"Worse than working on a credible theory that is far from experiment is to work on a theory close to experiment but which is not credible." (J. Polchinski)
"It has been a historical mistake not to pay more attention to what theorists say." (J. Maldacena)
Na conferência Quantum Gravity in the Southern Cone em que participo.
2010/07/30
2010/07/29
Elas dançam sozinhas
Muitos estudantes da Universidade Nacional de La Plata, na província de Buenos Aires, foram vítimas dos crimes da ditadura argentina nos anos 70. Estes estudantes, e muitos outros cidadãos, eram raptados, provavelmente para serem atirados vivos de aviões. Mas desapareciam sem deixar rasto. As famílias não eram informadas. Nunca mais ninguém sabia deles.
Em frente ao Departamento de Física da Faculdade de Ciências Exatas da Universidade de La Plata existe o monumento da foto, aos estudantes da faculdade desaparecidos. Cada tijolo que falta representa um desses estudantes. Um deles era filho de uma das mais conhecidas “mães de Maio”. Na inauguração do monumento, a faculdade naturalmente convidou-a. Ela não compareceu, alegando que não acredita que o seu filho tenha desaparecido.
Em frente ao Departamento de Física da Faculdade de Ciências Exatas da Universidade de La Plata existe o monumento da foto, aos estudantes da faculdade desaparecidos. Cada tijolo que falta representa um desses estudantes. Um deles era filho de uma das mais conhecidas “mães de Maio”. Na inauguração do monumento, a faculdade naturalmente convidou-a. Ela não compareceu, alegando que não acredita que o seu filho tenha desaparecido.
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2010/07/26
2010/07/19
Numa suíte de um hotel em Barajas, Madrid...
...à espera da ligação para Buenos Aires. A ligação original, esta madrugada, foi impossível de apanhar graças ao atraso do vôo Lisboa-Madrid.
2010/07/18
Rumo ao sul
Vou à terra da Mafalda por duas semanas. Não deixarei de a visitar, como é óbvio. E verificarei se é mesmo verdade que no hemisfério sul as ideias nos caem. E os turbilhões giram em sentido contrário.
2010/07/16
Resumo rápido do Mundial de Futebol
Um campeão do mundo inédito – e uma proeza inédita para uma seleção europeia: ser campeã fora do seu continente. A única seleção que até hoje conseguira tal desiderato fora o Brasil – em 1958 (campeão na Suécia) e em 2002 (campeão na Coreia e no Japão).
Integrando ao longo do tempo (em linguagem comum, historicamente) a Holanda merecia mais um campeonato do mundo do que a Espanha. Mas a verdade é que esta Espanha, nos dias de hoje, é muito mais herdeira do vistoso futebol holandês da década de 70 do que a atual Holanda. Parabéns aos campeões. E aos derrotados, e a todos os que fizeram este magnífico e emocionante mundial.
Integrando ao longo do tempo (em linguagem comum, historicamente) a Holanda merecia mais um campeonato do mundo do que a Espanha. Mas a verdade é que esta Espanha, nos dias de hoje, é muito mais herdeira do vistoso futebol holandês da década de 70 do que a atual Holanda. Parabéns aos campeões. E aos derrotados, e a todos os que fizeram este magnífico e emocionante mundial.
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2010/07/11
A mais importante das coisas menos importantes
Por estes dias, nos blogues de esquerda quase só se fala de futebol.
Embora eu concorde plenamente com este texto do Nuno Ramos de Almeida – a política não é definitivamente chamada para explicar o que se passa no relvado -, é
bastante consensual que a forma de jogar das seleções reflete caraterísticas nacionais. Os exemplos são vários: a organização e o coletivo alemães, o individualismo e o improviso sul-americanos, o cinismo e o maquiavelismo italianos… Penso mesmo que as extrapolações da política para o futebol têm mais a ver com as extrapolações destas caraterísticas para a política. E no dia a dia estas caraterísticas, se não fazem a política, fazem parte da realidade internacional.
