2008/11/13

Como esses estúpidos selvagens chegaram a dominar Washington

Regresso após uma ausência (devida a isto e a uma mudança). Deveria ter escrito sobre as eleições americanas, mas não encontraria muito mais para dizer que o que foi dito pelo Luís Rainha (façam favor de ver bem o vídeo) e citado pelo Nuno Ramos de Almeida (texto de George Monbiot). Enquanto não escrevo eu mesmo algo sobre Sarah Palin e Bush, deixo-vos o texto de Monbiot.
Como esses estúpidos selvagens chegaram a dominar Washington

Como a política nos EUA chegou a ser dominada por pessoas que fizeram da ignorância uma virtude? Num ponto isso é fácil de responder. Na nação mais poderosa do planeta, um em cada cinco adultos acredita que o sol gira em torno da terra; só 26% aceitam que a evolução ocorre por seleção natural e dois terços dos jovens adultos são incapazes de encontrar o Iraque num mapa.

George Monbiot

Como se permitiu que se chegasse a esse ponto? Como a política nos EUA chegou a ser dominada por pessoas que fizeram da ignorância uma virtude? Foi a caridade que permitiu que um parente mais próximo do homem chegasse a gastar dois mandatos como presidente? Como foi possível que Sarah Palin, Dan Quayle e outros estúpidos do gênero chegassem aonde chegaram? Como foi possível que os comícios republicanos em 2008 fossem tomados por gritarias ignorantes insistindo que Barack Obama era um muçulmano e terrorista?

Como muitos deste lado do Atlântico, eu fui por muitos anos encantado com a política americana. Os EUA têm as melhores universidades do mundo e atrai as mentes mais brilhantes. Domina descobertas na ciência e na medicina. Sua riqueza e seu poder dependem da aplicação do conhecimento. Ainda assim, de maneira única dentre as muitas nações desenvolvidas (com a exceção possível da Austrália), o conhecimento é uma desvantagem política grave nos EUA.

Houve exceções ao longo do século passado – Franklin Roosevelt, JF Kennedy e Bill Clinton temperaram seu intelectualismo com um toque de senso comum e sobreviveram -, mas Adlai Stevenson, Al Gore e John Kerry foram respectivamente fulminados por seus oponentes por serem membros de uma elite cerebral (como se isso não fosse uma qualificação para a presidência). Talvez o momento decisivo no colapso da política inteligente tenha sido a resposta de Ronald Reagan a Jimmy Carter, no debate presidencial de 1980. Carter – tropeçando um pouco, usando longas palavras – cuidadosamente enumera os benefícios do sistema nacional de saúde. Reagan sorri e diz: “Lá vem você de novo”. Seu próprio programa de saúde teria apavorado muitos americanos, caso tivesse sido explicado tão cuidadosamente como o fez Carter, mas ele tinha encontrado a fórmula para se prevenir de questões políticas sérias ao fazer com que seus oponentes parecessem intelectuais “engomados” que não mereciam confiança.

Não foi sempre assim. Os pais fundadores da República – Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, James Madison, John Adams, Alexander Hamilton e outros – estavam entre os maiores pensadores de sua época. Eles não sentiam necessidade de tornar isso um segredo. Como o projeto por eles construído degenerou-se em George W. Bush e Sarah Palin?

Num ponto isso é fácil de responder. Políticos ignorantes são eleitos por povos ignorantes. A educação norte-americana, assim como seu sistema de saúde, é notória por seus fracassos. Na nação mais poderosa do planeta, um em cada cinco adultos acredita que o sol gira em torno da terra; só 26% aceitam que a evolução ocorre por seleção natural; dois terços dos jovens adultos são incapazes de encontrar o Iraque num mapa, dois terços dos votantes norte-americanos não são capazes de nomear três organizações governamentais; a competência matemática dos adolescentes de 15 anos nos Estados Unidos está em vigésimo quarto dos vinte e nove países da OECD.

Mas isso só aumenta o mistério: como tantos cidadãos norte-americanos tornaram-se tão estúpidos, e desconfiados da inteligência? Até onde li, o livro de Susan Jacoby, The Age of America Unreason [algo como A Era da des-Razão Americana], fornece uma explicação completa. Ela mostra que a degradação da política norte-americana resulta de uma série de tragédias interligadas.

