Mário Crespo com Kaúlza de Arriaga - foto roubada ao Arrastão
Também publicado no Esquerda Republicana
"Interacções de todo o universo, unificai-vos!"
Basicamente, no entender do director do JN o texto de Mário Crespo não era um simples texto de Opinião mas fazia referências a factos que suscitavam duas ordens de problemas: por um lado necessitavam de confirmação, de que fosse exercido o direito ao contraditório relativamente às pessoas ali citadas; por outro lado, a informação chegara a Mário Crespo por um processo que o JN habitualmente rejeita como prática noticiosa; isto é: o texto era construído a partir de informações que lhe tinham sido fornecidas por alguém que escutara uma conversa num restaurante.Acresce que o diretor do jornal apenas "manifestou reservas" quanto ao artigo e não despediu Mário Crespo: foi este que, face a estas reservas, decidiu retirar o artigo e cessar a sua colaboração. Mais: ao não publicar o artigo (pelo qual poderia vir a ser responsabilizado - um jornal pode ser responsabilizado pelos seus artigos de opinião) o JN não estava a silenciar Mário Crespo, que dispõe de outros meios (de que todos hoje em dia dispomos), como blogues, outros jornais e, no caso de Mário Crespo, o think-tank do PSD. Que o publicou imediatamente. Crespo recebeu ainda a solidariedade pronta de Paulo Portas: amanhã, Crespo participa num almoço promovido pelo CDS. Também poderia apresentar o artigo lá...

- Em 1963 acaba como jogador. Passa a adjunto de Otto Bumbel, depois de Janos Biri e de Mário Imbelloni e a fechar este ciclo é adjunto de Pedroto.
- Quando o Pedroto sai é que eu assumo o lugar de treinador da Académica. O Pedroto era intratável. Tinha atitudes que roçavam o racismo. Ele queria sempre ser o big boss. «Pedroto era ele, ele e só ele»
- As grandes lutas Norte-Sul começam entre Pedroto e Wilson. E são lutas duras...
- São, são... Mas em Coimbra eu era o Capitão e os jogadores andavam à minha volta, pouco ligavam ao Pedroto. Eu era o espírito académico, o Pedroto era ganhar, ganhar...tinha uma determinação própria, um pouco a destoar daquele ambiente de Coimbra.
- Pedroto deixa a Académica por dar uma punhada num jornalista de Coimbra, não é?
- Exactamente. Ele foi acumulando pequenos ódios. Tinha coisas tal como o Pinto da Costa,de uma determinação inabalável. Uma das máximas do Pedroto era: «Morrer por morrer, que morra o meu pai, que é mais velho». Isto era Pedroto.
- Ia falar da saída de Pedroto...
- O Porto foi jogar a Coimbra e esse tal jornalista, depois do jogo, escreveu: «Este jogo antes de começar já estava perdido.» O Pedroto não esperou, foi ao café onde se reuniam os teóricos, viu o jornalista e perguntou-lhe: «Foi você que escreveu isto?». - «Fui, porquê?» E Pedroto respondeu-lhe com um soco nos queixos. Isto era Pedroto.
Por estes dias, Barcelona e a Catalunha vivem em suspenso da decisão do Tribunal Constitucional sobre o novo Estatuto da Catalunha - que, à luz da Constituição Espanhola, só pode ser declarado inconstitucional, porque aquilo é praticamente uma declaração de independência, que faria a inveja de A. J. Jardim. Mas as coisas chegaram a tal ponto, que o próprio Zapatero torce para que o TC não veja o que todos vêem e não ouse afrontar os demónios catalães - mal adormecidos desde que, em 1640, Castela teve de optar entre opor-se à reconquista da independência portuguesa ou enfrentar o autonomismo catalão, e escolheu travar e vencer os revoltosos da Catalunha, deixando Portugal para os Braganças. Não por acaso, as reivindicações autónomas em Espanha estão directamente ligadas à riqueza das regiões: são os ricos do País Basco ou da Catalunha que querem ser independentes do poder fiscal de Madrid, para não terem de pagar impostos a favor dos pobres. Também em Itália, é o norte rico que se quer ver liberto de ter pagar a favor do Mezzogiorno, e em Inglaterra é a Escócia que quer ser independente do Midwest deprimido. A autonomia regional é quase sempre uma revolta dos ricos contra os pobres e contra o Estado central, cuja tarefa fundamental é distribuir a riqueza por todos. É por isso que eu sou ferozmente anti-regionalista, porque não tenho a mais pequena dúvida de que, ao contrário do que imaginam alguns incautos ou oportunistas, a regionalização lançaria Lisboa e o Porto contra todos os outros e ai dos alentejanos ou transmontanos, sem a República a protegê-los!(Miguel Sousa Tavares, A Bola, 01-12-2009)
Itália não merece o destino que Berlusconi lhe traçou com criminosa frieza e sem o menor vestígio de pudor político, sem o mais elementar sentimento de vergonha própria. Quero pensar que a gigantesca manifestação contra a "coisa" Berlusconi, na qual estas palavras irão ser lidas, se converterá no primeiro passo para a libertação e a regeneração de Itália. Para isso não são necessárias armas, bastam os votos.
