2010/02/08

Censura? Eu chamaria antes PIDE...

Mário Crespo com Kaúlza de Arriaga - foto roubada ao Arrastão

Continua a falar-se em "censura" ao jornalista Mário Crespo (algo errado e que demonstra que não se sabe ao certo o que quer dizer censura nos dias de hoje), mas ninguém fala do caráter perfeitamente pidesco deste procedimento: ouve-se conversas privadas entre três cidadãos (o fato de serem três ministros não é agora relevante), e daí parte-se para a denúncia. Um cidadão não pode agora ter uma conversa privada, pois pode haver sempre um amigo do sr. Mário Crespo à escuta. Perante isto, o Cinco Dias elege mais um "mártir" (mas daqui já nada espanta), o Sindicato dos Jornalistas considera a conversa "profundamente condenável" (não o procedimento) e o Bloco de Esquerda quer um inquérito da ERC. Melhor do que tudo: o mesmo eurodeputado que convidou José Saramago a renunciar à nacionalidade portuguesa vem agora acusar o Jornal de Notícias de exercer censura. Isto é fantástico!

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2010/02/04

A censura nos dias de hoje

Nenhum jornal sério publicaria um artigo como o que Mário Crespo submeteu ao Jornal de Notícias, naquela forma. Além disso, a não-publicação de um artigo, mesmo quando existe um contrato de colaboração entre um articulista e um jornal, não tem necessariamente de constituir um ato de censura. Tem de existir uma justificação para tal procedimento, e foi isso que a direção do JN fez, com uma clareza cristalina:
Basicamente, no entender do director do JN o texto de Mário Crespo não era um simples texto de Opinião mas fazia referências a factos que suscitavam duas ordens de problemas: por um lado necessitavam de confirmação, de que fosse exercido o direito ao contraditório relativamente às pessoas ali citadas; por outro lado, a informação chegara a Mário Crespo por um processo que o JN habitualmente rejeita como prática noticiosa; isto é: o texto era construído a partir de informações que lhe tinham sido fornecidas por alguém que escutara uma conversa num restaurante.
Acresce que o diretor do jornal apenas "manifestou reservas" quanto ao artigo e não despediu Mário Crespo: foi este que, face a estas reservas, decidiu retirar o artigo e cessar a sua colaboração. Mais: ao não publicar o artigo (pelo qual poderia vir a ser responsabilizado - um jornal pode ser responsabilizado pelos seus artigos de opinião) o JN não estava a silenciar Mário Crespo, que dispõe de outros meios (de que todos hoje em dia dispomos), como blogues, outros jornais e, no caso de Mário Crespo, o think-tank do PSD. Que o publicou imediatamente. Crespo recebeu ainda a solidariedade pronta de Paulo Portas: amanhã, Crespo participa num almoço promovido pelo CDS. Também poderia apresentar o artigo lá...

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2010/02/03

Mário Crespo, Manuela Moura Guedes e José Eduardo Moniz são, de fato, problemas

O problema que estes "jornalistas" constituem traduz-se nisto: alguém ouve partes de conversas privadas, sem delas tomar parte, e delas decide construir um caso político. Alguém acha que emails recebidos de alguém que "escutou" umas conversas num restaurante (sem nelas ter participado) servem para fundamentar uma notícia. Alguém que com base nestes "fatos" decide escrever um artigo num jornal. Como poderia fazer mais uma notícia espalhafatosa num qualquer "Jornal de Sexta": cada um usa os meios de que dispõe.
O problema é mesmo este: haver tantos "jornalistas" sérios e isentos como estes que referi em cargos de responsabilidade. Não se trata de exigir o seu afastamento ou querer interferir seja com que órgão de comunicação social for: trata-se somente de uma constatação.

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2010/01/29

Algumas ideias sobre a CP e os comboios

Durante esta semana foi moda comentar este artigo do Público sobre os conhecidos defeitos da CP. Eu sou utente regular da CP, na Linha do Norte e nos Urbanos do Porto (e linha de Cascais no verão). A CP tem muitos defeitos, excetuando talvez justamente as linhas que uso (e os Urbanos de Lisboa) – os serviços com mais procura. Custa-me por isso ler críticas tão pouco fundamentadas, patentes no artigo, como “a inexistência de uma ligação directa Estarreja-Azambuja”. Existem vários intercidades Aveiro-Vila Franca de Xira (duas vezes por dia, até param em Estarreja). Perfeitamente sincronizados com esses intercidades, existem urbanos para as ligações Estarreja-Aveiro e Vila Franca – Azambuja. Por que raio haveria de haver essa ligação direta?
Outra crítica descabida é a do Bruno Sena Martins. Intercidades Porto – Lisboa há a cada duas horas tirando a meio do dia (param todos em Coimbra). A isto acrescem os intercidades Lisboa – Guarda (também param em Coimbra). Conto um total de dez intercidades Lisboa – Coimbra por dia (fora os alfas, que são onze). Os horários “não servem” ao Bruno? Comentários como este e o da Azambuja-Estarreja levam-me a concluir que esta gente não quer comboios – quer é táxis!

2010/01/28

Mais livre do que um tipo sem casa, só mesmo um tipo sem emprego

Já todos conhecemos mais ou menos os argumentos dos que se dizem a favor do arrendamento de casas (mesmo se tal prática constitui um feudalismo dos tempos modernos que perpetua uma distribuição desigual dos bens imobiliários, quando o direito à habitação está garantido na Constituição). O arrendamento deveria ser encorajado porque há casas desabitadas (que os senhorios não querem vender). As rendas deveriam ser aumentadas porque os senhorios não têm dinheiro para fazerem obras e as casas degradam-se (mas nem pensar em os senhorios venderem as casas!). Enfim. Um argumento mais recente, lançado há uns anos por Francisco Sarsfield Cabral num artigo do DN e bastante usado na blogosfera de direita, defendia a precariedade laboral disfarçada nas supostas “boas” intenções do mercado do arrendamento: um indivíduo não deveria comprar casa porque deveria estar sempre pronto para mudar de emprego, de local e mesmo de cidade de trabalho. Eu até aceito este argumento para um jovem, mas só até a uma certa idade. Pelos vistos há quem ache que a precariedade e instabilidade laboral devem durar toda uma vida. Agora, no Blasfémias vai-se mais longe: “cada vez que uma família se vincula a uma casa – habitação própria, alugada ou de renda social – compra a sua própria escravidão.” Não nos vinculemos a casas. Não nos vinculemos a emprego. Não nos vinculemos a nada, pois caso contrário somos “escravos”. Eu ainda hei-de ver esta gente defender que um desempregado é mais livre do que quem trabalha. O que nem deixa de ser verdade: um desempregado não tem horários nem patrão nem responsabilidades. Ainda hei-de ver algum deles escrever que, sempre que um patrão despede empregados, está a contribuir para a sua liberdade.

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2010/01/24

How do we solve a problem like Sá Pinto?


É claro que ele não tinha perfil para director do futebol. É claro que ele não tem perfil para nenhum cargo de liderança.
Mesmo num caso em que a culpa fosse repartida, o Sá Pinto seria o elo mais fraco. O Liedson é indispensável à equipa; o Sá Pinto é dispensável na estrutura do futebol. Mas ainda por cima o Sá Pinto é o culpado: como era de se esperar, foi ele que partiu para a agressão! Digo "como era de se esperar", porque os antecedentes são bem conhecidos. E é isso que custa mais: o Sá Pinto já se humilhara publicamente, já tinha esta justa reputação, e demonstra que não aprendeu nada.
Dito isto, temos aqui um caso complicado. Vejamos as coisas nesta perspectiva: um jogador que tem adeptos do Sporting que se deslocam de propósito para o apoiarem a jogar noutro clube, em Espanha; um dirigente que obriga os jogadores, no final da partida, a irem agradecer aos adeptos (eu ouvi isto), e que não permite que um jogador proteste com os protestos do público. Entre o Sá Pinto e os adeptos do Sporting há uma relação de amor. Pode um clube dispensar um ícone assim, numa altura em que cada vez há menos amor à camisola e os clubes cada vez têm menos referências? No caso do Sá Pinto, claramente não lhe podem dar um cargo directivo profissional. O que fazer com ele?

2010/01/20

Está um frio do caraças lá fora...


...e eu estou sempre com este gajo. Não tenho propriamente pena dele e nem da sua indemnização. Mas espero que regresse já a Nova Iorque e que regresse depressa à televisão com o seu humor (que, pelos vistos, não agradou às audiências americanas das 23:30). Até lá vou ter saudades.

2010/01/19

O casamento gay de Santo António

Claramente o casamento civil é uma instituição laica, e isso é válido também para os casamentos civis "de Santo António", apoiados financeiramente pela Câmara Municipal de Lisboa. Uma vez aprovado (como julgo que esperamos) o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a questão do apoio financeiro a esses casamentos por altura do Santo António teria que se pôr (e a resposta correta seria, claramente, a não discriminação, como manda a constituição). Mas essa questão só deveria ser posta nessa altura: tudo o que fosse pô-la antes da aprovação definitiva da lei seria uma provocação inútil e com consequências nefastas. Não me refiro somente à opinião dominante na sociedade sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo: refiro-me mesmo aos agentes que ainda têm que intervir no processo (Presidente da República; juízes do Tribunal Constitucional). Provocar a Igreja Católica pode ter graça para alguns, mas provocar estes senhores (e alguns deles podem sentir-se provocados por esta questão dos casamentos de Santo António) pode ter consequências desagradáveis, numa altura em que a lei ainda não passou (e não se sabe se passa).
Foi isso que eu pensei quando soube que esta questão se punha: falta de sentido de oportunidade. E é bem possível que a Fernanda tenha razão: pode ter sido uma ratoeira lançada pela Igreja Católica. E que a Câmara Municipal de Lisboa mordeu.

