2010/05/13

Maria Amélia Cesário Alvim (1910-2010)


Do JBonline:

Matriarca da família Buarque de Holanda morre aos 100 anos

RIO - Aos 100 anos, Maria Amélia Cesário Alvim Buarque de Hollanda morreu de maneira discreta, na madrugada de quinta-feira: dormindo e de causas naturais. Estava no apartamento do sétimo andar do Edifício Alcazar, construído na década de 30, na pequena Rua Almirante Gonçalves, nº 4, em Copacabana, quase ao lado do botequim Bip Bip, um dos redutos da boêmia carioca que, aliás, Memélia – apelido de família dado pela neta Bebel Gilberto – ajudou a abrir. Mas nunca gostou de que se falasse nisso. A discrição foi uma de suas marcas.

Como boa matriarca, Maria Amélia atuava à sombra e à moda antiga. Ajudou nas pesquisas e datilografou os originais do clássico Raízes do Brasil, de 1936, escrito pelo marido, o historiador e crítico Sérgio Buarque de Hollanda (1902-1982). Enquanto Sérgio mergulhava nos estudos e pedia sossego para poder trabalhar, ela cuidava da parte prática, administrando a casa da Rua Buri, no Pacaembu, São Paulo, e educando os sete filhos: Sérgio, Álvaro, Maria do Carmo, as cantoras Ana, Cristina e Miúcha e o compositor Chico Buarque. Mais tarde, também não descuidou dos 13 netos e 12 bisnetos.

O bom gosto musical dos Buarque de Hollanda deve-se aos ouvidos de Maria Amélia. Ensinou os filhos a cantar samba, gênero de sua preferência, e a torcer pela Mangueira. Até participou de gravações: a voz dela está ao fundo de O meu guri, no registro de Cristina Buarque para a canção do irmão. No futebol, era Fluminense.

O Partido dos Trabalhadores, que ajudou a fundar, foi a paixão política de Maria Amélia. Foi ela a primeira pessoa a contribuir com a campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, em 1989, com um cheque da pensão de viúva a que tinha direito. A gratidão fez com que o atual presidente, em vindas ao Rio, sempre passasse no apartamento de Copacabana para cumprimentá-la.

Quinta-feira, em nota, o presidente Lula disse que “Maria Amélia era uma pessoa que aliava ternura a firmeza, inteligência e preocupações sociais. Mesmo sendo filha de família tradicional, durante toda a vida lutou e apoiou as lutas pela liberdade e por uma sociedade mais igualitária”.

O governador Sérgio Cabral lembrou que “Maria Amélia foi uma grande mulher, matriarca de uma família que, na música e na literatura, simboliza o talento brasileiro”.

No Twitter, Dilma Rousseff, candidata do PT à Presidência, lamentou “a perda da grande mulher”.

Presidente da Academia Brasileira de Letras, Marcos Vilaça, disse que a ABL se entristeceu:

– Ela foi casada com uma figura eminente da cultura brasileira e tem filhos igualmente ilustres, figuras singulares em diversas manifestações culturais do país.

O acadêmico Antonio Torres disse que Maria Amélia “foi um exemplo de pessoa generosa e desinteressada”.

– A festa de aniversário de 100 anos foi muito bonita, mas sentíamos que não se repetiria. Ela morreu sem sofrer. Seu coraçãozinho cansou e parou de bater.

O corpo de Maria Amélia será cremado sábado, no Memorial do Carmo, no Caju.

Dia de tristeza e lembranças para amigos e vizinhos

Alfredo Melo, dono do bar Bip Bip em Copacabana, de cuja criação Maria Amélia foi grande entusiasta, lamentou a morte de uma amiga:

– Vai ficar um vazio muito grande.

Segundo o comerciante Maria Amélia tinha um “coração lindo”, estava sempre bem humorada e preocupada com o bem estar alheio.

A cabeleireira Tânia Alves conta que atendeu Maria Amélia por nove anos no Karoline Coiffeur, localizado na Almirante Gonçalves. Tânia contou que, por vezes, era chamada à residência da mãe de Chico Buarque e Miúcha para fazer-lhe o cabelo e as unhas.

Ao longo desta última quinta-feira, os familiares de Maria Amélia estiveram no prédio onde ela morava. A neta Sílvia Buarque foi acompanhada da mãe, a também atriz Marieta Severo. O produtor cinematográfico Pedro Buarque compareceu ao local com um amigo.

Por volta das 19h, o corpo foi levado para retirada do marca-passo, que não pode ser cremado.

O que teria sido de Sérgio Buarque de Holanda sem esta mulher, que preferiu refugiar-se na discrição? (Chico tem bem a quem sair.) Acrescento uma história deliciosa, pelo escritor Mário Prata:

MARIA AMÉLIA CESÁRIO ALVIM BUARQUE DE HOLLANDA, do lar da Buri (São Paulo, 1972)
Foi na festa de 70 anos do marido, o professor Sérgio, que ela me achou na cozinha, atrás de gelo. Sempre me chamou de Mario Prata.
-- Mario Prata, eu tenho percebido que o Chico tem andado muito com você e então eu queria te pedir um favor. Uma ajuda.
Fiquei curiosíssimo em que ajuda poderia ser essa. Na época, o Chico estava no auge da carreira e eu me orgulhava daquele papo com a mãe dele na cozinha.
-- Pois não, dona Maria Amélia.
Ela balançou o corpinha de cachaça e me falou, séria:
-- Fala pra ele terminar a faculdade de Arquitetura, fala. Ele era tão bom aluno de hidráulica.
Dois anos antes, o Chico havia feito "Apesar de você" que tinha passado pela censura, até que um gênio da Folha insinuou que a música tinha sido feita para o Médici. Foi proibida.
As rádios não podiam mais tocar, o Chico não podia mais cantar em show. Mas o público cantava.
Aí, os militares proibiram o público de cantar. O Chico não podia nem solar no violão.
E, num show, o público começa a pedir, a implorar. O Chico nada. Fazia que não era com ele.
Foi quando a dona Maria Amélia se levantou no meio da plateia:
- Meu filho, seja homem! Canta!
No dia seguinte ele estava na polícia dando explicações, apesar de você:
O militar:
-- Quem é o VOCÊ?
-- É uma mulher mandona, muito autoritária!
Agora, outro dia, depois de anos, encontro com a dona Maria Amélia. Queria falar deste livro e pedir a sua autorização para este verbete:
-- Dona Maria Amélia, estou escrevendo um livro que se chama "Minhas mulheres e meus homens" e...
-- Eu sei. É sobre seus filhos e suas filhas.
-- Não, dona Maria Amélia, é...
Ela riu da minha cara:
-- É uma caçoada, Mario Prata...
Eu tinha me esquecido do pique dela.

2010/05/12

Foi a 24 de Abril

Bandeira do PCP impede funeral (via Um Tal de Blog).

Publicado originalmente no Esquerda Republicana

2010/05/11

Reunião da ANICT

Foi um jornal do Minho quem melhor relatou o que se passou neste fim de semana, mas infelizmente só no final do Simpósio da ANICT. Mesmo assim, muito melhor que todos os outros jornais que li.

2010/05/10

Benfica campeão (5)

O Benfica é um justo campeão. O Braga fez um excelente campeonato. Da minha parte, valha-me o Beira Mar...

Benfica campeão (4)

Sentia-me rodeado de adeptos benfiquistas que se dirigiam ao Marquês de Pombal como se estivesse no meio de uma festa que não era minha. Não me sentia propriamente mal. Sentir-me-ia mal se o Benfica tivesse ganho o campeonato na última jornada ao meu clube, mas o Benfica não tem culpa que o meu clube tenha realizado a pior época de sempre, tendo ficado pela primeira vez mais perto do último que do primeiro, em termos de pontos.
Senti-me melhor ali, provavelmente, que em Braga. A equipa do Braga está de parabéns. Os adeptos, não, como se comprova pela invasão da Casa do Benfica em Braga. Confirma o que há muito sentia: no Minho os adeptos de futebol são fanáticos.

Benfica campeão (3)

Os cachecóis diziam "Graças a Deus não nasci lagarto". Os cânticos eram "Pinto da Costa pró c...". Qualquer um deles é normal. Não venham é dizer que só os sportinguistas é que pensam sempre nos adversários.

Benfica campeão (2)

...com a bênção do papa. Era giro olhar para aquela turba a festejar no Marquês de Pombal sob um retrato gigantesco do papa. Mais giro ainda é supor como deixam a cidade para o cortejo da visita de amanhã.

Benfica campeão (1)

hordas de benfiquistas desciam o Parque Eduardo VII em direção ao Marquês de Pombal. É preciso o Benfica ser campeão para os benfiquistas irem pela primeira vez à Feira do Livro.

2010/05/06

Após o jogo

Foi a única vez que fui a Alvalade esta época. O resumo da festa é o que se segue.

O jogador mais assobiado foi o Veloso (pai do Miguel). Cada vez que o Veloso tocava a bola, para além dos tradicionais insultos à avó do Miguel, ouvia-se um “larga a bola, lampião do c******!!”

Já é mais difícil dizer quem foi o jogador mais aplaudido. Do lado dos amigos do Iordanov, foi seguramente o Domingos Paciência, autor de dois golos e que revelou uma bela forma (os outros quatro foram do Pauleta). Nunca o Domingos foi tão aplaudido em Alvalade como ontem (ele que na década de 90 deu algumas vitórias e títulos ao Porto em Alvalade). Ontem, sempre que tocava na bola, só ouvia “Nós só queremos Domingos campeão!” Espero que o apoio do público lhe seja bom.

Do lado do Sporting, para além do Sá Pinto (que marcou dois golos, um deles de penalti e sem o Liedson), o mais aplaudido foi o inesquecível Acosta (que também marcou o seu golinho – um matador não esquece). E o mestre André Cruz. Para além de ter marcado outro golo – de livre direto, como ele sabe – conseguiu ser o único jogador a enfiar a bola num orifício pequeno de uma baliza coberta, num passatempo ao intervalo. Continua a saber pôr a bola onde quer. Um grande, grande jogador.

