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2010/11/16

Chegando a Vias de Facto

O meu texto Semântica no Trabalho originou uma discussão interessante no Vias de Facto, que eu vou tentar abordar de forma sintética. A minha ideia era contrapor, ou mesmo refutar, uma tese do Miguel Madeira que me pareceu simplista. Não era apresentar uma tese nova, alternativa. O Miguel Madeira agarrou-se a uma tese que ele pelos vistos julga que eu defendi. Mas não o vi em lado nenhum defender a sua tese inicial, que eu critiquei. Nos comentários ao texto do Miguel, Manuel Resende, tradutor e cultivador de cenouras que eu tive o prazer de conhecer no salão nobre do Hotel de Ville de Paris aqui há uns anos, perora sobre um futuro tecnológico onde desaparecerão os trabalhos desagradáveis como limpar as retretes. Intuo do texto do Manuel que não sou o único a urinar no pomar (no meu caso, da minha avó), mas para um pomar é uma coisa; para cima das cenouras (ou da salsa) é outra. (Eu sei, é o que fazem os animais selvagens, mas adiante.) E defecar, então, nem pensar (eu é que não queria andar num pomar com esse tipo de adubo não compostado). Isto é para dizer ao Manuel que podemos ser muito tecnológicos e dar excelentes aplicações aos nossos detritos: acho tudo isso ótimo. Mas enquanto não descobrirmos alternativas precisaremos sempre de retretes nas nossas casas e teremos que as limpar. O resto é ficção científica, género que nunca me agradou. O cervejista Miguel Serras Pereira (este meu texto é tão palavroso e tem tantos links que até parece um dos dele) pega no comentário do Manuel Resende, num texto onde conclui várias coisas. Conclui (bem) que "a interiorização" de uma moral "seria o perfeito oposto da autonomia quer no plano colectivo, quer no da esfera individual" (as minhas objeções à autonomia irrestrita passam por aqui). E conclui (e eu discordo) que o comunismo "só é concebível em condições de abundância e disponibilidade de recursos rigorosamente ilimitadas". Pelo contrário, eu diria isso do autonomismo: só funcionaria em comunidades muito mais pequenas, com populações que não fossem forçadas a conviver e partilhar recursos quotidianamente, isto é, se houvesse muito menos população e menor consumo de recursos. Disso mesmo se parece ter apercebido o Pedro Viana, que conclui que é necessário "educar para a autonomia e a frugalidade, o que é incompatível com a promoção da dependência e alienação nas actuais sociedades centradas no consumo", mas desde que exista um estado social que "assegure os mínimos". Ora se os mínimos têm de ser assegurados pelo estado é porque dele dependemos, não é? A autonomia e a independência morrem aqui. Por outro lado, concordo inteiramente com o Pedro ser necessário educar ("interiorizar uma moral", diria o Miguel Serras Pereira) para a frugalidade - escrevi isso aqui. A proibição total de publicidade é uma ideia gira, embora algo radical: o que pensaria dela o Luís Rainha? Não consigo discutir com Zé Neves nem com alguém que chame "formulação cretina" à designação "esquerda cervejista". Não por me chamar cretino a mim; com insultos posso eu bem. Mas por chamar cretino ao Odorico Paraguaçu. Não consigo discutir com quem chama cretino ao Odorico: são demasiadas divergências ideológicas.

2010/10/30

Se os recursos fossem ilimitados não precisaríamos da esquerda para nada

“Assumindo recursos infinitos, a economia continuará a crescer, em média, com mais ou menos crises pelo meio”, prevê candidamente o Ricardo Schiappa. “Quase todos nós tendemos a encarar a presente crise como uma breve pausa no processo de crescimento”, escreve naturalmente o João Pinto e Castro. Neste caso não me parece que seja isto que ele pensa, mas de qualquer maneira o que me incomoda é o “quase todos nós” que o João familiarmente escreve. “Quase todos nós” achamos que o crescimento não parará. Que é como quem diz que “quase todos nós” achamos que os recursos naturais são inesgotáveis. Estamos aqui a falar do setor primário: sem ele não há comida. Mas mesmo o setor terciário, o das “ideias”, das “oportunidades”, que contribuem para o crescimento económico e em teoria podem ser inesgotáveis, não o é na vida real. Estes “quase todos nós” a que o João Pinto e Castro se refere somos nós, do hemisfério norte, que crescemos e vivemos habituados a uma economia do desperdício. Tal facto é particularmente notório nos EUA, mas também se verifica na Europa. Continuamos a conduzir estupidamente os nossos carros, mesmo em percursos de centenas de metros, mesmo em localidades bem servidas de transportes públicos, como se o petróleo fosse inesgotável e o espaço para circular e estacionar nas cidades fosse infinito (sem falar nos enormes prejuízos ecológicos, de que o aquecimento global é só um exemplo). Continuamos criminosamente a comer jaquinzinhos e petingas, sem nos preocuparmos se no futuro os nossos filhos poderão comer carapaus e sardinhas frescos, capturados no mar. E assim sucessivamente – os exemplos não são poucos. Que as pessoas de direita pensem, erradamente, que os recursos são inesgotáveis, ainda compreendo. O que não consigo entender é que tal passe sequer pela cabeça de pessoas que se digam de esquerda. Marx, provavelmente o primeiro ecologista, apercebeu-se da finitude dos recursos, ou não teria escrito “O Capital”.

