2012/02/29

A "nova república" de Rubem Fonseca

Rubem Fonseca na varanda da República (foto de Pedro Maia)
«Quando no final da cerimónia em que recebeu a Medalha de Mérito Municipal Grau de Ouro, "como reconhecimento da Câmara Municipal de Lisboa pela sua brilhante carreira", o escritor brasileiro Rubem Fonseca foi à varanda da República, do alto da Praça do Município levantou o braço e brincou: "Portugueses, proclamo a Nova República!"», escreve o Público. Felicito a Câmara Municipal de Lisboa pela decisão de homenagear este extraordinário escritor brasileiro, para mim o melhor escritor vivo de língua portuguesa. Escolhi um texto de Rubem para iniciar a minha participação num dos blogues portugueses "clássicos". Reproduzo-o parcialmente aqui:
Para livros de polícia (mais do que meros livros policiais) não conheço melhor autor do que Rubem Fonseca. Peguemos em Agosto (1990), edição portuguesa da D. Quixote. A personagem principal é o comissário Mattos, verdadeiro alter-ego de Fonseca, que foi policial antes de ser escritor. Algumas das teses de Mattos sobre o papel da polícia podem ser extraídas dos diálogos com os seus assessores. Por exemplo: "«Marido e mulher? Você vai dar um flagrante no sujeito apenas porque ele deu uns sopapos na mulher?» «Exactamente por isso. O facto de ser a mulher dele para mim é uma agravante.» (...)«Eu olhei a mulher e não vi nenhuma marca de lesão. (...) Garanto que a mulher vai ficar contra nós.» (...) «Todo mundo é contra nós, sempre.» (...) Autor, vítima, advogado e escrivão esperavam pelo comissário. «Então, doutor? Tudo resolvido?» «Tudo. Vamos continuar o flagrante.» «Doutor, meu cliente foi impelido por relevante valor moral, logo em seguida à injusta provocação da vítima. (...) Ela está arrependida, sabe que errou, pediu desculpas, o senhor não ouviu? (...)» «Esse crime é de acção pública, não me interessa a opinião da vítima. Vamos continuar o flagrante.» «Doutor, ela chamou o meu cliente de broxa [impotente]. Algum marido pode ouvir a própria esposa chamá-lo de broxa sem perder a cabeça? (...)» «Ninguém mais autorizado a chamar um sujeito de broxa do que a própria mulher.» (...) O flagrante foi lavrado, assinado (...). Mattos tirou um Pepsamar do bolso, enfiou na boca, mastigou, misturou com saliva e engoliu. Ele cumprira a lei. Tornara o mundo melhor?"
Há oito anos como hoje, leio o Rubem Fonseca e fico sem palavras. Recomendo vivamente.

2012/02/24

Afinal tudo não passou de um cabo mal ligado...

Alright, Neutrinos, The Jig Is Up! Destaco: "I have difficulty to believe it, because nothing in Italy arrives ahead of time." - Sergio Bertolucci, research director at CERN, on faster-than-light neutrinos

2012/01/18

Quando a claque tem mais tino que a direção

Estive no Sporting-Porto no outro sábado, a maior enchente da história do estádio Alvalade XXI, e onde foi realizada a maior coreografia alguma vez feita num estádio português. Foi possível com certeza gravar imagens muito melhores de adeptos do Sporting que as que o Público mostrou no corredor de acesso ao balneário da equipa visitante. A intenção intimidatória, ao escolher tais imagens, foi evidente. Mas também é evidente, no mínimo, o péssimo gosto de tais imagens, e a péssima imagem que dão do clube. Tal como bem afirma Rui Calafate, teria sido possível escolher muito melhores imagens ao livro da Juve Leo. As imagens divulgadas pelo Público (não quer dizer que sejam todas as imagens do tal corredor) foram escolhidas ou pelo menos autorizadas pela direção do Sporting. Sabemos que tais imagens correspondem, infelizmente, à realidade de muitas claques de muitos clubes. Mas não deveriam ser sancionadas, e muito menos apoiadas, oficialmente. A direção da Juve Leo sabe disso. Infelizmente, a do Sporting parece que não. Esclareço que apoiei a atual direção e creio que no geral tem sido feito um bom trabalho - ninguém duvida que o clube está melhor hoje que há um ano atrás.

