2006/11/15

A ciência de qualidade é “inconstitucional”?

Refiro-me a um lamentável artigo de António Fidalgo publicado no último domingo no “Diário de Notícias”. Sobre este assunto há alguns pequenos esclarecimentos a fazer.
Talvez não seja tanto assim com ciências sociais, mas em ciências naturais há uma grande diferença entre a divulgação científica e o fazer ciência a sério. A primeira deve ser, em Portugal, feita em português sempre que possível. A segunda, pelo contrário, presentemente só pode ser feita em inglês. Há uma questão essencial, que eu já aqui foquei várias vezes: a ciência de qualidade não tem (não pode ter) nacionalidade. Deve interessar (e, por isso, poder ser entendida) por qualquer especialista em qualquer lugar do mundo. Por isso inevitavelmente a ciência de qualidade tem de ser comunicada, entendida e avaliada (todas as três) numa “língua franca”, que hoje em dia só pode ser o inglês. Na eventualidade de mais ninguém no mundo entender a ciência do Prof. António Fidalgo que não uns lusófonos (ou espanhóis), só posso lamentá-lo. Mas o Prof. António Fidalgo tem de entender que é ele que tem de se adaptar aos padrões da ciência de qualidade (uma actividade global no sentido mais completo do termo), e não o contrário. A sua proposta é ainda mais anacrónica no contexto de Bolonha. Presentemente as melhores universidades europeias (incluindo supostamente “chauvinistas” universidades francesas) organizam-se para fornecerem formação avançada em parcerias. Obviamente em inglês.
O artigo chega ao ponto de utilizar argumentos que seriam inacreditáveis se não estivessem escritos e pudessem ser lidos, como de “constitucionalidade”. Cito ainda esta passagem:
“os falantes nativos têm acesso ao substrato de uma língua de uma forma que não têm os que a falam como segunda língua. O inglês enquanto língua franca não é o inglês das literaturas inglesa e americana, antes um inglês de superfície, onde as palavras e as expressões são despidas da sua profundidade histórica, do seu sentido múltiplo. É um inglês à Forrest Gump, de uma dimensão simplista e por vezes idiota. A síndrome de Asperger, de que essa conhecida personagem fílmica sofre, encontra o seu espelho na forma como o inglês é falado pela grande maioria dos que o falam como segunda língua: repetem os mesmos termos e expressões, ignoram segundos, terceiros e ulteriores sentidos, adquirem tiques estranhos, e é-lhes inacessível o humor e a ironia.”

Num artigo científico não há “humor” ou “ironia”. Há comunicação científica objectiva e rigorosa, que pode ser feita mesmo por quem nunca tenha lido Shakespeare e só tenha da língua conhecimentos técnicos (uma noção que pelos vistos escapa ao Prof. Fidalgo). Quem frequentemente parece o “Forrest Gump” a falar inglês nas conferências são cientistas de países onde certas concepções do Prof. Fidalgo prevalecem, nomeadamente havendo dobragens e não legendagem de filmes e séries na televisão, como a Itália ou a Espanha.
Esta posição de António Fidalgo pelos vistos não é de agora. Recomendo a leitura de uma resposta de António Granado a uma outra tomada de posição deste autor.

6 comentários:

Santiago disse...

Bom post!

Tenho sempre grande curiosidade em saber qual é que é o verdadeiro problema que estas pessoas têm...

Será medo que o português desapareça como língua? É por causa disso que o cronista fez aquela (despropositada) referência ao latim? É inveja do estatuto que o inglês ganhou na comunicação científica mundial?

Gostava muito que um dia este pessoal nos dissesse qual é que é exactamente o problema que os aflige, em vez de se porem com este foguetório todo da língua portuguesa, e da quantidade de gente que a fala, e do orgulho que devem ter no seu uso, e até o NYT falou dela, e mais o diabo a quatro.

Se calhar o problema é o que vem explicado naquela reveladora frase: "ignoram segundos, terceiros e ulteriores sentidos, adquirem tiques estranhos, e é-lhes inacessível o humor e a ironia."

Do problema do humor e da ironia não quero falar e nem sequer me vou ofender com a acusação de ter "tiques estranhos" ou de "ignorar segundo terceiros e ulteriores" motivos. Quero só chamar a atenção destes Cientistas Sociais e Humanos para o facto de os CSH gregos publicarem incomparavelmente mais que os portugueses (gastando muito menos dinheiro público no processo) e não se queixarem de o fazer em inglês. Uma língua que é muito mais difícil para eles de aprender do que para nós...
O equivalente grego do Prof. Fidalgo (chamado provavelmente Ψιδαλξο) deve estar a esta hora a queixar-se amargamente do alfabeto que os seus colegas usam para publicar artigos...

Filipe Moura disse...

Muito bem visto, Santiago. Obrigado.

Comparar-se com os outros - que atitude tão estranha à elite portuguesa!

Luís Aguiar-Conraria disse...

"Talvez não seja tanto assim com ciências sociais, mas em ciências naturais há uma grande diferença entre a divulgação científica e o fazer ciência a sério."

Qual a fundamentação deste "talvez" com que iniciaste a frase? Pensas que os sociólogos dos EUA, ou os Economistas na China ou os antropólogos na Austrália percebem português?
Uma coisa é dizer que dependendo do ramo científico, pode haver uma língua franca que é diferente, outra coisa, perfeitamente absurda, na minha opinião, é colocar a hipótese de determinados ramos dispensarem o uso da língua franca.

Filipe Moura disse...

Luís, essa é uma questão completamente marginal, mas percebo que em certas áreas muito específicas (da História e da Geografia Humana, por exemplo) possa haver investigação que só tenha interesse num contexto português, e nem por isso deixe de ser válida.
Repito: são casos muito específicos e, por isso, excepcionais. (E descansa que não têm a ver com a Economia.) Em geral defendo o que está no texto.

Luís Aguiar-Conraria disse...

Se há algo que apenas tem interesse no contexto português, e penso que agora percebo melhor o teu ponto, então dificilmente poderá ser considerada Ciência. Na melhor das hipóteses será uma mera aplicação. Mas percebo o teu ponto e penso que estamos de acordo. Também eu fiquei chocado quando li o artigo.

Luis disse...

O que as pessoas deviam era aderir a uma certa objectividade. Objectividade cá em Portugal? Está quieto.