2006/05/22

Às Ordens

A recente (e lamentável) decisão unânime da Assembleia da República de só autorizar licenciados em arquitectura a assinar projectos é uma lamentável cedência à pressão corporativista da Ordem dos Arquitectos, surpreendentemente aplaudida por um dos arautos do liberalismo (no que foi logo - e muito bem - contradito).
Esta discussão sobre as Ordens profissionais interessa-me e tem muito mais a ver com a discussão anterior com o Santiago do que se possa julgar. As Ordens profissionais fazem sentido para atestar competência científica em profissões que requeiram o seu emprego de uma forma que diga respeito à sociedade e ao cidadão. Faz sentido uma Ordem dos Médicos? Sim, queremos ter confiança em quem nos atende nos hospitais. Faz sentido uma ordem dos advogados? Sim - é preciso quem nos garanta que o advogado a quem recorremos, apesar de ter um bom diploma por uma boa universidade, não é um vigarista. Faz sentido uma ordem dos engenheiros? É possível que sim, mas é mais discutível. Não queremos pontes que caiam nem instalações que não funcionem. Faz sentido uma Ordem dos Biólogos? Creio que não. Há outras formas mais fiáveis de se avaliar a competência de um biólogo, como o peer-review. E um bom biólogo deve sempre publicar, mesmo que trabalhe em projectos para a sociedade. Faz algum sentido que membros de uma "Ordem" que não produzem investigação nenhuma estejam a avaliar cientistas activos? Creio que não. Uma Ordem dos biólogos faz tanto sentido como uma ordem dos matemáticos ou dos físicos - ainda bem que ninguém se lembrou de tal ideia. Uma Ordem dos economistas, faz algum sentido? Pelos mesmos motivos, tanto quanto uma Ordem dos historiadores - nenhum. Uma ordem dos professores? Muito discutível. Embora o mérito pedagógico seja indispensável, tal ordem tenderia a proteger ainda mais os licenciados "via ensino", que já são escandalosamente protegidos nos concursos.
Apesar de tudo estas profissões que vim a enumerar requerem sem dúvida competência e aptidões científicas (chamemos-lhes assim), mesmo que não sejam profissões "científicas". Disso ninguém duvida. Agora, que aptidões científicas são necessárias para a profissão de arquitecto? Existirão, mas muito menos do que para as profissões anteriores. E podem sempre ser julgados... pelo engenheiro civil responsável, a quem deve sempre caber a última palavra sobre uma obra. No fundo uma Ordem dos arquitectos faz tanto sentido como uma Ordem dos poetas ou dos realizadores de cinema ou dos jogadores de futebol. São áreas que de científicas não têm nada; requerem sobretudo talento, algo que não se aprende (ao contrário das verdadeiras ciências, que se para serem exercidas também requerem talento, para serem aprendidas basta esforço). O esforço não basta para fazer um bom arquitecto, e para julgar o seu talento temos a sociedade. Não me parece que seja precisa uma Ordem. Mas essa Ordem existe e tem poder, como se vê.
Não quero acabar sem comentar que, nas recorrentes discussões sobre o eduquês que se vêm na blogosfera, estas diferenças não são tidas em conta. Parece-me haver no eduquês uma confusão entre o talento e o esforço, que resulta sempre no prejuízo deste último.

6 comentários:

Peregrino a Meca disse...
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Peregrino a Meca disse...

Se bem que concorde contigo em alguns pontos, não me parece que o objectivo de uma ordem seja so’ esse (o de certificar a competencia dos seus membros).

A noçao de Ordem vem de... ordem :) Isso quer dizer estructurar e organizar o acesso e o funcionamento de um corpo profissional. Por essa razão, as ordens so’ estão presentes, e para mim so têm sentido, no caso das profissões liberais. Nessas em que as outras possibilidades de estructuração são bem mais reducidas (por factores varios).

Mas so’ isto, é claro, é esquecer uma das principais funções de uma Ordem; a de proteger e defender os interesses dos seus associados. Um "sindicato"! Tão simplesmente. E nessa função é mais compreensivel (se bem que repreensivel) a acção da ordem dos arquitectos.
IMHO claro.

Hugo Mendes disse...

Filipe, partilho das tuas inquietudes quanto às ordens - vem ai uma "Ordem dos sociologos" e isso ja me esta a dar a volta ao estômago, mas leio o post e nao percebo bem. Primeiro a cientificidade ou pericialidade do metier nao interessa, motivo pelo qual fisicos e matematicos nao têm ordem; mas depois criticas a "raison d'être" da Ordem dos Arquitectos precisamente porque nao ser uma profissao suficientemente "cientifica". Estava interessado tambem em que elaborasses esse pequeno comentario final sobre a forma como isto pode ser ligado à discussao sobre o 'eduques'.

