2006/04/19

500 anos do Massacre de Lisboa

Passam-se hoje 500 anos sobre o início de um dos episódios mais negros e sangrentos da História de Portugal, o Massacre de Lisboa, onde cerca de 4000 judeus foram assassinados pelo povo em fúria (instigado por frades), por um cristão-novo ter desvendado um suposto "milagre" de um altar iluminado simplesmente através de um reflexo.
Há uma iniciativa agendada para hoje, no Rossio: acender velas em memória dos mortos de há quinhentos anos. Eu não vou, e não iria mesmo se estivesse em Portugal, uma vez que este não é infelizmente o único massacre na História de Portugal. Houve muitos outros massacres e torturas: a indígenas, a negros, a escravos... Não estão tão bem localizados no tempo, e atrevo-me a dizer que não contribuiram tanto para a decadência do país como o de há quinhentos anos (e tudo o que se lhe seguiu - no que as perseguições aos judeus se traduziram em perdas para o país de cérebros e poderio económico). Mas não foram menos terríveis. As minhas indignações não são selectivas: se fosse à concentração de hoje no Rossio, também teria de ir a uma pelos indígenas, outra pelos negros, pelos escravos... Já agora, e saindo da História de Portugal para acontecimentos mais actuais, também teria de ir a uma concentração pelas vítimas no conflito do Médio Oriente. Espero que quem estiver hoje no Rossio também viesse a esta hipotética concentração e acendesse uma vela por todas as vítimas deste conflito.
Respeito muito a ideia do Nuno Guerreiro - o promotor da iniciativa - embora deva fazer-lhe notar que recordar o Terramoto de 1755 não é bem a mesma coisa que acender velas pelas vítimas do massacre de Lisboa. Há uns meses ninguém acendeu velas ou tão-pouco depositou flores nos túmulos dos mortos do terramoto, certo, Nuno? O que se fez foi simplesmente recordar o triste evento e a sua importância na nossa História. E é isso mesmo que eu defendo que se faça com o massacre de Lisboa e com todos os outros massacres que referi - que se recordem, que não se esqueçam, sobretudo que se ensinem nas aulas de História nas escolas (e que não se ensinem somente as nossas "glórias"). É por isso que dou a minha modesta contribuição trazendo este importante assunto a este modesto blogue. Não tenho mesmo nada contra que se acendam as tais velas ou quem as acenda. A iniciativa do Nuno é boa, eu compreendo-a perfeitamente e no lugar dele provavelmente aderiria à tal concentração e acenderia velas. Compreendo as razões dele. Mas eu não estou na situação do Nuno. Espero que ele compreenda as minhas razões.

Para ler mais: Eu sou o pequeno judeu, pelo meu velho camarada Rui.

4 comentários:

Cãocompulgas disse...

Completamente de acordo. Já o tinha dito também no meu blog:para me fazer sentido este acto, a vela será por todos os mártires de todas as opressões. Se há algo a celebrar, a memória das vítimas, então que essa memória se mantenha viva para nos lembrar que qualquer massacre, mesmo que de um só indivíduo, é crime tão hediondo como o de 1506.

Peregrino a Meca disse...

Independentemente de querer ou não participar, pelas razões mais variadas que sejam, não me parece que essa especifica seja legitima. Isso equivale a dizer que não manifesto pelo holocausto porque houve outros masacres, mas também não manifesto pelo povo de Timor pois ha outros que também sofrem, que não ajudo uma organização de apoio as vitimas da fome porque ha quem morra de paludismo ou mesmo não dou uma esmola a um pobre porque existem outros mil.
A liberdade de participar ou não em tal evento esta ai, com ou sem solidariedade para quem participa. So uma questão de justificação...

Ana Miranda disse...

Confesso que já previa a confusão que o apelo do Nuno Guerreiro haveria de desencadear. O que não me deixa menos triste com a onda de xenofobia e anti-semitismo blogosférico, sempre à espera de uma oportunidade para emergir. Penso que é importante lembrar essa chacina, que é um dos momentos negros da nossa história - assim como lembrar outros momentos negros, que houve em abundância. É um sinal de civilização e de maturidade de um povo, de qualquer povo.

Filipe Moura disse...

E aqui temos de seguida dois comentadores que muito me honra ter.
Já era para escrever sobre isso - provavelmente teria mudado de ideias e passado por lá, a partir do momento que foram o Rui Tavares, o Mário de Carvalho e não somente a Esther Mucznik e todo o lóbi pró-israelita (que é poderoso, especialmente na blogosfera).
Ana, eu digo isso mesmo - é indispensável não esquecer os momentos negros da história. Por isso eu disse que compreendia a ideia. O que não gostei foi de todo o aspecto f~unebre dado a ela...
Peregrino, concordo contigo só até certo ponto. O "existirem outros mil pobres " é de facto um bom motivo para não dar esmola. Eu não sou muito de caridades... Claro que Timor tem directamente a ver connosco, e este caso do massacre também.
Desculpem-me a presunção, mas presumo mesmo que vocês criaram perfis só para comentar aqui, não foi? Se isto for verdade, sinto-me muito honrado. Muito obrigado. Se não for, muito obrigado na mesma por comentarem (estendido também ao cãocompulgas). É um prazer ter-vos aqui. Abraços.