2009/01/23
Café com Blogues
Já se pode ouvir na rede o último programa onde eu, o Luís Aguiar Conraria e o Gabriel Silva falamos do Cristiano Ronaldo, do caso Esmeralda, das declarações de D. José Policarpo e do conflito israelo-palestiniano.
Etiquetas:
Blogues
2009/01/22
O plano de estímulo de Obama deve incluir ciência
O meu guru (científico) David Gross é o co-autor deste artigo no Financial Times onde defende que o plano de estímulo à economia de Barack Obama deve necessariamente incluir um substancial aumento no financiamento público da ciência. À atenção dos governantes (e críticos) americanos... e europeus!
Cheguei a este texto através do Ars Physica, um blogue a que cheguei por acaso (através de uma pesquisa no Google) e que considero o melhor blogue de Física em português (pelo menos). É (muito bem) escrito por vários estudantes de doutoramento brasileiros (um deles no mesmo instituto onde eu me doutorei). Um blogue a seguir.
Cheguei a este texto através do Ars Physica, um blogue a que cheguei por acaso (através de uma pesquisa no Google) e que considero o melhor blogue de Física em português (pelo menos). É (muito bem) escrito por vários estudantes de doutoramento brasileiros (um deles no mesmo instituto onde eu me doutorei). Um blogue a seguir.
2009/01/21
Obamei!
Nunca dei demasiada atenção às campanhas eleitorais dos países onde vivi (exceptuando o referendo europeu em França em 2005). A razão (mesmo para esta excepção) é simples: só me diziam respeito muito indirectamente, por lá viver. Mas eu não votaria, pelo que a campanha não me afectaria. Acompanhava as campanhas somente pelo interesse de ver como se faz política nestes países, e não mais do que isso. Tinha colegas meus que viam discursos, liam livros e panfletos. Nunca me dei muito a esse trabalho.
Só ontem comecei realmente a prestar a atenção devida a Obama, ao ouvi-lo como presidente dos EUA. Agora, sim, o que ele diz diz-me (e muito) respeito. Pode ser uma descoberta tardia, quando comparado com outros blógueres, mas gostei. Fiquei rendido. Que a acção de Obama corresponda à sinceridade e à esperança que emana do seu discurso, é o que eu lhe desejo. Boa sorte, América!
Quanto ao concerto antes da tomada de posse, gostei de ouvir Bono, dos U2, a referir que "In The Name Of Love" é o desejo de israelitas... e palestinianos. Naquele país é preciso coragem para referir os palestinianos. Tivesse-os Bono omitido e ninguém acharia estranho.
Adenda: Leiam o André Abrantes Amaral, num texto com dois anos.
2009/01/20
Um americano comum
No rescaldo do discurso de despedida de George W. Bush, não faltou um comentador na SIC Notícias a reafirmar a "arrogância" do ex-presidente americano. "Arrogância" por não reconhecer os seus erros. Oito anos e não percebem nada. Bush não passa, nunca passou, de um americano médio. A atracção que exerceu nos momentos da eleição em grande parte do povo americano tem justamente a ver com isso. Um homem inculto como um americano médio, que faz asneiras e comete erros como um americano médio. E que nunca se dá por vencido... como um americano (médio ou não, isso não importa) não se dá. Para um americano médio, Bush pode ser estúpido mas não é um loser. É isso que conta.
Nunca vi nenhum tique de arrogância em George W. Bush. (As acusações de "arrogante", por parte do americano médio, caíam sempre sobre os rivais democratas, primeiro Gore e depois Kerry, que manifestamente não tinham paciência para aturar um rival daquele calibre intelectual.) Nem mesmo no seu momento de despedida. Bush é um homem genuíno. Genuinamente estúpido, mas genuíno. O comentador da SIC Notícias e todos os outros que achavam Bush arrogante deveriam convencer-se que, se calhar, acham é arrogantes os americanos todos.
Nunca vi nenhum tique de arrogância em George W. Bush. (As acusações de "arrogante", por parte do americano médio, caíam sempre sobre os rivais democratas, primeiro Gore e depois Kerry, que manifestamente não tinham paciência para aturar um rival daquele calibre intelectual.) Nem mesmo no seu momento de despedida. Bush é um homem genuíno. Genuinamente estúpido, mas genuíno. O comentador da SIC Notícias e todos os outros que achavam Bush arrogante deveriam convencer-se que, se calhar, acham é arrogantes os americanos todos.
2009/01/19
As discussões no Jugular
Refiro-me à troca de textos entre o Vasco Barreto, a Palmira Silva e o João Galamba. A discussão, sobre uma suposta "religiosidade recauchutada" associada à ciência, tem sido do melhor que se tem lido nestes dias. Destaco sobretudo os textos
Uma discussão imperdível. Parabéns aos seus intervenientes.
e os respectivos comentários. Tomo a liberdade de transcrever aqui um, da autoria do conhecido comentador viana (como resposta ao João Galamba, de quem são as citações):
"Se por religiosos entendermos aquelas pessoas que acham que existe uma ordem natural das coisas — uma realidade objectiva, uma verdade que a que o homem se deve submeter — então a demanda 'existencial' da ciência não passa de religião recauchutada"
Há aqui uma grave incompreensão do que é e o que pretende a Ciência. Todos acreditamos. Constantemente. Em particular, que existe uma ordem ou causalidade inerente à realidade. Era impossível funcionarmos se não fosse assim. Acreditamos que o Sol vai nascer amanhã, que o chão não vai desaparecer debaixo dos meus pés quando der o próximo passo, que se não me desviar daquele carro que vem na minha direcção sou atropelado. O João acredita, espero, nisto tudo. Quer queria quer não acredita na existência de causalidade numa realidade ("objectiva", fisicamente percepcionada) que o circunda. Se reduzirmos a religiosidade a uma mera crença numa ordem natural, numa realidade "objectiva", na existência de explicações causais, então somos todos religiosos (inclusivé os cientistas, e não apenas porque acreditam na causalidade). Até os animais seriam religiosos (pois ajem como tal). Portanto, ser religioso não é apenas o que o João afirma. A diferença essencial, na minha opinião, é que alguém religioso acredita sem sustentação empírica. Poderia ser ainda mais restritivo: é religioso em particular quem age com base em crenças (sem sustentação empírica) relacionadas através dum sistema (segundo esta definição, por exemplo quem acredita numa entidade divina, mas nada faz como resultado dessa crença - ex não reza, e não tem qualquer outro tipo de crença associada - ex que há um profeta, não é religioso).