Como disse o comentador anterior, as Ordens exercem uma acçao identica aos sindicatos. Isso tem coisas boas e tem coisas mas. Ha sectores em que obviamente a regulaçao é necessaria, mas depois entramos numa espiral absurda, em que a actividade X quer ter uma ordem porque a actividade Y, ao lado, tambem arranjou uma. E precisamente isto que se passa na sociologia, emparedada entre a Ordem dos Psicologos (nao sei se ja formalmente constituida) e a provavel Ordem dos Assistentes Sociais. Esta espiral é interminavel e é responsabilidade do governo por "ordem" nisto tudo, porque senao entramos numa corrida estupida aos corporativismos. Mas claro que isto nao acontece, dado que ao governo lhe interessa que as profissoes se ordenem a elas proprias, e quanto menos chatices houver, melhor. "Ordenem-se" é a implicita mensagem governamental - e o PS é o que mais legitima estas coisas, basta ver com que governos é que as ordens aparecem como cogumelos.

Eu prefiro as associaçoes às Ordens, sobretudo porque ha associaçoes que podem perfeitamente cumprir a funçao de acreditaçao profissional que é suposto a Ordem fazer, de forma a proteger o consumidor/cliente contra a fraude, e enviando-lhe 'sinais' (o equivalente ao 'preço' num mercado) sobre a qualidade do profissional X ou Y.
Agora, nas areas cientificas, ha o risco de que a Ordem sufoque a investigaçao e, pelo menos na minha area, nao consigo perceber onde o pluralismo teorico e metodologico possa ser 'ordenado' sem ser com recurso sistematico a argumentos de autoridade. Mas a vendo bem, isso ja acontece amiude...Um abraço

Filipe Moura disse...

Peregrino, uma Ordem não é a mesma coisa que um sindicato. Tem outras pretensões... Nota que há sindicatos de médicos (OK, os que trabalham para o estado), para além da Ordem dos Médicos. Podes falar de um "sindicato de profissionais liberais".
A questão é mesmo quando é que há necessidade de haver a tal ordem "para pôr ordem". Hugo, vou sumarizar. Só faz sentido em profissões que requeiram uma forte preparação científica e/ou técnica, e em que para além disso haja uma componente ética muito forte presente no seu exercício. Ética essa que justifique a presença da tal "ordem". Médicos e advogados são dois bons exemplos. Mas a generalidade das ordens são exemplos de corporativismo.
Abraços e obrigado pelos vossos comentários.

Zèd disse...

Concordo com o Filipe e dou mais uma achega. As ordens servem para regular actividades muito específicas que, para além da componente ética de que fala o Filipe, só podem ser exercidadas por uma classe profissional particular. Mais uma vez o exemplo da Medicina e do Direito, só podem ser exercidos por Médicos e Advogados. Já não é o caso para os Biólogos (talvez seja para os arquitectos), muito, ou talvez mesmo tudo o que um biólogo faz pode ser feito por médicos, farmacêuticos, engenheiros do ambiente, agrónomos, bioquímicos e por aí a fora. A Ordem dos biólogos surgiu (na altura do Guterrismo) motivada por puro corporativismo, para tentar demarcar o "quintalinho" (mais um). Isso revela para já uma enorme incoerência, porque antes de existir a Ordem passavam o tempo a queixar-se do corporativismo dos outros. E é pernicioso, porque em muitas actividades, nomeadamente, a investigação mas não só, é preferível a bem do resultado final haver equipas multidisciplinares, com biólogos a trabalhar com médicos, bioquímicos, etc... Haver uma Ordem é o primeiro passo para limitar essa diversidade, ainda não é notório mas há uma pressão para que determinadas actividades passem a ser exclusivas do grupo profissional que tem uma Ordem.
Disclaimer: eu considero-me biólogo, mas provavelmente a Ordem não, para eles sou apenas doutorado em biologia, não biólogo. Para se ser biólogo é preciso estar inscrito na Ordem e pagar quotas.

Nuno Resende disse...

Caro bloguista
Não vou à bola com o carácter autoritário e corporativista das Ordens, mas quanto à sua necessidade, considero-as absolutamente indispensáveis. E, sobretudo, no caso da História. Escreve-se mal História em Portugal e, sobretudo, escreve-se má História Local. E já reparou quem a escreve? Todos menos os historiadores. É padres, médicos, quase iletrados, etc, etc. Não menosprezando estas pessoas, convenhamos que o seu, a seu dono. Quem irá pagar esta balbúrdia são os jivens estudantes que pegam numa monografia local e só encontram...disparates!
Isto poderia ser corrigido se houvesse um organismo a conferir alguma qualidade a este tipo de obras. Penso que tal poderia passar por uma Ordem.
Abraço
Nuno Resende