2009/02/23
2009/02/22
Hoje soube-me a pouco
Depois do dérbi desta noite o Sporting é provisoriamente terceiro, mas poderia (e deveria) perfeitamente ser segundo. Esperemos que os golos que ficaram por marcar não venham a fazer falta. Dos que foram marcados, destaque para os do levezinho, claro.
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Sporting
2009/02/20
Vera Fisher
Já foi a mulher mais desejada do Brasil. Agora ainda é bonita, e ouve conselhos que o João Branco também deveria ouvir (ver entre os minutos 6:44 e 7:22).
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Liberdade
2009/02/19
2009/02/17
2009/02/16
Grandes marcas com quanto por cento de desconto? (2)

Na sequência deste texto de Maio, e para que conste.
Refiro-me ao vinho tinto "Mestre Franco Reserva 2007", da Adega Cooperativa de Mourão (Granja-Amareleja).
No Continente, o preço "normal" é 4.99€. Com 50% de "desconto", a "grande promoção" fica em 2.49€.
Em qualquer Minipreço encontra-se o mesmíssimo vinho ao preço regular de 2.39€ (encontra-se também o vinho regional, sem ser reserva, a 1.99€.)
Em Novembro e em Janeiro eu tive cupões ("que complicação!", diria um concorrente de ambas as cadeias) respectivamente de 25% e 20% de desconto, com os quais o preço deste vinho passava a 1.80€ e 1.91€. Mas estes cupões que aparecem de vez em quando nem são o mais relevante. O importante é comparar o preço normal numa outra loja com o preço "de desconto" do Continente.
Não vou voltar a chamar a esta discrepância uma "vigarice". Vigarice, para mim, seria aumentar artificialmente o preço de um artigo para depois o vender, a um preço normal, chamando-lhe "promoção". Nunca tinha visto o vinho "Mestre Franco" no Continente, pelo que não sei se tal é ou não verdade. Interessa somente comparar a política de preços de uma cadeia de lojas com a qual (segundo ela mesmo afirma) "podemos contar".
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Comércio,
Continente
2009/02/13
"Israel ainda pode vir a ser a terra do comunismo"
Um pouco de esperança, apesar dos desoladores resultados das eleições legislativas. Apontamentos interessantes, nomeadamente: um israelita que tenha sido contra a guerra de Gaza não tem muito por onde escolher. Entrevista publicada no Público.
Ele acredita em Mandela, Marx e Moisés
06.02.2009, Alexandra Lucas Coelho, em Telavive
Israel ainda pode vir a ser a terra do comunismo, segundo Dov Hanin. Sim, o comunismo falhou no século XX, mas a lição a tirar não é o capitalismo. Israel nunca esteve tão à direita. Em quem pode votar quem não apoiou a guerra? Num comunista. 85 por cento dos jovens de Telavive queriam-no para presidente da câmara
É uma espécie de senha. Pergunta-se a um israelita jovem, secular, cosmopolita, de esquerda, em quem vai votar e ele responde: Dov Hanin. Pergunta-se a outro - e outro - e outro, quem há de interessante na política israelita, e a resposta é: Dov Hanin.
A quatro dias das eleições, Israel está mais à direita que nunca nas sondagens. O líder da extrema-direita, Avigdor Lieberman, sobe, vai em terceiro lugar à frente dos trabalhistas, e Bibi Netanyahu já disse que, se for mesmo primeiro-ministro, lhe dá um ministério "importante".
A esquerda sente-se deprimida. Os políticos não o dirão, mas nas famílias de esquerda as conversas vão desde votar em Tzipi Livni para derrotar Netanyahu até sair do país. O centro-esquerda tem a opção de votar nos moderados do Meretz, mas isso é para quem apoiou a guerra de Gaza.
Em quem podem votar os israelitas que não apoiaram a guerra de Gaza? Em Dov Hanin.
O mais espantoso - num país tão consumista e americanizado como Israel - é que Dov Hanin é um comunista. Não um ex-comunista, um comunista-comunista.
Mas há três meses, quando se candidatou à Câmara de Telavive, as últimas sondagens deram-lhe nada menos que 85 por cento dos votos na faixa abaixo dos 35 anos - ou seja, a esmagadora maioria da juventude.
Foi com esses votos que Hanin acabou por ter uns notáveis 35 por cento do total dos votos, correndo contra o presidente da câmara, que se recandidatava com o apoio de todos os partidos, incluindo os religiosos.
Esta rara campanha - um comunista de um lado, todos os outros unidos do outro, e o comunista leva mais de um terço - foi "uma manifestação clara" de que há algo de novo na sociedade israelita, resume Dov Hanin, sentado num dos muitos cafés acolhedores de Telavive.
Uma hora depois, despede-se a dizer: "Ainda não verá a nova esquerda nestas eleições. Provavelmente, vai vê-la nas próximas."
Verdes e voluntários
Pai de três filhos, neto de rabinos da Bielorrússia, este advogado de 50 anos tem uma boa amostra do país na sua própria família alargada, "aí umas 150 pessoas", que discutem intensamente. Desde a direita do Likud ao próprio Dov, passando pelos partidos religiosos, há votantes para tudo - menos Lieberman.
A conversa começa com Hanin a oferecer um caderninho reciclado, que no verso é um bloco e no reverso é campanha. "As pessoas podem usá-lo." A mensagem é: não gastar dinheiro em coisas inúteis, até porque não o têm.
"Fizemos a campanha da câmara com o entusiasmo dos jovens. No dia das eleições, tínhamos 2500 voluntários por toda a cidade. Andar por Telavive era uma espécie de revolução. Éramos os únicos na rua. Não tínhamos dinheiro para grandes cartazes, então só fizemos uns anúncios que as pessoas podiam pôr nas varandas, e 3000 varandas em Telavive puseram-nos. Foi espantoso." Cada anúncio, diz, custou "menos de dois dólares".
Entretanto, as mesmas sondagens que lhe davam 85 por cento na faixa "menos de 35 anos" davam-lhe apenas 15 na faixa "acima de 50". "Ensinei Direito e Ciência Política e não conheço paralelo de uma divisão tão grande entre novos e velhos."
Os novos serão os menos ideológicos. Têm menos memória da guerra fria e do comunismo. O que é que Dov Hanin e o seu partido Hadash - que junta árabes e judeus - têm que os atraia?
"Há uma linha em Israel, que é a política de poder. Muita gente acredita nela, até as 'pombas' do Meretz, que apoiaram a guerra de Gaza. Mas quando se usa o poder encontra-se resistência, e usa-se mais poder, e há mais resistência, e do sangue vem mais violência. Esta é a História de Israel." E qual é a alternativa? "Não nos construírmos como uma fortaleza, mas como um lugar que procura uma relação neutra com o mundo árabe."
Dov Hanin não é sionista. Explica o seu não-sionismo assim: "Uma pessoa está a afogar-se no mar. Tem o direito de trepar para cima de um pedaço de madeira com uma pessoa lá em cima? A minha resposta é: sim, absolutamente. Mas tem o direito de deitar ao mar a outra pessoa? A minha resposta é: não, absolutamente. Essa é a diferença entre mim e um sionista."
Não questiona a fundação de Israel: "Os judeus foram vítimas de uma tragédia imensa no século XX. Têm o direito de se autodeterminar. O que não têm é o direito de discriminar os árabes. Portanto, se Estado judaico quer dizer autodeterminação, sim, se quer dizer discriminação nacional, não."
Há quem pense assim e defenda a solução de um único Estado, binacional, com judeus e palestinianos. Mas Hanin acredita em dois Estados. "Esta terra desenvolveu-se historicamente de forma diferente, e é a vontade destas duas nações viver separadamente."
Se fosse primeiro-ministro, "Jerusalém seria dividida em duas capitais". E quanto ao direito de retorno de quase dois milhões de palestinianos refugiados no Líbano, Jordânia e Síria? "Primeiro, reconhecer que têm esse direito. E depois a sua implementação prática tem que ser negociada entre as duas partes."
Estaria disposto a retirar centenas de milhares de colonos da Cisjordânia e Jerusalém-Leste? É possível? "É. Israel aborveu mais de um milhão de pessoas da ex-União Soviética, e muitos nem falavam hebraico. Os colonos ao menos falam hebraico."
Qualquer judeu tem o direito de vir para Israel. É o que se chama fazer aliyah. Dov Hanin manteria isto? "Israel deve continuar aberto a todos os judeus perseguidos por serem judeus."
Corrigir o século XX
Hanin sabe que a sua popularidade não vem de ser comunista, pelo contrário. Há quem o escolha apesar dele ser comunista e há quem o escolheria se ele não fosse um comunista.
