cartas e Intervenções Políticas no Exílio". Posteriormente, pedi-lhe que comentasse o caso de Sócrates, quando não se sabiam ainda as acusações ou outras peças processuais senão as das fugas de informação. Mário Soares respondeu: "Não vou por agora dizer mais nada. Disse o que tinha a dizer no 'Diário de Notícias'". Onde escreveu: "O que foi feito a um ex-primeiro-ministro, com enorme aparato lesivo do segredo de Justiça, não pode passar em vão". E, rematando a nossa segunda conversa: "Estou, como calcula, muito maldisposto com tudo isto e extenuado".

Fica irritado quando as pessoas lhe dizem que tomaram elas chegar aos 90 anos assim e que ele está muito bem. "Pois, mas quem tem 90 anos sou eu e não é fácil. Não gosto nada de ter 90 anos". Esta a máxima queixa física que se lhe ouve. Pergunto-lhe se não está a ficar pessimista com o estado do país, ele que sempre foi um otimista. "Pessimista? Nada! O estado do país é uma infâmia! Mas há de mudar, os portugueses são ótimos!" Sempre lhe ouvi esta frase, "os portugueses são ótimos", às vezes transformada em "os nossos jovens são ótimos". Ouvi-a muitas vezes quando fizemos um programa para a RTP chamado "O Caminho Faz-se Caminhando", a frase do poeta espanhol António Machado (da geração de 27) que ele tanto gostava de citar na política quando ainda era um político ativo.

Almoçámos num dos seus restaurantes favoritos, um restaurante popular. Bebe um moscatel como aperitivo enquanto espera, porque chega sempre antes de toda a gente, incrivelmente pontual como foi toda a vida. E, dantes, incrivelmente maldisposto quando os outros não respeitavam a pontualidade. Hoje, está mais calmo em matéria de horários. Escolhe uma costeleta com batata frita e grelos salteados, com uma sopa. "A primeira coisa que vou comer é uma sopa". Há uns anos, lembro-me de um repasto num restaurante fino no Douro, e de outro repasto finíssimo em Espanha, em que a cozinha tendia para o molecular, versão copiada do género inventado por Ferran Adrià. Soares resmungou o tempo todo, suspirando que aquele estilo não era o seu, clamando por um prato vital, cheio, tradicional. Em casa, mandava sempre fazer uns petiscos de que gostava, como pataniscas de bacalhau ou peixinhos da horta.

É por isto que gosta deste restaurante, lá se diz na entrada Comida Tradicional Portuguesa. "A melhor comida do mundo", na opinião dele. Meia garrafa de vinho branco gelado, alentejano, porque eu vou comer garoupa. "Bebemos o que quiser, eu prefiro branco, mas se gosta mais de tinto..." Mete-se com o empregado, "o baiano", "um grande amigo meu", porque os brasileiros lhe lembram um dos seus países queridos, o Brasil. Agarra o braço do "baiano", que é do interior da Baía e já sabe os gostos dele, adianta serviço. "O senhor doutor costuma comer a sopa, vou trazer." "Sopa de rúcula? O que é isso, rúcula? Sopa de rúcula? Nunca ouvi falar! É bom?" Todos o tratam com respeito e com afeto e de outras mesas chegam pessoas a cumprimentá-lo como se o conhecessem de sempre. "Este não conheço de lado nenhum, mas ele parece que me conhece a mim, é natural". O baiano convence-o de que a sopa de rúcula é excelente. "Venha a sopa de rúcula, que raio de nome!"

UMA VIDA CHEIA
Anda nisto, a viagem da vida, há nove décadas. Com muito gosto. Fundador do Partido Socialista. Fundador, ou um dos pais fundadores, da democracia portuguesa nascida da revolução de abril. Foi sempre um europeísta e um internacionalista. E sempre reclamou o título de patriota. "Como é que se pode não ser patriota quando se gosta de Portugal?" Sempre lhe ouvi estas palavras.

Já não viaja tanto como dantes, desde a doença (uma encefalite, infeção aguda do cérebro) e tem pena. Nunca foi a Timor, o único lugar onde se fala português onde não foi. "E agora já não irei". A Fundação Mário Soares alberga um arquivo de Timor. Nem vai já a Paris, para onde viajava todos os outonos. Paris sempre foi a sua cidade, a do exílio, das memórias, das amizades políticas, da cultura francesa, das livrarias donde regressava carregado de sacos, dos jornais e revistas de cujos diretores era amigo (como o do "Nouvel Observateur", Jean Daniel) dos bouquinistes do Sena e dos bons restaurantes e vinhos. De "mon ami Mitterrand". Depois da doença foi lá "por causa de um livro que lá publiquei em francês. E antes disso, fui porque sou presidente de um prémio que atribuímos ao Presidente da República ainda ele não era Presidente, o Hollande. Ele pediu-me para ir entregar-lhe o prémio e eu fui. Estava melhor do que estou hoje. Correu lindamente".

Que avaliação faz do mandato de François Hollande, que é geralmente considerado uma desgraça? "Eu digo o mesmo. Não estou contente com o mandato do Hollande". Obama é o seu favorito, "uma grande figura, aquele Congresso de direita não o deixa governar, são antidemocratas". "O Hollande é um socialista, eu conheci-o no tempo do Mitterrand, ele levava a pasta do Mitterrand". Quando lhe digo que Hollande não foi treinado por Mitterrand, um grande sedutor, para lidar elegantemente com as histórias de mulheres, e que a história de alcova em que se meteu é lamentável e deu cabo dele, Soares acena com a cabeça. "Pode ter dado cabo dele mas também deu cabo dela. Uma mulher furiosa, nada mais". Haveria gente mais interessante para ter ficado com o trono do Partido Socialista? "Havia, a filha do Delors, Martine Aubry. Ativíssima. Não sei se ela é candidata ao que quer que seja, mas é uma socialista autêntica". E Manuel Valls, o primeiro-ministro francês, que sugeriu retirar a palavra Socialista de Partido Socialista? "Uma besta! Não podia continuar como primeiro-ministro. Eu escrevi um artigo nessa altura sobre isso em que dizia que aquele tipo devia ir para a rua imediatamente. Um Presidente que é eleito como socialista e que tem um primeiro-ministro que diz que quer deitar o socialismo fora! Eu demitia-o, evidentemente. É infeto que Hollande o mantenha".