2010/04/21

Revista de imprensa (Abril 2010)

Para maior azar de Papandreou, no dia seguinte, o mesmo jornal trazia uma reportagem sobre a contestação de rua, em Atenas, às suas medidas, onde se registava a opinião de uma jovem de 26 anos, declarando que, em caso algum, aceitaria que prolongassem a sua idade de reforma, prevista para os 50. Porque, explicava ela, a sua profissão estava considerada por lei como de "desgaste rápido", o que lhe conferia também direito a uma reforma rápida. E qual era a profissão dela? Cabeleireira. É uma das 280 profissões ou trabalhos a que a lei grega reconheceu o estatuto de 'desgaste rápido', em consequência de sucessivas cedências às reivindicações sindicais.
Por diversas razões, que agora não vêm ao caso, eu acho que, aqui, como no resto, a Europa nunca tem sido justa com a Alemanha e nunca reconheceu suficientemente o esforço que a Alemanha tem feito em defesa da Europa e na manutenção de pontes entre o Leste e o Oeste, entre o Mediterrâneo (incluindo a Turquia) e o Norte. Talvez se perceba isso melhor quando se vê uma imigrante turca de Berlim (onde 20% dos habitantes são imigrantes) atirar para o chão, displicentemente, o embrulho do cachorro acabado de comprar. Numa cidade estimada pelos seus habitantes, limpa e onde tudo funciona, que custou milhões aos pagadores de impostos para se unificar e reconstruir depois do Muro, o gesto é uma ofensa que dá que pensar.
Nessa semana, por coincidência, eu também estava em Berlim e percebi bem por que razão 90% dos alemães não querem ajudar a Grécia a sair do buraco onde se enfiou e chegam até à ironia de perguntar se, em alternativa, os gregos não quererão antes vender algumas ilhas. Como me explicou um alemão, "Papandreou representa um país onde toda a gente tem direito a 13º e 14º mês e onde a idade de reforma nunca vai além dos 60 anos. E vem-nos pedir dinheiro a nós, esquecendo-se que aqui não há direito legal a 13º e 14º mês e a idade de reforma já vai nos 67 anos". (Miguel Sousa Tavares, 01-04-2010)
O SAP de Valença foi fechado a partir das 22h - como trinta e dois outros nos últimos três anos. Tinha uma média de 1,7 utentes por noite, os quais mobilizavam um médico, um enfermeiro, um administrativo. Três funcionários do Estado a receber horas extraordinárias e nocturnas a noite toda, para atenderem 1,7 doentes ou autodeclarados como tal: era, provavelmente, a consulta mais cara do país. Se os casos atendidos fossem graves, o serviço servia de muito pouco ou pior: fazia perder tempo a encaminhar o doente para outro lado, onde houvesse condições para o atender; se não fosse grave, o atendimento nocturno servia apenas para retirar um médico do serviço de dia, onde há mais gente para atender. Como não somos o Dubai e não temos dinheiro para manter 24 horas por dia um médico, um enfermeiro e um funcionário ao serviço de cada cidadão, o SAP de Valença fechou. Agora, a população diz que vai a Tuy, em Espanha, logo ali ao lado e onde dizem que são recebidos a qualquer hora e sem sequer pagar taxas moderadoras. Agradecidos, hastearam bandeiras espanholas na vila e dizem que só voltam a ser portugueses quando reabrir o serviço nocturno do SAP. Eu, que dou ao meu país 60% do que ganho a trabalhar, em impostos directos e indirectos, tenho um recado para os de Valença: por favor, continuem espanhóis. (Miguel Sousa Tavares, 15-04-2010)

2010/03/19

Economia(s)

Lançamento do livro de Francisco Louçã e José Castro Caldas agora às 18 horas, na Livraria Centésima Página, em Braga. Até já.

