2006/03/02

Ser-se de direita

Já era de esquerda antes de alguma vez ter ouvido sequer falar a sério em Marx ou em comunismo (na escola, na disciplina de História). Enquanto o Bloco de Leste se desfazia, a URSS agonizava e o Muro de Berlim estava prestes a cair. Entretanto eu estudava a organização interna do PCUS, o modelo leninista, Estaline e Krutchov, e a perestroika de Gorbatchov era referida no meu livro de História como uma "tentativa de abertura em relação à sociedade". O mundo organizava-se em dois blocos, que eram tratados da mesma forma pela generalidade da comunicação social (ambos sujeitos a críticas).
Não precisei de ler Marx para nessa altura formar o essencial da minha consciência política. Sendo filho de trabalhadores por conta de outrem, já achava na altura que os trabalhadores deveriam saber dirigir os meios de produção, e não uma elite improdutiva. E sempre me escandalizou como os comerciantes poderiam decidir vender os bens de consumo aos preços que bem lhes apetecesse, sem controlo. O preço destes bens deveria ser fixado pelo governo, e deveria ser tal que os tornasse acessíveis a todos os trabalhadores, de modo a que tods pudessem viver com dignidade. Da mesma forma, o governo deveria combater o desemprego com todos os meios possíveis, adaptando a carga horária laboral de modo a haver trabalho e pão para todos.
Era este o meu pensamento político quando tinha treze, quinze, dezoito anos (e no essencial, no ideal, é-o ainda hoje). Nunca li Marx ou qualquer outro dos seus seguidores para o formar, não acho que ele resulte da minha educação na escola pública (independente e não tendenciosa) ou privada (andei num externato católico até aos dez anos). Pode ter resultado de ter lido o romance Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, na disciplina de Português no oitavo ano (admito que o livro me marcou bastante). Mas no essencial estas minhas ideias resultam, tanto no meu caso como na maior parte das pessoas, da experiência de vida e do senso comum.
Também da minha experiência de vida, aliada a estas minhas convicções, resultou que a direita era "o mal". Uma paixão arrebatadora por uma miúda do PCP aos catorze anos (que será feito dela?) ajudou e muito, bem como o facto de todos os meus amigos e amigas da escola e dos dois primeiros anos da faculdade serem naturalmente de esquerda. Digo "naturalmente" porque não os "escolhia" devido ao seu posicionamento ideológico; eram mesmo naturalmente meus amigos. Mas há que acrescentar que era de Lisboa, estudei numa escola "de esquerda" (D. Pedro V - foi classificada assim num suplemento de O Independente), cuja Associação de Estudantes liderou a contestação nacional à PGA (luta em que eu também participei, o que constituiu a minha estreia no combate político). Depois, fui aluno da LEFT, e os alunos de direita da LEFT contavam-se pelos dedos de um pé.
Ser-se de direita era assim para mim, na minha adolescência, o pior de todos os defeitos que uma pessoa poderia ter.
É claro que as pessoas mais velhas (de direita e não só) dizem que nestas idades "ainda não se sabe o que é a vida", e têm toda a razão. Não que eu agora saiba o que é "a vida", mas pelo menos já vivi muito mais do que o estudante que vivia à custa dos pais, sem ter de se preocupar com nada. E é ao viver à sua custa que um tipo se apercebe de como pode uma pessoa não ser de esquerda, particularmente um trabalhador. Esta é uma realidade que eu na altura achava completamente inaceitável, que não entrava na minha cabeça. Ainda hoje custa-me a aceitar, mas creio que já compreendo melhor. Simplesmente, o comunismo por si só não foi feito para maximizar a riqueza, e muitas pessoas se calhar preferem mesmo ser exploradas, desde que no resultado final acabem por ganhar mais do que se não o fossem. Eu mesmo tenho de reconhecer que na maior parte das vezes economias baseadas no mercado livre e na concorrência geram trabalhadores mais motivados e maior prosperidade que as economias puramente estatizadas. Finalmente, muitas vezes as pessoas preferem ser simplesmente alienadas. Não querem saber. É essa a opção delas; são mais felizes assim.
Acresce a esta minha "maior experiência" uma outra forma de encarar os Estados Unidos da América. Depois do colapso da URSS os EUA, a superpotência restante, vencedora da guerra fria, eram para mim aquilo que para um dos seus presidentes (Ronald Reagan) era a URSS: o Império do Mal, o grande adversário. Durante a licenciatura fui-me habituando a estudar por livros que, em grande parte dos casos, tinham de ser norte-americanos. Aprendi assuntos que tinham sido descobertos por norte-americanos. Finalmente acabei mesmo por ir estudar para os EUA. Lá vivi uma boa parte (mais do que boa, feliz) da minha ainda relativamente curta vida. Lá conheci pessoas excelentes, das mais diversas proveniências e nacionalidades. Conheci mesmo americanos - bem diferentes do estereótipo usual. E lá estava quando se deram os atentados de 11 de Setembro de 2001, que vieram confirmar, se necessário fosse, que a maldade no mundo está longe de ser em exclusivo da responsabilidade dos EUA. Mais: veio demonstrar que nem todas as maldades são igualmente más, e que a maldade americana nem é a pior e, em certas circunstâncias em que só se pode optar entre maldades, é a maldade preferível.
Por todos estes motivos acabei por mudar a minha opinião relativamente ao "ser-se de direita". Não me tornei de direita, e nem creio que alguma vez isso venha a ser possível. Mas cheguei à conclusão de que, ao contrário do que eu pensava na inocência dos meus catorze anos, ser-se de direita não é o pior de todos os defeitos. Ser-se de direita, afinal, é algo que se tolera: é simplesmente mais um defeito como tantos outros.