Um tema é muito familiar e claro: religião – particularmente religião fundamentalista – torna você estúpido. Os EUA é o único país rico em que o fundamentalismo cristão é vasto e crescente.

Jacoby mostra que já houve uma certa lógica nesse anti-racionalismo. Durante as algumas décadas após a publicação de A Origem das Espécies, por exemplo, os americanos tinham boas razões para rejeitar a teoria da seleção natural e para tratar os intelectuais públicos com suspeita. Desde o começo, a teoria de Darwin foi misturada, nos EUA, com a filosofia brutal – agora conhecida como darwinismo social – do escritor britânico Herbert Spencer. A doutrina de Spencer, promovida na imprensa popular com o financiamento de Andrew Carnegie, John D. Rockefeller e Thomas Edison, sugeria que os milionários estavam no topo da escala estabelecida pela evolução. Ao impedir os desajustados de serem eliminados, a intervenção governamental enfraquecia a nação. A maioria das desigualdades econômicas eram tanto justificáveis como necessárias.

O darwinismo, em outras palavras, tornou-se indistinguível da forma mais bestial do laissez-faire econômico. Muitos cristãos responderam a isso com náusea. É profundamente irônico que a doutrina rejeitada um século atrás por proeminentes fundamentalistas como William Jennings Bryan seja agora determinante para o pensamento da direita cristã. Fundamentalistas modernos rejeitam a ciência darwinista da evolução e aceitam a pseudociência do darwinismo social.

Mas há outras razões, mais poderosas, que explicam o isolamento intelectual dos fundamentalistas. Os EUA são peculiares ao delegarem o controle da educação a autoridades locais. Ensinar nos estados do sul era ser dominado por uma elite aristocrática e ignorante de donos de terras, e um grande abismo educacional foi aberto. “No sul”, escreve Jacoby, “só o que pode ser descrito é que um bloqueio intelectual foi imposto para manter do lado de fora idéias que pudessem ameaçar a ordem social”.

A Convenção Batista do Sul, agora a maior congregação religiosa dos EUA, era para a escravidão e a segregação o que a Igreja Reformada Holandesa (Dutch Reformed Church) era para o apartheid na África do Sul. Ela fez mais do que qualquer força política para manter o sul estúpido. Nos anos 60 tentou disseminar a desagregação estabelecendo um sistema privado de escolas e universidades cristãs. Hoje, um estudante pode ir do jardim da infância até o mais alto grau de estudos sem qualquer exposição ao ensino secular. As crenças batistas do sul também passam imunes ao sistema de escola pública. Uma enquete feita por pesquisadores na Universidade do Texas em 1998 revelou que um em cada quatro professores de biologia das escolas do estado acreditavam que humanos e dinossauros viveram na Terra ao mesmo tempo.

Essa tragédia vem sendo assistida pela fetichização americana da auto-educação. Apesar de seu lamento por sua falta de educação formal, a carreira de Abraham Lincoln é repetidamente citada como evidência de que a boa educação fornecida pelo estado não é necessária: tudo de que se precisa para ter sucesso é determinação e individualismo vigoroso. Isso pode ter servido bem para as pessoas quando os genuínos movimentos de auto-educação, como o que se construiu em torno dos Little Blue Books na primeira metade do século XX estiveram em voga. Na era do info-entreternimento (1), esse tipo de coisa é receita para a confusão.

Além da religião fundamentalista, talvez a razão mais potente para o combate dos intelectuais na eleição seja que o intelectualismo tem sido equiparado à subversão. O breve flerte de alguns pensadores com o comunismo há muito tempo atrás tem sido usado para criar uma impressão na mente do público de que todos os intelectuais são comunistas. Quase todo dia homens como Rush Limbaugh e Bill O’Reilly vociferam contra as “elites liberais” que estão destruindo a América.

O espectro das grandes cabeças alienígenas subversivas foi crucial para a eleição de Reagan e de Bush. Uma elite intelectual genuína – como os neocons (alguns deles ex-comunistas) em torno de Bush – deu o tom dos conflitos políticos como uma batalha entre americanos comuns e bem sucedidos e super-educados pinkos (2). Qualquer tentativa de desafiar as idéias da elite intelectual da direita tem sido atacada, com sucesso, como sendo elitismo.

