2007/06/04

Diálogo entre um filósofo e um físico

Vale a pena ler o texto Serão as constantes da natureza contingentes? de Desidério Murcho, e os comentários dos leitores. Sobretudo do Ricardo S. Carvalho que, ausente que tem andado do blogue onde é residente, nem por isso deixa de estar atento ao que se passa. Com a licença do Ricardo (que tem um estilo "fernanda câncio" de escrita - suponho que coma brócolos do El Corte Inglés) transcrevo esta passagem, que acho imperdível. À atenção de Boaventura de Sousa Santos.

Às frases de Desidério Murcho
"...Quanto ao resto, dizer que uma equação guarda mais ideias do que as palavras permitem alcançar é só uma maneira não muito feliz de dizer que por vezes não compreendemos claramente as próprias equações que temos razões para acreditar que são verdadeiras..."
o Ricardo contrapõe
lamento, mas é falso! ou, então, temos outro problema de comunicção :-)

as equações de einstein, por exemplo, guardam muitas surpresas que só com a sua exploração conseguimos aprender. nenhuma argumentação sobre gravitação nos teria levado a muitos conceitos fundamentais de física moderna sem realmente estudarmos com atenção e cuidado as soluções dessas equações!

um exemplo claro e recente neste sentido está relacionado com a "interpretação" da mecânica quântica. os físicos do princípio do século escolheram a via de copenhaga "shut up and compute" com um sucesso inegável. ao mesmo tempo, muitos argumentos foram debatidos ao longo dos anos sobre as "implicações filosóficas" das diversas interpretações da mecânica quântica, produzindo barbaridades científicas sem limite (até tempos recentes: lembro-me de uma conferência em boston em meados da década de 90 onde a parvoíce dita e incomprensão da mecânica quântica, por parte das pessoas que apenas se ficavam pelos "argumentos", não tinham limite).

hoje a via das equações provou a sua superioridade para atingir este fim: temos uma descrição a caminho de ser bastante completa de todos os aspectos da mecânica quântica, fazendo uso das ideias de decoerência. décadas de argumentação nem lá perto chegaram.

com isto não quero dizer que os argumentos de nada serviam; óbvio que não!! apenas quero dizer que, muitas vezes, é útil conhecer as equações e aprender a estudá-las, antes de decidir argumentar sobre certas coisas...

1 comentário:

Albertino Dias disse...

Filipe:

Sinceramente acho que estão a misturar alhos com bogalhos.

Explico.

Concordo com o Ricardo, por razões que nem sequer é preciso explicar.

Concordo com o Desidério (as usual). Acho que, no fundo, converter uma equação em palavras é um exercício que pode ser muito perigoso (acima de tudo se os objectivos forem mediáticos).

P.S.: Vê lá se deixas de dar porrado no Magueijo. Não é por nada, mas o gajo (como sabes) é um Imperial member of staff.