2009/01/20
Um americano comum
No rescaldo do discurso de despedida de George W. Bush, não faltou um comentador na SIC Notícias a reafirmar a "arrogância" do ex-presidente americano. "Arrogância" por não reconhecer os seus erros. Oito anos e não percebem nada. Bush não passa, nunca passou, de um americano médio. A atracção que exerceu nos momentos da eleição em grande parte do povo americano tem justamente a ver com isso. Um homem inculto como um americano médio, que faz asneiras e comete erros como um americano médio. E que nunca se dá por vencido... como um americano (médio ou não, isso não importa) não se dá. Para um americano médio, Bush pode ser estúpido mas não é um loser. É isso que conta.
Nunca vi nenhum tique de arrogância em George W. Bush. (As acusações de "arrogante", por parte do americano médio, caíam sempre sobre os rivais democratas, primeiro Gore e depois Kerry, que manifestamente não tinham paciência para aturar um rival daquele calibre intelectual.) Nem mesmo no seu momento de despedida. Bush é um homem genuíno. Genuinamente estúpido, mas genuíno. O comentador da SIC Notícias e todos os outros que achavam Bush arrogante deveriam convencer-se que, se calhar, acham é arrogantes os americanos todos.
Nunca vi nenhum tique de arrogância em George W. Bush. (As acusações de "arrogante", por parte do americano médio, caíam sempre sobre os rivais democratas, primeiro Gore e depois Kerry, que manifestamente não tinham paciência para aturar um rival daquele calibre intelectual.) Nem mesmo no seu momento de despedida. Bush é um homem genuíno. Genuinamente estúpido, mas genuíno. O comentador da SIC Notícias e todos os outros que achavam Bush arrogante deveriam convencer-se que, se calhar, acham é arrogantes os americanos todos.
2009/01/19
As discussões no Jugular
Refiro-me à troca de textos entre o Vasco Barreto, a Palmira Silva e o João Galamba. A discussão, sobre uma suposta "religiosidade recauchutada" associada à ciência, tem sido do melhor que se tem lido nestes dias. Destaco sobretudo os textos
Uma discussão imperdível. Parabéns aos seus intervenientes.
e os respectivos comentários. Tomo a liberdade de transcrever aqui um, da autoria do conhecido comentador viana (como resposta ao João Galamba, de quem são as citações):
"Se por religiosos entendermos aquelas pessoas que acham que existe uma ordem natural das coisas — uma realidade objectiva, uma verdade que a que o homem se deve submeter — então a demanda 'existencial' da ciência não passa de religião recauchutada"
Há aqui uma grave incompreensão do que é e o que pretende a Ciência. Todos acreditamos. Constantemente. Em particular, que existe uma ordem ou causalidade inerente à realidade. Era impossível funcionarmos se não fosse assim. Acreditamos que o Sol vai nascer amanhã, que o chão não vai desaparecer debaixo dos meus pés quando der o próximo passo, que se não me desviar daquele carro que vem na minha direcção sou atropelado. O João acredita, espero, nisto tudo. Quer queria quer não acredita na existência de causalidade numa realidade ("objectiva", fisicamente percepcionada) que o circunda. Se reduzirmos a religiosidade a uma mera crença numa ordem natural, numa realidade "objectiva", na existência de explicações causais, então somos todos religiosos (inclusivé os cientistas, e não apenas porque acreditam na causalidade). Até os animais seriam religiosos (pois ajem como tal). Portanto, ser religioso não é apenas o que o João afirma. A diferença essencial, na minha opinião, é que alguém religioso acredita sem sustentação empírica. Poderia ser ainda mais restritivo: é religioso em particular quem age com base em crenças (sem sustentação empírica) relacionadas através dum sistema (segundo esta definição, por exemplo quem acredita numa entidade divina, mas nada faz como resultado dessa crença - ex não reza, e não tem qualquer outro tipo de crença associada - ex que há um profeta, não é religioso).
A Ciência, pelo contrário, pretende encontrar sustentação empírica para todas as "crenças" que constituem o "conhecimento científico." É uma diferença radical. Mas a razão de ser da Ciência e da Religião é a mesma: explicar a realidade. A sobreposição da Ciência e da Religião, quanto à motivação, é óbvia quando olhamos para as religiões mais primitivas, do tipo animista. Mas à medida que a explicação empírica da realidade foi ganhando consistência, a religião foi recuando cada vez mais. Com Copérnico, Newton, Darwin, Freud, Einstein...
"No fundo, pretende simplesmente encontrar algo que nos diga como o mundo é, aliviando-nos da responsabilidade de existir."
Nada na Ciência é desresponsabilizante. Pelo contrário, com informação, conhecimento, vem responsabilidade. Se nada sei, nada posso fazer com objectivo, e portanto posso ser completamente irresponsável. "Não sabia que a ponte que desenhei podia cair, portanto não sou responsável. Não sabia que expôr uma criança a filmes violentos era para ela traumático, por isso não sou responsável." Nada na Ciência induz à inacção, ou alivia. Copérnico, Darwin, Freud, Einstein, induziram e induzem muita angústia existencial. Não me parece assim que o conhecimento científico alivie de algo modo a responsabilidade de existir.
"Isto não pretende desvalorizar a biologia, mas apenas rejeitar a utilidade de um entendimento naturalistico do homem. Por outras palavras: defendo a irredutibilidade da cultura à natureza."
A discussão do "nurture vs. nature", que vem no esteio da ascensão da sociobiologia, é velha e estéril. A maior parte dos cientistas (biólogos, psicólogos, sociólogos) e filósofos envolvidos aceita hoje que quer a biologia quer a cultura participam na construção do que qualquer ser humano é. Rejeitar a influência da biologia na cultura contradiz o que é óbvio, e portanto de certo modo equivale a uma crença religiosa (experimente substituir "defendo a" por "creio na").
"Se quiseres, a pretensão da ciência em transformar-se em cientismo (em algo que desacredita a verdade da religião) é, por muito que o negue, uma nova forma de teologia."
A Ciência não tem essa pretensão, e apenas indirectamente desacredita a religião, pois não é esse o seu objectivo. O que acontece é que a Ciência progressivamente tem vindo a disponibilizar explicações alternativas às da religião, as quais "fazem mais sentido" para o ser humano comum (porque baseadas em constatações empíricas). E portanto este necessita cada vez menos da religião para compreender a realidade que o circunda.
Uma discussão imperdível. Parabéns aos seus intervenientes.
2009/01/16
Acabou o SEXTA
Confirma-se: a publicação do semanário gratuito SEXTA foi suspensa. De acordo com as informações oficiais, o semanário não resistiu à crise económica e ao desinvestimento no mercado publicitário. Quando surgiu era o melhor gratuito, algo a que ser também publicado como suplemento do PÚBLICO não seria alheio. Mas para o fim a quebra de qualidade era evidente (depois do verão deixou mesmo de ser distribuído com o PÚBLICO e A BOLA). Vou ter saudades do SEXTA original, um suplemento bem feito e informativo. Vou ter saudades de ler o João Palma, meu camarada na redacção do PÚBLICO durante o meu estágio como jornalista científico. Alguém pode dizer-me onde posso continuar a ler o João Palma?
Jovem português desaparecido
O Afonso Tiago desapareceu em Berlim, sexta-feira passada. A notícia já está nos jornais e nos blogues. Se alguém tiver quaisquer informações sobre o Afonso Tiago informe os autores deste blogue, expressamente criado para o efeito. Mesmo que não tenha informações, pode ajudar divulgando este pedido.
2009/01/15
"A guerra contra Gaza já estava na agenda"
Artigo de José Goulão no Le Monde Diplomatique
Para entender o que está a passar-se actualmente em Gaza é necessária muito mais informação do que a proporcionada pela chusma de comentadores instantâneos que invadem as rádios e televisões e pelos enviados ou residentes que, não conseguindo entrar na faixa invadida, se conformam em ser veículos bisonhos, acomodados e passivos da realidade fabricada no Estado-Maior israelita. Ao menos podiam dar conta de episódios das importantes manifestações internas israelitas contra a guerra, mas parece que isso poderia parecer uma perigosa dissonância. É natural concluir-se que, tal como a agressão militar tem vido a ser preparada há mais de seis meses, também a correspondente acção de propaganda foi montada durante o mesmo período.
A primeira vez que estive em Gaza foi em Fevereiro de 1988. A primeira Intifada começara pouco mais de dois meses antes precisamente naquele território ocupado, com uma dinâmica e persistência que surpreendeu a própria Resistência Nacional Palestiniana dirigida pela Organização de Libertação da Palestina (OLP).
Nessa altura o Hamas não era mais do que um grupinho fundamentalista inspirado nos Irmãos Muçulmanos, organização fundada no Egipto em 1928, que se dedicava a agitação religiosa e alguma assistência social. Em 1988, porém, o Hamas foi ganhando fôlego, pretendendo distinguir-se pela chama revolucionária, decretando greves gerais e acções de resistência próprias que nunca convergiam com as desencadeadas pelas direcções da Intifada e da OLP. O Hamas actuava, visivelmente, como uma organização divisionista, potencialmente perturbadora da mobilização popular.
Hoje, apesar de o pudor ou o desconhecimento impedirem comentadores e enviados ou residentes de se debruçarem sobre tal facto, já não é novidade que os serviços secretos israelitas, a Mossad, tiveram um papel determinante no relançamento e engrandecimento do Hamas. Tal foi reconhecido mesmo por ex-ministros israelitas e está profusamente demonstrado por informação disponível na Internet. Nem dá muito trabalho.
Essa foi a génese do Hamas que hoje conhecemos. Como atingiu as dimensões actuais? Sempre à sombra da guerra e do boicote aos processos de negociações conduzido pelos governos de Israel e as administrações norte-americanas - primeiro mediadoras do processo de Oslo e depois as cabeças de cartaz do falecido Quarteto (Estados Unidos, Rússia, União Europeia e Nações Unidas), que já nascera moribundo.
Quando se iniciou a Autonomia Palestiniana como processo transitório para um Estado independente e Yasser Arafat regressou à Palestina, no Verão de 1994, a voz do Hamas mal se ouvia. As populações palestinianas dos territórios estavam em festa e acreditavam no bom desfecho de todo o processo.
Shimon Peres, Benjamin Netanyahu, Ehud Barak, Ariel Sharon e Ehud Olmert, mais Bill Clinton e, sobretudo, George W. Bush foram inviabilizando paulatinamente as negociações israelo-palestinianas, assumissem as formas que assumissem, enquanto a Fatah (força dominante da OLP) e a Autoridade Palestiniana se foram enrodilhando na falta de alternativas estratégicas às negociações.
Essas foram assumidas pelo Hamas, que capitalizou gradualmente o descontentamento popular, mesmo de vastos sectores não religiosos ou religiosos não radicais, até se transformar na maior organização da Resistência e ganhar as eleições gerais palestinianas de 2006. O não reconhecimento do governo do Hamas pelos Estados Unidos, Israel e o mundo em geral - nem mesmo em aliança com a Fatah - poupou o movimento islâmico ao desgaste do exercício do poder e de ser forçado a actuar no terreno em vez de privilegiar a propaganda nas mesquitas e a mobilização paramilitar.
Quando a Fatah e o Hamas chegaram ao limiar da guerra civil, em 2007, o grupo islâmico assumiu o controlo de Gaza, enquanto Israel aproveitava a ocasião para impor um rigoroso bloqueio humano e de bens essenciais ao território. Em fase de plena construção do muro que fracciona a Cisjordânia em autênticos bantustões, a balcanização dos territórios palestinianos aprofundou-se.
A tomada de Gaza pelo Hamas terá surpreendido o mundo, mas não os dirigentes de Israel. Basta conhecer o Plano Dagan.
Meir Dagan é o chefe da Mossad, reconduzido por sucessivos governos israelitas desde o início do século. Ele idealizou uma estratégia de actuação que se tornou a cartilha de Ariel Sharon praticamente desde que este ressurgiu em força com a mediática invasão da Esplanada das Mesquitas em 2000, tolerada pelo então chefe do governo, Ehud Barak (o ministro que agora conduz a agressão a Gaza), e que inviabilizou a possibilidade iminente de palestinianos e israelitas se entenderem nas negociações de Taba, no Egipto.
Percorramos, em síntese, alguns passos previstos no Plano Dagan. A operação «Vingança Justificada» tinha como objectivo enfraquecer, tornar maleável ou mesmo destruir a Autoridade Palestiniana. Sahul Mofaz, enquanto ministro da Defesa, apresentou-a com o título «A destruição da Autoridade Palestiniana e o desarmamento de todas as forças armadas». Isso, contudo, não impediu Israel e os Estados Unidos de fornecerem armas à Fatah na fase em que incentivavam a guerra civil entre os dois principais movimentos palestinianos. Entretanto, Israel exige agora o desarmamento do Hamas como pressuposto para um cessar-fogo.
Outro ponto do Plano Dagan era o desaparecimento de cena de Yasser Arafat (um velho objectivo de Sharon desde a invasão do Líbano em 1980) e a sua substituição por uma direcção da Autoridade Palestiniana mais colaborante com Israel. Um objectivo como este mantém acesa a tese do assassínio do histórico dirigente palestiniano. A balcanização dos territórios palestinianos, o lançamento de vagas de terror contra as populações e o bloqueio de Gaza são outros aspectos do plano. Sem esquecer que, quando estava prestes a ser acordada a trégua de meados de 2008 em Gaza, Ehud Barak notificou as Forças Armadas para prepararem uma operação de grande envergadura contra este território para desencadear daí a alguns meses. Lendo o Plano Dagan não é de descartar que em alguma fase deste processo Israel abra uma «válvula de escape» em Gaza para que haja uma fuga em massa - limpeza étnica é a expressão correcta -, eventualmente para a Jordânia, atendendo ao comportamento actual do Egipto. Neste contexto é natural que venham à memória as conhecidas palavras de Ariel Sharon: «Não é necessário criar outro Estado palestiniano. A Jordânia é a Palestina».
Para entender o que está a passar-se actualmente em Gaza é necessária muito mais informação do que a proporcionada pela chusma de comentadores instantâneos que invadem as rádios e televisões e pelos enviados ou residentes que, não conseguindo entrar na faixa invadida, se conformam em ser veículos bisonhos, acomodados e passivos da realidade fabricada no Estado-Maior israelita. Ao menos podiam dar conta de episódios das importantes manifestações internas israelitas contra a guerra, mas parece que isso poderia parecer uma perigosa dissonância. É natural concluir-se que, tal como a agressão militar tem vido a ser preparada há mais de seis meses, também a correspondente acção de propaganda foi montada durante o mesmo período.