O jogo estava empatado 6-6, e o Iordanov ainda não tinha marcado (jogou os primeiros minutos pelos “amigos”, e os minutos finais pelo Sporting, tendo ficado no banco a maior parte do tempo). Pedro Henriques marcou um pemalti, o guarda redes dos “amigos” atirou-se ao chão e creio mesmo que se encolheu, mas o Iordanov atirou ao lado. Logo depois, revelando um bom pormenor, rematou de fora da área – um pouco ao lado também, mas se tem entrado era bonito. Finalmente, lá conseguiu. E o jogo acabou. Iordanov agradeceu e pediu aos adeptos para apoiarem sempre o Sporting. Enquanto lá andar este presidente é difícil, mas o facto de ser um pedido de quem foi talvez ajude. Obrigado por tudo, Iordanov!

2010/05/05

Eu vou a Alvalade para homenagear Iordanov...

...mas sobretudo para ver ao vivo (algo que nunca fiz por na altura viver nos EUA) o André Cruz e o Acosta. (Qualquer um destes três daria um melhor diretor desportivo que o Costinha.) E rever alguns portugueses, como o Carlos Xavier (outro bom diretor desportivo).
Mas o que eu receio é que o Sporting se torne nisto: um clube cheio de saudades de si mesmo.

2010/05/04

Daltónicos: Ver o mundo com as cores certas

Impressionante reportagem de Romana Borja-Santos no Público a partir de um projeto de Miguel Neiva.

2010/04/30

A roupa não faz o profissional

Uma caraterística de uma sociedade culturalmente católica como a nossa é a autoridade ser algo imposto e inquestionável. Nestas sociedades, a autoridade tem de ser demonstrada: se não for explícita, pode ser questionada. Uma das formas de demonstrar essa autoridade é através da roupa que se usa.
Reparem por favor na fotografia que apresento. Nela surgem reputados cientistas após uma defesa de tese numa reconhecida universidade americana, de cujo comité faziam parte. Talvez com a exceção do da direita, nenhum deles tem a mínima preocupação com os trajes que usa (o da esquerda está de calções e t-shirt, indumentária que usa o ano inteiro; o do meio usa a mesma roupa o ano inteiro). A sua autoridade, reconhecida pelos seus pares, resulta do seu trabalho e do seu mérito. Ninguém a diminui por eles eventualmente andarem “mal vestidos”. Sobretudo, ninguém considera isso um “desrespeito pela universidade”. Desrespeito pela universidade seria se eles não cumprissem bem as suas funções: se não investigassem, se dessem más aulas. É assim numa sociedade que valorize as pessoas pelo seu trabalho. O que, infelizmente, de um modo geral não é o caso nas sociedades tradicionalmente católicas.
Um deputado também tem uma autoridade inquestionável, resultante de ter sido eleito. Ter sido designado pelos seus eleitores. Pode-se perfeitamente questionar o trabalho de um deputado (não somente os seus eleitores). Pode verificar-se se ele está presente nos plenários, se participa nas comissões, se apresenta propostas. Pode questionar-se a sua autoridade com base nesse trabalho. Mas não com base na roupa que veste no dia a dia, mesmo no seu trabalho. O mesmo para um ministro.
(Excetuam-se aqui indumentárias que violem a lei: nomeadamente, não se aceita um deputado nu ou com roupas não neutras. Há de haver um código de indumentária e acho isso aceitável, mas seguramente não obriga ao fato e à gravata. Esperam-se fatos formais em cerimónias oficiais, mas um plenário quotidiano da Assembleia da República ou uma reunião não são cerimónias oficiais.)
Se no final do seu mandato os seus eleitores entenderem julgar o deputado pela sua roupa e não pelo seu trabalho, que o façam. É pena, mas é democrático. Se entenderem que o deputado era mal vestido e que tal os desprestigiava, são livres de escolherem outro. Mas entretanto ninguém pode julgar um deputado pela roupa que usa.
Contrariamente à Ana Matos Pires, eu não acho que isto seja um assunto menos relevante (ao contrário do “Manso é a tua tia” de Sócrates a Louçã, dito off the record e sem qualquer valor oficial). O meu prezado Pedro Correia é um bota de elástico quase tão grande como o seu colega de blogue António Figueira (tem sobre este a notória vantagem – para um bota de elástico – de não se dizer de esquerda). Como tal, é natural que ache um “desrespeito” pela Assembleia da República os trajes do (julgo que competente) deputado José Soeiro do Bloco de Esquerda, e o seu preconceito leve a julgar o José um mau deputado (há quem diga o mesmo do João Galamba e do seu brinquinho). Tal como achará que os professores desrespeitam a universidade a apresentarem-se assim como a foto documenta (e provavelmente o seu preconceito levá-lo-á a considerá-los menos competentes por isto). Eu estou farto desta mentalidade, nunca a aceitarei e creio que a principal razão do nosso atraso a ela se deve. Há que perguntar com toda a frontalidade: quem se julgam Pedro Correia, José Manuel Fernandes (outro que tal), quem se julgam os jornalistas para questionarem os trajes dos deputados da nação?

Também publicado no Esquerda Republicana

2010/04/29

Maurizio Crozza imita Mourinho


Agradeço ao meu amigo Olindo a indicação deste vídeo da TV italiana.

2010/04/28

João Morais (1935-2010)



O "cantinho do Morais" não se esquece mais. Obrigado por ter dado ao Sporting o seu único troféu europeu, em 1964.

2010/04/27

"Café com blogues" na Brasileira

Hoje em Braga, às 21:00. Comigo, o Luís Aguiar Conraria e o Ricardo Meireles Santos. Transmissão na RUM 4ª feira às 20:00.

2010/04/26

A minha política é o trabalho dignificado e com direitos para toda a gente

O que se escreve sobre a “tolerância de ponto” a propósito da visita do Papa em dois conhecidos blogues da esquerda portuguesa?

No Cinco Dias, para o patusco António Figueira “mais um feriado é sempre mais um feriado”. Os outros que trabalhem. Que é como quem também diz: menos um imposto pago é sempre menos um imposto pago (os outros que paguem). E assim por diante. E ainda vem com a inevitável comparação com os feriados religiosos. Os feriados religiosos até poderiam nem ser obrigatórios (é outra discussão) mas, mesmo sendo-o, estão previstos e planeados. Não são uma medida avulsa e casuística. Não afetam a economia por isso. Mas melhor ainda é quando o António deseja que festividades de diversas religiões fossem reconhecidas como feriados e, reconhecendo que este é um país de “caretas” (por sinal o António deve ser o tipo mais bota-de-elástico da blogosfera portuguesa) ameaça… emigrar! Caro António, sugiro que imprimas esta declaração e a vás entregando junto com os pedidos de visto de trabalho, a ver qual país é que te aceita…

Já no Vias de Facto, Miguel Serras Pereira insurge-se contra um grupo do Facebook já aqui mencionado pelo Ricardo Alves: “eu trabalho e não quero tolerância de ponto no dia 13 de Maio”. Não parece preocupar Miguel Serras Pereira que haja trabalhadores (não funcionários públicos) que não tenham direito à tal tolerância. Nem que alguns, precários a recibos verdes, que até podem ser católicos e, legitimamente, gostassem de tirar um dia de férias para irem ver o Papa, não o possam fazer. E não parece preocupá-lo, também, que haja funcionários públicos que queiram trabalhar (será seguramente o que eu vou fazer). Não passa pela cabeça do Miguel Serras Pereira, pelos vistos, que haja quem queira trabalhar, e que fazer um protesto, ou uma greve, nunca é (ou nunca deve ser) sinónimo de dizer-se que não se quer trabalhar. Bem pelo contrário – por isso, e só por isso, é ofensiva a expressão “a minha política é o trabalho”, despropositadamente citada por Miguel Serras Pereira, que troca tudo.
Passemos por cima do que Serras Pereira considera “politicamente desastroso”: “dada a crise que atravessamos, não podemos perder tempo de trabalho” (pelos vistos para Serras Pereira a crise não existe ou, se existe, os outros – não necessariamente os ricos -que a paguem: ele é que não). O autor do Vias de Facto sugere protestos alternativos, “puxando um pouco pela imaginação”. (Sempre a “imaginação” a descredibilizar a esquerda. Pior que a “imaginação” só o “sonho”.) Que protestos seriam? Um “encontro-convívio-jornada de onde saísse a reivindicação de transformar essa data num feriado anual celebrando a "liberdade de consciência" e/ou a "cidadania laica", que, de resto, a Constituição em vigor consagra.” Quererá Serras Pereira um feriado por tudo o que a constituição em vigor consagra? Mas, mesmo pondo esta questão de parte, atentemos no essencial: o Papa visita Portugal (um direito inquestionável, desde que não seja pago pelos nossos impostos). Só os católicos o deveriam receber (e não o Estado). A resposta de quem defende a laicidade deveria ser a indiferença (tornando este um dia normal – de trabalho). Serras Pereira propõe que o país passe a dedicar um feriado anual a esta data? O Papa deveria sentir-se mesmo importante… E propõe que toda a gente celebre este evento… com um “encontro-convívio-jornada”. O saudoso Odorico Paraguassu, na sua sabedoria, chamava à sua oposição “esquerda cervejista”. O Miguel Serras Pereira assume-se como um membro de pleno direito da “esquerda cervejista”. A este ponto chegámos.

Recordo, a propósito, uma ocasião em que assisti a um debate, na Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, onde participou um dos membros do Vias de Facto, Diana Andringa. Aproximavam-se na altura, todos o pressentiam, tempos (que viriam a ser sangrentos para alguns colegas meus) de combate às propinas, no fim do cavaquismo, e Andringa deixou-nos (eu era caloiro) um conselho que eu nunca esqueci até hoje, e que foi mais ou menos assim: “não bebam e nem joguem às cartas nas manifestações – dá um mau aspeto do caraças”. Miguel Serras Pereira, pelos vistos, quer transformar os protestos em “encontros-convívio”, provavelmente com bebida e jogos de cartas. A Diana Andringa que lhe ensine alguma coisa, se conseguir.

E assim vai certa “esquerda”: só serve para pedir mais um feriadinho. A “jornada suplementar pela batalha da produção” em que se tornou o feriado de 10 de Junho de 1975 (numa iniciativa da Intersindical) seria impensável hoje, por muitas razões (a principal das quais a que cada vez menos pertence ao povo o que o povo produz). Mas, mesmo que pertencesse, uma “batalha da produção” como resposta à crise seria impensável para quem “mais um feriado é sempre mais um feriado”. Quem pensa assim, mesmo à luz da doutrina comunista, não produz muito. E também não lhe deveria pertencer muito.

