Impressionante reportagem de Romana Borja-Santos no Público a partir de um projeto de Miguel Neiva.
2010/05/04
2010/04/30
A roupa não faz o profissional
Uma caraterística de uma sociedade culturalmente católica como a nossa é a autoridade ser algo imposto e inquestionável. Nestas sociedades, a autoridade tem de ser demonstrada: se não for explícita, pode ser questionada. Uma das formas de demonstrar essa autoridade é através da roupa que se usa.
Reparem por favor na fotografia que apresento. Nela surgem reputados cientistas após uma defesa de tese numa reconhecida universidade americana, de cujo comité faziam parte. Talvez com a exceção do da direita, nenhum deles tem a mínima preocupação com os trajes que usa (o da esquerda está de calções e t-shirt, indumentária que usa o ano inteiro; o do meio usa a mesma roupa o ano inteiro). A sua autoridade, reconhecida pelos seus pares, resulta do seu trabalho e do seu mérito. Ninguém a diminui por eles eventualmente andarem “mal vestidos”. Sobretudo, ninguém considera isso um “desrespeito pela universidade”. Desrespeito pela universidade seria se eles não cumprissem bem as suas funções: se não investigassem, se dessem más aulas. É assim numa sociedade que valorize as pessoas pelo seu trabalho. O que, infelizmente, de um modo geral não é o caso nas sociedades tradicionalmente católicas.
Um deputado também tem uma autoridade inquestionável, resultante de ter sido eleito. Ter sido designado pelos seus eleitores. Pode-se perfeitamente questionar o trabalho de um deputado (não somente os seus eleitores). Pode verificar-se se ele está presente nos plenários, se participa nas comissões, se apresenta propostas. Pode questionar-se a sua autoridade com base nesse trabalho. Mas não com base na roupa que veste no dia a dia, mesmo no seu trabalho. O mesmo para um ministro.
(Excetuam-se aqui indumentárias que violem a lei: nomeadamente, não se aceita um deputado nu ou com roupas não neutras. Há de haver um código de indumentária e acho isso aceitável, mas seguramente não obriga ao fato e à gravata. Esperam-se fatos formais em cerimónias oficiais, mas um plenário quotidiano da Assembleia da República ou uma reunião não são cerimónias oficiais.)
Se no final do seu mandato os seus eleitores entenderem julgar o deputado pela sua roupa e não pelo seu trabalho, que o façam. É pena, mas é democrático. Se entenderem que o deputado era mal vestido e que tal os desprestigiava, são livres de escolherem outro. Mas entretanto ninguém pode julgar um deputado pela roupa que usa.
Contrariamente à Ana Matos Pires, eu não acho que isto seja um assunto menos relevante (ao contrário do “Manso é a tua tia” de Sócrates a Louçã, dito off the record e sem qualquer valor oficial). O meu prezado Pedro Correia é um bota de elástico quase tão grande como o seu colega de blogue António Figueira (tem sobre este a notória vantagem – para um bota de elástico – de não se dizer de esquerda). Como tal, é natural que ache um “desrespeito” pela Assembleia da República os trajes do (julgo que competente) deputado José Soeiro do Bloco de Esquerda, e o seu preconceito leve a julgar o José um mau deputado (há quem diga o mesmo do João Galamba e do seu brinquinho). Tal como achará que os professores desrespeitam a universidade a apresentarem-se assim como a foto documenta (e provavelmente o seu preconceito levá-lo-á a considerá-los menos competentes por isto). Eu estou farto desta mentalidade, nunca a aceitarei e creio que a principal razão do nosso atraso a ela se deve. Há que perguntar com toda a frontalidade: quem se julgam Pedro Correia, José Manuel Fernandes (outro que tal), quem se julgam os jornalistas para questionarem os trajes dos deputados da nação?
Também publicado no Esquerda Republicana
Reparem por favor na fotografia que apresento. Nela surgem reputados cientistas após uma defesa de tese numa reconhecida universidade americana, de cujo comité faziam parte. Talvez com a exceção do da direita, nenhum deles tem a mínima preocupação com os trajes que usa (o da esquerda está de calções e t-shirt, indumentária que usa o ano inteiro; o do meio usa a mesma roupa o ano inteiro). A sua autoridade, reconhecida pelos seus pares, resulta do seu trabalho e do seu mérito. Ninguém a diminui por eles eventualmente andarem “mal vestidos”. Sobretudo, ninguém considera isso um “desrespeito pela universidade”. Desrespeito pela universidade seria se eles não cumprissem bem as suas funções: se não investigassem, se dessem más aulas. É assim numa sociedade que valorize as pessoas pelo seu trabalho. O que, infelizmente, de um modo geral não é o caso nas sociedades tradicionalmente católicas.
Um deputado também tem uma autoridade inquestionável, resultante de ter sido eleito. Ter sido designado pelos seus eleitores. Pode-se perfeitamente questionar o trabalho de um deputado (não somente os seus eleitores). Pode verificar-se se ele está presente nos plenários, se participa nas comissões, se apresenta propostas. Pode questionar-se a sua autoridade com base nesse trabalho. Mas não com base na roupa que veste no dia a dia, mesmo no seu trabalho. O mesmo para um ministro.
(Excetuam-se aqui indumentárias que violem a lei: nomeadamente, não se aceita um deputado nu ou com roupas não neutras. Há de haver um código de indumentária e acho isso aceitável, mas seguramente não obriga ao fato e à gravata. Esperam-se fatos formais em cerimónias oficiais, mas um plenário quotidiano da Assembleia da República ou uma reunião não são cerimónias oficiais.)
Se no final do seu mandato os seus eleitores entenderem julgar o deputado pela sua roupa e não pelo seu trabalho, que o façam. É pena, mas é democrático. Se entenderem que o deputado era mal vestido e que tal os desprestigiava, são livres de escolherem outro. Mas entretanto ninguém pode julgar um deputado pela roupa que usa.