Um bom exemplo de tais extrapolações será o definir-se, como é habitual, um futebol mais baseado nos rasgos individuais como “de esquerda”, enquanto um futebol mais disciplinado taticamente seria “de direita”. Num contexto internacional, quem pratica o primeiro tipo de futebol são países emergentes como o Brasil ou a Argentina e “PIGS” como Portugal, enquanto o arquétipo de quem pratica o segundo tipo de futebol é quem dita a ordem na Europa, a Alemanha. Mas estes países, como todos os outros, já tiveram governos de esquerda e de direita, e nem por isso as suas caraterísticas mudaram. Esta distinção pode fazer sentido para altermundialistas para quem quem governa é sempre de direita, mas não creio que tenha grande utilidade prática.
Dito isto, falar-se em futebol “de esquerda” como o mais espetacular, o mais aberto, em oposição a um futebol “de direita” mais fechado e mais interessado no resultado preocupa-me pelo que indicia. Então a esquerda não está preocupada com o resultado? Só a direita é que está interessada em ganhar?
Embora eu concorde plenamente com este texto do Nuno Ramos de Almeida – a política não é definitivamente chamada para explicar o que se passa no relvado -, é
bastante consensual que a forma de jogar das seleções reflete caraterísticas nacionais. Os exemplos são vários: a organização e o coletivo alemães, o individualismo e o improviso sul-americanos, o cinismo e o maquiavelismo italianos… Penso mesmo que as extrapolações da política para o futebol têm mais a ver com as extrapolações destas caraterísticas para a política. E no dia a dia estas caraterísticas, se não fazem a política, fazem parte da realidade internacional.
Um bom exemplo de tais extrapolações será o definir-se, como é habitual, um futebol mais baseado nos rasgos individuais como “de esquerda”, enquanto um futebol mais disciplinado taticamente seria “de direita”. Num contexto internacional, quem pratica o primeiro tipo de futebol são países emergentes como o Brasil ou a Argentina e “PIGS” como Portugal, enquanto o arquétipo de quem pratica o segundo tipo de futebol é quem dita a ordem na Europa, a Alemanha. Mas estes países, como todos os outros, já tiveram governos de esquerda e de direita, e nem por isso as suas caraterísticas mudaram. Esta distinção pode fazer sentido para altermundialistas para quem quem governa é sempre de direita, mas não creio que tenha grande utilidade prática.
Dito isto, falar-se em futebol “de esquerda” como o mais espetacular, o mais aberto, em oposição a um futebol “de direita” mais fechado e mais interessado no resultado preocupa-me pelo que indicia. Então a esquerda não está preocupada com o resultado? Só a direita é que está interessada em ganhar?
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2010/07/09
O triunfo dos porcos
Puyol marca contra o dirigismo e protecionismo alemães. Pelos povos do sul, em nome de uma Europa solidária. Dança, Angela Merkel, dança!
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2010/07/07
Perplexo e boquiaberto com a situação do Sporting
Claramente o Moutinho é um jogador à Porto. O Paulo Bento também é um treinador à Porto (esperava que Pinto da Costa o tivesse contratado). Quem nunca foi um jogador à Porto, apesar de lá ter jogado alguns anos, foi este diretor desportivo que o atual presidente se lembrou de ir buscar para o Sporting.
O negócio é o que menos interessa. O que me importa é um dos principais ativos recusar-se a jogar e ser vendido de qualquer maneira. Que presidente é este?
Não sei onde o clube vai parar assim.
O negócio é o que menos interessa. O que me importa é um dos principais ativos recusar-se a jogar e ser vendido de qualquer maneira. Que presidente é este?
Não sei onde o clube vai parar assim.
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2010/07/02
Diz o Público: enquanto não regionalizarem nem fizerem ciclovias mais vale andarmos todos de popó
O “Público” parece ter descoberto as questões relacionadas com mobilidade. Só é pena que, avaliando pelo suplmento da semana passada, esteja a servir-se dela para promover questões que com ela nada têm a ver, pelo menos diretamente.