"Quem fala assim certamente nunca perdeu o emprego para mão de obra mais barata vinda do estrangeiro. O perigo da esquerda continuar a alimentar estas visões completamente irrealistas, alienadas e sem qualquer possibilidade de aplicação prática sobre as questões da imigração, está precisamente em deixar para as mãos da direita o exclusivo do tratamento do tema. Isso sim, assusta-me."
"O que se defende aqui (e reparará que a maioria defende uma solução de “bom senso”) é que a abertura é bem vinda desde que, pela sua quantidade, não degrade as condições de vida, e pela sua qualidade, não ponha em causa os direitos liberdades e garantias que tanto custaram a conquistar. (...)O argumento (do nosso lado digamos assim) é que quem defende o mesmo que o Daniel geralmente vive em locais pouco afectados por aquilo que defende (acontece o mesmo com a localização dos bairros sociais ou com a co-incineração. São óptimos mas niguém os quer ao pé de casa.)."
Numa noite cálida de Junho de 1989, à beira do Reno, o chanceler alemão [Kohl] disse-lhe [a Gorbachov]: "Olhe para o rio. Simboliza a História (...). Pode erguer uma barragem, mas a água vai encontrar outra forma de chegar ao mar. É o mesmo com a unidade alemã e a unidade europeia." Ficou em silêncio. Despediram-se com um abraço.
François Mitterrand e Margaret Thatcher - Os que quase soçobraram
Se ainda havia dúvidas sobre as hesitações de Margaret Thatcher e de François Mitterrand perante a queda do Muro e a imparável unificação da Alemanha, que quiseram travar, a abertura antecipada dos arquivos do Foreign Office dissipou-as. A primeira-ministra britânica e o Presidente francês têm, no entanto, uma desculpa: a trágica História europeia da primeira metade do século XX. Dito de outra forma: a "questão alemã". Não foram os únicos. Nas suas memórias, Kohl diz que, de todos os aliados europeus, apenas um o apoiou imediatamente: Felipe González. Thatcher, que não acreditava na integração europeia, não via saída para o renascimento de uma grande Alemanha no coração da Europa. Fez tudo o que esteve ao seu alcance para convencer Bush a opor-se-lhe. Mitterrand, que acreditava na Europa, percebeu que o caminho era outro: amarrar solidamente a Alemanha à integração europeia. Kohl nunca perdoou à líder britânica, mas estabeleceu com o Presidente francês uma amizade que foi crucial para o futuro da Europa. Garantiu que a unificação europeia seria a outra face da unificação alemã.
Era precisamente a noção do que era andar em liberdade e poder passar o Muro que dava a Freitas Branco a consciência exacta da situação vivida pela generalidade da população de Berlim: a separação absoluta. "A cortina de ferro existia, de facto. Para quem se deslocava a pé, o ponto de passagem de fronteira era a estação de comboios central, a Friedrichstrasse", diz este professor da Faculdade de Letras de Lisboa. "Numa mesma estação de metro e comboios, havia dois mundos completamente distintos, o mundo do socialismo e o mundo do capitalismo. As pessoas passavam a um metro umas das outras sem se poderem ver nem falar. A divisória era uma cortina de ferro que cobria parte da estação. A cortina de ferro de que Churchill falava estava ali, materializada. É algo que só vivido."
