2008/01/16

É o que dá ver Braga por um canudo

Era de esperar – e é compreensível, ainda mais tratando-se de futebol – um certo sentimento de desforra por parte dos adeptos do Gil Vicente, tendo em conta a forma como a equipa de Barcelos desceu de divisão em 2006, depois de no campeonato tertido mais pontos que o Belenenses. Também não surpreende que a principal aglutinação de minhotos em toda a blogosfera tome posição contra o Belenenses neste caso. O autor, Pedro Morgado, só vê o Minho à frente, e fará tudo o que puder pelo Minho e só pelo Minho. O que eu não esperava – e sinceramente me surpreende pela negativa – é que o autor desse largas ao seu populismo e transformasse este caso em mais uma (suposta, na cabeça dele) guerra da “província” contra “Lisboa”, que como sempre tem as costas muito largas. A agressão demonstra o suposto “provincianismo” dos adeptos do Belenenses (vejam bem o que ele vai buscar!).
Demos de barato que Belém é quase um “enclave” do concelho de Lisboa em Oeiras; de certas zonas da cidade é mais rápido e fácil chegar a Sintra que a Belém, e os moradores de Belém, quando vêm ao centro da cidade, dizem que vão a “Lisboa”. Mas é claro que Belém é Lisboa, e a questão não é essa.
A ver se a gente se entende: há uns meses atrás eu afirmei que quem pratica a praxe académica é provinciano, e que todas as pessoas que eu conhecia e que praticavam a praxe eram de fora de Lisboa (por muito que isso custe ao Pedro). Nada do que eu escrevi permite concluir que todas as pessoas de fora de Lisboa apoiam a praxe, e muito menos que são provincianas! Não é isso que eu penso e tal seria um grande disparate. Mas pelos vistos, para o Pedro, o comportamento vândalo de alguns adeptos do Belenenses demonstra o “provincianismo (!)” de Lisboa! Como se o guarda Abel fosse representativo de todos os adeptos do FC Porto... A questão é que o populismo regionalista do Pedro Morgado fá-lo tomar sempre a parte (pequena) pelo todo. Já tínhamos percebido. O que era escusado era mais esta demonstração cabal de rancor antilisboeta.

10 comentários:

Pedro Menezes Simoes disse...

Está enganado, Filipe Melo.

O Pedro Morgado limitou-se a aplicar os mesmos critérios que foram utilizados há dois anos para caracterizar os Barcelenses em geral e os adeptos do Gil Vicente, pela comunicação social lisboeta, concluindo que se tratavam dos tipicos provincianos.

Ora, como neste caso do Belenenses os seus dirigentes e adeptos tiveram um comportamento muito mais lamentável que os atrás referidos (em Barcelos nunca houve agressões), são por conseguinte, tão ou mais tipicamente provincianos.

A crítica que faz, deve dirigí-a a quem defende esta forma de caracterizar as populações, que é a comunicação social lisboeta. E é isso o que o Pedro Morgado faz, expondo o seu ridiculo.

De resto, a pseudo-superioridade arrogada pelas elites da capital não tem cabimento, e este episódio demonstra-o. Quando vos sobe a mostarda ao nariz, há entre vós quem tenha comportamentos tão ou mais lamentáveis do que os verificados em qualquer outra parte do país.

Filipe Moura disse...

Vou pegar no seu comentário no Blasfémias:

"Pelo menos agora, muitos portugueses (não só lisboetas, e nem todos os lisboetas) põe a mão à cabeça e estão a pensar que "se calhar, afinal os barcelenses não são assim tão parolos". É triste que as coisas tenham que acontecer desta forma para que as pessoas passem a ser menos preconceituosas..."

O Pedro conhece algum lisboeta? Eu não conheço nenhum que pense as coisas que lhe imputa. O Pedro faz uma caricatura muito imperfeita dos lisboetas, porque lhe dá jeito, e depois usa-a. Nada do que afirma sobre os lisboetas é verdade. Assim não dá para discutir.

Pedro Menezes Simoes disse...

Ora, ora, vai-me dizer que a comunicação social lisboeta é escrita por alentejanos ou minhotos?

Sei que há trigo e há joio. E por isso mesmo fiz questão de direccionar muito bem o meu comentário no blasfémias: a todos os portugueses (lisboetas e não lisboetas) que julgam os habitantes de determinadas cidades de provincianos e parolos por dá cá aquela palha, muitas vezes por comportamentos nada parolos (no caso do Gil Vicente era tão somente por querer recorrer à justiça, e não por agredir pessoas), e que se verificam em todas as cidades portuguesas.

Ora, a acusação de provinciano, por norma, costuma vir de quem não se considera da provincia.

Daí que acho que há legitimidade em levantar a questão: onde estão agora todos aqueles que chamaram aos adeptos do Gil Vicente de provincianos e parolos? Porque não acusam agora os adeptos do belenenses com os mesmos impropérios? Qual a explicação para o fenómeno?

A minha, é que a comunicação social lisboeta acha que "parolo" é um adjectivo que só se aplica fora de Lisboa. (o que me parece uma atitude verdadeiramente parola).

E a sua explicação, qual é? Acha normal a dualidade de critérios?

P.S. Conheço muitos lisboetas. Há trigo e há joio, como em todo o lado. Mas não é preciso conhecer os lisboetas para fazer estes comentários. Basta estar atento à comunicação social. E a comunicação social, em portugal, é descaradamente xenófoba em muitas situações. Só que nós crescemos com isso, e por vezes nem nos apercebemos. O ano passado tinhamos um programa em horário nobre, líder de audiências, e destinado ao público infantil, onde a actriz principal era insultada, em todos os episódios de "estúpida tripeirinha". É assim que se ensina o preconceito desde a infância.