Num primeiro artigo, anuncia-nos que “já compramos muitas bicicletas – para andar faltam as ciclovias”. Eu sou um defensor da criação de ciclovias em cidades congestionadas por trânsito automóvel (não necessariamente em lugares turísticos só para efeitos de recreio, como se vê agora). Mas, como utilizador quotidiano de bicicleta (sem ciclovias), não posso aceitar que um jornal “decida” que só com ciclovias é que se pode andar de bicicleta. Essa é uma decisão pessoal, que deve ser estimulada (e a criação de ciclovias onde se justifiquem é um bom estímulo), mas que não deve depender nem ficar à espera da criação das mesmas.
Mas o exemplo mais gritante da utilização das questões da mobilidade para fins políticos que lhe são alheios é esta entrevista onde se defende que “sem regionalização não haverá transportes públicos de qualidade”. Eu compreendo que uma rede integrada de transportes públicos extravasa as autarquias, que têm que atuar em rede de uma forma concertada. Mas o principal problema nos transportes públicos em Portugal é a dispersão de operadores – de empresas.
Num primeiro artigo, anuncia-nos que “já compramos muitas bicicletas – para andar faltam as ciclovias”. Eu sou um defensor da criação de ciclovias em cidades congestionadas por trânsito automóvel (não necessariamente em lugares turísticos só para efeitos de recreio, como se vê agora). Mas, como utilizador quotidiano de bicicleta (sem ciclovias), não posso aceitar que um jornal “decida” que só com ciclovias é que se pode andar de bicicleta. Essa é uma decisão pessoal, que deve ser estimulada (e a criação de ciclovias onde se justifiquem é um bom estímulo), mas que não deve depender nem ficar à espera da criação das mesmas.
Mas o exemplo mais gritante da utilização das questões da mobilidade para fins políticos que lhe são alheios é esta entrevista onde se defende que “sem regionalização não haverá transportes públicos de qualidade”. Eu compreendo que uma rede integrada de transportes públicos extravasa as autarquias, que têm que atuar em rede de uma forma concertada. Mas o principal problema nos transportes públicos em Portugal é a dispersão de operadores – de empresas.
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2010/07/01
Durma, dr. Soares!
Foi durante o Prós e Contras desta semana (na segunda parte) que Mário Soares contou a história que aqui reproduzo.
Nos anos 80, era ele primeiro-ministro, por duas vezes o ministro das finanças, Silva Lopes, telefonou para sua casa desesperado, às duas da manhã, a dizer que no dia seguinte o país iria entrar em bancarrota e já não haveria dinheiro para pagar os salários. Das duas vezes Mário Soares respondeu que, se isso fosse mesmo verdade como Silva Lopes temia (e em nenhuma das duas vezes tal se confirmou), no dia seguinte ele, Mário Soares, teria de estar bem desperto para decidir o que fazer. "Por isso, ó Silva Lopes, deixe-me dormir!"
Se, aos 86 anos, o velho cometesse a loucura de se recandidatar a Presidente, eu ainda votaria nele. Mário Soares é o último grande português vivo.
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2010/06/29
A boa notícia futebolística do dia
A dentição mais fotografada em Portugal ao longo dos últimos três anos vai sair para o Real Madrid. Não me importa muito se é bem vendido ou não: nunca percebi a obsessão generalizada à volta desta dentição, bem como nunca percebi a incapacidade do rapaz em manter a boca fechada.
Quanto à outra notícia futebolística do dia, não é nada de inesperado. Qualquer sportinguista sabe a capacidade do Prof. Carlos Queirós em arruinar estratégias e "partir" equipas com substituições incompreensíveis (para a seguir inventar desculpas esfarrapadas). Desta vez não foram 6 por causa do Eduardo, que em conjunto com o Hugo Almeida era quem menos merecia ser eliminado.