SOCIALISMO DE BOA SAÚDE
Será o socialismo uma relíquia? A verdade é que existe uma crise grave dos partidos socialistas na Europa. "Nem em todos. O futuro é socialista. Porque este estado de coisas, estes regimes em que os tipos de direita fazem tudo o que querem às pessoas, não se pode manter". No caso de Espanha, abre uma exceção de caráter para Mariano Rajoy. "Não acho que seja um vigarista. Pode ser um homem pouco inteligente, se quiser, mas tem a vantagem de ser galego e os galegos são amigos de Portugal". Quando lhe digo que em Espanha o PSOE não tem já um Felipe González, ele responde que não, mas "tem um tipo extraordinário e um grande socialista, o Pedro Sánchez. Tenho a melhor opinião dele". Não acha nada que o socialismo vá acabar, pelo contrário. "O socialismo é fundamental para que a União Europeia continue. A UE foi feita com dois partidos, o Democrata-Cristão e o Socialista. E a União vai continuar". A posição alemã e a intransigência quanto ao défice, com os planos de austeridade, são "coisas que será bom discutir à distância, quando o tempo passar e se vir o resultado. Eu não gostaria de calçar os sapatos da sra. Merkel porque a Alemanha está em decadência. O que se passa na Alemanha é o contrário do crescimento económico". Não estará o capitalismo numa fase diferente, mais avançada, tecnológica, academicamente obscura, do que no tempo em que ele era o chefe do Partido Socialista? O empreendedorismo e a livre iniciativa como inimigos declarados do contrato social? "Não! Você acha que há livre iniciativa num Governo como o português ou o espanhol?" Bom, eu quero dizer com isto iniciativa privada. "Ah! Isso é uma coisa diferente! Ah! Muito diferente! Nada de livre".

Os socialistas ou se reformam ou morrem, é a tese da direita, e não só da direita. "Coitada da direita! É preciso acabar com a direita! É isso. Já lhe disse que quem fez a Europa, a União Europeia, foi o socialismo democrático e a democracia cristã. O que existem agora são partidos que historicamente não fazem sentido".

Quando lhe pergunto qual é que ele acha que é o pior governo da Europa, com exclusão da Hungria, que é um caso que roça a autocracia, ele diz que "o Governo português é muito mau, é péssimo!" Também não modera a crítica ao Presidente da República, que acha irremediavelmente comprometido com o caso BPN. "O Eanes, o Sampaio e eu nunca fomos assim". O Presidente já disse que não haveria eleições antecipadas, ponto final. Ou seja, mais um ano deste Governo? "Se calhar... ele o disse".

Digo-lhe que quando ele usa palavras mais violentas ou desbragadas para criticar certos políticos de direita, a reação é acusá-lo de estar muito velho e não saber o que diz. "Bom, a verdade é que eu estou realmente muito velho!" Muita gente está a ser atacada por delito de velhice e não perceber o mundo em que vivemos hoje. "Já reparei nisso. O ataque aos velhos. Estão no seu direito. Um dia também vão ser velhos e não é nada fácil!"

ORGULHO NA FUNDAÇÃO
Fica enervado quando lhe digo que é atacado por causa da Fundação Mário Soares, que é acusado de ter atacado o Governo quando lhe retiraram parte do subsídio público da Fundação e diz-me que nunca foi nada disso e que a Fundação não depende disso. "Fiz a Fundação com o dinheiro, as doações que me deram para uma campanha eleitoral, e que não usei. Não gastei. Fui [ter com os doadores] para o devolver, está aqui o vosso dinheiro, mas eles não o quiseram de volta porque já estava nas escritas deles. Ora eu não ia ficar com o dinheiro. Disse que ia criar uma Fundação, desde que eles assim o entendessem e ficassem membros fundadores da Fundação. A Fundação nunca gastou esse dinheiro com que se fundou, nunca tocámos nesse dinheiro. Se tivermos amanhã uma dificuldade de dinheiro, esse dinheiro está lá, faz parte da Fundação. A Fundação não depende de nenhum Governo. Agora se quer falar disso a sério, tem de me deixar contar a história toda, não uma parte dela. Estou muito orgulhoso do trabalho da Fundação". Anos atrás, lembro-me de o ouvir dizer que todo o dinheiro que recolhia do intenso trabalho quando se retirou da política, nomeadamente livros e programas de televisão que fez, investiu na Fundação a que chamava "uma amante muito cara". Diz que não se lembra de me dizer isso e que a história da Fundação não pode ser assim contada, num restaurante.

O mau feitio não mudou com os anos e o bom feitio também não. Nunca foi homem de fundos rancores ou ódios. "Nunca tive mau feitio, sempre considerei os tipos com qualidade, mesmo quando não eram meus amigos ou eram meus inimigos no tempo em que eu tinha funções políticas. Qualidade é o que me interessa. O Eanes é um tipo de qualidade, como o Sá Carneiro era". Compara a postura deles com a de um membro do Governo sobre o qual conta uma história pouco exemplar que se passou com ele noutro restaurante. Pergunto-lhe se posso publicar a história com nomes e ele diz que não. "Pode mas não deve. Já tenho demasiadas coisas em cima de mim". Falo-lhe das coisas terríveis que escrevem sobre ele na internet, do falso e difamatório texto com a minha assinatura posto a circular todos os meses (desde há anos) e em que ele é atacado de uma forma soez e canalha. Truques de vingança e propaganda que não existiam no tempo em que ele era político. "A internet? Não leio. Não quero saber. Você quer que eu leia a internet? Nunca me preocupei com o que dizem sobre mim e não vou agora começar. O diz que disse não tem nenhum valor! Todos os dias sou confrontado com senhoras e cavalheiros que me vêm abraçar e dizer 'livre-nos dessa malandragem!' Todos os dias!"