Mas não era só no muro que rasgava a cidade que o peso da ditadura se sentia. João Lourenço - "Eu não fui pelo PCP, nunca fui do PCP" -, que esteve em Berlim a estagiar um ano, a convite do director da Casa de Brecht, Werner Hesht, e do director do Berliner Ensemble, Manfred Wekwerth, afirma: "Senti uma segurança como nunca senti em cidade nenhuma do mundo. Os soldados nas esquinas, nas casas de vidro, davam segurança. Havia uma segurança dada pelo regime." Mas não esconde que essa segurança tinha um lado assustador: "Um dia acordei com o barulho e com o chão a tremer. Fui à janela, eram os tanques com mísseis a passar. Durante uns segundos pensei: é a guerra. Eram os preparativos para o desfile do 1.º de Maio."
"Todas as pessoas com quem contactei, fossem do partido ou não, tinham uma posição extremamente crítica em relação à burocracia e à incapacidade do sistema", afirma Mário Vieira de Carvalho, explicando que "a falta de liberdade de expressão não deixava reflectir a realidade e o criticismo não passava". Pormenoriza: "Nas reuniões debatiam e criticavam, mas não passava para cima. A corrente não era de baixo para cima, era de cima para baixo." Uma atitude de comando que era "a expressão de uma falsa consciência sobre a realidade" e também, segundo Vieira de Carvalho, "profundamente antimarxista".
Os seis portugueses que viveram na ex-RDA são unânimes em elogiar os benefícios proporcionados pelo socialismo real. É desse bem-estar e dessa qualidade de vida que sentem nostalgia.
Paulo Bento prestou o seu último serviço, mas Bettencourt não aprendeu a lição
A conferência de imprensa organizada para explicar a saída de Paulo Bento serviu para confirmar que o Sporting tinha um treinador com carácter, íntegro e corajoso, afinal de contas, nada que já não se soubesse. Mas também para se perceber que José Eduardo Bettencourt não aprendeu muito com uma situação idêntica passada há mais de quatro anos naquela mesma sala.
De facto, a única verdadeira diferença foi que Dias da Cunha decidiu, na altura, acompanhar José Peseiro na demissão, enquanto Bettencourt assumiu que nunca seria “capaz” de despedir um treinador cujo abandono considera uma “perda irreparável”. Por outro lado, Bettencourt confessa que Paulo Bento sai em resultado da sua própria lucidez e capacidade de ler a situação e de não misturar conhaque com trabalho. Independentemente do claro contra-senso, salta à vista que, ao dizê-lo, o presidente leonino acabou por reconhecer que a relação profissional entre o presidente e o treinador esteve e estaria sempre condicionada pela forte componente humana que os une. É uma assumpção que pode ser muito honesta, mas que parece estranha e muito discutível vinda de alguém que ainda há bem pouco desempenhava funções de grande responsabilidade no sistema bancário. E é-o também por partir de quem lidera uma Sociedade Anónima Desportiva, onde se exige um rigor e uma gestão pautada acima de tudo pelo pragmatismo e racionalidade.
Mais do que fazer a sua própria leitura da situação e apontar o caminho futuro, Bettencourt assumiu estar ali basicamente para fazer a homenagem de quem ia sair, um “momento doloroso”. O que parece legítimo e até lhe ficaria bem, não fosse a oportunidade ter sido também aproveitada para fazer uma espécie de ajuste de contas com muitos daqueles que foram criticando o clube e Paulo Bento e que, ironizou Bettencourt, “só têm certezas”. Um erro, porque o momento devia era ter sido aproveitado para contribuir para a pacificação da nação sportinguista, cuja generalidade dos seus membros até se têm mantido surpreendentemente pacientes face à deprimente incapacidade da equipa de produzir (bom) futebol.
Que Bettencourt se mostrasse afectado pelas circunstâncias até era compreensível, mas já não o foi vê-lo responder de forma excessivamente nervosa e desabrida a algumas questões colocadas pelos jornalistas, usando até expressões que não o dignificam. Vá lá que teve pelo menos a decência de pedir imediatamente desculpa, após responder ao jornalista do PÚBLICO que o próximo treinador será do “sexo masculino e caucasiano”. Bettencourt tem mostrado, desde a primeira hora, a intenção clara de utilizar um discurso e uma postura mais próximos dos adeptos anónimos, podendo isso até fazer parte da actual estratégia de conquista de novos sócios. Mas os seus excessos na verve e na postura começam a não agradar apenas àqueles que se habituaram a ver Alvalade como a sede de um clube elitista e aristocrata.