Texto também publicado no Esquerda Republicana

2010/01/18

O meu fim de semana foi em grande parte assim

Não demorei foi três minutos (e os móveis não são do IKEA). O autor e intérprete deste vídeo, meu colega e amigo, é um verdadeiro engenheiro da LEFT!

2010/01/14

The New York Times visita o Ironbound


A baixa de Newark, cantada por Suzanne Vega e onde habita uma grande comunidade portuguesa, voltou a ser visitada pelo The New York Times. A padaria que referem fornecia o pão para muitos supermercados na área metropolitana de Nova Iorque, incluindo Long Island.

2010/01/13

Sai um subsídio para o blasfemo ir estudar

Quem contrapõe valores quase instantâneos, medidos ao longo de dias, a valores médios, medidos ao longo de muitos anos, não percebe nada de estatística. Deveria sair um subsídio era para o João Caetano Dias (um engenheiro do Técnico) ir repetir a cadeira de Probabilidades e Estatística. Ele já não se lembra do que é uma média.

Também publicado no Esquerda Republicana

2010/01/12

Braga americaniza-se

Depois da neve por dois anos seguidos (em ambos eu estava a dormir), agora temos tiroteio numa escola secundária.

2010/01/08

Resumo do dia


Bom resumo no Jugular (a quem roubei a ilustração): um passo importante na luta pelo fim da discriminação (mas a luta continua). Por outro lado, tenho saudades do tempo em que havia uma ministra da educação (e não eram os sindicatos a mandar no ministério).

2010/01/07

José Maria Pedroto desapareceu há 25 anos

Entrevista a Mário Wilson:

- Em 1963 acaba como jogador. Passa a adjunto de Otto Bumbel, depois de Janos Biri e de Mário Imbelloni e a fechar este ciclo é adjunto de Pedroto.
- Quando o Pedroto sai é que eu assumo o lugar de treinador da Académica. O Pedroto era intratável. Tinha atitudes que roçavam o racismo. Ele queria sempre ser o big boss. «Pedroto era ele, ele e só ele»
- As grandes lutas Norte-Sul começam entre Pedroto e Wilson. E são lutas duras...
- São, são... Mas em Coimbra eu era o Capitão e os jogadores andavam à minha volta, pouco ligavam ao Pedroto. Eu era o espírito académico, o Pedroto era ganhar, ganhar...tinha uma determinação própria, um pouco a destoar daquele ambiente de Coimbra.
- Pedroto deixa a Académica por dar uma punhada num jornalista de Coimbra, não é?
- Exactamente. Ele foi acumulando pequenos ódios. Tinha coisas tal como o Pinto da Costa,de uma determinação inabalável. Uma das máximas do Pedroto era: «Morrer por morrer, que morra o meu pai, que é mais velho». Isto era Pedroto.
- Ia falar da saída de Pedroto...
- O Porto foi jogar a Coimbra e esse tal jornalista, depois do jogo, escreveu: «Este jogo antes de começar já estava perdido.» O Pedroto não esperou, foi ao café onde se reuniam os teóricos, viu o jornalista e perguntou-lhe: «Foi você que escreveu isto?». - «Fui, porquê?» E Pedroto respondeu-lhe com um soco nos queixos. Isto era Pedroto.

A BOLA - 17-10-2009

2010/01/05

"Café Com Blogues" hoje n'"A Brasileira"

Em Braga, a partir das 21:15. Um programa da RUM gravado ao vivo. Apareçam!

2010/01/04

Um furo para começar bem o ano

Um furo no pneu dianteiro da minha bicicleta. Foi na "ciclovia" Cais do Sodré - Belém, junto às Docas de Alcântara, numa zona (vejam bem) da tal "ciclovia" onde é suposto o ciclista desmontar-se e seguir a pé (eu sei que contado ninguém acredita, mas é verdade). Desobedeci e não vi uns vidrinhos que lá estavam. Poderiam ser restos de garrafas partidas na passagem de ano, mas também pode ser que estejam lá postos de propósito para travar quem não segue a pé (e obviamente só vê os tais vidrinhos depois de lhes ter passado por cima). Enfim. Mais tarde, nesta semana ou na próxima, conto escrever sobre as novas "ciclovias" de Lisboa.

2010/01/03

Fuga para a vitória


A sensacional fuga do forte de Peniche por parte de Álvaro Cunhal e outros dirigentes comunistas faz hoje 50 anos. A ler a evocação no Diário de Notícias de hoje (inclui também uma entrevista a Eugénia Cunhal). Tal como eu, o jornalista sonha com o dia em que este episódio passe ao grande ecrã. Através de um estúdio de Hollywood? Não me admiraria nada.

2010/01/01

Se os recursos fossem ilimitados, não precisaríamos da esquerda para nada

“Assumindo recursos infinitos, a economia continuará a crescer, em média, com mais ou menos crises pelo meio”, prevê candidamente o Ricardo Schiappa. “Quase todos nós tendemos a encarar a presente crise como uma breve pausa no processo de crescimento”, escreve naturalmente o João Pinto e Castro. Neste caso não me parece que seja isto que ele pensa, mas de qualquer maneira o que me incomoda é o “quase todos nós” que o João familiarmente escreve. “Quase todos nós” achamos que o crescimento não parará. Que é como quem diz que “quase todos nós” achamos que os recursos naturais são inesgotáveis. Estamos aqui a falar do setor primário: sem ele não há comida. Mas mesmo o setor terciário, o das “ideias”, das “oportunidades”, que contribuem para o crescimento económico e em teoria podem ser inesgotáveis, não o é na vida real.
Estes “quase todos nós” a que o João Pinto e Castro se refere somos nós, do hemisfério norte, que crescemos e vivemos habituados a uma economia do desperdício. Tal facto é particularmente notório nos EUA, mas também se verifica na Europa. Continuamos a conduzir estupidamente os nossos carros, mesmo em percursos de centenas de metros, mesmo em localidades bem servidas de transportes públicos, como se o petróleo fosse inesgotável e o espaço para circular e estacionar nas cidades fosse infinito (sem falar nos enormes prejuízos ecológicos, de que o aquecimento global é só um exemplo). Continuamos criminosamente a comer jaquinzinhos e petingas, sem nos preocuparmos se no futuro os nossos filhos poderão comer carapaus e sardinhas frescos, capturados no mar. E assim sucessivamente – os exemplos não são poucos.
Que as pessoas de direita pensem, erradamente, que os recursos são inesgotáveis, ainda compreendo. O que não consigo entender é que tal passe sequer pela cabeça de pessoas que se digam de esquerda. Marx, provavelmente o primeiro ecologista, apercebeu-se da finitude dos recursos, ou não teria escrito “O Capital”.

2009/12/31

O concerto do ano: GNR

Pensei iniciar 2010 ao som dos Xutos, mas a hemorragia do Zé Pedro - a quem desejo rápidas melhoras - mudou-me os planos. Concertos dos Xutos já fui a muitos, o último há mais de dois anos. Mas 30 anos são 30 anos.
Só fui a um concerto dos GNR (que substituirão os Xutos na passagem de ano na Torre de Belém). Foi um excelente concerto - reportei-o aqui. Foi sem dúvida o melhor concerto a que fui neste ano para mim pobre em concertos (talvez por me ter mudado para Braga?). Mas será provavelmente o mesmo concerto do São João. Ver o mesmo concerto num intervalo de tempo tão curto, só com o Chico Buarque. Prefiro um programa mais caseiro, em casa de amigos, com vista para o fogo de artifício do Parque das Nações. Mas não poderia recomendar mais o concerto dos GNR logo, para quem ainda não o viu.
Bom 2010 para todos.

2009/12/30

O concerto fracassado do ano: Gal Costa

Um mês depois encontro tempo para recordar o concerto de Gal Costa, na Casa da Música, no Porto. Sabia que incidiria principalmente sobre músicas da bossa nova. Mas não esperava que fosse a este ponto: só no encore (de um concerto curto), e a pedido do público, é que se ouviram músicas com que podemos identificar Gal Costa: Festa do Interior, Um Dia de Domingo e Modinha de Gabriela. Só no fim é que eu tive a sensação de estar num concerto de Gal Costa. Antes, era Gal Costa a interpretar um concerto de João Gilberto. E eu, entre Costa e Gilberto, prefiro Gilberto. Pelo menos a interpretar as suas músicas - Gal não lhes acrescentou nada. Assisti a um concerto de Gal Costa (algo que queria fazer há anos). Mas acho que não escolhi o concerto certo.

2009/12/29

A ler, n'"A Bola"


Por estes dias, Barcelona e a Catalunha vivem em suspenso da decisão do Tribunal Constitucional sobre o novo Estatuto da Catalunha - que, à luz da Constituição Espanhola, só pode ser declarado inconstitucional, porque aquilo é praticamente uma declaração de independência, que faria a inveja de A. J. Jardim. Mas as coisas chegaram a tal ponto, que o próprio Zapatero torce para que o TC não veja o que todos vêem e não ouse afrontar os demónios catalães - mal adormecidos desde que, em 1640, Castela teve de optar entre opor-se à reconquista da independência portuguesa ou enfrentar o autonomismo catalão, e escolheu travar e vencer os revoltosos da Catalunha, deixando Portugal para os Braganças. Não por acaso, as reivindicações autónomas em Espanha estão directamente ligadas à riqueza das regiões: são os ricos do País Basco ou da Catalunha que querem ser independentes do poder fiscal de Madrid, para não terem de pagar impostos a favor dos pobres. Também em Itália, é o norte rico que se quer ver liberto de ter pagar a favor do Mezzogiorno, e em Inglaterra é a Escócia que quer ser independente do Midwest deprimido. A autonomia regional é quase sempre uma revolta dos ricos contra os pobres e contra o Estado central, cuja tarefa fundamental é distribuir a riqueza por todos. É por isso que eu sou ferozmente anti-regionalista, porque não tenho a mais pequena dúvida de que, ao contrário do que imaginam alguns incautos ou oportunistas, a regionalização lançaria Lisboa e o Porto contra todos os outros e ai dos alentejanos ou transmontanos, sem a República a protegê-los!
(Miguel Sousa Tavares, A Bola, 01-12-2009)

2009/12/24

Boas festas

Absoluta falta de tempo, motivada por concentração de trabalho no fim de ano, tem impedido que a minha escrita mantenha a regularidade habitual durante o mês de Dezembro. Mesmo assim, não quero deixar de desejar boas festas e um feliz ano novo a quem por aqui passar.

