2006/03/15

Todos a Point Place, nos anos 70!



Já tinha falado nesta série no Blogue de Esquerda (aqui e aqui). Disseram-me entretanto que as primeiras temporadas já tinham dado em Portugal. Sei agora que estão a dar as temporadas mais recentes na TVI.
Quando esta série começou a ser transmitida nos EUA toda a gente esperava um fiasco. Os protagonistas eram jovens actores desconhecidos, e o ambiente num subúrbio do Wisconsin dos anos 70 não ajudaria muito. Afinal, uma vez mais se confirmou que razão tinha o João Pinto quanto aos prognósticos só no fim do jogo. A série hoje já vai na oitava temporada, os seus (entretanto já não tão) jovens protagonistas são famosos (OK, o mais famoso de todos, Ashton Kutcher, tornou-se entretanto o marido de Demi Moore).
Qual o segredo do sucesso da série? Tudo se resume na conclusão de que o relacionamento entre pais e filhos hoje em dia tem muito a ver com o que já era na década de 70 (daí o título em português, Que Loucura de Família, por contraponto ao original That '70s Show). A série mostra-nos é esse relacionamento de uma forma aberta e descomplexada, explorando temas que eram então (e ainda hoje são) tabu, ou pelo menos invulgares numa sit-com, como a gravidez adolescente e o sexo desprotegido. Atenção: a série não tem nada a ver com o Beverly Hills 90210. Não se pretende dar lições de moral nenhumas. Não garanto mas julgo que pela primeira vez na história da televisão os jovens protagonistas são apresentados a consumirem drogas leves como sendo a coisa mais natural do mundo. Não é feita a apologia do consumo de drogas leves, note-se; mas também não há nenhum tipo de moralismo. As situações limitam-se a ser apresentadas como elas são. E como já eram nos anos 70.
O grande sucesso da série, a meu ver, deve-se a mostrar os anos 70 aos olhos do século XXI, como nunca tinham sido mostrado antes. Não sei se era este desde o princípio o plano da série; sei que funcionou e os autores do conceito estão de parabéns. Parece paradoxal mas é verdade: esta é uma série sobre os anos 70 mas que só poderia ter sido feita a partir da década de 90. E é vê-los, todos "pedrados", à volta de uma mesa a rirem-se. Depois do All in the Family e da histórica Maude (a primeira personagem de uma série de TV a fazer um aborto), que mais nos irão estes primários e reaccionários americanos trazer?
A série dá nas madrugadas dos dias de semana na TVI. Tradicionalmente desde o Seinfeld o horário das melhores comédias.

3 comentários:

Ana Cláudia Vicente disse...

Filipe,
partilho do teu entusiasmo pela série (cujas temporadas passam intermitentemente há já vários anos na TVI), mas discordo totalmente da exposição e interpretação que dela fazes.
Primeiro, porque a comicidade que lhe é inerente decorre do verdadeiro abismo da vida dos adolescentes norte-americanos de então e de hoje,e não com uma continuidade.
A maioria dos episódios que vi fazem-se de muita gargalhada à custa do reaccionarismo e autoritarismo do "Red" em relação ao "Eric"(o oposto de uma relação "aberta e descomplexada", com castigos, trabalhos forçados, etc, ainda que o equilíbrio de forças se comece a alterar no fim do liceu); do contraste entre os "Foreman" e os vizinhos "malucos e hippies", da forma como a "Kitty" lida com o seu papel de mãe-modelo-de-todos-os-adolescentes-desgarrados; das expectativas sociais iniciais(casar e ter filhos) do par romântico Eric+Donna, entre outras. As próprias vivências de risco da malta da cave são de uma ingenuidade confrangedora em comparação com as actuais! Acho que é essa inocência (no Beverly Hills 90210 a malta dava na coca, matava, violava, roubava), revista (aqui concordo contigo) a partir dos anos noventa, que agradou nos USA a novos e velhos, tanto que gerou um concurso na MTV para ver quem consegue falar e agir mais à "70's".
Digamos que essa cena do "todos pedrados, à volta de uma mesa a rirem-se" não resume nada, a meu ver, o tom do "That 70's Show".

Cumprimentos blogueiros,
ACV.

Emiéle disse...

Pois o problema é o parvo do horário. Por vezes chego a imaginar se quem faz a programação tem interesses nas fábricas de gravadores de vídeo...
Por outro lado, tenho uma tal alergia à TVI que só vou lá pontualmente ver um programa, e fujo logo que ele acaba. Ainda bem que o anunciaste, que nem daria por isso.

Filipe Moura disse...

Obrigado pelos comentários. Ana, de facto é empobrecedor reduzir o That '70s Show a essa cena do "todos pedrados" (num episódio), mas se eu tivesse que resumir a série era com as conversas deles à volta da mesa na cave (em todos os episódios). Obrigado mais uma vez.