Contrariamente à Ana Matos Pires, eu não acho que isto seja um assunto menos relevante (ao contrário do “Manso é a tua tia” de Sócrates a Louçã, dito off the record e sem qualquer valor oficial). O meu prezado Pedro Correia é um bota de elástico quase tão grande como o seu colega de blogue António Figueira (tem sobre este a notória vantagem – para um bota de elástico – de não se dizer de esquerda). Como tal, é natural que ache um “desrespeito” pela Assembleia da República os trajes do (julgo que competente) deputado José Soeiro do Bloco de Esquerda, e o seu preconceito leve a julgar o José um mau deputado (há quem diga o mesmo do João Galamba e do seu brinquinho). Tal como achará que os professores desrespeitam a universidade a apresentarem-se assim como a foto documenta (e provavelmente o seu preconceito levá-lo-á a considerá-los menos competentes por isto). Eu estou farto desta mentalidade, nunca a aceitarei e creio que a principal razão do nosso atraso a ela se deve. Há que perguntar com toda a frontalidade: quem se julgam Pedro Correia, José Manuel Fernandes (outro que tal), quem se julgam os jornalistas para questionarem os trajes dos deputados da nação?
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2010/04/29
Maurizio Crozza imita Mourinho
Agradeço ao meu amigo Olindo a indicação deste vídeo da TV italiana.
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Futebol
2010/04/28
João Morais (1935-2010)
O "cantinho do Morais" não se esquece mais. Obrigado por ter dado ao Sporting o seu único troféu europeu, em 1964.
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Sporting
2010/04/27
"Café com blogues" na Brasileira
Hoje em Braga, às 21:00. Comigo, o Luís Aguiar Conraria e o Ricardo Meireles Santos. Transmissão na RUM 4ª feira às 20:00.
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Blogues
2010/04/26
A minha política é o trabalho dignificado e com direitos para toda a gente
O que se escreve sobre a “tolerância de ponto” a propósito da visita do Papa em dois conhecidos blogues da esquerda portuguesa?
No Cinco Dias, para o patusco António Figueira “mais um feriado é sempre mais um feriado”. Os outros que trabalhem. Que é como quem também diz: menos um imposto pago é sempre menos um imposto pago (os outros que paguem). E assim por diante. E ainda vem com a inevitável comparação com os feriados religiosos. Os feriados religiosos até poderiam nem ser obrigatórios (é outra discussão) mas, mesmo sendo-o, estão previstos e planeados. Não são uma medida avulsa e casuística. Não afetam a economia por isso. Mas melhor ainda é quando o António deseja que festividades de diversas religiões fossem reconhecidas como feriados e, reconhecendo que este é um país de “caretas” (por sinal o António deve ser o tipo mais bota-de-elástico da blogosfera portuguesa) ameaça… emigrar! Caro António, sugiro que imprimas esta declaração e a vás entregando junto com os pedidos de visto de trabalho, a ver qual país é que te aceita…
Já no Vias de Facto, Miguel Serras Pereira insurge-se contra um grupo do Facebook já aqui mencionado pelo Ricardo Alves: “eu trabalho e não quero tolerância de ponto no dia 13 de Maio”. Não parece preocupar Miguel Serras Pereira que haja trabalhadores (não funcionários públicos) que não tenham direito à tal tolerância. Nem que alguns, precários a recibos verdes, que até podem ser católicos e, legitimamente, gostassem de tirar um dia de férias para irem ver o Papa, não o possam fazer. E não parece preocupá-lo, também, que haja funcionários públicos que queiram trabalhar (será seguramente o que eu vou fazer). Não passa pela cabeça do Miguel Serras Pereira, pelos vistos, que haja quem queira trabalhar, e que fazer um protesto, ou uma greve, nunca é (ou nunca deve ser) sinónimo de dizer-se que não se quer trabalhar. Bem pelo contrário – por isso, e só por isso, é ofensiva a expressão “a minha política é o trabalho”, despropositadamente citada por Miguel Serras Pereira, que troca tudo.
Passemos por cima do que Serras Pereira considera “politicamente desastroso”: “dada a crise que atravessamos, não podemos perder tempo de trabalho” (pelos vistos para Serras Pereira a crise não existe ou, se existe, os outros – não necessariamente os ricos -que a paguem: ele é que não). O autor do Vias de Facto sugere protestos alternativos, “puxando um pouco pela imaginação”. (Sempre a “imaginação” a descredibilizar a esquerda. Pior que a “imaginação” só o “sonho”.) Que protestos seriam? Um “encontro-convívio-jornada de onde saísse a reivindicação de transformar essa data num feriado anual celebrando a "liberdade de consciência" e/ou a "cidadania laica", que, de resto, a Constituição em vigor consagra.” Quererá Serras Pereira um feriado por tudo o que a constituição em vigor consagra? Mas, mesmo pondo esta questão de parte, atentemos no essencial: o Papa visita Portugal (um direito inquestionável, desde que não seja pago pelos nossos impostos). Só os católicos o deveriam receber (e não o Estado). A resposta de quem defende a laicidade deveria ser a indiferença (tornando este um dia normal – de trabalho). Serras Pereira propõe que o país passe a dedicar um feriado anual a esta data? O Papa deveria sentir-se mesmo importante… E propõe que toda a gente celebre este evento… com um “encontro-convívio-jornada”. O saudoso Odorico Paraguassu, na sua sabedoria, chamava à sua oposição “esquerda cervejista”. O Miguel Serras Pereira assume-se como um membro de pleno direito da “esquerda cervejista”. A este ponto chegámos.
Recordo, a propósito, uma ocasião em que assisti a um debate, na Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, onde participou um dos membros do Vias de Facto, Diana Andringa. Aproximavam-se na altura, todos o pressentiam, tempos (que viriam a ser sangrentos para alguns colegas meus) de combate às propinas, no fim do cavaquismo, e Andringa deixou-nos (eu era caloiro) um conselho que eu nunca esqueci até hoje, e que foi mais ou menos assim: “não bebam e nem joguem às cartas nas manifestações – dá um mau aspeto do caraças”. Miguel Serras Pereira, pelos vistos, quer transformar os protestos em “encontros-convívio”, provavelmente com bebida e jogos de cartas. A Diana Andringa que lhe ensine alguma coisa, se conseguir.