2010/03/10

Os preços planificados do “Pingo Doce”

Continuemos a falar do comércio a retalho, só que desta vez de legumes frescos.
Costumo brincar com os meus amigos economistas, dizendo-lhes que enquanto a física consegue prever com todo o rigor certas grandezas a economia não é capaz de prever sequer o preço do quilo da alface. Bem: não no “Pingo Doce” onde, desde Outubro de 2009 (pelo menos), o kg da alface tem sido sempre a 1,49 €. O mesmo com o espinafre e o tomate: sempre ao mesmo previsível preço.
O rapaz da foto entra-nos todos os dias em casa (para quem vê televisão), a anunciar que, na cadeia de lojas que ele promove, basicamente os preços são fixos, à boa maneira socialista (dizem que Salazar fazia o mesmo, pelo menos com o preço do pão, nem que tivesse que lhe diminuir o tamanho…). Enquanto nas outras lojas os preços flutuam com o mercado, com a lei da oferta e da procura e com as condições climatéricas (algo que, especialmente com um inverno rigoroso como o que temos tido, naturalmente afeta e muito o preço dos legumes frescos), no “Pingo Doce” os preços não aumentam (mas também não diminuem – não variam).
É curioso que os economistas, mais liberais ou mesmo mais keynesianos, gastaram nas duas últimas décadas tanto latim a explicarem-nos os problemas de uma economia planificada, e agora ninguém reclama por o “Pingo Doce” estar a planificar a economia (fixar preços é típico de uma economia planificada, e não de uma economia livre).
Dir-me-ão que o “Pingo Doce” é uma empresa privada, que pode vender os produtos aos preços que quiser numa economia livre, enquanto o estado fixar os preços é diferente. Mas será assim tão diferente? Terão os produtores liberdade de negociar livremente com o “Pingo Doce” o preço das suas colheitas? Não estou de modo nenhum a acusar o “Pingo Doce” de nada, mas sei que muitas vezes os grandes retalhistas exercem pressões enormes sobre os produtores, sendo que em muitas localidades detêm praticamente o monopólio. Os produtores têm que aceitar os preços que os grandes retalhistas oferecem; não têm escolha. Não sei se é esta a situação do “Pingo Doce” (repito – não estou a acusar ninguém), e pode ocorrer com outros retalhistas, hipermercados ou não. Sei é que esta situação hipotética não é a de uma economia livre.
Mas admitamos que nada disto se passa: o “Pingo Doce” é uma marca séria, e decidiu manter um compromisso com os clientes. Mesmo que a intenção do “Pingo Doce” não seja essa, a verdade é que todos aqueles anúncios são uma exaltação das virtudes da economia planificada como há muito não se via (e espanta-me, falo a sério, que nenhum economista comente este assunto). Ao ver aquele rapaz rechonchudo a repetir que “só o “Pingo Doce” respeita o seu dinheiro” por não variar os preços, questionamo-nos se não seria melhor que fosse assim com tudo. As lojas todas, todo o comércio. Não só o “Pingo Doce”. Desde que não houvesse esmagamento dos produtores. Se há pressões sobre os produtores, é intolerável; se não há, afinal a economia planificada funciona! Não é assim? Não consta que o “Pingo Doce” dê prejuízo!
Sim, e o rapaz é rechonchudo. Só num anúncio, o “Pingo Doce” reabilita a planificação da economia e os gordos para a publicidade. Quer-me parecer que o “Pingo Doce” está a tentar atrair clientes de esquerda.