"Como é possível votar num comunista em 2009?" é a pergunta de muitos israelitas de esquerda, que até acham Hanin "um homem bom", ou um "homem decente".
"Para mim, o comunismo é a tentativa radical de mudar o mundo", diz Hanin, para começo de resposta. "Vai dizer-me que já foi tentado, e tem razão. Essa tentativa falhou, e foram cometidos vários erros e crimes. O estalinismo foi um erro e criou muitos crimes. O estalinismo foi o maior desastre do comunismo. Muita gente concluiu que a única alternativa era o capitalismo e eu não aceito isso. A verdadeira lição é aprender com o que aconteceu no século XX. Não quero repetir esses erros."
Então, além do conflito israelo-palestiniano, que faria Hanin se fosse primeiro-ministro? "Libertava mais esferas da dominância do mercado. Um sistema em que cada cidadão tivesse direito a segurança social, saúde e educação financiadas pelo Estado." E nacionalizava bancos. "Há dois ou três anos as pessoas achariam isto perigoso, e veja-se o que aconteceu na América e em Inglaterra." A crise mundial, diz, "foi um sinal de como o capitalismo podia falhar".
Defender tudo isto tem um preço: "Agitaram bandeiras a chamar-me anti-sionista e apoiante dos refuseniks, por eu ter sido advogado de refuseniks." Como a esmagadora maioria dos israelitas, Hanin fez o serviço militar (entre 1976 e 1979, uma fase calma), mas recusou servir nos territórios palestinianos. Aqueles que recusam o próprio serviço militar são muito poucos e muito mal-vistos. "O Exército é a instituição mais forte de Israel", resume Hanin.
Exemplo de uma sociedade próxima do seu ideal? Pensa e não acha. "Há exemplos que podemos tirar de uma e de outra." Quais? "A segurança social da Escandinávia. O sistema de saúde em Cuba." Fica por aqui. O que ia buscar à América? "A cultura pop, o movimento antiguerra do Vietname, Martin Luther King." Obama? "Tem potencial. Espero que tenha a coragem de fazer o necessário."
Exemplos de líderes? "Nelson Mandela", responde de imediato. "Um líder da mudança, de uma mudança muito complicada, um homem sensato." Mais? "Karl Marx, claro. O maior pensador de todos, na capacidade de analisar a sociedade." Quando a crise rebentou, muito se disse que Keynes estava actual. "Keynes é um reformador, mas Marx está mais vivo que nunca. O que não terá chorado ou rido nesta crise..." E finalmente? "Moisés, o líder dos escravos, aquele que os levou da escravatura egípcia para o deserto, e nessa viagem longa fez deles um povo muito interessante. Foi um libertador. Pode perguntar-me: acha que Moisés existiu? Não importa. Vive na memória e na tradição das pessoas."
Essas pessoas são Israel, e o que Hanin gostava era que "Israel fosse o lugar de uma ideia para outras sociedades".
Ele acredita em Mandela, Marx e Moisés
06.02.2009, Alexandra Lucas Coelho, em Telavive
Israel ainda pode vir a ser a terra do comunismo, segundo Dov Hanin. Sim, o comunismo falhou no século XX, mas a lição a tirar não é o capitalismo. Israel nunca esteve tão à direita. Em quem pode votar quem não apoiou a guerra? Num comunista. 85 por cento dos jovens de Telavive queriam-no para presidente da câmara
É uma espécie de senha. Pergunta-se a um israelita jovem, secular, cosmopolita, de esquerda, em quem vai votar e ele responde: Dov Hanin. Pergunta-se a outro - e outro - e outro, quem há de interessante na política israelita, e a resposta é: Dov Hanin.
A quatro dias das eleições, Israel está mais à direita que nunca nas sondagens. O líder da extrema-direita, Avigdor Lieberman, sobe, vai em terceiro lugar à frente dos trabalhistas, e Bibi Netanyahu já disse que, se for mesmo primeiro-ministro, lhe dá um ministério "importante".
A esquerda sente-se deprimida. Os políticos não o dirão, mas nas famílias de esquerda as conversas vão desde votar em Tzipi Livni para derrotar Netanyahu até sair do país. O centro-esquerda tem a opção de votar nos moderados do Meretz, mas isso é para quem apoiou a guerra de Gaza.
Em quem podem votar os israelitas que não apoiaram a guerra de Gaza? Em Dov Hanin.
O mais espantoso - num país tão consumista e americanizado como Israel - é que Dov Hanin é um comunista. Não um ex-comunista, um comunista-comunista.
Mas há três meses, quando se candidatou à Câmara de Telavive, as últimas sondagens deram-lhe nada menos que 85 por cento dos votos na faixa abaixo dos 35 anos - ou seja, a esmagadora maioria da juventude.
Foi com esses votos que Hanin acabou por ter uns notáveis 35 por cento do total dos votos, correndo contra o presidente da câmara, que se recandidatava com o apoio de todos os partidos, incluindo os religiosos.
Esta rara campanha - um comunista de um lado, todos os outros unidos do outro, e o comunista leva mais de um terço - foi "uma manifestação clara" de que há algo de novo na sociedade israelita, resume Dov Hanin, sentado num dos muitos cafés acolhedores de Telavive.
Uma hora depois, despede-se a dizer: "Ainda não verá a nova esquerda nestas eleições. Provavelmente, vai vê-la nas próximas."
Verdes e voluntários
Pai de três filhos, neto de rabinos da Bielorrússia, este advogado de 50 anos tem uma boa amostra do país na sua própria família alargada, "aí umas 150 pessoas", que discutem intensamente. Desde a direita do Likud ao próprio Dov, passando pelos partidos religiosos, há votantes para tudo - menos Lieberman.
A conversa começa com Hanin a oferecer um caderninho reciclado, que no verso é um bloco e no reverso é campanha. "As pessoas podem usá-lo." A mensagem é: não gastar dinheiro em coisas inúteis, até porque não o têm.
"Fizemos a campanha da câmara com o entusiasmo dos jovens. No dia das eleições, tínhamos 2500 voluntários por toda a cidade. Andar por Telavive era uma espécie de revolução. Éramos os únicos na rua. Não tínhamos dinheiro para grandes cartazes, então só fizemos uns anúncios que as pessoas podiam pôr nas varandas, e 3000 varandas em Telavive puseram-nos. Foi espantoso." Cada anúncio, diz, custou "menos de dois dólares".
Entretanto, as mesmas sondagens que lhe davam 85 por cento na faixa "menos de 35 anos" davam-lhe apenas 15 na faixa "acima de 50". "Ensinei Direito e Ciência Política e não conheço paralelo de uma divisão tão grande entre novos e velhos."
Os novos serão os menos ideológicos. Têm menos memória da guerra fria e do comunismo. O que é que Dov Hanin e o seu partido Hadash - que junta árabes e judeus - têm que os atraia?
"Há uma linha em Israel, que é a política de poder. Muita gente acredita nela, até as 'pombas' do Meretz, que apoiaram a guerra de Gaza. Mas quando se usa o poder encontra-se resistência, e usa-se mais poder, e há mais resistência, e do sangue vem mais violência. Esta é a História de Israel." E qual é a alternativa? "Não nos construírmos como uma fortaleza, mas como um lugar que procura uma relação neutra com o mundo árabe."
Dov Hanin não é sionista. Explica o seu não-sionismo assim: "Uma pessoa está a afogar-se no mar. Tem o direito de trepar para cima de um pedaço de madeira com uma pessoa lá em cima? A minha resposta é: sim, absolutamente. Mas tem o direito de deitar ao mar a outra pessoa? A minha resposta é: não, absolutamente. Essa é a diferença entre mim e um sionista."
Não questiona a fundação de Israel: "Os judeus foram vítimas de uma tragédia imensa no século XX. Têm o direito de se autodeterminar. O que não têm é o direito de discriminar os árabes. Portanto, se Estado judaico quer dizer autodeterminação, sim, se quer dizer discriminação nacional, não."
Há quem pense assim e defenda a solução de um único Estado, binacional, com judeus e palestinianos. Mas Hanin acredita em dois Estados. "Esta terra desenvolveu-se historicamente de forma diferente, e é a vontade destas duas nações viver separadamente."
Se fosse primeiro-ministro, "Jerusalém seria dividida em duas capitais". E quanto ao direito de retorno de quase dois milhões de palestinianos refugiados no Líbano, Jordânia e Síria? "Primeiro, reconhecer que têm esse direito. E depois a sua implementação prática tem que ser negociada entre as duas partes."