A Ciência, pelo contrário, pretende encontrar sustentação empírica para todas as "crenças" que constituem o "conhecimento científico." É uma diferença radical. Mas a razão de ser da Ciência e da Religião é a mesma: explicar a realidade. A sobreposição da Ciência e da Religião, quanto à motivação, é óbvia quando olhamos para as religiões mais primitivas, do tipo animista. Mas à medida que a explicação empírica da realidade foi ganhando consistência, a religião foi recuando cada vez mais. Com Copérnico, Newton, Darwin, Freud, Einstein...
"No fundo, pretende simplesmente encontrar algo que nos diga como o mundo é, aliviando-nos da responsabilidade de existir."
Nada na Ciência é desresponsabilizante. Pelo contrário, com informação, conhecimento, vem responsabilidade. Se nada sei, nada posso fazer com objectivo, e portanto posso ser completamente irresponsável. "Não sabia que a ponte que desenhei podia cair, portanto não sou responsável. Não sabia que expôr uma criança a filmes violentos era para ela traumático, por isso não sou responsável." Nada na Ciência induz à inacção, ou alivia. Copérnico, Darwin, Freud, Einstein, induziram e induzem muita angústia existencial. Não me parece assim que o conhecimento científico alivie de algo modo a responsabilidade de existir.
"Isto não pretende desvalorizar a biologia, mas apenas rejeitar a utilidade de um entendimento naturalistico do homem. Por outras palavras: defendo a irredutibilidade da cultura à natureza."
A discussão do "nurture vs. nature", que vem no esteio da ascensão da sociobiologia, é velha e estéril. A maior parte dos cientistas (biólogos, psicólogos, sociólogos) e filósofos envolvidos aceita hoje que quer a biologia quer a cultura participam na construção do que qualquer ser humano é. Rejeitar a influência da biologia na cultura contradiz o que é óbvio, e portanto de certo modo equivale a uma crença religiosa (experimente substituir "defendo a" por "creio na").
"Se quiseres, a pretensão da ciência em transformar-se em cientismo (em algo que desacredita a verdade da religião) é, por muito que o negue, uma nova forma de teologia."
A Ciência não tem essa pretensão, e apenas indirectamente desacredita a religião, pois não é esse o seu objectivo. O que acontece é que a Ciência progressivamente tem vindo a disponibilizar explicações alternativas às da religião, as quais "fazem mais sentido" para o ser humano comum (porque baseadas em constatações empíricas). E portanto este necessita cada vez menos da religião para compreender a realidade que o circunda.
Uma discussão imperdível. Parabéns aos seus intervenientes.
2009/01/16
Acabou o SEXTA
Confirma-se: a publicação do semanário gratuito SEXTA foi suspensa. De acordo com as informações oficiais, o semanário não resistiu à crise económica e ao desinvestimento no mercado publicitário. Quando surgiu era o melhor gratuito, algo a que ser também publicado como suplemento do PÚBLICO não seria alheio. Mas para o fim a quebra de qualidade era evidente (depois do verão deixou mesmo de ser distribuído com o PÚBLICO e A BOLA). Vou ter saudades do SEXTA original, um suplemento bem feito e informativo. Vou ter saudades de ler o João Palma, meu camarada na redacção do PÚBLICO durante o meu estágio como jornalista científico. Alguém pode dizer-me onde posso continuar a ler o João Palma?
Etiquetas:
Jornais
Jovem português desaparecido
O Afonso Tiago desapareceu em Berlim, sexta-feira passada. A notícia já está nos jornais e nos blogues. Se alguém tiver quaisquer informações sobre o Afonso Tiago informe os autores deste blogue, expressamente criado para o efeito. Mesmo que não tenha informações, pode ajudar divulgando este pedido.
Etiquetas:
Blogues
2009/01/15
"A guerra contra Gaza já estava na agenda"
Artigo de José Goulão no Le Monde Diplomatique
Para entender o que está a passar-se actualmente em Gaza é necessária muito mais informação do que a proporcionada pela chusma de comentadores instantâneos que invadem as rádios e televisões e pelos enviados ou residentes que, não conseguindo entrar na faixa invadida, se conformam em ser veículos bisonhos, acomodados e passivos da realidade fabricada no Estado-Maior israelita. Ao menos podiam dar conta de episódios das importantes manifestações internas israelitas contra a guerra, mas parece que isso poderia parecer uma perigosa dissonância. É natural concluir-se que, tal como a agressão militar tem vido a ser preparada há mais de seis meses, também a correspondente acção de propaganda foi montada durante o mesmo período.
A primeira vez que estive em Gaza foi em Fevereiro de 1988. A primeira Intifada começara pouco mais de dois meses antes precisamente naquele território ocupado, com uma dinâmica e persistência que surpreendeu a própria Resistência Nacional Palestiniana dirigida pela Organização de Libertação da Palestina (OLP).
Nessa altura o Hamas não era mais do que um grupinho fundamentalista inspirado nos Irmãos Muçulmanos, organização fundada no Egipto em 1928, que se dedicava a agitação religiosa e alguma assistência social. Em 1988, porém, o Hamas foi ganhando fôlego, pretendendo distinguir-se pela chama revolucionária, decretando greves gerais e acções de resistência próprias que nunca convergiam com as desencadeadas pelas direcções da Intifada e da OLP. O Hamas actuava, visivelmente, como uma organização divisionista, potencialmente perturbadora da mobilização popular.