A ENCEFALITE
"Estou numa fase da minha vida que é a última. Vou fazer 90 anos. Tive uma encefalite que me enfraqueceu". Uma infeção geralmente viral a que poucos sobrevivem e muitos menos na idade dele. O que assinala a sua robustez. "Tenho um bom coração, tudo aqui dentro do peito está em ótimas condições, impecável. Agora as pernas... as pernas chateiam-me. Fora as outras coisas". Cada dia é um ato de heroísmo naquela idade? "Não! Felizmente não. Os médicos sabem tomar conta de um tipo, sabem o que fazem. Quem me salvou foi o António Damásio, sou muito amigo dele. Houve duas pessoas que me salvaram, a primeira foi a Maria de Sousa, a que eu chamo 'a sábia' e que por acaso foi a minha casa naquele dia tomar o pequeno-almoço, vinda do Porto. Ela é como se fosse família. Disseram-lhe que eu tinha ido para o hospital e ela foi lá ter a correr. Eu estava em coma e ela entrou em contacto com o Damásio".

Digo-lhe que a família dele, a mulher e os filhos, praticamente acamparam nos cuidados intensivos e nunca o deixaram sozinho, quase me fazendo lembrar as famílias de ciganos que acampam no hospital para nunca abandonarem um dos seus. A lealdade da tribo. "A minha família, claro.

Reconciliei-me agora com a minha filha". Os rumores diziam que ele estava zangado com o filho, João, por causa dos apoios a Seguro e Costa e ele diz: "Fiz as pazes com a minha filha, com quem me tinha zangado por causa de certos cuidados médicos que tenho de ter e o meu filho foi o intermediário. Não estávamos zangados, nunca estive zangado com o João! A relação com a família é ótima, como sempre foi. É a família, e podem dizer de nós o que quiserem".

É extraordinário, dada a intriga e críticas violentas que correm à simples menção do nome Mário Soares, que nesta idade ele ainda seja considerado um inimigo político. "Sou o gajo que lhes atira mais às trombas, que quer você? E não digo mais nada, não quero falar mais de política. Porque sou um cidadão especial". Especial porquê? "Pelos cargos que desempenhei e pelas coisas que fiz. Sou um cidadão livre mas especial. Primeiro, desde os 14 anos que sou político. Segundo, desde sempre escrevi o que quis. E registei tudo aquilo que me disseram. Registei tudo. Tenho tudo escrito desde os meus 14 anos. Se quiser dar-me a honra de visitar a minha biblioteca para ver o que está guardado verá que está lá tudo o que escrevi desde os 14 anos, o que publiquei e não publiquei e tudo o que me responderam e disseram". A biblioteca, que ele arrumou há poucos anos no andar de cima da casa do Campo Grande, comprado para o efeito, é um verdadeiro arquivo da História de Portugal. Visitei-a quando Mário Soares andava a arrumá-la, empoleirado, ordenando temas e datas e mostrando os livros, as primeiras edições, com orgulho. Tem lá o seu escritório com vista para terraço arranjado com plantas pelo amigo Gonçalo Ribeiro Telles. Nunca vi estes registos, estes diários, e pergunto-lhe se não deveriam estar na Fundação Mário Soares ou mesmo, um dia, na Biblioteca Nacional. "Não estão, não estão nem num lado nem noutro. Estão na biblioteca da minha casa. E saiu na quinta-feira [27 de novembro], como sabe, um livro meu com tudo o que escrevi entre 1970 e 1974, esses registos". "Cartas e Intervenções Políticas no Exílio", editado na Temas e Debates pela sua velha amiga e editora Guilhermina Gomes, a diretora editorial. Estes são os anos em que estava em Paris. "Está lá tudo, nestes escritos, porque eu falei com toda a gente. É História. E tenho livros de toda a gente. Tudo o que me escreveram e disseram e tudo o que lhes disse e escrevi está lá". Estas são as verdadeiras 'Memórias', as que se pensava que nunca tinha tido tempo para escrever.

Uma das grandes influências na sua formação política e republicana foi do pai, João Soares. Mas houve outros: "O Mário de Azevedo Gomes, o Hélder Ribeiro, o António Sérgio, talvez tivessem ainda mais importância do que o meu pai. Todos contribuíram". E Álvaro Cunhal? "Numa certa altura, sim, depois deixou de ter e depois tive de o combater. Sou muito diferente do Cunhal". Cunhal era ou não uma grande figura? "Não tão grande como dizem, era um leninista". Entre a gente que conheceu nos verdes anos, e nos maduros, os políticos nacionais e internacionais com quem privou, do amigo Mitterrand ao amigo Willy Brandt, e a gente que vê hoje deslizar pela política, nota uma grande diferença. Tem saudades desse tempo? "Não". Soares nunca quer falar do passado e detesta a nostalgia. O futuro sempre lhe interessou mais. "E assim continuo, o que me importa e interessa é o futuro". Na idade dele, seria de esperar que o futuro lhe importasse menos do que a memória. É uma forma de altruísmo pensar o futuro onde não se vai estar. Soares foi dos primeiros a interessar-se pelo estado do planeta, a sua preservação, e a preservação dos mares como património da Humanidade. No que foi ajudado pelo seu grande amigo, o cientista Mário Ruivo, uma autoridade em oceanos. Foi um ecologista quando ainda não se falava em alterações climáticas ou a ecologia era confundida com manobras comunistas de distração e manipulação. Verde por fora vermelho por dentro era o grito contra a ecologia. "Sempre me preocupei com o planeta, você não imagina o estado em que está este planeta! É fundamental salvar os oceanos e não estamos a fazê-lo, fartei-me de organizar coisas para isso. E o ano passado, com as marés de inverno, o litoral português desapareceu. A areia foi-se e este ano vai ser pior. É preciso impedir esta catástrofe".