Estaria disposto a retirar centenas de milhares de colonos da Cisjordânia e Jerusalém-Leste? É possível? "É. Israel aborveu mais de um milhão de pessoas da ex-União Soviética, e muitos nem falavam hebraico. Os colonos ao menos falam hebraico."
Qualquer judeu tem o direito de vir para Israel. É o que se chama fazer aliyah. Dov Hanin manteria isto? "Israel deve continuar aberto a todos os judeus perseguidos por serem judeus."
Corrigir o século XX
Hanin sabe que a sua popularidade não vem de ser comunista, pelo contrário. Há quem o escolha apesar dele ser comunista e há quem o escolheria se ele não fosse um comunista.
"Como é possível votar num comunista em 2009?" é a pergunta de muitos israelitas de esquerda, que até acham Hanin "um homem bom", ou um "homem decente".
"Para mim, o comunismo é a tentativa radical de mudar o mundo", diz Hanin, para começo de resposta. "Vai dizer-me que já foi tentado, e tem razão. Essa tentativa falhou, e foram cometidos vários erros e crimes. O estalinismo foi um erro e criou muitos crimes. O estalinismo foi o maior desastre do comunismo. Muita gente concluiu que a única alternativa era o capitalismo e eu não aceito isso. A verdadeira lição é aprender com o que aconteceu no século XX. Não quero repetir esses erros."
Então, além do conflito israelo-palestiniano, que faria Hanin se fosse primeiro-ministro? "Libertava mais esferas da dominância do mercado. Um sistema em que cada cidadão tivesse direito a segurança social, saúde e educação financiadas pelo Estado." E nacionalizava bancos. "Há dois ou três anos as pessoas achariam isto perigoso, e veja-se o que aconteceu na América e em Inglaterra." A crise mundial, diz, "foi um sinal de como o capitalismo podia falhar".
Defender tudo isto tem um preço: "Agitaram bandeiras a chamar-me anti-sionista e apoiante dos refuseniks, por eu ter sido advogado de refuseniks." Como a esmagadora maioria dos israelitas, Hanin fez o serviço militar (entre 1976 e 1979, uma fase calma), mas recusou servir nos territórios palestinianos. Aqueles que recusam o próprio serviço militar são muito poucos e muito mal-vistos. "O Exército é a instituição mais forte de Israel", resume Hanin.
Exemplo de uma sociedade próxima do seu ideal? Pensa e não acha. "Há exemplos que podemos tirar de uma e de outra." Quais? "A segurança social da Escandinávia. O sistema de saúde em Cuba." Fica por aqui. O que ia buscar à América? "A cultura pop, o movimento antiguerra do Vietname, Martin Luther King." Obama? "Tem potencial. Espero que tenha a coragem de fazer o necessário."
Exemplos de líderes? "Nelson Mandela", responde de imediato. "Um líder da mudança, de uma mudança muito complicada, um homem sensato." Mais? "Karl Marx, claro. O maior pensador de todos, na capacidade de analisar a sociedade." Quando a crise rebentou, muito se disse que Keynes estava actual. "Keynes é um reformador, mas Marx está mais vivo que nunca. O que não terá chorado ou rido nesta crise..." E finalmente? "Moisés, o líder dos escravos, aquele que os levou da escravatura egípcia para o deserto, e nessa viagem longa fez deles um povo muito interessante. Foi um libertador. Pode perguntar-me: acha que Moisés existiu? Não importa. Vive na memória e na tradição das pessoas."
Essas pessoas são Israel, e o que Hanin gostava era que "Israel fosse o lugar de uma ideia para outras sociedades".
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2009/02/12
O biólogo evolucionista e o estadista americano
Hoje há dois bicentenários, qualquer um deles muito relevante.
De Charles Darwin muito se fala na blogosfera (e ainda bem). Do que li desejo destacar os textos dos biólogos Vasco Barreto e André Levy.
O outro bicentenário que não deve ser esquecido é uma das figuras políticas que para mim são mais inpiradoras: Abraham Lincoln, o primeiro presidente republicano dos EUA (na época em que o Partido Republicano era o mais à esquerda). Lincoln não recuou nas suas convicções antiesclavagistas, tendo por isso de travar uma guerra. Ganhou-a, soube manter a unidade nacional e – muito mais importante – conseguiu impor os seus ideais progressistas e democráticos, que triunfaram sobre o separatismo esclavagista sulista.
Numa altura em que se volta a falar de regionalização em Portugal, um processo que eu temo que venha a reforçar o poder de caciques reaccionários (não nos basta o da Madeira?) que demagogicamente protestam contra “Lisboa” e o “estado” (como se protesta aqui e aqui), é bom termos Lincoln sempre presente. Para mim, este presidente americano é um exemplo do verdadeiro estadista.
De Charles Darwin muito se fala na blogosfera (e ainda bem). Do que li desejo destacar os textos dos biólogos Vasco Barreto e André Levy.
O outro bicentenário que não deve ser esquecido é uma das figuras políticas que para mim são mais inpiradoras: Abraham Lincoln, o primeiro presidente republicano dos EUA (na época em que o Partido Republicano era o mais à esquerda). Lincoln não recuou nas suas convicções antiesclavagistas, tendo por isso de travar uma guerra. Ganhou-a, soube manter a unidade nacional e – muito mais importante – conseguiu impor os seus ideais progressistas e democráticos, que triunfaram sobre o separatismo esclavagista sulista.
Numa altura em que se volta a falar de regionalização em Portugal, um processo que eu temo que venha a reforçar o poder de caciques reaccionários (não nos basta o da Madeira?) que demagogicamente protestam contra “Lisboa” e o “estado” (como se protesta aqui e aqui), é bom termos Lincoln sempre presente. Para mim, este presidente americano é um exemplo do verdadeiro estadista.
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2009/02/11
"A ascensão da extrema-direita em Israel é alarmante"
A propósito das eleições em Israel, vale a pena recordar uma entrevista de Tom Segev a Alexandra Lucas Coelho no Público. Destaco:
Tom Segev, 64 anos, é um dos mais relevantes e traduzidos historiadores israelitas. Publicou “One Palestine Complete”, “The Seventh Million”, “Elvis in Jerusalem” e “1967”. Acabou de escrever uma biografia de Simon Wiesenthal, o “caçador” de nazis. Esta entrevista foi feita na sua casa de Jerusalém, cheia de livros e com uma velha primeira página de jornal emoldurada. É do dia em que o Estado de Israel foi declarado.
Entre os israelitas, esta guerra parece ter sido a mais popular em anos. É verdade?
Foi definitivamente mais popular que a anterior do Líbano, que não correu bem.
Há quem fale em euforia.
Não foi euforia, mas as pessoas dizem que algo tinha que ser feito contra o Hamas. Temos esta tradição de acreditar que determinamos a política palestiniana bombardeando o Hamas, ou quem não gostamos. E convencemo-nos de que é só uma organização terrorista. Mas é também um movimento político e religioso genuíno.
A tentativa de ditar aos palestinianos os seus líderes não resulta. Estão a disparar rockets até hoje.
O que é que a satisfação quanto à guerra revela sobre o estado da sociedade israelita?
Primeiro, nenhum país pode viver com rockets nas suas cidades. Netanyahu continua a dizer às televisões do mundo, consoante de onde vêem: “Imagine que isto acontecia em Lisboa...”
Com a diferença de que Lisboa não ocupa Espanha.
Mas é verdade que não é possível viver com rockets, sobretudo antes de eleições. Portanto, por várias razões, a sociedade israelita moveu-se para a direita – para a extrema-direita.
Agora temos um partido de extrema-direita muito forte [Yisrael Beytenu, dirigido por Avigdor Lieberman, em terceiro nas sondagens, à frente dos trabalhistas]. É o nosso Haider. O ódio racista agora é legítimo, ele está a legitimá-lo. E não é dirigido contra os palestinianos nos territórios, pior, é dirigido contra palestinianos que são cidadãos israelitas. É xenófobo, é racista. Este é o tipo de partido por causa do qual Israel chamou o seu embaixador na Áustria, quando Haider teve 25 por cento dos votos.
Porque é que é forte? Porque há um sentimento de desespero quanto à paz. A maior parte dos israelitas já não acredita na paz. Dêem-lhes paz, eles ficarão felizes, mas já não acreditam nisso.
Isto é fúria, mas também há um elemento de vingança.
