2012/01/18

Quando a claque tem mais tino que a direção

Estive no Sporting-Porto no outro sábado, a maior enchente da história do estádio Alvalade XXI, e onde foi realizada a maior coreografia alguma vez feita num estádio português. Foi possível com certeza gravar imagens muito melhores de adeptos do Sporting que as que o Público mostrou no corredor de acesso ao balneário da equipa visitante. A intenção intimidatória, ao escolher tais imagens, foi evidente. Mas também é evidente, no mínimo, o péssimo gosto de tais imagens, e a péssima imagem que dão do clube. Tal como bem afirma Rui Calafate, teria sido possível escolher muito melhores imagens ao livro da Juve Leo. As imagens divulgadas pelo Público (não quer dizer que sejam todas as imagens do tal corredor) foram escolhidas ou pelo menos autorizadas pela direção do Sporting. Sabemos que tais imagens correspondem, infelizmente, à realidade de muitas claques de muitos clubes. Mas não deveriam ser sancionadas, e muito menos apoiadas, oficialmente. A direção da Juve Leo sabe disso. Infelizmente, a do Sporting parece que não. Esclareço que apoiei a atual direção e creio que no geral tem sido feito um bom trabalho - ninguém duvida que o clube está melhor hoje que há um ano atrás.

2012/01/02

O meu balanço pessoal do ano de 2011

O Sporting tem destas coisas, que também revelam a sua grandeza e diversidade. Não é um clube do povo, mas só no Sporting é que se encontram tipos como Sousa Cintra ou Paulo Futre. Comparem o que se falava de Paulo Futre há um ano atrás e (graças às eleições do Sporting) o que se passou a falar. Ele é biografia, ele é participações em novelas, ele é t-shirts, ele é anúncios... Não tenho a menor dúvida em eleger o Paulo Futre como figura do ano de 2011. Quanto ao blogue do ano, para mim uma revelação (apesar de já existir há alum tempo), O Cacifo do Paulinho. Tornou-se leitura diária.

2011/12/06

Finalmente o levezinho é campeão

Ele bem merece. Infelizmente, não foi com a camisola do Sporting (clube que não se esqueceu de lhe dar os parabéns, e que ele também não esquece). Até ao fim da carreira do Liedson será impossível pedir que ele regresse para ser campeão em Alvalade? Deixem-me sonhar.

O doutor do futebol

De 82 recordo-me de uma entrevista (a entrevista era a sério) ao Peninha (!), numa revista Disney brasileira especial dedicada ao Mundial (que retratava o Zico como primo afastado do Zé Carioca...), onde afirmava esperar que os portugueses apoiassem o Brasil e... que o Zico era melhor que o Maradona (em 1982). Sócrates, que celebrava os golos de punho fechado erguido, como recorda o Tiago Mota Saraiva. O "verdadeiro Sócrates de esquerda", como lhe chama o Pedro Fragoso, que escreve uma evocação que também recomendo. Ficam algumas páginas da entrevista com o Peninha, e uma grande saudade.