Também publicado no Esquerda Republicana

2010/01/28

Mais livre do que um tipo sem casa, só mesmo um tipo sem emprego

Já todos conhecemos mais ou menos os argumentos dos que se dizem a favor do arrendamento de casas (mesmo se tal prática constitui um feudalismo dos tempos modernos que perpetua uma distribuição desigual dos bens imobiliários, quando o direito à habitação está garantido na Constituição). O arrendamento deveria ser encorajado porque há casas desabitadas (que os senhorios não querem vender). As rendas deveriam ser aumentadas porque os senhorios não têm dinheiro para fazerem obras e as casas degradam-se (mas nem pensar em os senhorios venderem as casas!). Enfim. Um argumento mais recente, lançado há uns anos por Francisco Sarsfield Cabral num artigo do DN e bastante usado na blogosfera de direita, defendia a precariedade laboral disfarçada nas supostas “boas” intenções do mercado do arrendamento: um indivíduo não deveria comprar casa porque deveria estar sempre pronto para mudar de emprego, de local e mesmo de cidade de trabalho. Eu até aceito este argumento para um jovem, mas só até a uma certa idade. Pelos vistos há quem ache que a precariedade e instabilidade laboral devem durar toda uma vida. Agora, no Blasfémias vai-se mais longe: “cada vez que uma família se vincula a uma casa – habitação própria, alugada ou de renda social – compra a sua própria escravidão.” Não nos vinculemos a casas. Não nos vinculemos a emprego. Não nos vinculemos a nada, pois caso contrário somos “escravos”. Eu ainda hei-de ver esta gente defender que um desempregado é mais livre do que quem trabalha. O que nem deixa de ser verdade: um desempregado não tem horários nem patrão nem responsabilidades. Ainda hei-de ver algum deles escrever que, sempre que um patrão despede empregados, está a contribuir para a sua liberdade.

Também publicado no Esquerda Republicana

2010/01/01

Se os recursos fossem ilimitados, não precisaríamos da esquerda para nada

“Assumindo recursos infinitos, a economia continuará a crescer, em média, com mais ou menos crises pelo meio”, prevê candidamente o Ricardo Schiappa. “Quase todos nós tendemos a encarar a presente crise como uma breve pausa no processo de crescimento”, escreve naturalmente o João Pinto e Castro. Neste caso não me parece que seja isto que ele pensa, mas de qualquer maneira o que me incomoda é o “quase todos nós” que o João familiarmente escreve. “Quase todos nós” achamos que o crescimento não parará. Que é como quem diz que “quase todos nós” achamos que os recursos naturais são inesgotáveis. Estamos aqui a falar do setor primário: sem ele não há comida. Mas mesmo o setor terciário, o das “ideias”, das “oportunidades”, que contribuem para o crescimento económico e em teoria podem ser inesgotáveis, não o é na vida real.
Estes “quase todos nós” a que o João Pinto e Castro se refere somos nós, do hemisfério norte, que crescemos e vivemos habituados a uma economia do desperdício. Tal facto é particularmente notório nos EUA, mas também se verifica na Europa. Continuamos a conduzir estupidamente os nossos carros, mesmo em percursos de centenas de metros, mesmo em localidades bem servidas de transportes públicos, como se o petróleo fosse inesgotável e o espaço para circular e estacionar nas cidades fosse infinito (sem falar nos enormes prejuízos ecológicos, de que o aquecimento global é só um exemplo). Continuamos criminosamente a comer jaquinzinhos e petingas, sem nos preocuparmos se no futuro os nossos filhos poderão comer carapaus e sardinhas frescos, capturados no mar. E assim sucessivamente – os exemplos não são poucos.
Que as pessoas de direita pensem, erradamente, que os recursos são inesgotáveis, ainda compreendo. O que não consigo entender é que tal passe sequer pela cabeça de pessoas que se digam de esquerda. Marx, provavelmente o primeiro ecologista, apercebeu-se da finitude dos recursos, ou não teria escrito “O Capital”.

2009/02/08

Desidério Murcho, os "pobres", o metro e a escola pública

Na sua habitual linha de pensamento político liberal, Desidério Murcho pergunta quais as vantagens e desvantagens de um imposto único. Tal já havia sido objecto de debate entre o Luís Aguiar Conraria (que, aliás, já tinha apresentado a ideia, e responde a Desidério) e Vital Moreira (que havia respondido à altura por duas vezes). As respostas ao texto de Desidério nos comentários são boas (particularmente a do anónimo Artur), mostrando que, mais do que económica, esta é uma questão política. Mas, lendo os mesmos comentários, reparei num particularmente significativo do próprio Desidério:
Ter dois milhões de euros no banco e viver em Chelas num apartamento de 20 mil euros, sem carro e andando de metro é algo bizarro, não? Isto devia ser evidente.