Tendo em conta que não há hipótese de paz, que os palestinianos continuam a disparar rockets, que os governos anteriores falharam, primeiro com a guerra no Líbano, depois com toda a corrupção de Olmert – e este corrupto Olmert, que toda a gente odeia, vem com estranhas declarações sobre como devíamos devolver os territórios –, as pessoas moveram-se para o outro lado. Acho que é natural.
E não nos devemos enganar. Não são só pessoas vindas da Rússia. São também israelitas nascidos aqui. Portanto, ele [Lieberman] está a trazer ao de cima o pior que temos.
Geralmente diz-se que não há nenhuma sociedade democrática sem cerca de cinco por cento de fascistas. Mas este partido é muito mais forte. Acho isso alarmante.
O psiquiatra palestiniano Eyad Sarraj diz que a sociedade israelita está doente.
Não é como se o Hamas fosse um movimento liberal, democrático, aberto... O melhor que se pode dizer é que temos duas sociedades doentes, aqui. O Hamas é apoiado por uma maioria de pessoas em Gaza – porque é que apoiam uma organização tão horrível? Para mim, qualquer sociedade que se desloque em números maciços para a extrema-direita está de alguma forma doente. O fascismo é uma espécie de doença.
O desespero quanto à paz, o sentimento de que a política não serve para nada, e a continuação do terrorismo palestiniano – tudo isto levou a Lieberman.
A guerra em Gaza fortaleceu Lieberman?
Absolutamente. E é também um resultado de Lieberman, porque este é o tipo de pessoas que pressiona o governo, e com a eleição era inevitável que a guerra acontecesse.
Começou quando começou por causa dos rockets, das eleições, de serem os últimos dias de Bush, de ser época de festas, e de os céus estarem azuis, tornando fácil os aviões voarem. Era inevitável.
Não nos levou a lado algum. Não há um cessar-fogo que não pudéssemos ter alcançado antes. E a coisa alarmante é o pouco que os israelitas se estão a importar com a destruição de Gaza.
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Médio Oriente
2009/02/10
Rescaldo futebolístico do fim de semana
- Destaco a reacção de Jesualdo Ferreira, a afirmar que o FC Porto tinha "perdido dois pontos" depois do empate com o Benfica, arrancado após um penálti claramente inexistente (mas que não mereceu nenhuma referência). É preciso falta de vergonha na cara e falta de respeito pelo Benfica, onde Jesualdo até já trabalhou (e eu nem sou do Benfica).
- Do jogo de Alvalade ainda não vi imagens conclusivas, nomeadamente sobre o terceiro golo. Mas comprova-se uma vez mais que o Sporting é sempre prejudicado. O Braga é roubado perante o Benfica e o FC Porto; não é roubado perante o Sporting porquê? É injusto.
- É nestas alturas que se deve exibir o nosso orgulho. Passeei-me hoje pelo campus de Gualtar, em Braga, com o meu cachecol do Sporting. Muitos sportinguistas vieram ter comigo.
- Arranjem uma playstation ao Pedro Morgado.
2009/02/09
Carmen Miranda
A maior embaixatriz da cultura brasileira faria hoje cem anos.
É originária de Marco de Canaveses, como recorda a canção de David Byrne e Caetano Veloso.
É originária de Marco de Canaveses, como recorda a canção de David Byrne e Caetano Veloso.
2009/02/08
Desidério Murcho, os "pobres", o metro e a escola pública
Na sua habitual linha de pensamento político liberal, Desidério Murcho pergunta quais as vantagens e desvantagens de um imposto único. Tal já havia sido objecto de debate entre o Luís Aguiar Conraria (que, aliás, já tinha apresentado a ideia, e responde a Desidério) e Vital Moreira (que havia respondido à altura por duas vezes). As respostas ao texto de Desidério nos comentários são boas (particularmente a do anónimo Artur), mostrando que, mais do que económica, esta é uma questão política. Mas, lendo os mesmos comentários, reparei num particularmente significativo do próprio Desidério:
Para eu ser “bizarro” para o Desidério, só me falta mesmo ter dois milhões de euros no banco. Mas, portanto, escolhas pessoais como não ter carro e opções cívicas como andar de transporte público são, para Desidério, para “pobres”. (Um rico que as tome é “bizarro”.)
Curiosamente o mesmo Desidério Murcho muito insiste na elevação de conteúdos ensinados na escola pública, insurgindo-se contra o preconceito de considerar que os pobres “não gostam” de ciência, filosofia ou literatura a sério como motivo para “aligeirar” os conteúdos dos programas de ensino. Desidério defende o ensino na escola pública da melhor ciência, da melhor filosofia, da melhor literatura. Para percebermos melhor o conceito de escola pública de Desidério Murcho, convinha que ele respondesse a uma ou duas perguntas, relacionadas com este seu comentário. Um “pobre” que se interesse por ciência ou literatura ou filosofia, é bizarro? Um rico que ande na escola pública, é bizarro? Se Desidério achar que sim, julga que a escola pública é “para pobres”. Se achar que não, não é bizarro, por que raio é que o haveria de ser o andar de metro?
Ter dois milhões de euros no banco e viver em Chelas num apartamento de 20 mil euros, sem carro e andando de metro é algo bizarro, não? Isto devia ser evidente.
Para eu ser “bizarro” para o Desidério, só me falta mesmo ter dois milhões de euros no banco. Mas, portanto, escolhas pessoais como não ter carro e opções cívicas como andar de transporte público são, para Desidério, para “pobres”. (Um rico que as tome é “bizarro”.)
Curiosamente o mesmo Desidério Murcho muito insiste na elevação de conteúdos ensinados na escola pública, insurgindo-se contra o preconceito de considerar que os pobres “não gostam” de ciência, filosofia ou literatura a sério como motivo para “aligeirar” os conteúdos dos programas de ensino. Desidério defende o ensino na escola pública da melhor ciência, da melhor filosofia, da melhor literatura. Para percebermos melhor o conceito de escola pública de Desidério Murcho, convinha que ele respondesse a uma ou duas perguntas, relacionadas com este seu comentário. Um “pobre” que se interesse por ciência ou literatura ou filosofia, é bizarro? Um rico que ande na escola pública, é bizarro? Se Desidério achar que sim, julga que a escola pública é “para pobres”. Se achar que não, não é bizarro, por que raio é que o haveria de ser o andar de metro?
2009/02/05
Rescaldo da Taça da Liga
Já aqui o Nélson apontou os pormenores técnicos como só ele sabe. É claro que não conheço nenhuma prova em que não fosse o Guimarães a ser apurado para as meias finais. O importante não é isso: é a ambiguidade no regulamento da Taça da Liga. Tudo isto porque em lugar de uma definição matemática precisa, quem escreveu aquele regulamento resolveu escudar-se num termo de uso corrente em Portugal com significado errado, e afinal com um significado oficial bem diferente. Embora desportivamente julgasse que deveria ser o Guimarães a passar, confesso que simpatizava com as reivindicações do Belenenses. É que só neste país é que o regulamento de uma prova oficial é escrito nesta forma displicente e pouco rigorosa! Se fosse o Belenenses a ter passado, seria uma lição importante para este país pouco habituado à Matemática e às ciências exactas.
Entretanto o Sporting goleou o FC Porto como não goleava há 33 anos e chegou à final da Taça da Liga. Eu trocava bem esta final por estar na meia final da Taça de Portugal (de onde o Sporting foi tão mal eliminado), cujo sorteio se realiza hoje...
Entretanto o Sporting goleou o FC Porto como não goleava há 33 anos e chegou à final da Taça da Liga. Eu trocava bem esta final por estar na meia final da Taça de Portugal (de onde o Sporting foi tão mal eliminado), cujo sorteio se realiza hoje...
2009/02/04
O voto por correspondência
Funciona mais ou menos assim: há dois envelopes. Colocas o teu voto num, mais pequeno, que é lacrado. Coloca-lo dentro de um outro, e adicionas um documento assinado que te identifica. Fechas o segundo envelope. (Percebeste, Maria João?) Um processo seguro, e o segundo envelope garante confidencialidade. Creio que são os segundos envelopes que são depositados nas urnas, tornando-se indistinguíveis, antes de serem abertos.
Foi assim que eu votei nas últimas presidenciais. Ainda assim, tive de me deslocar ao consulado, pois encontro-me recenseado em Portugal apesar de na altura viver no estrangeiro. Foi o consulado que enviou o meu voto para a minha secção de voto em Portugal. Não percebo por que não o poderia fazer eu mesmo, em casa. Tal como não percebo por que só me deixavam votar assim (estando eu no estrangeiro) nas presidenciais e não nas legislativas ou autárquicas ou europeias. Tal como não percebo por que não é permitido a qualquer pessoa fazer isto para qualquer eleição, desde que comunique a sua ausência no dia das eleições a tempo à mesa. É assim que funciona noutros países, onde o voto por correspondência é corriqueiro. Facilita a vida às pessoas e diminui a abstenção.