2009/12/16

Duas ou três coisas sobre o “caso Berlusconi”

Não posso de forma nenhuma apoiar acções como a de que o primeiro ministro italiano foi vítima. Mas o facto de ter sido vítima deste acto tresloucado não faz de maneira nenhuma de Berlusconi um herói, ao contrário do que afirma Ferreira Fernandes. Herói teria sido se enfrentasse uma multidão adversa. Mas o acto de Silvio Berlusconi ao exibir a sua face ferida e deformada àquela multidão (mesmo se esta lhe fosse maioritariamente adversa) não é um enfrentamento: o ataque de que Berlusconi foi vítima foi, claramente, um acto isolado, de uma pessoa. Não foi nenhum linchamento popular. Berlusconi não se esconder, repito, não tem nada de heróico.
O autor deste lamentável incidente foi identificado e, dentro da sua (in)imputabilidade, foi ou vai ser responsabilizado pelo seu acto. Entretanto parece que o autor já tem mais de 30000 “amigos” no Facebook. Quantos destes “amigos” eram capazes de praticar e dar a cara por um acto destes? Tornar-se amigo no Facebook, escrever em blogues, comentar em jornais é muito fácil. Diz-se que o governo de Berlusconi foi o responsável pelo esmagamento dos protestos de Génova, em 2001. Como tal, quem lá estava “sorri” ao ver Berlusconi “esmagado”. Eu não estava em Génova em 2001, mas estava na Assembleia da República em 1993 (com muitos colegas de curso de membros deste blogue), quando o governo de Cavaco Silva também esmagou brutalmente, sem justificação, protestos contra a lei das propinas. Os subscritores portugueses deste grupo do Facebook também estariam dispostos a atirar uma réplica da Catedral de Milão, ou do Centro Cultural de Belém, a Cavaco Silva, assim que o vissem? (Este não é um apelo à violência, que eu condenaria. É uma questão de retórica.)
Muito interessantes os debates que têm ocorrido sobre o assunto no Cinco Dias e no Arrastão (vale a pena ler os textos e os comentários), nomeadamente sobre o papel do Estado como agente da luta de classes (que eu recuso – o Estado deve ser neutro) e monopolizador da violência. Não se pode “acabar” com a violência, por isso ser “contra” ela não tem muita utilidade prática. Pode ser-se contra a violência indiscriminada e irresponsável – o recurso à violência tem de ser mesmo o último recurso, mas por não podermos acabar com a violência não podemos exluir este recurso. sendo assim, o importante é que quem recorre à violência o faça mandatado pela sociedade, seja sempre identificado e possa ser responsabilizado (ou os seus superiores hierárquicos) pelos seus actos perante a sociedade.

Uma semana depois, vale a pena ler o artigo (premonitório) de José Saramago sobre o "no B-day":

Itália não merece o destino que Berlusconi lhe traçou com criminosa frieza e sem o menor vestígio de pudor político, sem o mais elementar sentimento de vergonha própria. Quero pensar que a gigantesca manifestação contra a "coisa" Berlusconi, na qual estas palavras irão ser lidas, se converterá no primeiro passo para a libertação e a regeneração de Itália. Para isso não são necessárias armas, bastam os votos.

2009/12/03

Uma mentira, repetida em muitos blogues, acaba por se tornar verdade?

Alguém me pode explicar o raciocínio deste texto? De onde é que se conclui, das suas afirmações, que o deputado do PS conhece o teor das escutas? Ricardo Rodrigues está admirado, obviamente, por Manuela Ferreira Leite falar como se soubesse o conteúdo das escutas (não por "o primeiro ministro estar a mentir"). São coisas diferentes. Mas a má interpretação de um texto pega-se e repete-se. Esta gente não tem um mínimo de sentido crítico? A falta que faz a matemática obrigatória até ao 12º ano!

2009/11/30

2009/11/26

Os mesmos valores, prioridades diferentes

De leitura indispensável esta entrada do Arrastão. Da minha parte, não só por causa do texto do Daniel Oliveira em si, mas sobretudo por causa da discussão que se segue (no que diz respeito à Alemanha - o caso francês referido parece ser mais um fait-divers sarkozyano). Sobretudo com o comentadores Bossito e JP, com quem estou de acordo. Valores como a igualdade básica e a liberdade de imprensa não podem ser relativizados. Ao pé desta discussão fundamental - como deve a Europa tratar os seus imigrantes? - , a do véu islâmico (onde mais uma vez defendo a não relativização da igualdade básica) parece marginal. Mas sempre a vi como fundamental, pois evidencia as diferentes concepções sobre integração de imigrantes e diferentes culturas em vista. Esta é uma questão a que, cada vez mais urgentemente, a esquerda não pode fugir. Quanto mais tempo esta discussão demorar, mais a extrema direita subirá.
"Quem fala assim certamente nunca perdeu o emprego para mão de obra mais barata vinda do estrangeiro. O perigo da esquerda continuar a alimentar estas visões completamente irrealistas, alienadas e sem qualquer possibilidade de aplicação prática sobre as questões da imigração, está precisamente em deixar para as mãos da direita o exclusivo do tratamento do tema. Isso sim, assusta-me."

"O que se defende aqui (e reparará que a maioria defende uma solução de “bom senso”) é que a abertura é bem vinda desde que, pela sua quantidade, não degrade as condições de vida, e pela sua qualidade, não ponha em causa os direitos liberdades e garantias que tanto custaram a conquistar. (...)O argumento (do nosso lado digamos assim) é que quem defende o mesmo que o Daniel geralmente vive em locais pouco afectados por aquilo que defende (acontece o mesmo com a localização dos bairros sociais ou com a co-incineração. São óptimos mas niguém os quer ao pé de casa.)."

2009/11/25

A grande efeméride do dia faz dez anos

Era uma noite de Thanksgiving e eu estava nos EUA. Os meus colegas ainda hoje se recordam como eu repeti "Benfica lost..." a noite toda.

2009/11/24

Inside Arte e Ciência

Exposição na Cordoaria, em Lisboa. Com contribuições do Carlos Miguel Fernandes. Até hoje (Dia Nacional da Cultura Científica, para quem não sabe).

2009/11/23

Ontem, nas imediações do Estádio José Alvalade

Após o final do Pescadores-Sporting, jovens leoas gritavam "Carvalhal Allez" e comentavam "no final do jogo, o Sá Pinto obrigou-os [aos jogadores, presumo] a virem agradecer-nos!" De súbito carros com bandeiras do Sporting começam a apitar. Eu pasmo: esta gente está a comemorar assim a eliminação de um clube (por acaso um clube muito simpático e que muito me diz) de um escalão tão secundário que nem eu sei bem qual é? Estará o Sporting assim tão em baixo? Até que de dentro de um dos carros alguém anuncia às leoas: "Golo do Guimarães!" E a festa alarga-se. Disto é que o meu povo gosta.

2009/11/20

"Obrigada a todos! bjs, fiquem com Deus!"

Era com estas palavras que a actriz brasileira Mara Manzan se despedia dos leitores do seu blogue. Quando escreveu o seu último texto, dia 5 de Outubro, talvez não imaginasse que aquela era mesmo uma despedida definitiva.

2009/11/19

Como se deslocam os portugueses nas cidades europeias?

Há um mito – talvez seja mais correcto falar-se numa desculpa – para o hábito errado (pelo menos por parte de quem habita nas áreas metropolitanas de Lisboa ou Porto) dos portugueses se transportarem sempre de carro, para onde quer que vão. Não importa se os transportes públicos estejam cada vez melhores, pelo menos em Lisboa. O Metro está cada vez mais eficiente e com melhores ligações. Já se podem fazer transferências gratuitas entre autocarros. O serviço nocturno da rede de autocarros foi melhorado e ampliado. Os comboios suburbanos estenderam o seu serviço pela madrugada nas vésperas de fim de semana e feriados. Mas os portugueses – sendo que os lisboetas sem qualquer desculpa – insistem que o serviço de transportes públicos “não é adequado”. Dado que outros povos da Europa não exibem este comportamento e utilizam correntemente os transportes públicos, poderíamos ser levados a pensar que, apesar de tudo o que enumerei, o problema estaria nos transportes portugueses. Dado que “lá fora” se anda de transporte público, se tivéssemos transportes como “lá fora” talvez os usássemos. Quem continua a defender esta ideia (ou mais correctamente a usar esta desculpa) que explique este exemplo (a que cheguei via o Menos um Carro).

2009/11/17

A última bettencorada

...chama-se Carlos Carvalhal. Por favor não venham compará-lo com Jorge Jesus ou Jesualdo Ferreira. Estes treinadores chegaram ao Benfica e ao FC Porto na mó de cima, depois de terem feito excelentes trabalhos nos clubes por onde tinham passado antes. Ao contrário de Carvalhal, a cuja contratação eu talvez não pusesse tantas objecções há dois anos, mas que nesse período esteve dois meses num clube grego que ninguém conhece, onde não fez nada nem deixou saudades, e no Marítimo, onde ganhou dois dos 17 jogos que orientou. Carvalhal é um treinador à procura de relançar a carreira e, sem ofensa para o Marítimo, o Sporting não pode servir para relançar a carreira de alguém após uma passagem fracassada por este clube. Talvez sirva para relançar a carreira de quem treinou o Chelsea ou o Barcelona, mas não o Marítimo ou um clube grego que ninguém conhece. É isto que Bettencourt, o homem que, nas costas de Fernando Santos, foi contratar José Peseiro (após uma passagem desastrosa pelo Real Madrid), não percebe. Nem sempre concordo com tudo o que o Leão da Estrela escreve, mas admito que este é um sintoma de belenização.