E assim vai certa “esquerda”: só serve para pedir mais um feriadinho. A “jornada suplementar pela batalha da produção” em que se tornou o feriado de 10 de Junho de 1975 (numa iniciativa da Intersindical) seria impensável hoje, por muitas razões (a principal das quais a que cada vez menos pertence ao povo o que o povo produz). Mas, mesmo que pertencesse, uma “batalha da produção” como resposta à crise seria impensável para quem “mais um feriado é sempre mais um feriado”. Quem pensa assim, mesmo à luz da doutrina comunista, não produz muito. E também não lhe deveria pertencer muito.
Também publicado no Esquerda Republicana
No Cinco Dias, para o patusco António Figueira “mais um feriado é sempre mais um feriado”. Os outros que trabalhem. Que é como quem também diz: menos um imposto pago é sempre menos um imposto pago (os outros que paguem). E assim por diante. E ainda vem com a inevitável comparação com os feriados religiosos. Os feriados religiosos até poderiam nem ser obrigatórios (é outra discussão) mas, mesmo sendo-o, estão previstos e planeados. Não são uma medida avulsa e casuística. Não afetam a economia por isso. Mas melhor ainda é quando o António deseja que festividades de diversas religiões fossem reconhecidas como feriados e, reconhecendo que este é um país de “caretas” (por sinal o António deve ser o tipo mais bota-de-elástico da blogosfera portuguesa) ameaça… emigrar! Caro António, sugiro que imprimas esta declaração e a vás entregando junto com os pedidos de visto de trabalho, a ver qual país é que te aceita…
Já no Vias de Facto, Miguel Serras Pereira insurge-se contra um grupo do Facebook já aqui mencionado pelo Ricardo Alves: “eu trabalho e não quero tolerância de ponto no dia 13 de Maio”. Não parece preocupar Miguel Serras Pereira que haja trabalhadores (não funcionários públicos) que não tenham direito à tal tolerância. Nem que alguns, precários a recibos verdes, que até podem ser católicos e, legitimamente, gostassem de tirar um dia de férias para irem ver o Papa, não o possam fazer. E não parece preocupá-lo, também, que haja funcionários públicos que queiram trabalhar (será seguramente o que eu vou fazer). Não passa pela cabeça do Miguel Serras Pereira, pelos vistos, que haja quem queira trabalhar, e que fazer um protesto, ou uma greve, nunca é (ou nunca deve ser) sinónimo de dizer-se que não se quer trabalhar. Bem pelo contrário – por isso, e só por isso, é ofensiva a expressão “a minha política é o trabalho”, despropositadamente citada por Miguel Serras Pereira, que troca tudo.
Passemos por cima do que Serras Pereira considera “politicamente desastroso”: “dada a crise que atravessamos, não podemos perder tempo de trabalho” (pelos vistos para Serras Pereira a crise não existe ou, se existe, os outros – não necessariamente os ricos -que a paguem: ele é que não). O autor do Vias de Facto sugere protestos alternativos, “puxando um pouco pela imaginação”. (Sempre a “imaginação” a descredibilizar a esquerda. Pior que a “imaginação” só o “sonho”.) Que protestos seriam? Um “encontro-convívio-jornada de onde saísse a reivindicação de transformar essa data num feriado anual celebrando a "liberdade de consciência" e/ou a "cidadania laica", que, de resto, a Constituição em vigor consagra.” Quererá Serras Pereira um feriado por tudo o que a constituição em vigor consagra? Mas, mesmo pondo esta questão de parte, atentemos no essencial: o Papa visita Portugal (um direito inquestionável, desde que não seja pago pelos nossos impostos). Só os católicos o deveriam receber (e não o Estado). A resposta de quem defende a laicidade deveria ser a indiferença (tornando este um dia normal – de trabalho). Serras Pereira propõe que o país passe a dedicar um feriado anual a esta data? O Papa deveria sentir-se mesmo importante… E propõe que toda a gente celebre este evento… com um “encontro-convívio-jornada”. O saudoso Odorico Paraguassu, na sua sabedoria, chamava à sua oposição “esquerda cervejista”. O Miguel Serras Pereira assume-se como um membro de pleno direito da “esquerda cervejista”. A este ponto chegámos.
Recordo, a propósito, uma ocasião em que assisti a um debate, na Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, onde participou um dos membros do Vias de Facto, Diana Andringa. Aproximavam-se na altura, todos o pressentiam, tempos (que viriam a ser sangrentos para alguns colegas meus) de combate às propinas, no fim do cavaquismo, e Andringa deixou-nos (eu era caloiro) um conselho que eu nunca esqueci até hoje, e que foi mais ou menos assim: “não bebam e nem joguem às cartas nas manifestações – dá um mau aspeto do caraças”. Miguel Serras Pereira, pelos vistos, quer transformar os protestos em “encontros-convívio”, provavelmente com bebida e jogos de cartas. A Diana Andringa que lhe ensine alguma coisa, se conseguir.
E assim vai certa “esquerda”: só serve para pedir mais um feriadinho. A “jornada suplementar pela batalha da produção” em que se tornou o feriado de 10 de Junho de 1975 (numa iniciativa da Intersindical) seria impensável hoje, por muitas razões (a principal das quais a que cada vez menos pertence ao povo o que o povo produz). Mas, mesmo que pertencesse, uma “batalha da produção” como resposta à crise seria impensável para quem “mais um feriado é sempre mais um feriado”. Quem pensa assim, mesmo à luz da doutrina comunista, não produz muito. E também não lhe deveria pertencer muito.