Hoje, apesar de o pudor ou o desconhecimento impedirem comentadores e enviados ou residentes de se debruçarem sobre tal facto, já não é novidade que os serviços secretos israelitas, a Mossad, tiveram um papel determinante no relançamento e engrandecimento do Hamas. Tal foi reconhecido mesmo por ex-ministros israelitas e está profusamente demonstrado por informação disponível na Internet. Nem dá muito trabalho.
Essa foi a génese do Hamas que hoje conhecemos. Como atingiu as dimensões actuais? Sempre à sombra da guerra e do boicote aos processos de negociações conduzido pelos governos de Israel e as administrações norte-americanas - primeiro mediadoras do processo de Oslo e depois as cabeças de cartaz do falecido Quarteto (Estados Unidos, Rússia, União Europeia e Nações Unidas), que já nascera moribundo.
Quando se iniciou a Autonomia Palestiniana como processo transitório para um Estado independente e Yasser Arafat regressou à Palestina, no Verão de 1994, a voz do Hamas mal se ouvia. As populações palestinianas dos territórios estavam em festa e acreditavam no bom desfecho de todo o processo.
Shimon Peres, Benjamin Netanyahu, Ehud Barak, Ariel Sharon e Ehud Olmert, mais Bill Clinton e, sobretudo, George W. Bush foram inviabilizando paulatinamente as negociações israelo-palestinianas, assumissem as formas que assumissem, enquanto a Fatah (força dominante da OLP) e a Autoridade Palestiniana se foram enrodilhando na falta de alternativas estratégicas às negociações.
Essas foram assumidas pelo Hamas, que capitalizou gradualmente o descontentamento popular, mesmo de vastos sectores não religiosos ou religiosos não radicais, até se transformar na maior organização da Resistência e ganhar as eleições gerais palestinianas de 2006. O não reconhecimento do governo do Hamas pelos Estados Unidos, Israel e o mundo em geral - nem mesmo em aliança com a Fatah - poupou o movimento islâmico ao desgaste do exercício do poder e de ser forçado a actuar no terreno em vez de privilegiar a propaganda nas mesquitas e a mobilização paramilitar.
Quando a Fatah e o Hamas chegaram ao limiar da guerra civil, em 2007, o grupo islâmico assumiu o controlo de Gaza, enquanto Israel aproveitava a ocasião para impor um rigoroso bloqueio humano e de bens essenciais ao território. Em fase de plena construção do muro que fracciona a Cisjordânia em autênticos bantustões, a balcanização dos territórios palestinianos aprofundou-se.
A tomada de Gaza pelo Hamas terá surpreendido o mundo, mas não os dirigentes de Israel. Basta conhecer o Plano Dagan.
Meir Dagan é o chefe da Mossad, reconduzido por sucessivos governos israelitas desde o início do século. Ele idealizou uma estratégia de actuação que se tornou a cartilha de Ariel Sharon praticamente desde que este ressurgiu em força com a mediática invasão da Esplanada das Mesquitas em 2000, tolerada pelo então chefe do governo, Ehud Barak (o ministro que agora conduz a agressão a Gaza), e que inviabilizou a possibilidade iminente de palestinianos e israelitas se entenderem nas negociações de Taba, no Egipto.
Percorramos, em síntese, alguns passos previstos no Plano Dagan. A operação «Vingança Justificada» tinha como objectivo enfraquecer, tornar maleável ou mesmo destruir a Autoridade Palestiniana. Sahul Mofaz, enquanto ministro da Defesa, apresentou-a com o título «A destruição da Autoridade Palestiniana e o desarmamento de todas as forças armadas». Isso, contudo, não impediu Israel e os Estados Unidos de fornecerem armas à Fatah na fase em que incentivavam a guerra civil entre os dois principais movimentos palestinianos. Entretanto, Israel exige agora o desarmamento do Hamas como pressuposto para um cessar-fogo.
Outro ponto do Plano Dagan era o desaparecimento de cena de Yasser Arafat (um velho objectivo de Sharon desde a invasão do Líbano em 1980) e a sua substituição por uma direcção da Autoridade Palestiniana mais colaborante com Israel. Um objectivo como este mantém acesa a tese do assassínio do histórico dirigente palestiniano. A balcanização dos territórios palestinianos, o lançamento de vagas de terror contra as populações e o bloqueio de Gaza são outros aspectos do plano. Sem esquecer que, quando estava prestes a ser acordada a trégua de meados de 2008 em Gaza, Ehud Barak notificou as Forças Armadas para prepararem uma operação de grande envergadura contra este território para desencadear daí a alguns meses. Lendo o Plano Dagan não é de descartar que em alguma fase deste processo Israel abra uma «válvula de escape» em Gaza para que haja uma fuga em massa - limpeza étnica é a expressão correcta -, eventualmente para a Jordânia, atendendo ao comportamento actual do Egipto. Neste contexto é natural que venham à memória as conhecidas palavras de Ariel Sharon: «Não é necessário criar outro Estado palestiniano. A Jordânia é a Palestina».
Para entender o que está a passar-se actualmente em Gaza é necessária muito mais informação do que a proporcionada pela chusma de comentadores instantâneos que invadem as rádios e televisões e pelos enviados ou residentes que, não conseguindo entrar na faixa invadida, se conformam em ser veículos bisonhos, acomodados e passivos da realidade fabricada no Estado-Maior israelita. Ao menos podiam dar conta de episódios das importantes manifestações internas israelitas contra a guerra, mas parece que isso poderia parecer uma perigosa dissonância. É natural concluir-se que, tal como a agressão militar tem vido a ser preparada há mais de seis meses, também a correspondente acção de propaganda foi montada durante o mesmo período.
A primeira vez que estive em Gaza foi em Fevereiro de 1988. A primeira Intifada começara pouco mais de dois meses antes precisamente naquele território ocupado, com uma dinâmica e persistência que surpreendeu a própria Resistência Nacional Palestiniana dirigida pela Organização de Libertação da Palestina (OLP).