Obama tem muito a oferecer aos EUA, mas nada disso vai parar se ele vencer. Até que os grandes problemas do sistema educacional sejam revertidos ou que o fundamentalismo religioso perca sua força, haverá oportunidade política para que gente como Bush e Palin ostentem sua ignorância.

Publicado originalmente no Guardian, em 28 de outubro de 2008

O artigo também está publicado na página de George Monbiot

2008/11/11

Uma vitória à Porto

Jesualdo Ferreira tem toda a razão. Ele é que resumiu bem, na entrevista no final do jogo: a vitória de ontem em Alvalade, após desempate por penáltis e com Caneira incompreensivelmente expulso, numa repetição de 2006 no Dragão, foi "uma vitória à Porto". Jesualdo sabe o que diz e do que fala.

2008/11/07

Assim se passou um aniversário

Sentado no meu (antigo) gabinete do IST, a desocupá-lo e a transferir ficheiros de computador. A ouvir Chico Buarque, nem dei por ele. Foi bom.
(Refiro-me ao aniversário da Rvolução de Outubro. O meu aniversário foi gentilmente assinalado pelo Nuno, a quem agradeço.)

2008/11/06

"I am so proud to be an American"


É o título de um depoimento de Edna B., Boynton Beach, Florida. Cortesia MoveOn.
Remember back in 2001 and 2002, when so many of you joined MoveOn? When President Bush had an 80% approval rating, when you held candles to stop a war the media was cheering on, when there were few politicians with the courage to stand up for the truth? Back then, a victory like this seemed impossible.
But yesterday you proved that nothing is impossible. If we stand up together and if we fight together and if we believe together, we can change the course of history.
Today, a new day has dawned in America.
Thank you for making it happen.

Obrigado, digo eu também.

2008/11/04

Um vídeo que me foi dedicado

Uma cortesia MoveOn. Vejam aqui. As notícias adjacentes - "Neighbor: 'Filipe Always Seemed So Normal'", "Final Words Of Dying Child: 'I Hate Filipe'" são igualmente uma delícia. Democratas, vão votar!

Mulato democrático

2008/11/03

F1 2008


Não escondo por quem estava: há ano e meio anunciei o meu sonho de infância: "que um dia um piloto que falasse português, se chamasse Filipe, o seu apelido tivesse cinco letras, a primeira das quais “m” e a última “a”, viesse a ser campeão do mundo de Fórmula 1. Ao volante de um Ferrari, como é evidente." Há um ano, após uma jornada inesquecível, escrevi que Massa era "o melhor segundo piloto que a Ferrari teve em mais de dez anos, e merece sem dúvida voar mais alto." E não me enganei. Aliás, se houve algo que este ano se confirmou é que Massa merece ser muito mais do que um segundo piloto. Não conseguiu ser campeão este ano. Não tem problema: ainda é jovem. A sua oportunidade de ser campeão há-de surgir, espero. Assim como espero que a Ferrari o saiba manter.
E Massa perdeu para um grande piloto. O título fica muito bem entregue. Como adepto da Fórmula 1, congratulo-me por termos tido uma época fantástica, excepcionalmente competitiva. De certa forma foi ainda mais disputada que a (já de si disputadíssima) época anterior: até à última curva! Um piloto corta a meta como campeão do mundo, e perde o título nos segundos seguintes, quando já nada podia fazer. Não me lembro de nada assim. Creio que ninguém se lembra.
De parabéns está Lewis Hamilton, o mais jovem campeão da história da Fórmula 1. E o primeiro negro. Sempre achei que havia um paralelismo entre Hamilton e Obama. Eu preferia Massa e acho que preferia Hillary, mas fiquei contente por Hamilton. E ficarei ainda mais por Obama.

2008/10/31

"Trick or treat!"

No passado nesta data costumava colocar no blogue onde escrevesse um vídeo com uma passagem de um episódio de uma das séries da minha predilecção - talvez a série mais maluca que eu vi até hoje.
(A propósito: tal como há quatro anos também afirmo que, apesar da crise e das eleições, hoje à noite o americano médio só tem a cabeça no Halloween.)
Este ano já coloquei esse vídeo, há duas semanas, a propósito de outro assunto. Tive que procurar outro, da mesma personagem. Lembrei-me de um bem a propósito da discussão que aqui se tem vindo a ter. Espero que seja suficientemente assustador, especialmente para o Nuno Ramos de Almeida. Bom Halloween para todos!