Também publicado no Esquerda Republicana

2010/04/22

A nova bettencorada: casar com uma benfiquista é uma "infelicidade"

Filipe Soares Franco não compareceu à cerimónia da entrega dos emblemas aos sócios do Sporting com 25 anos de filiação. Provavelmente já nem quer dar confiança aos atuais órgãos sociais do clube. Se tivesse comparecido, poderia ter respondido com o seu próprio exemplo (foi casado com uma benfiquista histórica, e só a sua filha é sportinguista - os filhos são benfiquistas) a mais estas declarações imbecis deste presidente que há muito perdeu o cérebro, se é que alguma vez o teve. Poderia ter dito que o sportinguismo é importante, mas mais importantes são outros valores (a própria cultura sportinguista reconhece isto - e é isto que faz este clube diferente). E poderia ter concluído que não admite (não se admite) que sportinguista nenhum venha julgar a "felicidade" de uma relação com alguém de outro clube.
Se o (tristemente) presidente do Sporting tivesse um mínimo de inteligência, perceberia que não é com "trabalho de sapa" que se angariam sportinguistas. Embora a família possa ter influência na escolha do clube (não o nego), cada vez é menos esse o caso. Para um jovem escolher um clube, é também importante que ele ganhe, mas mais ainda (e tradicionalmente é esse o caso dos sportinguistas) é importante a história, os valores e sobretudo a imagem do clube. E é isso que eu nunca vi ser tão degradado como por este presidente. Na confissão de inferioridade que volta a fazer perante o Benfica e, sobretudo (o mais grave), na mentalidade inerente a uma mãe escolher o clube do filho. É provavelmente assim na família de José Eduardo Bettencourt, mas não é assim nos dias de hoje. José Eduardo Bettencourt parou em meados do século passado, e quer arrastar o Sporting junto com ele.

2010/04/21

Revista de imprensa (Abril 2010)

Para maior azar de Papandreou, no dia seguinte, o mesmo jornal trazia uma reportagem sobre a contestação de rua, em Atenas, às suas medidas, onde se registava a opinião de uma jovem de 26 anos, declarando que, em caso algum, aceitaria que prolongassem a sua idade de reforma, prevista para os 50. Porque, explicava ela, a sua profissão estava considerada por lei como de "desgaste rápido", o que lhe conferia também direito a uma reforma rápida. E qual era a profissão dela? Cabeleireira. É uma das 280 profissões ou trabalhos a que a lei grega reconheceu o estatuto de 'desgaste rápido', em consequência de sucessivas cedências às reivindicações sindicais.
Por diversas razões, que agora não vêm ao caso, eu acho que, aqui, como no resto, a Europa nunca tem sido justa com a Alemanha e nunca reconheceu suficientemente o esforço que a Alemanha tem feito em defesa da Europa e na manutenção de pontes entre o Leste e o Oeste, entre o Mediterrâneo (incluindo a Turquia) e o Norte. Talvez se perceba isso melhor quando se vê uma imigrante turca de Berlim (onde 20% dos habitantes são imigrantes) atirar para o chão, displicentemente, o embrulho do cachorro acabado de comprar. Numa cidade estimada pelos seus habitantes, limpa e onde tudo funciona, que custou milhões aos pagadores de impostos para se unificar e reconstruir depois do Muro, o gesto é uma ofensa que dá que pensar.
Nessa semana, por coincidência, eu também estava em Berlim e percebi bem por que razão 90% dos alemães não querem ajudar a Grécia a sair do buraco onde se enfiou e chegam até à ironia de perguntar se, em alternativa, os gregos não quererão antes vender algumas ilhas. Como me explicou um alemão, "Papandreou representa um país onde toda a gente tem direito a 13º e 14º mês e onde a idade de reforma nunca vai além dos 60 anos. E vem-nos pedir dinheiro a nós, esquecendo-se que aqui não há direito legal a 13º e 14º mês e a idade de reforma já vai nos 67 anos". (Miguel Sousa Tavares, 01-04-2010)
O SAP de Valença foi fechado a partir das 22h - como trinta e dois outros nos últimos três anos. Tinha uma média de 1,7 utentes por noite, os quais mobilizavam um médico, um enfermeiro, um administrativo. Três funcionários do Estado a receber horas extraordinárias e nocturnas a noite toda, para atenderem 1,7 doentes ou autodeclarados como tal: era, provavelmente, a consulta mais cara do país. Se os casos atendidos fossem graves, o serviço servia de muito pouco ou pior: fazia perder tempo a encaminhar o doente para outro lado, onde houvesse condições para o atender; se não fosse grave, o atendimento nocturno servia apenas para retirar um médico do serviço de dia, onde há mais gente para atender. Como não somos o Dubai e não temos dinheiro para manter 24 horas por dia um médico, um enfermeiro e um funcionário ao serviço de cada cidadão, o SAP de Valença fechou. Agora, a população diz que vai a Tuy, em Espanha, logo ali ao lado e onde dizem que são recebidos a qualquer hora e sem sequer pagar taxas moderadoras. Agradecidos, hastearam bandeiras espanholas na vila e dizem que só voltam a ser portugueses quando reabrir o serviço nocturno do SAP. Eu, que dou ao meu país 60% do que ganho a trabalhar, em impostos directos e indirectos, tenho um recado para os de Valença: por favor, continuem espanhóis. (Miguel Sousa Tavares, 15-04-2010)

2010/04/12

"Quem apanhará as minhas trufas?"

"Estamos na época das trufas. Se eu não estiver cá nessa semana, quem colherá as minhas trufas?" Foi esta a desculpa de Grigory Perelman para não comparecer na cerimónia de entrega da medalha Fields pela demonstração da conjetura de Poincaré, em Madrid, há quatro anos (conforme escrevemos aqui). Pelos vistos há cogumelos todo o ano: Perelman também se prepara para recusar o prémio (milionário) do Instituto Clay.

2010/04/07

As viagens da deputada Inês de Medeiros

Na série Seinfeld, a minha personagem favorita era o Kramer. E uma das razões principais para isso é que raramente alguma outra vez terá ficado tão clara a distinção entre lógica e bom senso. O bom do Kramer (com certeza um matemático não aproveitado) defendia pontos de vista que eram absolutamente inatacáveis de um ponto de vista lógico, mas que entravam em conflito com o mais elementar senso comum do dia a dia.
A jurista (é ela que assim se intitula, e frisa-o bem) Isabel Moreira, do Jugular, é algo krameriana na sua argumentação. O pagamento das viagens a Paris da deputada Inês de Medeiros pode até ser estritamente legal, mas não passa pela cabeça de ninguém com um mínimo de bom senso que um deputado da nação tenha ajudas de custo para viagens à sua residência… fora do país. Mais: creio que não passa pela cabeça de ninguém que um deputado da nação tenha residência permanente fora do país.
Excetuam-se, claro, os deputados eleitos pelos círculos da emigração. Mas Inês de Medeiros, recorde-se, apesar de residir em Paris, é eleita pelo círculo de Lisboa, onde é eleitora.
A lógica de Isabel Moreira, a defender quem tem um local de residência e outro de voto, é contrária ao Simplex, e em particular ao Cartão do Cidadão, uma das bandeiras do anterior governo, que tornaria essa prática impossível. Esta situação de Inês de Medeiros não é necessariamente ilegal, porque o Cartão do Cidadão ainda não está generalizado, mas situações como a da deputada têm os dias contados. Entretanto, que fazer com as suas viagens?
Como ponto prévio, declaro-me internacionalista, e europeísta em particular. Dito isto, não faz sentido declarar que o não pagamento de tais viagens põe em causa a “mobilidade dos cidadãos”. Que se paguem tais ajudas a deputados ao Parlamento Europeu, pois acho naturalmente muito bem. Mas a mobilidade entre diferentes países da União Europeia é algo que não se espera de um deputado a um parlamento nacional (que, no contexto europeu, é uma forma local, ou se quisermos regional, de fazer política). Posso concordar com a Fernanda Câncio que este caso abre um precedente, e que se calhar Inês de Medeiros, que não prestou declaração falsa nenhuma, é a menos culpada e não merece um linchamento (mais culpado se calhar é o partido que aceitou a sua candidatura, sabendo estas circunstâncias). E concordo sobretudo quando lamento que o Presidente da AR, tão lesto noutras tomadas de posição, não diga nada sobre este caso. Mas apesar disso tudo (ainda mais estando nós no meio de uma crise profunda, mas mesmo que não estivéssemos), eu não quero pagar as viagens a Paris da deputada Inês de Medeiros.

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2010/04/06

Exposição Internacional de Cartoon

Encontram-se coisas que valem mesmo a pena nesta exposição. O meu favorito, de um autor de traço inconfundível (contemporâneo do Vítor Santos, que quem andou no Técnico nos anos 90 bem conhece) é o Álvaro Santos, que expôs o cartoon que eu aqui reproduzo. A ver, no Centro Vitória do PCP (na Av. da Liberdade, em Lisboa), só até esta sexta feira.









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2010/04/03

Prós & Contras: "quem manda nas escolas?"

Já há quinze dias (num debate sobre o PEC e as contas públicas) havia notado, e esta semana só o confirmei: o programa "Prós & Contras", que antigamente alguém chamava "Prós & Prós", está cada vez mais "Contras & Contras". Dantes, praticamente em cada semana estava lá um ministro; agora, para debater a educação, estavam (no último programa, disponível aqui), nada menos que Nuno Crato (apesar de tudo o melhor), Helena Matos e... Paulo Portas. Habilidoso, o líder do CDS conseguiu fazer passar a sua propaganda, a mensagem do seu partido, sem nunca a este se referir. Insistiu que na escola "não é admissível nenhum tipo de violência: violência contra professores, violência contra funcionários..." Não acabou. Ficámos sem saber se Portas toleraria a violência contra os alunos (desde que dirigida por professores ou funcionários).

Foi engraçado ouvir os alunos. No que se segue, para que fique claro, a identificação do quadrante político dos alunos é uma "adivinha" minha. Ninguém se identificou como membro de nenhum partido. Na primeira parte, falou (timidamente) um estudante nitidamente apoiante do PS e das políticas de Maria de Lurdes Rodrigues. Os críticos do "eduquês" e os seus colegas de partidos mais à esquerda defendem posições totalmente opostas, mas ambos reuniam-se para criticarem a anterior ministra - a sua inabilidade política reflete-se em, não ter sabido tirar proveito desta reunião. Na segunda parte, por volta dos 11 min, falou (julgo eu) um estudante apoiante do PCP. Refiro-o pela forma como se quis demarcar do estudante anterior e, pese algum nervosismo, pela forma como lia tudo o que queria dizer, sem se afastar nada do planeado. Logo depois, falou Pedro Feijó, assumidamente do Bloco de Esquerda, apresentado pela apresentadora como "o rapaz que estava doido por falar". O à-vontade a falar era notável. Fixem este nome: daqui a uns anos teremos ali deputado. Entretanto quer estudar Física... Tanto Feijó como a generalidade dos intervenientes pediram (em graus diferentes) "mais autonomia" para as escolas. Fossem professores e estudantes ou fossem só professores a fazê-lo, os programas deveriam ser decididos localmente e não pelo ministério. Gostaria de saber o que pensam os proponentes desse tipo de medidas desta reescrita da História no Estado do Texas.