Nessa altura o Hamas não era mais do que um grupinho fundamentalista inspirado nos Irmãos Muçulmanos, organização fundada no Egipto em 1928, que se dedicava a agitação religiosa e alguma assistência social. Em 1988, porém, o Hamas foi ganhando fôlego, pretendendo distinguir-se pela chama revolucionária, decretando greves gerais e acções de resistência próprias que nunca convergiam com as desencadeadas pelas direcções da Intifada e da OLP. O Hamas actuava, visivelmente, como uma organização divisionista, potencialmente perturbadora da mobilização popular.
Hoje, apesar de o pudor ou o desconhecimento impedirem comentadores e enviados ou residentes de se debruçarem sobre tal facto, já não é novidade que os serviços secretos israelitas, a Mossad, tiveram um papel determinante no relançamento e engrandecimento do Hamas. Tal foi reconhecido mesmo por ex-ministros israelitas e está profusamente demonstrado por informação disponível na Internet. Nem dá muito trabalho.
Essa foi a génese do Hamas que hoje conhecemos. Como atingiu as dimensões actuais? Sempre à sombra da guerra e do boicote aos processos de negociações conduzido pelos governos de Israel e as administrações norte-americanas - primeiro mediadoras do processo de Oslo e depois as cabeças de cartaz do falecido Quarteto (Estados Unidos, Rússia, União Europeia e Nações Unidas), que já nascera moribundo.
Quando se iniciou a Autonomia Palestiniana como processo transitório para um Estado independente e Yasser Arafat regressou à Palestina, no Verão de 1994, a voz do Hamas mal se ouvia. As populações palestinianas dos territórios estavam em festa e acreditavam no bom desfecho de todo o processo.
Shimon Peres, Benjamin Netanyahu, Ehud Barak, Ariel Sharon e Ehud Olmert, mais Bill Clinton e, sobretudo, George W. Bush foram inviabilizando paulatinamente as negociações israelo-palestinianas, assumissem as formas que assumissem, enquanto a Fatah (força dominante da OLP) e a Autoridade Palestiniana se foram enrodilhando na falta de alternativas estratégicas às negociações.
Essas foram assumidas pelo Hamas, que capitalizou gradualmente o descontentamento popular, mesmo de vastos sectores não religiosos ou religiosos não radicais, até se transformar na maior organização da Resistência e ganhar as eleições gerais palestinianas de 2006. O não reconhecimento do governo do Hamas pelos Estados Unidos, Israel e o mundo em geral - nem mesmo em aliança com a Fatah - poupou o movimento islâmico ao desgaste do exercício do poder e de ser forçado a actuar no terreno em vez de privilegiar a propaganda nas mesquitas e a mobilização paramilitar.
Quando a Fatah e o Hamas chegaram ao limiar da guerra civil, em 2007, o grupo islâmico assumiu o controlo de Gaza, enquanto Israel aproveitava a ocasião para impor um rigoroso bloqueio humano e de bens essenciais ao território. Em fase de plena construção do muro que fracciona a Cisjordânia em autênticos bantustões, a balcanização dos territórios palestinianos aprofundou-se.
A tomada de Gaza pelo Hamas terá surpreendido o mundo, mas não os dirigentes de Israel. Basta conhecer o Plano Dagan.
Meir Dagan é o chefe da Mossad, reconduzido por sucessivos governos israelitas desde o início do século. Ele idealizou uma estratégia de actuação que se tornou a cartilha de Ariel Sharon praticamente desde que este ressurgiu em força com a mediática invasão da Esplanada das Mesquitas em 2000, tolerada pelo então chefe do governo, Ehud Barak (o ministro que agora conduz a agressão a Gaza), e que inviabilizou a possibilidade iminente de palestinianos e israelitas se entenderem nas negociações de Taba, no Egipto.
Percorramos, em síntese, alguns passos previstos no Plano Dagan. A operação «Vingança Justificada» tinha como objectivo enfraquecer, tornar maleável ou mesmo destruir a Autoridade Palestiniana. Sahul Mofaz, enquanto ministro da Defesa, apresentou-a com o título «A destruição da Autoridade Palestiniana e o desarmamento de todas as forças armadas». Isso, contudo, não impediu Israel e os Estados Unidos de fornecerem armas à Fatah na fase em que incentivavam a guerra civil entre os dois principais movimentos palestinianos. Entretanto, Israel exige agora o desarmamento do Hamas como pressuposto para um cessar-fogo.
Outro ponto do Plano Dagan era o desaparecimento de cena de Yasser Arafat (um velho objectivo de Sharon desde a invasão do Líbano em 1980) e a sua substituição por uma direcção da Autoridade Palestiniana mais colaborante com Israel. Um objectivo como este mantém acesa a tese do assassínio do histórico dirigente palestiniano. A balcanização dos territórios palestinianos, o lançamento de vagas de terror contra as populações e o bloqueio de Gaza são outros aspectos do plano. Sem esquecer que, quando estava prestes a ser acordada a trégua de meados de 2008 em Gaza, Ehud Barak notificou as Forças Armadas para prepararem uma operação de grande envergadura contra este território para desencadear daí a alguns meses. Lendo o Plano Dagan não é de descartar que em alguma fase deste processo Israel abra uma «válvula de escape» em Gaza para que haja uma fuga em massa - limpeza étnica é a expressão correcta -, eventualmente para a Jordânia, atendendo ao comportamento actual do Egipto. Neste contexto é natural que venham à memória as conhecidas palavras de Ariel Sharon: «Não é necessário criar outro Estado palestiniano. A Jordânia é a Palestina».
Etiquetas:
Médio Oriente
2009/01/14
O senhor que se segue?
Depois do anúncio da retirada de Filipe Soares Franco, começa a interrogação sobre quem será candidato à sua sucessão. Um cenário de pesadelo seria um duelo Rogério Alves - Sérgio Abrantes Mendes, como era de prever e foi anunciado como rumor na comunicação social. Felizmente, tal ideia parece estar a ser afastada...
Etiquetas:
Sporting
2009/01/13
2009/01/12
Não há «israelitas» nem «palestinianos»
Artigo de António Vilarigues no Público de 9 de Janeiro. Tomo a liberdade de o reproduzir aqui, pois considero que sumariza muito bem tudo o que está em questão no conflito israelo-palestiniano.