Filipe Moura disse...

«onde estão agora todos aqueles que chamaram aos adeptos do Gil Vicente de provincianos e parolos?»

Não sei. Não os vi. Eu nem simpatizo com o Belenenses.

«O ano passado tinhamos um programa em horário nobre, líder de audiências, e destinado ao público infantil, onde a actriz principal era insultada, em todos os episódios de "estúpida tripeirinha". É assim que se ensina o preconceito desde a infância.»

Se houver um novo referendo à regionalização, na campanha não se esqueça de dar esse exemplo.

Pedro Morgado disse...

Caro Filipe,

Penso que interpretou mal as minhas palavras. É óbvio que o post não se dirige a todos os liboetas, mas apenas aos que «imaginam que as mulheres de Viana vão trabalhar envergando os famosos trajes festivos».

Mas quanto às generalizações, o Filipe poupa-me a argumentação. Neste post, acusa-me de generalizar e acaba por repetir a toada de que todos os praxistas são de fora de Lisboa. Mesmo não pondo em causa o seu vasto conhecimento da realidade praxística lisboeta, parece-me que é uma generalização infeliz e abusiva. Mas isso são contas de outro rosário.

De qualquer modo, aquando do caso Mateus fartaram-se de ridicularizar o Presidente do Gil Vicente. E foram os mesmos que agora desvalorizam agressões.

O que quis dizer com o meu post, como fica bem claro nas últimas frases, é que Lisboa não é mais nem menos do que o resto do país, embora haja lisboetas que não conseguem deixar de andar em bicos de pés.

Cumprimentos,
PM

Filipe Moura disse...

Caro Pedro,
sobre as praxes e os lisboetas, o que afirmei resulta de uma observação empírica. Tive o cuidado de o deixar sempre claro - é da minha experiência. Mas olhe que eu conheço muitos estudantes de várias gerações. É uma afirmação falsificável; demonstre que está errada.

Por favor seja honesto e reconheça que escreveu a frase

"Para os lisboetas, esses espécimes que imaginam que as mulheres de Viana vão trabalhar envergando os famosos trajes festivos, «a província» é um mundo distante onde radicam todos os males do país."

É aplicada a todos os lisboetas, não é?

Lisboa não é nem mais nem menos do que o resto do país, é claro. E gente em bicos de pés há em todo o lado. Onde o Pedro vê um complexo de superioridade lisboeta, eu vejo um complexo de inferioridade e rancor nortenho. Sim, nortenho.

Um abraço,
Filipe.

Pedro Menezes Simoes disse...

Pois, mas não me parece que tenham sido os barcelenses que começaram a chamar parolos e provincianos a si próprios...

Rancor? Seguramente! Mas o rancor não é uma falha moral. É o não perdão de uma falha moral de outrem. Neste caso em particular compreende-se. A falha moral veio de Belém, e em proveito próprio. O Gil Vicente sofreu duros golpes: injustamente despromovido, coartado a não recorrer à justiça, e insultado e ridicularizado pelos media e população em geral pela "parolice" de querer fazer valer os seus direitos. Em síntese, violentados no corpo (despromoção) e na alma (opinião pública contrária).

É óbvio que há rancor. Como poderia não haver? Os minhotos são religiosos, mas não são o Dalai Lama. "Quem não se sente, não é filho de boa gente."

"Rancor - Ressentimento profundo e reservado decorrente de mágoa que se sofreu sem protesto".

Pedro Menezes Simoes disse...

E para comprovar a minha tese sobre a xenofobia e provincianismo da comunicação social lisboeta, deixo aqui um texto do editor-executivo (note-se que não é um jornalista qualquer) do 24 horas, publicado também no global notícias:

"OS COELHOS COM
STRESSE HAVIAM
DE VIR PARA LISBOA"

"Uns aviões militares rasam dois
casebres, e estala o alvoroço. Até
os coelhos, com o estampido das
asas a rasgar o céu, ficaram stressados e a perpetuação da espécie está em risco naquelas paragens. A população está furiosa e dois deputados eleitos por Castelo Branco escreveram a maçar o ministro da Defesa com perguntas...

E pergunto eu, quem me protege a
mim dos idiotas que não conseguem
tirar a mão da buzina do carro, e dos javardos do estádio de futebol junto à minha casa que põem música aos berros como se aquele batatal fosse uma discoteca, e dos adolescentes (muitas vezes, ser adolescente já é suficientemente
mau para dispensar mais qualificativos) que andam pelas
ruas aos urros?

Barulho a sério aturo eu todos os
dias. Aquilo na Meimoa foi só um
festival aéreo..."

Quem diria: o "cosmopolita" Gonçalo Pereira, no meio de tanta "civilização" não faz a mais pequena ideia do barulho que um Caça em acção pode causar... espero que lhe passem muitos 200m acima do tecto.

Nota: O Global notícias, onde o texto foi publicado, é o jornal com maior circulação em Lisboa e Porto. A população de Penamacor sofre danos materiais e ainda é enxovalhada pela comunicação social Lisboeta. Antevejo rancor beirão. Sim, beirão. Parece-lhe despropositado?

Pedro Menezes Simoes disse...

Esqueci-me de deixar o link. Página 2, do lado direito.

http://www.globalnoticias.pt/gnpdf.pdf

Pedro Menezes Simoes disse...

Pelos vistos também existe "rancor" algarvio. Sim, Algarvio...

http://www.semanario.pt/noticia.php?ID=3854