Também publicado no Esquerda Republicana

2010/03/31

Recordações do Red Light District

A primeira vez que visitei Amesterdão, ao passear pelo Red Light District (na vizinhança do qual morei uns meses) ocorreu-me que, ali no meio, "só faltava uma igreja" para o contraste ser total. Mais uns metros... e dei com ela. A Oude Kerk. Ao mesmo tempo em que os sinos tocavam, moças seminuas exibiam-se nas montras. Aquela cidade era única (e não era por isso que eu gostava dela).
Não era eu o único a espantar-me com aquele contraste, como testemunha esta interessante reportagem da Sofia Lorena no Público.

2010/03/30

O Big Bang recomeça a partir de hoje

Para acompanhar ao vivo do LHC: Ciência Viva TV ou diretamente do CERN.

2010/03/26

Sexta com Louçã, sábado com Sócrates

Foi assim o meu fim de semana passado: na sexta na apresentação do livro de Louçã, aqui referido; no sábado, no "Fórum Novas Fronteiras", uma iniciativa de encontro do PS com independentes. Este Fórum valeu a pena sobretudo pelo diretor do INESC-Porto, o reitor da Universidade do Minho e alguns antigos alunos desta universidade onde trabalho, exemplos de iniciativas de sucesso (não gosto da palavra "empreendedorismo") ligadas às novas tecnologias, algo em que Braga e o Minho têm dado o exemplo.
A maior parte da audiência, porém, estava ali para o "comício" do Primeiro Ministro. Não eram independentes, mas militantes partidários. Recordo duas senhoras de idade, com ar de camponesas de uma das muitas aldeias à volta de Braga, que me viram com o programa. Pediram-me para vê-lo, perguntaram-me quem estava a falar (era um dos independentes) e fizeram as contas para quantos faltavam até "ele" falar.
Antes "dele", falou Jaime Gama. Falou do PEC. Ouviu-se um sururu. Ainda pensei: querem ver que vão haver protestos contra os cortes dos benefícios sociais e contra as privatizações (tal como já o fizeram destacados socialistas)? Não: era uma discussão sobre os lugares sentados. Os militantes queriam estar bem instalados para quando "ele" falasse.

2010/03/25

Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Neste caso, foram os comboios, o que eu acho pior (é um transporte público):

Pediram que "evitasse morrer" junto às casas.

Entretanto, anteontem foi dia de greve da CP. O pobre septuagenário provavelmente desejaria ter morrido logo na terça feira, mas por causa dos malvados grevistas teve de adiar tudo um dia. Na próxima greve da CP, para além dos transportes alternativos, será de exigir também um serviço mínimo de suicídios?

Também publicado no Esquerda Republicana

2010/03/23

Recordações de Long Island

No Esquerda Republicana, inquiri o Ricardo Alves sobre se teria cabimento supor-se que algum condutor poderia alguma vez seguir de Alcântara a Benfica sem notar que a polícia o estava a mandar parar. Lembrei-me de uma história que era muito contada na universidade onde estudei, em Long Island, no estado de Nova Iorque, e concluí que essa possibilidade, embora muito remota, até pode ter algum cabimento.
A história resume-se da seguinte forma: um aluno tinha defendido a sua tese nesse dia, e decidiu ir a Nova Iorque com os amigos celebrar. O grupo foi de carro (uns 80 km), com o novo graduado ao volante. Saíram da universidade e não pararam num sinal de stop. A polícia viu e mandou-os parar. Só que o estudante não viu o carro da polícia (deveria ir a conversar com os amigos) e seguiu. Seguiu dentro da universidade, seguiu na estrada de acesso à autoestrada, seguiu na autoestrada. Sempre com um carro da polícia atrás, a mandá-lo parar. Tanto seguiu, tanto seguiu, até um certo ponto, em que tinha a autoestrada cortada com carros–patrulha à espera do carro fugitivo.
O que há a aprender deste episódio? Que fique bem claro: não defendo os modos de atuar da polícia americana, nem pretendo que ela seja exemplo para a portuguesa. Mas há sobretudo que comparar. Onde é que a polícia portuguesa alguma vez tinha meios para cortar uma autoestrada para intercetar um fugitivo? As notícias ontem falavam numa perseguição na Austrália que envolveu cem policiais. Não morreu ninguém nem consta que tenha havido tiros. Seria possível em Portugal mobilizar cem policiais para uma perseguição?
Desde essa altura que tenho a ideia que a polícia portuguesa tem muito poucos recursos, muito má preparação, e faz o que pode com eles. É uma profissão mal paga e muito pouco dignificada. Os polícias, que não podem ser sindicalizados, têm de andar sempre impecavelmente apresentados, e no entanto são eles que têm que comprar e tratar as suas fardas. Têm acesso a armas, mas têm de justificar toda e cada bala que disparam (e ainda bem!). Arriscam a sua vida. São sempre identificados. Quando erram, são responsabilizados. Têm muitas vezes opiniões xenófobas, que transparecem de certas declarações que eles não devem nem têm de proferir, mas não têm grande formação (nem sequer para o seu próprio ofício).
Situações como a que ocorreu esta semana são lamentáveis e não podem ficar sem resposta; devem ser apuradas responsabilidades e punir quem tiver de ser punido. O ministro da Administração Interna deveria exigir um inquérito. Agora, antes de desatarmos a tratar o corpo da polícia como um bando de criminosos (que eles não são), deveríamos refletir sobre o que lhes podemos exigir com os recursos, os meios e a preparação que eles têm ao seu dispor.
O resto da história do estudante, não sendo muito feliz, também não chega a ser trágica: o estudante ficou um ou vários dias na prisão, não sei precisar (sei que era europeu, e graças a esta história perdeu o avião de regresso ao seu país…). Por originalmente não ter parado num stop. Podemos achar exagerado, mas pelo menos cumprem-se as leis, que são iguais para todos. Mas o que eu quero frisar é que o estudante fugitivo foi apanhado e não morreu. Nem levou nenhum tiro.

Também publicado no Esquerda Republicana

2010/03/22

Disciplina segundo Costinha

Um artigo de Luís Avelãs no Record que resume o essencial do que há a dizer sobre (mais) este caso do meu triste Sporting.
Estava fácil de perceber, desde o súbito desaparecimento do russo da convocatória para o embate com o Atlético Madrid, que a novela em torno de Izmailov iria ser longa e complexa. E o curioso é que quanto mais surgem afirmações das personagens envolvidas, mais complicado fica perceber o que aconteceu, o que se passa de momento ou até o que irá suceder nas próximas horas.

Que há muita mentira pelo meio, creio que já todos entenderam. Basta atentar nas palavras de Costinha, do médico Gomes Pereira e do empresário Paulo Barbosa para ter a certeza que tudo isto segue repleto de episódios que, pura e simplesmente, não encaixam uns nos outros.

Deixemos de lado as suposições, tudo o que suscita (pela falta de confirmação) interpretações dúbias e concentremo-nos no óbvio: Costinha pode ter toda a razão para estar zangado com Izmailov mas, objectivamente, entrou "a pé juntos" numa situação em que, os interesses do clube, pediam uma intervenção mais sensata.

Na ânsia de mostrar serviço e de impor uma gestão diferente, mais profissional, Costinha apenas conseguiu amplificar um problema que, independentemente de ser grave, exigia tratamento com pinças. Ver alguém que prometeu um balneário blindando ir a correr para a sala de imprensa, após o adeus à Liga Europa, oferecer "a cabeça" do russo é, por si só, um erro tremendo.

Izmailov pode não ter estado bem neste "filme", mas é justo dizer que tem um passado no clube que, no mínimo, merecia outro tratamento. Não me recordo de ver outro futebolista dizer que abdicava do ordenado enquanto estivesse a recuperar de lesão. Por outra lado, ainda recentemente abdicou de um salário mais alto na sua terra para continuar de leão ao peito.
A juntar a isto, convém ter presente que é dos melhores jogadores do plantel, bem como um dos activos mais significativos da SAD. Equacionar medidas radicais contra ele é, em traços gerais, desfalcar a equipa e rasgar dinheiro. Num grupo sem muitas soluções de qualidade e num emblema que não respira grande saúde financeira... tal devia ser proibido.

Costinha, depois de um súbito ataque de sportinguismo, teve outro, agora apelando à sua costela de disciplinador. Visto de fora foi uma reacção completamente exagerada, embora - reafirmo esta ideia - possa assistir-lhe muita razão. Por outras palavras, creio ter ficado claro que, a exemplo do que sucedeu com Sá Pinto, também Costinha deixou claro que, de momento, ainda não é a pessoa certa no posto adequado.

Saliento ainda como curiosidade o facto de Costinha ter colocado em causa o profissionalismo de um russo quando, ele próprio, saiu da Rússia (Dínamo de Moscovo) com o rótulo de pouco profissional. Aliás, na parte final da sua carreira de futebolista, o ex-internacional viveu vários momentos cinzentos. O súbito afastamento da Selecção (onde chegou a ser um dos "meninos bonitos" de Scolari) foi outro.

Três convicções muito pessoais a fechar:

- não acredito que este caso tivesse chegado tão longe caso o nome do empresário de Izmailov não fosse Paulo Barbosa;
- não acredito que este caso tivesse chegado tão longe caso o Sporting não necessitasse de vender jogadores e se não existissem propostas da Rússia para levar o futebolista;
- não acredito que este caso tivesse chegado tão longe se o presidente do Sporting agisse, de vez a vez, como tal.

2010/03/19

Economia(s)

Lançamento do livro de Francisco Louçã e José Castro Caldas agora às 18 horas, na Livraria Centésima Página, em Braga. Até já.