Em 1947, a ONU aprova um plano de partilha da Palestina em dois estados: um judaico, com um milhão de habitantes, 510 mil dos quais árabes; um árabe, com 814 mil habitantes, 10 mil dos quais judeus.
Jerusalém, cidade santa para três religiões, ficaria com estatuto de cidade internacional. Segundo as estimativas da época, a população árabe da Palestina era de um milhão e 300 mil pessoas e a judaica rondava o meio milhão.
A 15 de Maio de 1948, David Ben Gurion proclama o nascimento do Estado de Israel. Com uma fronteira radicalmente diferente da aprovada pela ONU. Com um território um terço superior ao acordado. A "Grande Israel" estava em marcha. O Estado Palestiniano era um nado-morto. Até hoje!
No seguimento destes acontecimentos, a ONU aprova, em 1949, a Resolução 194, que decide permitir aos refugiados que o desejem o regresso às suas casas com direito a compensações pela destruição dos seus bens. Só que em 1948, David Ben Gurion, então primeiro-ministro, declarou: "Devemos impedir o seu regresso a qualquer preço". Hoje são mais de três milhões.
Na sequência da Guerra dos Seis Dias, em 1967, Israel ocupa o resto da Palestina (Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém-Leste). Ao arrepio da Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU, nesse mesmo Verão a colonização dos territórios ocupados começa com a construção de novos colonatos. Lucidamente, David Ben Gurion defende a não colonização, prevendo as consequências da transformação do seu país em potência ocupante. Hoje existem mais de 200 mil colonos instalados em colonatos nos territórios ocupados.
Esta é a raiz real e profunda do conflito. Só com a retirada do exército israelita para as posições anteriores às ocupações de 1967 e a destruição do muro; só com o desmantelamento de todo o sistema de colonatos israelitas; só com o fim do cerco a Gaza; só com a solução da questão dos refugiados palestinianos de acordo com as resoluções da ONU, só com o reconhecimento do direito do povo palestiniano à edificação do seu Estado, livre, independente e viável com capital em Jerusalém Leste, lado a lado com Israel; só verificadas todas estas condições é que poderemos falar de uma real paz justa e duradoura na região.
Em Israel e no campo palestiniano todos os intervenientes políticos o sabem. Dos dois lados há quem lute consequentemente por esta solução. Dos dois lados há quem a procure destruir e inviabilizar.
A chamada comunidade internacional omite que, quer na sociedade israelita, quer na sociedade palestiniana, há forças sociais e políticas bem diferenciadas. Esconde que há radicais dos dois lados da barricada. E moderados. E forças consequentes. Fala do terrorismo palestiniano, que é real. Mas aceita de bom grado chefes de Governo terroristas (Begin, Shamir, Sharon) que afirmam alto e bom som que primeiro há que matá-los (os palestinianos) para só depois negociar. Que proclamam que a Palestina é a Jordânia. Aceita governos de Israel onde participam partidos, com vários ministérios, que, em palavras e actos, negam TODOS os direitos aos palestinianos.
Há quem seja incapaz de ver os acontecimentos de forma diferente da redutora divisão entre bons de um lado e maus de outro. Felizmente há outros exemplos. Como o professor Richard Falk, relator especial do Conselho dos Direitos Humanos da ONU. Como Daniel Barenboim e Mariam Said, os promotores da paz através da música. Como o PC de Israel e a Frente Democrática para a Paz e a Igualdade que nestes dias se reuniram em Ramalah com representantes de facções da esquerda palestiniana, incluindo a Frente Democrática para Libertação da Palestina, a Frente Popular para a Libertação da Palestina e o Partido do Povo Palestino (comunistas). Como os militares que se recusam a disparar e a bombardear a Palestina. Como tantos e tantos outros que em Israel e na Palestina defendem um processo de paz genuíno. O trágico, dizem, é que isto é possível. Só é preciso querer.
Etiquetas:
Médio Oriente
2009/01/09
Está a nevar!
A neve cai e acumula-se. Vi-a logo de manhã, em casa. Vejo-a do gabinete. Cada vez mais intensa.
Nunca tinha visto neve a cair em Portugal. Foi preciso vir para Braga.
Até me sinto num país desenvolvido.
Nunca tinha visto neve a cair em Portugal. Foi preciso vir para Braga.
Até me sinto num país desenvolvido.
Etiquetas:
Pessoal
2009/01/08
Novos blogues (1)
Pacheco Pereira sentenciou: o delito de opinião existe em Portugal. Alguns dos seus maiores fãs e mais fiéis seguidores, como o Pedro Correia, o Adolfo Mesquita Nunes e outra gente boa, decidiram dar razão ao mestre, criando... o Delito de Opinião. Boa sorte à equipa e boas postagens.
Outros blogues não tão novos mas que descobri recentemente são o Em Órbita, do Nuno Pinho, e o A Pente Fino, um blogue com um conceito original e cuja leitura recomendo a todos os jornalistas.
Outros blogues não tão novos mas que descobri recentemente são o Em Órbita, do Nuno Pinho, e o A Pente Fino, um blogue com um conceito original e cuja leitura recomendo a todos os jornalistas.
Etiquetas:
Blogues
2009/01/07
A arte e os seus críticos; a ciência e os seus inimigos
Não quero manter aberto este tema por muito tempo: para mim, o Cinco Dias é página virada. Tenho pena de ter saído (gosto muito de alguns dos blógueres que fazem o Cinco Dias), mas apesar de não simpatizar com corporativismos não poderia continuar num blogue onde um indivíduo inclassificável faz um ataque a uma classe e se julga no direito de designar e distinguir "verdadeiros cientistas" de supostos "empregados da ciência". Se eu for "empregado da ciência", sê-lo-ei com muita honra; espero que Carlos Vidal, assistente da Faculdade de Belas Artes, seja pelo menos um digno empregado da arte. Não tenho a certeza. Entretanto faço notar as questões pertinentes colocadas por Sérgio Lavos e agradeço as palavras simpáticas.