Para eu ser “bizarro” para o Desidério, só me falta mesmo ter dois milhões de euros no banco. Mas, portanto, escolhas pessoais como não ter carro e opções cívicas como andar de transporte público são, para Desidério, para “pobres”. (Um rico que as tome é “bizarro”.)
Curiosamente o mesmo Desidério Murcho muito insiste na elevação de conteúdos ensinados na escola pública, insurgindo-se contra o preconceito de considerar que os pobres “não gostam” de ciência, filosofia ou literatura a sério como motivo para “aligeirar” os conteúdos dos programas de ensino. Desidério defende o ensino na escola pública da melhor ciência, da melhor filosofia, da melhor literatura. Para percebermos melhor o conceito de escola pública de Desidério Murcho, convinha que ele respondesse a uma ou duas perguntas, relacionadas com este seu comentário. Um “pobre” que se interesse por ciência ou literatura ou filosofia, é bizarro? Um rico que ande na escola pública, é bizarro? Se Desidério achar que sim, julga que a escola pública é “para pobres”. Se achar que não, não é bizarro, por que raio é que o haveria de ser o andar de metro?

2008/10/14

Confirma-se: o casamento gay distrai-nos de outros assuntos

No Blasfémias, por exemplo, nem uma palavra sobre o Krugman. O João Miranda só fala sobre o casamento gay. O mesmo se pode dizer do Insurgente, excepção feita a umas citações colocadas há uns minutos.

2008/10/13

Paul Krugman Nobel da Economia

E eu há cinco anos já o citava (num belo artigo - texto "Filipe Moura (2)"). Vale a pena lê-lo, agora e sempre.

2008/07/08

Segurança

Há um argumento curioso dos defensores do arrendamento de casa – que geralmente defendem também a precariedade laboral. Estes senhores primeiro querem acabar com tudo o que seja segurança no emprego, para depois dizerem que “já não há empregos seguros” que permitam comprar casa - com a instabilidade laboral, hoje em dia quem não herdou uma casa ou não tem pais que lha ofereçam só deve alugar casa e não comprar.
Mais vale estas pessoas defenderem de vez, e abertamente, que querem acabar com o direito à casa própria (tal como querem acabar com o emprego seguro). Eu admito - considero que o mercado de aluguer de casas deve ser a excepção e não a regra. Deve ser desencorajado ao máximo. A menos que desejem uma situação como a da música do vídeo (ouçam até ao fim).

2008/07/07

Uma terra sem senhorios

Nesta questão das rendas de casa há vários aspectos que acho espantosos.
Acho espantoso que quem defende a “iniciativa” e o “empreendedorismo” acabe a defender uma actividade que de iniciativa e empreendedorismo tem muito pouco ou quase nada. Que empreendedorismo existe em gastar dinheiro em casas para alugar, em vez de fazer aplicações no banco ou jogar na bolsa? Que benefícios traz tal actividade para o crescimento da economia? Que empregos se criam? Que riqueza é produzida em concentrar-se um recurso que deve ser finito e, portanto, não produzido mais do que o necessário (a habitação nas grandes cidades) nas mãos de alguns senhorios endinheirados?

Dir-me-ão: a actual lei das rendas tem paradoxos? Pois é verdade. E conduz a situações ridículas? Pois conduz. Não sou um defensor da actual lei e nem da actual situação, mas não tenho nenhuma simpatia por senhorios ou pelo aluguer de casas enquanto ocupação permanente, e não posso apoiar nenhuma lei que estimule esta actividade. Reconheço que o mercado de aluguer é necessário, mas deve ser complementar, e baseado nas casas que não estão ocupadas por alguma razão. Não deve ser o fundamento, a razão de uma casa, pelo menos de uma casa particular. Uma segunda casa particular num raio mínimo de quilómetros deveria ser para vender e não para alugar. Deveria pagar impostos altos.

De entre as críticas que me fizeram foi a de “não conhecer bem outras realidades”. Pois nos EUA conheci dois casos de “senhorios” cuja única “profissão” era alugar quartos e estúdios a estudantes e investigadores (sem passar recibos e sem pagar impostos). Ganhavam o suficiente assim não só para comerem e eventualmente pagarem um seguro de saúde, mas para manterem as casas para alugarem e terem carros. Não faziam absolutamente mais nada. Não estudavam, não trabalhavam, não progrediam. Nem precisavam, com as casas que tinham recebido de herança. Não eram nenhuns coitados. Este modelo de sociedade ou estilo de vida não são defensáveis nem devem ser encorajados.