A primeira vez que estive em Gaza foi em Fevereiro de 1988. A primeira Intifada começara pouco mais de dois meses antes precisamente naquele território ocupado, com uma dinâmica e persistência que surpreendeu a própria Resistência Nacional Palestiniana dirigida pela Organização de Libertação da Palestina (OLP).
Nessa altura o Hamas não era mais do que um grupinho fundamentalista inspirado nos Irmãos Muçulmanos, organização fundada no Egipto em 1928, que se dedicava a agitação religiosa e alguma assistência social. Em 1988, porém, o Hamas foi ganhando fôlego, pretendendo distinguir-se pela chama revolucionária, decretando greves gerais e acções de resistência próprias que nunca convergiam com as desencadeadas pelas direcções da Intifada e da OLP. O Hamas actuava, visivelmente, como uma organização divisionista, potencialmente perturbadora da mobilização popular.
Hoje, apesar de o pudor ou o desconhecimento impedirem comentadores e enviados ou residentes de se debruçarem sobre tal facto, já não é novidade que os serviços secretos israelitas, a Mossad, tiveram um papel determinante no relançamento e engrandecimento do Hamas. Tal foi reconhecido mesmo por ex-ministros israelitas e está profusamente demonstrado por informação disponível na Internet. Nem dá muito trabalho.
Essa foi a génese do Hamas que hoje conhecemos. Como atingiu as dimensões actuais? Sempre à sombra da guerra e do boicote aos processos de negociações conduzido pelos governos de Israel e as administrações norte-americanas - primeiro mediadoras do processo de Oslo e depois as cabeças de cartaz do falecido Quarteto (Estados Unidos, Rússia, União Europeia e Nações Unidas), que já nascera moribundo.
Quando se iniciou a Autonomia Palestiniana como processo transitório para um Estado independente e Yasser Arafat regressou à Palestina, no Verão de 1994, a voz do Hamas mal se ouvia. As populações palestinianas dos territórios estavam em festa e acreditavam no bom desfecho de todo o processo.
Shimon Peres, Benjamin Netanyahu, Ehud Barak, Ariel Sharon e Ehud Olmert, mais Bill Clinton e, sobretudo, George W. Bush foram inviabilizando paulatinamente as negociações israelo-palestinianas, assumissem as formas que assumissem, enquanto a Fatah (força dominante da OLP) e a Autoridade Palestiniana se foram enrodilhando na falta de alternativas estratégicas às negociações.
Essas foram assumidas pelo Hamas, que capitalizou gradualmente o descontentamento popular, mesmo de vastos sectores não religiosos ou religiosos não radicais, até se transformar na maior organização da Resistência e ganhar as eleições gerais palestinianas de 2006. O não reconhecimento do governo do Hamas pelos Estados Unidos, Israel e o mundo em geral - nem mesmo em aliança com a Fatah - poupou o movimento islâmico ao desgaste do exercício do poder e de ser forçado a actuar no terreno em vez de privilegiar a propaganda nas mesquitas e a mobilização paramilitar.
Quando a Fatah e o Hamas chegaram ao limiar da guerra civil, em 2007, o grupo islâmico assumiu o controlo de Gaza, enquanto Israel aproveitava a ocasião para impor um rigoroso bloqueio humano e de bens essenciais ao território. Em fase de plena construção do muro que fracciona a Cisjordânia em autênticos bantustões, a balcanização dos territórios palestinianos aprofundou-se.
A tomada de Gaza pelo Hamas terá surpreendido o mundo, mas não os dirigentes de Israel. Basta conhecer o Plano Dagan.
Meir Dagan é o chefe da Mossad, reconduzido por sucessivos governos israelitas desde o início do século. Ele idealizou uma estratégia de actuação que se tornou a cartilha de Ariel Sharon praticamente desde que este ressurgiu em força com a mediática invasão da Esplanada das Mesquitas em 2000, tolerada pelo então chefe do governo, Ehud Barak (o ministro que agora conduz a agressão a Gaza), e que inviabilizou a possibilidade iminente de palestinianos e israelitas se entenderem nas negociações de Taba, no Egipto.
Percorramos, em síntese, alguns passos previstos no Plano Dagan. A operação «Vingança Justificada» tinha como objectivo enfraquecer, tornar maleável ou mesmo destruir a Autoridade Palestiniana. Sahul Mofaz, enquanto ministro da Defesa, apresentou-a com o título «A destruição da Autoridade Palestiniana e o desarmamento de todas as forças armadas». Isso, contudo, não impediu Israel e os Estados Unidos de fornecerem armas à Fatah na fase em que incentivavam a guerra civil entre os dois principais movimentos palestinianos. Entretanto, Israel exige agora o desarmamento do Hamas como pressuposto para um cessar-fogo.
Outro ponto do Plano Dagan era o desaparecimento de cena de Yasser Arafat (um velho objectivo de Sharon desde a invasão do Líbano em 1980) e a sua substituição por uma direcção da Autoridade Palestiniana mais colaborante com Israel. Um objectivo como este mantém acesa a tese do assassínio do histórico dirigente palestiniano. A balcanização dos territórios palestinianos, o lançamento de vagas de terror contra as populações e o bloqueio de Gaza são outros aspectos do plano. Sem esquecer que, quando estava prestes a ser acordada a trégua de meados de 2008 em Gaza, Ehud Barak notificou as Forças Armadas para prepararem uma operação de grande envergadura contra este território para desencadear daí a alguns meses. Lendo o Plano Dagan não é de descartar que em alguma fase deste processo Israel abra uma «válvula de escape» em Gaza para que haja uma fuga em massa - limpeza étnica é a expressão correcta -, eventualmente para a Jordânia, atendendo ao comportamento actual do Egipto. Neste contexto é natural que venham à memória as conhecidas palavras de Ariel Sharon: «Não é necessário criar outro Estado palestiniano. A Jordânia é a Palestina».
2009/01/14
O senhor que se segue?
Depois do anúncio da retirada de Filipe Soares Franco, começa a interrogação sobre quem será candidato à sua sucessão. Um cenário de pesadelo seria um duelo Rogério Alves - Sérgio Abrantes Mendes, como era de prever e foi anunciado como rumor na comunicação social. Felizmente, tal ideia parece estar a ser afastada...
2009/01/12
Não há «israelitas» nem «palestinianos»
Artigo de António Vilarigues no Público de 9 de Janeiro. Tomo a liberdade de o reproduzir aqui, pois considero que sumariza muito bem tudo o que está em questão no conflito israelo-palestiniano.
Em 1947, a ONU aprova um plano de partilha da Palestina em dois estados: um judaico, com um milhão de habitantes, 510 mil dos quais árabes; um árabe, com 814 mil habitantes, 10 mil dos quais judeus.
Jerusalém, cidade santa para três religiões, ficaria com estatuto de cidade internacional. Segundo as estimativas da época, a população árabe da Palestina era de um milhão e 300 mil pessoas e a judaica rondava o meio milhão.
A 15 de Maio de 1948, David Ben Gurion proclama o nascimento do Estado de Israel. Com uma fronteira radicalmente diferente da aprovada pela ONU. Com um território um terço superior ao acordado. A "Grande Israel" estava em marcha. O Estado Palestiniano era um nado-morto. Até hoje!
No seguimento destes acontecimentos, a ONU aprova, em 1949, a Resolução 194, que decide permitir aos refugiados que o desejem o regresso às suas casas com direito a compensações pela destruição dos seus bens. Só que em 1948, David Ben Gurion, então primeiro-ministro, declarou: "Devemos impedir o seu regresso a qualquer preço". Hoje são mais de três milhões.
Na sequência da Guerra dos Seis Dias, em 1967, Israel ocupa o resto da Palestina (Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém-Leste). Ao arrepio da Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU, nesse mesmo Verão a colonização dos territórios ocupados começa com a construção de novos colonatos. Lucidamente, David Ben Gurion defende a não colonização, prevendo as consequências da transformação do seu país em potência ocupante. Hoje existem mais de 200 mil colonos instalados em colonatos nos territórios ocupados.
Esta é a raiz real e profunda do conflito. Só com a retirada do exército israelita para as posições anteriores às ocupações de 1967 e a destruição do muro; só com o desmantelamento de todo o sistema de colonatos israelitas; só com o fim do cerco a Gaza; só com a solução da questão dos refugiados palestinianos de acordo com as resoluções da ONU, só com o reconhecimento do direito do povo palestiniano à edificação do seu Estado, livre, independente e viável com capital em Jerusalém Leste, lado a lado com Israel; só verificadas todas estas condições é que poderemos falar de uma real paz justa e duradoura na região.
Em Israel e no campo palestiniano todos os intervenientes políticos o sabem. Dos dois lados há quem lute consequentemente por esta solução. Dos dois lados há quem a procure destruir e inviabilizar.
A chamada comunidade internacional omite que, quer na sociedade israelita, quer na sociedade palestiniana, há forças sociais e políticas bem diferenciadas. Esconde que há radicais dos dois lados da barricada. E moderados. E forças consequentes. Fala do terrorismo palestiniano, que é real. Mas aceita de bom grado chefes de Governo terroristas (Begin, Shamir, Sharon) que afirmam alto e bom som que primeiro há que matá-los (os palestinianos) para só depois negociar. Que proclamam que a Palestina é a Jordânia. Aceita governos de Israel onde participam partidos, com vários ministérios, que, em palavras e actos, negam TODOS os direitos aos palestinianos.
Há quem seja incapaz de ver os acontecimentos de forma diferente da redutora divisão entre bons de um lado e maus de outro. Felizmente há outros exemplos. Como o professor Richard Falk, relator especial do Conselho dos Direitos Humanos da ONU. Como Daniel Barenboim e Mariam Said, os promotores da paz através da música. Como o PC de Israel e a Frente Democrática para a Paz e a Igualdade que nestes dias se reuniram em Ramalah com representantes de facções da esquerda palestiniana, incluindo a Frente Democrática para Libertação da Palestina, a Frente Popular para a Libertação da Palestina e o Partido do Povo Palestino (comunistas). Como os militares que se recusam a disparar e a bombardear a Palestina. Como tantos e tantos outros que em Israel e na Palestina defendem um processo de paz genuíno. O trágico, dizem, é que isto é possível. Só é preciso querer.
2009/01/09
Está a nevar!
A neve cai e acumula-se. Vi-a logo de manhã, em casa. Vejo-a do gabinete. Cada vez mais intensa.
Nunca tinha visto neve a cair em Portugal. Foi preciso vir para Braga.
Até me sinto num país desenvolvido.
Nunca tinha visto neve a cair em Portugal. Foi preciso vir para Braga.
Até me sinto num país desenvolvido.
2009/01/08
Novos blogues (1)
Pacheco Pereira sentenciou: o delito de opinião existe em Portugal. Alguns dos seus maiores fãs e mais fiéis seguidores, como o Pedro Correia, o Adolfo Mesquita Nunes e outra gente boa, decidiram dar razão ao mestre, criando... o Delito de Opinião. Boa sorte à equipa e boas postagens.
Outros blogues não tão novos mas que descobri recentemente são o Em Órbita, do Nuno Pinho, e o A Pente Fino, um blogue com um conceito original e cuja leitura recomendo a todos os jornalistas.
Outros blogues não tão novos mas que descobri recentemente são o Em Órbita, do Nuno Pinho, e o A Pente Fino, um blogue com um conceito original e cuja leitura recomendo a todos os jornalistas.
2009/01/07
A arte e os seus críticos; a ciência e os seus inimigos
Não quero manter aberto este tema por muito tempo: para mim, o Cinco Dias é página virada. Tenho pena de ter saído (gosto muito de alguns dos blógueres que fazem o Cinco Dias), mas apesar de não simpatizar com corporativismos não poderia continuar num blogue onde um indivíduo inclassificável faz um ataque a uma classe e se julga no direito de designar e distinguir "verdadeiros cientistas" de supostos "empregados da ciência". Se eu for "empregado da ciência", sê-lo-ei com muita honra; espero que Carlos Vidal, assistente da Faculdade de Belas Artes, seja pelo menos um digno empregado da arte. Não tenho a certeza. Entretanto faço notar as questões pertinentes colocadas por Sérgio Lavos e agradeço as palavras simpáticas.
2009/01/06
"Afinal o amor pode durar para sempre"
Não é todos os dias que encontro referências à universidade onde me doutorei nos jornais portugueses. E que pensará o João Galamba deste tipo de estudos?
2009/01/05
"Se a Europa se cala, que falem os europeus!"
2009/01/02
Resolução de Ano Novo
Carlos Vidal não tem aquele dom tipicamente bushista (e de que eu tanto gosto) da transparência – “I mean what I say and I say what I mean”, como diria a desbocada matriarca Barbara (ou pelo menos a sua caricatura do Conan O’Brien). Vidal brindou-nos durante uma ou duas semanas com textos sobre a temática da arte “que não é para toda a gente”. Apontei algumas contradições nesses textos, mas escapou-me na altura a mais óbvia: dizer que algo não deve ser acessível a todos é a melhor maneira de despertar curiosidade sobre esse algo. É um recurso do artista que nos quer provocar. No fundo, o homem só quer que a gente ligue alguma coisa ao que ele escreve, e fica nitidamente nervoso se não lhe prestam a atenção de que se julga merecedor: recorde-se por exemplo até que ponto ele chegou só porque o Daniel Oliveira não lhe respondeu a um comentário no blogue.
A melhor coisa a fazer seria portanto o contrário daquilo que ele tão enfaticamente me pede, apesar de ser o contrário do que quer (estão a ver onde entra a cena dos Bush?): justamente, não lhe ligar nenhuma. Tentar não dar por ele. Passar por cima dos seus textos. No fundo, fazer como se ele não existisse.
Só que tal seria difícil (dado o estilo espalhafatoso do autor, cheio de imagens, negritos e maiúsculas, e a sua linguagem assumidamente populista). E mesmo que fosse fácil seria absurdo. Porquê? Simples: é evidente que quando lemos um blogue colectivo deve haver uma certa identidade entre os seus elementos. Aliás, o blogue deve ter uma identidade como um todo. Caso contrário, não faz sentido que as pessoas se juntem para escrever.
