2007/06/12

Cientistas portugueses em Inglaterra no DN

Recomendo a leitura da reportagem do Diário de Notícias. Para além do interesse geral da peça, há motivos pessoais. Encontro lá antigos alunos (quando eu era monitor de Matemática no IST), que já estão a acabar - alguns já acabaram - os seus doutoramentos. Encontro lá amigos. Encontro malta da LEFT. Encontro do melhor que Portugal produz e pode encontrar.

(Nuno, presenteias-nos com fotos dos teus piqueniques, presenteias-nos como fotos dos pés dos participantes nos teus piqueniques, mas não falas de nada disto?)

7 comentários:

Santiago disse...

Eh pá! Não é só para dizer mal, mas às vezes é difícil não me interrogar sobre o que raio é que estes jovens aprendem nestes países "lá fora" e que diabos querem eles vir ensinar aos indígenas "cá dentro"...

Há uma rapariga que, se amadurecer mais 5 aninhos, vai certamente perceber o rídiculo do que disse: "No final, se calhar, terei de aceitar uma posição não tão interessante como conseguiria no Reino Unido. O estilo de vida inglês é bom para trabalhar, mas vive-se muito melhor em Portugal"

E depois há um rapaz que viu o filme do Richard the Lionheart e prepara-se agora para organizar uma cruzada... à santa terrinha desta vez: "Estou a fazer investigação na área do cancro e acho que há lá boas oportunidades. É verdade que não existem as mesmas que no Reino Unido, mas parece-me que se esta geração de investigadores regressar as coisas podem melhorar mais depressa"

Faz falta haver quem explique a estes adolescentes que devem tudo (mesmo tudo) à "geração anterior" (e nada a "esta geração"). Eles que fiquem no "Reino Unido" a trabalhar na "área do cancro". A pátria salvar-se-á bem (talvez até melhor) sem eles...

Nuno disse...

Filipe, o blog foi um dos sacrificados pela azáfama da organização do evento. Colocarei lá fotos e comentários sobre o Luso 2007 logo que tenha tempo.

Santiago, nem vi o filme e ler nas minhas palavras um espírito de “cruzada” revela um incómodo reaccionário típico dos tempos do “orgulhosamente sós”. Nenhum destes emigrantes se acha um herói (ou mais importante que qualquer outro compatriota) e ninguém questiona a herança da “geração anterior” (que também esteve representada no Encontro). São precisamente os benefícios herdados que “esta geração” tenta capitalizar. Cada um ajuda como pode. Quanto às questões “sobre o que raio é que estes jovens aprendem nestes países ‘lá fora’ e que diabos querem eles vir ensinar aos indígenas ‘cá dentro’“, recomendo-te uma experiência “lá fora”. De outra forma estarás sempre a dar uma opinião mal informada (tanto que nem a fundamentaste). Na prática, a nossa “cruzada” é mesmo só contra a atitude reaccionária (típica, por exemplo, dos “dinossauros” da nossa academia).

Luis disse...

Eu cá até gosto de fotografias de pés ...

Santiago disse...

Nuno:

Pois...

Se calhar só me vais levar a sério se eu explicar que trabalhei 4 anos na Alemanha, 5 na Califórnia e estou agora há mais de 6 anos em França. Entre os EUA e França trabalhei 6 anos em Portugal, num Instituto tão conhecido que até é mencionado no artigo. Quando fui para a Alemanha ainda Portugal não era membro da CEE, não havia bolsas, não era fácil...

Revelo assim a minha inclusão na "geração anterior". Nota que também eu já participei numa "cruzada jovem" e os resultados foram muito semelhantes aos das originais. Acho que só ao Almeida Garret é que as coisas correram bem. Desembarcou no Mindelo com apenas 33 aninhos feitos... mas o Garret sempre foi um precoce...

Infelizmente Portugal só se preocupa em trazer os "jovens" que, cheios de espírito de missão, para lá vão combater (cito) "(...) a atitude reaccionária (típica, por exemplo, dos “dinossauros” da nossa academia)". O que me incomoda nestes artigos é perceber que a juventude se deixa alegremente imbuír desse "espirito missionário" e colabora activamente (por ingenuidade, acho eu) na perpetuação do actual estado de coisas...

Não vão mudar nada, porque lhes vai faltar o apoio e enquadramento da "geração anterior". Portugal nunca quis trazer nenhuma das "gerações anteriores" porque os "jovens" saem bastante mais "baratos" e são mais facilmente controlados pelos "dinossauros" (do ponto de vista destes só há vantagens, portanto...). O que o pessoal devia estar a exigir é que Portugal atraísse cientistas já estabelecidos (a meio da carreira), em vez dos habituais jovens que vêm começar a carreira ou dos velhos que vêm terminá-la...

5 ou 6 anos depois do "desembarque", temos os tais jovens transformados em "geração anterior", acumulando frustrações por nada ter corrido bem e nada ter mudado. Como são raríssimos os que então terão coragem de voltar a "ir lá para fora", é vê-los totalmente integrados no "sistema dos dinossauros" procurando impedir por todos os meios a vinda dos seus "colegas de geração" (que entretanto também se graduaram em "geração anterior"). São sempre esses, os que ficaram, os mais vocais defensores da vinda de novos missionários que (cito parafraseando) "cheios de espírito de missão, para cá vêm combater"...