O libertarianismo em poucas linhas

Eu, cá para mim, tenho uma outra solução: voto em quem defender que o pouco dinheiro que há deve ficar no bolso dos portugueses, para eles o gastarem como quiserem.

O que eu quero é dinheirinho no bolso dos portugueses.


O RAF não quer “dinheirinho no bolso dos portugueses”: o RAF quer que o dinheiro fique no bolso dos portugueses que já o têm. É uma grande diferença. É uma grande diferença para quem tem muito dinheiro, e teria ainda mais se não pagasse impostos (como é o caso do RAF). E é uma grande diferença para quem não tem dinheiro nenhum e, graças aos impostos que o RAF e os libertários pagam, tem acesso a um mínimo de protecção social. Já para as classes médias e trabalhadores por contra de outrem que acreditem na redistribuição de riqueza, por muitos Jorges Coelhos e Varas que haja, o “dinheirinho” fica sempre melhor no Estado que nos bolsos de um libertário.

2008/10/30

Acácio Barradas

É triste ver partir alguém que nos habituámos a ler. Sobre Acácio Barradas escreveram o Daniel Oliveira e o José Mário Silva, que o conheceram. Eu limito-me a transcrever um texto para o velhinho BdE:
Pedro Mexia dixit: «A esquerda adora a rua». Deverá ser por isso que, após o 25 de Abril, o esquerdista Manuel Múrias, anteriormente nomeado director da RTP pelo marxista-leninista Oliveira Salazar, editou e dirigiu um jornal que justamente intitulou «A Rua». E também deverá ser por isso que o ex-director do «Independente», após um longo tirocínio eleitoral por feiras e mercados como líder de um partido de esquerda, já na qualidade de ministro da Defesa convocou para o Caldas uma manifestação de desagravo contra as atoardas com que a direita vilipendiou a sua honra, acusando-o de fraude na Moderna e exigindo a sua demissão. Assim se faz a História...

2008/10/29

Cinco Dias alargados

O horário é de Inverno, os dias ficam mais curtos, e convidam mais à leitura. Por isso os "Cinco Dias" não encurtam, mas alargam. Novos colaboradores vão entrar no Cinco Dias. Aqui apresento três.

O João Branco é um engenheiro aeroespacial, e é (mais um) gajo do Técnico. Viveu alguns anos na Holanda e gosta muito desse estranho país onde as pessoas se preocupam mais com o que fumam do que com o que comem. É um ciclista e algarvio militante, para quem as desigualdades em Portugal são culpa dos "homens do norte" (classificação que obviamente inclui os lisboetas).

O Paulo Jorge Vieira é um bairradino cidadão do mundo. Geógrafo de formação pela Universidade de Coimbra, é um trabalhador precário representante da "Geração 500 euros", que nunca sabe como vai ser o seu dia de amanhã. É activista na área dos direitos sexuais - feminista e direitos LGBT -, sócio fundador e actual presidente da direcção da associação "Não Te Prives". Foi membro da Comissão Excutiva do Fórum Social Portugues e da Comissão Executiva dos "Jovens Pelo Sim". Casou-se noutro dia em frente à Assembleia da República. A cerimónia até foi transmitida pela televisão, mas não foi válida.

O Rui Curado Silva é físico nuclear/astrofísico. Fez estudos de doutoramento em Estrasburgo e de licenciatura em Coimbra, onde presentemente é investigador. É também um divulgador da astronomia junto do público. É europeísta, ecologista e interessa-se pelo problema do aquecimento global. É autor do excelente blogue Klepsýdra.

O João, o Paulo e o Rui são para mim três queridos amigos, com quem é um prazer partilhar este espaço. Muito bem vindos e boas postagens!