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2010/04/22
A nova bettencorada: casar com uma benfiquista é uma "infelicidade"
Filipe Soares Franco não compareceu à cerimónia da entrega dos emblemas aos sócios do Sporting com 25 anos de filiação. Provavelmente já nem quer dar confiança aos atuais órgãos sociais do clube. Se tivesse comparecido, poderia ter respondido com o seu próprio exemplo (foi casado com uma benfiquista histórica, e só a sua filha é sportinguista - os filhos são benfiquistas) a mais estas declarações imbecis deste presidente que há muito perdeu o cérebro, se é que alguma vez o teve. Poderia ter dito que o sportinguismo é importante, mas mais importantes são outros valores (a própria cultura sportinguista reconhece isto - e é isto que faz este clube diferente). E poderia ter concluído que não admite (não se admite) que sportinguista nenhum venha julgar a "felicidade" de uma relação com alguém de outro clube.
Se o (tristemente) presidente do Sporting tivesse um mínimo de inteligência, perceberia que não é com "trabalho de sapa" que se angariam sportinguistas. Embora a família possa ter influência na escolha do clube (não o nego), cada vez é menos esse o caso. Para um jovem escolher um clube, é também importante que ele ganhe, mas mais ainda (e tradicionalmente é esse o caso dos sportinguistas) é importante a história, os valores e sobretudo a imagem do clube. E é isso que eu nunca vi ser tão degradado como por este presidente. Na confissão de inferioridade que volta a fazer perante o Benfica e, sobretudo (o mais grave), na mentalidade inerente a uma mãe escolher o clube do filho. É provavelmente assim na família de José Eduardo Bettencourt, mas não é assim nos dias de hoje. José Eduardo Bettencourt parou em meados do século passado, e quer arrastar o Sporting junto com ele.
Se o (tristemente) presidente do Sporting tivesse um mínimo de inteligência, perceberia que não é com "trabalho de sapa" que se angariam sportinguistas. Embora a família possa ter influência na escolha do clube (não o nego), cada vez é menos esse o caso. Para um jovem escolher um clube, é também importante que ele ganhe, mas mais ainda (e tradicionalmente é esse o caso dos sportinguistas) é importante a história, os valores e sobretudo a imagem do clube. E é isso que eu nunca vi ser tão degradado como por este presidente. Na confissão de inferioridade que volta a fazer perante o Benfica e, sobretudo (o mais grave), na mentalidade inerente a uma mãe escolher o clube do filho. É provavelmente assim na família de José Eduardo Bettencourt, mas não é assim nos dias de hoje. José Eduardo Bettencourt parou em meados do século passado, e quer arrastar o Sporting junto com ele.
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Sporting
2010/04/21
Revista de imprensa (Abril 2010)
Para maior azar de Papandreou, no dia seguinte, o mesmo jornal trazia uma reportagem sobre a contestação de rua, em Atenas, às suas medidas, onde se registava a opinião de uma jovem de 26 anos, declarando que, em caso algum, aceitaria que prolongassem a sua idade de reforma, prevista para os 50. Porque, explicava ela, a sua profissão estava considerada por lei como de "desgaste rápido", o que lhe conferia também direito a uma reforma rápida. E qual era a profissão dela? Cabeleireira. É uma das 280 profissões ou trabalhos a que a lei grega reconheceu o estatuto de 'desgaste rápido', em consequência de sucessivas cedências às reivindicações sindicais.
Por diversas razões, que agora não vêm ao caso, eu acho que, aqui, como no resto, a Europa nunca tem sido justa com a Alemanha e nunca reconheceu suficientemente o esforço que a Alemanha tem feito em defesa da Europa e na manutenção de pontes entre o Leste e o Oeste, entre o Mediterrâneo (incluindo a Turquia) e o Norte. Talvez se perceba isso melhor quando se vê uma imigrante turca de Berlim (onde 20% dos habitantes são imigrantes) atirar para o chão, displicentemente, o embrulho do cachorro acabado de comprar. Numa cidade estimada pelos seus habitantes, limpa e onde tudo funciona, que custou milhões aos pagadores de impostos para se unificar e reconstruir depois do Muro, o gesto é uma ofensa que dá que pensar.
Nessa semana, por coincidência, eu também estava em Berlim e percebi bem por que razão 90% dos alemães não querem ajudar a Grécia a sair do buraco onde se enfiou e chegam até à ironia de perguntar se, em alternativa, os gregos não quererão antes vender algumas ilhas. Como me explicou um alemão, "Papandreou representa um país onde toda a gente tem direito a 13º e 14º mês e onde a idade de reforma nunca vai além dos 60 anos. E vem-nos pedir dinheiro a nós, esquecendo-se que aqui não há direito legal a 13º e 14º mês e a idade de reforma já vai nos 67 anos". (Miguel Sousa Tavares, 01-04-2010)
O SAP de Valença foi fechado a partir das 22h - como trinta e dois outros nos últimos três anos. Tinha uma média de 1,7 utentes por noite, os quais mobilizavam um médico, um enfermeiro, um administrativo. Três funcionários do Estado a receber horas extraordinárias e nocturnas a noite toda, para atenderem 1,7 doentes ou autodeclarados como tal: era, provavelmente, a consulta mais cara do país. Se os casos atendidos fossem graves, o serviço servia de muito pouco ou pior: fazia perder tempo a encaminhar o doente para outro lado, onde houvesse condições para o atender; se não fosse grave, o atendimento nocturno servia apenas para retirar um médico do serviço de dia, onde há mais gente para atender. Como não somos o Dubai e não temos dinheiro para manter 24 horas por dia um médico, um enfermeiro e um funcionário ao serviço de cada cidadão, o SAP de Valença fechou. Agora, a população diz que vai a Tuy, em Espanha, logo ali ao lado e onde dizem que são recebidos a qualquer hora e sem sequer pagar taxas moderadoras. Agradecidos, hastearam bandeiras espanholas na vila e dizem que só voltam a ser portugueses quando reabrir o serviço nocturno do SAP. Eu, que dou ao meu país 60% do que ganho a trabalhar, em impostos directos e indirectos, tenho um recado para os de Valença: por favor, continuem espanhóis. (Miguel Sousa Tavares, 15-04-2010)
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2010/04/19
2010/04/12
"Quem apanhará as minhas trufas?"