Pelo contrário, Paulo Bento distinguiu-se pelo discurso sereno e frontal, mesmo que aqui e ali algo redondo, como é hábito. Disse o que se impunha, mostrou lucidez até na forma como reconheceu ter cometido um erro quando não teve coragem de recusar o repto do amigo Bettencourt e acabou por colocar o coração à frente da razão. E principalmente quando deixou claro que não sai pelos maus resultados nem pela pressão dos adeptos ou da opinião pública ou publicada. Sai, digo eu, porque se sente impotente para reverter a situação. Daí ter insistido que se demite “pelos jogador e pelo Sporting”. Foi o último serviço prestado por um treinador a quem, no Sporting, só se fará a devida justiça daqui a algum tempo, quando a espuma dos últimos meses desaparecer. Então, talvez se venha a perceber melhor o que, a 300 quilómetros de distância, quis dizer Jesualdo Ferreira, quando afirmou que “a sua carreira começou hoje”...
Os caloiros do ensino superior, em Viseu, estão a ser "usados para aumentar o negócio de alguns bares". As denúncias são dos próprios alunos que acusam os elementos do Conselho de Viriato, o órgão académico que deve zelar pelo cumprimento das regras da praxe, de organizarem festas com os caloiros "pelas quais recebem percentagens do consumo feito nos bares".
Alguns alunos, que também já denunciaram a situação junto da presidência do Instituto Politécnico de Viseu (IPV), acusam Ana Pinto, presidente do conselho, de "organizar iniciativas da praxe em bares, para onde são levados os caloiros, recebendo depois percentagem pela despesa feita", contaram ao DN vários destes elementos, que temendo represálias, preferem ficar no anonimato.
A presidente do Conselho de Viriato, que para além de ser estudante no IPV, trabalha num bar de diversão nocturna na zona de Jugueiros, ao lado do instituto e onde funcionam mais de uma dúzia de bares, desvaloriza as acusações. "Os alunos praxados têm um percurso, vão aos bares, onde ouvem pessoas a falar sobre diversos temas. Se tiverem dúvidas são retiradas e depois seguem para outro bar", revela a estudante.
A presidente do Conselho de Viriato refere que as denúncias surgem de "guerras entre as casas de diversão nocturna que lutam ferozmente pela presença dos estudantes do ensino superior. E viram-se para mim porque eu oriento mais de 700 alunos e sou um alvo mais fácil", adianta. Embora considere as denúncias "difamatórias" Ana Pinto, que é estudante no Politécnico de Viseu há dez anos, garante que o Conselho de Viriato "vai tomar mais cuidado com as iniciativas que envolvem os caloiros".
Some may like a soft brazilian singer but I’ve given up all attempts at perfection.Não defendo que esqueçamos a perfeição. A perfeição deve permanecer como o objectivo, os objectivos devem ser claros e devemos lutar por eles. Mas devemos ter a noção de que a perfeição nunca é atingível por métodos democráticos, e os métodos antidemocráticos (para além de serem isso mesmo – antidemocráticos) conduziram a resultados que ninguém, nem mesmo o mais fanático, considera perfeitos. Ou seja: devemos tentar aperfeiçoar-nos, conscientes das nossas imperfeições. A perfeição é algo que se tenta atingir, e não algo que se estabelece. Finalmente, há limites à perfeição que queremos atingir (à esquerda: a Igualdade e a Liberdade), provenientes da nossa condição humana de animais sociais, que podemos aprender com a História, mas também com a Segunda Lei da Termodinâmica. São totalmente irrealistas as propostas baseadas na “imaginação”, no “sonho”, no “ideal” e na “utopia”, que tantas vezes se ouve falar à esquerda, e que devemos rejeitar em nome da verdade. (Belo slogan, o do PSD: Política de Verdade. Pena que não tenha nada a ver com o partido que o usa.) Mais valem avanços concretos que tacticismos suicidas que preferem levar a direita ao poder em nome da “pureza ideológica”, na esperança que a revolução fique mais próxima e mais fácil. É em nome destes avanços concretos, é por causa destes avanços concretos, que voto no PS nestas eleições legislativas. Porque sou de esquerda e, relativamente aos outros partidos, o Bloco de Esquerda não consegue (ou não conseguiu, até hoje) assumir nenhum tipo de responsabilidades, e o PCP, se não tiver uma posição hegemónica (que o povo português nunca entendeu dar-lhe), prefere conservar a sua pureza como partido puramente de protesto. Esta minha rejeição poderia motivar-me a procurar uma outra alternativa, ou a votar no PS simplesmente porque era o mal menor. Não é esse o caso: voto no PS nestas eleições com convicção: estou firmemente convencido de que é o melhor para Portugal. O que motiva este meu ponto de vista são alguns dos tais “avanços concretos” dos últimos quatro anos, rumo a uma sociedade mais justa. Sem querer ser exaustivo, vou enumerar alguns:
A revelação por parte do DN do e-mail trocado entre Luciano Alvarez e Tolentino Nóbrega, jornalistas dos Público, é uma violação de privacidade?