2011/10/25

Sobre o fim das praxes na Universidade do Minho

Mesmo sem querer pôr em causa a importância da decisão da equipa reitoral da universidade onde trabalho de acabar com as praxes, aqui anunciada pelo Ricardo Alves, a realidade é que a presença de tais atos permitiu-me ter vivido episódios que hei de recordar para o resto da minha vida, de cada das várias vezes que tive de me ir chatear com os praxantes e os praxados. Aquela vez em que, num dia com o tempo parecido com o de hoje, eu sugeri (sarcasticamente) ao grupo que berrava num pátio abrigado ao pé dos gabinetes na Escola de Ciências que fosse dali para fora, para o meio da chuva torrencial, pois os caloiros deveriam mesmo era molhar-se; um dos veteranos respondeu-me, candidamente, que tinha sugerido isso mesmo, mas os outros veteranos não tinham concordado. Ou a outra em que os mandei dali embora dizendo que ali “era um local de trabalho”, e eles olharam-me espantados por lhes dizer que a universidade era um local de trabalho – nunca ninguém lhes tinha dito tal coisa. Mas a melhor foi quando, em dias consecutivos, após insistirem em virem para baixo do meu gabinete, ainda me acusaram de os “estar a perseguir” – não seriam antes eles, mesmo sem quererem saber disso, que me estavam a perseguir a mim? Todos estes episódios, todos os dias, o ano letivo quase todo e não somente a “semana de receção ao caloiro”, obviamente acabavam por causar algum desgaste, mesmo se na maior parte das vezes tudo se resolvia com um telefonema ao segurança (e mesmo se entretanto mudei para um gabinete mais sossegado e resguardado). Mas se o barulho durante o trabalho se resolveu, a verdade é que a vida na universidade não se resume ao trabalho no gabinete. E era impossível, para qualquer membro da Universidade do Minho, circular pelos campus, fosse para ir à biblioteca, almoçar ou tratar de outro assunto qualquer, sem se deparar com aquele espetáculo indesejado de barulho e humilhação, voluntária ou não (isso é o que menos me interessa – não é por alguém querer participar neste evento que ele passa a ser tolerável). A decisão da equipa reitoral, por isso, é de aplaudir e só peca por tardia. Bem como a de retirar do protocolo da Universidade o “veterano” da praxe, onde até muito recentemente tinha assento! Resta agora aos praxantes acabar com a praxe... ou passar a fazê-la nas ruas de Braga (a praxe tem de ser feita em público: a humilhação, se não for pública, não conta para nada). Inclino-me mais para a segunda hipótese: a praxe e a “tradição académica” recebem um amplo apoio dos dois principais jornais da cidade, conforme se pode verificar nestas duas “primeiras páginas” do mês passado (curiosamente, ou talvez não, um destes jornais é conotado com a Igreja Católica e assumidamente de “inspiração cristã”). Conforme bem diz o comunicado do reitor, a praxe constitui um ataque à liberdade, à dignidade e à urbanidade. Vamos ver como a urbanidade de Braga reagirá a praxes nas ruas.

2011/10/17

No rescaldo da manifestação de ontem

Foto de José Carlos Pratas - "Diário de Notícias"
Em Lisboa, como podem ver, eram muitos os indignados. Tudo boa gente, se excetuarmos um grupo que andava lá pelo meio: facilmente identificável, ao centro da foto, através de um fulano com uma camiseta vermelha, claro, e uma mochila "QCD" também vermelha. Ao seu lado um jovem socialista, um conhecido republicano laicista e uma física de partículas. Tudo gente estranha.

2011/09/29

De volta a Majorana (sim, o dos neutrinos)

É hoje apresentado o livro "O Grande Inquisidor", de João Magueijo, sobre a vida (na verdade, mais sobre a morte) do físico italiano Ettore Majorana. Já aqui escrevi sobre Majorana; é bom que haja autores portugueses a debruçarem-se sobre este fascinante assunto. Mas é bom também não esquecer que o escritor siciliano Leonardo Sciascia sobre ele escreveu um romance ("Majorana morreu", cuja única edição em português é da brasileira Rocco e se encontra esgotado. Editoras portuguesas: vamos rever isto?