Esteve portanto muito bem Cavaco Silva no seu veto. Só lamento que este processo do voto por correspondência não se alargue.
Ironicamente, a única vez que votei por correspondência foi para votar contra quem agora assegurou a continuidade deste tipo de voto...
Foi assim que eu votei nas últimas presidenciais. Ainda assim, tive de me deslocar ao consulado, pois encontro-me recenseado em Portugal apesar de na altura viver no estrangeiro. Foi o consulado que enviou o meu voto para a minha secção de voto em Portugal. Não percebo por que não o poderia fazer eu mesmo, em casa. Tal como não percebo por que só me deixavam votar assim (estando eu no estrangeiro) nas presidenciais e não nas legislativas ou autárquicas ou europeias. Tal como não percebo por que não é permitido a qualquer pessoa fazer isto para qualquer eleição, desde que comunique a sua ausência no dia das eleições a tempo à mesa. É assim que funciona noutros países, onde o voto por correspondência é corriqueiro. Facilita a vida às pessoas e diminui a abstenção.
Esteve portanto muito bem Cavaco Silva no seu veto. Só lamento que este processo do voto por correspondência não se alargue.
Ironicamente, a única vez que votei por correspondência foi para votar contra quem agora assegurou a continuidade deste tipo de voto...
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Portugal
2009/02/02
Regressa o Dr. House

"Do que eu gosto mais na personagem [Dr. House] é a sua absoluta confiança na racionalidade humana para resolver os problemas. (...)
Espanto-me quando vejo pessoas entusiasmadas com tratamentos ou curas "naturais" e "tradicionais", "como se fazia antigamente". Antigamente vivia-se trinta anos!"
(Hugh Laurie em entrevista a Conan O'Brien, Dezembro de 2008. Cito de memória, mas não desvirtuo o que foi dito.)
2009/01/29
Pode-se viajar no tempo?

Conferência hoje no Instituto Franco-Português por Etienne Klein, investigador no meu bem conhecido Commissariat à l'Energie Atomique de Saclay.
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Física
2009/01/28
Ainda sobre o referendo em Viana
No Prós e Contras da semana passada, o lamentável apoiante do "sim" (creio que se chamava António Gonçalves, mas posso estar errado) teve esta frase lapidar em directo: a principal função de qualquer autarca é extrair o máximo que puder do Estado central! Quanto mais extrair (eu diria extorquir) melhor!
É também graças a frases como estas que a regionalização é rejeitada por permitir que surjam mais Albertos Joões Jardins!
É também graças a frases como estas que a regionalização é rejeitada por permitir que surjam mais Albertos Joões Jardins!
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Regionalização
2009/01/27
Proposta após o referendo de Viana
Após a vitória do "não" no referendo em Viana, importa concluir que os vienenses fizeram ao resto do Minho (não só o Alto - Braga incluída) o mesmo que muitos bracarenses (agora aborrecidos com este resultado) defendem que Braga deve fazer ao Porto, e que o Porto quer fazer a Lisboa: não deixar que outros mandem neles. Se a regionalização em Portugal fosse um processo natural, estas discussões não fariam sentido. Se ao nível local as populações não sabem a que comunidade querem pertencer, mais vale que permaneçamos todos sob a alçada do Estado (que não é a mesma coisa que "Lisboa") - a única forma de organização que em Portugal me parece natural e não forçada. Os municípios devem agrupar-se em áreas metropolitanas e comunidades, e é com base nestas que se deve fazer uma - imprescindível, que fique bem claro - descentralização.
A questão colocada pelo Presidente da Câmara de Viana é boa e creio que faz sentido: a representação dos municípios nestes agrupamentos deve ser proporcional à sua população. (De qualquer maneira, não me parece bom Viana ficar isolada, pelo que espero que a situação se resolva depressa.) Proporia que o órgão deliberativo destes agrupamentos fosse formado por todos os vereadores eleitos de todas as câmaras de todos os municípios. Uma vez que o número destes vereadores é proporcional à população, a ponderação seria a adequada.
Este passaria a ser, a meu ver, o papel a desempenhar pelos vereadores. Quanto às câmaras propriamente ditas, deveriam ter executivos monocolores, com as assembleias municipais a funcionarem como parlamentos.
A questão colocada pelo Presidente da Câmara de Viana é boa e creio que faz sentido: a representação dos municípios nestes agrupamentos deve ser proporcional à sua população. (De qualquer maneira, não me parece bom Viana ficar isolada, pelo que espero que a situação se resolva depressa.) Proporia que o órgão deliberativo destes agrupamentos fosse formado por todos os vereadores eleitos de todas as câmaras de todos os municípios. Uma vez que o número destes vereadores é proporcional à população, a ponderação seria a adequada.
Este passaria a ser, a meu ver, o papel a desempenhar pelos vereadores. Quanto às câmaras propriamente ditas, deveriam ter executivos monocolores, com as assembleias municipais a funcionarem como parlamentos.
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Regionalização
2009/01/26
Na morte de Stella Piteira Santos
Recordo que o próprio Álvaro Cunhal reconheceu: se houve alguém com quem o PCP foi injusto, foi com ela e o seu marido Fernando.A ler mais sobre esta mulher excepcional nos blogues As Causas da Júlia, Abrupto, Artesão Ocioso e As Brumas da Memória, bem como o obituário no Público e um resumo biográfico numa edição de há dez anos do Expresso, por ocasião dos 25 anos do 25 de Abril, que coloco aqui.
Uma mulher de coragem
Foi locutora na emissora da Frente Patriótica de Libertação Nacional, em Argel, e destacada militante antifascista. Aos 82 anos, Stella Piteira Santos, recorda alguns episódios mais marcantes da sua vida na luta contra a ditadura, pela liberdade
Stella Piteira Santos PARTICIPOU na fuga de Pável, ajudou prisioneiros dos campos de concentração, conduziu Humberto Delgado na noite de Beja, foi perseguida, presa e exilada. Falamos de Stella Bicker, também conhecida como Stella Fiadeiro e, em mais de metade da sua vida, Stella Piteira Santos. Os refugiados portugueses de Argel chamavam-lhe, simplesmente, «a mãe Stella». «Amigos, Companheiros e Camaradas. Fala a Voz da Liberdade, emissora da Frente Patriótica de Libertação Nacional.» A voz tremeu-lhe, engasgou-se, quando disse estas palavras de abertura das emissões radiofónicas dos exilados portugueses em Argel. «Ainda hoje me comovo quando digo isto» , conta Stella Piteira Santos, a primeira locutora da «Voz da Liberdade», agora com 82 anos, mergulhada em memórias que ilustram grande parte da história da luta pela democracia.
Até chegarem a Argel e porem «no ar», em finais de 63, uma rádio de opositores ao regime salazarista, Stella e o marido, Fernando Piteira Santos, tinham feito um longo percurso, que incluiu praticamente a separação do casal. «As emissões eram gravadas num velho estúdio da rádio oficial da Argélia, e montadas pelo sistema do metro e tesoura» , recorda Manuel Alegre, que se juntou à FPLN após a prisão em Angola, continuando o trabalho iniciado por Stella aos microfones. As emissões que «fizeram história» foram: o primeiro directo, aquando da doença de Salazar, e uma entrevista a Amílcar Cabral. Alegre recorda que, em todas as iniciativas da FPLN e no apoio aos exilados, Stella estava presente e activa. «A sua casa era uma referência para todos nós. Ela era o laço familiar que se refazia, era a 'mãe' que tínhamos deixado, era a 'avó' dos meus filhos. Era a ela que recorríamos sempre que tínhamos problemas. E no exílio os problemas são muitos, até de sobrevivência. A mãe Stella, que além do mais era uma grande cozinheira, muitas vezes matou a fome à malta.» Mas como é que uma filha da burguesia, educada em colégio de freiras, se torna uma revolucionária, perseguida pela polícia política, presa e finalmente exilada?
«Enquanto eu for vivo, não sai nenhuma procissão à rua» , assim falava José Bernardo, o patriarca da família Sousa Correia, lavrador algarvio de pendor republicano e profundamente anticlerical. O facto é que só depois da sua morte os padres se atreveram a fazer desfilar um andor. Mas, na casa rural onde se centrava a vida da família, reinava um espírito de grande abertura. E, quando chegou a vez das netas, Maria Manuela e Maria Stella, o avô ateu fechou os olhos à educação religiosa.