2009/11/13

Há água na face oculta da Lua

É a descoberta mais entusiasmante do Ano Internacional da Astronomia. 40 anos após o Homem ter alunissado e lá caminhado, esta descoberta pode ser mais um grande passo para a humanidade e o seu futuro. A Lua não cessa de nos encantar. Os REM têm de começar a cantar "If you believe there is water on the moon..."

2009/11/12

Vitaly Ginzburg (1916-2009)


Talvez o mais ilustre discípulo de Lev Landau (imagem retirada da Wikipédia).

2009/11/11

Robert Enke (1977-2009)

Não fica no coração só dos benfiquistas. Recordo o excelente guarda redes, nascido na Alemanha de Leste, mas também o pacifista e o defensor dos direitos dos animais.

2009/11/10

20 anos depois - "Muro de Berlim: Os protagonistas da História"

Por Teresa de Sousa no Público:
Numa noite cálida de Junho de 1989, à beira do Reno, o chanceler alemão [Kohl] disse-lhe [a Gorbachov]: "Olhe para o rio. Simboliza a História (...). Pode erguer uma barragem, mas a água vai encontrar outra forma de chegar ao mar. É o mesmo com a unidade alemã e a unidade europeia." Ficou em silêncio. Despediram-se com um abraço.

François Mitterrand e Margaret Thatcher - Os que quase soçobraram

Se ainda havia dúvidas sobre as hesitações de Margaret Thatcher e de François Mitterrand perante a queda do Muro e a imparável unificação da Alemanha, que quiseram travar, a abertura antecipada dos arquivos do Foreign Office dissipou-as. A primeira-ministra britânica e o Presidente francês têm, no entanto, uma desculpa: a trágica História europeia da primeira metade do século XX. Dito de outra forma: a "questão alemã". Não foram os únicos. Nas suas memórias, Kohl diz que, de todos os aliados europeus, apenas um o apoiou imediatamente: Felipe González. Thatcher, que não acreditava na integração europeia, não via saída para o renascimento de uma grande Alemanha no coração da Europa. Fez tudo o que esteve ao seu alcance para convencer Bush a opor-se-lhe. Mitterrand, que acreditava na Europa, percebeu que o caminho era outro: amarrar solidamente a Alemanha à integração europeia. Kohl nunca perdoou à líder britânica, mas estabeleceu com o Presidente francês uma amizade que foi crucial para o futuro da Europa. Garantiu que a unificação europeia seria a outra face da unificação alemã.

2009/11/09

20 anos depois - "Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos"



Era precisamente a noção do que era andar em liberdade e poder passar o Muro que dava a Freitas Branco a consciência exacta da situação vivida pela generalidade da população de Berlim: a separação absoluta. "A cortina de ferro existia, de facto. Para quem se deslocava a pé, o ponto de passagem de fronteira era a estação de comboios central, a Friedrichstrasse", diz este professor da Faculdade de Letras de Lisboa. "Numa mesma estação de metro e comboios, havia dois mundos completamente distintos, o mundo do socialismo e o mundo do capitalismo. As pessoas passavam a um metro umas das outras sem se poderem ver nem falar. A divisória era uma cortina de ferro que cobria parte da estação. A cortina de ferro de que Churchill falava estava ali, materializada. É algo que só vivido."

Mas não era só no muro que rasgava a cidade que o peso da ditadura se sentia. João Lourenço - "Eu não fui pelo PCP, nunca fui do PCP" -, que esteve em Berlim a estagiar um ano, a convite do director da Casa de Brecht, Werner Hesht, e do director do Berliner Ensemble, Manfred Wekwerth, afirma: "Senti uma segurança como nunca senti em cidade nenhuma do mundo. Os soldados nas esquinas, nas casas de vidro, davam segurança. Havia uma segurança dada pelo regime." Mas não esconde que essa segurança tinha um lado assustador: "Um dia acordei com o barulho e com o chão a tremer. Fui à janela, eram os tanques com mísseis a passar. Durante uns segundos pensei: é a guerra. Eram os preparativos para o desfile do 1.º de Maio."
"Todas as pessoas com quem contactei, fossem do partido ou não, tinham uma posição extremamente crítica em relação à burocracia e à incapacidade do sistema", afirma Mário Vieira de Carvalho, explicando que "a falta de liberdade de expressão não deixava reflectir a realidade e o criticismo não passava". Pormenoriza: "Nas reuniões debatiam e criticavam, mas não passava para cima. A corrente não era de baixo para cima, era de cima para baixo." Uma atitude de comando que era "a expressão de uma falsa consciência sobre a realidade" e também, segundo Vieira de Carvalho, "profundamente antimarxista".
Os seis portugueses que viveram na ex-RDA são unânimes em elogiar os benefícios proporcionados pelo socialismo real. É desse bem-estar e dessa qualidade de vida que sentem nostalgia.

2009/11/06

Só falta o Bettencourt

A última gaffe desta nódoa de presidente do Sporting é que «o futuro treinador do Sporting será "caucasiano"». Por que é que não pode ser preto?
Que sentirá Liedson, o jogador com mais categoria do paupérrimo plantel do Sporting, a ouvir isto?
Sousa Cintra tinha a desculpa de só ter a quarta classe. Soares Franco tinha a enorme vantagem de se saber dar ao respeito. Se era para termos um sucedâneo de Pedro Granger na presidência, se calhar até era preferível o original.

Adenda: transcrevo integralmente a crónica de Bruno Prata no Público.

Paulo Bento prestou o seu último serviço, mas Bettencourt não aprendeu a lição

A conferência de imprensa organizada para explicar a saída de Paulo Bento serviu para confirmar que o Sporting tinha um treinador com carácter, íntegro e corajoso, afinal de contas, nada que já não se soubesse. Mas também para se perceber que José Eduardo Bettencourt não aprendeu muito com uma situação idêntica passada há mais de quatro anos naquela mesma sala.
De facto, a única verdadeira diferença foi que Dias da Cunha decidiu, na altura, acompanhar José Peseiro na demissão, enquanto Bettencourt assumiu que nunca seria “capaz” de despedir um treinador cujo abandono considera uma “perda irreparável”. Por outro lado, Bettencourt confessa que Paulo Bento sai em resultado da sua própria lucidez e capacidade de ler a situação e de não misturar conhaque com trabalho. Independentemente do claro contra-senso, salta à vista que, ao dizê-lo, o presidente leonino acabou por reconhecer que a relação profissional entre o presidente e o treinador esteve e estaria sempre condicionada pela forte componente humana que os une. É uma assumpção que pode ser muito honesta, mas que parece estranha e muito discutível vinda de alguém que ainda há bem pouco desempenhava funções de grande responsabilidade no sistema bancário. E é-o também por partir de quem lidera uma Sociedade Anónima Desportiva, onde se exige um rigor e uma gestão pautada acima de tudo pelo pragmatismo e racionalidade.
Mais do que fazer a sua própria leitura da situação e apontar o caminho futuro, Bettencourt assumiu estar ali basicamente para fazer a homenagem de quem ia sair, um “momento doloroso”. O que parece legítimo e até lhe ficaria bem, não fosse a oportunidade ter sido também aproveitada para fazer uma espécie de ajuste de contas com muitos daqueles que foram criticando o clube e Paulo Bento e que, ironizou Bettencourt, “só têm certezas”. Um erro, porque o momento devia era ter sido aproveitado para contribuir para a pacificação da nação sportinguista, cuja generalidade dos seus membros até se têm mantido surpreendentemente pacientes face à deprimente incapacidade da equipa de produzir (bom) futebol.
Que Bettencourt se mostrasse afectado pelas circunstâncias até era compreensível, mas já não o foi vê-lo responder de forma excessivamente nervosa e desabrida a algumas questões colocadas pelos jornalistas, usando até expressões que não o dignificam. Vá lá que teve pelo menos a decência de pedir imediatamente desculpa, após responder ao jornalista do PÚBLICO que o próximo treinador será do “sexo masculino e caucasiano”. Bettencourt tem mostrado, desde a primeira hora, a intenção clara de utilizar um discurso e uma postura mais próximos dos adeptos anónimos, podendo isso até fazer parte da actual estratégia de conquista de novos sócios. Mas os seus excessos na verve e na postura começam a não agradar apenas àqueles que se habituaram a ver Alvalade como a sede de um clube elitista e aristocrata.
Pelo contrário, Paulo Bento distinguiu-se pelo discurso sereno e frontal, mesmo que aqui e ali algo redondo, como é hábito. Disse o que se impunha, mostrou lucidez até na forma como reconheceu ter cometido um erro quando não teve coragem de recusar o repto do amigo Bettencourt e acabou por colocar o coração à frente da razão. E principalmente quando deixou claro que não sai pelos maus resultados nem pela pressão dos adeptos ou da opinião pública ou publicada. Sai, digo eu, porque se sente impotente para reverter a situação. Daí ter insistido que se demite “pelos jogador e pelo Sporting”. Foi o último serviço prestado por um treinador a quem, no Sporting, só se fará a devida justiça daqui a algum tempo, quando a espuma dos últimos meses desaparecer. Então, talvez se venha a perceber melhor o que, a 300 quilómetros de distância, quis dizer Jesualdo Ferreira, quando afirmou que “a sua carreira começou hoje”...

Definitivamente a boa notícia do dia

Pedro Barbosa e Ribeiro Telles também se demitem.

O meu mister

Texto de Joel Neto na "Notícias Sábado".


A miséria da arte

O 'Artista' que matou um cão à fome vai repetir o acto - Ou NÃO! Depende de nós. Vê como.