E está confiante no futuro? Ou numa mudança política em Portugal? "Dentro de um ano este Presidente deixa de ser importante, o que não é pouco".

Uma das libertações da idade é que ele, que nunca foi paciente, pode dar inteira liberdade à sua impaciência. "Cada vez tenho menos paciência para certas coisas".

ADMIRAÇÃO POR OBAMA
Nesta altura da refeição ele mandaria vir, in illo tempore, um charuto. Ou fumaria, uns anos antes disso, um cigarro. O cigarro nunca pareceu nele um adereço natural. "Nem cigarro nem charuto, agora, e nunca engoli o fumo". Digo que está como o Presidente Bill Clinton, que diz que experimentou marijuana mas nunca engoliu. Mário Soares gosta de Bill Clinton, que conheceu, e da "madame Clinton". "Mas Obama é o meu favorito, sem dúvida. Um tipo de uma categoria excecional". A Administração Obama perdeu esta eleição intercalar. "Ele não perdeu as eleições, foram os democratas que perderam as eleições, o que é um bocado diferente". Regresso às derrotas dos partidos socialistas e sociais-democratas, que parecem nunca se terem recomposto da queda do Muro. "Não existem, ou melhor, não têm existido durante este período, mas vão ter de existir ou a União Europeia vai para o charco". Acha que existe uma hipótese de Marine Le Pen ganhar as presidenciais em França? "Existe, mas espero que não ganhe". Não acha que seja o fim da União Europeia se Le Pen ganhar, e aprecia Jean-Claude Juncker, está convicto de que ele segurará. "Conheço o Juncker muito bem, acho que ele impedirá a União Europeia de se partir". E se o Reino Unido quiser sair? "Oxalá, não tem para onde ir". E a ligação com a América, não será tudo o que precisam? "Os ingleses nunca deixaram que os americanos fizessem parte da Commonwealth, nunca criaram esse espaço como nós fizemos como espaço da lusofonia incluindo o Brasil. E nunca deixaram porque têm medo dos americanos".

O Brasil tem recursos económicos que não temos, e no caso da PT não demonstrou grande solidariedade lusófona. "Os brasileiros têm grandes problemas, estão aflitíssimos. Isso da PT foi tudo uma estupidez. O modo como o Governo resolveu destruir o aparelho do BES prejudicou tudo o resto, não perceberam como o grupo era importante para a economia e deram cabo de tudo. E hoje toda a gente ficou danada, foi tudo mal resolvido. Atiraram tudo abaixo sem nenhuma vantagem para Portugal". Mas os administradores do BES não cometeram demasiados erros e trafulhices? "Claro que cometeram, e toda a gente parece que sabia disso e não se importava".

A situação de Portugal incomoda-o. A venda de ativos e centros de decisão nacionais, a alienação de bens a preços de saldo. "Hoje, Portugal não existe. Se for de Bragança ao Algarve a pé não encontra ninguém. Não há terras cultivadas, populações, vida. Estes gajos estão a destruir o nosso país, estão a vender tudo, só falta a TAP". Inconsciência do Governo? Aperto? Ideologia? "É também inconsciência. Falta de experiência". Atravessamos um momento de algum desespero? "Algum é favor. Desespero mesmo". Há um certo medo que faz recordar o marcelismo, o fim do regime. "O Caetano? O Caetano era outra coisa, não era como estes tipos, pode crer".

Nesta altura, Bagão Félix, que estava a almoçar numa mesa do mesmo restaurante, aproxima-se para cumprimentar "o senhor doutor". E cumprimenta-o pela excelente forma. "Na minha idade nunca se está em grande forma. Tive uma encefalite que me dá grandes lapsos de memória mas o que é interessante é que resisti quando toda a gente dizia que eu ia morrer!" Bagão Félix diz que o pai, com 94 anos, acaba de renovar a carta de condução. "Eu isso não faço, a partir dos 80 anos deixei de beber whisky e bebidas assim, deixei de fumar, deixei de guiar". Mário Soares era um péssimo condutor, há que dizê-lo, e um passageiro apressado e apreciador de velocidade. A mecânica nunca foi o seu forte.

SEM RANCORES
Estamos no fim do repasto, sem doces nem café. Pergunto-lhe se está um bocado amargurado com a pátria, se estas crises lhe roem os anos que lhe restam. "Nada! Não tenho amargura. O que me interessa é o futuro e no futuro o socialismo vai regressar, não tenho nenhuma dúvida. Acha que os bandidos e os mercados não vão mandar nisto para sempre?" Respondo que não me parece tão certo o triunfo do socialismo. Ou dos ecologistas. A China e os EUA, os dois maiores poluidores reunidos em cimeira recente, não vão deixar de poluir o planeta, e a Índia recusa-se a deixar de usar o carvão. Ou seja, o capitalismo nascente e o velho capitalismo americano não estão dispostos a deixar de ganhar dinheiro, como compete ao capitalismo. E a Rússia? "O Putin, ex-KGB, é um filho da mãe, muito diferente de Gorbatchov". E no Médio Oriente "nunca houve tantas guerras como há hoje". Das personagens políticas com as quais se correspondeu e conheceu e de quem foi amigo, destaca François Mitterrand, "um grande intelectual e amigo", Willy Brandt e Helmut Schmidt. "Estes, sim, eram grandes políticos alemães".