Há inquilinos que pagam rendas ridiculamente baixas e de coitados não têm nada, é verdade, mas a diferença em relação aos senhorios é que também há muitos casos de inquilinos com rendimentos de miséria. Nunca conheci nenhum senhorio que fosse pobre. Mesmo assim, gostam de se passar por gente “modesta” que investiu as suas “poupanças” numas “casas” para alugar como “complemento de reforma”. Pois bem, supondo que essas “casas” correspondem no mínimo a um prédio (muitas vezes correspondem a mais), receber rendas de dezenas de euros pelos apartamentos desse prédio correspondem a um bom “complemento de reforma”, pelo menos no que eu entendo por “complemento”. Quem chama a rendas de centenas de euros (a multiplicar por um prédio inteiro) “complemento de reforma” tem uma reforma muito boa! Não deve ter nenhum discurso miserabilista e nem merece compaixão. Em qualquer dos casos, tal rendimento (“complemento” ou não) não resulta de nenhum trabalho ou esforço. Eu não sou contra as pessoas enriquecerem, desde que trabalhem para isso.

O mais curioso é que os maiores defensores do arrendamento de casas têm todos casa própria! Defendem o estímulo do arrendamento, mas arrendar casa não é com eles. Quem os quer ver é nas suas casinhas próprias. Se viver em casa alugada é tão bom, por que não alugam as suas casas uns aos outros e deixam os trabalhadores terem casa própria, uma ambição justa e legítima?

2008/05/07

Santa Apolónia e a crise alimentar

Imperdível o artigo de Miguel Sousa Tavares no Expresso desta semana.

Acompanhado pelo seu incontornável ministro dos Gastos Públicos, Mário Lino, José Sócrates anunciou mais uma "obra estruturante" para o país: investir cerca de duzentos milhões de euros do Estado para multiplicar por quatro a área do terminal marítimo de contentores de Alcântara, no coração de Lisboa. A obra é um velho sonho do Porto de Lisboa - tapar o rio com contentores ou o que seja para que os lisboetas desfrutem dele o menos possível. E é também um velho sonho da empresa que detém, por concessão, o monopólio do negócio dos contentores no porto de Lisboa: a Liscont, pertencente à Mota-Engil (sim, a de Jorge Coelho). Para servir os interesses da empresa, o Estado vai então gastar dinheiro a dragar o rio e a enterrar o comboio e redesenhar os acessos rodoviários à zona, porque não é brincadeira fazer escoar milhares de contentores diariamente do centro da cidade. Oferece-lhe ainda uma área de luxo para desfrute em exclusivo e a histórica Gare Marítima de Alcântara, com os painéis de Almada, por onde gerações de portugueses partiram para a emigração ou para a Guerra de África e gerações de turistas desembarcaram em busca da cidade debruçada sobre o rio. Mas a Liscont também investe a sua parte: 227 milhões. Condoído do seu esforço, porém, o Governo compensa-a por esse magnânimo gesto, prorrogando-lhe por mais vinte e sete anos, até 2042, o monopólio que detém e que expirava dentro de sete anos.
Portanto, saem dali os paquetes de passageiros que, desde que me lembro, desde que o meu avô me levava a vê-los em criança e eu aos meus filhos, era a única coisa de interesse em Alcântara e uma das coisas que faziam de Lisboa uma cidade diferente. E para onde vão? Vão para onde deviam ir os contentores: para uma extrema da cidade e da frente de rio, para Santa Apolónia. Parece-vos absurdo que se lembrem de pôr os turistas a desembarcar numa ponta desabitada da cidade e os contentores a desembarcarem nas Docas, junto aos Jerónimos e à Torre de Belém? Não, não é absurdo: faz parte de um plano maquiavélico do Porto de Lisboa (mais um), arquitectado passo a passo. Com o abandono da Doca de Passageiros de Alcântara e a sua transferência para Santa Apolónia, onde nenhuma infra-estrutura existe para os acolher, o Porto de Lisboa tem assim uma excelente oportunidade para lançar mãos àquilo de que mais gosta: a construção e especulação imobiliária à beira-rio. A APL propõe-se construir um contínuo de edifícios em Santa Apolónia ocupando uma frente de rio de 600 metros para o novo terminal de passageiros (até se prevê a construção de um hotel, partindo do raciocínio lógico que os turistas, uma vez acostados ao cais, abandonarão os seus camarotes já pagos a bordo para se irem instalar no hotel em frente ao navio...). De modo que, de um só golpe e com a habitual justificação do interesse público para enganar tolos, os engenheiros que nos governam acabam de roubar mais um bom pedaço de rio a Lisboa: 600 metros em Santa Apolónia e outros tantos em Alcântara. Chama-se a isto uma expropriação pública em benefício de interesses particulares.