Como muitos devem saber e até ter protestado, em 2007,Guillermo Vargas Habacuc, um suposto artista, colheu um cão abandonado de rua, atou-o a uma corda curtíssima na parede de uma galeria de arte e ali o deixou, a morrer lentamente de fome e sede. Durante vários dias, tanto o autor de semelhante crueldade, como os visitantes da galeria de arte presenciaram impassíveis à agonia do pobre animal. Até que finalmente morreu de inanição, seguramente depois de ter passado por um doloroso, absurdo e incompreensível calvário.
Parece-te forte? Pois isso não é tudo: a prestigiosa Bienal Centroamericana de Arte decidiu, incompreensivelmente, que a selvajaria que acabava de ser cometida por tal sujeito era arte, e deste modo tão incompreensível Guillermo Vargas Habacuc foi convidado a repetir a sua cruel acção na dita Bienal em 2009. Facto que podemos tentar impedir, colaborando com a assinatura nesta petição: http://www.petitiononline.com/13031953/petition.html
(não tem que se pagar, nem registar).
Para enviar a petição, de modo que este homem não seja felicitado nem chamado de 'artista' por tão cruel acto, por semelhante insensibilidade e desfrute com a dor alheia. 
Se puseres o nome do 'artista' no Google, saem as fotos deste pobre animal e seguramente também aparecerão páginas web onde poderás confirmar a veracidade da informação.

2009/11/05

Fórmula 1 2009


Por absoluta falta de tempo ainda não escrevi sobre o assunto - e o campeonato já acabou no passado fim de semana. Não diria mais do que o Pedro Fragoso. Parabéns ao Jenson Button pelo merecido campeonato.

2009/10/27

A praxe é, sobretudo, um negócio

Notícia do DN:
Os caloiros do ensino superior, em Viseu, estão a ser "usados para aumentar o negócio de alguns bares". As denúncias são dos próprios alunos que acusam os elementos do Conselho de Viriato, o órgão académico que deve zelar pelo cumprimento das regras da praxe, de organizarem festas com os caloiros "pelas quais recebem percentagens do consumo feito nos bares".
Alguns alunos, que também já denunciaram a situação junto da presidência do Instituto Politécnico de Viseu (IPV), acusam Ana Pinto, presidente do conselho, de "organizar iniciativas da praxe em bares, para onde são levados os caloiros, recebendo depois percentagem pela despesa feita", contaram ao DN vários destes elementos, que temendo represálias, preferem ficar no anonimato.
A presidente do Conselho de Viriato, que para além de ser estudante no IPV, trabalha num bar de diversão nocturna na zona de Jugueiros, ao lado do instituto e onde funcionam mais de uma dúzia de bares, desvaloriza as acusações. "Os alunos praxados têm um percurso, vão aos bares, onde ouvem pessoas a falar sobre diversos temas. Se tiverem dúvidas são retiradas e depois seguem para outro bar", revela a estudante.
A presidente do Conselho de Viriato refere que as denúncias surgem de "guerras entre as casas de diversão nocturna que lutam ferozmente pela presença dos estudantes do ensino superior. E viram-se para mim porque eu oriento mais de 700 alunos e sou um alvo mais fácil", adianta. Embora considere as denúncias "difamatórias" Ana Pinto, que é estudante no Politécnico de Viseu há dez anos, garante que o Conselho de Viriato "vai tomar mais cuidado com as iniciativas que envolvem os caloiros".

2009/10/26

"Café Com Blogues" hoje n'"A Brasileira"

O "Café com Blogues" desta semana, programa da Rádio Universitária do Minho em que participo com o Luís Aguiar Conraria e o Gabriel Silva, vai ser gravado hoje à noite no café "A Brasileira" de Braga, pelas 21:30. Quem estiver pela zona que apareça - a entrada é livre! "É entrar, é entrar!"

2009/10/23

Novidades na blogosfera

O ilustríssimo João Gaspar regressou com o Macaco na Prisão.
Por outro lado, o não menos ilustre Nélson Sousa acabou com o Faxavor. Espero que regresse em breve.
O Marco Robalo (de cujo gabinete escrevo) e mais outros LEFTistas inauguraram o Elefante Quântico. A seguir sem dúvida.

2009/10/21

Michael Green sucede a Stephen Hawking

Numa altura em que um dos pioneiros da teoria das cordas perdeu de vez o tino, é bom ver que a gente com juízo ainda é recompensada. Michael Green, um dos grandes exploradores (e mestres) das supercordas, é o novo professor Lucasiano de Matemática na Universidade de Cambridge, sucedendo a Stephen Hawking, que se reformou e vai para o Instituto Perimeter no Canadá. Green (não confundir com o divulgador - embora também bom físico - Brian Greene) já era professor na Universidade de Cambridge, que optou assim por uma solução interna para a cátedra que já foi de Isaac Newton.

2009/10/20

A grande dúvida sobre o próximo governo

Que professor do Instituto Superior Técnico é que vai ser o futuro ministro da Ciência e Ensino Superior?

2009/10/16

Sobre o "caso Maitê Proença"

Eu nem queria acreditar quando assisti ao abespinhado apresentador Pedro Pinto, do "Jornal Nacional" da TVI, que constantemente referia a "ignorância" de Maitê Proença, numa apresentação "engajada" (Manuela Moura Guedes fez mesmo escola naquela casa). Em que é que consistia essa ignorância?
  • chamar "vilazinha" a Sintra? No português do Brasil, o diminutivo não é depreciativo (ao contrário de, por vezes, em Portugal). Pensem por exemplo nos jogadores de futebol - acaba tudo em "inho". Não há ofensa nenhuma (muito menos ignorância) em um brasileiro referir-se à "vilazinha" de Sintra;
  • dizer que em frente a Belém está "o mar"? Bem, se foi dali que Vasco da Gama partiu, a confusão é legítima. Ninguém sabe muito bem onde acaba o rio e começa o mar naquela zona - a estação de comboio da linha de Cascais chama-se "Alcântara-Mar" e não "Alcântara-Rio". De resto, logo no próprio vídeo a correcção é feita;
  • não saber que o 3 ao contrário é "místico"? Eu também não sabia. E acho que ela tem todo o direito a gozar com o misticismo;
  • a afirmação "o ditador Salazar esteve no poder mais de 20 anos" é matematicamente verdadeira. Sabemos que na linguagem comum "mais de 20 anos" quer dizer "menos de 30", o que relativamente a Salazar é errado. Mas mais grave seria não saber história portuguesa - Maitê tem, pelo menos, noções. Quantos dos que a criticam têm noções de história brasileira? E, já agora, quantos dos que a criticam sabiam que o padrão dos Descobrimentos é uma obra do salazarismo, como Maitê afirmou?
  • Maitê aproveitou para referir-se (num tom jocoso) aos portugueses que elegeram Salazar como "o melhor português de sempre". Creio que a irritação de muito boa gente vem daqui. Apostaria que os críticos mais indignados de Maitê que por aí vemos concordam que Salazar é o melhor português de sempre. Este episódio não pode ser totalmente compreendido sem considerar esta parte do vídeo.
O que eu achei mesmo de muito mau gosto foi a cuspidela na fonte do Mosteiro dos Jerónimos. Mas é uma atitude que só a desqualifica a ela, Maitê Proença. (Compreendo a indignação se se tratar da defesa do património - que péssimo exemplo!) Desqualifica-a a ela e às quatro apresentadoras do programa de televisão, que se riram acefalamente da coisa. Aliás, o vídeo é uma tonteria sem grande ponta por onde se lhe pegue. Não estou aqui a defendê-lo, e até acho bem que se mostre aos brasileiros que essa atitude de se queixarem de Portugal por tudo tem muito de infantil. Mas a quem protagoniza telenovelas como a "Dona Beija" tem que se desculpar muita coisa...

2009/10/15

Seinfeld no Twitter

Uma situação imaginada na Slate:

I Enjoy a Good Tweet
The cast of Seinfeld expounds on the latest Internet phenomenon.
By Frank Ferri
Posted Monday, Oct. 12, 2009, at 3:11 PM ET
INT. JERRY'S APARTMENT—DAY
ELAINE and JERRY are standing around JERRY'S kitchen counter. GEORGE is sitting on the couch typing on a laptop.
JERRY: Again with the Twitter?
GEORGE: What? I can't tweet?
ELAINE: No one said you can't tweet.
GEORGE: Jerry did. Jerry's got a problem with my tweeting.
JERRY: Please, tweet away. Tweet all you want. Tweet your heart out.
GEORGE: I will. I enjoy a good tweet.
ELAINE: Fine, but don't you think it's a bit much with the tweets?
GEORGE: Who are you? The queen of tweets? I think I tweet the perfect amount.
JERRY: You know, you've got to have something to tweet about in order to tweet.
GEORGE: I got plenty to tweet about, baby!
JERRY: No, no you don't. You see, you have the Twitter account and the laptop. But you don't have anything worthwhile to tweet about. No job, no girlfriend, no …

KRAMER enters, nearly knocking over JERRY as he stumbles into the living room.

KRAMER: Giddyup. (Notices George.) What's with Poindexter on the laptop?
ELAINE: He's tweeting again.
KRAMER: My God! You're tweeting all over the place!
GEORGE: I tweet just as often as the next guy. No one stops George Costanza from tweeting!
KRAMER: I ever tell you about my friend Bob Sacamano? Tweeted way too much. (Getting animated.) Tweeted like there was no tomorrow!
GEORGE: So?
KRAMER: (high-pitched) He's dead.
ELAINE: Death by Twitter?
KRAMER: You said it, sister.
JERRY: What's the deal with that 140-character limit, anyway? Like if it was 141, the Internet would break?
GEORGE: Ooh, that's good. Can I tweet that?

LAUGHTER. APPLAUSE. END SCENE.

2009/10/14

Nas Fronteiras do Universo

Ciclo de conferências na Gulbenkian. Hoje às 18 horas fala Alfredo Barbosa Henriques, meu professor de Relatividade e Cosmologia no Instituto Superior Técnico, sobre "O Universo de Einstein". Com transmissão directa online.

