2007/09/12

“Ganhámos” ou “passámos”? Quem?

Deve ser defeito meu, mas confesso que me custa a compreender referências a supostos “representantes” de Portugal na primeira pessoa do plural. Para perceberem melhor o meu ponto de vista sobre esta questão, devo esclarecer que nos agradecimentos na minha tese de doutoramento coloquei as habituais referências ao meu orientador, aos meus professores, aos meus colegas, ao instituto. Mas só depois de me referir... a mim. A primeira frase desta secção da minha tese é: “Esta tese deve-se sobretudo a mim e ao meu esforço (a modéstia é para os enganadores).” Há outras razões para esta minha atitude, que eu não vou estar agora aqui a explicar. Mas o essencial é: sou mesmo muito sensível ao reconhecimento de um trabalho. Não gosto de levar louros por trabalho dos outros, mas também não gosto nada (e nem permito) que levem louros por causa do meu trabalho.
E é por isso que me faz confusão a leviandade com que se diz “ganhámos” ou “perdemos” quando se refere a uma selecção nacional. Quem “ganha” ou “perde” é a equipa (treinador incluído). E não adianta virem falar-me que eles estão a “representar o país”: nenhum deles (jogadores ou treinador) é insubstituível. Se estão lá, é porque foram escolhidos. Por isso mesmo, façam o que fizerem, a responsabilidade é deles. E os resultados que obtiverem também.
É particularmente irónico que quem escreva “ganhámos a Israel!” referindo-se à selecção de básquete seja um tipo que nem 1,70 m de altura tem. Mais ainda: o mesmo tipo tem, sem exagero, menos de metade do peso de um jogador de râguebi típico, mas escreve “perdemos 56-10”. Nelson, não jogues râguebi ou podes não sair vivo... E então empatámos 2-2 com a Polónia, hã? Aquela bola que entrou na nossa baliza depois de bater ingloriamente nas costas também teve a tua participação? Mas que grande frangueiro tu me saíste!

(Espero que hoje à noite contra a Sérvia as coisas corram bem à nossa equipa.)

8 comentários:

JSA disse...

Pela tua lógica, eu posso dizer que «ganhámos a Israel» :). Eu pratiquei e pratico basquetebol e tenho mais que 1,70m. Mais, até poderia dizer que "ganhámos" o título da WNBA e "fomos" seleccionados para o All-Star da WNBA porque joguei contra a Ticha Penicheiro ainda ela andava a jogar pela selecção nacional feminina de cadetes baseada em Rio Maior e como tal ajudei a fazer dela a jogadora que é hoje :).

Nelson disse...

Meço mais de 1,70m. Uns centímetros, mas definitivamente mais.

Quanto ao resto, já falámos pessoalmente, temos posições distintas. Tu tens a tua, eu tenho a minha. Mas dificilmente me calo perante a sugestão que o "ganhámos" ou "perdemos" é uma apropriação dos louros da equipa. Não corro o risco de ser confundido nem com jogadores da equipa de rugby, nem da de basquetebol, nem da de futebol. Mesmo que tentasse apropriar-me dos louros dos outros ninguém me levaria a sério. E, não sendo completamente estúpido, também não o tentaria fazer.

Eu pertenço ao conjunto de todos os portugueses. O conjunto de todos os portugueses é representado. Logo, eu também sou representado.

Filipe Moura disse...

João, não podes porque não fazes parte presentemente da equipa.

Desculpa o erro da estimativa na altura, Nelson. Quanto ao resto, é claro que temos posições e lógicas diferentes, mas acho que vale a pena continuarmos a discuti-las, principalmente depois do que se passou ontem à noite em Alvalade.

Nelson disse...

eh pá, nem me digas nada. já tava a custar apoiar o Scolari com a onda de maus resultados, mas agora...

Eu não sou fan do estilo de jogo dele, mas como os resultados sempre foram aparecendo, considerava a posição dele inquestionável. Estes últimos jogos merecem uma reflexão.

O murro de ontem merece um processo disciplinar e um despedimento por justa causa. A selecção tem estatuto de utilidade pública o que implica que representa o país e que o país se sente representado por ela. E não podemos admitir ser representados por quem esmurre adversários. Ou árbitros, como no caso do João Pinto em 2002. Ou qualquer outra pessoa, claro. Inqualificável.

Filipe Moura disse...

Estamos em desacordo, Nelson. Como eu não me sinto "representado" da mesma forma que tu, não sinto o soco da mesma maneira. Da selecção, a única coisa que quero é que ganhem, e para isso é melhor deixar o Scolari ficar ATÈ 2008 (não mais). Agora é claro que o soco é gravíssimo.

zazie disse...

Essa da tese deve-se a mim é de se morrer a rir.
Tu escreveste mesmo isso?

ahahahaha

mcorreia disse...

olha que eu o vinha achando um tipo pedante (desculpe que não é para ofensa que o escrevo, mas apenas por sinceramente) mas essa da tese e o resto deixa-me sem fala: admiro gente desta! conheço poucos, mas conheço outros...esteja descansado que não é único nessa atitude de separar bem trigos de joios

Filipe Moura disse...

Zazie e mcorreia, o episódio é verdadeiro, mas eu na altura estava aborrecido com o meu orientador. (Hoje dou-me muito bem com ele.) Não lhe dou muita importância - afinal é só a dedicatória de uma tese. Mas por ser essencialmente verdadeiro, não digo que retiro o que escrevi, embora hoje talvez não o escrevesse.