É claro que os membros de blogues colectivos não devem concordar em tudo entre si, e podem (e devem) debater, e mesmo polemizar. Mesmo assim creio que devem ter algo em comum. Era assim que eu concebia o Cinco Dias: um colectivo de pessoas de esquerda, de tendências diferentes, que fossem capazes de debater entre si. E é naqueles dois aspectos que surgem os meus problemas com Carlos Vidal. Para começar, há muito pouco que eu possa a dizer que tenho em comum com o senhor. Qualquer leitor do Cinco Dias poderá aferir isso, das divergências que temos tido e têm sido manifestas. Dos seus textos, os únicos com que posso dizer que estou minimamente de acordo são os recentes sobre o conflito israelo-palestiniano. É muito pouco como denominador comum para escrevermos no mesmo blogue, a menos que fosse um blogue exclusivamente sobre este conflito. Mas o principal problema tem a ver com o outro aspecto: a capacidade de debater. E creio não ser injusto ao verificar que essa capacidade em Vidal é praticamente inexistente. Tirando dois ou três louvaminheiros, Vidal não é capaz de ter uma conversa com um comentador sem lhe colar rótulos políticos, ameaçar censurar (por opiniões “impróprias”) ou mesmo insultar. Os insultos ocorrem principalmente quando Vidal faz a sua jogada preferida, que já deve ser conhecida de todos: foge do assunto em debate e desvia-o para a sua área de eleição (a arte). Mesmo que ninguém tenha falado, mesmo que ninguém queira falar de arte, Vidal faz questão de responder a todos os debates como se debates de arte se tratassem, para os assuntos que ele domina, para então poder fazer o que melhor sabe: aplicar “argumentos” de autoridade (que não são argumentos nenhuns) e chamar ignorantes aos seus interlocutores. Foi assim quando escrevi um texto sobre Manoel de Oliveira, um texto que não era de forma nenhuma destinado a Vidal e onde eu exprimia a minha perspectiva de amador perante a obra do cineasta (um direito inalienável que qualquer espectador tem). Vidal quis ver naquele texto uma crítica cinematográfica (algo que não era nem nunca pretendeu ser) e respondeu com a famosa série “a arte não deve estar acessível a todos”.
Um exemplo mais recente passou-se na reacção a este texto da Palmira Silva. O texto original não tem absolutamente nada a ver com arte mas que foi logo atacado nos comentários por Vidal como se tivesse (leiam e confirmem). Nos exemplares comentários de Vidal (que Sokal gostaria de ler) podem ler-se afirmações deliciosas como “Quando estou por Londres ou Paris, o que se lê é Deleuze, Foucault, Derrida e não Sokal. Pelos vistos, Sokal, agora inesperadamente desenterrado (vá lá saber-se porquê) não existe em lado nenhum.” Ou “Sokal, ele está esquecido e Lacan ou Deleuze ou Derrida são dos autores mais importantes em qualquer ramo de estudos nos Estados Unidos e ocupam mais de metade das estantes de filosofia entre Londres e Nova Iorque, etc, etc. Felizmente, sinal de inteligência. Sokal, zero. O obtuso já desapareceu. Finito. ZERO !!”
Recorde-se que quem escreveu isto (ou, noutra parte, “Fico a saber que de arte e estética contemporânea nada sabem. (…) Passem pelo Prado e vejam o Rembrandt, que é o que deveriam fazer para respeitarem os outros e aquilo que não sabem. Ou comecem pelo Giotto, já agora. (…) Vão-se lixar com o vosso Sokal”) insurgia-se contra a arte “popular” e os artistas que são apreciados por multidões mas que não deveriam ser para todos (mas pelos vistos a popularidade já serve se for para avaliar “os livros que se lêem” em Paris ou Londres ou Nova Iorque). Mas o mais engraçado é a forma deste artista avaliar um cientista: para Vidal, a forma de um cientista provar que está vivo será não escrever artigos, dar palestras e ser citado pelos seus pares (algo que Sokal continua a fazer muito bem), mas vender uns livros que sejam discutidos em círculos filosóficos! (Para governo de Carlos Vidal o caso Sokal continua bem vivo e tem tido novos desenvolvimentos – ver a cronologia completa aqui.)
A questão abordada pela Palmira neste texto – o combate ao obscurantismo resultante do relativismo pós-moderno - é para mim de extrema importância. É que não é só nos mercados financeiros especulativos que há fraudes. Neste caso trata-se de uma denúncia de fraudes intelectuais. Para mim este é um combate político absolutamente prioritário, e é-me difícil partilhar um blogue com quem a ele se oponha, principalmente da forma tão veemente como Vidal o faz. Para além de, em termos estritamente pessoais (e profissionais), ser-me difícil partilhar um blogue com quem julga – escreveu-o duas vezes, aqui e no Jugular – que “Badiou, como Cavaillés, Albert Lautman (…), são filósofos matemáticos (alguns só matemáticos) que sabem mais - tecnicamente - de matemática que todos os matemáticos cá do burgo juntos.” (Paul Cohen já é outro nível, mas desse não falou Sokal.) Há limites mínimos de respeito; quando não existem por parte do nosso interlocutor, não adianta manter uma discussão. Para além de que em matemática, e em ciência em geral, não estamos habituados a esse tipo de “argumentos” de autoridade. Pelo menos a avaliar por Vidal, esta é uma diferença fundamental entre ciência e arte. Dito isto, é claro que esta opinião é risível, e muita gente se vai rir dela. Como já disse várias vezes, visto de fora Carlos Vidal é muito cómico. Quem não o consegue ver de fora… deve sair.
Para que fique bem claro, e em resumo: o meu problema com Carlos Vidal nem são propriamente as suas posições (políticas e não só), apesar de eu discordar totalmente de grande parte delas. Não teria problemas com posições divergentes se Vidal as soubesse defender. O problema é que Vidal apresenta as suas posições num estilo populista sem nunca se preocupar em argumentar para as defender, e quando confrontado é nítido que não sabe debater (algo que – já o escrevi e reitero – é característico de muitos sectores do meio académico português: não é só Carlos Vidal). O meu problema com Vidal, bem mais do que de opiniões, é de estilo. Afinal o estilo sempre serve para alguma coisa!
Dito isto, e porque Carlos Vidal é membro do Cinco Dias, não estou disposto a continuar a pertencer a este colectivo. É uma decisão difícil, porque aqui encontro pessoas com quem é um prazer partilhar um blogue. Era isso que ainda me fazia hesitar. Ainda no passado fim de semana, após me ter encontrado com o Nuno Ramos de Almeida, não pensava tomar esta decisão. Digamos que a questão do Sokal me fez ver claramente que o equilíbrio que o Nuno nos pedia (a mim e ao Carlos Vidal) era instável e na prática impossível de alcançar, a menos que eu não escrevesse o que quisesse escrever (algo que nunca ninguém impediu ninguém no Cinco Dias) ou declarasse sistematicamente “para mim, o Vidal não existe”. Em ambos os casos é melhor sair. Deixo um abraço a todos os outros colegas de blogue e um especial ao Nuno, que me convidou e a quem serei sempre grato. Nuno, desculpa qualquer coisa mas, convenhamos, depois disto, se eu não saísse doentinho seria eu.
A melhor coisa a fazer seria portanto o contrário daquilo que ele tão enfaticamente me pede, apesar de ser o contrário do que quer (estão a ver onde entra a cena dos Bush?): justamente, não lhe ligar nenhuma. Tentar não dar por ele. Passar por cima dos seus textos. No fundo, fazer como se ele não existisse.
Só que tal seria difícil (dado o estilo espalhafatoso do autor, cheio de imagens, negritos e maiúsculas, e a sua linguagem assumidamente populista). E mesmo que fosse fácil seria absurdo. Porquê? Simples: é evidente que quando lemos um blogue colectivo deve haver uma certa identidade entre os seus elementos. Aliás, o blogue deve ter uma identidade como um todo. Caso contrário, não faz sentido que as pessoas se juntem para escrever.
É claro que os membros de blogues colectivos não devem concordar em tudo entre si, e podem (e devem) debater, e mesmo polemizar. Mesmo assim creio que devem ter algo em comum. Era assim que eu concebia o Cinco Dias: um colectivo de pessoas de esquerda, de tendências diferentes, que fossem capazes de debater entre si. E é naqueles dois aspectos que surgem os meus problemas com Carlos Vidal. Para começar, há muito pouco que eu possa a dizer que tenho em comum com o senhor. Qualquer leitor do Cinco Dias poderá aferir isso, das divergências que temos tido e têm sido manifestas. Dos seus textos, os únicos com que posso dizer que estou minimamente de acordo são os recentes sobre o conflito israelo-palestiniano. É muito pouco como denominador comum para escrevermos no mesmo blogue, a menos que fosse um blogue exclusivamente sobre este conflito. Mas o principal problema tem a ver com o outro aspecto: a capacidade de debater. E creio não ser injusto ao verificar que essa capacidade em Vidal é praticamente inexistente. Tirando dois ou três louvaminheiros, Vidal não é capaz de ter uma conversa com um comentador sem lhe colar rótulos políticos, ameaçar censurar (por opiniões “impróprias”) ou mesmo insultar. Os insultos ocorrem principalmente quando Vidal faz a sua jogada preferida, que já deve ser conhecida de todos: foge do assunto em debate e desvia-o para a sua área de eleição (a arte). Mesmo que ninguém tenha falado, mesmo que ninguém queira falar de arte, Vidal faz questão de responder a todos os debates como se debates de arte se tratassem, para os assuntos que ele domina, para então poder fazer o que melhor sabe: aplicar “argumentos” de autoridade (que não são argumentos nenhuns) e chamar ignorantes aos seus interlocutores. Foi assim quando escrevi um texto sobre Manoel de Oliveira, um texto que não era de forma nenhuma destinado a Vidal e onde eu exprimia a minha perspectiva de amador perante a obra do cineasta (um direito inalienável que qualquer espectador tem). Vidal quis ver naquele texto uma crítica cinematográfica (algo que não era nem nunca pretendeu ser) e respondeu com a famosa série “a arte não deve estar acessível a todos”.
Um exemplo mais recente passou-se na reacção a este texto da Palmira Silva. O texto original não tem absolutamente nada a ver com arte mas que foi logo atacado nos comentários por Vidal como se tivesse (leiam e confirmem). Nos exemplares comentários de Vidal (que Sokal gostaria de ler) podem ler-se afirmações deliciosas como “Quando estou por Londres ou Paris, o que se lê é Deleuze, Foucault, Derrida e não Sokal. Pelos vistos, Sokal, agora inesperadamente desenterrado (vá lá saber-se porquê) não existe em lado nenhum.” Ou “Sokal, ele está esquecido e Lacan ou Deleuze ou Derrida são dos autores mais importantes em qualquer ramo de estudos nos Estados Unidos e ocupam mais de metade das estantes de filosofia entre Londres e Nova Iorque, etc, etc. Felizmente, sinal de inteligência. Sokal, zero. O obtuso já desapareceu. Finito. ZERO !!”
Recorde-se que quem escreveu isto (ou, noutra parte, “Fico a saber que de arte e estética contemporânea nada sabem. (…) Passem pelo Prado e vejam o Rembrandt, que é o que deveriam fazer para respeitarem os outros e aquilo que não sabem. Ou comecem pelo Giotto, já agora. (…) Vão-se lixar com o vosso Sokal”) insurgia-se contra a arte “popular” e os artistas que são apreciados por multidões mas que não deveriam ser para todos (mas pelos vistos a popularidade já serve se for para avaliar “os livros que se lêem” em Paris ou Londres ou Nova Iorque). Mas o mais engraçado é a forma deste artista avaliar um cientista: para Vidal, a forma de um cientista provar que está vivo será não escrever artigos, dar palestras e ser citado pelos seus pares (algo que Sokal continua a fazer muito bem), mas vender uns livros que sejam discutidos em círculos filosóficos! (Para governo de Carlos Vidal o caso Sokal continua bem vivo e tem tido novos desenvolvimentos – ver a cronologia completa aqui.)
A questão abordada pela Palmira neste texto – o combate ao obscurantismo resultante do relativismo pós-moderno - é para mim de extrema importância. É que não é só nos mercados financeiros especulativos que há fraudes. Neste caso trata-se de uma denúncia de fraudes intelectuais. Para mim este é um combate político absolutamente prioritário, e é-me difícil partilhar um blogue com quem a ele se oponha, principalmente da forma tão veemente como Vidal o faz. Para além de, em termos estritamente pessoais (e profissionais), ser-me difícil partilhar um blogue com quem julga – escreveu-o duas vezes, aqui e no Jugular – que “Badiou, como Cavaillés, Albert Lautman (…), são filósofos matemáticos (alguns só matemáticos) que sabem mais - tecnicamente - de matemática que todos os matemáticos cá do burgo juntos.” (Paul Cohen já é outro nível, mas desse não falou Sokal.) Há limites mínimos de respeito; quando não existem por parte do nosso interlocutor, não adianta manter uma discussão. Para além de que em matemática, e em ciência em geral, não estamos habituados a esse tipo de “argumentos” de autoridade. Pelo menos a avaliar por Vidal, esta é uma diferença fundamental entre ciência e arte. Dito isto, é claro que esta opinião é risível, e muita gente se vai rir dela. Como já disse várias vezes, visto de fora Carlos Vidal é muito cómico. Quem não o consegue ver de fora… deve sair.
Para que fique bem claro, e em resumo: o meu problema com Carlos Vidal nem são propriamente as suas posições (políticas e não só), apesar de eu discordar totalmente de grande parte delas. Não teria problemas com posições divergentes se Vidal as soubesse defender. O problema é que Vidal apresenta as suas posições num estilo populista sem nunca se preocupar em argumentar para as defender, e quando confrontado é nítido que não sabe debater (algo que – já o escrevi e reitero – é característico de muitos sectores do meio académico português: não é só Carlos Vidal). O meu problema com Vidal, bem mais do que de opiniões, é de estilo. Afinal o estilo sempre serve para alguma coisa!
Dito isto, e porque Carlos Vidal é membro do Cinco Dias, não estou disposto a continuar a pertencer a este colectivo. É uma decisão difícil, porque aqui encontro pessoas com quem é um prazer partilhar um blogue. Era isso que ainda me fazia hesitar. Ainda no passado fim de semana, após me ter encontrado com o Nuno Ramos de Almeida, não pensava tomar esta decisão. Digamos que a questão do Sokal me fez ver claramente que o equilíbrio que o Nuno nos pedia (a mim e ao Carlos Vidal) era instável e na prática impossível de alcançar, a menos que eu não escrevesse o que quisesse escrever (algo que nunca ninguém impediu ninguém no Cinco Dias) ou declarasse sistematicamente “para mim, o Vidal não existe”. Em ambos os casos é melhor sair. Deixo um abraço a todos os outros colegas de blogue e um especial ao Nuno, que me convidou e a quem serei sempre grato. Nuno, desculpa qualquer coisa mas, convenhamos, depois disto, se eu não saísse doentinho seria eu.
2009/01/01
Y quiero que me perdonem por este dia los muertos de mi felicidad
Pequeña serenata diurna, Silvio Rodriguez e Chico Buarque, Cuba, 1983
2008/12/31
Bom 2009 para todos!
Aqui desejo aos leitores do Avesso do Avesso um excelente ano de 2009. Cá nos continuaremos a encontrar.