2009/10/12

Espinho

Foi finalmente concretizado um projecto muito antigo: o túnel da linha do comboio, que passou a ser subterrânea e deixou de dividir esta cidade em duas. Só que os responsáveis só se preocuparam com o soterramento da linha, e não com o planeamento do que fazer à supefície. Onde antes estavam as linhas de comboio (e uma estação bem bonita), agora está um descampado com vedações, que continua a dividir a cidade, é mais feio, e ninguém sabe bem o que vai lá ser feito. Creio que terá sido esta desorientação que custou ao PS este antigo bastião no conservador distrito de Aveiro.

Margem Sul do Tejo

O Bloco de Esquerda teve derrotas assinaláveis ao não eleger vereadores em Lisboa e no Porto. Só nalguns municípios da margem sul do Tejo atingiu tal desiderato, sendo que em Almada roubou mesmo a maioria absoluta à CDU, que desce à custa do crescimento do Bloco de Esquerda (não do PS). Vai ser um laboratório político interessante, Almada. Falta um vereador à CDU para a maioria absoluta. Elegeram vereadores PS, PSD e Bloco. Não me admiriaria se o acordo mais fácil fosse entre a CDU e o PSD.

Alentejo

No Alentejo, o PS é o voto útil da direita para derrotar a CDU. Já fora assim com Évora há doze anos. Foi agora com Beja e Aljustrel, onde a direita desaparece, sendo que no primeiro caso a CDU perde ganhando votos.

Lisboa

Tal como Carlos do Carmo e tantos outros lisboetas, costumava votar na CDU para as autárquicas. Desta vez votei no PS (e apoiei publicamente a candidatura de António Costa).
Tal como (quase que aposto!) Carlos do Carmo e muitos outros lisboetas, tenho pena que a CDU tenha perdido um vereador, mas não me arrependo de nada. Principalmente porque creio que votei (convictamente) num grande presidente de câmara, mas também porque, como se comprovou, o risco de vitória de Santana Lopes era real. E havia que não dispersar votos, para não voltar a suceder como em 2001. Já da não-eleição de vereadores do Bloco de Esquerda não tenho pena nenhuma. Em qualquer dos casos, o sectarismo foi penalizado.
Tal como (quase que aposto!) Carlos do Carmo e muitos outros lisboetas, votei na CDU para a Junta de Freguesia. Considero os meus votos muito bem empregues. Nenhum deles foi perdido.
Santana Lopes tinha razão ao apontar o "voto útil" em Costa (para a vereação) por parte dos eleitores mais à esquerda, principalmente da CDU, como se comprova com o muito melhor resultado que a coligação teve nas eleições para as freguesias. Já não tem razão nenhuma (e soa a delírio) falar num "acordo secreto" entre PS e CDU ou numa intenção deliberada do PCP em votar no PS para a vereação. Por um lado estes resultados fortalecem Santana: este voto útil mostra que era um adversário temível para a esquerda. Mas por outro lado tornam evidente que a principal preocupação de grande parte do eleitorado era que Santana não fosse eleito. Santana divide os lisboetas quase ao meio: uma parte significativa ainda gosta muito dele, mas a maioria sente por ele uma rejeição enorme. Por muito que já haja quem afirme o contrário, Santana é um dos grandes derrotados da noite.

2009/10/09

A minha declaração de voto em Lisboa

Voto em António Costa. Porque foi o único candidato que fez um esforço efectivo para unir a esquerda. Porque a eleição de Santana Lopes (que seria muito má para a cidade – o triunfo do automóvel privado) é um perigo real, que não se deve subestimar, pelo que não deve haver votos perdidos ou dispersados. Acima de tudo, porquje creio que Costa mostrou, nestes dois anos, que é um excelente Presidente. E, queira-se ou não, é Costa que tem marcado a agenda destas autárquicas lisboetas (o que, contra um adversário como Santana, é notável). Uma pequena mas significativa demonstração deste facto é o desmascarar definitivo das intenções políticas da corporação do automóvel (ao que este clube, que já foi respeitável, chegou!). Independentemente das óbvias motivações políticas do seu presidente, o ACP quer eleger os ciclistas como inimigos. E quem quiser esta guerra perde (é isso que eu costumo dizer aos meus amigos do Menos Um Carro – defender os peões e os ciclistas, mas sem declarar guerra aberta aos automobilistas: convencê-los). Por uma Lisboa sustentável e plural, o meu voto só pode ser em António Costa.

Debate sobre Lisboa (2) – as propostas de Santana

Não tenho a mínima saudade dos tempos de Santana Lopes à frente do município (enm fdo governo) e tudo farei para impedir o regresso ao poder do candidato que quer transformar Lisboa num imenso túnel. Mesmo assim, há duas propostas suas que vale a pena reter (e foram objecto de discussão no debate). Uma dessas propostas é a venda, por parte da Câmara, das habitações por esta detidas aos inquilinos que para isso se mostrarem interessados. Só é pena que Santana não estenda tal proposta a todos os senhorios e todos os inquilinos, mas somente à Câmara (após muitos anos de permanência numa casa um inquilino deveria ter a opção de a comprar e o senhorio a obrigação de a vender – por que não?). A proposta de Santana tem o mérito de ir contra o politicamente correcto (muitas vezes defendido por uma “esquerda”) de que a culpa pelo mau estado das casas é dos inquilinos que pagam rendas baixas. A outra é a não desactivação do Aeroporto da Portela (muito embora seja indispensável a construção de um novo aeroporto na região de Lisboa). Nesta proposta Santana junta-se aos outros candidatos de esquerda, contra António Costa. O que vale é que esta não é uma questão que dependa da Câmara Municipal de Lisboa (depende sobretudo do governo). Haveremos de voltar a ela.

Debate sobre Lisboa (1) – o outro António Costa

O debate de anteontem na RTP foi muito alargado. Excessivamente. Ficámos a conhecer candidatos que preferíamos desconhecer, como o do PNR (que se limitou a defender o uso do carro e a queixar-se da retirada dos cartazes xenófobos do seu partido – o que não é uma questão autárquica) e o do MMS (que por coincidência também se chama António Costa). Este último não sabe que o verbo “intervir” se conjuga como “vir” e não como “ver” (tendo proferido um “intervimos” em vez de “interviemos”). Que falta de mérito! A meio do debate, este António Costa armou-se em Santana Lopes e abandonou a sala (onde nunca deveria ter entrado). Terá ido para a “Conchichina” (uma espécie de China em forma de concha, que também só o seu partido conhece)?

O apoio que faltava

Digna de destaque é a “declaração de apoio que não é uma declaração de apoio” de Manuel Carvalho da Silva a António Costa. Apesar de tudo, o coordenador da CGTP afirmou que é muito importante a vitória de Costa, o que é muito diferente da posição oficial do PCP, para quem “não há diferenças” entre o PS e o PSD. Só é pena que a posição de Carvalho da Silva seja estritamente “autárquica” e não envolva o governo do país. Seria interessante ver Carvalho da Silva afirmar, por exemplo, que a avaliação de professores é necessária (mesmo se em moldes diferentes dos propostos pelo governo), em contraste com mais esta posição lamentável do PCP. Como se pode pensar em coligações de governo entre o PS e o PCP quando este partido defende posições destas?

2009/10/06

Dez anos sem Amália

Entretanto, a SIC parece que vai estrear uma telenovela chamada "Perfeito Coração", aproveitando o (merecido) sucesso da versão do projecto "Amália Hoje". Só espero que os espectadores dessa novela não se esqueçam de que a música chama-se "Gaivota" e era interpretada pela Amália.

2009/10/05

O regresso

Voltou o Conan (à SIC Radical)! Eu não tenho TV Cabo, mas estou contente à mesma.

2009/10/02

A tralha socrática: Augusto Santos Silva



O PS terá que tentar estabelecer pontes e acordos com os outros partidos de esquerda. Sabemos que tais pontes só serão possíveis em casos pontuais, mas o PS não pode ser acusado de não as tentar estabelecer. Por isso terá de se assistir ao afastamento de Augusto Santos Silva, o ministro dos assuntos parlamentares que assumiu que gosta de “malhar” nos partidos à sua esquerda, mas não hesitou, há três semanas, em directo, no “Prós e Contras”, a dirigir-se ao reaccionaríssimo Paulo Rangel como “o meu amigo” (algo que não fez a mais nenhum dos membros dos partidos presentes no programa). Talvez por dois tripeiros serem sempre amigos (por aqui se vê que o Porto é uma cidade pequena). Talvez, mais provavelmente, por o ex-maoísta (mas ainda bem maoísta na mentalidade) Santos Silva preferir qualquer outra alternativa a aliar-se ao PCP. É essa a cultura maoísta portuguesa, também presente em muitos sectores do Bloco de Esquerda (não todos). Convergências à esquerda assim são difíceis. Mas o PS não é o principal culpado de tal facto. Esta semana Santos Silva voltou ao “Prós e Contras”, pela enésima vez. Deve ter alguma avença. Ou então é porque a apresentadora é tripeira (também deve ser “sua amiga”). Que se mantenha como comentador, se ele e Fátima Campos Ferreira quiserem. Mas se o PS quer um mínimo de convergência à esquerda não o pode ter no governo. Muito menos nos assuntos parlamentares.

2009/09/30

2009/09/29

"Que fazer com toda esta liberdade?"

Aos 45 anos, a Mafaldinha (neste caso, mais correctamente, o Filipe) lança a questão fundamental. Bem hajam!