2008/10/28

Prémio "dardos"


Recebi o prémio "dardos" do simpático blogue "Homem ao mar!" de M. Ferrer, a quem agradeço a gentileza. É suposto eu indicar 15 (quinze) blogues! Para evitar um crescimento tão acentuadamente exponencial do número de blogues contemplados, vou só indicar dois: O Nadir dos Tempos e Klepsýdra. As razões da escolha? Passem pelo Cinco Dias e perceberão.

2008/10/27

1000

Postagem nº 1000 do Avesso do Avesso.

2008/10/24

A blogosfera agora tem o seu Carlos Castro

Há uma semana, escrevi que “a Fernanda tem não uma mas duas causas na vida: o casamento dos homossexuais e o aumento das rendas de casa.” Qualquer leitor do Cinco Dias sabia que se tratava de uma provocação à Fernanda Câncio, na sequência de uma polémica que aqui tivemos no verão e que agora não poderíamos retomar nos mesmos moldes. Qualquer leitor do Cinco Dias sabe, se tiver acompanhado essa polémica, que eu e a Fernanda estamos de lados opostos nessa questão (a do aluguer de casas – não a do casamento de homossexuais) e havemos de continuar a estar - tal é irreparável. Os leitores do Cinco Dias sabem que tal divergência (antiga) entre mim e a Fernanda não teve absolutamente nada a ver com as ocorrências recentes no blogue. Os leitores mais atentos do Cinco Dias sabem que eu gosto de dirigir este tipo de provocações à Fernanda, em postagens e em comentários. Os leitores do Cinco Dias, que obviamente conhecem a Fernanda, sabem ver aquela minha frase como uma provocação e não mais do que isso. O que nem mesmo os leitores do Cinco Dias saibam, mas eu acrescento, é que já o faço há mais de dois anos (aqui e aqui), quando nem eu nem a Fernanda sonhávamos que haveríamos de partilhar um blogue, e o Cinco Dias ainda nem existia. E que nunca deixei de fazer, mesmo quando ela já era membro residente e eu só comentava. E que nem por isso a Fernanda se opôs a que eu entrasse para o blogue. Não se pode por isso concluir desta minha provocação que existe alguma “ferida aberta”. Da minha parte – aqui falo em meu nome pessoal, e é só isso que posso fazer – não existe nenhuma ferida aberta (ou fechada) com os autores do Jugular, blogue de que serei leitor e comentador, e a quem desejo toda a felicidade.
Só que Paulo Pinto Mascarenhas conclui, na sua coluna semanal sobre blogues no Jornal de Negócios, que “as feridas da cisão à esquerda continuam longe de cicatrizadas”, baseado justamente naquelas minhas palavras. Não sei que interesse este tipo de fofocas da blogosfera terá seja para quem for: quem acompanha os blogues está a par do que se passa, e quem não acompanha, não é graças a elas que passará a acompanhar. Mas o Paulo Pinto Mascarenhas escreve-as no jornal, e está no seu direito – mesmo que sejam falsas, como é o caso, e dêem uma impressão errada do que se passa a quem não acompanha o caso na blogosfera. É para escrever as suas crónicas que lhe pagam. É esse o tipo de jornalismo que Paulo Pinto Mascarenhas estava habituado a fazer no semanário onde colaborou, antes de se tornar assessor no governo do fundador e figura tutorial desse mesmo semanário: um jornalismo que procura criar casos onde não há, e os envolvidos são sempre adversários políticos. É a isso que se resume a sua crónica – pelo menos a desta semana – no Jornal de Negócios. Seria interessante no entanto ver como tal crónica se referiria a um “caso” que ocorresse num blogue seu (ou que lhe fosse próximo politicamente). Já ocorreu pelo menos um caso no passado.

2008/10/23

Bem leve



Ontem ele foi mais uma vez decisivo (e entrou para a história do Sporting: o melhor marcador nas competições da UEFA). Mas eu nem falo do golo de ontem, que foi uma colaboração com o Derlei. Falo do impressionante golo de sábado, contra a União de Leiria, que marcou o regresso de Liedson. Mais uma vez o levezinho é um exemplo de preserverança, de nunca dar nada por perdido. Vejam bem o vídeo. O Liedson cai (em falta?), mas não perde tempo: está rodeado de três adversários, mas ainda assim levanta-se, recupera a bola e remata para golo. Se fosse um jogador português ficaria sentado no chão a pedir falta, mesmo que ninguém lhe tivesse tocado!
Recordo que este jogador único até aos vinte e poucos anos era desempacotador num supermercado. É um exemplo para todos os portugueses (e não só jogadores de futebol).