"Estamos na época das trufas. Se eu não estiver cá nessa semana, quem colherá as minhas trufas?" Foi esta a desculpa de Grigory Perelman para não comparecer na cerimónia de entrega da medalha Fields pela demonstração da conjetura de Poincaré, em Madrid, há quatro anos (conforme escrevemos aqui). Pelos vistos há cogumelos todo o ano: Perelman também se prepara para recusar o prémio (milionário) do Instituto Clay.
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Ciência
2010/04/07
As viagens da deputada Inês de Medeiros
Na série Seinfeld, a minha personagem favorita era o Kramer. E uma das razões principais para isso é que raramente alguma outra vez terá ficado tão clara a distinção entre lógica e bom senso. O bom do Kramer (com certeza um matemático não aproveitado) defendia pontos de vista que eram absolutamente inatacáveis de um ponto de vista lógico, mas que entravam em conflito com o mais elementar senso comum do dia a dia.
A jurista (é ela que assim se intitula, e frisa-o bem) Isabel Moreira, do Jugular, é algo krameriana na sua argumentação. O pagamento das viagens a Paris da deputada Inês de Medeiros pode até ser estritamente legal, mas não passa pela cabeça de ninguém com um mínimo de bom senso que um deputado da nação tenha ajudas de custo para viagens à sua residência… fora do país. Mais: creio que não passa pela cabeça de ninguém que um deputado da nação tenha residência permanente fora do país.
Excetuam-se, claro, os deputados eleitos pelos círculos da emigração. Mas Inês de Medeiros, recorde-se, apesar de residir em Paris, é eleita pelo círculo de Lisboa, onde é eleitora.
A lógica de Isabel Moreira, a defender quem tem um local de residência e outro de voto, é contrária ao Simplex, e em particular ao Cartão do Cidadão, uma das bandeiras do anterior governo, que tornaria essa prática impossível. Esta situação de Inês de Medeiros não é necessariamente ilegal, porque o Cartão do Cidadão ainda não está generalizado, mas situações como a da deputada têm os dias contados. Entretanto, que fazer com as suas viagens?
Como ponto prévio, declaro-me internacionalista, e europeísta em particular. Dito isto, não faz sentido declarar que o não pagamento de tais viagens põe em causa a “mobilidade dos cidadãos”. Que se paguem tais ajudas a deputados ao Parlamento Europeu, pois acho naturalmente muito bem. Mas a mobilidade entre diferentes países da União Europeia é algo que não se espera de um deputado a um parlamento nacional (que, no contexto europeu, é uma forma local, ou se quisermos regional, de fazer política). Posso concordar com a Fernanda Câncio que este caso abre um precedente, e que se calhar Inês de Medeiros, que não prestou declaração falsa nenhuma, é a menos culpada e não merece um linchamento (mais culpado se calhar é o partido que aceitou a sua candidatura, sabendo estas circunstâncias). E concordo sobretudo quando lamento que o Presidente da AR, tão lesto noutras tomadas de posição, não diga nada sobre este caso. Mas apesar disso tudo (ainda mais estando nós no meio de uma crise profunda, mas mesmo que não estivéssemos), eu não quero pagar as viagens a Paris da deputada Inês de Medeiros.
Também publicado no Esquerda Republicana
A jurista (é ela que assim se intitula, e frisa-o bem) Isabel Moreira, do Jugular, é algo krameriana na sua argumentação. O pagamento das viagens a Paris da deputada Inês de Medeiros pode até ser estritamente legal, mas não passa pela cabeça de ninguém com um mínimo de bom senso que um deputado da nação tenha ajudas de custo para viagens à sua residência… fora do país. Mais: creio que não passa pela cabeça de ninguém que um deputado da nação tenha residência permanente fora do país.
Excetuam-se, claro, os deputados eleitos pelos círculos da emigração. Mas Inês de Medeiros, recorde-se, apesar de residir em Paris, é eleita pelo círculo de Lisboa, onde é eleitora.
A lógica de Isabel Moreira, a defender quem tem um local de residência e outro de voto, é contrária ao Simplex, e em particular ao Cartão do Cidadão, uma das bandeiras do anterior governo, que tornaria essa prática impossível. Esta situação de Inês de Medeiros não é necessariamente ilegal, porque o Cartão do Cidadão ainda não está generalizado, mas situações como a da deputada têm os dias contados. Entretanto, que fazer com as suas viagens?
Como ponto prévio, declaro-me internacionalista, e europeísta em particular. Dito isto, não faz sentido declarar que o não pagamento de tais viagens põe em causa a “mobilidade dos cidadãos”. Que se paguem tais ajudas a deputados ao Parlamento Europeu, pois acho naturalmente muito bem. Mas a mobilidade entre diferentes países da União Europeia é algo que não se espera de um deputado a um parlamento nacional (que, no contexto europeu, é uma forma local, ou se quisermos regional, de fazer política). Posso concordar com a Fernanda Câncio que este caso abre um precedente, e que se calhar Inês de Medeiros, que não prestou declaração falsa nenhuma, é a menos culpada e não merece um linchamento (mais culpado se calhar é o partido que aceitou a sua candidatura, sabendo estas circunstâncias). E concordo sobretudo quando lamento que o Presidente da AR, tão lesto noutras tomadas de posição, não diga nada sobre este caso. Mas apesar disso tudo (ainda mais estando nós no meio de uma crise profunda, mas mesmo que não estivéssemos), eu não quero pagar as viagens a Paris da deputada Inês de Medeiros.
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2010/04/06
Exposição Internacional de Cartoon
Encontram-se coisas que valem mesmo a pena nesta exposição. O meu favorito, de um autor de traço inconfundível (contemporâneo do Vítor Santos, que quem andou no Técnico nos anos 90 bem conhece) é o Álvaro Santos, que expôs o cartoon que eu aqui reproduzo. A ver, no Centro Vitória do PCP (na Av. da Liberdade, em Lisboa), só até esta sexta feira.
