2007/05/24

Pierre-Gilles de Gennes (1932-2007)



O cientista francês, galardoado com o Prémio Nobel de Física de 1991 pelo seu trabalho em polímeros e cristais líquidos (como os que temos nos visores dos relógios e telemóveis, por exemplo) faleceu na semana passada em Orsay, ao sul de Paris, onde vivia.
Só vi de Gennes uma vez, em Lisboa, por ocasião de um seminário para que foi convidado. Era um homem polémico, que gostava de dar as suas opiniões, frequentemente contra a corrente. Era um feroz crítico da organização da ciência francesa. A meu ver poderia ter razão nas suas críticas pontuais, mas no geral parece-me que o sistema francês funciona bem. Muito melhor que em Portugal, Espanha ou Itália. A sua crítica era a comum: ao centralismo e à omnipresença do estado.
P-GdG esquece-se que sem financiamento público não há ciência fundamental que se faça: há muita ciência que não tem interesse comercial, e por isso só pode funcionar com o apoio do estado. Talvez por só se ter dedicado a Física Aplicada (que teve aplicações imediatas na indústria, onde revolucionou todo um sector), de Gennes sempre criticou este apoio. Discordo, mas não é por isso que deixo de reconhecer nele um grande cientista e um homem extremamente inspirador.
De Gennes adorava a exposição pública, ser polémico e não perdia uma oportunidade de dar uma entrevista. (Ficou célebre em Portugal a entrevista que deu ao "Diário de Notícias" em 2004, onde se deixou fotografar, em fato de banho, ao lado de uma piscina.) Recomendo vivamente a todos (cientistas e não só) a leitura desta entrevista que deu aquando dessa sua passagem por Lisboa. Deixo-vos com a nota de óbito da France Presse (via Libération).

Pierre-Gilles de Gennes est mort

Prix Nobel de Physique en 1991, Pierre-Gilles de Gennes est décédé vendredi à l'âge de 74 ans. C'est par une annonce dans le carnet du Monde que l'on a appris la mort de ce chercheur polyvalent, spécialiste de la physique de la matière condensée. Pierre-Gilles de Gennes a apporté des contributions marquantes dans des domaines variés, allant du magnétisme à l'hydrodynamique en passant par la supraconductivité, les polymères et les cristaux liquides.
Né le 24 octobre 1932 à Paris, fils d'un médecin et d'une infirmière, il fut élève de l'Ecole normale supérieure. Agrégé de physique et docteur ès sciences, il a d'abord été ingénieur au Commissariat à l'énergie atomique (CEA), en 1955, avant d'être professeur à la faculté des sciences à Orsay (de 1961 à 1971). En 1971, il est nommé professeur titulaire de la chaire de physique de la matière condensée au Collège de France. Son ouvrage «The Physics of Liquid Crystals», publié en 1974, reste une référence.

En 1991, il reçoit le Nobel de physique pour avoir découvert que des méthodes développées pour étudier des phénomènes d'ordre dans les systèmes simples peuvent être généralisées à des formes plus complexes de matière, en particulier aux cristaux liquides et polymères. Pour justifier cette distinction, l'Académie Nobel parle «d'Isaac Newton de notre temps». Cette année-là, Pierre-Gilles de Gennes est le seul à recevoir cette récompense suprême habituellement partagée par deux sinon trois chercheurs.

Pierre-Gilles de Gennes a toujours tenté de comprendre l'ordre et le désordre tels qu'ils se présentent dans la nature. Il avait à cœur de partager son savoir et son expérience avec les plus jeunes. Après avoir reçu le Prix Nobel, il réfléchit au rôle social du scientifique et à la façon d'enseigner les sciences. C'est à la suite de la suggestion d'un lycéen sur le plateau de l'émission télévisée Apostrophes que Pierre-Gilles de Gennes entame une tournée d'un an et demi dans cent-cinquante établissements où il rencontre des milliers d'étudiants. Il tire de ces conférences dans les collèges ou lycées un livre : «Les Objets fragiles».

Directeur de l'Ecole supérieure de physique et chimie industrielles de la Ville de Paris de 1976 à 2002, il avait plus récemment rejoint l'Institut Curie, abordant le domaine des systèmes du vivant et la compréhension des mécanismes cellulaires. Pierre-Gilles de Gennes était membre de l'Académie des Sciences et professeur honoraire au Collège de France.