2011/09/09

Luke e os deolindos

Conheci o Luke no hostel onde fiquei em Praga. O Luke era mais um australiano que dedicava uns meses da sua vida a conhecer outros países, tal como tantos outros australianos que se podem encontrar em tantas pousadas no mundo. Talvez por viverem longe de quase todos os outros países, não existe povo mais obcecado em viajar e conhecer o mundo que o australiano. Também se encontram Europa fora grupos de portugueses e outros europeus, em inter-rails ou graças às companhias aéreas de baixo custo, mas sempre em grupos: nenhum como estes australianos, que viajam sozinhos durante meses, como era o caso do Luke. Uma diferença importante entre os portugueses e os australianos é que estes, tipicamente, trabalham para poderem pagar o seu período de viagem, enquanto os jovens portugueses geralmente esperam que sejam os pais a financiarem. É uma crítica, provavelmente justa, que se faz à “geração 12 de Março”, os “deolindos”: estão habituados a receber tudo de mão beijada, não sabendo dar o devido valor às coisas. Não lhes passaria pelas cabeças trabalhar para pagar as férias. Enquanto eu me entretinha nestas divagações, o Luke lá se entretinha ao longo dos dias a cozinhar esparguete e fazer cocktails. Eu estava a participar num congresso; à noite via-o sempre na sala comum, e comecei a ficar curioso sobre que vida era a dele. Um dia ele ofereceu-me uma mistura de rum com fanta, e foi nessa altura que lhe perguntei quanto tempo mais ia ficar em Praga. Ele disse que já tinha visto o que mais lhe interessava ver na Europa, e então tinha decidido ficar em Praga até à data do seu regresso, daí a duas semanas, pois lá tudo era mais barato incluindo a cerveja. Perguntei-lhe se não seria melhor alterar a data do bilhete de avião e antecipar o regresso. Ele respondeu-me que ainda tinha que ir a Valência, pois fazia questão de participar naquela coisa chamada “tomatina”. Em Portugal, organizam-se manifestações (em que eu participei) contra a precariedade e mesmo a dificuldade em obter um emprego. A maioria dos participantes nessas manifestações não queria mais do que o acesso a um emprego digno, que lhes dê estabilidade, permita construir família e mais tarde ter uma reforma – é esse o seu objetivo. O objetivo dos jovens australianos, a avaliar pelo Luke, não passa por estabilidade nem por reforma – é viajar e participar na mais estúpida de todas as festas (tão estúpida que até já existe uma versão bracarense). Acho que prefiro os nossos deolindos.

2011/09/08

Mais impressões da República Checa baseadas numa visita ao Museu do Comunismo

A rejeição de toda e qualquer ideia socialista de que falei é patente no Museu do Comunismo de Praga. Já visitei museus semelhantes em Berlim e Moscovo, e não saí de nenhum com a sensação de que saí do de Praga: de ter visitado um museu de pura propaganda. Em Berlim é relatada a história do muro: a divisão de uma cidade, a separação das famílias, os checkpoints, os guardas, os esquemas para fugir, os mortos. Em Moscovo é-nos apresentada uma história da revolução soviética. O golpe de Lenine é-nos mostrado em pormenor nos seus diferentes aspetos, não deixando de se evidenciar o seu caráter antidemocrático. Em ambos os casos são apresentados factos, cabendo ao visitante fazer o seu julgamento da História. No Museu do Comunismo de Praga tudo é bem diferente. Logo os cartazes de propaganda, em guias turísticos, não enganam na forma como apresentam o local (e que bem corresponde à realidade): situado ao lado de um casino e por cima de um McDonald’s. No museu fazem gala deste facto. Agradou-me ver certas descrições do quotidiano na Checoslováquia comunista e compreendo que os comunistas sejam “maus da fita”. Já compreendo menos que sejam os únicos maus da fita: não o foram, nem sequer na Checoslováquia. Mas naquele museu o comunismo é o mal absoluto, e toda e qualquer ideia com ele vagamente relacionada, como o socialismo, a social democracia e a esquerda em geral é automaticamente rotulada como “absurda”. Nem que para isso se tenha de distorcer um pouco a realidade, com legendas diferentes em línguas diferentes. Nem que se tenha de apresentar os crimes ecológicos cometidos pelos comunistas, esquecendo que tais crimes ecológicos não eram assim vistos nesse tempo, e que também eram cometidos pelos principais países industrializados e não somente pelos comunistas. A visão da História deste museu é parcialíssima e subjetiva, mas receio que seja mesmo a do povo checo. Vim mais tarde a saber que os donos deste museu são americanos. Poderiam tê-lo instalado em Berlim ou Moscovo. Escolheram Praga porque provavelmente não havia no mundo outra cidade onde este museu tivesse a mesma recetividade.