2008/10/22

O Luís Lavoura tem sempre alguma razão

...ou não fosse ele físico teórico. Aqui se confirma:

"Comentário de Luis Lavoura
Data: 27 Junho 2008, 12:44


O Filipe Moura ganha facilmente a aposta.

De facto acho que nao faz sentido nenhum a Fernanda (e nao so) estar neste blogue na companhia de comunistas mal reciclados como o Nuno Ramos de Almeida ou o Filipe Moura. E que, se o objetivo da Fernanda e defender os direitos e liberdade dos homossexuais, nao precisa de andar em tao mas companhias, nos no Movimento Liberal Social tambem o fazemos. A diferenca e que somos a favor da liberdade na sua totalidade. Nao somos apenas a favor da liberdade de uma pessoa namorar com quem quiser, somos tambem a favor de ela poder arrendar a sua casa a quem quiser e ao preco que quiserem combinar. Acho que faz sentido ser coerente.

A Fernanda pense bem."

Agora de facto o Luis nunca tem toda a razão. Neste caso, quando afirma que o objectivo da Fernanda Câncio é defender os direitos dos homossexuais, assim, como se fosse o único. São extremamente injustas as pessoas que afirmam que a única causa da Fernanda é o casamento dos homossexuais. Conforme se confirma pelo seu primeiro texto no novo blogue Jugular, a Fernanda tem não uma mas duas causas na vida: o casamento dos homossexuais e o aumento das rendas de casa.
(Fernanda, um dia gostaria de voltar a encontrar-te, e que então me explicasses como podes pôr no mesmo texto as palavras "igualdade", "senhorios" e "inquilinos". "Igualdade", "senhorios" e "inquilinos" são três coisas incompatíveis, pelo menos na minha limitada cabeça.)
Despeço-me dos meus companheiros do Cinco Dias: foi um grande prazer conhecer-vos e espero que a gente se continue a encontrar por aí. Saúdo os membros do novo Jugular. (Saravá companheiro Vasco. Ana e Maria João: acreditam que o café da Dona Maria foi trespassado? Vi isso quando passei por lá noutro dia.) Vou continuar a ler-vos com prazer, e com certeza que haveremos de partilhar outras lutas no futuro. Até lá, eu continuo do avesso do avesso. E quem vier atrás que feche a porta.

Tenho coligido aqui no Avesso do Avesso todos os meus textos publicados na blogosfera. Aqui ficou então um texto meu publicado no Cinco Dias na semana passada, por altura da crise que assolou o blogue.

2008/10/21

2008/10/20

"Um descalabro chamado Queiroz"

Desde que o actual seleccionador entrouao serviço, praticamente não ligo à selecção. Não espero nada. Mesmo considerando o talento dos jogadores: se há coisa que eu vi, foi este treinador não obter resultados com os melhores jogadores. Deixo ainda assim aqu extractos de um artigo de João Marcelino.

Nunca esperei nada de muito significativo desta nova etapa da selecção nacional com Carlos Queiroz. Há demasiados anos que o vejo como um treinador banal de alta competição, bom programador ao que dizem, disciplinado e trabalhador, bem relacionado, que utiliza o servilismo de uma parte da imprensa portuguesa ("professor" para aqui, "professor" para ali) para esconder a falta dos atributos que mais devem habilitar um homem com as suas funções: carisma, capacidade de liderança e sagacidade nas opções técnicas, sobretudo a partir do banco.

A ausência destas qualidades, a que se soma a falta de experiência significativa como jogador, já fora anteriormente visada nas passagens pelo Sporting (onde não ganhou ao leme da melhor equipa dos últimos 20 anos do clube), pelo Real Madrid (onde foi despedido) e pela selecção (em que falhou o apuramento para o Mundial de 1994). Descontando o trabalho às ordens de Alex Fergusson, um verdadeiro líder cuja longevidade desesperou o actual seleccionador nacional e o fez agora abandonar Manchester, o resto foram experiências irrelevantes no futebol do terceiro mundo.