Do pai médico, e mais tarde também advogado, Stella guarda fortes lembranças, não só da infância e adolescência, mas pelo papel que viria a desempenhar ao longo da sua vida de oposição ao regime (ele morre em 72 e, estando a filha no exílio, Marcello Caetano autoriza-a a vir ao funeral).
«O meu pai foi uma das pessoas que participaram no 5 de Outubro de 1910. Dei, há pouco, a pistola 'Sauvage' de que ele se serviu na revolução.»E o seu pai chegou a disparar? «Ah, sim. Disparou mesmo!» Aos cinco anos, aprende a ler e escrever em alemão. Além duma «Fräulein», uma professora portuguesa dá lições às duas irmãs. As meninas fazem a primeira instrução em casa. Depois, a «Fräulein» partiu e, para não perderem o que já sabiam, foram para a Escola Alemã. «Passados três anos, a minha mãe opôs-se. Disse que éramos portuguesas, devíamos ter uma educação em português.»
Entretanto, Stella e a irmã são internadas no Colégio das Doroteias, em Sintra, onde tiveram uma educação muito convencional e de cariz religioso. Ali fez as normais amizades de adolescentes, mas a maior parte delas acaba quando casa, aos 17 anos, com Inácio Fiadeiro. «Nesse tempo havia o costume de raparigas e rapazes telefonarem uns aos outros. Assim começou o namoro.» Depois de muitos telefonemas, Stella e Inácio quiseram conhecer-se pessoalmente. Marcaram encontro no Cinema Central, que então funcionava na «baixa». «Como não saíamos sozinhas, disse-lhe que iria com o meu avô e a minha irmã, expliquei como estaria vestida, que camarote ocuparíamos, etc.»
Inácio Fiadeiro, com 21 anos, estudante de Direito, era já conhecido da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE, antecessora da PIDE) pela sua militância política. Companheiro de Álvaro Cunhal, que será convidado para a boda, Fiadeiro, mais tarde, terá o seu escritório de advocacia lado a lado com o do pai do amigo, Avelino Cunhal.
«Casámos com toda a pompa, na Igreja do Campo Grande. Quatro damas de honor, vestido branco de longa cauda, grande copo-d'água... Depois fomos numa viagem de barco à Madeira.»
Passeio no Tejo: (1.ª fila, a contar da esquerda): Stella, Pilar Baptista Ribeiro, Soeiro Pereira Gomes; (2.ª fila): Inácio Fiadeiro, Ramos da Costa, Rui Grácio, Alves Redol e Maria Virgínia Com o casamento, Stella Bicker passa a chamar-se Stella Fiadeiro e a sua vida entrecruza-se com a de muitos militantes comunistas, numa época em que, segundo nos diz, «o PC estava muitíssimo desorganizado». Havia reuniões na casa dos Fiadeiro e, com os amigos, davam passeios de fragata pelo Tejo, onde discutiam a guerra civil espanhola, a política castradora de Salazar e cantavam «A Internacional».
Ao casar com Inácio, Stella começa a fazer parte dessa «geração que sabia que era uma geração». Em Álvaro Cunhal, Uma Biografia Política (I Volume), José Pacheco Pereira faz o retrato sociológico desses jovens, vindos de organizações de estudantes, de intelectuais, todos unidos pelo antifascismo, onde avulta «a figura muito magra, com ar de iluminado» de Cunhal, que vai tornar-se «o condutor».
Nessa época, a intimidade do casal Fiadeiro com Cunhal é de tal ordem que, ao nascer-lhes o primeiro filho, em 1938, o convidam para padrinho. A criança irá chamar-se António, numa homenagem a Francisco Paula de Oliveira (Pável), figura lendária dos primórdios do PCP, que usava o pseudónimo «António Bugio», e se encontrava preso e doente.
Nesses anos quentes a polícia política está particularmente activa. São inúmeras as prisões, com torturas - nalguns casos até à morte - e deportações para os Açores e o Tarrafal. A grande maioria dos companheiros «mergulha». Na prática, isso consiste em passar à clandestinidade Ao ser preso no início de 1938, Pável tenta incendiar o prédio onde vive, na Rua da Beneficência, a fim de ganhar tempo e destruir papéis comprometedores. Mais tarde conseguirá fugir da enfermaria da cadeia do Aljube, onde fora internado por a polícia temer que ele lhes morresse às mãos. Conta com a inesperada ajuda de um enfermeiro, Augusto Rodrigues, que em jovem fora comunista e agora era informador da PVDE mas se dizia decepcionado com os métodos utilizados pelos esbirros de Salazar. O enfermeiro dispõe-se a ajudá-lo na fuga, com a condição de o acompanhar na viagem para a URSS.
No plano de fuga e saída de Portugal, Stella participa activamente, com o marido e outros antifascistas. É ela uma das pessoas que está no carro estacionado nas traseiras do Aljube, esperando que Pável surja de uma clarabóia e desça pelas paredes do prédio. A sua missão é levá-lo para uma das casas da família, na Estrada de Benfica, onde preparara um esconderijo. Não teve medo de ser descoberta e presa? «Curiosamente, nunca tive medo físico. Penso que, naquela altura, trabalhávamos com tal amor, púnhamos tanto de nós nas coisas que fazíamos, que o medo, se existia, não dávamos por ele.» Pável acaba por fugir por outras vias mas aparece-lhe em casa de madrugada. Precisa de ajuda médica, pois ferira-se na fuga. «Ele estava em tal estado que não se lembrava sequer do nome da mãe», lembra Stella. Entretanto, Pável tenta chegar à URSS - onde se formara na Escola Leninista e tinha uma família, mulher e filho, a aguardá-lo - sem nunca o conseguir. Bloqueado no caminho, frustrado por não poder cumprir a palavra que dera ao enfermeiro Augusto de o levar consigo para a União Soviética, Pável acaba por rumar ao México. É de lá que, 40 anos depois, em Novembro de 1988, envia um poema a Stella.
Na Europa, é de novo a guerra. Após a derrocada dos republicanos de Espanha, começam a chegar a Portugal refugiados, sobreviventes de massacres, guerrilheiros escapados a pelotões de fuzilamento e, pouco depois, judeus fugidos à crescente ameaça nazi. Um grupo de mulheres antifascistas cria a Associação Feminina Portuguesa para a Paz, cuja missão era receber e ajudar os refugiados. O facto de Stella falar alemão foi providencial para os contactos, feitos maioritariamente com judeus da Alemanha. Com o desenrolar da guerra, a actividade da associação centra-se na ajuda aos prisioneiros e aos fugitivos dos nazis. «Enviávamos encomendas com roupa e comida para os campos de concentração. Não sei se chegaram aos destinatários, mas só uma delas nos foi devolvida, através da Cruz Vermelha. Suponho que a pessoa tivesse morrido.»
Em Lisboa, a associação pagava pensões para alojar refugiados, com ajuda de quotas e apoios de particulares. As «mulheres pela paz» estavam sob a mira da polícia secreta porque a paz, como se sabe, é sempre suspeita. «Não sabíamos bem como aquela polícia funcionava. Nunca fomos presas. Mas algumas de nós eram perseguidas, seguiam-lhes os passos.» O facto é que a PIDE encerra a Associação, numa fase em que esta era liderada por Maria Helena Pulido Valente. Stella passa a outra política de ajuda, uma organização feminina para apoio às famílias dos presos políticos portugueses.
Entretanto, acaba a guerra e acaba o casamento com Inácio Fiadeiro, destino natural de muitas das uniões sentimentais daquela geração que andava a abrir caminhos para o futuro. «Foi uma separação perfeitamente amigável, mas depois estive 40 anos sem lhe falar.» Stella ficou com os dois filhos - entretanto nascera Maria Antónia, por coincidência afilhada de Fernando Piteira Santos, que viria a ser o seu padrasto - e pela primeira vez na vida decide procurar emprego, «para não estar completamente dependente da ajuda dos pais».
O domínio do alemão é-lhe particularmente útil. Arranja colocação numa empresa alemã (ao todo, trabalhará em três firmas alemãs, a última das quais a Siemens) e recomeça a vida. Dois anos mais tarde, em 1948, casa com Fernando Piteira Santos. «Ele saiu da prisão dois meses antes. Como eu ajudava os presos políticos, estivemos sempre em contacto. Mas o nosso casamento nada teve a ver com os nossos divórcios.»