2011/09/06

Algumas impressões da República Checa

A República Checa é um país que lida muito mal com o seu passado recente. Não me pareceu que houvesse propriamente feridas abertas: não me parece um assunto polémico na sociedade. Há uma rejeição generalizada da ditadura comunista, como seria bom que houvesse, por exemplo, das ditaduras fascistas em Portugal ou Espanha; isso parece-me normal e positivo. O que não me parece normal (nem positivo) é a rejeição de toda e qualquer ideia socialista. Se se juntar a esta rejeição a desconfiança que os checos têm em relação aos estrangeiros (que se justifica por serem uma nação jovem que foi invadida e ocupada, primeiro por Hitler e depois pela URSS), torna-se dificilmente sustentável a sua presença em organizações internacionais baseadas na cooperação, como deveria ser a União Europeia. Mas a verdade é que são membros, após grande insistência da Alemanha. Não admira que os checos tenham o presidente que têm. A história recente da União Europeia é a história do triunfo de políticos como Vaclav Klaus. Recordam-se do que Klaus disse a Cavaco Silva, na sua visita à República Checa? Pois é.

2011/09/05

Adeus, ó chocolatinho!

Independentemente dos (muito questionáveis) méritos futebolísticos do Yannick Djaló, é com indisfarçável alívio que o vejo sair do Sporting. A partir de agora, durante as transmissões televisivas dos jogos, vão deixar de focar uma criatura que, a primeira vez que a vi, julguei que fosse o José Castelo Branco. Parece que essa rapariga é atriz, casada com Djaló e num reality-show qualquer referia-se a ele como “o seu chocolatinho”, e se não sabia dele às escuras pedia-lhe para abrir a boca. E parece que para os realizadores televisivos ela é mais importante que um clube centenário, considerando as vezes que era focada. Adeus, Yannick; vai lá para o Nice e leva contigo a Floribela e a Lyonce Victória (é assim que se escreve?).

2011/08/24

Algumas impressões sobre a situação do Sporting

Nenhuma falha na arbitragem justifica a inépcia atacante da equipa. E aqui não se pode isentar de responsabilidades o treinador. Perante uma equipa, custa-me dizê-lo, fraquíssima (o Beira Mar não sabia o que fazer com a bola quando a tinha no meio campo do Sporting: nenhum ataque deles me assustou), por que razão o Sporting não foi capaz de fazer uma jogada de jeito na primeira parte? Se há necessidade de substituir dois jogadores de uma vez, por opção tática, passada pouco mais de meia hora, aqui também há erro do treinador, que não terá sabido avaliar corretamente o estado dos jogadores antes do início do jogo. Domingos: o Djaló não serve; o Postiga não pode ser primeira opção; se o Wolfswinkel ainda não se adaptou e o Jeffren e o Bojinov não podem jogar, tens o Carrillo e sobretudo o Rubio. O Boloni foi campeão tendo lançado, aos 18 anos, o Quaresma, o Hugo Viana e mais tarde o Cristiano Ronaldo. A direção do Sporting tem de se manter firme no conflito com os árbitros, nem que isso implique que o Sporting não tenha árbitros de “primeira categoria” portugueses a apitar os seus jogos nos próximos tempos. Não é aceitável a forma como a classe dos árbitros reage aos protestos do Sporting, protestos que, para além de legítimos, não são mais graves que os de outros clubes. Em 1999 a história repetiu-se: só boicotam os jogos do Sporting. Tal facto, repetido, revela que, doze anos depois, a cultura antisportinguista ainda reina na arbitragem e no “sistema” do futebol português. Reitero: o Sporting deve insistir no facto de não precisar dos árbitros portugueses. Se não quiserem arbitrar os jogos do Sporting, que venham árbitros estrangeiros.