Queiroz continua a recolher ainda hoje os dividendos do investimento feito em 1989 e 1991 com os títulos mundiais de sub-20, quando levou ao limite a capacidade familiar de alguns jovens com qualidade futebolística para os manter perto de 250 dias em estágios sucessivos - coisa absolutamente anormal para o escalão e que alguns desses jovens pagaram de forma dura em termos académicos e culturais. (...)

A propósito do descalabro da selecção de futebol, que está já seriamente em risco de falhar o apuramento para o Mundial, pode e deve dizer-se algumas coisas concretas. Por exemplo estas (e poderiam ser muitas mais):

Ao contrário do que pretende uma mentira tantas vezes repetida, o jogo com a Dinamarca foi mau. Portugal sofreu três golos, perdeu, e poderia, até, ter sofrido outros dois golos logo nos primeiros momentos do jogo. Ou seja, começou mal e terminou pior.

Não se percebe que na preparação do jogo tenha alertado para o facto da Albânia poder atirar alguma equipa para fora do Mundial e depois, na conferência de imprensa, já tivesse sido capaz de assumir, com atraso, que este era um jogo de ganhar. Ou seja, não foi capaz de colocar essa pressão nos jogadores antes, e só depois disse - obviamente por dizer e para ganhar espaço para os cinco meses de férias que se seguem até Março - que a selecção se vai apurar ganhando onde tiver de ser. Conversa fiada. Neste momento poucos são os portugueses apreciadores de futebol que acreditam nisso.

Queiroz disse três vezes na mesma conferência de imprensa, em Braga, que não sabe o que mais pode ou deve fazer para ganhar um jogo de futebol! Não foi deslize. Tenho a certeza absoluta que ele estava a falar verdade.

É normal um treinador perder- -se nos elevadores do estádio (!!!) e (mandar) justificar assim a sua falta ao compromisso contratualmente assumido de falar à televisão (TVI) que tem os direitos do jogo?

Prova-se que é uma absoluta estupidez esperar de um seleccionador a disponibilidade para "reorganizar" o futebol jovem. Um seleccionador não é um director técnico. Como o velho Aragonés provou, desse homem só se espera uma visão, uma estratégia e resultados concretos da missão.

Pergunto de novo: quanto vai pagar a FPF de indemnização a Queiroz se tiver de rescindir o contrato de quatro anos? Scolari, recorde-se, para comparar, nunca teve direito a mais de dois... Madaíl está enganado se pensa que poderá resistir à pressão da opinião pública depois de um eventual fracasso nesta campanha para o Mundial. Quanto muito, promoverá mais um excêntrico, como o euromilhões, porque esperar que Queiroz vá embora agora, e pelo próprio pé, promovendo uma mudança que seria boa para a selecção, é esperar de mais para quem o conhece.

O pior de tudo é o seguinte: em três meses apenas, Queiroz cortou a relação da equipa nacional com o seu público. Como se vai reconstruir agora essa ligação?

2008/10/17

Ah se tivesse sido eu a escrever isto!

Pensará o Pedro Morgado: «Os outros não podem chamar "provinciana" a determinada atitude ou episódio. Só nós é que podemos. Faz lembrar aquela história: só os judeus é que podem contar anedotas sobre judeus (e rir-se delas). Caso contrário é-se anti-semita. Por isso é que nós até temos direito a destaque do CAA. Com referências ao "país do socratismo", como se a culpa fosse de Sócrates.»

2008/10/15

Das filhas da puta


Tal como à Fernanda Câncio, também a mim sempre me fez confusão insultar a mãe de alguém e não a pessoa em questão. No México, por exemplo, insultar a mãe é considerado um insulto pior do que insultar a pessoa. Deve ser característico das sociedades tradicionais com famílias mais matriarcais.
Outro aspecto que me faz muita confusão é, em inglês, não poder aplicar tal insulto a uma mulher. Se eu quiser dizer de uma americana ou inglesa que é uma “filha da puta” em inglês, não posso. Não se aplica. “Son of a bitch” é tão institucionalizado que até as suas iniciais SOB são usadas neste contexto (embora possam em Nova Iorque ter outro significado, por mim frequentado às vezes). “Daughter of a bitch” é coisa que ninguém diz. Será por cavalheirismo? Mas não será esta uma discriminação inaceitável de género? E será por isso que a Fernanda gosta tanto da língua inglesa?