Etiquetas:
Blogues
2009/01/06
"Afinal o amor pode durar para sempre"
Não é todos os dias que encontro referências à universidade onde me doutorei nos jornais portugueses. E que pensará o João Galamba deste tipo de estudos?
Etiquetas:
Ciência
2009/01/05
"Se a Europa se cala, que falem os europeus!"

5 de Janeiro, 18 horas, Largo de S. Domingos (Rossio) Lisboa
8 de Janeiro, 18 horas, Embaixada de Israel, R. António Enes, Lisboa
(via Arrastão).
Etiquetas:
Médio Oriente
2009/01/02
Resolução de Ano Novo
Carlos Vidal não tem aquele dom tipicamente bushista (e de que eu tanto gosto) da transparência – “I mean what I say and I say what I mean”, como diria a desbocada matriarca Barbara (ou pelo menos a sua caricatura do Conan O’Brien). Vidal brindou-nos durante uma ou duas semanas com textos sobre a temática da arte “que não é para toda a gente”. Apontei algumas contradições nesses textos, mas escapou-me na altura a mais óbvia: dizer que algo não deve ser acessível a todos é a melhor maneira de despertar curiosidade sobre esse algo. É um recurso do artista que nos quer provocar. No fundo, o homem só quer que a gente ligue alguma coisa ao que ele escreve, e fica nitidamente nervoso se não lhe prestam a atenção de que se julga merecedor: recorde-se por exemplo até que ponto ele chegou só porque o Daniel Oliveira não lhe respondeu a um comentário no blogue.
A melhor coisa a fazer seria portanto o contrário daquilo que ele tão enfaticamente me pede, apesar de ser o contrário do que quer (estão a ver onde entra a cena dos Bush?): justamente, não lhe ligar nenhuma. Tentar não dar por ele. Passar por cima dos seus textos. No fundo, fazer como se ele não existisse.
Só que tal seria difícil (dado o estilo espalhafatoso do autor, cheio de imagens, negritos e maiúsculas, e a sua linguagem assumidamente populista). E mesmo que fosse fácil seria absurdo. Porquê? Simples: é evidente que quando lemos um blogue colectivo deve haver uma certa identidade entre os seus elementos. Aliás, o blogue deve ter uma identidade como um todo. Caso contrário, não faz sentido que as pessoas se juntem para escrever.
É claro que os membros de blogues colectivos não devem concordar em tudo entre si, e podem (e devem) debater, e mesmo polemizar. Mesmo assim creio que devem ter algo em comum. Era assim que eu concebia o Cinco Dias: um colectivo de pessoas de esquerda, de tendências diferentes, que fossem capazes de debater entre si. E é naqueles dois aspectos que surgem os meus problemas com Carlos Vidal. Para começar, há muito pouco que eu possa a dizer que tenho em comum com o senhor. Qualquer leitor do Cinco Dias poderá aferir isso, das divergências que temos tido e têm sido manifestas. Dos seus textos, os únicos com que posso dizer que estou minimamente de acordo são os recentes sobre o conflito israelo-palestiniano. É muito pouco como denominador comum para escrevermos no mesmo blogue, a menos que fosse um blogue exclusivamente sobre este conflito. Mas o principal problema tem a ver com o outro aspecto: a capacidade de debater. E creio não ser injusto ao verificar que essa capacidade em Vidal é praticamente inexistente. Tirando dois ou três louvaminheiros, Vidal não é capaz de ter uma conversa com um comentador sem lhe colar rótulos políticos, ameaçar censurar (por opiniões “impróprias”) ou mesmo insultar. Os insultos ocorrem principalmente quando Vidal faz a sua jogada preferida, que já deve ser conhecida de todos: foge do assunto em debate e desvia-o para a sua área de eleição (a arte). Mesmo que ninguém tenha falado, mesmo que ninguém queira falar de arte, Vidal faz questão de responder a todos os debates como se debates de arte se tratassem, para os assuntos que ele domina, para então poder fazer o que melhor sabe: aplicar “argumentos” de autoridade (que não são argumentos nenhuns) e chamar ignorantes aos seus interlocutores. Foi assim quando escrevi um texto sobre Manoel de Oliveira, um texto que não era de forma nenhuma destinado a Vidal e onde eu exprimia a minha perspectiva de amador perante a obra do cineasta (um direito inalienável que qualquer espectador tem). Vidal quis ver naquele texto uma crítica cinematográfica (algo que não era nem nunca pretendeu ser) e respondeu com a famosa série “a arte não deve estar acessível a todos”.
Um exemplo mais recente passou-se na reacção a este texto da Palmira Silva. O texto original não tem absolutamente nada a ver com arte mas que foi logo atacado nos comentários por Vidal como se tivesse (leiam e confirmem). Nos exemplares comentários de Vidal (que Sokal gostaria de ler) podem ler-se afirmações deliciosas como “Quando estou por Londres ou Paris, o que se lê é Deleuze, Foucault, Derrida e não Sokal. Pelos vistos, Sokal, agora inesperadamente desenterrado (vá lá saber-se porquê) não existe em lado nenhum.” Ou “Sokal, ele está esquecido e Lacan ou Deleuze ou Derrida são dos autores mais importantes em qualquer ramo de estudos nos Estados Unidos e ocupam mais de metade das estantes de filosofia entre Londres e Nova Iorque, etc, etc. Felizmente, sinal de inteligência. Sokal, zero. O obtuso já desapareceu. Finito. ZERO !!”