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2010/06/25
A falta de sentido de Estado de Cavaco
A ausência de Cavaco Silva do funeral de José Saramago só vem confirmar a sua gritante falta de sentido de Estado. Cavaco é o chefe de Estado e José Saramago era só o português mais conhecido no mundo. Basta comparar a ausência de Cavaco com a presença do governo espanhol (que enviou a vice-presidente) e com as reações do líder da direita espanhola, Mariano Rajoy, com quem Saramago teve grandes polémicas e divergências, para se confirmar mais uma vez que o presidente português é um homem mesquinho e rancoroso, que não prestigia o país.
É verdade que, se Cavaco tivesse ido ao funeral, poderia haver quem o acusasse de oportunismo eleitoral. A origem de todo este problema está na atitude do governo de Cavaco perante Saramago, de que Cavaco nunca se retratou (e oportunidades nunca lhe faltaram). A grandeza de um homem também se vê na capacidade de reconhecer os seus erros. Também aqui a grandeza de Cavaco nunca se viu.
A ler: José Vítor Malheiros, citado pela Shyznogud.
É verdade que, se Cavaco tivesse ido ao funeral, poderia haver quem o acusasse de oportunismo eleitoral. A origem de todo este problema está na atitude do governo de Cavaco perante Saramago, de que Cavaco nunca se retratou (e oportunidades nunca lhe faltaram). A grandeza de um homem também se vê na capacidade de reconhecer os seus erros. Também aqui a grandeza de Cavaco nunca se viu.
A ler: José Vítor Malheiros, citado pela Shyznogud.
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2010/06/23
O que vale um ex-diretor do Público
São várias as inconsistências e incorreções neste texto de José Manuel Fernandes. Do lado dos escritores que nunca ganharam o Nobel, para além de referir incorretamente um premiado (como recorda o Nuno Ramos de Almeida), inclui pelo menos dois escritores ainda vivos (Rushdie e Vargas Llosa), que nada garante que não o venham a ganhar.
Do lado dos que ganharam o Nobel da literatura sem grande mérito, esquece-se de mencionar o mais injustificado destes prémios: o atribuído a Winston Churchill. Deve ser por Churchill ser a sua grande inspiração ideológica.
Mas nem isso é o mais importante. O que conta, a meu ver, é esta realidade: JMF lamenta sempre a “falta de reconhecimento do mérito dos melhores” por parte da nossa sociedade – desde que sejam empresários, “empreendedores”. Na hora da morte do mais reconhecido escritor português, JMF prefere desvalorizar desta forma o prémio que o imortalizou, revelando assim a sua mesquinhez e pequenez.
É verdade que Saramago não teria todo o reconhecimento universal que teve se não tivesse ganho o Nobel da literatura (embora já fosse um escritor conhecidíssimo internacionalmente quando o ganhou). Mas também que reconhecimento teria José Manuel Fernandes se não tivesse sido diretor do Público?
Do lado dos que ganharam o Nobel da literatura sem grande mérito, esquece-se de mencionar o mais injustificado destes prémios: o atribuído a Winston Churchill. Deve ser por Churchill ser a sua grande inspiração ideológica.
Mas nem isso é o mais importante. O que conta, a meu ver, é esta realidade: JMF lamenta sempre a “falta de reconhecimento do mérito dos melhores” por parte da nossa sociedade – desde que sejam empresários, “empreendedores”. Na hora da morte do mais reconhecido escritor português, JMF prefere desvalorizar desta forma o prémio que o imortalizou, revelando assim a sua mesquinhez e pequenez.
É verdade que Saramago não teria todo o reconhecimento universal que teve se não tivesse ganho o Nobel da literatura (embora já fosse um escritor conhecidíssimo internacionalmente quando o ganhou). Mas também que reconhecimento teria José Manuel Fernandes se não tivesse sido diretor do Público?
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2010/06/21
Discurso da Ministra da Cultura na Cerimónia de Homenagem a José Saramago
Um discurso notável, para recordar mais tarde.