13 comentários:

musalia disse...

absolutamente de acordo! :)
beijos e continua o blog, s.f.f.

Ricardo Alves disse...

Parabén pelo blogue.

MP-S disse...

Viva!

Pedro Correia disse...

Parabéns pelo blogue. Votos de bom sucesso na blogosfera.

Ana disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Ana disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Ana disse...

Olá Filipe.
(assino aqui Ana mas não ligues ao link que aparece. É que o parvo do blogger não aceita o Emiéle
http://populo.weblog.com.pt/
que era o que eu queria; lá acha que já tenho um e chega...)
Bom texto de "apresentação". E tens razão, são adversários, mas não O MAL. É que olhando por aí tropeçamos em fundamentalismos de várias cores tão complicados que aí sentimos que não há coabitação possível. Quanto ao resto também nasci e cresci “de esquerda”, os meus valores são esses sem a menor dúvida, mas conheço boa gente de direita. E podemos ter até pontos em comum, apesar de para amigo exigir muito, e não imaginar um sentimento de grande amizade por alguém que defenda os valores de direita.
PS – Vou linkar-te ao meu blog, OK?

Filipe Moura disse...

Obrigado a todos.
Emiéle, se eu fosse a ti criava uma nova conta em teu nome e no sítio do blogue inseria o pópulo.
Quando eu estava no BdE já tinha uma conta no blogger para comentar no blogspot, e no blogue punha o link do BdE, que aparecia bem.

Ana disse...

Obrigada, Filipe mas não dá.
é que o nick Emiéle ( com ou sem acento) não é aceite. Aparece a frase: «Sorry, this username is not available»
Ora para inventar outro nick também não me vale a pena...
Vai continuar o Ana, e nos comentários assino no fim o Emiéle. Também dá!
Emiéle

PPM disse...

Pior defeito do que ser de direita só mesmo ser de esquerda. Ou será o avesso?

Força neste blogue e um abraço.

Leonardo

Pedro Sá disse...

Como se os proprietários não fossem também trabalhadores...

Max Spencer-Dohner disse...

"Ser-se de direita, afinal, é algo que se tolera: é simplesmente mais um defeito como tantos outros"

ehehe. Muito bem visto. :)

nana disse...

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