Não sei se o e-mail é privado ou se tem interesse público. Acho muito curioso que a imprensa portuguesa, que durante anos e anos não se preocupou com a revelação de escutas, agora que atinge os jornalistas, estes comecem a ficar preocupados.
Considera reprovável, do ponto de vista ético?
É deontologicamente censurável, mas, durante anos, os jornalistas aceitaram que isso fosse possível em muitas situações que não envolviam jornalistas. É como se estivessem a provar um pouco do seu remédio. Os jornalistas dão muita importância a si próprios. Eticamente, é inadmissível que os jornalistas queiram ser protegidos de uma forma que não se protegem os outros cidadãos.
Considera aceitável que o DN tenha divulgado o e-mail?
É importante que o Diário de Notícias tenha divulgado esta situação. E é importante que os jornalistas ponham a mão na consciência. Eu sou amigo do José Manuel Fernandes, mas a reacção do José Manuel Fernandes, que de manhã afirmou que o Público estava sob escuta e depois vem reconhecer que, afinal, não houve qualquer intrusão no sistema informático do jornal, é de uma gravidade absoluta. E nem pediu desculpa. Depois das suspeições lançadas devia de haver um pedido de desculpa ao País, a todos nós. A comunicação social deve pôr a nu estes métodos de fazer jornalismo. Se é grave o que Fernando Lima, assessor do Presidente da República, fez, também é grave a comunicação social sujeitar-se a isso.
O interesse público justifica a publicação do e-mail?
Está tudo a arrancar os cabelos porque é um jornal a fazer a outro jornal aquilo que é prática da comunicação social fazer a outras entidades não jornalísticas: publicar e revelar documentos, mesmo que protegidos pelo segredo de justiça, em nome do interesse público. Esta dupla ética não é aceitável.




Bem, começo por esclarecer que vivi seis anos nos EUA, depois dois em França e nove meses na Holanda. Sempre usei bicicleta, e nunca tive capacete. Quando voltei para Portugal passei a usar capacete. As razões são duas: há muito maiores inclinações em Portugal, pelo que uma eventual queda teria riscos mais graves, e não há ciclovias. Mesmo assim ando sem capacete às vezes.
Não defendo a obrigatoriedade do uso do capacete, embora tal não me repugne. Mas lanço uma pergunta – que podem à vontade classificar como “argumento à João Miranda”. Se um de vocês cair de cabeça (sem nenhum carro) e esmigalhar os miolos todos, sem ter feito tudo o que era possível para minimizar essa situação (usar um capacete), por que raio é que os meus impostos (via SNS) hão-de financiar a vossa cura? Ao menos que paguem uma multa. Não me venham por favor comparar com “anedoctal evidences”. Ter um acidente de bicicleta não é uma “anedoctal evidence”. Se for, por essa ordem de ideias ter um acidente de carro também é, e por isso não se deveria usar cinto. Os argumentos contra o capacete parecem-me os contra o cinto de segurança.
O “estudo que mostra que os automobilistas tomam menos cuidados perto de ciclistas com capacete” de que o Miguel fala é mais um estudo daqueles tipo “freakonomics”, cujo único objectivo é chamar idiotas aos leitores. Pressupõem sempre que o visado dispõe de toda a informação e os outros não dispõem de informação nenhuma. Os automobilistas podem ser mais cuidadosos se um ciclista não usar capacete (ou luzes de presença à noite), não se todos não os usarem. (Parece que “teorias” dessas também já tentaram demonstrar que o uso de preservativo não faz nada pela prevenção da SIDA. Quem sabe vocês encontrem aliados contra o uso do capacete no Vaticano.)
Quanto às posições da Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta, João, tu respeitarias uma posição do Automóvel Clube de Portugal que dissesse respeito ao uso de carros? Eu não. Cada vez menos.