E, como de costume, quando se trata de dispor da cidade e do rio, com pontes ou terminais de contentores, é Sócrates e a sua equipa do Ministério das Obras Inúteis quem faz a festa e lança os foguetes. Se é que Lisboa tem um presidente de Câmara, mais uma vez ninguém o viu nem ouviu.

À falta de outros interessados no assunto e face à suprema nulidade política dos governantes do mundo desenvolvido, é a ONU apenas que parece preocupada com a escalada avassaladora do preço dos alimentos, a acrescentar à da energia. Entregues a si próprios, os mercados e os governos reagem de acordo com a lei do salve-se quem puder, dando um lindo exemplo prático das delícias da globalização: os países exportadores de alimentos fecham as portas de saída para evitar problemas políticos internos; os países exportadores de petróleo recusam-se a intervir no mercado para fazer estancar a subida do crude, empolada artificialmente; e os que não têm petróleo, como a Itália e a Inglaterra, regressam em força ao carvão e que se lixe o aquecimento global, com o incremento da mais poluidora fonte de energia. Assim entramos numa espiral de loucos: a alta do preço do petróleo faz subir o preço dos alimentos e o preço destes o do petróleo; os especuladores da finança e do imobiliário, cuja ganância mergulhou a economia mundial em crise, fogem agora das bolsas para as matérias-primas, como o petróleo, os alimentos e a água, fazendo aumentar ainda mais o seu preço; os países que têm dinheiro mas precisam de energia dedicam-se a comprar terras aos pobres de África e da Ásia para nelas produzir biocombustíveis, a partir dos cereais; menos terras agrícolas, menos comida ainda: aqueles que não têm nem alimentos, nem energia nem terras disponíveis, só podem esperar morrer de inanição - segundo a ONU são trezentos milhões em todo o mundo ameaçados de morrer de fome.

Mas a crise do preço da alimentação é também um momento de ajuste de contas com o passado recente, em países como Portugal. Antes de entrarmos na UE produzíamos mais de metade do que comíamos, tínhamos ainda um mundo rural e agrícola e um país relativamente equilibrado entre o interior e o litoral, a província e as grandes cidades. Mais de duas décadas depois, o que vemos? Produzimos menos de um quarto daquilo que comemos; à força de subsídios, desmantelámos a frota pesqueira e deitámos fora toda uma cultura e saber que demorara gerações infinitas a apurar, passando a importar todo o peixe que vem à mesa; gastámos fortunas a pagar aos agricultores para eles abandonarem os campos ou ficarem sentados a ver em que paravam as modas, sem investir, sem inovar, sem arriscar - até lhes demos uma barragem, a maior da Europa, para eles se distraírem a fazer regadio, já que diziam que as culturas de sequeiro não davam, mas, assim que se viram com a barragem feita, venderam as terras aos espanhóis, agarraram nas mais-valias que os contribuintes lhes tinham facultado e agora só querem regressar ao local do crime para fazer urbanizações turísticas à beira de Alqueva; de caminho, desmantelámos a fileira florestal tradicional, substituindo-a por um oceano de pinheiros e eucaliptos, contribuindo ainda mais para a desertificação e os incêndios de Verão, porque um ex-ministro, hoje muito bem na vida, declarou solenemente que "os eucaliptos são o nosso petróleo verde"; enfim, como resultado último de toda esta clarividência, gastámos os rios de dinheiros europeus que nos poderiam e deveriam ter garantido a solvabilidade e independência económica para sempre, a construir auto-estradas e duas megacidades onde as pontes e os terminais de transportes de toda a ordem nunca são suficientes para acolher o Portugal que fugiu do interior morto.

Demos cabo do país e não foi por falta de avisos nem por particular estupidez dos governantes. Foi, claramente, para servir os interesses particulares que vegetam perpetuamente à sombra do Estado. Essa clique infecta dos falsos empresários e dos traficantes de influências que sugam toda a riqueza do país.