2010/03/18

Tudo o que o Sporting não precisa



O balneário do Sporting não precisa de nenhum "team manager" (seja isso o que for, mas muito menos se for da Juventude Leonina). Não importa agora se o senhor em questão esteve ligado a uma administração dos CTT (com Carlos Horta e Costa, nomeada pelo governo PSD-CDS) investigada por suspeita de ilícitos na alienação de imóveis. Importa, sim, que o senhor foi um dos fundadores da Juve Leo. E, uma vez Juve Leo, sempre Juve Leo, como comprovam estas significativas declarações, cujas consequências não se fazem esperar. Independentemente de quem desencadeou os conflitos entre os adeptos do Sporting e do Atlético, declarações incendiárias como estas são de esperar num dirigente da Juventude Leonina, mas inadmissíveis num dirigente do Sporting. Também independentemente do resultado de hoje - e espero que o Sporting ganhe, e este ambiente não afete a equipa -, Miguel Salema Garção não pode continuar a desempenhar funções no Sporting. No final da época, deveria seguir com ele quem o contratou e protegeu. Não adiantam os grupos de apoio no Facebook criados pelo sobrinho desta desgraça de presidente (os poucos apoiantes chamam-se todos "Granger" ou "Bettencourt"): o Sporting não pode ficar reduzido a isto.

2010/03/17

O "Prós & Prós" tornou-se "Contras & Contras"

Fala-se muito na "governamentalização" da RTP, mas alguém já reparou no perfil cada vez mais conservador dos painéis de convidados do "Prós & Contras"? Esta semana estava lá António Pires de Lima, o tal que quer fazer do CDS um "partido mais sexy". E Miguel Morgado, que fazia Pires de Lima parecer um esquerdista.

2010/03/16

Vasco Pulido Valente, a corrupção e a falta de exemplo

Nem sempre concordo com Vasco Pulido Valente, mas acho que a sua crónica no Público da passada sexta feira vale a pena ser lida. Explica muito da tradicional falta de autoconfiança e autoestima dos portugueses.

"Um estudo de Luís de Sousa, sociólogo do ICS, mostra que 63% dos portugueses toleram (ou, mais precisamente, aprovam) a corrupção, desde que ela produza "efeitos benéficos" para a generalidade da população. Isto não é um sentimento transitório, provocado por trapalhadas recentes; é uma cultura. A cultura dessa grande guerra que desde que nasceu qualquer de nós tem com o Estado opressor e remoto e com Governos que nunca respondem pelo que fazem ou deixam de fazer. O português médio execra a autoridade, seja sob que forma for, e vive no seu país como se vivesse sob ocupação estrangeira. O servilismo e a falta de carácter, que tanta gente pelos tempos fora lamentou, escondem a vontade de salvar a pele e a aspiração, muito natural, de enganar quem manda.
Não há regras para ninguém, porque ninguém cumpre as que por acaso há. Quem pode levar a sério uma escola em que o próprio ministério fabrica os resultados, proíbe legalmente a reprovação e aceita a violência ? Quem pode levar a sério um regime que se diz democrático e selecciona o funcionalismo pela fidelidade partidária ? Quem pode considerar um ponto de honra pagar impostos, quando a fraude e a injustiça fiscal são socialmente sinais de privilégio e de esperteza ? Quem vai pedir um recibo ao canalizador ou ao electricista ou a factura no restaurante, quando sabe o que paga e o que o Estado gasta sem utilidade e sem sentido ? E quem vai obedecer às determinações da câmara do seu sítio, quando a camara é uma agência de negócios de favor e uma bolsa de favores sem explicação e sem desculpa ?
Não admira que o "povo dos pequenos" conspire constantemente contra a lei e até contra a decência. Que falte ao trabalho ao menor pretexto; que trabalhe mal, se trabalhar bem lhe custa; que peça aqui ou empurre ali, para se beneficiar ou aliviar; que torne as ruas uma lixeira pública; que guie, na cidade ou na estrada, como se estivesse sozinho; que minta a torto e a direito sobre o que lhe apetece e lhe convém; que não passe, enfim, de um miserável cidadão, indiferente à política e ao país. Não lhe ensinaram outra coisa. Os chefes são como ele. O Estado é como ele. Como exigir que ele se porte como Portugal inteiro não se porta ? Claro que ele aprova a corrupção e consegue ver nela virtudes redentoras. Não é agora altura de mudar de costumes."

2010/03/14

A nova temporada de Fórmula 1

Aqui deixo algumas considerações, que já andava para fazer desde o final da época passada.
Acho inconcebível que um piloto com o talento de Kimi Raikkonnen não encontre lugar na Fórmula 1 presentemente só porque não tem o apoio de um conhecido banco espanhol. A partir do momento em que esse banco passou a patrocinar a Ferrari, o resto era uma questão de tempo: Alonso teria de entrar, e alguém teria de sair. A relação de Massa com a equipa é melhor (e Massa é um piloto mais convencional que o finlandês, que é um tipo muito especial). A história assim repetiu-se: pela segunda vez, Kimi foi despedido por esse banco para Alonso poder entrar. A primeira vez foi na McLaren; agora, na Ferrari. Só que na primeira vez Alonso entrava na McLaren como bicampeão do mundo; agora, é mais um piloto a querer relançar a carreira. Na primeira vez, recordo, foi lindo: Kimi, o piloto que foi despedido para dar lugar a Alonso, acabou campeão do mundo na Ferrari. Estava à espera que isso pudesse suceder este ano, não na Ferrari (que contratou Alonso) mas na Mercedes ou noutra equipa qualquer. Não foi possível. Paciência. Espero que Kimi seja feliz na opção que tomou.
A Mercedes entretanto contratou Schumacher, que se afirma assim como o Mário Soares da Fórmula 1. Vamos ter confrontos interessantes e inéditos, como o de Schumacher com Hamilton. Tal como com Mário Soares, também não estou à espera que a história se repita com o regresso de Schumacher. Mas é indesmentível que este regresso vem dar um outro interesse ao campeonato, graças à qualidade e à classe indesmentíveis do alemão. Seguramente vou torcer por ele muitas vezes. Quem sairá vencedor? Eu aponto outro alemão, Vettel, mas não aposto em ninguém.

2010/03/11

Não foi para isto

35 anos se passam sobre uma data que marcou a modernização da economia portuguesa na década de 70. Com efeito, nessa época a regra nos países europeus era as grandes empresas, os principais meios de produção serem considerados estratégicos e estarem nas mãos do estado. A isto acrescentou regalias para os trabalhadores que há quem ainda hoje não aceite, como os subsídios de férias e Natal e o salário mínimo. O que o governo do “terrível revolucionário” Vasco Gonçalves se limitou a fazer foi o mesmo que se fazia na Europa.
35 anos se passaram, e discute-se o PEC. O PEC que tem medidas muito positivas e há muito reivindicadas, como a criação de um novo escalão de IRS para os rendimentos mais altos e a taxação das mais-valias. Também concordo com o fim dos benefícios fiscais anunciados, e não me faz confusão os não-aumentos na função pública e a suspensão de obras públicas como o TGV até melhor data (embora, como afirma o João Vasco, tal medida venha dar razão ao PSD e lance dúvidas sobre se o PS mudou de ideias ou se (e nos) enganou nas contas – qualquer uma delas é má). Mas tais medidas não são suficientes para compensarem tudo o que o governo se prepara para anunciar, nomeadamente um pacote de privatizações de empresas e serviços públicos de que o estado não pode abrir mão, a começar pelos Correios e pela Rede Energética Nacional. Concordo: um governo socialista não privatiza os correios (nem a REN). Os socialistas têm de levantar-se e dizer "BASTA!”
Mesmo nas restantes empresas, e independentemente do que se achar que o Estado deve deter (e eu acho que deve detê-las), como anuncia o Daniel Oliveira, tais privatizações fazem mal ao défice.
Não direi que para mim tal intenção constitui a “gota de água” porque infelizmente representa muito mais do que uma gota (se só quisessem privatizar uma gota, estaríamos nós bem). De qualquer maneira, e uma vez que escrevo sobre política sem nenhum interesse que não seja o de exprimir as minhas opiniões e partilhá-las com os leitores, da mesma forma que anunciei antes das eleições que iria votar no PS, anuncio agora que, a confirmar-se este programa, se houvesse neste momento eleições não votaria no PS. Se o governo levar as privatizações avante, deixa de contar com o meu apoio.

2010/03/10

Os preços planificados do “Pingo Doce”

Continuemos a falar do comércio a retalho, só que desta vez de legumes frescos.
Costumo brincar com os meus amigos economistas, dizendo-lhes que enquanto a física consegue prever com todo o rigor certas grandezas a economia não é capaz de prever sequer o preço do quilo da alface. Bem: não no “Pingo Doce” onde, desde Outubro de 2009 (pelo menos), o kg da alface tem sido sempre a 1,49 €. O mesmo com o espinafre e o tomate: sempre ao mesmo previsível preço.
O rapaz da foto entra-nos todos os dias em casa (para quem vê televisão), a anunciar que, na cadeia de lojas que ele promove, basicamente os preços são fixos, à boa maneira socialista (dizem que Salazar fazia o mesmo, pelo menos com o preço do pão, nem que tivesse que lhe diminuir o tamanho…). Enquanto nas outras lojas os preços flutuam com o mercado, com a lei da oferta e da procura e com as condições climatéricas (algo que, especialmente com um inverno rigoroso como o que temos tido, naturalmente afeta e muito o preço dos legumes frescos), no “Pingo Doce” os preços não aumentam (mas também não diminuem – não variam).
É curioso que os economistas, mais liberais ou mesmo mais keynesianos, gastaram nas duas últimas décadas tanto latim a explicarem-nos os problemas de uma economia planificada, e agora ninguém reclama por o “Pingo Doce” estar a planificar a economia (fixar preços é típico de uma economia planificada, e não de uma economia livre).
Dir-me-ão que o “Pingo Doce” é uma empresa privada, que pode vender os produtos aos preços que quiser numa economia livre, enquanto o estado fixar os preços é diferente. Mas será assim tão diferente? Terão os produtores liberdade de negociar livremente com o “Pingo Doce” o preço das suas colheitas? Não estou de modo nenhum a acusar o “Pingo Doce” de nada, mas sei que muitas vezes os grandes retalhistas exercem pressões enormes sobre os produtores, sendo que em muitas localidades detêm praticamente o monopólio. Os produtores têm que aceitar os preços que os grandes retalhistas oferecem; não têm escolha. Não sei se é esta a situação do “Pingo Doce” (repito – não estou a acusar ninguém), e pode ocorrer com outros retalhistas, hipermercados ou não. Sei é que esta situação hipotética não é a de uma economia livre.
Mas admitamos que nada disto se passa: o “Pingo Doce” é uma marca séria, e decidiu manter um compromisso com os clientes. Mesmo que a intenção do “Pingo Doce” não seja essa, a verdade é que todos aqueles anúncios são uma exaltação das virtudes da economia planificada como há muito não se via (e espanta-me, falo a sério, que nenhum economista comente este assunto). Ao ver aquele rapaz rechonchudo a repetir que “só o “Pingo Doce” respeita o seu dinheiro” por não variar os preços, questionamo-nos se não seria melhor que fosse assim com tudo. As lojas todas, todo o comércio. Não só o “Pingo Doce”. Desde que não houvesse esmagamento dos produtores. Se há pressões sobre os produtores, é intolerável; se não há, afinal a economia planificada funciona! Não é assim? Não consta que o “Pingo Doce” dê prejuízo!
Sim, e o rapaz é rechonchudo. Só num anúncio, o “Pingo Doce” reabilita a planificação da economia e os gordos para a publicidade. Quer-me parecer que o “Pingo Doce” está a tentar atrair clientes de esquerda.