2008/12/30
Perguntas e Respostas sobre a última guerra israelo-palestiniana
Por Margarida Santos Lopes no Público. Vale a pena ler.
Quem começou as hostilidades?
A 4 de Novembro deste ano, Israel assassinou seis membros do Hamas, violando uma "tahdiyeh" ou trégua, que estabeleceu (mas nunca reconheceu publicamente) com o movimento islâmico, sob mediação egípcia, a 17 de Junho. O Hamas intensificou o lançamento de mísseis e morteiros sobre cidades israelitas – em sete anos, estes disparos mataram pelo menos 20 civis. Israel retaliou sujeitando a Faixa de Gaza a um duro bloqueio económico – com restrição de entrada de alimentos e medicamentos e cortes de combustível –, agravando uma situação humanitária que o Banco Mundial e ONG descreveram como "catastrófica". Khaled Meshaal, o chefe do Hamas exilado em Damasco, justificou a decisão de revogar a "tahdiyeh", a partir do dia 18 de Dezembro, invocando as execuções dos seus operacionais e o cerco a que Gaza está sujeita.
Porquê atacar agora?
Para alguns analistas, Israel quis aplicar um duro golpe ao Hamas, ainda quem sem a ambição de o eliminar, como tentou, mas fracassou, com o Hezbollah no Líbano, em 2006. Também quis, escreveu o jornal francês "Libération", mudar as regras do jogo antes de uma "desacreditada Administração Bush" sair de cena e Barack Obama entrar na Casa Branca. Decisivo foi também o facto de Israel estar em campanha eleitoral, e de as sondagens beneficiarem o líder da oposição direitista, Benjamin Netanyahu.
Que solução para o conflito?
Para Israel, dizem analistas, o pior cenário seria o Hezbollah, apoiado pela Síria e financiado pelo Irão, abrir uma "segunda frente" no Líbano. O movimento xiita terá cerca de 40 mil mísseis e provou, em 2006, que sabe resistir ao reputadamente "mais poderoso exército do Médio Oriente". Outro receio é o da eclosão de uma revolta popular na Cisjordânia, onde Mahmoud Abbas tem sido incapaz de obter significativas concessões de Israel: os colonatos continuam a expandir-se, as incursões militares prosseguem, os «checkpoints» não são desmantelados e 6000 prisioneiros permanecem nas cadeias. O cenário mais realista parece, assim, o de negociar uma nova trégua. (...) Conclui Yossi Alpher : "Israel vai ter de escolher se reconhece que o Hamas está para ficar e o aceita como interlocutor, por muito que isso seja intragável, ou se reocupa a Faixa de Gaza, derruba o Hamas e acarreta com todos os custos que isso envolverá."
2008/12/29
Leiria no tempo das Invasões Francesas
Encontra-se patente até ao fim deste ano na Casa-Museu João Soares (Fundação Mário Soares), nas Cortes, em Leiria, a interessantíssima exposição "Leiria no tempo das Invasões Francesas". A exposição é muito útil para perceber a decadência cultural e económica da Região Oeste, que começou nessa altura. Nenhuma região foi tão saqueada ou sofreu tanto nesse período (início do século XIX) como a região de Leiria. As "elites" de Leiria fugiram, abandonando as riquezas da região e a população mais pobre à sua sorte e à mercê do invasor. A região de Leiria desde então nunca mais recuperou o que tinha na altura, em população (houve muita gente que morreu e outra que nunca regressou), em poder, riqueza e influência. Ainda hoje quem lá vive, apesar da ostentação característica, lamenta não viver em Lisboa ou Coimbra. É uma pena. Mas nesta educativa exposição percebe-se porquê. Para quem se encontrar perto, é a não perder.
2008/12/26
A "Intifada judaica" e o "pogrom palestiniano"
Artigo de Margarida Santos Lopes no Público de 06.12.2008
Exército foi colocado em estado
de alerta total depois de ataques de colonos extremistas em Hebron, visando árabes e até soldados
Avi Issacharoff, colunista do diário hebraico Ha'aretz, não poupou ontem nas palavras para condenar as acções no dia anterior em Hebron, na Cisjordânia. "Uma família palestiniana inocente, num total de 20 pessoas. Todas mulheres e crianças, excepto três homens. A cercá-los, algumas dezenas de judeus encapuzados tentando linchá-los. É um pogrom. Isto não é uma brincadeira de palavras nem tem um duplo significado. É um pogrom no pior sentido da palavra."
"Primeiro, os homens mascarados incendiaram a lavandaria à entrada da casa e depois tentaram deitar fogo a um quarto. As mulheres gritaram por ajuda, Allahu Akhbar [Deus é grande]. No entanto, os vizinhos estavam demasiado assustados para se aproximarem, aterrorizados com os guardas armados de Kiryat Arba [um colonato nas imediações] que tinham isolado o imóvel. (...) Pouco mais de uma hora depois, chegou uma unidade das forças especiais de polícia para dispersar a multidão de homens mascarados. (...) Ao deixar a casa, um colono disse a um dos agentes: 'Nazis, tenham vergonha!'"
Issacharof é um respeitado jornalista, documentarista e autor do livro The Seventh War: How we won and how we lost the war with the Palestinians, escrito em parceria com Amos Arel, um dos maiores peritos em questões militares e de defesa de Israel - também ele colunista do Ha'aretz.
O jornal juntou a sua voz à de Issacharof ao escrever, em editorial, o que só o grande filósofo e cientista judeu Yeshayhu Leibovitz, que morreu em 1994, ousara antes dizer: "É difícil ignorar o modo como a política e a sociedade israelitas fecharam os olhos ao crescente terrorismo judaico."
"Esta semana, Israel chegou a um ponto de não retorno, que também determinará quem controla o Estado: o sistema de justiça e um Governo eleito democraticamente ou o terrorismo judaico. (...) O futuro do Estado sionista judaico está refém daqueles que rezam pela sua destruição. Nenhuma justificação moral, nem sequer a justa reivindicação moral de um lar nacional para o povo judeu, ficará de pé, dentro ou fora do país, perante a capitulação ao terror."
2008/12/23
00-zero
Depois do frustrante empate contra a Académica de sábado, estava longe de imaginar que afinal o atraso do Sporting para os primeiros não teria aumentado. Mas há uma diferença: alguma vez o Record faria, para o Benfica, uma capa como fez anteontem para o Sporting: "Campeões não podem perder pontos assim"?
A mão do Cardozo na bola ontem foi quase tão grande como a do Hélder Postiga no sábado.
A mão do Cardozo na bola ontem foi quase tão grande como a do Hélder Postiga no sábado.
2008/12/19
A nossa imprensa desportiva
2008/12/18
"PCP e BE vão perder pau e bola"
Muita gente se queixa da marginalização a que o Bloco de Esquerda e, sobretudo, o PCP são votados. De o PS não contar com estes partidos para parceiros de governo. Admitindo tal como verdadeiro, será que a culpa é mesmo do PS? Sobre este assunto, e a propósito do recente Fórum das Esquerdas, aqui fica a maior parte de um artigo certeiro de Raposo Antunes no Público de segunda feira.
Este aparente estado de graça que vivem o Bloco de Esquerda e o PCP - fruto da contestação social de que é alvo o Governo por falta de políticas de esquerda, mas, sobretudo, por parte das corporações (professores, médicos, magistrados, etc.) - pode ser, na verdade, uma faca de dois gumes.
Nem BE nem PCP dão sinais de poderem corporizar um apoio pós-eleitoral ao PS se este não atingir a maioria absoluta nas legislativas do próximo ano. A "ética" do PCP não permite esse hipotético acordo. Se o permitisse, seria seguramente mais fiável como parceiro do que o BE. Mas não pode. Ponto final.
O Bloco de Esquerda ainda não é seguramente um bloco - é antes uma soma de personalidades, umas mais afastadas do que outras da extrema-esquerda estalinista e trotskista que se exibiu no pós-25 de Abril. Há quem tenha vontade no BE de vir a ser parceiro do PS (o caso Sá Fernandes é exemplar), mas muitos preferem cultivar esse lado de esquerda alegre. Outros temem que o PCP possa explorar eleitoralmente no futuro a perda da marca irreverente do BE.
É por isso que nem o PCP nem o BE têm condições para vir a ser aliados dos socialistas. E se não o são agora, quando estão em alta, quando o serão? Provavelmente, nunca. E sabe-se como ser poder atrai ou repele imprevisivelmente os eleitores. Assim, não só o BE e o PCP podem estar votados a ficarem eternamente na margem do poder, como podem também estar a contribuir para encostar o PS aos sectores colocados à sua direita, cavando um fosso inultrapassável. Ou seja, bloquistas e comunistas perderiam pau e bola. Mesmo que Manuel Alegre se exponha a protagonizar mais algum papel ingrato.
2008/12/17
Isto diverte mas começa a ser cansativo
Nos meus textos e nos comentários (aos meus e aos do Carlos Vidal) eu disse não sei quantas vezes que não pretendo tornar a arte mais “fácil” ou mais acessível. Nesse sentido arte e ciência não são democráticas: não é qualquer um que pode começar a fazê-las. Sou totalmente contra os governos darem qualquer tipo de indicações aos investigadores ou aos artistas para seguirem linhas pré-determinadas. Sou investigador e isso afecta-me. A liberdade académica é fundamental. A arte, a ciência, tudo o que involva criação requer liberdade e não democracia (que como já disse várias vezes são coisas diferentes e por vezes incompatíveis). Não é isso que está em causa.
O que entendo por “democratizar a ciência” ou “democratizar a arte” é torná-las acessíveis aos cidadãos que por elas se interessarem, mesmo sem serem especialistas, sem nunca alterar o seu conteúdo. Por “tornar acessíveis” entendo fazer divulgação (algo que nem todos os cientistas ou artistas são obrigados ou vocacionados a fazer), ou em alternativa permitir que se faça divulgação desse mesmo trabalho para quem esteja interessado. Este público não é especialista e não deve ser tratado como tal. É até provavelmente à partida muito ignorante, mas é interessado e tem o direito de ver a sua curiosidade satisfeita.
No caso dos artistas, a divulgação mais imediata consiste na realização de exposições, abertas a todos os que as quiserem ver. Não há absolutamente nenhuma bitola diferente para as ciências e as artes. Defendo exactamente a mesma coisa. O que verifico é que os cientistas estão muito mais habituados a este procedimento. Certos artistas pelos vistos resistem. Não podem fazê-lo se receberem dinheiro do estado (enquanto artistas). Mas, repito, não defendo que o Estado interfira na sua liberdade e na sua criatividade de nenhum modo.
Tudo isto vem a propósito dos textos de Carlos Vidal. No mais recente, Carlos Vidal atribui-me entre outros qualificativos uma frase que nunca escrevi: “a função de qualquer artista [é] fazer com que as pessoas gostem um pouco mais de arte”.
O que eu escrevi (nos comentários) foi “Entendo que faz parte da minha função fazer com que as pessoas gostem mais um pouco de física. Tal como faz parte da função de qualquer artista fazer com que as pessoas gostem um pouco mais de arte.” “Faz parte” no sentido explicado nos parágrafos acima. E “faz parte” dessa função: nunca “é” essa função, unicamente (nem sequer principalmente). Mas quem é pago pelo Estado não se pode furtar a essa função.
A outra frase que Vidal me atribui até é verdadeira mas está descontextualizada. Escrevi “querer tornar a arte acessível a todos não implica necessariamente ter que fazer concessões”, exactamente no mesmo sentido em que (mais uma vez...) acima escrevi. “Acessível” nesta frase no sentido de “estar acessível” e não de “ser acessível”. São duas coisas muito diferentes (a língua portuguesa tem essa riqueza de distinguir o “ser” do “estar”). A minha tese resume-se na frase “a arte não tem que ser acessível, mas deve estar acessível”. Parece uma tese bastante óbvia mas pelos vistos não é para toda a gente. Carlos Vidal defendeu aqui que “Uma obra de arte não pode nem deve estar acessível a qualquer pessoa”. Para não deixar dúvidas, acrescentou: “a arte não pode ser para todos!” É contra esta posição que eu me tenho vindo a insurgir.
Carlos Vidal não entendeu (ou fingiu que não entendeu, por lhe dar jeito) a minha distinção entre “ser” e “estar” acessível, e tem-me vindo a responder (nos comentários e em texto) como se eu defendesse que a arte tem que “ser” acessível, algo que não defendo e nunca defendi. Não têm pois qualquer procedimento as respostas que me tem vindo a dar. Este tipo de confusões e desarticulação do pensamento não é novidade em Carlos Vidal, conforme os seus leitores poderão testemunhar.
Com que critério julga Vidal quem é ou não merecedor de conhecer as obras de arte? A sua iluminada cabecinha, pois com certeza. Vejamos o julgamento que faz de mim. Sem me conhecer de lado nenhum, nem o que eu sei nem deixo de saber, declara que “a ciência que eu sei” (e pelos vistos, se ele não me conhece, a ciência em geral) é “estrita, reduzida e muito especializada” (ficamos esclarecidos). Decide que, se eu me dedicasse só a ela, “todos teríamos a ganhar com isso”. (Devo agradecer o elogio? E se o Vidal se dedicasse só à arte?) E finalmente manda-me calar, algo que os leitores que fazem comentários simpáticos ao PS sabem que é o que Vidal melhor sabe fazer: “Quem não percebe isto porque é que não se cala e fala de física, só?? Custa muito ?????”
(Para não me acusarem de descontextualizar, esta frase vinha a propósito da “crítica de arte”, algo que nunca fiz nem tive alguma vez pretensões de fazer. Vidal confunde uma legítima opinião sobre um filme de um espectador com uma crítica profissional de cinema.)
Finalmente, Vidal proíbe a minha entrada nas suas exposições. Para que conste (sinto-me orgulhoso): “nunca admitirei a entrada de F. Moura numa galeria onde tenha obras minhas expostas. Isto é irrevogável, caríssimos.”
Curiosamente este mesmo autor que acha que a arte (em particular a sua arte, como referiu) “não é para todos” e me proibiu de a ver não se coibiria, dias depois, de exibir aqui, no Cinco Dias, desenhos de sua autoria.
Isto é comigo. E com outros leitores? De Carlos Miguel Fernandes, por exemplo, diz que a sua “arrogância reaccionária julga-se conhecedora de crítica”. Apesar de “não saber quem CMF é” nem “lhe interessar”, Vidal declara taxativamente que CMF “não poderá alguma vez ser” um “apaixonado sensível das imagens”. Pois acontece que Carlos Miguel Fernandes, para além de cientista, é um já reconhecido fotógrafo com um currículo considerável de exposições e obra publicada.