2012/01/02

O meu balanço pessoal do ano de 2011

O Sporting tem destas coisas, que também revelam a sua grandeza e diversidade. Não é um clube do povo, mas só no Sporting é que se encontram tipos como Sousa Cintra ou Paulo Futre. Comparem o que se falava de Paulo Futre há um ano atrás e (graças às eleições do Sporting) o que se passou a falar. Ele é biografia, ele é participações em novelas, ele é t-shirts, ele é anúncios... Não tenho a menor dúvida em eleger o Paulo Futre como figura do ano de 2011. Quanto ao blogue do ano, para mim uma revelação (apesar de já existir há alum tempo), O Cacifo do Paulinho. Tornou-se leitura diária.

2011/12/06

Finalmente o levezinho é campeão

Ele bem merece. Infelizmente, não foi com a camisola do Sporting (clube que não se esqueceu de lhe dar os parabéns, e que ele também não esquece). Até ao fim da carreira do Liedson será impossível pedir que ele regresse para ser campeão em Alvalade? Deixem-me sonhar.

O doutor do futebol

De 82 recordo-me de uma entrevista (a entrevista era a sério) ao Peninha (!), numa revista Disney brasileira especial dedicada ao Mundial (que retratava o Zico como primo afastado do Zé Carioca...), onde afirmava esperar que os portugueses apoiassem o Brasil e... que o Zico era melhor que o Maradona (em 1982). Sócrates, que celebrava os golos de punho fechado erguido, como recorda o Tiago Mota Saraiva. O "verdadeiro Sócrates de esquerda", como lhe chama o Pedro Fragoso, que escreve uma evocação que também recomendo. Ficam algumas páginas da entrevista com o Peninha, e uma grande saudade.

2011/10/25

Sobre o fim das praxes na Universidade do Minho

Mesmo sem querer pôr em causa a importância da decisão da equipa reitoral da universidade onde trabalho de acabar com as praxes, aqui anunciada pelo Ricardo Alves, a realidade é que a presença de tais atos permitiu-me ter vivido episódios que hei de recordar para o resto da minha vida, de cada das várias vezes que tive de me ir chatear com os praxantes e os praxados. Aquela vez em que, num dia com o tempo parecido com o de hoje, eu sugeri (sarcasticamente) ao grupo que berrava num pátio abrigado ao pé dos gabinetes na Escola de Ciências que fosse dali para fora, para o meio da chuva torrencial, pois os caloiros deveriam mesmo era molhar-se; um dos veteranos respondeu-me, candidamente, que tinha sugerido isso mesmo, mas os outros veteranos não tinham concordado. Ou a outra em que os mandei dali embora dizendo que ali “era um local de trabalho”, e eles olharam-me espantados por lhes dizer que a universidade era um local de trabalho – nunca ninguém lhes tinha dito tal coisa. Mas a melhor foi quando, em dias consecutivos, após insistirem em virem para baixo do meu gabinete, ainda me acusaram de os “estar a perseguir” – não seriam antes eles, mesmo sem quererem saber disso, que me estavam a perseguir a mim? Todos estes episódios, todos os dias, o ano letivo quase todo e não somente a “semana de receção ao caloiro”, obviamente acabavam por causar algum desgaste, mesmo se na maior parte das vezes tudo se resolvia com um telefonema ao segurança (e mesmo se entretanto mudei para um gabinete mais sossegado e resguardado). Mas se o barulho durante o trabalho se resolveu, a verdade é que a vida na universidade não se resume ao trabalho no gabinete. E era impossível, para qualquer membro da Universidade do Minho, circular pelos campus, fosse para ir à biblioteca, almoçar ou tratar de outro assunto qualquer, sem se deparar com aquele espetáculo indesejado de barulho e humilhação, voluntária ou não (isso é o que menos me interessa – não é por alguém querer participar neste evento que ele passa a ser tolerável). A decisão da equipa reitoral, por isso, é de aplaudir e só peca por tardia. Bem como a de retirar do protocolo da Universidade o “veterano” da praxe, onde até muito recentemente tinha assento! Resta agora aos praxantes acabar com a praxe... ou passar a fazê-la nas ruas de Braga (a praxe tem de ser feita em público: a humilhação, se não for pública, não conta para nada). Inclino-me mais para a segunda hipótese: a praxe e a “tradição académica” recebem um amplo apoio dos dois principais jornais da cidade, conforme se pode verificar nestas duas “primeiras páginas” do mês passado (curiosamente, ou talvez não, um destes jornais é conotado com a Igreja Católica e assumidamente de “inspiração cristã”). Conforme bem diz o comunicado do reitor, a praxe constitui um ataque à liberdade, à dignidade e à urbanidade. Vamos ver como a urbanidade de Braga reagirá a praxes nas ruas.