Era uma vez um rei que fez promessas de levantar um convento em Mafra, um soldado maneta, uma mulher que tinha poderes, e um padre que queria voar numa Passarola e que morreu doido;
Era uma vez Jesus, que disse a Maria Magdalena - “quero estar onde a minha sombra estiver, se lá é que estiverem os teus olhos”;
Era uma vez um cão que lambeu as lágrimas a uma mulher desesperada num mundo de cegos, desejando também cegar para ser poupada aos horrores que a vista lhe trazia;
Era uma vez a morte, que tinha um plano e que o cumpriu – abraçou-se ao homem sem que ele compreendesse o que lhe estava a suceder, e ela, a morte, que nunca dormia, deixou descair suavemente as pálpebras enquanto adormecia; no dia seguinte, ninguém morreu;
Era uma vez um homem, que quando morreu, partiram 2 pessoas: saiu ele, de mão dada com a criança que foi – tal como o próprio José Saramago previu, nas suas próprias palavras.
Era uma vez e tantas outras vezes, o respeito à terra e aos homens, a luta contra as injustiças, a defesa dos direitos humanos, a denúncia contra a guerra do Iraque ou contra a ocupação palestiniana, as causas dos Sem Terra, do movimento anti-globalizante, da preservação do ambiente, ou do anti-clericalismo desassombrado.
Estas e tantas outras, foram as histórias com que o ateu místico, religioso laico, interrogador de Deus e dos homens, José Saramago, “comunista hormonal” nas suas palavras, questionou Portugal e o mundo incessantemente, directa ou metaforicamente.
A liberdade do pensamento define o criador: Saramago foi voz lúcida, inconformada, firme, insubmissa na luta contra a desigualdade entre os homens – esta sim “a verdadeira miséria”, dizia.
Parte da imensa receptividade que as suas obras têm merecido em todo o mundo, e que a atribuição do Nobel cimentou e glorificou, deve-se a esse carácter humanista, à esperança que a sua obra impõe ao Homem.
Recebeu o Prémio Nobel da Literatura «... pela sua capacidade de tornar compreensível uma realidade fugidia, com parábolas sustentadas pela imaginação, pela compaixão e pela ironia», segundo a Academia Sueca.
Fiel ao seu compromisso com a consciência, usou a escrita para uma reflexão sobre as grandes causas da humanidade, edificando uma obra coerente, ousada, sólida, moldada pela ética, visando, sempre, a dignificação do Homem.
E fê-lo por vezes subvertendo normas - quer de narrativa (o seu estilo é inconfundível, nas suas frases longas e de pontuação singular), quer enfrentando dogmas - não tinha fé em Deus (mas certamente Deus teve fé nele).
Para ele a escrita, enquanto forma de expressão do pensamento e de intervenção intelectual, foi instrumento, foi arma, foi agente provocador e plataforma de interrogação permanente do indivíduo e da sociedade.
Com a sua actividade cívica aliada à criação literária, cumpriu aquilo que é mais caro aos criadores e aos artistas – conseguiu com a sua obra fazer pensar os destinatários, perturbar os conformados, incomodar as consciências e aguçar a lucidez.
Deixa a Fundação José Saramago, à qual se dedicará a companheira e musa da sua vida, Pilar Del Rio, força inabalável que foi determinante na sua alma e na sua obra, a quem também prestamos aqui homenagem. Fundação José Saramago que assume, entre os seus objectivos principais, a defesa e a divulgação da literatura contemporânea, a defesa e a exigência de cumprimento da Carta dos Direitos Humanos e o cuidado do meio ambiente.
Enquanto escritor português, José Saramago deu um incontestável contributo para a afirmação e difusão da Língua Portuguesa, para a divulgação da Literatura Portuguesa e para a união do mundo lusófono. Embaixador da cultura portuguesa no mundo, a influência da sua obra estendeu-se a um amplo espectro de outras expressões artísticas - na ópera, no cinema, nas artes visuais, sublinhando a universalidade da sua linguagem.
A Literatura Portuguesa, as Literaturas em Português, com Saramago, adquiriram ressonância internacional e prestígio global, pela universalidade das questões que o Escritor agarra e reflecte com tenacidade e vigor, e pelo génio sísmico com que as dá a ler, a pensar, através da sua escrita.
