2006/03/06

Freitas e os "antifascistas" de conveniência

Definitivamente está na moda por parte da direita portuguesa fazer de Freitas do Amaral saco de pancadas. Sejamos claros: é difícil "encaixar" politicamente Freitas do Amaral nas categorias políticas tradicionais. E torna-se ainda mais difícil por Freitas ser um caso raro de uma personalidade que ao longo do tempo tem vindo a evoluir politicamente no sentido da esquerda. Se ainda há vinte anos Freitas era um homem de direita, com um discurso de direita, hoje já não me parece assim (também não me parece de esquerda). Parece-me acima de tudo um homem moderado, com o que isso acarreta. Se sempre foi assim, se hoje é mais do que ontem, haverá melhores pessoas para julgar, a começar pelo próprio Freitas. Uma coisa é certa: a única obra significativa de Freitas do Amaral de pendor claramente anti-regime é uma peça de teatro de que é autor, há meia dúzia de anos atrás. Não é certamente o suficiente para fazer de Freitas um grande combatente contra a ditadura, mas a utilização do antifascismo para fins meramente políticos (sublinho o fins políticos, e não históricos) não é para qualquer um. Não é qualquer pessoa que pode perguntar a outra "onde é que estava no 25 de Abril". É preciso um certo currículo político para isso.
Embora eu não tenha currículo político nenhum, apetece-me porém perguntar a alguns dos que usam o passado de Freitas para criticarem o seu presente onde é que estavam no 25 de Abril.

3 comentários:

Fernando Rogério disse...

É um facto a dificuldade em caracterizar hoje o posicionamento de Freitas do Amaral. Em tempos, pensei que protagonizava uma viragem interesseira à esquerda, a pensar nas presidenciais. O tempo encarregou-se de desmentir esta tese e, embora ache que foi infeliz nas declarações sobre o caso das caricaturas, acho-me hoje convencido de que o MNE experimentou uma evolução radical no pensamento desde que foi presidente da AG da Nações Unidas. E hoje é qualquer coisa parecida com um humanista. Sobretudo.

Manuel Resende disse...

Não sei: Freitas do Amaral pertence à democracia cristã com preocupações sociais (a democracia cristã que humanizou o capitalismo). Não se esqueça que foi ela que introduziu alguns dos pilares do Estado providência depois da guerra. Na Bélgica, por exemplo, há um forte sindicato democrata-cristão que pouco fica a dever ao sindicato socialista.

A direita (e a esquerda) é que evoluíram para a direita. Tenho cada vez mais tendência a achar nele um homem de palavra e não um catavento: decidiu opor-se à viragem do mundo.

Li numa entrevista recente dele que se considera de direita ou centro direita e nunca de esquerda. Acredito. É uma pessoa de direita que respeito como pessoa.

Não será uma possibilidade de interpretação esta minha?

Filipe Moura disse...

A meu ver creio que ambos têm razão.