Será que é o mesmo tipo de “estudo” que demonstra, nas palavras do Mário, ser “errado que em meios urbanos os ciclistas estejam mais seguros se circularem segregados do resto do tráfego”? Eu ando de bicicleta na cidade, e para mim uma ciclovia, para além de mais segura, é muito mais confortável. Não tenho que ziguezaguear entre os carros parados em engarrafamentos nem que me preocupar com carros a estacionarem e a abrirem portas. Estudo nenhum consegue provar o contrário, a menos que o objectivo do estudo seja acabar com os carros. (Sem dúvida, se não houvesse carros não eram precisas ciclovias. Se não houvesse carros nem bicicletas não eram precisos passeios para peões.) Se for esse o objectivo, força, agora deve ser assumido com clareza e não sustentado em estudos com objectivos políticos e que tornam a vida mais difícil a todos.
Quanto ao capacete, eu não disse que era favorável à sua obrigatoriedade. Disse que não a excluía. Julgo que o sensato será não avançar com a obrigatoriedade para já. Se houver uma massificação do uso da bicicleta, como esperamos, e começar a haver muitos acidentes, então avança-se para a obrigatoriedade. Foi assim que se fez para o cinto de segurança do carro, que não era obrigatório há umas décadas. (Claro que ainda hoje há reaccionários provincianos que se opõem ao uso do cinto de segurança. Viva a liberdade individual!)
Quanto à “teoria da compensação de risco”, não a compro. Já te disse: é baseada no pressuposto de que um actor privilegiado dispõe da informação toda e os outros com quem ele interage são uns bárbaros ignorantes. Recuso-me a aceitar estes pressupostos. Um automobilista é um potencial assassino. Qualquer indivíduo que tenha sexo desprotegido é um potencial transmissor de doenças. Mas eu recuso-me a tratar todos os automobilistas como assassinos. Recuso-me. Prefiro informar as pessoas. Um automobilista informado não é um assassino. Um indivíduo informado tem sexo protegido.
A tua teoria da compensação de risco serve para negar a eficácia do preservativo, o aquecimento global (googla-se “compensação de risco” e a primeira coisa que nos aparece é o Insurgente). Nos EUA servirá para defender o livre porte de armas. E serve para negar a eficácia do uso do capacete. Meus caros, fiquem vocês com a vossa “teoria”.
Aproveito para esclarecer que não me revejo minimamente no modelo que vocês propõem, em que só os mais fortes têm responsabilidade civil e criminal. Vai totalmente contra os meus princípios. Daí essa minha discordância, que é de base. Concordo que um automobilista é mais “forte” que um ciclista, que é mais “forte” que um peão, mas todos têm que ter a sua responsabilidade. O que vocês preconizam, que é a abolição o código de estrada, iria criar uma nova classe de inimputáveis. Sou por uma cultura de responsabilidade, como referi, e para mim ninguém pode ser inimputável perante a sociedade e perante o estado. Recuso totalmente esse projecto, que, apesar de o Mário não querer ver, tem uma base anarquista evidente. O código de estrada, é o insuspeito Noam Chomsky que o afirma, é dos melhores exemplos de um contrato social estabelecidos até hoje.
Quanto às ciclovias: hoje, enquanto vocês, losers, ficavam aqui a comentar no Klepsýdra, eu fui aproveitar o bom tempo para o Guincho. No acesso para a praia, pela povoação de Areia, há uma estrada com muito pouco movimento (ao pé do parque de campismo da Orbitur). E uma “pista para ciclistas” que serve também como passeio pedonal. Para começar não há necessidade de uma ciclovia numa rua tão pouco movimentada. Pior ainda estaremos se essa ciclovia for ridícula, e partilhada com peões. As ciclovias são de uso obrigatório, mas ser obrigado a usar aquela “ciclovia” é péssimo. Mais valia que não houvesse ciclovia nenhuma. Se as vossas objecções às ciclovias se devem a recearem que sejam “ciclovias” como a que eu vi hoje, compreendo-as (e apoio-as). Vamos lá a ver se a gente se entende: as ciclovias que eu defendo são ciclovias a sério, em ruas movimentadas, que servem para garantir SEMPRE um espaço desimpedido para os ciclistas (e não devem ser para partilhar com os peões). Sou um firme defensor das ciclovias, com estes pressupostos (como há na minha querida Paris, a cidade onde mais gosto de andar de bicicleta). Ciclovias da treta, sou contra, claro.
