2006/07/12

Zidane o maior

Tenho lido muitas críticas, inclusive um editorial por parte de um superior hierárquico meu no jornal onde neste momento estagio, à atribuição do título de melhor jogador do Mundial a Zinedine Zidane.
Vamos ver as coisas como elas são. Antes da lamentável agressão (qualquer que seja o seu fundamento) com que se despediu do torneio e do futebol, era mais ou menos pacífico que o melhor jogador até então tinha sido Zidane (que regressara aos seus melhores tempos). Se não tivesse visto aquele cartão vermelho a dez minutos do fim, nenhuma opinião teria mudado. Então por que haveria de mudar só por causa de um cartão vermelho, algo que também sucede aos melhores? Dito de outra forma: será o fair play assim tão determinante para um bom jogador de futebol, de forma a ser preponderante na atribuição de um prémio que deve premiar o talento?
E por favor não venham comparar com as simulações dos jogadores portugueses. As simulações dos jogadores portugueses são um comportamento desleal e que não é, em geral, punido durante o jogo. O comportamento do Zidane, embora reprovável, não é dissimulado – foi à vista de toda a gente, toda a gente viu, foi em frente à televisão, assim como a agressão do Sá Pinto ao Artur Jorge há nove anos, só para comparar com outro jogador que jogava à bola e que de fiteiro não tinha nada. O Zidane e o Sá Pinto erraram e foram punidos por isso. Agora no caso do Zidane por que raio é que um acto irreflectido (e pouco frequente nele, e que deixou toda a gente de boca aberta) haveria de se repercutir num prémio ao seu talento futebolístico?
Tal tipo de opinião parece-me muito português. Em Portugal dá-se um valor excessivo à simpatia. Não importa se o professor é muito competente, se o médico é muito competente: se não forem simpáticos, não prestam. Não importa se a comida no restaurante não tem grande qualidade, se é cara ou se o serviço é mau: se o empregado for simpático e sorridente, perdoamos tudo. Quarenta e tal anos de ditadura e séculos de subserviência deram nisto: somos o país das carinhas larocas. Nada disto me espanta. O que me espanta é que agora até parece que a FIFA está a ir na conversa. Por pressão mediática. Por correcção política. Por querer parecer bem.
Para mim, o Zidane foi o melhor jogador do torneio.

Imagem roubada ao Kontratempos.

7 comentários:

Nuno disse...

Não concordo, Filipe.
Para mim o Maniche também foi o melhor jogador contra o México e não ganhou o prémio por causa de uma falta mais dura que lhe valeu o amarelo.
O Zidane jogou mal os dois primeiros jogos, falhou o terceiro por causa dos amarelos e só começou a jogar bem na fase eliminatória. Mesmo assim, na Final teve um comportamento inadmissível e prejudicou a equipa (até porque não falha penalties). Ou seja, só esteve bem em pouco mais de metade do torneio e foi protagonista de uma das cenas mais lamentáveis. Um jogador que faz aquilo, ainda que não dissimulado, não merece qualquer prémio.
O Pirlo e o Canavarro viram muito menos cartões, não agrediram ninguém, jogaram bem em praticamente todos os jogos e ganharam!
O Zidane merece o prémio de melhor jogador da última década mas não este prémio em particular.
E, na minha opinião, foi a demência da imprensa inglesa (se estivesses cá percebias) que custou o prémio de melhor jovem ao Ronaldo (ainda que não o merecesse, concordo, pela deslealdade dos mergulhos).
É bom que os critérios sejam uniformes.

Filipe Moura disse...

Nuno, repara, a tua opinião é baseada em critérios técnicos e não estritamente morais. a maior parte dos críticos julgava que o Zidane deveria ganhar o prémio antes de ter visto o cartão; o que eu critico foi eles terem mudado de opinião só por ele ter visto o cartão e mais nada. Não é esse o teu caso. Embora não concorde totalmente com ela respeito a tua opinião.
(E também acho que o Ronaldo deveria ter ganho o troféu de melhor jogador. Mas ele há-de se vingar ganhando troféus em Ibnglaterra. é pena que não jogue no Chelsea. Gostava de o ver lá.)

Hugo Mendes disse...