E a história assim se vai repetindo... e já nem é tragédia...

Luis disse...

O segundo comentário do Santiago consegue ter mais sensatez que os três primeiros em conjunto.

Esta discussão das gerações é de certezinha tão velha como a humanidade. Às vezes é um bocado ridícula. Eu vou-me abster de fazer o exercício de redução ao absurdo, não porque não o consiga fazer (dos dois pontos de vista).

Prefiro pegar numa parte do segundo comentário do Santiago: «Portugal nunca quis trazer nenhuma das "gerações anteriores" porque os "jovens" saem bastante mais "baratos" e são mais facilmente controlados pelos "dinossauros" (do ponto de vista destes só há vantagens, portanto...).»

Eu diria que a única coisa que vale a pena discutir sobre este assunto é em que situações o facto de contratar pessoas mais novas usando menos recursos financeiros pode ser feito sem constituir uma situação de concorrência desleal.

P. S.: O tal Instituto de que o Santiago não quer dizer o nome (certamente para não se engasgar) é o IGC.

Nuno disse...

Santiago,

O teu último comentário é muito mais lúcido, construtivo e útil que o primeiro, até parece escrito por outra pessoa. Agora percebo perfeitamente o teu ponto de vista que, à luz do primeiro comentário, temia que fosse mais emocional que pensado.

Eu concordo com muito do que dizes mas eu tenho visto alguns (ainda que mais ténues do que o que seria natural) sinais de melhoria. Assumo que trabalho numa área especialmente acarinhada e, como tal, o meu optimismo é enviesado e talvez não se aplique a outros domínios do conhecimento. De qualquer modo, já há jovens investigadores a voltar e a trabalhar com boas condições, menos constrangidos pela acção alienatória dos “dinossauros” académicos. E alguns elementos daquela que suponho ser a tua geração voltaram a Portugal cedo, conseguiram não fossilizar e hoje, em posições de maior protagonismo, têm ajudado a mudar as coisas e não impedem os seus companheiros de geração de regressar. A pergunta é se os da tua geração, que têm carreira estabelecida, querem regressar. Da minha experiência não, mesmo quando lhes são oferecidas condições excepcionais. Porquê? Porque já não é altura de recomeçar. Os filhos estão em idade escolar e ambientados no país de acolhimento. O trabalho é bem sucedido e montar um novo laboratório num país novo é um esforço (e um risco) demasiado grande. E muitos sentem-se mais úteis à Pátria estando fora. Na “geração anterior”, uma mudança desse género tem que implicar uma “promoção” que compense o sacrifício e Portugal ainda não está em condições de a garantir (e não me refiro a meios materiais mas sim a uma “centralidade” científica que leva tempo a construir).
A vontade e o entusiasmo de regressar estão em quem quer começar, em quem se quer afirmar, em quem ainda não tem tanto a perder.

No Encontro, houve gente da tua geração a transmitir isso mesmo. E, da mesma forma que mostraram algum desencanto associado à sua própria experiência, foram os primeiros a apoiar e encorajar a iniciativa, a salientar que as condições são melhores para nós do que foram para eles e que nestas coisas a união faz a força.
Eu concordo contigo que seria ideal poder atrair e fazer regressar a “geração anterior”, a mudança seria muito mais imediata (e também saudavelmente mais conflituosa). Mas não creio que seja impossível à minha geração mudar as coisas ou que o ciclo vicioso seja perpétuo.

Já há alguns “oásis”. Sim, ainda são “oásis” mas têm crescido.

Eu percebo que nos vejas como ingénuos e sei que nem tudo vai ser um mar de rosas mas as frustrações da “geração anterior” não nos podem fazer baixar os braços. Se ninguém acredita é que as coisas não mudam mesmo.

Nota também que a vontade de regressar não é só motivada por espírito missionário e amor à Pátria. Nós juntamo-nos para tratar do nosso próprio futuro.

Abraço,
Nuno

PS -> Já agora, tenho alguma curiosidade em saber como foi a tua experiência no IGC.

Santiago disse...

Nuno, ó meu:

O paternalismo é uma coisa gira: Há uma idade em que um gajo é suficientemente velho para o reconhecer, mas demasiado novo para o apreciar. Depois um gajo cresce e passa a ser suficientemente velho para lhe achar graça, mas sente-se ainda demasiado novo para perceber se é mesmo isso que está a acontecer...

Mudando de assunto:

O mais importante é saber o que é que Portugal quer. Ou quer ter ciência (aliás: Ciência...) ou quer ter indicadores estatísticos impressionantes.. Se quiser ter Ciência, então deve atraír cientistas, mas se quiser bons indicadores estatísticos basta contratar post-docs, convencendo-os que "os jovens são o futuro do país".

Portugal parece preferir atrair velhos, em fim de carreira, para servirem de chamariz aos jovens, em começo dela (não vou mais falar do IGC). Não é assim que se garante uma "centralidade" científica...

Não sei se tens filhos, mas acredita em mim: Não são os filhos que impedem os cientistas de regressar... são os velhos...