2009/09/28

A natureza de Louçã



Com os resultados do Bloco de Esquerda, se Francisco Louçã fosse um político responsável nunca o poderíamos ouvir falar em “vitória” ontem. O objectivo de um partido de esquerda responsável seria, retirando a maioria absoluta ao PS, ter mandatos suficientes para conseguir uma maioria em conjunto com este partido. (Para uma coligação ou para um simples acordo parlamentar, depois se veria.) Mas não assim. Excluído que parece estar um acordo com a CDU (a menos que se queira Portugal fora da NATO e da União Europeia), uma maioria de esquerda só me parece possível para propostas “fracturantes” ou em casos pontuais como um imposto sobre as grandes fortunas. A esquerda responsável, por isso, falhou. Mas nada disso parecia importar a Francisco Louçã, que estava mais preocupado com o seu partido do que com a governação do país. Sempre ouvimos falar da “arrogância” de José Sócrates. Após o que ouvimos ontem, será mesmo Sócrates o “arrogante”? A primeira coisa que o líder do Bloco de Esquerda fez, na noite de ontem, foi “exigir” a substituição de Maria de Lurdes Rodrigues sem propor nenhuma contrapartida. Ao ouvi-lo, apeteceu-me que Sócrates descesse ao átrio do Hotel Altis acompanhado da ainda ministra da Educação, anunciando que a manteria no seu cargo se fosse designado primeiro ministro. A verdadeira natureza de Francisco Louçã, escorpião pronto a picar a rã que o poderia ajudar a atravessar o rio, revelou-se aqui. Quem pudesse ter pensado na viabilidade de uma coligação do PS com um partido liderado por este indivíduo terá encontrado aqui a resposta. Enquanto o Bloco não decidir se é um partido de poder ou de protesto, tal não será possível. Mas, para o Bloco ser um partido de poder, terá que ser com outro líder. Neste momento, Francisco Louçã é o maior problema da esquerda portuguesa.

Ingovernabilidade

PS sem maioria absoluta, com um número de deputados inferior a PSD e CDS coligados. PS e BE não formam maioria juntos. A única solução para uma maioria estável seria um acordo do PS com um PSD descredibilizado e em cacos ou com o CDS mais à direita de sempre. O eleitorado do PS não perdoaria qualquer uma destas opções. Eu não perdoaria. Só resta ao PS seguir em frente, tentar avançar com as reformas que quer fazer (e que bem começou enquanto tinha maioria absoluta), motivá-las e justificá-las o melhor que puder perante o país, e esperar pela atitude dos restantes partidos. Não terá força para mais. O futuro será o que tiver que ser.

2009/09/25

Por que voto no PS

Numa notável música intitulada O Estrangeiro, em 1989, Caetano Veloso remata anunciando:
Some may like a soft brazilian singer but I’ve given up all attempts at perfection.
Não defendo que esqueçamos a perfeição. A perfeição deve permanecer como o objectivo, os objectivos devem ser claros e devemos lutar por eles. Mas devemos ter a noção de que a perfeição nunca é atingível por métodos democráticos, e os métodos antidemocráticos (para além de serem isso mesmo – antidemocráticos) conduziram a resultados que ninguém, nem mesmo o mais fanático, considera perfeitos. Ou seja: devemos tentar aperfeiçoar-nos, conscientes das nossas imperfeições. A perfeição é algo que se tenta atingir, e não algo que se estabelece. Finalmente, há limites à perfeição que queremos atingir (à esquerda: a Igualdade e a Liberdade), provenientes da nossa condição humana de animais sociais, que podemos aprender com a História, mas também com a Segunda Lei da Termodinâmica. São totalmente irrealistas as propostas baseadas na “imaginação”, no “sonho”, no “ideal” e na “utopia”, que tantas vezes se ouve falar à esquerda, e que devemos rejeitar em nome da verdade. (Belo slogan, o do PSD: Política de Verdade. Pena que não tenha nada a ver com o partido que o usa.) Mais valem avanços concretos que tacticismos suicidas que preferem levar a direita ao poder em nome da “pureza ideológica”, na esperança que a revolução fique mais próxima e mais fácil. É em nome destes avanços concretos, é por causa destes avanços concretos, que voto no PS nestas eleições legislativas. Porque sou de esquerda e, relativamente aos outros partidos, o Bloco de Esquerda não consegue (ou não conseguiu, até hoje) assumir nenhum tipo de responsabilidades, e o PCP, se não tiver uma posição hegemónica (que o povo português nunca entendeu dar-lhe), prefere conservar a sua pureza como partido puramente de protesto. Esta minha rejeição poderia motivar-me a procurar uma outra alternativa, ou a votar no PS simplesmente porque era o mal menor. Não é esse o caso: voto no PS nestas eleições com convicção: estou firmemente convencido de que é o melhor para Portugal. O que motiva este meu ponto de vista são alguns dos tais “avanços concretos” dos últimos quatro anos, rumo a uma sociedade mais justa. Sem querer ser exaustivo, vou enumerar alguns:

As propostas do Bloco

Texto imperdível no Avenida Central. A ler de uma ponta à outra.

Semana da Mobilidade/Massa Crítica


Esta foi a semana da Mobilidade. Para um balanço, ler o sempre atento Menos Um Carro. Esta noite há festa de ciclistas em Alfama. Lá estarei (depois da noite dos investigadores).

Cientistas ao Palco


Hoje é a Noite dos Investigadores. Durante o dia, um pouco por todo o país, o público vai ter a oportunidade de abordar cientistas. Eu vou estar em Lisboa, nos Jardins da Gulbenkian, à tarde. Apareçam!

2009/09/23

Dirce Migliaccio (1933-2009)

Vários blogues referem a morte da "Emília", do Sítio do Picapau amarelo, que Dirce de facto interpretou na primeira temporada da série, dos anos 70 da TV Globo, que encantou a minha geração. Só que Dirce não foi a melhor das Emílias: quem tornou Emília inesquecível, tendo-a interpretado por cinco temporadas, foi a actriz Remy de Oliveira. Dirce Migliaccio deve ser lembrada sobretudo como Judiceia Cajazeira.

2009/09/22

Qual “asfixia democrática” (2)?

Fala-se de “asfixia democrática”. Na comunicação social, não vejo onde esteja. Temos a TVI e, como agora se confirma, o Público, que sempre fizeram as campanhas que quiseram. Regressemos uns anos atrás. Não direi muitos (ao tempo em que o Prof. Cavaco era primeiro ministro, os deputados da oposição eram sempre filmados de costas no Parlamento e, no Telejornal, a sua cara aparecia no canto superior direito sempre que o seu nome era referido – no canal único de televisão, a RTP). Eu proponho regressarmos somente seis anos atrás. Num breve intervalo da sua colaboração de mais de 20 anos com Cavaco, o director do DN era... Fernando Lima! Imposto pela PT Multimedia, apesar do voto contrário do Conselho de Redacção do jornal, preocupado em ter um comissário político na direcção. (Como os leitores se recordam, Lima tratou de pôr o cabeçalho do jornal centenário a laranja. E nunca assinava os editoriais que escrevia. As eminências pardas nunca gostam de dar a cara.) O director do Expresso era o arquitecto Saraiva. Na TVI tínhamos José Eduardo Moniz, e no Público... José Manuel Fernandes!
Não me recordo de nenhum órgão de comunicação social não partidária que não estivesse a favor do governo há seis anos. Comparem com a situação hoje. Onde estava há seis anos quem hoje fala em “asfixia democrática”? Nunca eu senti um país tão asfixiante como há seis anos atrás.
É claro que hoje temos órgãos de comunicação social a favor do governo (e contra, nomeadamente os que elenquei), como é normal e desejável numa sociedade plural. Mas há uma diferença entre ter uma tendência e deixar-se manipular.

2009/09/21

Aprende-se sempre a ler o Arrastão

No meu caso, eu hoje aprendi um provérbio completo (só conhecia a última parte). O resto do texto (não só o título) também está bom.

Qual "asfixia democrática" (1)?

Entrevista de José Miguel Júdice ao DN:

A revelação por parte do DN do e-mail trocado entre Luciano Alvarez e Tolentino Nóbrega, jornalistas dos Público, é uma violação de privacidade?

Não sei se o e-mail é privado ou se tem interesse público. Acho muito curioso que a imprensa portuguesa, que durante anos e anos não se preocupou com a revelação de escutas, agora que atinge os jornalistas, estes comecem a ficar preocupados.

Considera reprovável, do ponto de vista ético?

É deontologicamente censurável, mas, durante anos, os jornalistas aceitaram que isso fosse possível em muitas situações que não envolviam jornalistas. É como se estivessem a provar um pouco do seu remédio. Os jornalistas dão muita importância a si próprios. Eticamente, é inadmissível que os jornalistas queiram ser protegidos de uma forma que não se protegem os outros cidadãos.

Considera aceitável que o DN tenha divulgado o e-mail?

É importante que o Diário de Notícias tenha divulgado esta situação. E é importante que os jornalistas ponham a mão na consciência. Eu sou amigo do José Manuel Fernandes, mas a reacção do José Manuel Fernandes, que de manhã afirmou que o Público estava sob escuta e depois vem reconhecer que, afinal, não houve qualquer intrusão no sistema informático do jornal, é de uma gravidade absoluta. E nem pediu desculpa. Depois das suspeições lançadas devia de haver um pedido de desculpa ao País, a todos nós. A comunicação social deve pôr a nu estes métodos de fazer jornalismo. Se é grave o que Fernando Lima, assessor do Presidente da República, fez, também é grave a comunicação social sujeitar-se a isso.

O interesse público justifica a publicação do e-mail?

Está tudo a arrancar os cabelos porque é um jornal a fazer a outro jornal aquilo que é prática da comunicação social fazer a outras entidades não jornalísticas: publicar e revelar documentos, mesmo que protegidos pelo segredo de justiça, em nome do interesse público. Esta dupla ética não é aceitável.


Ler também as declarações do Presidente do Sindicato dos Jornalistas: os jornalistas devem "aprofundar a investigação até ao limite das suas forças".

2009/09/18

Não há festa como esta (4)



O cartaz prometia, no “Fórum”, um debate: “Novas Gerações – Gerações sem direitos”. A sala estava como se vê na fotografia. As “gerações sem direitos” conviviam, bebiam, ouviam música. Cá fora. Fizemos o mesmo.