Vai continuar a escrever no "Diário de Notícias", mas decidiu que não se mete mais em política. "Já tenho chatices que me cheguem, tenho de cuidar dos livros". Mas que é que lhe podem fazer? Que "chatices" pode vir a ter com os seus inimigos? Digo-lhe, a brincar, que não o podem deportar para São Tomé ou exilar em Paris. "Não, não podem, mas se pudessem neste momento não me dava jeito. Tenho de estar cá, em Portugal".

2013/11/09

Imperdíveis

A mais recente crónica de António Lobo Antunes.

A reportagem da TVI sobre o favorecimento das escolas privadas:

2013/09/30

Sobre as autárquicas...

...escrevo no Esquerda Republicana.

2012/12/01

Parece que é dia do Banco Alimentar ou lá como aquela coisa se chama.


2011/06/06

Não compreendo

O texto que se segue reflete com certeza alguns preconceitos ideológicos. Posso ser parcial, mas não quero deixar de exprimir o meu ponto de vista.

Do que eu me posso recordar, o primeiro governo de maioria absoluta de Cavaco Silva empreendeu uma revisão constitucional que, entre outras coisas, permitiu abrir a economia portuguesa à iniciativa privada. A partir daí creio que se foi muito mais longe do que se deveria, tendo-se privatizado setores estratégicos de que o estado nunca deveria ter aberto mão. Mas reconheço que, provavelmente, naquela altura haveria um excesso de presença do mesmo Estado na economia. Embora lamente que se tenha ido tão longe, admito que alguma coisa teria que ser feita. Em particular na comunicação social: embora ache indispensável uma RTP pública, foi muito positivo aparecerem canais privados de televisão. No governo de Cavaco Silva também se construíram infraestruturas. O tão maldito Centro Cultural de Belém faz hoje parte do património de Lisboa, mas falemos de vias de comunicação. Uma vez mais foi-se muito mais longe do que se deveria, e hoje somos (relativamente) o país com mais autoestradas da Europa, muitas delas desertas a maior parte do tempo, cuja manutenção custa um dinheirão e que, provavelmente, nunca deveriam ter sido construídas. Mas até 1991 as duas principais cidades do país não estavam ligadas por autoestrada. Era evidente uma necessidade de melhoria de infraestruturas, e o primeiro governo de maioria de Cavaco Silva teve esse mérito. Finalmente, não sei precisar mas tenho ideia de que muitos idosos sem nenhum apoio ganharam uma pensão com este governo de Cavaco (ou viram-nas substancialmente aumentadas). Perdoem-me mas desconheço os pormenores. Mas tenho ideia de que há aqui mérito do governo.

Passámos de seguida para o último governo de Cavaco Silva. Não me recordo de nenhuma medida positiva deste governo que mereça entrar na história.

A título pessoal, e muito insatifeito com o resultado global

Votei bem – o meu voto elegeu um deputado -, e fiquei aliviado com isso.

2011/02/06

Alguns comentários sobre as eleições presidenciais

Podem os derrotados (é o meu caso) das presidenciais queixar-se do desinteresse do povo que se absteve em vez de ter contribuído para derrotar Cavaco Silva. Quem disser tal coisa (há muita gente que ainda pensa assim) não vê que, ainda mais do que há cinco anos, Cavaco foi reeleito por não ter um adversário à altura. Se há cinco anos havia um ex-presidente (o melhor deles) a querer regressar ao lugar (uma ideia que o povo legitimamente rejeitou) e dois bons líderes de partidos médios, este ano os cinco candidatos da oposição eram, a meu ver, maus. Assim se justificam os recordes da abstenção e do número de votos em branco. Fernando Nobre e José Manuel Coelho (mais o segundo que o primeiro) representam votos de protesto. Não creio que o primeiro reunisse condições para ser um bom presidente da república, e não acredito que alguém quisesse o segundo nessa função. Defensor de Moura marcou o início da campanha, com a denúncia da parcialidade de Cavaco Silva, e um ataque eficaz no caso do BPN. Mais para o fim, no entanto, assumiu-se como "candidato regional", do norte. Um presidente da república tem todo o direito a ser regionalista, mas não regional. Louvo-lhe a iniciativa, creio que desempenhou um papel importante nestas eleições, mas acabou por não contar com o meu voto, mesmo tendo ponderado votar nele por algum tempo. Pareceu-me que Defensor se candidatava em nome de uma "ala direita" do PS, que rejeitava coligações com o Bloco de Esquerda. Reconheço o direito dessa tendência a ter um candidato, mas não era ela que eu queria reforçar com o meu voto. Creio que faz falta mais esquerda, e a candidatura mais à esquerda era sem dúvida a apoiada pelo PCP. Só que aí põe-se o problema oposto. Eu poderia perfeitamente ter votado num militante do PCP respeitável e que tivesse desempenhado um papel meritório no resto da sociedade e não só dentro do partido. Casos de Carlos Carvalhas, Octávio Teixeira, Carvalho da Silva ou mesmo Odete Santos (era um sonho meu ver a Odete Santos numa eleição presidencial). Não dei o meu voto a alguém que pode ter um passado muito respeitável (e acabou por fazer uma boa campanha contra Cavaco), mas não passa de um funcionário de partido. Não é este o perfil que eu considero indicado para um presidente da república. Restou Manuel Alegre, em quem votei por exclusão de partes. Conforme era de prever, face à sua desastrosa derrota, a direita tratou logo de afirmar que uma aliança PS-Bloco de Esquerda era rejeitada pelo povo. Sendo esta a solução de governo que eu desejo para Portugal, achei importante contrariar esta interpretação. Mesmo se estas não eram eleições legislativas. E mesmo que para tal tenha acabado por votar num candidato que, sabia, estava longe de ser o ideal. Por que é que Alegre não era o candidato ideal? Porque a um candidato a presidente exige-se independência e autonomia, mas também um rumo certo, próprio. E foi isso que Alegre não demonstrou, fazendo uma campanha ziguezagueante face às contradições dos partidos que o apoiavam, ora procurando o apoio de um, ora o de outro. Tal tornou-se particularmente evidente no caso dos sindicalistas detidos de que aqui falei. Confrontado com a notícia, e ainda sem saber do que se tinha passado, a primeira reação de Alegre foi dizer que era "evidentemente" contra. (E se os sindicalistas tivessem mesmo agredido o polícia? Poderia dizer que era contra, fazendo as devidas ressalvas, cono eu fiz, dizendo que não sabia o que se passara.) Mais tarde, pareceu querer mesmo criticar a manifestação, ao questionar a sua razão dada a ausência do primeiro ministro. Alegre nunca se conseguiu libertar do espartilho que era ter o apoio de dois partidos que são adversários em tanta coisa. Nunca foi um homem livre. Nunca teve um rumo próprio e consequente. Estas são qualidades que se apreciam num presidente da república. E agora? Estamos na mesma como estávamos. Pior, talvez: nas próximas eleições legislativas, sejam elas quando forem, a direita aparenta ser favorita, embora um governo de direita não seja inevitável. Até lá, a crise. Daqui a cinco anos a esquerda tem que apresentar candidatos mais fortes.