Recorde-se que quem escreveu isto (ou, noutra parte, “Fico a saber que de arte e estética contemporânea nada sabem. (…) Passem pelo Prado e vejam o Rembrandt, que é o que deveriam fazer para respeitarem os outros e aquilo que não sabem. Ou comecem pelo Giotto, já agora. (…) Vão-se lixar com o vosso Sokal”) insurgia-se contra a arte “popular” e os artistas que são apreciados por multidões mas que não deveriam ser para todos (mas pelos vistos a popularidade já serve se for para avaliar “os livros que se lêem” em Paris ou Londres ou Nova Iorque). Mas o mais engraçado é a forma deste artista avaliar um cientista: para Vidal, a forma de um cientista provar que está vivo será não escrever artigos, dar palestras e ser citado pelos seus pares (algo que Sokal continua a fazer muito bem), mas vender uns livros que sejam discutidos em círculos filosóficos! (Para governo de Carlos Vidal o caso Sokal continua bem vivo e tem tido novos desenvolvimentos – ver a cronologia completa aqui.)
A questão abordada pela Palmira neste texto – o combate ao obscurantismo resultante do relativismo pós-moderno - é para mim de extrema importância. É que não é só nos mercados financeiros especulativos que há fraudes. Neste caso trata-se de uma denúncia de fraudes intelectuais. Para mim este é um combate político absolutamente prioritário, e é-me difícil partilhar um blogue com quem a ele se oponha, principalmente da forma tão veemente como Vidal o faz. Para além de, em termos estritamente pessoais (e profissionais), ser-me difícil partilhar um blogue com quem julga – escreveu-o duas vezes, aqui e no Jugular – que “Badiou, como Cavaillés, Albert Lautman (…), são filósofos matemáticos (alguns só matemáticos) que sabem mais - tecnicamente - de matemática que todos os matemáticos cá do burgo juntos.” (Paul Cohen já é outro nível, mas desse não falou Sokal.) Há limites mínimos de respeito; quando não existem por parte do nosso interlocutor, não adianta manter uma discussão. Para além de que em matemática, e em ciência em geral, não estamos habituados a esse tipo de “argumentos” de autoridade. Pelo menos a avaliar por Vidal, esta é uma diferença fundamental entre ciência e arte. Dito isto, é claro que esta opinião é risível, e muita gente se vai rir dela. Como já disse várias vezes, visto de fora Carlos Vidal é muito cómico. Quem não o consegue ver de fora… deve sair.
Para que fique bem claro, e em resumo: o meu problema com Carlos Vidal nem são propriamente as suas posições (políticas e não só), apesar de eu discordar totalmente de grande parte delas. Não teria problemas com posições divergentes se Vidal as soubesse defender. O problema é que Vidal apresenta as suas posições num estilo populista sem nunca se preocupar em argumentar para as defender, e quando confrontado é nítido que não sabe debater (algo que – já o escrevi e reitero – é característico de muitos sectores do meio académico português: não é só Carlos Vidal). O meu problema com Vidal, bem mais do que de opiniões, é de estilo. Afinal o estilo sempre serve para alguma coisa!
Dito isto, e porque Carlos Vidal é membro do Cinco Dias, não estou disposto a continuar a pertencer a este colectivo. É uma decisão difícil, porque aqui encontro pessoas com quem é um prazer partilhar um blogue. Era isso que ainda me fazia hesitar. Ainda no passado fim de semana, após me ter encontrado com o Nuno Ramos de Almeida, não pensava tomar esta decisão. Digamos que a questão do Sokal me fez ver claramente que o equilíbrio que o Nuno nos pedia (a mim e ao Carlos Vidal) era instável e na prática impossível de alcançar, a menos que eu não escrevesse o que quisesse escrever (algo que nunca ninguém impediu ninguém no Cinco Dias) ou declarasse sistematicamente “para mim, o Vidal não existe”. Em ambos os casos é melhor sair. Deixo um abraço a todos os outros colegas de blogue e um especial ao Nuno, que me convidou e a quem serei sempre grato. Nuno, desculpa qualquer coisa mas, convenhamos, depois disto, se eu não saísse doentinho seria eu.
A melhor coisa a fazer seria portanto o contrário daquilo que ele tão enfaticamente me pede, apesar de ser o contrário do que quer (estão a ver onde entra a cena dos Bush?): justamente, não lhe ligar nenhuma. Tentar não dar por ele. Passar por cima dos seus textos. No fundo, fazer como se ele não existisse.
Só que tal seria difícil (dado o estilo espalhafatoso do autor, cheio de imagens, negritos e maiúsculas, e a sua linguagem assumidamente populista). E mesmo que fosse fácil seria absurdo. Porquê? Simples: é evidente que quando lemos um blogue colectivo deve haver uma certa identidade entre os seus elementos. Aliás, o blogue deve ter uma identidade como um todo. Caso contrário, não faz sentido que as pessoas se juntem para escrever.
É claro que os membros de blogues colectivos não devem concordar em tudo entre si, e podem (e devem) debater, e mesmo polemizar. Mesmo assim creio que devem ter algo em comum. Era assim que eu concebia o Cinco Dias: um colectivo de pessoas de esquerda, de tendências diferentes, que fossem capazes de debater entre si. E é naqueles dois aspectos que surgem os meus problemas com Carlos Vidal. Para começar, há muito pouco que eu possa a dizer que tenho em comum com o senhor. Qualquer leitor do Cinco Dias poderá aferir isso, das divergências que temos tido e têm sido manifestas. Dos seus textos, os únicos com que posso dizer que estou minimamente de acordo são os recentes sobre o conflito israelo-palestiniano. É muito pouco como denominador comum para escrevermos no mesmo blogue, a menos que fosse um blogue exclusivamente sobre este conflito. Mas o principal problema tem a ver com o outro aspecto: a capacidade de debater. E creio não ser injusto ao verificar que essa capacidade em Vidal é praticamente inexistente. Tirando dois ou três louvaminheiros, Vidal não é capaz de ter uma conversa com um comentador sem lhe colar rótulos políticos, ameaçar censurar (por opiniões “impróprias”) ou mesmo insultar. Os insultos ocorrem principalmente quando Vidal faz a sua jogada preferida, que já deve ser conhecida de todos: foge do assunto em debate e desvia-o para a sua área de eleição (a arte). Mesmo que ninguém tenha falado, mesmo que ninguém queira falar de arte, Vidal faz questão de responder a todos os debates como se debates de arte se tratassem, para os assuntos que ele domina, para então poder fazer o que melhor sabe: aplicar “argumentos” de autoridade (que não são argumentos nenhuns) e chamar ignorantes aos seus interlocutores. Foi assim quando escrevi um texto sobre Manoel de Oliveira, um texto que não era de forma nenhuma destinado a Vidal e onde eu exprimia a minha perspectiva de amador perante a obra do cineasta (um direito inalienável que qualquer espectador tem). Vidal quis ver naquele texto uma crítica cinematográfica (algo que não era nem nunca pretendeu ser) e respondeu com a famosa série “a arte não deve estar acessível a todos”.