Assim se demonstra o belo resultado que teria a aplicação do critério que Vidal defende: quem teria acesso à arte seriam os “escolhidos”. Por quem? Por quem já tem acesso à arte. Os melhores não seriam necessariamente os escolhidos, como o exemplo do Carlos Miguel Fernandes confirma.
Infelizmente, este caso exemplar ilustra bem o estado bafiento de algumas universidades portuguesas. Carlos Vidal é assistente da Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Conforme aqui já tem defendido, só lá deve ter acesso quem tiver passado pela sua formação, pela sua “escola”, que consiste em “desigualdades académicas, disciplina, hierarquia e gajas”. Quando o interlocutor é alguém que nunca passou pela escola mas é famoso e reconhecido internacionalmente, como Jorge Calado, baixam logo a cabecinha. Quem não é conhecido, mesmo que tenha valor, como o Carlos Miguel Fernandes, é logo automaticamente barrado. Não é “da escola”, e não há escola como “a nossa”. Melhor retrato da academia tradicional portuguesa não há.
Com os insultos e delírios de Carlos Vidal posso eu bem, e julgo que o Carlos Miguel Fernandes também. Afinal, como eu já tenho dito, visto de fora isto até é divertido. Daqui de dentro começa é a ser cansativo. O problema (não é meu, mas não deixa de ser um problema) é que quem emite estes juízos baseados em puro preconceito é professor e – ele próprio o admite – aplica estes critérios aos seus alunos (e aos futuros colegas). E quer que se aplique a todos os cidadãos que ele entender.
Como resolver este problema? Não sei; no caso concreto do meio académico, o ministro Mariano Gago terá as suas ideias. Entretanto no Cinco Dias a gente vai-se rindo com o espectáculo.
O que entendo por “democratizar a ciência” ou “democratizar a arte” é torná-las acessíveis aos cidadãos que por elas se interessarem, mesmo sem serem especialistas, sem nunca alterar o seu conteúdo. Por “tornar acessíveis” entendo fazer divulgação (algo que nem todos os cientistas ou artistas são obrigados ou vocacionados a fazer), ou em alternativa permitir que se faça divulgação desse mesmo trabalho para quem esteja interessado. Este público não é especialista e não deve ser tratado como tal. É até provavelmente à partida muito ignorante, mas é interessado e tem o direito de ver a sua curiosidade satisfeita.
No caso dos artistas, a divulgação mais imediata consiste na realização de exposições, abertas a todos os que as quiserem ver. Não há absolutamente nenhuma bitola diferente para as ciências e as artes. Defendo exactamente a mesma coisa. O que verifico é que os cientistas estão muito mais habituados a este procedimento. Certos artistas pelos vistos resistem. Não podem fazê-lo se receberem dinheiro do estado (enquanto artistas). Mas, repito, não defendo que o Estado interfira na sua liberdade e na sua criatividade de nenhum modo.
Tudo isto vem a propósito dos textos de Carlos Vidal. No mais recente, Carlos Vidal atribui-me entre outros qualificativos uma frase que nunca escrevi: “a função de qualquer artista [é] fazer com que as pessoas gostem um pouco mais de arte”.
O que eu escrevi (nos comentários) foi “Entendo que faz parte da minha função fazer com que as pessoas gostem mais um pouco de física. Tal como faz parte da função de qualquer artista fazer com que as pessoas gostem um pouco mais de arte.” “Faz parte” no sentido explicado nos parágrafos acima. E “faz parte” dessa função: nunca “é” essa função, unicamente (nem sequer principalmente). Mas quem é pago pelo Estado não se pode furtar a essa função.
A outra frase que Vidal me atribui até é verdadeira mas está descontextualizada. Escrevi “querer tornar a arte acessível a todos não implica necessariamente ter que fazer concessões”, exactamente no mesmo sentido em que (mais uma vez...) acima escrevi. “Acessível” nesta frase no sentido de “estar acessível” e não de “ser acessível”. São duas coisas muito diferentes (a língua portuguesa tem essa riqueza de distinguir o “ser” do “estar”). A minha tese resume-se na frase “a arte não tem que ser acessível, mas deve estar acessível”. Parece uma tese bastante óbvia mas pelos vistos não é para toda a gente. Carlos Vidal defendeu aqui que “Uma obra de arte não pode nem deve estar acessível a qualquer pessoa”. Para não deixar dúvidas, acrescentou: “a arte não pode ser para todos!” É contra esta posição que eu me tenho vindo a insurgir.
Carlos Vidal não entendeu (ou fingiu que não entendeu, por lhe dar jeito) a minha distinção entre “ser” e “estar” acessível, e tem-me vindo a responder (nos comentários e em texto) como se eu defendesse que a arte tem que “ser” acessível, algo que não defendo e nunca defendi. Não têm pois qualquer procedimento as respostas que me tem vindo a dar. Este tipo de confusões e desarticulação do pensamento não é novidade em Carlos Vidal, conforme os seus leitores poderão testemunhar.
Com que critério julga Vidal quem é ou não merecedor de conhecer as obras de arte? A sua iluminada cabecinha, pois com certeza. Vejamos o julgamento que faz de mim. Sem me conhecer de lado nenhum, nem o que eu sei nem deixo de saber, declara que “a ciência que eu sei” (e pelos vistos, se ele não me conhece, a ciência em geral) é “estrita, reduzida e muito especializada” (ficamos esclarecidos). Decide que, se eu me dedicasse só a ela, “todos teríamos a ganhar com isso”. (Devo agradecer o elogio? E se o Vidal se dedicasse só à arte?) E finalmente manda-me calar, algo que os leitores que fazem comentários simpáticos ao PS sabem que é o que Vidal melhor sabe fazer: “Quem não percebe isto porque é que não se cala e fala de física, só?? Custa muito ?????”
(Para não me acusarem de descontextualizar, esta frase vinha a propósito da “crítica de arte”, algo que nunca fiz nem tive alguma vez pretensões de fazer. Vidal confunde uma legítima opinião sobre um filme de um espectador com uma crítica profissional de cinema.)
Finalmente, Vidal proíbe a minha entrada nas suas exposições. Para que conste (sinto-me orgulhoso): “nunca admitirei a entrada de F. Moura numa galeria onde tenha obras minhas expostas. Isto é irrevogável, caríssimos.”
Curiosamente este mesmo autor que acha que a arte (em particular a sua arte, como referiu) “não é para todos” e me proibiu de a ver não se coibiria, dias depois, de exibir aqui, no Cinco Dias, desenhos de sua autoria.
Isto é comigo. E com outros leitores? De Carlos Miguel Fernandes, por exemplo, diz que a sua “arrogância reaccionária julga-se conhecedora de crítica”. Apesar de “não saber quem CMF é” nem “lhe interessar”, Vidal declara taxativamente que CMF “não poderá alguma vez ser” um “apaixonado sensível das imagens”. Pois acontece que Carlos Miguel Fernandes, para além de cientista, é um já reconhecido fotógrafo com um currículo considerável de exposições e obra publicada.
Assim se demonstra o belo resultado que teria a aplicação do critério que Vidal defende: quem teria acesso à arte seriam os “escolhidos”. Por quem? Por quem já tem acesso à arte. Os melhores não seriam necessariamente os escolhidos, como o exemplo do Carlos Miguel Fernandes confirma.
Infelizmente, este caso exemplar ilustra bem o estado bafiento de algumas universidades portuguesas. Carlos Vidal é assistente da Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Conforme aqui já tem defendido, só lá deve ter acesso quem tiver passado pela sua formação, pela sua “escola”, que consiste em “desigualdades académicas, disciplina, hierarquia e gajas”. Quando o interlocutor é alguém que nunca passou pela escola mas é famoso e reconhecido internacionalmente, como Jorge Calado, baixam logo a cabecinha. Quem não é conhecido, mesmo que tenha valor, como o Carlos Miguel Fernandes, é logo automaticamente barrado. Não é “da escola”, e não há escola como “a nossa”. Melhor retrato da academia tradicional portuguesa não há.
Com os insultos e delírios de Carlos Vidal posso eu bem, e julgo que o Carlos Miguel Fernandes também. Afinal, como eu já tenho dito, visto de fora isto até é divertido. Daqui de dentro começa é a ser cansativo. O problema (não é meu, mas não deixa de ser um problema) é que quem emite estes juízos baseados em puro preconceito é professor e – ele próprio o admite – aplica estes critérios aos seus alunos (e aos futuros colegas). E quer que se aplique a todos os cidadãos que ele entender.
Como resolver este problema? Não sei; no caso concreto do meio académico, o ministro Mariano Gago terá as suas ideias. Entretanto no Cinco Dias a gente vai-se rindo com o espectáculo.
2008/12/16
A arte para o povo explicada aos velhinhos que gostam de elites
Rómulo de Carvalho escreveu “Física Para o Povo”:

Paul Krugman fala de economia para o povo (via João Pinto e Castro).
Herman José fez “Cozinho Para o Povo”:
Googlei “arte para o povo”. O primeiro resultado da pesquisa foi Diego Rivera, o famoso pintor mexicano que gostava que a sua arte estivesse em sítios públicos para poder ser contemplada por todos. Por isso Rivera (e muitos dos seus contemporâneos mexicanos) gostava de pintar sobretudo murais.
Rivera demonstra que querer tornar a arte acessível a todos não implica necessariamente ter que fazer concessões. É conhecida a história da sua disputa com Nelson Rockefeller, a propósito do mural que o milionário lhe encomendou para o Rockefeller Center em Manhattan. Rivera queria incluir a figura de Lenine no mural; Rockefeller recusava, mas Rivera incluiu-a à mesma. O mural nunca chegou a ser exposto em público e acabou por ser destruído. A história é conhecida: foi contada por exemplo no filme Frida. Um filme de Hollywood. Outro exemplo de “arte para o povo”.
“A massificação destrói a “aura” que envolve as obras de arte”, escreveu alguém num comentário no Cinco Dias. Façamos disto uma causa: destruir a aura da arte elitista. Destruir a aura das elites.

Paul Krugman fala de economia para o povo (via João Pinto e Castro).
Herman José fez “Cozinho Para o Povo”:
Googlei “arte para o povo”. O primeiro resultado da pesquisa foi Diego Rivera, o famoso pintor mexicano que gostava que a sua arte estivesse em sítios públicos para poder ser contemplada por todos. Por isso Rivera (e muitos dos seus contemporâneos mexicanos) gostava de pintar sobretudo murais.
Rivera demonstra que querer tornar a arte acessível a todos não implica necessariamente ter que fazer concessões. É conhecida a história da sua disputa com Nelson Rockefeller, a propósito do mural que o milionário lhe encomendou para o Rockefeller Center em Manhattan. Rivera queria incluir a figura de Lenine no mural; Rockefeller recusava, mas Rivera incluiu-a à mesma. O mural nunca chegou a ser exposto em público e acabou por ser destruído. A história é conhecida: foi contada por exemplo no filme Frida. Um filme de Hollywood. Outro exemplo de “arte para o povo”.
“A massificação destrói a “aura” que envolve as obras de arte”, escreveu alguém num comentário no Cinco Dias. Façamos disto uma causa: destruir a aura da arte elitista. Destruir a aura das elites.
2008/12/15
Está tudo doido
Australiano condenado por posse de ficheiros dos "Simpsons" em actos sexuais
Eu até admito que os criadores dos Simpsons não queiram ver as suas personagens em filmes de pornografia. Mas a condenação, a haver, seria por violação dos direitos autorais (embora se tivesse que provar que o condenado era o autor dos vídeos). Mas... por pornografia infantil?
Eu até admito que os criadores dos Simpsons não queiram ver as suas personagens em filmes de pornografia. Mas a condenação, a haver, seria por violação dos direitos autorais (embora se tivesse que provar que o condenado era o autor dos vídeos). Mas... por pornografia infantil?
2008/12/12
"Café com blogues" na Rádio Universitária do Minho
Demonstrando toda a sua falta de tino, o Luís Aguiar Conraria propôs que eu me juntasse ao programa Café com Blogues na Rádio Universitária do Minho. A Cátia Castro também desatinou, viu chegar a quarta feira, acabar a brincadeira e convidou-me. E assim me junto eu ao Luís e ao Gabriel Silva a discutir temas da actualidade. A Cátia é a moderadora. O programa é transmitido quinzenalmente ao sábado às 12:00. O podcast é actualizado durante a semana. Ontem ficou disponível o programa da semana passada, onde discutimos o Congresso do PCP, o Fórum das Esquerdas, possibilidades de convergência à esquerda e o conflito entre os professores e a ministra da Educação, entre outros assuntos. Para ouvir aqui.
2008/12/11
Cem anos de Manoel de Oliveira
Faz parte da minha actividade profissional participar regularmente em seminários, a maior parte das vezes a assistir. Quem assiste a seminários técnicos com a duração de uma hora, ou está muito interessado e muito por dentro do assunto, ou inevitavelmente perde a concentração (pelo menos é o meu caso) a um dado momento. No primeiro caso pode-se intervir activamente, fazer perguntas e, no fundo, é um pouco como se se fosse também orador. No segundo caso, a maior parte das vezes quando o orador começa a descrição dos pormenores mais técnicos, acaba-se por adormecer brevemente. Passar pelas brasas. Dar ar às pálpebras, como eu costumo dizer. O facto de o seminário ser em salas fechadas e consistir em ouvir-se a mesma voz durante uma hora, muitas vezes sem interrupções, contribui muito para este efeito.
(O fenómeno de dormir nos seminários já foi estudado e existe literatura sobre o assunto, usando o meu orientador de doutoramento como case-study. O meu orientador de doutoramento é uma espécie de Mário Soares da física teórica: é mais respeitado e percebe mais do assunto a dormir do que muitos acordados. Tenho uma grande admiração por pessoas assim. Recomendo-vos vivamente The Art Of Sleeping In Seminars, pelo meu professor Warren Siegel, dedicada ao seu colega meu orientador.)
A maior parte das vezes consegue-se acompanhar o seminário e perceber a mensagem, mesmo se se passa pelas brasas uns minutos. Mas é muito frustrante se calha estarmos a dormitar quando é apresentado o argumento principal, e quando acordamos já não percebemos nada e não podemos pedir ao orador para voltar atrás. Neste aspecto assistir a um seminário é como ver um filme no cinema ou na TV (também se pode adormecer e perder o fio à meada), mas com a vantagem de podermos ler na maior parte das vezes a literatura (artigos) original. Mas não deixa de ser frustrante quando perdemos o principal de um seminário (ou de um filme) por causa de um pequeno cochilo.