Portugal homenageia hoje o homem, simples, sensível e corajoso;
Portugal celebra em Saramago, a sua humanidade, grandeza e universalidade;
Portugal orgulha-se do Escritor e engrandece-se com a sua obra, poliédrica, ímpar e seminal.
Portugal agradece, sentida e sinceramente, o encontro mágico de Saramago com a Literatura, e o lugar único e perene que José Saramago ocupará para sempre na Literatura e na Cultura do mundo.
Como escreveu ontem um amigo a Pilar, - Não há palavras. Saramago levou-as todas…
Obrigado José Saramago.
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Livros
2010/06/20
Até sempre, Saramago
Fui apanhado (fomos todos) completamente de surpresa. Ainda me custa a acreditar. Faço minhas as palavras de Hélia Correia:
"Palavras e palavras vão cair com um grande barulho neste dia e todas elas ficarão aquém da grandeza deste homem".
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Livros
2010/06/19
O fator Deus
Texto de José Saramago, Público, El Pais e Folha de São Paulo, 19/09/2001
Algures na Índia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá "ver" cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes.
Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um
negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro. Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras. Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova York. Dois aviões comerciais norte-americanos, sequestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico, lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo.
Algures na Índia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá "ver" cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes.
Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um
negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro. Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras. Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova York. Dois aviões comerciais norte-americanos, sequestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico, lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo.
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2010/06/18
Obrigado, José Saramago
Obituário do The New York Times
José Saramago, Nobel Prize-Winning Writer, Dies
By FERNANDA EBERSTADT
José Saramago, the Portuguese writer who won the Nobel Prize in Literature in 1998 with novels that combine surrealist experimentation and a kind of sardonic peasant pragmatism, died Friday at his home in Lanzarote in the Canary Islands. He was 87. The cause was multiple organ failure after a long illness, the José Saramago Foundation said in an announcement on its Web site.
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2010/06/15
"Padre João Resina: o engenheiro de Deus"
Por António Marujo, Público, 11.06.2010
Havia quem não gostasse das homilias do padre João Resina, que morreu no dia 3, em Lisboa. Quando passou pela paróquia de Santa Isabel, em Lisboa, era escutado por agentes da PIDE, polícia política do Estado Novo, que tentava apanhá-lo nas críticas ao regime.
Os agentes colocavam-se junto das colunas de som, com gravadores. O padre João decidiu fazer o mesmo, para que a PIDE não inventasse acusações: escondia um gravador sob o altar. Antes do fim da missa, tirava discretamente a cassete e guardava-a.
"Nunca em Santa Isabel houve tanta PIDE", recorda ao P2 José Maria Fontes, de 79 anos, sacristão durante 39 anos, até Janeiro de 2000. "Ficavam perto das colunas." Ainda assim, João Resina não foi molestado pela polícia política.
Vários amigos passaram a gravar as homilias. Já em democracia, alguém lhe pediu que escrevesse uma síntese. No final das missas, o padre passou então a dar, a quem pedia, a folha com o resumo. O hábito deu origem aos dois volumes de A Palavra no Tempo (ed. Multinova e Entrelinhas, respectivamente), que recolhem muitos desses textos.
João Manuel Resina Rodrigues nasceu a 5 de Outubro de 1930, em Carnaxide (Oeiras). Em 1953, licenciou-se em Engenharia Química no Instituto Superior Técnico. Só depois decidiu ser padre: foi ordenado em 1959. O gosto pela ciência fê-lo regressar ao Técnico, onde deu aulas durante 30 anos e integrou o Centro de Física da Matéria Condensada. Publicou várias obras sobre Física e História e Filosofia das Ciências.
Augusto Moutinho, de 71 anos, professor da Universidade Nova, foi seu colega no Técnico entre 1974 e 1979. "Apaziguava muitas coisas que, nas universidades, são sempre difíceis de resolver", recorda. Mas era, sobretudo, um homem de ciência. E ultimamente, conta, andava "muito entusiasmado" a traduzir os Princípios, de Isaac Newton.
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