Um exemplo mais recente passou-se na reacção a este texto da Palmira Silva. O texto original não tem absolutamente nada a ver com arte mas que foi logo atacado nos comentários por Vidal como se tivesse (leiam e confirmem). Nos exemplares comentários de Vidal (que Sokal gostaria de ler) podem ler-se afirmações deliciosas como “Quando estou por Londres ou Paris, o que se lê é Deleuze, Foucault, Derrida e não Sokal. Pelos vistos, Sokal, agora inesperadamente desenterrado (vá lá saber-se porquê) não existe em lado nenhum.” Ou “Sokal, ele está esquecido e Lacan ou Deleuze ou Derrida são dos autores mais importantes em qualquer ramo de estudos nos Estados Unidos e ocupam mais de metade das estantes de filosofia entre Londres e Nova Iorque, etc, etc. Felizmente, sinal de inteligência. Sokal, zero. O obtuso já desapareceu. Finito. ZERO !!”
Recorde-se que quem escreveu isto (ou, noutra parte, “Fico a saber que de arte e estética contemporânea nada sabem. (…) Passem pelo Prado e vejam o Rembrandt, que é o que deveriam fazer para respeitarem os outros e aquilo que não sabem. Ou comecem pelo Giotto, já agora. (…) Vão-se lixar com o vosso Sokal”) insurgia-se contra a arte “popular” e os artistas que são apreciados por multidões mas que não deveriam ser para todos (mas pelos vistos a popularidade já serve se for para avaliar “os livros que se lêem” em Paris ou Londres ou Nova Iorque). Mas o mais engraçado é a forma deste artista avaliar um cientista: para Vidal, a forma de um cientista provar que está vivo será não escrever artigos, dar palestras e ser citado pelos seus pares (algo que Sokal continua a fazer muito bem), mas vender uns livros que sejam discutidos em círculos filosóficos! (Para governo de Carlos Vidal o caso Sokal continua bem vivo e tem tido novos desenvolvimentos – ver a cronologia completa aqui.)
A questão abordada pela Palmira neste texto – o combate ao obscurantismo resultante do relativismo pós-moderno - é para mim de extrema importância. É que não é só nos mercados financeiros especulativos que há fraudes. Neste caso trata-se de uma denúncia de fraudes intelectuais. Para mim este é um combate político absolutamente prioritário, e é-me difícil partilhar um blogue com quem a ele se oponha, principalmente da forma tão veemente como Vidal o faz. Para além de, em termos estritamente pessoais (e profissionais), ser-me difícil partilhar um blogue com quem julga – escreveu-o duas vezes, aqui e no Jugular – que “Badiou, como Cavaillés, Albert Lautman (…), são filósofos matemáticos (alguns só matemáticos) que sabem mais - tecnicamente - de matemática que todos os matemáticos cá do burgo juntos.” (Paul Cohen já é outro nível, mas desse não falou Sokal.) Há limites mínimos de respeito; quando não existem por parte do nosso interlocutor, não adianta manter uma discussão. Para além de que em matemática, e em ciência em geral, não estamos habituados a esse tipo de “argumentos” de autoridade. Pelo menos a avaliar por Vidal, esta é uma diferença fundamental entre ciência e arte. Dito isto, é claro que esta opinião é risível, e muita gente se vai rir dela. Como já disse várias vezes, visto de fora Carlos Vidal é muito cómico. Quem não o consegue ver de fora… deve sair.
Para que fique bem claro, e em resumo: o meu problema com Carlos Vidal nem são propriamente as suas posições (políticas e não só), apesar de eu discordar totalmente de grande parte delas. Não teria problemas com posições divergentes se Vidal as soubesse defender. O problema é que Vidal apresenta as suas posições num estilo populista sem nunca se preocupar em argumentar para as defender, e quando confrontado é nítido que não sabe debater (algo que – já o escrevi e reitero – é característico de muitos sectores do meio académico português: não é só Carlos Vidal). O meu problema com Vidal, bem mais do que de opiniões, é de estilo. Afinal o estilo sempre serve para alguma coisa!
Dito isto, e porque Carlos Vidal é membro do Cinco Dias, não estou disposto a continuar a pertencer a este colectivo. É uma decisão difícil, porque aqui encontro pessoas com quem é um prazer partilhar um blogue. Era isso que ainda me fazia hesitar. Ainda no passado fim de semana, após me ter encontrado com o Nuno Ramos de Almeida, não pensava tomar esta decisão. Digamos que a questão do Sokal me fez ver claramente que o equilíbrio que o Nuno nos pedia (a mim e ao Carlos Vidal) era instável e na prática impossível de alcançar, a menos que eu não escrevesse o que quisesse escrever (algo que nunca ninguém impediu ninguém no Cinco Dias) ou declarasse sistematicamente “para mim, o Vidal não existe”. Em ambos os casos é melhor sair. Deixo um abraço a todos os outros colegas de blogue e um especial ao Nuno, que me convidou e a quem serei sempre grato. Nuno, desculpa qualquer coisa mas, convenhamos, depois disto, se eu não saísse doentinho seria eu.
Etiquetas:
Cinco Dias
2009/01/01
Y quiero que me perdonem por este dia los muertos de mi felicidad
Pequeña serenata diurna, Silvio Rodriguez e Chico Buarque, Cuba, 1983
Etiquetas:
América,
Chico Buarque
Subscrever:
Mensagens (Atom)