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2010/04/03
Prós & Contras: "quem manda nas escolas?"
Já há quinze dias (num debate sobre o PEC e as contas públicas) havia notado, e esta semana só o confirmei: o programa "Prós & Contras", que antigamente alguém chamava "Prós & Prós", está cada vez mais "Contras & Contras". Dantes, praticamente em cada semana estava lá um ministro; agora, para debater a educação, estavam (no último programa, disponível aqui), nada menos que Nuno Crato (apesar de tudo o melhor), Helena Matos e... Paulo Portas. Habilidoso, o líder do CDS conseguiu fazer passar a sua propaganda, a mensagem do seu partido, sem nunca a este se referir. Insistiu que na escola "não é admissível nenhum tipo de violência: violência contra professores, violência contra funcionários..." Não acabou. Ficámos sem saber se Portas toleraria a violência contra os alunos (desde que dirigida por professores ou funcionários).
Foi engraçado ouvir os alunos. No que se segue, para que fique claro, a identificação do quadrante político dos alunos é uma "adivinha" minha. Ninguém se identificou como membro de nenhum partido. Na primeira parte, falou (timidamente) um estudante nitidamente apoiante do PS e das políticas de Maria de Lurdes Rodrigues. Os críticos do "eduquês" e os seus colegas de partidos mais à esquerda defendem posições totalmente opostas, mas ambos reuniam-se para criticarem a anterior ministra - a sua inabilidade política reflete-se em, não ter sabido tirar proveito desta reunião. Na segunda parte, por volta dos 11 min, falou (julgo eu) um estudante apoiante do PCP. Refiro-o pela forma como se quis demarcar do estudante anterior e, pese algum nervosismo, pela forma como lia tudo o que queria dizer, sem se afastar nada do planeado. Logo depois, falou Pedro Feijó, assumidamente do Bloco de Esquerda, apresentado pela apresentadora como "o rapaz que estava doido por falar". O à-vontade a falar era notável. Fixem este nome: daqui a uns anos teremos ali deputado. Entretanto quer estudar Física... Tanto Feijó como a generalidade dos intervenientes pediram (em graus diferentes) "mais autonomia" para as escolas. Fossem professores e estudantes ou fossem só professores a fazê-lo, os programas deveriam ser decididos localmente e não pelo ministério. Gostaria de saber o que pensam os proponentes desse tipo de medidas desta reescrita da História no Estado do Texas.
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Foi engraçado ouvir os alunos. No que se segue, para que fique claro, a identificação do quadrante político dos alunos é uma "adivinha" minha. Ninguém se identificou como membro de nenhum partido. Na primeira parte, falou (timidamente) um estudante nitidamente apoiante do PS e das políticas de Maria de Lurdes Rodrigues. Os críticos do "eduquês" e os seus colegas de partidos mais à esquerda defendem posições totalmente opostas, mas ambos reuniam-se para criticarem a anterior ministra - a sua inabilidade política reflete-se em, não ter sabido tirar proveito desta reunião. Na segunda parte, por volta dos 11 min, falou (julgo eu) um estudante apoiante do PCP. Refiro-o pela forma como se quis demarcar do estudante anterior e, pese algum nervosismo, pela forma como lia tudo o que queria dizer, sem se afastar nada do planeado. Logo depois, falou Pedro Feijó, assumidamente do Bloco de Esquerda, apresentado pela apresentadora como "o rapaz que estava doido por falar". O à-vontade a falar era notável. Fixem este nome: daqui a uns anos teremos ali deputado. Entretanto quer estudar Física... Tanto Feijó como a generalidade dos intervenientes pediram (em graus diferentes) "mais autonomia" para as escolas. Fossem professores e estudantes ou fossem só professores a fazê-lo, os programas deveriam ser decididos localmente e não pelo ministério. Gostaria de saber o que pensam os proponentes desse tipo de medidas desta reescrita da História no Estado do Texas.
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2010/03/31
Recordações do Red Light District
A primeira vez que visitei Amesterdão, ao passear pelo Red Light District (na vizinhança do qual morei uns meses) ocorreu-me que, ali no meio, "só faltava uma igreja" para o contraste ser total. Mais uns metros... e dei com ela. A Oude Kerk. Ao mesmo tempo em que os sinos tocavam, moças seminuas exibiam-se nas montras. Aquela cidade era única (e não era por isso que eu gostava dela).
Não era eu o único a espantar-me com aquele contraste, como testemunha esta interessante reportagem da Sofia Lorena no Público.
Não era eu o único a espantar-me com aquele contraste, como testemunha esta interessante reportagem da Sofia Lorena no Público.
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2010/03/30
O Big Bang recomeça a partir de hoje
Para acompanhar ao vivo do LHC: Ciência Viva TV ou diretamente do CERN.
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2010/03/26
Sexta com Louçã, sábado com Sócrates
Foi assim o meu fim de semana passado: na sexta na apresentação do livro de Louçã, aqui referido; no sábado, no "Fórum Novas Fronteiras", uma iniciativa de encontro do PS com independentes. Este Fórum valeu a pena sobretudo pelo diretor do INESC-Porto, o reitor da Universidade do Minho e alguns antigos alunos desta universidade onde trabalho, exemplos de iniciativas de sucesso (não gosto da palavra "empreendedorismo") ligadas às novas tecnologias, algo em que Braga e o Minho têm dado o exemplo.
A maior parte da audiência, porém, estava ali para o "comício" do Primeiro Ministro. Não eram independentes, mas militantes partidários. Recordo duas senhoras de idade, com ar de camponesas de uma das muitas aldeias à volta de Braga, que me viram com o programa. Pediram-me para vê-lo, perguntaram-me quem estava a falar (era um dos independentes) e fizeram as contas para quantos faltavam até "ele" falar.