Le Nobel de physique a même joué au cinéma, dans le film «Les Palmes de M. Schutz» réalisée par Claude Pinoteau en 1997. Dans ce film inspiré de la vie de ses célèbres prédécesseurs Pierre et Marie Curie, il interprétait l'un des deux cochers, l'autre étant Georges Charpak, prix Nobel de physique 1992.

Les implications de ses travaux dans la vie quotidienne sont omniprésentes: ils ont notamment conduit à la fabrication des écrans plats de téléviseurs ou d'ordinateurs, des calculettes, des montres..., tout en contribuant à la mise au point de «superglues», qui permettent aujourd'hui d'assembler des matériaux longtemps considérés "incollables".

L'inhumation aura lieu dans la plus stricte intimité, indique sans plus de détail l'annonce parue dans le carnet du Monde mardi.

8 comentários:

lfaguiar disse...

"P-GdG esquece-se que sem financiamento público não há ciência fundamental que se faça: há muita ciência que não tem interesse comercial, e por isso só pode funcionar com o apoio do estado."

Esta declaração é factualmente falsa. Há imensa ciência fundamental que é financiada recorrendo a recursos privados e sem apoio do Estado.
LA-C

Filipe Moura disse...

Tudo bem, pode acontecer que haja ciência fundamental que seja financiada por motivos comerciais ou não puramente científicos (estou a pensar no caso da bomba atómica, mas há outros exemplos). Mas há muita investigação importante que não tem nenhum fim comercial (não podendo por isso ser "aplicada"). Concordas, ou não?

JSA disse...

Penso que a questão da ciência fundamental esté precisamente no facto de não ser necessariamente "fundamental" para alguma coisa, mas antes a de ser dos fundamentos de alguma coisa. É disto que se fala, não?

Sendo assim lembro que, por um lado, temos o pólo de ciência criado pelo criador dos blackberries e para onde convidou cientistas das áreas das ciências fundamentais (Magueijo, salvo erro, está por lá). Por outra lado, a ciência fundamental financiada privadamente (o caso que referi é mais mecenato que outra coisa, e pontual) existe mais quando há expectativas que possa dar lucros futuros (por exemplo com um financiamento do estudo das interacções gravíticas com vista a um hipotético aparelho anti-gravidade). Alguma ciência absolutamente fundamental, sem objectivos óbvios, provavelmente não seria hoje feita sem recurso a financiamentos públicos. Dois casos que me ocorrem serão a paleontologia e a geologia (e até a astronomia) que, por não terem aplicação comercial óbvia, seriam muito menos financiados se o estado não tomasse essa responsabilidade.

Fora disso agradeço-te Filipe, por referires o de Gennes. É um nome tão frequentemente associado aos polímeros que é quase impossível falar de física de polímeros sem tropeçar em meia dúzia de trabalhos fundamentais que ele desenvolveu. Por vezes aborrece, mas há que aceitar a enorme contribuição tanto teórica como prática que ele trouxe ao campo (e da qual os LCP são apenas um exemplo).

joao disse...

"há muita ciência que não tem interesse comercial"

Eu diria "há muita ciência que não tem interesse comercial" IMEDIATO.

É mais ou menos impossível prever se uma descoberta científica tem ou não aplicação comercial no futuro. O Thompson, quando descobriu o tubo de raios catódicos, não estava propriamente a pensar em televisões...

jpt

JSA disse...

sim joao (jpt), é disso que estaremos todos a falar. outro caso é o efeito fotoeléctrico e tenho a certeza que não se estaria a pensar em elevadores quando o descreveram...

Filipe Moura disse...

Muito obrigado a ambos pelas clarificações à minha frase, que pode ser algo simplista (isto é um blogue, com a breca!) mas é verdade na maior parte dos casos.
E ainda estou à espera de uma resposta do LA-C: ele concorda ou não que há muita investigação importante que não tem nenhum fim comercial e tem de ser apoiada pelo Estado?

JSA, como vai isso entretanto? Quando é a tua defesa de tese?

João disse...

Ainda falta meu caro, ainda falta. Se as coisas me correrem como espero, lá para o início de 2008. Fevereiro ou Março, talvez. Mas ainda há muito para desbravar entretanto.

JSA disse...

esse último comentário saiu assinado "joão" por engano (ainda que seja o meu nome). jsa, como este, é que é o nome correcto para estas coisas da bloga.