Também publicado no Esquerda Republicana

2010/03/09

O exemplo do guarda-lamas

O guarda-lamas de bicicleta cuja embalagem vêem na figura foi comprado por mim no passado mês de Julho em Paris, numa loja de uma cadeia de hipermercados que há dois anos saiu de Portugal. Procurei e nunca encontrei um artigo semelhante em hipermercados portugueses. Disseram-me, mais tarde, que o poderia encontrar, em Portugal, numa conhecida loja de desporto francesa. Possivelmente fabricado em Portugal, como o artigo que eu comprei (cliquem na imagem e confirmem), da marca de uma cadeia que há dois anos saiu do país. Nas lojas portuguesas, nada semelhante.
Passa-se o mesmo, sem surpresa, com as bicicletas propriamente ditas. Conforme se pode ler aqui, a mesma grande empresa francesa vende bicicletas portuguesas. A sua principal concorrente (e líder do mercado) em Portugal, uma empresa portuguesa, vende (informei-me) bicicletas fabricadas na Tailândia. É esta a visão dos grandes retalhistas portugueses. Entretanto, apesar de o setor estar em crise, Portugal ainda vai sendo o maior produtor europeu de bicicletas. Graças à França, e enquanto a Europa (neste caso, a França) quiser. Portugal nunca pode contar com os portugueses.

Também publicado no Esquerda Republicana

2010/03/05

Os argumentos da CIP para a liberalização do despedimento

No Prós e Contras desta semana (podem ver aqui o vídeo – por volta do minuto 15 da primeira parte) lá apareceu um senhor vice presidente da CIP, Armindo Monteiro de seu nome, a falar mais uma vez, numa conhecida retórica muito neoliberal, da situação de “desigualdade” que constitui um trabalhador poder despedir-se de um emprego a qualquer altura, mas um patrão não poder despedir livremente esse mesmo trabalhador.
Ao mesmo tempo, o senhor era, como é costume, socialmente conservador: queixava-se de que havia a ideia arreigada de que durante uma vida só se haveria de viver numa só cidade, ter uma só casa, um só emprego, um só casamento. E frisou: de tudo isto, a única instituição a preservar era a do casamento, que ele achava muito bem que fosse único e para a vida toda; deveríamos estar preparados para mudar tudo o resto. Ao menos o senhor não escondia nada ao que vinha. Só não passa por aquela cabeça que, com toda a precariedade que ele defende, é cada vez mais difícil as pessoas casarem e terem família. Se um trabalhador tem que estar sempre pronto para mudar de emprego, de casa e até de cidade, necessariamente a sua família terá que estar também. O que poderá ser impossível com filhos em idade escolar e com o cônjuge igualmente empregado. A menos que – deve ser isso que o sr. Monteiro preconiza – o homem “sustente a família” e a mulher foque em casa a tratar da mesma.
O argumento do sr. Armindo Monteiro sobre a “desigualdade” do despedimento não colhe. É evidente que a sua proposta não constitui uma situação de igualdade – um patrão também pode fechar uma empresa livremente, contra a vontade dos trabalhadores, bastando indemnizá-los. O que constituiria uma situação de igualdade verdadeira seria, a qualquer altura, o trabalhador poder despedir livremente o patrão. No dia em que um trabalhador puder pôr um patrão da empresa para fora, eu serei a favor da liberalização dos despedimentos.

2010/03/03

O ataque de Alvaiázere

Este fim de semana sucedeu-me algo surreal no email – fui vítima de dois ataques de spam, do Instituto Português de Fotografia e da Câmara Municipal de Alvaiázere. Não faço ideia de como o meu email foi parar a tais instituições. Tal como eu, muitos portugueses sofreram o mesmo ataque. Pude confirmar isto, infelizmente, pois foi muito maior a quantidade de emails que eu recebi de pessoas a protestarem por terem recebido os emails. Essas pessoas protestavam… respondendo ao email. A resposta dessas pessoas era reenviada a todos os outros recetores. E, apesar de receberem muito mais emails de protesto do que do endereço original propriamente dito (via-se porque o endereço de onde o email era enviado nunca era o mesmo – era o da pessoa que protestava), não discorriam que quem estava a ler aqueles emails eram somente os prejudicados. E quanto mais emails enviassem pior. E enviavam, enviavam, enviavam. Coisas admiradas, do tipo “Eu não sou de Alvaiázere, sou de Gaia!”. Coisas bem educadas, como “Por favor retirem-me da vossa lista de emails.” Coisas iradas: “Já disse que parem de me enviar emails!” Não sei quantos emails recebi e apaguei este fim de semana, mas devem ter sido centenas. Se alguém que recebe estes emails me estiver a ler, por favor pare de enviar protestos.

2010/03/02

Muitos tostões de Timor para a Madeira

A Madeira que, recorde-se, é a segunda região mais rica de Portugal. Mas que nem sequer dispunha de um radar decente. Teria o resto do país obrigação de a ajudar? É claro que sim, em nome da coesão nacional e por pura solidariedade. É claro que eu espero que as responsabilidades por tanta construção selvagem e em leito de cheia sejam apuradas - o tão propalado "desenvolvimento" da região assentava nestas obras, e como se vê subsistem desequilíbrios extremos.
Agora teria obrigação de ajudar quem, há dez anos atrás, na altura mais difícil, ouviu um "da Madeira nem um tostão"? É claro que não teria. É o que se chama "bofetada de luva branca".

Também publicado no Esquerda Republicana

2010/03/01

Estatísticas de quatro anos

De acordo com o sitemeter, 157638 visitas, 197346 carregamentos de página.
De acordo com o motigo (não muito apreciado por alguns leitores...), 159364 visitas, 63,2% das quais de Portugal, 18,1% do Brasil, 3,7% de França, 2,8% dos EUA, 2,7% do Reino Unido, 2,0% da Suíça, 1,5% da Alemanha, 1,2% da Espanha, 0,7% da Holanda, 0,5% da Bélgica e 3,5% de outros países. 15,5% à segunda, 16,0% à terça, 16,1% à quarta, 15,7% à quinta, 14,6% à sexta, 10,8% ao sábado e 11,3% ao domingo.
Muito obrigado a quem vai por aqui passando.

O Avesso do Avesso – quatro anos num computador perto de si

Mesmo se as postagens são mais escassas - a maioria repetidas do Esquerda Republicana, e as pessoais mais raras desde que tenho Facebook -, o Avesso do Avesso continua como o meu blogue pessoal. Muito obrigado a quem por aqui vai passando.

2010/02/28

O treinador-tiuí

O Tiuí era aquele jogador que não se sabia muito bem como tinha ido parar ao Sporting. Ninguém dava nada por ele, até que resolveu uma final da Taça de Portugal contra o FC Porto. Como consequência ficou mais uma temporada, mesmo se continuava sem se saber como tinha ido lá parar.
Com Carvalhal, aparentemente, passa-se algo semelhante. Ainda não se sabe muito bem como foi parar ao comando técnico do Sporting. Mas, graças a uma (bela) vitória contra o FC Porto, arrisca-se a ficar mesmo assim mais uma época. Vamos ver como corre o final desta.

2010/02/26

Boas notícias assim não as tínhamos há muito


Começa por ser o "ministro" como líder do futebol. É uma incógnita, mas dá alguma esperança. Segue-se o resultado de ontem (normal contra equipas inlgesas que não os quatro "grandes"), e sobretudo a exibição - a melhor da época. Mas o melhor de tudo é a confirmação da permanência do melhor jogador do Sporting. Bem vindo, Izmailov!

2010/02/25

Um desastre anunciado há dois anos


É uma altura de dor (pois ninguém o nega) tristeza e luto nacional (ninguém o contesta), mas se se apontar o dedo aos responsáveis pelo caos urbanístico que ampliou as consequências desta tragédia (o principal é, sem dúvida, o governo regional) é-se acusado de "canalhice" e de "fazer política baixa". Francamente espanta-me como, com um ambiente destes (criado pela direita) há gente que ainda tem o topete de estar sempre a falar na "ditadura do politicamente correto". O que sucedeu na Madeira poderia suceder: já se sabia há anos, como demonstra este documentário que me foi indicado pelo Rui Curado Silva. Há dez anos caiu uma ponte em Entre-os-Rios e dezenas de pessoas morreram afogadas; o então ministro das obras públicas (um político por quem não tenho especial simpatia) disse que a culpa "não podia morrer solteira" e demitiu-se. (E não é claro que fosse ele o responsável pelo sucedido.) Na catástrofe da Madeira, onde, apesar da intempérie ser grande, a desgraça tem responsáveis muito mais claros, será que a culpa vai morrer solteira?

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2010/02/24

Bernard Schutz no Centro de Física do Porto



Mais informações aqui. Altamente recomendável.

2010/02/23

Tristes tempos em que até Isaltino pode fazer figura de homem honrado

Isaltino Morais não prolonga contrato entre Tagus Park e Figo

Despropositada é a comparação "A Câmara de Oeiras vai fazer tudo para que não haja partidarização do Tagus Park. É mau se o pólo se transformar em mais uma empresa pública para acolher os boys daqui ou de além". Logo a Câmara de Oeiras, esse exemplo de seriedade.

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2010/02/19

E as fotocópias com saliva?