2011/01/21

Cavaco é sobretudo isto

Mais uma demonstração cabal de falta de cultura democrática, igual a tantas a que nos habituou nos últimos 25 anos: a (eventual) subida das taxas de juro é mais importante que a vontade soberana do povo. Manuela Ferreira Leite, seu delfim político e pessoa com quem mantém estreitas relações, falava em "suspender a democracia por seis meses". A democracia e a república para esta gente são secundárias. Só por isto, digo: domingo vamos todos votar! Para que haja uma segunda volta.

2010/07/11

A mais importante das coisas menos importantes

Por estes dias, nos blogues de esquerda quase só se fala de futebol.
Embora eu concorde plenamente com este texto do Nuno Ramos de Almeida – a política não é definitivamente chamada para explicar o que se passa no relvado -, é
bastante consensual que a forma de jogar das seleções reflete caraterísticas nacionais. Os exemplos são vários: a organização e o coletivo alemães, o individualismo e o improviso sul-americanos, o cinismo e o maquiavelismo italianos… Penso mesmo que as extrapolações da política para o futebol têm mais a ver com as extrapolações destas caraterísticas para a política. E no dia a dia estas caraterísticas, se não fazem a política, fazem parte da realidade internacional.
Um bom exemplo de tais extrapolações será o definir-se, como é habitual, um futebol mais baseado nos rasgos individuais como “de esquerda”, enquanto um futebol mais disciplinado taticamente seria “de direita”. Num contexto internacional, quem pratica o primeiro tipo de futebol são países emergentes como o Brasil ou a Argentina e “PIGS” como Portugal, enquanto o arquétipo de quem pratica o segundo tipo de futebol é quem dita a ordem na Europa, a Alemanha. Mas estes países, como todos os outros, já tiveram governos de esquerda e de direita, e nem por isso as suas caraterísticas mudaram. Esta distinção pode fazer sentido para altermundialistas para quem quem governa é sempre de direita, mas não creio que tenha grande utilidade prática.
Dito isto, falar-se em futebol “de esquerda” como o mais espetacular, o mais aberto, em oposição a um futebol “de direita” mais fechado e mais interessado no resultado preocupa-me pelo que indicia. Então a esquerda não está preocupada com o resultado? Só a direita é que está interessada em ganhar?

2010/07/01

Durma, dr. Soares!


Foi durante o Prós e Contras desta semana (na segunda parte) que Mário Soares contou a história que aqui reproduzo.
Nos anos 80, era ele primeiro-ministro, por duas vezes o ministro das finanças, Silva Lopes, telefonou para sua casa desesperado, às duas da manhã, a dizer que no dia seguinte o país iria entrar em bancarrota e já não haveria dinheiro para pagar os salários. Das duas vezes Mário Soares respondeu que, se isso fosse mesmo verdade como Silva Lopes temia (e em nenhuma das duas vezes tal se confirmou), no dia seguinte ele, Mário Soares, teria de estar bem desperto para decidir o que fazer. "Por isso, ó Silva Lopes, deixe-me dormir!"
Se, aos 86 anos, o velho cometesse a loucura de se recandidatar a Presidente, eu ainda votaria nele. Mário Soares é o último grande português vivo.

2010/06/25

A falta de sentido de Estado de Cavaco

A ausência de Cavaco Silva do funeral de José Saramago só vem confirmar a sua gritante falta de sentido de Estado. Cavaco é o chefe de Estado e José Saramago era só o português mais conhecido no mundo. Basta comparar a ausência de Cavaco com a presença do governo espanhol (que enviou a vice-presidente) e com as reações do líder da direita espanhola, Mariano Rajoy, com quem Saramago teve grandes polémicas e divergências, para se confirmar mais uma vez que o presidente português é um homem mesquinho e rancoroso, que não prestigia o país.
É verdade que, se Cavaco tivesse ido ao funeral, poderia haver quem o acusasse de oportunismo eleitoral. A origem de todo este problema está na atitude do governo de Cavaco perante Saramago, de que Cavaco nunca se retratou (e oportunidades nunca lhe faltaram). A grandeza de um homem também se vê na capacidade de reconhecer os seus erros. Também aqui a grandeza de Cavaco nunca se viu.

A ler: José Vítor Malheiros, citado pela Shyznogud.