Existe porém uma terceira categoria de seminários: os que não nos dizem nada, que não têm nada a ver connosco, mas a que temos que assistir por mera cortesia. Neste caso o efeito da voz do orador não se aplica, pois não lhe estamos a prestar atenção nenhuma. É a sensação mais irritante: estarmos a assistir a um seminário que não nos interessa para nada e de onde não podemos sair, pensarmos “ao menos era bom que adormecesse agora! Dorme! Dorme!” e nem assim conseguimos adormecer. Só adormecemos nos seminários a que prestamos (ou queremos prestar) atenção. É triste mas é verdade.
Tudo o que eu acabei de descrever em relação aos seminários é directamente transponível para os filmes. A classificação dos filmes (bem como dos seminários) de acordo com as três diferentes categorias que enunciei é evidentemente pessoal e subjectiva: depende dos gostos e interesses de cada um. Tomemos como exemplo Manoel de Oliveira, que faz hoje cem anos (os meus sinceros parabéns!) e que é alvo das mais diversas (e merecidas) homenagens (como esta do Rui) por parte de quem supostamente vê os seus filmes, quer adormeça quer não. No meu caso, a esta terceira e última categoria pertenceriam os filmes do cineasta Manoel de Oliveira, se por alguma razão eu me visse obrigado a vê-los mais do que o que já vi.
O que eu penso do cineasta Manoel de Oliveira, numa frase, é isto: Manoel de Oliveira é tão chato que nem sequer me consegue fazer dormir.
(O fenómeno de dormir nos seminários já foi estudado e existe literatura sobre o assunto, usando o meu orientador de doutoramento como case-study. O meu orientador de doutoramento é uma espécie de Mário Soares da física teórica: é mais respeitado e percebe mais do assunto a dormir do que muitos acordados. Tenho uma grande admiração por pessoas assim. Recomendo-vos vivamente The Art Of Sleeping In Seminars, pelo meu professor Warren Siegel, dedicada ao seu colega meu orientador.)
A maior parte das vezes consegue-se acompanhar o seminário e perceber a mensagem, mesmo se se passa pelas brasas uns minutos. Mas é muito frustrante se calha estarmos a dormitar quando é apresentado o argumento principal, e quando acordamos já não percebemos nada e não podemos pedir ao orador para voltar atrás. Neste aspecto assistir a um seminário é como ver um filme no cinema ou na TV (também se pode adormecer e perder o fio à meada), mas com a vantagem de podermos ler na maior parte das vezes a literatura (artigos) original. Mas não deixa de ser frustrante quando perdemos o principal de um seminário (ou de um filme) por causa de um pequeno cochilo.
Existe porém uma terceira categoria de seminários: os que não nos dizem nada, que não têm nada a ver connosco, mas a que temos que assistir por mera cortesia. Neste caso o efeito da voz do orador não se aplica, pois não lhe estamos a prestar atenção nenhuma. É a sensação mais irritante: estarmos a assistir a um seminário que não nos interessa para nada e de onde não podemos sair, pensarmos “ao menos era bom que adormecesse agora! Dorme! Dorme!” e nem assim conseguimos adormecer. Só adormecemos nos seminários a que prestamos (ou queremos prestar) atenção. É triste mas é verdade.
Tudo o que eu acabei de descrever em relação aos seminários é directamente transponível para os filmes. A classificação dos filmes (bem como dos seminários) de acordo com as três diferentes categorias que enunciei é evidentemente pessoal e subjectiva: depende dos gostos e interesses de cada um. Tomemos como exemplo Manoel de Oliveira, que faz hoje cem anos (os meus sinceros parabéns!) e que é alvo das mais diversas (e merecidas) homenagens (como esta do Rui) por parte de quem supostamente vê os seus filmes, quer adormeça quer não. No meu caso, a esta terceira e última categoria pertenceriam os filmes do cineasta Manoel de Oliveira, se por alguma razão eu me visse obrigado a vê-los mais do que o que já vi.
O que eu penso do cineasta Manoel de Oliveira, numa frase, é isto: Manoel de Oliveira é tão chato que nem sequer me consegue fazer dormir.
2008/12/10
Do conflito entre os professores e o ministério da Educação
O melhor texto, mais sensato e mais equilibrado que tenho lido sobre este assunto foi escrito pelo Paulo Pinto no Jugular. Sugiro a sua leitura.
2008/12/09
Da conflitualidade social
Vale a pena ler os comentários às postagens do Cinco Dias, e não somente as postagens propriamente ditas. Muitas vezes nos comentários travam-se debates interessantes.
Houve quem achasse um “disparate” eu ter afirmado que “a pluralidade de opiniões é desejável, a conflitualidade social não é”. Eu afirmei: “Conflitualidade social é algo que é legítimo, necessário por vezes, mas não é desejável. Eu pelo menos penso que não. O que não quer dizer que use esse argumento para a combater (isso seria antidemocrático). É justamente em essa conflitualidade não ser desejável que reside a força dos que a promovem.” Ou seja, um governo tem de estar preparado e saber lidar com a conflitualidade, mas essa conflitualidade não deve ser procurada nem deve ser tida como um objectivo, quer pelo governo quer pelos agentes sociais. Não pretendo com isto que os governos não tomem medidas impopulares: a função principal de um governo é cumprir o seu programa. Também não pretendo de forma nenhuma (deixem-me enfatizar este ponto) que os agentes sociais deixem de protestar quando acharem que tal se justifica. Sejam sindicatos, a defenderem os trabalhadores, sejam... patrões (esta última hipótese é académica e infelizmente parece risível, mas no meu governo ideal os patrões teriam muitas razões para protestar). Mas só quando acharem que tal se justifica: a contestação social não deve ser um objectivo a priori, e não pode ser um objectivo a priori de quem queira participar num governo. Uma esquerda que queira estar preparada para governar, que queira fazer parte de um projecto de governação, não pode afirmar que a conflitualidade social é desejável.
Houve quem achasse um “disparate” eu ter afirmado que “a pluralidade de opiniões é desejável, a conflitualidade social não é”. Eu afirmei: “Conflitualidade social é algo que é legítimo, necessário por vezes, mas não é desejável. Eu pelo menos penso que não. O que não quer dizer que use esse argumento para a combater (isso seria antidemocrático). É justamente em essa conflitualidade não ser desejável que reside a força dos que a promovem.” Ou seja, um governo tem de estar preparado e saber lidar com a conflitualidade, mas essa conflitualidade não deve ser procurada nem deve ser tida como um objectivo, quer pelo governo quer pelos agentes sociais. Não pretendo com isto que os governos não tomem medidas impopulares: a função principal de um governo é cumprir o seu programa. Também não pretendo de forma nenhuma (deixem-me enfatizar este ponto) que os agentes sociais deixem de protestar quando acharem que tal se justifica. Sejam sindicatos, a defenderem os trabalhadores, sejam... patrões (esta última hipótese é académica e infelizmente parece risível, mas no meu governo ideal os patrões teriam muitas razões para protestar). Mas só quando acharem que tal se justifica: a contestação social não deve ser um objectivo a priori, e não pode ser um objectivo a priori de quem queira participar num governo. Uma esquerda que queira estar preparada para governar, que queira fazer parte de um projecto de governação, não pode afirmar que a conflitualidade social é desejável.
2008/12/08
Da vontade da maioria
Ao contrário do que alguns afirmam, nunca afirmei que um governo (mesmo de maioria) deveria ignorar os protestos de que seja alvo e prosseguir as suas políticas. Escrevi mesmo: “é evidente que os governos devem negociar com os sindicatos tudo o que tenha a ver com legislação laboral. Principalmente um governo que se diz de esquerda deve procurar chegar a acordos com os sindicatos. Mas na impossibilidade de esse acordo ser atingido, o governo tem legitimidade para seguir o seu programa, que será julgado nas eleições livres seguintes.” Tem legitimidade se assim o entender. Escrever que “tem legitimidade” para fazer algo é diferente de dizer que “tem que fazer algo”. Mas a discussão tem a ver mesmo com a questão da legitimidade. A isto acrescentei: “Os sindicatos têm o direito de continuar as suas lutas” (nunca pus isso minimamente em causa!), “mas não podem desobedecer às leis do governo escolhido por todos os cidadãos.”
Um exemplo: há três anos, na França, o governo de Dominique de Villepin procurou impor o contrato de primeiro emprego (CPE). Foi alvo de uma grande contestação, que eu apoiei sem hesitações. Mas eu nunca qualificaria o governo de Villepin de “antidemocrático” se este não tivesse decidido recuar. E nem acho que tal qualificação fosse legítima. É aqui que a minha opinião é diferente da do Carlos Vidal, e foi por isso que eu escrevi este texto. Quem acha que a democracia fica “terraplanada” se um governo procura cumprir o programa com que foi eleito, apesar de protestos de sectores da população, facilmente acha comparável o odioso regime de Pinochet com o “regime” de Sócrates. Houve pessoas que se indignaram com esta postagem do Carlos Vidal (é o poder das imagens!), mas a ideia principal já havia sido exposta aqui. É essa discussão que acho que vale a pena ter.
Um exemplo: há três anos, na França, o governo de Dominique de Villepin procurou impor o contrato de primeiro emprego (CPE). Foi alvo de uma grande contestação, que eu apoiei sem hesitações. Mas eu nunca qualificaria o governo de Villepin de “antidemocrático” se este não tivesse decidido recuar. E nem acho que tal qualificação fosse legítima. É aqui que a minha opinião é diferente da do Carlos Vidal, e foi por isso que eu escrevi este texto. Quem acha que a democracia fica “terraplanada” se um governo procura cumprir o programa com que foi eleito, apesar de protestos de sectores da população, facilmente acha comparável o odioso regime de Pinochet com o “regime” de Sócrates. Houve pessoas que se indignaram com esta postagem do Carlos Vidal (é o poder das imagens!), mas a ideia principal já havia sido exposta aqui. É essa discussão que acho que vale a pena ter.
2008/12/06
O João faz falta
Façam o favor de assinarem a petição que o João Branco propôs a promover o alargamento às bicicletas dos benefícios fiscais dados aos carros eléctricos pela lei do OE2009.
2008/12/05
A endrominação dos functores
O meu vizinho e amigo Gonçalo é um chavalo fixe, bué canocha e que anda sempre a endrominar, tás a ver a cena?
Uma vez que falas nisso, cada vez que falo com ele preciso de um dicionário...
Era assim que eu o descrevia há quatro anos e meio atrás. Nunca percebi a ponta de um corno do que este gajo fazia, mas sempre soube que ele, para além de ter sido um grande companheiro (e vizinho na Cité Universitaire) nos meus saudosos tempos de Paris, era muito bom. Como se já não houvesse confirmação suficiente, veio agora mais uma: foi um dos vencedores do Prémio Gulbenkian de Estímulo à Investigação 2008. Parabéns, Gonçalo! E já agora parabéns aos outros vencedores, nomeadamente a minha nova colega Ana Patrícia e o Eduardo.
2008/12/04
Graus Celsius e graus Fahrenheit
Mais uma carta minha ao Provedor dos Leitores do DN:
Exmo. senhor provedor,
o que me leva a escrever-lhe é a notícia de ciência publicada na edição de 19 de Novembro: "Vapor de água acelera aquecimento global"
Nos créditos aparecem as iniciais I.P., e percebe-se que é uma notícia fortemente baseada numa nota de imprensa estrangeira, como se vê aqui ou aqui, com os principais factos seleccionados. Tudo isto é perfeitamente legítimo, uma vez que - facto importante - a fonte original (o artigo da Science Daily que referi) é citado. O facto de certas partes do artigo do DN parecerem transcritas do original é praticamente inevitável, tratando-se de uma notícia científica baseada em depoimentos e informações de carácter técnico, que é difícil escrever de outra maneira. Não se trata a meu ver de nenhum caso de plágio.
Mesmo assim, merece reparo a forma pouco cuidadosa como a notícia é transcrita, nomeadamente a parte "Em termos específicos, se a Terra aquecer 1,8 graus Fahrenheit, o aumento associado em vapor de água criará um aprisionamento extra de dois watts por metro quadrado." Façamos um cálculo simples. 0 graus Celsius são 32 graus Fahrenheit; 100 graus Celsius são 212 graus Fahrenheit (aprende-se na escola e vê-se facilmente após pesquisa na rede). Portanto, uma diferença de 180 graus Fahrenheit corresponde a 100 graus Celsius, ou seja, um aquecimento de 1,8 graus Fahrenheit corresponde a um aumento de um grau daqueles da escala que os leitores do DN usam todos os dias. É ridículo que um grau "de todos os dias" venha indicado no DN como "1,8 graus Fahrenheit". Tanto mais que a notificação original viria com certeza em graus Celsius (em Física usa-se a escala Kelvin, cuja variação é idêntica à de Celsius); a adaptação para graus Fahrenheit destinava-se à imprensa americana. Não há absolutamente nada de errado em (algum) jornalismo científico basear-se nas "press releases" internacionais (bem pelo contrário), mas há que saber adaptá-las de modo a serem legíveis pelo leitor comum português.
Apesar deste reparo, é com agrado que noto (e é justo fazê-lo) que a ciência tem merecido ultimamente uma maior atenção nas páginas do DN. Espero que esta atenção continue.
Exmo. senhor provedor,
o que me leva a escrever-lhe é a notícia de ciência publicada na edição de 19 de Novembro: "Vapor de água acelera aquecimento global"
Nos créditos aparecem as iniciais I.P., e percebe-se que é uma notícia fortemente baseada numa nota de imprensa estrangeira, como se vê aqui ou aqui, com os principais factos seleccionados. Tudo isto é perfeitamente legítimo, uma vez que - facto importante - a fonte original (o artigo da Science Daily que referi) é citado. O facto de certas partes do artigo do DN parecerem transcritas do original é praticamente inevitável, tratando-se de uma notícia científica baseada em depoimentos e informações de carácter técnico, que é difícil escrever de outra maneira. Não se trata a meu ver de nenhum caso de plágio.
Mesmo assim, merece reparo a forma pouco cuidadosa como a notícia é transcrita, nomeadamente a parte "Em termos específicos, se a Terra aquecer 1,8 graus Fahrenheit, o aumento associado em vapor de água criará um aprisionamento extra de dois watts por metro quadrado." Façamos um cálculo simples. 0 graus Celsius são 32 graus Fahrenheit; 100 graus Celsius são 212 graus Fahrenheit (aprende-se na escola e vê-se facilmente após pesquisa na rede). Portanto, uma diferença de 180 graus Fahrenheit corresponde a 100 graus Celsius, ou seja, um aquecimento de 1,8 graus Fahrenheit corresponde a um aumento de um grau daqueles da escala que os leitores do DN usam todos os dias. É ridículo que um grau "de todos os dias" venha indicado no DN como "1,8 graus Fahrenheit". Tanto mais que a notificação original viria com certeza em graus Celsius (em Física usa-se a escala Kelvin, cuja variação é idêntica à de Celsius); a adaptação para graus Fahrenheit destinava-se à imprensa americana. Não há absolutamente nada de errado em (algum) jornalismo científico basear-se nas "press releases" internacionais (bem pelo contrário), mas há que saber adaptá-las de modo a serem legíveis pelo leitor comum português.