Antes "dele", falou Jaime Gama. Falou do PEC. Ouviu-se um sururu. Ainda pensei: querem ver que vão haver protestos contra os cortes dos benefícios sociais e contra as privatizações (tal como já o fizeram destacados socialistas)? Não: era uma discussão sobre os lugares sentados. Os militantes queriam estar bem instalados para quando "ele" falasse.
A maior parte da audiência, porém, estava ali para o "comício" do Primeiro Ministro. Não eram independentes, mas militantes partidários. Recordo duas senhoras de idade, com ar de camponesas de uma das muitas aldeias à volta de Braga, que me viram com o programa. Pediram-me para vê-lo, perguntaram-me quem estava a falar (era um dos independentes) e fizeram as contas para quantos faltavam até "ele" falar.
Antes "dele", falou Jaime Gama. Falou do PEC. Ouviu-se um sururu. Ainda pensei: querem ver que vão haver protestos contra os cortes dos benefícios sociais e contra as privatizações (tal como já o fizeram destacados socialistas)? Não: era uma discussão sobre os lugares sentados. Os militantes queriam estar bem instalados para quando "ele" falasse.
2010/03/25
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Neste caso, foram os comboios, o que eu acho pior (é um transporte público):
Pediram que "evitasse morrer" junto às casas.
Entretanto, anteontem foi dia de greve da CP. O pobre septuagenário provavelmente desejaria ter morrido logo na terça feira, mas por causa dos malvados grevistas teve de adiar tudo um dia. Na próxima greve da CP, para além dos transportes alternativos, será de exigir também um serviço mínimo de suicídios?
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Pediram que "evitasse morrer" junto às casas.
Entretanto, anteontem foi dia de greve da CP. O pobre septuagenário provavelmente desejaria ter morrido logo na terça feira, mas por causa dos malvados grevistas teve de adiar tudo um dia. Na próxima greve da CP, para além dos transportes alternativos, será de exigir também um serviço mínimo de suicídios?
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2010/03/23
Recordações de Long Island
No Esquerda Republicana, inquiri o Ricardo Alves sobre se teria cabimento supor-se que algum condutor poderia alguma vez seguir de Alcântara a Benfica sem notar que a polícia o estava a mandar parar. Lembrei-me de uma história que era muito contada na universidade onde estudei, em Long Island, no estado de Nova Iorque, e concluí que essa possibilidade, embora muito remota, até pode ter algum cabimento.
A história resume-se da seguinte forma: um aluno tinha defendido a sua tese nesse dia, e decidiu ir a Nova Iorque com os amigos celebrar. O grupo foi de carro (uns 80 km), com o novo graduado ao volante. Saíram da universidade e não pararam num sinal de stop. A polícia viu e mandou-os parar. Só que o estudante não viu o carro da polícia (deveria ir a conversar com os amigos) e seguiu. Seguiu dentro da universidade, seguiu na estrada de acesso à autoestrada, seguiu na autoestrada. Sempre com um carro da polícia atrás, a mandá-lo parar. Tanto seguiu, tanto seguiu, até um certo ponto, em que tinha a autoestrada cortada com carros–patrulha à espera do carro fugitivo.
O que há a aprender deste episódio? Que fique bem claro: não defendo os modos de atuar da polícia americana, nem pretendo que ela seja exemplo para a portuguesa. Mas há sobretudo que comparar. Onde é que a polícia portuguesa alguma vez tinha meios para cortar uma autoestrada para intercetar um fugitivo? As notícias ontem falavam numa perseguição na Austrália que envolveu cem policiais. Não morreu ninguém nem consta que tenha havido tiros. Seria possível em Portugal mobilizar cem policiais para uma perseguição?
Desde essa altura que tenho a ideia que a polícia portuguesa tem muito poucos recursos, muito má preparação, e faz o que pode com eles. É uma profissão mal paga e muito pouco dignificada. Os polícias, que não podem ser sindicalizados, têm de andar sempre impecavelmente apresentados, e no entanto são eles que têm que comprar e tratar as suas fardas. Têm acesso a armas, mas têm de justificar toda e cada bala que disparam (e ainda bem!). Arriscam a sua vida. São sempre identificados. Quando erram, são responsabilizados. Têm muitas vezes opiniões xenófobas, que transparecem de certas declarações que eles não devem nem têm de proferir, mas não têm grande formação (nem sequer para o seu próprio ofício).
Situações como a que ocorreu esta semana são lamentáveis e não podem ficar sem resposta; devem ser apuradas responsabilidades e punir quem tiver de ser punido. O ministro da Administração Interna deveria exigir um inquérito. Agora, antes de desatarmos a tratar o corpo da polícia como um bando de criminosos (que eles não são), deveríamos refletir sobre o que lhes podemos exigir com os recursos, os meios e a preparação que eles têm ao seu dispor.
O resto da história do estudante, não sendo muito feliz, também não chega a ser trágica: o estudante ficou um ou vários dias na prisão, não sei precisar (sei que era europeu, e graças a esta história perdeu o avião de regresso ao seu país…). Por originalmente não ter parado num stop. Podemos achar exagerado, mas pelo menos cumprem-se as leis, que são iguais para todos. Mas o que eu quero frisar é que o estudante fugitivo foi apanhado e não morreu. Nem levou nenhum tiro.
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A história resume-se da seguinte forma: um aluno tinha defendido a sua tese nesse dia, e decidiu ir a Nova Iorque com os amigos celebrar. O grupo foi de carro (uns 80 km), com o novo graduado ao volante. Saíram da universidade e não pararam num sinal de stop. A polícia viu e mandou-os parar. Só que o estudante não viu o carro da polícia (deveria ir a conversar com os amigos) e seguiu. Seguiu dentro da universidade, seguiu na estrada de acesso à autoestrada, seguiu na autoestrada. Sempre com um carro da polícia atrás, a mandá-lo parar. Tanto seguiu, tanto seguiu, até um certo ponto, em que tinha a autoestrada cortada com carros–patrulha à espera do carro fugitivo.