A vida do novo casal, Stella e Fernando Piteira Santos, foi sempre marcada por separações. «Como ele foi expulso do PCP em 52, deixou de contar com o apoio da rede clandestina do partido. Quando andava fugido da polícia, o que aconteceu durante anos, nunca nos víamos.» Com o telefone sob escuta, os passos seguidos, Stella rodeava-se de precauções. «Ele às vezes telefonava e dizia, 'Estás boa?', e eu desligava logo». Ficavam a saber que estavam ambos vivos e em liberdade, mas mais nada. «Aqueles primeiros anos de casamento foram de angústia. Havia normas rígidas de segurança. Quando o Fernando não estava preso e desaparecia, eu só podia procurá-lo dois dias depois.»
Fotos de Stella no arquivo da PIDE Certa vez, a separação foi muito longa. A jornalista Gina de Freitas, no seu livro A Força Ignorada das Companheiras, dedica um capítulo a Stella, que conta: «Quando foi da intentona de Beja, em que o meu marido tomou parte activa, a PIDE foi a nossa casa, onde ele felizmente já não estava porque se tinha ausentado na véspera. Durante nove meses não tivemos o mínimo contacto, pois ele estava na clandestinidade. De vez em quando recebia uma ou outra palavra, mas nunca o vi nem falei com ele. Tanto que durante um certo tempo nem sequer sabia se ele estava cá ou se já tinha saído de Portugal.»
O papel de Stella não foi meramente de espectadora da intentona de Beja. O general Humberto Delgado, que viera do exílio em Marrocos para «tomar o poder», desencontrara-se com o seu enviado e mentor do golpe, Manuel Serra, e não conseguia contactar os seus apoiantes - talvez por ser fim de ano, 31 de Dezembro de 1961. Chovia torrencialmente nessa noite e a PIDE farejava qualquer coisa «no ar». As portas de Lisboa estavam cercadas pela polícia. Quando Delgado já desesperava, o casal Piteira Santos disponibilizou-se para ajudá-lo a chegar a Beja. O plano incluía algumas mudanças de automóvel, como medida de precaução. Na primeira fase, Stella conduziu o general, até Porto Alto. Aí, Delgado mudou-se para o carro de Adolfo Ayala, seguindo para Beja, onde a cidade já se encontrava em pé de guerra. Na sequência do golpe, a PIDE desencadeia forte repressão sobre os mais conhecidos antifascistas. Para não ser de novo preso, Piteira Santos desaparece na sombra. Na caça aos clandestinos, a polícia secreta recorria a ciladas. Com Stella, são utilizados vários ardis, a ver se ela estabelece o fio de ligação ao marido, a viver algures, na mesma cidade, com outro nome e outras referências.
No dia 15 de Fevereiro de 1962, mês e meio após o «mergulho» de Piteira Santos, o telefone toca às 7h30 na casa de Stella. No melhor estilo conspirativo, uma voz feminina sussurra: «Não diga nada, oiça só o que vou dizer. O seu marido acaba de ser preso.» Stella desliga, sem falar. Sabe que é típico da PIDE atacar àquela hora, «a hora do padeiro», em que as pessoas estão estremunhadas e pouco preparadas para reagir adequadamente. Muitos antifascistas são presos ao acordar. Alguns têm a arma debaixo do travesseiro e nem se lembram de disparar. O telefonema pode ser apenas uma provocação, mas Stella também admite que possa tratar-se de uma informação verdadeira. Há que proceder com precaução. Faz três telefonemas. «Um para Mário Soares, porque tinha um almoço combinado com ele para esse dia, e outros para Lyon de Castro e João Sá da Costa, ambos editores e companheiros da luta antifascista. Todos são incomodados pela PIDE».
Nenhum desses fios conduz ao esconderijo de Piteira Santos, e a PIDE passa directamente ao ataque. Pouco depois, ao sair de casa acompanhada da filha, então com 18 anos e aluna da Faculdade de Letras, Stella é abordada por um pide, Abílio Pires. Na esquina, está estacionado um carro suspeito, cheio de agentes. Pires, que já a conhece das visitas às cadeias, diz-lhe: «Sra. D. Stella, faça o favor de me acompanhar, só para uns pequenos esclarecimentos.» Sabendo o que significava a detenção pela polícia política, Stella trata de pôr a salvo uma carta do marido, que tinha recebido por «correio secreto» e guardara na carteira, dentro de uma agenda. «Naquele momento o mais importante para mim era não deixar a carta cair nas mãos da PIDE.»
A filha, Maria Antónia Fiadeiro - jornalista que se distinguiu na defesa dos direitos das mulheres, hoje assessora principal do Ministério da Cultura - completa o relato: «Eu já estava na paragem de autocarro quando percebi que a minha mãe tinha sido abordada. Voltei para trás e disse ao pide que a queria acompanhar. Ele disse: 'A menina não complique as coisas, a sua mãe vem a casa almoçar.'». Mãe e filha tentam ganhar tempo. Stella diz-lhe que é dia de receber a pensão da Dona Leonilde (mãe de Piteira Santos, que vivia com o casal) e fazer alguns pagamentos, e despeja a carteira, com a preciosa agenda, dentro do saco escolar da filha. O pide Abílio intervém: «Isso é que não, quero a sua agenda.» Stella mete a mão no saco da filha, agarra a agenda, sacode-a para deixar cair a carta no interior, e guarda-na na mala. A carta estava a salvo. Stella, não.
Maria Antónia lembra-se de que nesse dia «foi como se de repente tivesse ficado adulta». A jovem tinha pela frente um exame de História Clássica; a mãe fora levada pela PIDE e não podia falar do assunto aos colegas; o padrinho, que amava como um pai, vivia escondido e não podia ser encontrado; em casa, sempre à espera de notícias, estava a Dona Leonilde, «a minha avó afectiva, com quem vivi desde os quatro anos», e a quem a verdade, por ser dura de mais, nunca podia ser contada por inteiro.
«Lembro-me dela receber postais do filho enviados de vários países, quando afinal ele estava em Portugal. Houve sempre a preocupação de protegê-la.»
Em Chrèa, na Argélia, num piquenique de exilados Stella, levada para a António Maria Cardoso, fica quatro dias de «estátua» (de pé, sem dormir nem se poder mexer). «No primeiro dia, recusei-me a comer, lembrando que me tinham garantido que iria almoçar a casa. Dizia-lhes: estou detida ou não? Só quando me informaram que estava oficialmente detida, voltei a comer, porque a partir daí não sabia quanto tempo estaria nas mãos deles.»
Entretanto, Maria Antónia contacta Mário Soares, para o informar da prisão da mãe e saber se, de facto, o padrasto fora preso. «O Mário Soares olha para mim muito sério e diz que só há uma pessoa que pode saber disso. Então, tomando as maiores precauções, mudando de táxi várias vezes, fui ter com essa pessoa. Toco à porta e não conheço quem me atende. Disse-lhe: 'Venho ter com o meu padrinho.' No interior da casa, ele ouviu a minha voz e mandou-me entrar.»
A primeira precaução foi tirar Piteira Santos daquele esconderijo e colocá-lo noutro lugar seguro. Nos dias seguintes, Maria Antónia insiste muito com os inspectores da PIDE para que a deixem falar com a mãe, incomunicável. «Os meus argumentos deviam parecer-lhes um bocado ingénuos, dizia-lhes que era muito nova para tomar conta da casa e de uma avó de 89 anos, que havia muito que fazer e eu não sabia como, precisava de orientação da minha mãe, etc.» O facto é que a deixaram ver a mãe, entretanto transferida para Caxias. «Dei-lhe um beijo na orelha, enquanto sussurrava 'o Fernando não foi preso'. Esta informação descansou-a.»
Seguiram-se mais 48 dias de reclusão para Stella. «Em Caxias, metem-me na cela onde estavam as presas do Comité Central do PCP, a Alda Nogueira, a Sofia Ferreira e a Cândida Ventura. Como a Cândida tinha sido mulher do Fernando, pensaram se calhar que nos íamos pegar as duas. E não. Demo-nos lindamente. A Cândida, que estava presa há muito tempo, sem notícias do exterior, queria saber tudo. Eu lá lhe ia dando as informações que tinha. Falávamos tanto, ao ponto da Alda Nogueira nos mandar calar, farta de nos ouvir.» Quase dois meses depois, Stella é libertada sob fiança, paga pelo pai, e proibida de sair do país. Entretanto, um pide visitou a Siemens, advertindo o chefe de pessoal que não deveria receber a funcionária de volta. «Mas ele foi impecável e, quando saí da prisão, tinha o meu emprego.» Stella ainda hoje não sabe por que é que a libertaram. O pai e os amigos influentes tinham exercido as pressões possíveis, mas a hipótese que lhe parece mais fiável é esta: «A PIDE deve ter pensado que, comigo em liberdade, conseguiria localizar o meu marido.»