Apesar deste reparo, é com agrado que noto (e é justo fazê-lo) que a ciência tem merecido ultimamente uma maior atenção nas páginas do DN. Espero que esta atenção continue.
2008/12/03
Da desobediência
No meu modesto entendimento, o julgamento do Carlos Vidal neste seu texto parte da confusão frequente por parte das pessoas entre “democracia” e “liberdade”, que já aqui referi. O Carlos apela à “desobediência”. A desobediência é um atributo fundamental da liberdade, mas inaceitável em democracia (pelo menos sem sofrer as consequências). Em democracia os governos são eleitos por sufrágio universal para fazerem leis, que os cidadãos devem acatar. Tal aplica-se a todos, mas mais ainda aos funcionários públicos (incluindo neste caso os professores). As profissões onde cada um é livre de fazer tudo o que quiser chamam-se justamente – voilà – “liberais”. Não consta que a profissão de professor o seja.
Dito isto, é evidente que os governos devem negociar com os sindicatos tudo o que tenha a ver com legislação laboral. Principalmente um governo que se diz de esquerda deve procurar chegar a acordos com os sindicatos. Mas na impossibilidade de esse acordo ser atingido, o governo tem legitimidade para seguir o seu programa, que será julgado nas eleições livres seguintes. Os sindicatos têm o direito de continuar as suas lutas, mas não podem desobedecer às leis do governo escolhido por todos os cidadãos. O trabalho (neste caso o dos professores) diz respeito a toda a sociedade, e não somente à classe profissional. Cada sindicato é escolhido somente pela classe profissional e não por todos os cidadãos. Tal desobediência seria assim profundamente antidemocrática.
Não digo com isto que não seja possível (e às vezes até desejável) a desobediência mesmo em democracia, mas em democracia quem desobedece tem que sujeitar-se às consequências. A desobediência é um acto de liberdade, e todos os actos de liberdade têm responsabilidades associadas. Mais do que desejável, indispensável é a desobediência na ausência de democracia, em regimes ditatoriais. Neste caso não consta que o governo seja ditatorial. Se quem apela à desobediência pensa ser esse o caso, deve assumi-lo claramente.
Dito isto, é evidente que os governos devem negociar com os sindicatos tudo o que tenha a ver com legislação laboral. Principalmente um governo que se diz de esquerda deve procurar chegar a acordos com os sindicatos. Mas na impossibilidade de esse acordo ser atingido, o governo tem legitimidade para seguir o seu programa, que será julgado nas eleições livres seguintes. Os sindicatos têm o direito de continuar as suas lutas, mas não podem desobedecer às leis do governo escolhido por todos os cidadãos. O trabalho (neste caso o dos professores) diz respeito a toda a sociedade, e não somente à classe profissional. Cada sindicato é escolhido somente pela classe profissional e não por todos os cidadãos. Tal desobediência seria assim profundamente antidemocrática.
Não digo com isto que não seja possível (e às vezes até desejável) a desobediência mesmo em democracia, mas em democracia quem desobedece tem que sujeitar-se às consequências. A desobediência é um acto de liberdade, e todos os actos de liberdade têm responsabilidades associadas. Mais do que desejável, indispensável é a desobediência na ausência de democracia, em regimes ditatoriais. Neste caso não consta que o governo seja ditatorial. Se quem apela à desobediência pensa ser esse o caso, deve assumi-lo claramente.
2008/12/02
"Está a nevar!"



Lembrei-me agora de quando vi neve a cair pela primeira vez, em Long Island, em 1998. Até aí só tinha visto neve no chão, mas sem ser a cair. Os meus colegas americanos, alemães e mesmo italianos nem queriam acreditar, e a partir daí passaram a julgar que Portugal era assim como que uma Florida da Europa.
Eu bem alertava os meus colegas. Mais uma vez se confirma: em Portugal sempre que neva vem na primeira página dos jornais.
2008/12/01
Sporting - 3, Guimarães – 0

Voltei a ver um jogo do Sporting ao vivo e confirmei que Paulo Bento mais uma vez tem razão: os árbitros em Alvalade devem ser permanentemente assobiados.
2008/11/28
Semana da Ciência e Tecnologia no Avesso do Avesso
Um comentário meu no Arrastão deu origem a uma discussão engraçada proporcionada pelo Vasco Barreto. Ainda pelo Vasco vale a pena ler A eterna assimetria.
2008/11/27
No Dia de Acção de Graças
Faz agora oito anos. Passei o Dia de Acção de Graças mais divertido da minha vida. Nem sequer fui para Boston nesse ano, como fiz noutros. Passei o Thanksgiving no campus da universidade onde estudava, numa residência universitária. Colegas meus de diversas nacionalidades (incluindo mesmo um americano que não foi ter com a família) que lá viviam organizaram o jantar. O peru estava óptimo, os vinhos e a companhia também. Senti-me em família, e a ideia do Thanksgiving é essa.
Quando usei o adjectivo "divertido", porém, tinha em vista outro aspecto mais pessoal. Aquele Dia de Acção de Graças foi mais divertido para mim do que para qualquer dos outros. Nessa tarde ocorrera um célebre jogo em Vigo. Os meus colegas ainda hoje se recordam do que eu dizia nessa noite: periodicamente, repetidamente, bebia mais um trago e exclamava "Benfica lost!" Era essa a dedicatória dos meus brindes. Era esse o motivo da minha especial diversão.
Nos EUA, de New Jersey à Califórnia, houve muitos portugueses especialmente divertidos nesse ano. Sportinguistas e portistas.
Este ano houve outra vez diversão especial no Thanksgiving para muitos luso-americanos. Desta vez foi foi para os benfiquistas.
Adenda: Sou, como é sabido, um defensor de Paulo Bento. Mas considero o resultado de 2-5 contra o Barcelona e a exibição de ontem escandalosos e inaceitáveis.
Adenda 2 (21:30): Parece que afinal o Dia de Acção de Graças dos benfiquistas voltou a não ser muito divertido (5-1 contra o Olympiakos)... O futebol português está uma miséria.
Quando usei o adjectivo "divertido", porém, tinha em vista outro aspecto mais pessoal. Aquele Dia de Acção de Graças foi mais divertido para mim do que para qualquer dos outros. Nessa tarde ocorrera um célebre jogo em Vigo. Os meus colegas ainda hoje se recordam do que eu dizia nessa noite: periodicamente, repetidamente, bebia mais um trago e exclamava "Benfica lost!" Era essa a dedicatória dos meus brindes. Era esse o motivo da minha especial diversão.
Nos EUA, de New Jersey à Califórnia, houve muitos portugueses especialmente divertidos nesse ano. Sportinguistas e portistas.
Este ano houve outra vez diversão especial no Thanksgiving para muitos luso-americanos. Desta vez foi foi para os benfiquistas.
Adenda: Sou, como é sabido, um defensor de Paulo Bento. Mas considero o resultado de 2-5 contra o Barcelona e a exibição de ontem escandalosos e inaceitáveis.
Adenda 2 (21:30): Parece que afinal o Dia de Acção de Graças dos benfiquistas voltou a não ser muito divertido (5-1 contra o Olympiakos)... O futebol português está uma miséria.
2008/11/26
35 cientistas lêem "Poema para Galileo" de António Gedeão
Um vídeo feito - com o telemóvel! - pelo António Granado.
Está a decorrer entretanto a Semana da Ciência e Tecnologia. Vejam o programa aqui, por distrito.
2008/11/25
"Há uma arrogância implícita nos jornalistas..."
Vale a pena ler a entrevista a Daniel Okrent, antigo provedor dos leitores do The New York Times, no Público. Deixo aqui alguns destaques.
O assunto mais emotivo nos Estados Unidos é Israel, as pessoas de ambos os lados sentem-no muito intensamente, e se publicássemos algum artigo sobre Israel ou a Palestina levávamos pancada de um lado ou do outro. E muitas vezes vi que as pessoas desvalorizavam algo com o argumento de que se tratava de apoiantes sionistas, mas isso não é um ponto de vista razoável. Qualquer artigo recebia centenas de cartas no dia a seguir, era impossível... É de loucos, as pessoas sentem esse assunto de forma muito intensa e por isso torna-se extremamente difícil ouvir as queixas ligadas a esse assunto.
Respondi a queixas específicas mas não escrevi sobre o assunto até ao final do mandato. Algumas pessoas acham que agi de uma forma covarde, mas eu sabia que se o fizesse mais cedo iria perder as pessoas de um lado ou do outro. Existe um grupo chamado Camera – Comité para Exactidão na Cobertura do Médio Oriente na América, de análise de notícias, que é de influência sionista. Gostavam muito de mim, porque eu falava com eles e reagia sempre às queixas, fazia questão de que os repórteres respondessem, só diziam coisas boas sobre mim. (...)
Novas notícias são melhores do que velhas notícias. Por isso houve uma tendência para escrever mais sobre o Obama porque ele era uma história melhor. E isso foi verdade mas deixou uma má impressão, porque o leitor mediano não compreende que novas notícias são mais interessantes do que as velhas notícias, que um novo homem que chega ao palco, seja branco ou negro ou democrata ou republicano, vai ser sempre mais interessante... E o Obama tinha todas estas características e tornou-as tão interessantes. Havia o dobro de repórteres no avião dele, do que no avião do McCain. Era uma história melhor.
2008/11/24
Sair em Lisboa/sair de Lisboa
Se em Lisboa eu quero ir sair à noite, tenho que voltar para casa às duas. Ou isso ou ir para uma discoteca: graças ao lóbi destas últimas (que devem ter falta de clientes) e às diligências da actual maioria e do vereador Sá Fernandes, os bares em Lisboa fecham às duas da manhã. Ainda aconteceu há quinze dias, na última vez que lá estive: se eu quero encontrar um bar aberto tenho que confiar no conhecimento e na preserverança de um algarvio. E esperar que a polícia não apareça. Eu, um alfacinha de gema, sinto-me um clandestino na cidade onde nasci. Lisboa está a tornar-se uma cidadezinha de província. Eu vim-me embora (mas tenho saudades).
2008/11/21
A falta de cultura ciclista
A Assembleia Municipal de Lisboa reprovou (com votos do PSD e do PCP) a criação de uma rede de bicicletas partilhadas em Lisboa, baseada em argumentos falsos e preconceituos como "a falta de tradição de tráfego de bicicletas em Lisboa" e "as condições do relevo da cidade. Bem esteve o presidente da câmara, António Costa: "não há tradição de andar de bicicleta enquanto não se der condições para isso". Fico a aguardar pelos 40 km de ciclovias.
Entretanto, para ilustrar como o preconceito contra a bicicleta parte muitas vezes dos jornais, publico aqui uma carta que enviei ao Provedor dos Leitores do Diário de Notícias e que não foi publicada, acerca de uma reportagem no final do mês de Agosto (e indisponível na rede).
Entretanto, para ilustrar como o preconceito contra a bicicleta parte muitas vezes dos jornais, publico aqui uma carta que enviei ao Provedor dos Leitores do Diário de Notícias e que não foi publicada, acerca de uma reportagem no final do mês de Agosto (e indisponível na rede).
Exmo Senhor Provedor:
O que me leva a escrever-lhe é a reportagem intitulada "Isso 'tá difícil mas não desespere, agora é a descer", da autoria da jornalista Ana Bela Ferreira, publicada no passado dia 31 de Agosto na rubrica dominical "na pele de..."
A ideia desta rubrica é boa: transmitir ao leitor como é estar na pele de alguma profissão ou, neste caso concreto, de uma situação (ser ciclista em Lisboa). Mas eu sou ciclista em Lisboa (todos os dias, na deslocação para o trabalho), e posso garantir-lhe que a impressão que a jornalista transmite ao leitor não corresponde minimamente ao que é na realidade ser-se ciclista em Lisboa. Os exemplos são vários, mas começa pela escolha do itinerário, passando por bairros típicos de Lisboa como Alfama e o Castelo de São Jorge. Um itinerário que nunca um ciclista escolheria, a não ser que quisesse carregar a bicicleta às costas! Parecia que a jornalista queria demonstrar por si própria que nos bairros típicos de Lisboa é difícil andar de bicicleta. Mas isso qualquer lisboeta sabe - não é preciso uma reportagem para o provar! O que era suposto ser uma reportagem saiu um relato pessoal de uma aventura, de como a jornalista estava cansada, cheia de fome e com vontade de tomar banho depois de se ter metido naquilo, intercalado com os comentários dos (provavelmente surpreendidos) moradores e dosturistas. Se a ideia era mostrar aos turistas que os lisboetas não têm a noção do que é andar de bicicleta, creio que foi bem sucedida!
Há dois pormenores que revelam como a jornalista estava completamente fora da realidade. O primeiro foi quando referiu que pensou ter uma matrícula e fazer um seguro só para andar de bicicleta - algo que eu nunca fiz e nem conheço quem tenha feito nas várias cidades onde já vivi e onde já andei sempre de bicicleta. Mas, curiosamente, a avaliar pelas fotografias, a mesma jornalista que estava preocupada com o fazer um seguro... não se preocupou em usar um capacete! E andou a descer ruas íngremes sem capacete (algo que um verdadeiro ciclista não faria)!
O outro pormenor onde se viu a completa despreparação da jornalista foi quando, ao parar para o almoço, teve que escolher uma esplanada onde pudesse estacionar a bicicleta ao seu alcance, pois não tinha nenhum cadeado para a prender! Nenhum ciclista se preocupa com a matrícula ou o seguro, poucos andam sem capacete e nenhum anda sem um bom cadeado - nenhum se veria numa situação como a da jornalista que, ainda assim, foi relatada na reportagem como se fosse uma situação típica ao andar de bicicleta em Lisboa.