Nem é particularmente a "teatralidade" o que mais me incomoda no espetáculo que Mário Crespo deu esta semana na Comissão Parlamentar. O fulano tem o direito a ser um mau ator. O que me incomodou, e tratou-se de um péssimo exemplo, foi Crespo lamber os dedos antes de distribuir uma folha a cada deputado (com uma "crónica" ridícula que toda a gente já tinha lido). Além de mau cronista é  porco. Ninguém lhe disse isso?

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"Um objetivo claro"

Via o (bem) regressado Tiago Barbosa Ribeiro.


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2010/02/12

Leitura recomendada

O candidato peronista, por Ana Gomes.
E o “Sol” brilhará para todos nós, por Daniel Oliveira. Imperdível. Não resisto a transcrever aqui:

2010/02/09

Uma petição para assinar

Mais direitos para os trabalhadores precários: esta justíssima petição exige mais justiça nas contribuições para a Segurança Social, o fim dos falsos recibos verdes. São os últimos dias para assiná-la, antes que seja entregue na Assembleia da República. Eu já a assinei em papel; quem quiser assiná-la na rede pode fazê-lo aqui.

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2010/02/08

Censura? Eu chamaria antes PIDE...

Mário Crespo com Kaúlza de Arriaga - foto roubada ao Arrastão

Continua a falar-se em "censura" ao jornalista Mário Crespo (algo errado e que demonstra que não se sabe ao certo o que quer dizer censura nos dias de hoje), mas ninguém fala do caráter perfeitamente pidesco deste procedimento: ouve-se conversas privadas entre três cidadãos (o fato de serem três ministros não é agora relevante), e daí parte-se para a denúncia. Um cidadão não pode agora ter uma conversa privada, pois pode haver sempre um amigo do sr. Mário Crespo à escuta. Perante isto, o Cinco Dias elege mais um "mártir" (mas daqui já nada espanta), o Sindicato dos Jornalistas considera a conversa "profundamente condenável" (não o procedimento) e o Bloco de Esquerda quer um inquérito da ERC. Melhor do que tudo: o mesmo eurodeputado que convidou José Saramago a renunciar à nacionalidade portuguesa vem agora acusar o Jornal de Notícias de exercer censura. Isto é fantástico!

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2010/02/04

A censura nos dias de hoje

Nenhum jornal sério publicaria um artigo como o que Mário Crespo submeteu ao Jornal de Notícias, naquela forma. Além disso, a não-publicação de um artigo, mesmo quando existe um contrato de colaboração entre um articulista e um jornal, não tem necessariamente de constituir um ato de censura. Tem de existir uma justificação para tal procedimento, e foi isso que a direção do JN fez, com uma clareza cristalina:
Basicamente, no entender do director do JN o texto de Mário Crespo não era um simples texto de Opinião mas fazia referências a factos que suscitavam duas ordens de problemas: por um lado necessitavam de confirmação, de que fosse exercido o direito ao contraditório relativamente às pessoas ali citadas; por outro lado, a informação chegara a Mário Crespo por um processo que o JN habitualmente rejeita como prática noticiosa; isto é: o texto era construído a partir de informações que lhe tinham sido fornecidas por alguém que escutara uma conversa num restaurante.
Acresce que o diretor do jornal apenas "manifestou reservas" quanto ao artigo e não despediu Mário Crespo: foi este que, face a estas reservas, decidiu retirar o artigo e cessar a sua colaboração. Mais: ao não publicar o artigo (pelo qual poderia vir a ser responsabilizado - um jornal pode ser responsabilizado pelos seus artigos de opinião) o JN não estava a silenciar Mário Crespo, que dispõe de outros meios (de que todos hoje em dia dispomos), como blogues, outros jornais e, no caso de Mário Crespo, o think-tank do PSD. Que o publicou imediatamente. Crespo recebeu ainda a solidariedade pronta de Paulo Portas: amanhã, Crespo participa num almoço promovido pelo CDS. Também poderia apresentar o artigo lá...

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2010/02/03

Mário Crespo, Manuela Moura Guedes e José Eduardo Moniz são, de fato, problemas

O problema que estes "jornalistas" constituem traduz-se nisto: alguém ouve partes de conversas privadas, sem delas tomar parte, e delas decide construir um caso político. Alguém acha que emails recebidos de alguém que "escutou" umas conversas num restaurante (sem nelas ter participado) servem para fundamentar uma notícia. Alguém que com base nestes "fatos" decide escrever um artigo num jornal. Como poderia fazer mais uma notícia espalhafatosa num qualquer "Jornal de Sexta": cada um usa os meios de que dispõe.
O problema é mesmo este: haver tantos "jornalistas" sérios e isentos como estes que referi em cargos de responsabilidade. Não se trata de exigir o seu afastamento ou querer interferir seja com que órgão de comunicação social for: trata-se somente de uma constatação.

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2010/01/29

Algumas ideias sobre a CP e os comboios

Durante esta semana foi moda comentar este artigo do Público sobre os conhecidos defeitos da CP. Eu sou utente regular da CP, na Linha do Norte e nos Urbanos do Porto (e linha de Cascais no verão). A CP tem muitos defeitos, excetuando talvez justamente as linhas que uso (e os Urbanos de Lisboa) – os serviços com mais procura. Custa-me por isso ler críticas tão pouco fundamentadas, patentes no artigo, como “a inexistência de uma ligação directa Estarreja-Azambuja”. Existem vários intercidades Aveiro-Vila Franca de Xira (duas vezes por dia, até param em Estarreja). Perfeitamente sincronizados com esses intercidades, existem urbanos para as ligações Estarreja-Aveiro e Vila Franca – Azambuja. Por que raio haveria de haver essa ligação direta?
Outra crítica descabida é a do Bruno Sena Martins. Intercidades Porto – Lisboa há a cada duas horas tirando a meio do dia (param todos em Coimbra). A isto acrescem os intercidades Lisboa – Guarda (também param em Coimbra). Conto um total de dez intercidades Lisboa – Coimbra por dia (fora os alfas, que são onze). Os horários “não servem” ao Bruno? Comentários como este e o da Azambuja-Estarreja levam-me a concluir que esta gente não quer comboios – quer é táxis!

2010/01/28

Mais livre do que um tipo sem casa, só mesmo um tipo sem emprego

Já todos conhecemos mais ou menos os argumentos dos que se dizem a favor do arrendamento de casas (mesmo se tal prática constitui um feudalismo dos tempos modernos que perpetua uma distribuição desigual dos bens imobiliários, quando o direito à habitação está garantido na Constituição). O arrendamento deveria ser encorajado porque há casas desabitadas (que os senhorios não querem vender). As rendas deveriam ser aumentadas porque os senhorios não têm dinheiro para fazerem obras e as casas degradam-se (mas nem pensar em os senhorios venderem as casas!). Enfim. Um argumento mais recente, lançado há uns anos por Francisco Sarsfield Cabral num artigo do DN e bastante usado na blogosfera de direita, defendia a precariedade laboral disfarçada nas supostas “boas” intenções do mercado do arrendamento: um indivíduo não deveria comprar casa porque deveria estar sempre pronto para mudar de emprego, de local e mesmo de cidade de trabalho. Eu até aceito este argumento para um jovem, mas só até a uma certa idade. Pelos vistos há quem ache que a precariedade e instabilidade laboral devem durar toda uma vida. Agora, no Blasfémias vai-se mais longe: “cada vez que uma família se vincula a uma casa – habitação própria, alugada ou de renda social – compra a sua própria escravidão.” Não nos vinculemos a casas. Não nos vinculemos a emprego. Não nos vinculemos a nada, pois caso contrário somos “escravos”. Eu ainda hei-de ver esta gente defender que um desempregado é mais livre do que quem trabalha. O que nem deixa de ser verdade: um desempregado não tem horários nem patrão nem responsabilidades. Ainda hei-de ver algum deles escrever que, sempre que um patrão despede empregados, está a contribuir para a sua liberdade.

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2010/01/24

How do we solve a problem like Sá Pinto?


É claro que ele não tinha perfil para director do futebol. É claro que ele não tem perfil para nenhum cargo de liderança.
Mesmo num caso em que a culpa fosse repartida, o Sá Pinto seria o elo mais fraco. O Liedson é indispensável à equipa; o Sá Pinto é dispensável na estrutura do futebol. Mas ainda por cima o Sá Pinto é o culpado: como era de se esperar, foi ele que partiu para a agressão! Digo "como era de se esperar", porque os antecedentes são bem conhecidos. E é isso que custa mais: o Sá Pinto já se humilhara publicamente, já tinha esta justa reputação, e demonstra que não aprendeu nada.
Dito isto, temos aqui um caso complicado. Vejamos as coisas nesta perspectiva: um jogador que tem adeptos do Sporting que se deslocam de propósito para o apoiarem a jogar noutro clube, em Espanha; um dirigente que obriga os jogadores, no final da partida, a irem agradecer aos adeptos (eu ouvi isto), e que não permite que um jogador proteste com os protestos do público. Entre o Sá Pinto e os adeptos do Sporting há uma relação de amor. Pode um clube dispensar um ícone assim, numa altura em que cada vez há menos amor à camisola e os clubes cada vez têm menos referências? No caso do Sá Pinto, claramente não lhe podem dar um cargo directivo profissional. O que fazer com ele?

2010/01/20

Está um frio do caraças lá fora...


...e eu estou sempre com este gajo. Não tenho propriamente pena dele e nem da sua indemnização. Mas espero que regresse já a Nova Iorque e que regresse depressa à televisão com o seu humor (que, pelos vistos, não agradou às audiências americanas das 23:30). Até lá vou ter saudades.

2010/01/19

O casamento gay de Santo António

Claramente o casamento civil é uma instituição laica, e isso é válido também para os casamentos civis "de Santo António", apoiados financeiramente pela Câmara Municipal de Lisboa. Uma vez aprovado (como julgo que esperamos) o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a questão do apoio financeiro a esses casamentos por altura do Santo António teria que se pôr (e a resposta correta seria, claramente, a não discriminação, como manda a constituição). Mas essa questão só deveria ser posta nessa altura: tudo o que fosse pô-la antes da aprovação definitiva da lei seria uma provocação inútil e com consequências nefastas. Não me refiro somente à opinião dominante na sociedade sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo: refiro-me mesmo aos agentes que ainda têm que intervir no processo (Presidente da República; juízes do Tribunal Constitucional). Provocar a Igreja Católica pode ter graça para alguns, mas provocar estes senhores (e alguns deles podem sentir-se provocados por esta questão dos casamentos de Santo António) pode ter consequências desagradáveis, numa altura em que a lei ainda não passou (e não se sabe se passa).
Foi isso que eu pensei quando soube que esta questão se punha: falta de sentido de oportunidade. E é bem possível que a Fernanda tenha razão: pode ter sido uma ratoeira lançada pela Igreja Católica. E que a Câmara Municipal de Lisboa mordeu.