Filipe, a disciplina é um criterio apenas "moral"? Se analiticamente a diferença entre o criterio "tecnico" e o "moral" faz o seu sentido, a avaliaçao do desempenho de um jogador deve ter em conta os dois. Se um jogador jogar muitissimo melhor que os outros mas andar a agredir os adversarios (falo no abstracto), nao acho que devamos olhar para a primeiro criterio e ignorar o segundo. Eu sou um fã do Zidane, mas - e independentemente da questao levantada pelo Nuno, com quem tendo a concordar, porque havia outros jogadores para distinguir para além do Zidane - eu nao acho que possamos fazer de conta que ele nao fez nada de bastante grave. A qualidade do jogador nao se mede apenas pela qualidade do toque de bola.

Zèd disse...

O Fair Play deve ser tido em conta para atribuição destes prémios, ainda assim o Zidane merece ser o melhor jogador do torneio. Daqui a uns anos do que nos vamos lembrar é das suas exibições contra a Espanha e Brasil, e sobretudo da maneira como marcou o penalti contra a Itália na final(!).

E já agora, o Zidane explicou-se há bocado nas televisões de cá sobre o que aconteceu, e mostrou mais uma vez a sua categoria. Assumiu o erro, sem desculpas, mas também sem arrpendimentos, assumiu simplesmente. Defendeu-se também dizendo que se aquele que reage é punido (o que não contesta) o que provoca também deve ser, e tem razão. Teve ainda a elegância de não repetir os insultos que ouviu. Tem categoria, até quando erra.

PAPA AMORAS disse...

O debate segue no blogue OS PÁSSAROS

Nelson disse...

Meu caro, continuo a discordar fortemente de ti em quase tudo o que diz respeito a futebol.

1. Os jogadores de futebol são um exemplo. Os prémios têm visibilidade e os jogadores são idolatrados. Desde há muito tempo que a FIFA alega querer promover o fair-play. Como tal, atribuir um prémio a um jogador que conseguiu ser dos mais amarelados e avermelhados do Mundial (só superado pelo Costinha com 4 amarelos e 1 vermelho) não se coaduna. Independentemente se ser bom ou não.

2. O comportamento do Zidane não é assim tão raro. Já no mundial de 98 foi expulso por agressão. E não são só estes os casos de agressão do Zidane documentados (não me apeteceu ir investigar a sério todos os casos, deixo isso ao teu critério). É um grande jogador, talvez o melhor da sua geração a nível mundial; mas é também irascível e quando se irrita tem acções extemporâneas.

3. Um grande exemplo de futebol que a FIFA permanentemente anda a referir é o de Gary Lineker. A sua carreira futebolística dispensa apresentações. O que merece nota é o facto de ter feito uma grande carreira sem ver um único cartão amarelo ou vermelho. Esse é o exemplo que devemos promover.

4. Houve muitos outros jogadores que levaram as respectivas equipas "ao colo" (pelo menos tanto quanto o Zidane) até perto do final da prova. Tratando-se de um mundial em que 3 dos 4 semi-finalistas chegaram às meias quase sem sofrer golos, e esse foi o seu ponto forte, faria muito mais sentido eleger um defesa como melhor jogador. Foram eles que conseguiram levar as equipas longe.

4. Zidane jogou bem, não tenho dúvidas. Agrediu um adversário e foi expulso. Se o castigo em campo fosse suficiente, para que servem os jogos de suspensão? Ou os anos de suspensão como no caso da agressão do JVP em 2002? As acções têm consequências e os jogadores têm de as sentir na pele.

5. Quem elegeu Zidane melhor jogador do mundo foi um grupo de jornalistas. Quem pretende retirar-lhe o prémio é o comité técnico da FIFA. São entidades diferentes, por isso não percebo como consegues ver aqui uma mudança de opinião.

6. Para ti o Zidane foi o melhor jogador do torneio? Óptimo. Se votasses decerto votarias Zidane. Para mim não foi. Não consigo premiar agressões e comportamentos violentos sob a capa da habilidade técnica ou carisma dentro de campo. Se eu tivesse direito de voto, provavelmente votaria Pirlo, Canavarro ou mesmo Buffon.

7. As comparações com as fitas e demais coisas dos portugueses: o que não se admite é que o comportamento incorrecto sirva como argumento para não atribuir uns prémios e seja ignorado para atribuir outros. Isso sim, é hipocrisia.

JSA disse...

Bem me parecia que havia um Filipe Moura a escrever artigos decentes no campo mais da astrofísica, ultimamente. Achei coincidência a mais. espero que permaneças mais tempo Filipe.