Quando, após o 25 de Abril, Stella leu os ficheiros da polícia secreta, ficou admirada por ter sido seguida durante tanto tempo, sem dar por isso. «Verificavam todos os meus passos. Nunca pensei que fosse objecto de tal vigilância. Mas, como estava treinada para não deixar pistas, levava a minha vida normal e eles, através de mim, nunca chegariam ao Fernando.»
Como o cerco apertava, começou a congeminar maneiras de sair do país. Uma casual ida a Ayamonte deu-lhe a primeira ideia. Pediram-lhe a «autorização do marido» para passar a fronteira (uma lei humilhante, em vigor até 1969, proibia a saída de mulheres casadas sem permissão do marido). Foi um alerta. «Aprendi a imitar a assinatura do Fernando. Levei muitas horas a treinar, sem dizer nada a ninguém. Quando achei que estava bem, pedi ao meu pai para a reconhecer no notário. O notário reconheceu-a.» De três em três meses, Stella imitava a assinatura do marido e o pai levava-a ao notário. Nunca houve problemas no reconhecimento. Só o pai levantou a lebre: «Então tu dizes que não sabes do paradeiro do teu marido e ele assina os papéis?» Stella guardava o seu segredo.
Entretanto, o filho António, que vivia em Londres, anuncia-lhe o casamento e deseja a sua presença. Stella pede um passaporte, que foi recusado. Faz uma exposição ao ministro do Interior, em termos veementes, de mãe que não pode perder uma data tão marcante na vida do filho, e aguarda. O ministro procura informações no consulado de Portugal em Londres, onde lhe confirmam a entrada da documentação para o casamento, e mandou emitir o passaporte. «A minha ida a Londres poderia ter sido a saída para o exílio, mas não foi...» Combinara com a filha que esta lhe enviaria postais em nome de Stella Piteira Santos, caso o marido ainda estivesse no país, e de Stella Correia Ribeiro, se ele já tivesse saído. A Londres, três semanas depois, os postais continuavam a chegar em nome de Stella Piteira Santos. «Então voltei a Portugal e voltei a ser funcionária da Siemens.» O facto de ter saído de Portugal, e voltado, teria dado certa confiança à PIDE, do género «ela foi e voltou, cumpriu a sua palavra». Mas o plano de fuga estava em marcha.
Stella e Fernando Piteira Santos num desfile das comemorações do 25 de Abril «Havia uma mulher que era, e ainda é, tida como antifascista - não digo o nome porque a senhora está viva mas, se ler isto, saberá que é a ela que me refiro - que de repente se fez muito minha amiga. Começou a enviar-me bolos para Caxias - onde me puseram de sobreaviso quanto a ela - e, no dia em que fui libertada, veio cumprimentar-me.» Esta «amizade» inclui alguns almoços em casa da senhora, um passeio a Sintra, a disponibilização de uma casa de campo «se Stella quisesse encontrar-se com o marido», e outros mimos.
Num dos almoços, Stella, por vários sinais de nervosismo da dona da casa, desconfia que há alguém à escuta. Ela fá-la levantar-se da cadeira onde estava e sentar-se noutra, de costas para o terraço; quando Stella tenta correr as cortinas da casa de banho, que davam directamente para esse espaço, a dona da casa fica muito aflita e impede-a de o fazer, com uma desculpa esfarrapada; finalmente, a provocação vai ao ponto de, muito alto, na cozinha que dava acesso ao exterior, perguntar-lhe directamente: «Então, quando é que vai ter com o seu marido?» Com a calma possível, Stella comenta: «Eu?! Ir ter com o meu marido? Então a senhora acha que, com uma filha de 18 anos, uma sogra idosa, e o meu ordenado a fazer falta para elas viverem, eu iria ter com o meu marido? Nem pense nisso!» Depois, Stella convida-a para almoçar em sua casa, daí a duas semanas. «Penso que isto a tranquilizou, quanto à minha possível fuga.»
A confirmar que a «antifascista» - o «camaleão», na gíria, ou elemento infiltrado - tinha ligações à PIDE, Stella conta que, no passeio a Sintra, e desconfiada de que a «amiga» queria localizar uma casa que os Piteira Santos tinham em Venda Seca, a levou lá. «Mostrei-lhe a casa, disse-lhe que ali passávamos fins-de-semana, etc. Claro que só lá estava o caseiro.» A senhora insiste: «Mas esta casa não tem número, a rua não tem nome, como é que se chega aqui?» Stella explicou-lhe: basta passar o fontanário, contar as ruas, virar em tal parte, e é o terceiro portão. Simplesmente, enganou-a. O portão não era o terceiro, mas o quarto. E, numa madrugada, os pides irrompem pela «terceiro portão», arrancam da cama duas velhotas espantadas, e viram tudo do avesso. Só depois se apercebem do engano. Stella obtém assim a confirmação de que a «amiga» é informadora da PIDE. «Denunciei-a a duas pessoas, que não acreditaram. Portanto, não voltei a mencionar o nome dela.»
Está em andamento o plano de fuga. «Quando a convidei para almoçar em minha casa, queria apenas dar-lhe confiança e ganhar tempo. Já tinha tudo preparado para sair. Fui levando cestos de fruta, que vinham da quinta do Algarve, para casa da minha mãe. Os cestos só levavam fruta por cima e, por baixo, as minhas coisas.»
Antes de tentar passar a fronteira, Stella deixou dois postais. Um, para a «amiga», pedindo-lhe desculpa por não a poder receber em casa no dia previsto, porque tinha ido a Londres tratar-se de uma doença grave (um atestado médico, passado por um amigo, confirmava-o); outro, para a Siemens, a avisar que se ausentaria por tempo indeterminado. «Como devia passar a fronteira no Sábado, dei os postais à minha filha, pedindo-lhe para só os pôr no correio na Segunda-feira.»
Stella finalmente dirige-se à fronteira do Caia, rumo ao exílio, em Setembro de 1962, num carro-caravana do casal Lyon de Castro. «Eles habitualmente iam para férias naquela altura, não levantando suspeitas.» Na fronteira, Lyon de Castro deixa as duas mulheres no carro e leva os três passaportes à polícia, incluindo a autorização de Piteira Santos para Stella sair do país. «Passou mais de meia hora. Eu cravei as unhas nas mãos até fazer sangue.» Como tudo parecia estar em ordem, deixaram-nos seguir.
«Lyon de Castro levou-me até à fronteira francesa, aí apanhei o comboio para Paris. Estive dois meses em França sem que o meu marido, que estava em Marrocos, soubesse. Eu não queria que ele soubesse, com receio de que me pedisse para voltar atrás, para não deixar a filha e a mãe sozinhas. Mas eu tinha decidido que queria viver com ele o resto da minha vida.»
Apoiada por outros exilados, a estada de Stella em França foi «mais bem guardada que muitos segredos de Estado». Piteira Santos, que todas as semanas telefonava para os camaradas de Paris, só soube que a mulher se encontrava lá quando desembarcou no aeroporto. Ficou zangado? «Um pouco. Foi difícil, a princípio, muito difícil...» Stella e Fernando estiveram em Paris alguns meses, durante a organização da Frente Patriótica de Libertação Nacional, e depois seguiram para Argel, onde lhes tinham sido oferecidas condições de permanência e continuação do trabalho político. «Ficámos até ao 25 de Abril.»
Manuel Alegre, que os acompanhou neste percurso, conta que uma das frustrações foi ter-lhes sido pedido para não entrarem em Portugal antes de 2 de Maio de 1974, para evitar confrontações com outras forças políticas durante a manifestação do Dia do Trabalhador. Maria Antónia Fiadeiro, que fora a Espanha buscá-los, com bilhetes de avião, regressa sozinha, e triste.
Stella, que viera de comboio, também só entra em Portugal no dia seguinte à manifestação. O casal Piteira Santos finalmente vive em liberdade no seu próprio país. Até 92, ano em que morre o marido, participam ambos em inúmeras actividades políticas. Depois, Stella continua sozinha o seu percurso. «Não recuso nenhum convite para falar do fascismo e do que ele fez aos portugueses.» Afinal, ela sabe bem do que está falando.
Texto de ÂNGELA CAIRES
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Esquerda
2009/01/23
O João faz falta (2)
Só faltou ele dizer que é engenheiro aeroespacial... do Técnico! Para castigo, este texto leva a etiqueta "LEFT". No fundo o João deveria ter andado na LEFT.
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