2010/06/03

Sócrates: malandro ou trapalhão?



Começo por admitir: também eu era capaz de fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para conhecer o Chico Buarque. Compreendo por isso a vontade de José Sócrates. Só que depois não diria que foi o Chico que me quis conhecer...
Este tipo de trapalhadas, esta má relação com a verdade, já se tornaram uma imagem de marca do primeiro ministro. Desta vez foi a nível internacional. Sócrates não se pode queixar assim da comunicação social: tem que se queixar de quem partiu a ideia de usar Chico Buarque para se autopromover.
Se foi dos seus assessores, sem lhe darem conhecimento, está na altura de arranjar novos (ter assessores tão caninamente fiéis nunca é muito bom - a este respeito, leia-se Ferreira Fernandes: "Ora aí está uma dessas coisas que podemos tirar a limpo sem precisar de uma comissão parlamentar. Os jornalistas que acompanham a viagem não são tantos assim (cinco?, dez?) que não possam explicar a história comum. Um deles até escreveu "segundo fonte do Gabinete de Sócrates". Agora que há um desmentido rotundo à versão que essa fonte deu, o jornalista pode chegar ao pé dela e exigir uma explicação que deve ser pública. E se a fonte não quiser explicar- -se, o jornalista, como houve mentira deliberada, está desobrigado do sigilo e pode contar a história toda. Fico à espera, confiante - o caso é simples e os intervenientes poucos.").
Se foi realmente de Sócrates que partiu tal ideia (ou teve o seu beneplácito), então Chico bem poderia ter-lhe cantado a Homenagem ao Malandro.

Também publicado no Esquerda Republicana

2010/05/28

Sócrates não pode ser mau de todo

Conseguiu algo que muitos sonham: vai conhecer pessoalmente Chico Buarque por vontade do cantor e escritor brasileiro. E esta, hein? Esta vontade de Buarque vale mais do que uma licenciatura numa boa universidade - é um verdadeiro doutoramento honoris causa!

Também publicado no Esquerda Republicana

2010/05/27

O “espanhol técnico” de Sócrates

Faz muita confusão a alguns blógueres bem-pensantes o nosso primeiro-ministro a tentar falar espanhol… em Espanha, junto de empresários. Não percebo porquê: qualquer português que tente comunicar com um espanhol consegue, desde que fale devagar, pronunciando todas as sílabas. É da minha experiência pessoal: aprendi a falar espanhol enquanto assistia, todas as noites, às versões dobradas das telenovelas brasileiras (um género de que gosto), nos canais de televisão americanos destinados aos imigrantes hispânicos. Ao ouvir os atores brasileiros (e portugueses, como Maria João Bastos em El Clon e Nuno Lopes em Esperanza) dobrados, aprendi alguns truques e pormenores de uma língua que, já de si, é muito simples para qualquer pessoa, e mais simples ainda para nós, portugueses. Sempre que vou a Espanha faço questão de falar espanhol, e garanto-vos que espanhóis já gabaram a minha pronúncia e me perguntaram como é que falo espanhol tão bem. Com um método como o meu, qualquer português que assim o deseje aprende a falar espanhol.
Com o francês, no meu caso, passou-se algo semelhante, embora não fosse com telenovelas: de repente, vi-me a viver em França, no meio de franceses, num meio onde a língua mais falada era o francês, e simplesmente quis integrar-me. Comecei a ouvir, a ler e a falar uma língua de que só tinha umas bases aprendidas no secundário, que já estavam esquecidas. Um ano depois já entendia praticamente tudo o que me diziam e era capaz de manter uma conversação em francês. Cometendo erros gramaticais, claro. Mas se eu tivesse medo de os cometer, se não tivesse a iniciativa de querer ser parte da comunicação, nunca seria capaz de falar francês.
Quando se está a falar uma língua estrangeira, o principal objetivo deve ser o de estabelecer comunicação. Não se deve ter medo de cometer erros. O não ter medo de errar, de falhar, que é uma caraterística tão pouco portuguesa. Cito, a propósito do episódio com que comecei, o Vasco Barreto (via o Bruno Sena Martins):
O “portunhol” de Sócrates é sobretudo uma manifestação da sua personalidade. Percebe-se ali o espírito de “desenrascanço”, um fura-vidas, uma enorme e algo autista confiança, a coragem, ousadia ou lata para enfrentar a elite económica e financeira de Espanha com tão parcos recursos.”
A necessidade faz o engenho e Sócrates, com uma licenciatura de uma universidade rasca, obtida em condições estranhas, pela primeira vez agiu como um engenheiro. Mostrou que merece o diploma que tem. E, francamente, quando leio os comentários que se têm escrito convenço-me de que vivo num país de tristes, invejosos e tacanhos. Valham-nos a Mariza e o Mourinho!
É claro que Sócrates não se comportou bem, apesar de tudo. Preferiu fazer uma piadola de gosto duvidoso com o líder da oposição, sem ser capaz de dizer, perante aquela audiência e naquela circunstância, o que realmente se impunha. Algo como: Voy a tentar hablar español aquí porque eres la única lengua que ustedes comprendem! No fundo, está muito bem para o triste país que somos.