Texto também publicado no Esquerda Republicana

2010/01/18

O meu fim de semana foi em grande parte assim

Não demorei foi três minutos (e os móveis não são do IKEA). O autor e intérprete deste vídeo, meu colega e amigo, é um verdadeiro engenheiro da LEFT!

2010/01/14

The New York Times visita o Ironbound


A baixa de Newark, cantada por Suzanne Vega e onde habita uma grande comunidade portuguesa, voltou a ser visitada pelo The New York Times. A padaria que referem fornecia o pão para muitos supermercados na área metropolitana de Nova Iorque, incluindo Long Island.

2010/01/13

Sai um subsídio para o blasfemo ir estudar

Quem contrapõe valores quase instantâneos, medidos ao longo de dias, a valores médios, medidos ao longo de muitos anos, não percebe nada de estatística. Deveria sair um subsídio era para o João Caetano Dias (um engenheiro do Técnico) ir repetir a cadeira de Probabilidades e Estatística. Ele já não se lembra do que é uma média.

Também publicado no Esquerda Republicana

2010/01/12

Braga americaniza-se

Depois da neve por dois anos seguidos (em ambos eu estava a dormir), agora temos tiroteio numa escola secundária.

2010/01/08

Resumo do dia


Bom resumo no Jugular (a quem roubei a ilustração): um passo importante na luta pelo fim da discriminação (mas a luta continua). Por outro lado, tenho saudades do tempo em que havia uma ministra da educação (e não eram os sindicatos a mandar no ministério).

2010/01/07

José Maria Pedroto desapareceu há 25 anos

Entrevista a Mário Wilson:

- Em 1963 acaba como jogador. Passa a adjunto de Otto Bumbel, depois de Janos Biri e de Mário Imbelloni e a fechar este ciclo é adjunto de Pedroto.
- Quando o Pedroto sai é que eu assumo o lugar de treinador da Académica. O Pedroto era intratável. Tinha atitudes que roçavam o racismo. Ele queria sempre ser o big boss. «Pedroto era ele, ele e só ele»
- As grandes lutas Norte-Sul começam entre Pedroto e Wilson. E são lutas duras...
- São, são... Mas em Coimbra eu era o Capitão e os jogadores andavam à minha volta, pouco ligavam ao Pedroto. Eu era o espírito académico, o Pedroto era ganhar, ganhar...tinha uma determinação própria, um pouco a destoar daquele ambiente de Coimbra.
- Pedroto deixa a Académica por dar uma punhada num jornalista de Coimbra, não é?
- Exactamente. Ele foi acumulando pequenos ódios. Tinha coisas tal como o Pinto da Costa,de uma determinação inabalável. Uma das máximas do Pedroto era: «Morrer por morrer, que morra o meu pai, que é mais velho». Isto era Pedroto.
- Ia falar da saída de Pedroto...
- O Porto foi jogar a Coimbra e esse tal jornalista, depois do jogo, escreveu: «Este jogo antes de começar já estava perdido.» O Pedroto não esperou, foi ao café onde se reuniam os teóricos, viu o jornalista e perguntou-lhe: «Foi você que escreveu isto?». - «Fui, porquê?» E Pedroto respondeu-lhe com um soco nos queixos. Isto era Pedroto.

A BOLA - 17-10-2009

2010/01/05

"Café Com Blogues" hoje n'"A Brasileira"

Em Braga, a partir das 21:15. Um programa da RUM gravado ao vivo. Apareçam!

2010/01/04

Um furo para começar bem o ano

Um furo no pneu dianteiro da minha bicicleta. Foi na "ciclovia" Cais do Sodré - Belém, junto às Docas de Alcântara, numa zona (vejam bem) da tal "ciclovia" onde é suposto o ciclista desmontar-se e seguir a pé (eu sei que contado ninguém acredita, mas é verdade). Desobedeci e não vi uns vidrinhos que lá estavam. Poderiam ser restos de garrafas partidas na passagem de ano, mas também pode ser que estejam lá postos de propósito para travar quem não segue a pé (e obviamente só vê os tais vidrinhos depois de lhes ter passado por cima). Enfim. Mais tarde, nesta semana ou na próxima, conto escrever sobre as novas "ciclovias" de Lisboa.

2010/01/03

Fuga para a vitória


A sensacional fuga do forte de Peniche por parte de Álvaro Cunhal e outros dirigentes comunistas faz hoje 50 anos. A ler a evocação no Diário de Notícias de hoje (inclui também uma entrevista a Eugénia Cunhal). Tal como eu, o jornalista sonha com o dia em que este episódio passe ao grande ecrã. Através de um estúdio de Hollywood? Não me admiraria nada.

2010/01/01

Se os recursos fossem ilimitados, não precisaríamos da esquerda para nada

“Assumindo recursos infinitos, a economia continuará a crescer, em média, com mais ou menos crises pelo meio”, prevê candidamente o Ricardo Schiappa. “Quase todos nós tendemos a encarar a presente crise como uma breve pausa no processo de crescimento”, escreve naturalmente o João Pinto e Castro. Neste caso não me parece que seja isto que ele pensa, mas de qualquer maneira o que me incomoda é o “quase todos nós” que o João familiarmente escreve. “Quase todos nós” achamos que o crescimento não parará. Que é como quem diz que “quase todos nós” achamos que os recursos naturais são inesgotáveis. Estamos aqui a falar do setor primário: sem ele não há comida. Mas mesmo o setor terciário, o das “ideias”, das “oportunidades”, que contribuem para o crescimento económico e em teoria podem ser inesgotáveis, não o é na vida real.
Estes “quase todos nós” a que o João Pinto e Castro se refere somos nós, do hemisfério norte, que crescemos e vivemos habituados a uma economia do desperdício. Tal facto é particularmente notório nos EUA, mas também se verifica na Europa. Continuamos a conduzir estupidamente os nossos carros, mesmo em percursos de centenas de metros, mesmo em localidades bem servidas de transportes públicos, como se o petróleo fosse inesgotável e o espaço para circular e estacionar nas cidades fosse infinito (sem falar nos enormes prejuízos ecológicos, de que o aquecimento global é só um exemplo). Continuamos criminosamente a comer jaquinzinhos e petingas, sem nos preocuparmos se no futuro os nossos filhos poderão comer carapaus e sardinhas frescos, capturados no mar. E assim sucessivamente – os exemplos não são poucos.
Que as pessoas de direita pensem, erradamente, que os recursos são inesgotáveis, ainda compreendo. O que não consigo entender é que tal passe sequer pela cabeça de pessoas que se digam de esquerda. Marx, provavelmente o primeiro ecologista, apercebeu-se da finitude dos recursos, ou não teria escrito “O Capital”.

2009/12/31

O concerto do ano: GNR

Pensei iniciar 2010 ao som dos Xutos, mas a hemorragia do Zé Pedro - a quem desejo rápidas melhoras - mudou-me os planos. Concertos dos Xutos já fui a muitos, o último há mais de dois anos. Mas 30 anos são 30 anos.
Só fui a um concerto dos GNR (que substituirão os Xutos na passagem de ano na Torre de Belém). Foi um excelente concerto - reportei-o aqui. Foi sem dúvida o melhor concerto a que fui neste ano para mim pobre em concertos (talvez por me ter mudado para Braga?). Mas será provavelmente o mesmo concerto do São João. Ver o mesmo concerto num intervalo de tempo tão curto, só com o Chico Buarque. Prefiro um programa mais caseiro, em casa de amigos, com vista para o fogo de artifício do Parque das Nações. Mas não poderia recomendar mais o concerto dos GNR logo, para quem ainda não o viu.
Bom 2010 para todos.

2009/12/30

O concerto fracassado do ano: Gal Costa

Um mês depois encontro tempo para recordar o concerto de Gal Costa, na Casa da Música, no Porto. Sabia que incidiria principalmente sobre músicas da bossa nova. Mas não esperava que fosse a este ponto: só no encore (de um concerto curto), e a pedido do público, é que se ouviram músicas com que podemos identificar Gal Costa: Festa do Interior, Um Dia de Domingo e Modinha de Gabriela. Só no fim é que eu tive a sensação de estar num concerto de Gal Costa. Antes, era Gal Costa a interpretar um concerto de João Gilberto. E eu, entre Costa e Gilberto, prefiro Gilberto. Pelo menos a interpretar as suas músicas - Gal não lhes acrescentou nada. Assisti a um concerto de Gal Costa (algo que queria fazer há anos). Mas acho que não escolhi o concerto certo.

2009/12/29

A ler, n'"A Bola"


Por estes dias, Barcelona e a Catalunha vivem em suspenso da decisão do Tribunal Constitucional sobre o novo Estatuto da Catalunha - que, à luz da Constituição Espanhola, só pode ser declarado inconstitucional, porque aquilo é praticamente uma declaração de independência, que faria a inveja de A. J. Jardim. Mas as coisas chegaram a tal ponto, que o próprio Zapatero torce para que o TC não veja o que todos vêem e não ouse afrontar os demónios catalães - mal adormecidos desde que, em 1640, Castela teve de optar entre opor-se à reconquista da independência portuguesa ou enfrentar o autonomismo catalão, e escolheu travar e vencer os revoltosos da Catalunha, deixando Portugal para os Braganças. Não por acaso, as reivindicações autónomas em Espanha estão directamente ligadas à riqueza das regiões: são os ricos do País Basco ou da Catalunha que querem ser independentes do poder fiscal de Madrid, para não terem de pagar impostos a favor dos pobres. Também em Itália, é o norte rico que se quer ver liberto de ter pagar a favor do Mezzogiorno, e em Inglaterra é a Escócia que quer ser independente do Midwest deprimido. A autonomia regional é quase sempre uma revolta dos ricos contra os pobres e contra o Estado central, cuja tarefa fundamental é distribuir a riqueza por todos. É por isso que eu sou ferozmente anti-regionalista, porque não tenho a mais pequena dúvida de que, ao contrário do que imaginam alguns incautos ou oportunistas, a regionalização lançaria Lisboa e o Porto contra todos os outros e ai dos alentejanos ou transmontanos, sem a República a protegê-los!
(Miguel Sousa Tavares, A Bola, 01-12-2009)