O que há a aprender deste episódio? Que fique bem claro: não defendo os modos de atuar da polícia americana, nem pretendo que ela seja exemplo para a portuguesa. Mas há sobretudo que comparar. Onde é que a polícia portuguesa alguma vez tinha meios para cortar uma autoestrada para intercetar um fugitivo? As notícias ontem falavam numa perseguição na Austrália que envolveu cem policiais. Não morreu ninguém nem consta que tenha havido tiros. Seria possível em Portugal mobilizar cem policiais para uma perseguição?
Desde essa altura que tenho a ideia que a polícia portuguesa tem muito poucos recursos, muito má preparação, e faz o que pode com eles. É uma profissão mal paga e muito pouco dignificada. Os polícias, que não podem ser sindicalizados, têm de andar sempre impecavelmente apresentados, e no entanto são eles que têm que comprar e tratar as suas fardas. Têm acesso a armas, mas têm de justificar toda e cada bala que disparam (e ainda bem!). Arriscam a sua vida. São sempre identificados. Quando erram, são responsabilizados. Têm muitas vezes opiniões xenófobas, que transparecem de certas declarações que eles não devem nem têm de proferir, mas não têm grande formação (nem sequer para o seu próprio ofício).
Situações como a que ocorreu esta semana são lamentáveis e não podem ficar sem resposta; devem ser apuradas responsabilidades e punir quem tiver de ser punido. O ministro da Administração Interna deveria exigir um inquérito. Agora, antes de desatarmos a tratar o corpo da polícia como um bando de criminosos (que eles não são), deveríamos refletir sobre o que lhes podemos exigir com os recursos, os meios e a preparação que eles têm ao seu dispor.
O resto da história do estudante, não sendo muito feliz, também não chega a ser trágica: o estudante ficou um ou vários dias na prisão, não sei precisar (sei que era europeu, e graças a esta história perdeu o avião de regresso ao seu país…). Por originalmente não ter parado num stop. Podemos achar exagerado, mas pelo menos cumprem-se as leis, que são iguais para todos. Mas o que eu quero frisar é que o estudante fugitivo foi apanhado e não morreu. Nem levou nenhum tiro.
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2010/03/22
Disciplina segundo Costinha
Um artigo de Luís Avelãs no Record que resume o essencial do que há a dizer sobre (mais) este caso do meu triste Sporting.
Estava fácil de perceber, desde o súbito desaparecimento do russo da convocatória para o embate com o Atlético Madrid, que a novela em torno de Izmailov iria ser longa e complexa. E o curioso é que quanto mais surgem afirmações das personagens envolvidas, mais complicado fica perceber o que aconteceu, o que se passa de momento ou até o que irá suceder nas próximas horas.
Que há muita mentira pelo meio, creio que já todos entenderam. Basta atentar nas palavras de Costinha, do médico Gomes Pereira e do empresário Paulo Barbosa para ter a certeza que tudo isto segue repleto de episódios que, pura e simplesmente, não encaixam uns nos outros.
Deixemos de lado as suposições, tudo o que suscita (pela falta de confirmação) interpretações dúbias e concentremo-nos no óbvio: Costinha pode ter toda a razão para estar zangado com Izmailov mas, objectivamente, entrou "a pé juntos" numa situação em que, os interesses do clube, pediam uma intervenção mais sensata.
Na ânsia de mostrar serviço e de impor uma gestão diferente, mais profissional, Costinha apenas conseguiu amplificar um problema que, independentemente de ser grave, exigia tratamento com pinças. Ver alguém que prometeu um balneário blindando ir a correr para a sala de imprensa, após o adeus à Liga Europa, oferecer "a cabeça" do russo é, por si só, um erro tremendo.
Izmailov pode não ter estado bem neste "filme", mas é justo dizer que tem um passado no clube que, no mínimo, merecia outro tratamento. Não me recordo de ver outro futebolista dizer que abdicava do ordenado enquanto estivesse a recuperar de lesão. Por outra lado, ainda recentemente abdicou de um salário mais alto na sua terra para continuar de leão ao peito. A juntar a isto, convém ter presente que é dos melhores jogadores do plantel, bem como um dos activos mais significativos da SAD. Equacionar medidas radicais contra ele é, em traços gerais, desfalcar a equipa e rasgar dinheiro. Num grupo sem muitas soluções de qualidade e num emblema que não respira grande saúde financeira... tal devia ser proibido.
Costinha, depois de um súbito ataque de sportinguismo, teve outro, agora apelando à sua costela de disciplinador. Visto de fora foi uma reacção completamente exagerada, embora - reafirmo esta ideia - possa assistir-lhe muita razão. Por outras palavras, creio ter ficado claro que, a exemplo do que sucedeu com Sá Pinto, também Costinha deixou claro que, de momento, ainda não é a pessoa certa no posto adequado.
Saliento ainda como curiosidade o facto de Costinha ter colocado em causa o profissionalismo de um russo quando, ele próprio, saiu da Rússia (Dínamo de Moscovo) com o rótulo de pouco profissional. Aliás, na parte final da sua carreira de futebolista, o ex-internacional viveu vários momentos cinzentos. O súbito afastamento da Selecção (onde chegou a ser um dos "meninos bonitos" de Scolari) foi outro.
Três convicções muito pessoais a fechar:
- não acredito que este caso tivesse chegado tão longe caso o nome do empresário de Izmailov não fosse Paulo Barbosa;
- não acredito que este caso tivesse chegado tão longe caso o Sporting não necessitasse de vender jogadores e se não existissem propostas da Rússia para levar o futebolista;
- não acredito que este caso tivesse chegado tão longe se o presidente do Sporting agisse, de vez a vez, como tal.
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2010/03/19
Economia(s)
Lançamento do livro de Francisco Louçã e José Castro Caldas agora às 18 horas, na Livraria Centésima Página, em Braga. Até já.
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