2010/04/30

A roupa não faz o profissional

Uma caraterística de uma sociedade culturalmente católica como a nossa é a autoridade ser algo imposto e inquestionável. Nestas sociedades, a autoridade tem de ser demonstrada: se não for explícita, pode ser questionada. Uma das formas de demonstrar essa autoridade é através da roupa que se usa.
Reparem por favor na fotografia que apresento. Nela surgem reputados cientistas após uma defesa de tese numa reconhecida universidade americana, de cujo comité faziam parte. Talvez com a exceção do da direita, nenhum deles tem a mínima preocupação com os trajes que usa (o da esquerda está de calções e t-shirt, indumentária que usa o ano inteiro; o do meio usa a mesma roupa o ano inteiro). A sua autoridade, reconhecida pelos seus pares, resulta do seu trabalho e do seu mérito. Ninguém a diminui por eles eventualmente andarem “mal vestidos”. Sobretudo, ninguém considera isso um “desrespeito pela universidade”. Desrespeito pela universidade seria se eles não cumprissem bem as suas funções: se não investigassem, se dessem más aulas. É assim numa sociedade que valorize as pessoas pelo seu trabalho. O que, infelizmente, de um modo geral não é o caso nas sociedades tradicionalmente católicas.
Um deputado também tem uma autoridade inquestionável, resultante de ter sido eleito. Ter sido designado pelos seus eleitores. Pode-se perfeitamente questionar o trabalho de um deputado (não somente os seus eleitores). Pode verificar-se se ele está presente nos plenários, se participa nas comissões, se apresenta propostas. Pode questionar-se a sua autoridade com base nesse trabalho. Mas não com base na roupa que veste no dia a dia, mesmo no seu trabalho. O mesmo para um ministro.
(Excetuam-se aqui indumentárias que violem a lei: nomeadamente, não se aceita um deputado nu ou com roupas não neutras. Há de haver um código de indumentária e acho isso aceitável, mas seguramente não obriga ao fato e à gravata. Esperam-se fatos formais em cerimónias oficiais, mas um plenário quotidiano da Assembleia da República ou uma reunião não são cerimónias oficiais.)
Se no final do seu mandato os seus eleitores entenderem julgar o deputado pela sua roupa e não pelo seu trabalho, que o façam. É pena, mas é democrático. Se entenderem que o deputado era mal vestido e que tal os desprestigiava, são livres de escolherem outro. Mas entretanto ninguém pode julgar um deputado pela roupa que usa.
Contrariamente à Ana Matos Pires, eu não acho que isto seja um assunto menos relevante (ao contrário do “Manso é a tua tia” de Sócrates a Louçã, dito off the record e sem qualquer valor oficial). O meu prezado Pedro Correia é um bota de elástico quase tão grande como o seu colega de blogue António Figueira (tem sobre este a notória vantagem – para um bota de elástico – de não se dizer de esquerda). Como tal, é natural que ache um “desrespeito” pela Assembleia da República os trajes do (julgo que competente) deputado José Soeiro do Bloco de Esquerda, e o seu preconceito leve a julgar o José um mau deputado (há quem diga o mesmo do João Galamba e do seu brinquinho). Tal como achará que os professores desrespeitam a universidade a apresentarem-se assim como a foto documenta (e provavelmente o seu preconceito levá-lo-á a considerá-los menos competentes por isto). Eu estou farto desta mentalidade, nunca a aceitarei e creio que a principal razão do nosso atraso a ela se deve. Há que perguntar com toda a frontalidade: quem se julgam Pedro Correia, José Manuel Fernandes (outro que tal), quem se julgam os jornalistas para questionarem os trajes dos deputados da nação?

Também publicado no Esquerda Republicana

2010/04/07

As viagens da deputada Inês de Medeiros

Na série Seinfeld, a minha personagem favorita era o Kramer. E uma das razões principais para isso é que raramente alguma outra vez terá ficado tão clara a distinção entre lógica e bom senso. O bom do Kramer (com certeza um matemático não aproveitado) defendia pontos de vista que eram absolutamente inatacáveis de um ponto de vista lógico, mas que entravam em conflito com o mais elementar senso comum do dia a dia.
A jurista (é ela que assim se intitula, e frisa-o bem) Isabel Moreira, do Jugular, é algo krameriana na sua argumentação. O pagamento das viagens a Paris da deputada Inês de Medeiros pode até ser estritamente legal, mas não passa pela cabeça de ninguém com um mínimo de bom senso que um deputado da nação tenha ajudas de custo para viagens à sua residência… fora do país. Mais: creio que não passa pela cabeça de ninguém que um deputado da nação tenha residência permanente fora do país.
Excetuam-se, claro, os deputados eleitos pelos círculos da emigração. Mas Inês de Medeiros, recorde-se, apesar de residir em Paris, é eleita pelo círculo de Lisboa, onde é eleitora.
A lógica de Isabel Moreira, a defender quem tem um local de residência e outro de voto, é contrária ao Simplex, e em particular ao Cartão do Cidadão, uma das bandeiras do anterior governo, que tornaria essa prática impossível. Esta situação de Inês de Medeiros não é necessariamente ilegal, porque o Cartão do Cidadão ainda não está generalizado, mas situações como a da deputada têm os dias contados. Entretanto, que fazer com as suas viagens?
Como ponto prévio, declaro-me internacionalista, e europeísta em particular. Dito isto, não faz sentido declarar que o não pagamento de tais viagens põe em causa a “mobilidade dos cidadãos”. Que se paguem tais ajudas a deputados ao Parlamento Europeu, pois acho naturalmente muito bem. Mas a mobilidade entre diferentes países da União Europeia é algo que não se espera de um deputado a um parlamento nacional (que, no contexto europeu, é uma forma local, ou se quisermos regional, de fazer política). Posso concordar com a Fernanda Câncio que este caso abre um precedente, e que se calhar Inês de Medeiros, que não prestou declaração falsa nenhuma, é a menos culpada e não merece um linchamento (mais culpado se calhar é o partido que aceitou a sua candidatura, sabendo estas circunstâncias). E concordo sobretudo quando lamento que o Presidente da AR, tão lesto noutras tomadas de posição, não diga nada sobre este caso. Mas apesar disso tudo (ainda mais estando nós no meio de uma crise profunda, mas mesmo que não estivéssemos), eu não quero pagar as viagens a Paris da deputada Inês de Medeiros.

Também publicado no Esquerda Republicana