(Postagem em co-autoria com o João Branco.)

Não há festa como esta (3)



O slogan da CDU nem é mau: “soluções para uma vida melhor.” Só que neste caso (e em todos os quiosques onde este cartaz estava colado) as soluções para uma vida melhor passavam pela venda de tabaco.

(Postagem em co-autoria com o João Branco.)

Não há festa como esta (2)



A Festa tem um “Espaço Livro”, com obras (muitas, e ainda bem) de autores, comunistas e não só. O que demonstra uma certa e salutar abertura. Mas deveria haver limites: ver, misturados com os romances de Saramago, os “Desenhos da Prisão” de Cunhal ou a “Miséria da Filosofia” do Marx, “manuais” da Paula Bobone e álbuns do Tintim e da Anita parece-me mal. Não combina.

Não há festa como esta (1)



Qualquer pessoa se enternece a ouvir Jerónimo de Sousa. Mesmo Francisco Louçã: recordo o ar embevecido do “coordenador” do Bloco de Esquerda a ouvir o líder do PCP a citar Almeida Garrett no debate entre ambos: “o número de indivíduos que é necessário condenar à miséria (...) para produzir um rico!”. “O antigo operário fabril lê Almeida Garrett!”, terão todos os espectadores do referido debate concluído. É possível que sim. Mas é possível também que Jerónimo se limite a prestar atenção à decoração das tasquinhas da Festa. (Festa que, como é sabido, todos os anos ele ajuda a montar.)

2009/09/16

Regresso a um blogue colectivo

A partir de agora, passo a escrever sobre política no Esquerda Republicana, com mais pessoal da LEFT (excepto um!). Os textos serão republicados aqui. Para além disso, continuarei a escrever no Avesso do Avesso sobre tudo o que mais me apetecer, que a vida não é só política. Até já.

2009/09/14

Disney compra Marvel

Esta notícia já tem uns dias. Em miúdo aprendi a ler com os livros da Disney, mas a Marvel nunca me interessou. Mesmo assim não me deixa de causar uma certa confusão imaginar que é possível um dia ver o Capitão América ou o Hulk atrás dos Irmãos Metralha...

2009/09/09

Sobre os debates à esquerda

O Seinfeld afirmou esta frase lapidar (a propósito de um gay com quem a Elaine se dava muito bem): "People always get along when there is no possibility of sex." Olhando para os debates entre o Jerónimo e quer o Louçã, quer o Sócrates, vemos: ali não há possibilidade de sexo. O Jerónimo quer manter-se casto - o que se lhe há-de fazer? Vendo o debate de ontem entre o Louçã e o Sócrates, concluímos: depois das eleições, pode ser que tenha que haver ali uma foda. Por isso foi um debate tão tenso.

09-09-09

Até 2012 ainda teremos mais três dias destes. (À hora deste texto ainda eue stava a dormir, a recuperar de transportar móveis.)

2009/09/08

We Can't Afford to Wait

É o vídeo que os REM gravaram para a associação MoveOn, em apoio a um Serviço Nacional de Saúde nos EUA.

2009/09/07

Após a Festa do Avante!

Sou um socialista científico, comunista não-praticante. Não deixo de celebrar as datas do calendário (reportagem fotográfica em breve).

2009/09/02

Bicicletas, capacetes e ciclovias

Tenho andado envolvido numa discussão nos comentários do Klepsýdra sobre estes assuntos. Sugiro que passem por lá. Entretanto decidi transcrever para aqui algumas ideias minhas sobre este assunto que lá escrevi.

Bem, começo por esclarecer que vivi seis anos nos EUA, depois dois em França e nove meses na Holanda. Sempre usei bicicleta, e nunca tive capacete. Quando voltei para Portugal passei a usar capacete. As razões são duas: há muito maiores inclinações em Portugal, pelo que uma eventual queda teria riscos mais graves, e não há ciclovias. Mesmo assim ando sem capacete às vezes.

Não defendo a obrigatoriedade do uso do capacete, embora tal não me repugne. Mas lanço uma pergunta – que podem à vontade classificar como “argumento à João Miranda”. Se um de vocês cair de cabeça (sem nenhum carro) e esmigalhar os miolos todos, sem ter feito tudo o que era possível para minimizar essa situação (usar um capacete), por que raio é que os meus impostos (via SNS) hão-de financiar a vossa cura? Ao menos que paguem uma multa. Não me venham por favor comparar com “anedoctal evidences”. Ter um acidente de bicicleta não é uma “anedoctal evidence”. Se for, por essa ordem de ideias ter um acidente de carro também é, e por isso não se deveria usar cinto. Os argumentos contra o capacete parecem-me os contra o cinto de segurança.

O “estudo que mostra que os automobilistas tomam menos cuidados perto de ciclistas com capacete” de que o Miguel fala é mais um estudo daqueles tipo “freakonomics”, cujo único objectivo é chamar idiotas aos leitores. Pressupõem sempre que o visado dispõe de toda a informação e os outros não dispõem de informação nenhuma. Os automobilistas podem ser mais cuidadosos se um ciclista não usar capacete (ou luzes de presença à noite), não se todos não os usarem. (Parece que “teorias” dessas também já tentaram demonstrar que o uso de preservativo não faz nada pela prevenção da SIDA. Quem sabe vocês encontrem aliados contra o uso do capacete no Vaticano.)

Quanto às posições da Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta, João, tu respeitarias uma posição do Automóvel Clube de Portugal que dissesse respeito ao uso de carros? Eu não. Cada vez menos.

Será que é o mesmo tipo de “estudo” que demonstra, nas palavras do Mário, ser “errado que em meios urbanos os ciclistas estejam mais seguros se circularem segregados do resto do tráfego”? Eu ando de bicicleta na cidade, e para mim uma ciclovia, para além de mais segura, é muito mais confortável. Não tenho que ziguezaguear entre os carros parados em engarrafamentos nem que me preocupar com carros a estacionarem e a abrirem portas. Estudo nenhum consegue provar o contrário, a menos que o objectivo do estudo seja acabar com os carros. (Sem dúvida, se não houvesse carros não eram precisas ciclovias. Se não houvesse carros nem bicicletas não eram precisos passeios para peões.) Se for esse o objectivo, força, agora deve ser assumido com clareza e não sustentado em estudos com objectivos políticos e que tornam a vida mais difícil a todos.

Quanto ao capacete, eu não disse que era favorável à sua obrigatoriedade. Disse que não a excluía. Julgo que o sensato será não avançar com a obrigatoriedade para já. Se houver uma massificação do uso da bicicleta, como esperamos, e começar a haver muitos acidentes, então avança-se para a obrigatoriedade. Foi assim que se fez para o cinto de segurança do carro, que não era obrigatório há umas décadas. (Claro que ainda hoje há reaccionários provincianos que se opõem ao uso do cinto de segurança. Viva a liberdade individual!)

Quanto à “teoria da compensação de risco”, não a compro. Já te disse: é baseada no pressuposto de que um actor privilegiado dispõe da informação toda e os outros com quem ele interage são uns bárbaros ignorantes. Recuso-me a aceitar estes pressupostos. Um automobilista é um potencial assassino. Qualquer indivíduo que tenha sexo desprotegido é um potencial transmissor de doenças. Mas eu recuso-me a tratar todos os automobilistas como assassinos. Recuso-me. Prefiro informar as pessoas. Um automobilista informado não é um assassino. Um indivíduo informado tem sexo protegido.
A tua teoria da compensação de risco serve para negar a eficácia do preservativo, o aquecimento global (googla-se “compensação de risco” e a primeira coisa que nos aparece é o Insurgente). Nos EUA servirá para defender o livre porte de armas. E serve para negar a eficácia do uso do capacete. Meus caros, fiquem vocês com a vossa “teoria”.
Aproveito para esclarecer que não me revejo minimamente no modelo que vocês propõem, em que só os mais fortes têm responsabilidade civil e criminal. Vai totalmente contra os meus princípios. Daí essa minha discordância, que é de base. Concordo que um automobilista é mais “forte” que um ciclista, que é mais “forte” que um peão, mas todos têm que ter a sua responsabilidade. O que vocês preconizam, que é a abolição o código de estrada, iria criar uma nova classe de inimputáveis. Sou por uma cultura de responsabilidade, como referi, e para mim ninguém pode ser inimputável perante a sociedade e perante o estado. Recuso totalmente esse projecto, que, apesar de o Mário não querer ver, tem uma base anarquista evidente. O código de estrada, é o insuspeito Noam Chomsky que o afirma, é dos melhores exemplos de um contrato social estabelecidos até hoje.

Quanto às ciclovias: hoje, enquanto vocês, losers, ficavam aqui a comentar no Klepsýdra, eu fui aproveitar o bom tempo para o Guincho. No acesso para a praia, pela povoação de Areia, há uma estrada com muito pouco movimento (ao pé do parque de campismo da Orbitur). E uma “pista para ciclistas” que serve também como passeio pedonal. Para começar não há necessidade de uma ciclovia numa rua tão pouco movimentada. Pior ainda estaremos se essa ciclovia for ridícula, e partilhada com peões. As ciclovias são de uso obrigatório, mas ser obrigado a usar aquela “ciclovia” é péssimo. Mais valia que não houvesse ciclovia nenhuma. Se as vossas objecções às ciclovias se devem a recearem que sejam “ciclovias” como a que eu vi hoje, compreendo-as (e apoio-as). Vamos lá a ver se a gente se entende: as ciclovias que eu defendo são ciclovias a sério, em ruas movimentadas, que servem para garantir SEMPRE um espaço desimpedido para os ciclistas (e não devem ser para partilhar com os peões). Sou um firme defensor das ciclovias, com estes pressupostos (como há na minha querida Paris, a cidade onde mais gosto de andar de bicicleta). Ciclovias da treta, sou contra, claro.