2006/05/18

Sem sair de Paris, rive gauche

Concordo com o Santiago (aqui e aqui) que faz sentido uma distinção entre áreas fundamentais e áreas aplicadas da ciência. Se a tecnologia é ou não ciência é pura semântica. Mas não é por acaso que nos governos da direita os ministros com a pasta da ciência eram engenheiros (um agrónomo e uma mecânica), e no actual e nos anteriores governos do PS o ministro da ciência é um físico "puro" (e não "aplicado").
Há áreas do conhecimento - e a área em que eu trabalho é uma - que não são, nunca serão, não podem ser autosuficientes financeiramente. Que requerem financiamento exterior, que ou virá de filantropos excêntricos - o melhor exemplo que eu conheço é o de Jim Simons - ou virá da sociedade. Dos nossos impostos. Não há volta a dar-lhe. Os governos da direita, e muitos dos liberais que escrevem na blogosfera, tenderão a desvalorizar a investigação fundamental, por não "criar dinheiro". Não podemos cair no erro de fazer o oposto, e considerar que, lá por outras áreas do conhecimento poderem gerar dinheiro por terem uma aplicação mais imediata, são menos importantes. Se são ou não "ciência", acho que tem que se arranjar outro critério que não simplesmente o modo como são financiadas... Eu confesso que me faz um pouco de impressão ver a invenção do transístor premiada com um prémio Nobel, mas já toda a área dos semicondutores requer a sua teoria, uma física nova, onde se descobriram comportamentos que não se conheciam antes. Toda a física da matéria condensada é uma história de avanço de braço dado da ciência pura e da tecnologia. Mas mesmo a física das interacções mais fundamentais, como a que se estuda no CERN, requer a tecnologia mais avançada. A participação de cientistas portugueses nas experiências do CERN, por vezes tão criticada por "cientistas" mais "aplicados" (aqui uso mesmo as aspas), requer um investimento por parte do governo, mas constitui uma oportunidade para muitas empresas portuguesas de tecnologia de ponta, que têm acesso a contratos que, se Portugal não fosse membro de pleno direito do CERN, não teriam.
Concluindo: em vez de se perder mais tempo dentro das ciências naturais (fundamentais ou aplicadas) a discutir o que é ou não "ciência", sugiro que se passe antes a discutir por que razão as humanidades são financiadas pelas mesmas entidades que a ciência, quando têm objectivos e critérios de avaliação totalmente diferentes. Creio que as humanidades deveriam ter um orçamento próprio, dependente do Ministério do Ensino Superior, claro, mas fora do da ciência. Este ponto, sim, creio que vale a pena discutir.

4 comentários:

MP-S disse...

Acho que tens razao. So' acrescento que, de certo modo, a distincao entre ciencia pura e aplicada e', em muitos casos, artificial. Pelo menos, no sentido de que existem (e existiram) muitas pessoas que deram contribuicoes para os dois "ramos". Mas, em geral, tenho a impressao de que a ciencia - mesmo a aplicada - nao e' uma actividade especialmente lucrativa. So what? O dinheiro nao e' , nem deve ser, a unica medida das actividades humanas e sociais.

Filipe Moura disse...

Obrigado, pa. Tu andas por Heidelberg?

Santiago disse...

Caro Filipe:

A razão principal que me leva a entender que a "questão" não é meramente semântica, é achar que o uso indiscriminado da palavra "ciência" perpetua a confusão em prejuízo tanto das boas políticas de apoio à Ciência como das de apoio à Tecnologia. Essa confusão parece-me evidente no discurso do Primeiro Ministro, no do Ministro Pinho e até, às vezes, no do Ministro Gago.

Infelizmente continua toda a gente a dizer que devemos apoiar a Ciência porque queremos desenvolver-nos e a achar que o progresso tecnológico há-de resultar do investimento científico, justificando assim a necessidade do investimento em Ciência...


Acho que as prioridades no domínio tecnológico são bastante diferentes das que deviam ser adoptadas para a Ciência. Já que parece ser impossível acabar com a confusão entre C e T, se calhar o melhor era separá-las e dar a Tecnologia ao Ministério da Economia, por exemplo, que está em muito melhor posição que o do Ensino Superior para decidir onde é que vale a pena investir, quanto investir e que retorno esperar.

Para mim as "Ciências" Sociais ficariam bem melhor com a Cultura, e assim o E Superior ficava só com a Ciência, já que são os únicos que sabem o que fazer com ela (para retomar um antigo argumento do João Caraça). Isto não é dizer que fazem qualquer coisa com ela, mas pelo menos sabem o que fazer...


Agora deixa-me só fazer um pequenino aparte (que espero não venha a "raptar" todo este debate. É só uma daquelas provocações deliberadas a que eu tenho sempre dificuldade em resisitir...): Não estou nada seguro que se possa distinguir, como pareces insinuar, a Direita (=Tecnologia) da Esquerda (=Ciência). Excluindo os tempos do Marquês de Pombal, os dois grandes momentos da Ciência Portuguesa foram o Governo de Marcelo Caetano (quando se iniciaram as políticas públicas de apoio à Ciência) e o de Cavaco Silva (quando, pela primeira vez, se começou a investir a sério no desenvolvimento do Sistema Científico Nacional...).

Abraço e obrigado por concordarmos em (quase) tudo...

Filipe Moura disse...

Obrigado pelo comentário, Santiago. A longo prazo muito do que agora é ciência pura encontra aplicações tecnológicas, mesmo que não seja esse o nosso fito. Mas podemos usar esse argumento, se nos derem o dinheiro em contrapartida. Tu pareces mais interessado em dizer a verdade às pessoas. eu estou mais interessado em ter dinheiro...
Quanto aos teus "dois grandes momentos". Não ponho em causa o papel do Marcelo Caetano, e acredito que muito melhorou nessa altura (de facto piorar não podia). Quanto ao papel do Cavaco, sabes quem era o Presidente da JNICT? Pois. O actual ministro! Quando ele foi demitido (pelo Sucena Paiva) as coisas não melhoraram, pois não? De qualquer maneira deve-se ao governo do Guterres a primeira grande aposta na ciência. Não se sabe bem para quê ainda. É isso que o governo do Sócrates vai ter que dizer.
Abraço e obrigado mais uma vez.