Resumindo: a jornalista (e o seu editor - a culpa não é só dela) pensaram que bastava saber andar de bicicleta para escrever uma reportagem sobre andar de bicicleta em Lisboa. Não bastava - era necessário um muito maior trabalho de preparação para a reportagem, que lamentavelmente não foi feito. Bastaria a jornalista (que evidentemente não faz, e continua a não fazer, a mais pequena ideia de como é andar quotidianamente de bicicleta em Lisboa) ter contactado com quem o fizesse. Com grupos de ciclistas. Aliás é essa a prática habitual nesta rubrica semanal do DN, e é por isso que esta rubrica é geralmente bem feita. Mas não foi o caso desta suposta reportagem, que na verdade é um aglomerado de frases na primeira pessoa que relatam uma experiência pessoal que só diz respeito à sua autora. E que por isso mesmo não se pode considerar bom jornalismo. É grave que seja publicado no DN. Mais do que este trabalho jornalístico em concreto, mais do que esta jornalista, importa chamar a atenção dos editores e responsáveis. È verdadeiramente de lamentar que de tal experiência pessoal resultem conclusões como as que no final são apresentadas ao leitor: "Lisboa ainda não é uma cidade de ciclistas" e "até lá temos que meter a bicicleta no carro e ir passear até ao Parque das Nações". Deve ser esta a experiência da jornalista de andar de bicicleta quotidianamente em Lisboa (daí a ausência do cadeado, por exemplo). Mas tais conclusões são falsas e são contraditas pelo dia-a-dia - cada vez se vêm mais ciclistas em Lisboa, especialmente jovens -, e por diversos estudos académicos que demonstram que a bicicleta em Lisboa (fora dos bairros típicos) é uma alternativa válida.
Era isto que eu tinha para lhe dizer, senhor Provedor.
Muito obrigado pela sua atenção. Aceite os meus melhores cumprimentos.
2008/11/20
Estava tudo previsto (III)
Como qualquer sportinguista sabe, Carlos Queirós tem experiência em derrotas por seis golos. No Sporting foi jogando com Figo, Balakov e Paulo Sousa. Na selecção portuguesa, com Pepe, Deco e Cristiano Ronaldo. Entretanto o retrocesso representado pelo regresso de Queirós é de décadas. Vitórias, só contra Malta e as Ilhas Faroé. Derrota por seis golos já não se via desde 1955.
2008/11/19
Estava tudo previsto (II)
Também Vital Moreira não percebeu a verdadeira motivação da derrota do Sporting. Mas eu pergunto: como é possível apoiar Sócrates por um lado e criticar Paulo Bento por outro? Como escrevi aqui, Sócrates e Paulo Bento são iguaizinhos.
2008/11/18
The demonstration concert
O vídeo que mostrei na mensagem anterior é um bom exemplo para a ministra da educação (que seria interpretada pelo Mickey) e para o líder da FENPROF Mário Nogueira (que seria interpetado pelo Donald). A ministra, com sentido de missão, leva a sua até ao fim, contra ventos e marés. Nada a datém: nem mesmo um ciclone. Os contestatários no fim acabam por aplaudir.
80 anos de Mickey
The band concert, a mais perfeita e prodigiosa curta-metragem de animação já realizada. Parabéns ao Mickey, mas o Donald é que tem piada...
2008/11/17
Estava tudo previsto
2008/11/16
Um bushista no 5 Dias

“Bushista” é com certeza na óptica do Carlos Vidal, e esse bushista sou eu. Sim, eu, que considero Bush o pior presidente dos Estados Unidos, que levou o país (e desgraçadamente muitos atrás dele) para uma guerra injustificada e sem saída onde se perderam muitas vidas e muitos outros valores, que reestabeleceu a tortura, que desrespeitou os direitos humanos, que aumentou as desigualdades, que protegeu os amigos ricos, que é o principal responsável pela crise internacional. No entanto, estou perante alguém que diz “não distinguir politicamente” George W. Bush de José Sócrates. Eu nem sei quem é que o Carlos distingue destes dois; sei, claramente, que não quero que uma pessoa que afirma isto me distinga deles. Se essa pessoa não os distingue, afirmo taxativamente que não quero ser eu o distinguido. É como “bushista” que eu quero que essa pessoa me veja.
Já em 2001 Bush afirmou que “quem não estava com ele estava com os terroristas”. E a verdade é que eu estive com ele. Vi o atentado ocorrer a poucas dezenas de milhas de onde vivia e não pude aceitar que tantos inocentes morressem, por muito justas que fossem as críticas aos EUA. Por isso apoiei e continuo a apoiar a luta contra o terrorismo. A luta contra o terrorismo mesmo, e não manobras de distracção como a invasão do Iraque.
Já nessa altura muita gente me chamou “bushista”. Se eu tivesse a mesma miopia política dessa gente (algo que infelizmente a maioria dos “bushistas” a sério tem), diria que quem me considera “bushista” é igualzinho a Bin Laden. Mas prefiro passar por cima disso e não perder tempo com essa gente. Prefiro continuar a apoiar Sócrates quando achar que deve ser apoiado e a criticá-lo quando achar que merece ser criticado.
2008/11/13
Como esses estúpidos selvagens chegaram a dominar Washington
Regresso após uma ausência (devida a isto e a uma mudança). Deveria ter escrito sobre as eleições americanas, mas não encontraria muito mais para dizer que o que foi dito pelo Luís Rainha (façam favor de ver bem o vídeo) e citado pelo Nuno Ramos de Almeida (texto de George Monbiot). Enquanto não escrevo eu mesmo algo sobre Sarah Palin e Bush, deixo-vos o texto de Monbiot.
Como esses estúpidos selvagens chegaram a dominar Washington
Como a política nos EUA chegou a ser dominada por pessoas que fizeram da ignorância uma virtude? Num ponto isso é fácil de responder. Na nação mais poderosa do planeta, um em cada cinco adultos acredita que o sol gira em torno da terra; só 26% aceitam que a evolução ocorre por seleção natural e dois terços dos jovens adultos são incapazes de encontrar o Iraque num mapa.
George Monbiot
Como se permitiu que se chegasse a esse ponto? Como a política nos EUA chegou a ser dominada por pessoas que fizeram da ignorância uma virtude? Foi a caridade que permitiu que um parente mais próximo do homem chegasse a gastar dois mandatos como presidente? Como foi possível que Sarah Palin, Dan Quayle e outros estúpidos do gênero chegassem aonde chegaram? Como foi possível que os comícios republicanos em 2008 fossem tomados por gritarias ignorantes insistindo que Barack Obama era um muçulmano e terrorista?
Como muitos deste lado do Atlântico, eu fui por muitos anos encantado com a política americana. Os EUA têm as melhores universidades do mundo e atrai as mentes mais brilhantes. Domina descobertas na ciência e na medicina. Sua riqueza e seu poder dependem da aplicação do conhecimento. Ainda assim, de maneira única dentre as muitas nações desenvolvidas (com a exceção possível da Austrália), o conhecimento é uma desvantagem política grave nos EUA.
Houve exceções ao longo do século passado – Franklin Roosevelt, JF Kennedy e Bill Clinton temperaram seu intelectualismo com um toque de senso comum e sobreviveram -, mas Adlai Stevenson, Al Gore e John Kerry foram respectivamente fulminados por seus oponentes por serem membros de uma elite cerebral (como se isso não fosse uma qualificação para a presidência). Talvez o momento decisivo no colapso da política inteligente tenha sido a resposta de Ronald Reagan a Jimmy Carter, no debate presidencial de 1980. Carter – tropeçando um pouco, usando longas palavras – cuidadosamente enumera os benefícios do sistema nacional de saúde. Reagan sorri e diz: “Lá vem você de novo”. Seu próprio programa de saúde teria apavorado muitos americanos, caso tivesse sido explicado tão cuidadosamente como o fez Carter, mas ele tinha encontrado a fórmula para se prevenir de questões políticas sérias ao fazer com que seus oponentes parecessem intelectuais “engomados” que não mereciam confiança.
Não foi sempre assim. Os pais fundadores da República – Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, James Madison, John Adams, Alexander Hamilton e outros – estavam entre os maiores pensadores de sua época. Eles não sentiam necessidade de tornar isso um segredo. Como o projeto por eles construído degenerou-se em George W. Bush e Sarah Palin?
Num ponto isso é fácil de responder. Políticos ignorantes são eleitos por povos ignorantes. A educação norte-americana, assim como seu sistema de saúde, é notória por seus fracassos. Na nação mais poderosa do planeta, um em cada cinco adultos acredita que o sol gira em torno da terra; só 26% aceitam que a evolução ocorre por seleção natural; dois terços dos jovens adultos são incapazes de encontrar o Iraque num mapa, dois terços dos votantes norte-americanos não são capazes de nomear três organizações governamentais; a competência matemática dos adolescentes de 15 anos nos Estados Unidos está em vigésimo quarto dos vinte e nove países da OECD.
Mas isso só aumenta o mistério: como tantos cidadãos norte-americanos tornaram-se tão estúpidos, e desconfiados da inteligência? Até onde li, o livro de Susan Jacoby, The Age of America Unreason [algo como A Era da des-Razão Americana], fornece uma explicação completa. Ela mostra que a degradação da política norte-americana resulta de uma série de tragédias interligadas.
Um tema é muito familiar e claro: religião – particularmente religião fundamentalista – torna você estúpido. Os EUA é o único país rico em que o fundamentalismo cristão é vasto e crescente.
Jacoby mostra que já houve uma certa lógica nesse anti-racionalismo. Durante as algumas décadas após a publicação de A Origem das Espécies, por exemplo, os americanos tinham boas razões para rejeitar a teoria da seleção natural e para tratar os intelectuais públicos com suspeita. Desde o começo, a teoria de Darwin foi misturada, nos EUA, com a filosofia brutal – agora conhecida como darwinismo social – do escritor britânico Herbert Spencer. A doutrina de Spencer, promovida na imprensa popular com o financiamento de Andrew Carnegie, John D. Rockefeller e Thomas Edison, sugeria que os milionários estavam no topo da escala estabelecida pela evolução. Ao impedir os desajustados de serem eliminados, a intervenção governamental enfraquecia a nação. A maioria das desigualdades econômicas eram tanto justificáveis como necessárias.
O darwinismo, em outras palavras, tornou-se indistinguível da forma mais bestial do laissez-faire econômico. Muitos cristãos responderam a isso com náusea. É profundamente irônico que a doutrina rejeitada um século atrás por proeminentes fundamentalistas como William Jennings Bryan seja agora determinante para o pensamento da direita cristã. Fundamentalistas modernos rejeitam a ciência darwinista da evolução e aceitam a pseudociência do darwinismo social.
Mas há outras razões, mais poderosas, que explicam o isolamento intelectual dos fundamentalistas. Os EUA são peculiares ao delegarem o controle da educação a autoridades locais. Ensinar nos estados do sul era ser dominado por uma elite aristocrática e ignorante de donos de terras, e um grande abismo educacional foi aberto. “No sul”, escreve Jacoby, “só o que pode ser descrito é que um bloqueio intelectual foi imposto para manter do lado de fora idéias que pudessem ameaçar a ordem social”.
A Convenção Batista do Sul, agora a maior congregação religiosa dos EUA, era para a escravidão e a segregação o que a Igreja Reformada Holandesa (Dutch Reformed Church) era para o apartheid na África do Sul. Ela fez mais do que qualquer força política para manter o sul estúpido. Nos anos 60 tentou disseminar a desagregação estabelecendo um sistema privado de escolas e universidades cristãs. Hoje, um estudante pode ir do jardim da infância até o mais alto grau de estudos sem qualquer exposição ao ensino secular. As crenças batistas do sul também passam imunes ao sistema de escola pública. Uma enquete feita por pesquisadores na Universidade do Texas em 1998 revelou que um em cada quatro professores de biologia das escolas do estado acreditavam que humanos e dinossauros viveram na Terra ao mesmo tempo.
Essa tragédia vem sendo assistida pela fetichização americana da auto-educação. Apesar de seu lamento por sua falta de educação formal, a carreira de Abraham Lincoln é repetidamente citada como evidência de que a boa educação fornecida pelo estado não é necessária: tudo de que se precisa para ter sucesso é determinação e individualismo vigoroso. Isso pode ter servido bem para as pessoas quando os genuínos movimentos de auto-educação, como o que se construiu em torno dos Little Blue Books na primeira metade do século XX estiveram em voga. Na era do info-entreternimento (1), esse tipo de coisa é receita para a confusão.
Além da religião fundamentalista, talvez a razão mais potente para o combate dos intelectuais na eleição seja que o intelectualismo tem sido equiparado à subversão. O breve flerte de alguns pensadores com o comunismo há muito tempo atrás tem sido usado para criar uma impressão na mente do público de que todos os intelectuais são comunistas. Quase todo dia homens como Rush Limbaugh e Bill O’Reilly vociferam contra as “elites liberais” que estão destruindo a América.
O espectro das grandes cabeças alienígenas subversivas foi crucial para a eleição de Reagan e de Bush. Uma elite intelectual genuína – como os neocons (alguns deles ex-comunistas) em torno de Bush – deu o tom dos conflitos políticos como uma batalha entre americanos comuns e bem sucedidos e super-educados pinkos (2). Qualquer tentativa de desafiar as idéias da elite intelectual da direita tem sido atacada, com sucesso, como sendo elitismo.
Obama tem muito a oferecer aos EUA, mas nada disso vai parar se ele vencer. Até que os grandes problemas do sistema educacional sejam revertidos ou que o fundamentalismo religioso perca sua força, haverá oportunidade política para que gente como Bush e Palin ostentem sua ignorância.
Publicado originalmente no Guardian, em 28 de outubro de 2008
O artigo também está publicado na página de George Monbiot
2008/11/11
Uma vitória à Porto
Jesualdo Ferreira tem toda a razão. Ele é que resumiu bem, na entrevista no final do jogo: a vitória de ontem em Alvalade, após desempate por penáltis e com Caneira incompreensivelmente expulso, numa repetição de 2006 no Dragão, foi "uma vitória à Porto". Jesualdo sabe o que diz e do que fala.
2008/11/07
Assim se passou um aniversário
Sentado no meu (antigo) gabinete do IST, a desocupá-lo e a transferir ficheiros de computador. A ouvir Chico Buarque, nem dei por ele. Foi bom.
(Refiro-me ao aniversário da Rvolução de Outubro. O meu aniversário foi gentilmente assinalado pelo Nuno, a quem agradeço.)
(Refiro-me ao aniversário da Rvolução de Outubro. O meu aniversário foi gentilmente assinalado pelo Nuno, a quem agradeço.)
2008/11/06
"I am so proud to be an American"

É o título de um depoimento de Edna B., Boynton Beach, Florida. Cortesia MoveOn.
Remember back in 2001 and 2002, when so many of you joined MoveOn? When President Bush had an 80% approval rating, when you held candles to stop a war the media was cheering on, when there were few politicians with the courage to stand up for the truth? Back then, a victory like this seemed impossible.
But yesterday you proved that nothing is impossible. If we stand up together and if we fight together and if we believe together, we can change the course of history.
Today, a new day has dawned in America.
Thank you for making it happen.
Obrigado, digo eu também.
2008/11/05
2008/11/04
Um vídeo que me foi dedicado
Uma cortesia MoveOn. Vejam aqui. As notícias adjacentes - "Neighbor: 'Filipe Always Seemed So Normal'", "Final Words Of Dying Child: 'I Hate Filipe'" são igualmente uma delícia. Democratas, vão votar!
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