Não me admira nada que até o presidente da Companhia das Lezírias - uma empresa estatal que ocupa as melhores terras agrícolas de Portugal e que o empresário Américo Amorim tentou há tempos privatizar a seu favor - venha dizer que não pode deixar de aproveitar a "oportunidade" do futuro aeroporto de Alcochete para se lançar também na especulação imobiliária em parte dos terrenos que lhe cabe administrar. A bem do "ordenamento do território", é claro. A sua desfaçatez é um exemplo eloquente das razões pelas quais chegámos a este ponto de desesperança. Mas será que o senhor, ao menos, não lê jornais e não sabe que estamos à beira de uma severa crise alimentar? Será que não lhe explicaram que o objectivo da Companhia das Lezírias é a agricultura e não a especulação turística? Ou achará, como o eng.º Sócrates, que, no futuro vamos todos comer betão e jogar golfe?

2008/04/21

Quem é o responsável pela crise alimentar?

Um muito interessante artigo de Nicolau Santos no Expresso.

2007/10/11

Por falar em países desenvolvidos...

Eu penso que, num país desenvolvido, as pessoas trabalham se querem enriquecer. O ganhar dinheiro é visto como recompensa de um esforço, de mérito. Sobretudo, o trabalho, o esforço, o mérito são reconhecidos pela sociedade. É da sociedade que estamos a falar. E é isso, essa vontade quotidiana das pessoas, que torna esses países desenvolvidos. Tentativas de ganhar dinheiro fácil, como todo o tipo de jogo, também existem, mas só nos países onde as pessoas não acreditam que com o seu esforço seja recompensado existe um enorme entusiasmo com as apostas mútuas. Como se o sorteio do totoloto ou do euromilhões fosse o momento mais interessante da semana. A conversa típica da classe média-baixa (de que eu faço parte, e conheço bem) roda sempre à volta dos planos sobre “o que eu faço se me sair o totoloto”.
Os portugueses lideram a tabela europeia no número de apostas per capita no euromilhões, noticiava esta segunda-feira o Metro na primeira página. Ninguém fala nisto, ninguém comenta isto. Toda a gente parece achar isto muito normal. Eu acho este facto preocupante e sintomático.

2006/12/18

Economistas vs. Físicos

Para quem achou a sugestão de leitura anterior demasiado técnica, aqui fica outra mais leve: Economics vs. Physics Love-Off, ainda no Cosmic Variance.
Economists have a huge amount of influence over actual public policy, while admiration for physicists doesn’t get you too much beyond the “Isn’t that cool!” level, and occasional appearances on late-night radio. (...) These three sentences point to a definite failure on the part of physicists to successfully get their message across. (...) Unfortunately — and to a signficant extent this is our own fault — it’s not always clear to the person on the street which ideas are speculative and which have come to be accepted, nor is it clear that we have good reasons even for the wildest speculations.
Esta vai com dedicatória ao Luís Aguiar Conraria, ao Sérgio dos Santos e ao João Miranda.

2006/04/05

Serão as condições-fronteira e as restrições blasfemas?

(Texto ligeiramente alterado)

Eu não sou especialista em "teoria económica", mas alguém deveria recordar ao João Miranda que a solução de uma equação diferencial não é única, "a dele", como ele pretende demonstrar (usando só a informação que lhe convém, como lhe é habitual). A solução de uma equação diferencial depende das condições fronteira. A teoria do João Miranda aplica-se a sistemas que evoluem sem constrangimentos, mas os sistemas têm constrangimentos que ele não considera. A escolha de constrangimentos e de condições fronteira na economia corresponde ao que em linguagem corriqueira se chama "política" (para não dizer "ideologia"). A solução dele (que se traduz na total ausência de "política") não é a única e nem resulta de nenhuma previsão da "teoria económica", como ele quer fazer crer. Por exemplo, aqui e, principalmente, aqui.
Apesar de tudo, eu gosto sinceramente de ler o João Miranda. É um demagogo que não trata as pessoas como atrasadas mentais. É o demagogo ideal. Funciona perfeitamente para vítimas do "eduquês" e da impreparação matemática lusa. A esquerda tradicional portuguesa não faz a mínima ideia de como lhe responder. Argumentar com ele como deve ser dá, de facto, muita luta e requer muito trabalho de casa, algo que ele também faz. As pessoas que eu me recordo de ver contrariá-lo de forma mais eficiente são o Rui Curado Silva e (na área dos comentários do Blasfémias) o meu monitor MP-S - que curiosamente me ensinou os truques das condições-fronteira. Não por acaso, ambos têm formação em Física.