2008/10/14

Confirma-se: o casamento gay distrai-nos de outros assuntos

No Blasfémias, por exemplo, nem uma palavra sobre o Krugman. O João Miranda só fala sobre o casamento gay. O mesmo se pode dizer do Insurgente, excepção feita a umas citações colocadas há uns minutos.

2008/10/13

Paul Krugman Nobel da Economia

E eu há cinco anos já o citava (num belo artigo - texto "Filipe Moura (2)"). Vale a pena lê-lo, agora e sempre.

2008/10/10

O Nobel de Nambu

Nambu foi galardoado pela aplicação da quebra espontânea de simetria à física teórica de partículas. Ora o melhor exemplo de aplicação da quebra espontânea de simetria neste campo reside no mecanismo de Higgs, em que as partículas adquirem massa através da presença do célebre bosão anónimo. Faria mais sentido atribuir-se o nobel a Nambu depois da descoberta do bosão de Higgs. Mas não “a propósito” do bosão de Higgs: se este for descoberto, há pelo menos seis físicos teóricos candidatos a receberem o nobel pelo mecanismo “de Higgs”, assim baptizado por ‘t Hooft: Higgs e mais cinco. Quando as regras do nobel só permitem três premiados em cada ano. Acrescentar-lhes Nambu aumentaria a confusão.
Isto se se descobrir o bosão de Higgs: se este nunca for descoberto, tal representa uma severa machadada na “quebra espontânea de simetria em física de partículas” (não noutros campos da física). A quebra espontânea de simetria é um fenómeno fascinante; porém, estritamente em física de partículas nunca foi observada em simetrias exactas, de gauge (no caso da simetria electrofraca tal constituiria o mecanismo de Higgs).
Desta forma, este prémio Nobel pode parecer um pouco prematuro. A não ser que se queira premiar a quebra espontânea de simetria nos casos em que esta é realmente verificada: em simetrias globais (que não são de gauge), aproximadas. Mas aí é também, naturalmente, um fenómeno aproximado. Se for este o caso (presumo que sim) parece-me óptimo, com dois reparos importantes.
É injusto premiar Nambu e não premiar Goldstone, que previu as partículas sem massa que se formam nesta situação (os justamente chamados bosões de Nambu-Goldstone, e que nas situações aproximadas de que eu falei correspondem a partículas de massa muito pequena, os piões). É portanto a segunda grande injustiça que se comete com este Nobel (em conjunto com Cabibbo). Este Nobel deveria, portanto, ter sido dividido em dois, um agora e outro noutro ano (até pela diferença nos temas).
Ao antecipar-se a atribuição deste prémio, está-se a reconhecer a importância desta ideia, mesmo que ela não se venha a verificar em toda a sua plenitude. Tal facto abre um precedente na história do Nobel da Física, e poderá dar origem a que venham a ser atribuídos prémios a ideias com origem nas teorias de supercordas (mesmo que estas não se venham a confirmar) e que tiveram aplicações para além destas teorias. Há vários exemplos: diversos tipos de dualidades, a holografia, a correspondência AdS/CFT... Nem de propósito, Nambu foi um dos grandes percursores da teoria de cordas (com a acção de Nambu-Goto). É o segundo prémio Nobel dado a um físico que trabalha ou trabalhou em teorias de cordas (depois de David Gross em 2004). A quem critica a teoria de cordas por criticar muitas vezes faria bem estudá-la um pouco...

Para ler mais: The Reference Frame e Cosmic Variance (aqui e aqui).

2008/10/09

O Nobel de Kobayashi e Maskawa

Cada um dos galardoados com o Prémio Nobel da Física em 2008 merece por si este reconhecimento. Dito isto, é bastante discutível a forma como foram agrupados. Uma das formas de ver isto, mesmo para um leigo, consiste em notar como o anúncio do prémio de Nambu aparece separado do de Kobayashi e Maskawa. São dois prémios de física teórica de partículas, particularmente do conhecido modelo padrão das interacções electrofracas. Mas pouco mais têm em comum.
Claro que Kobayashi e Maskawa tinham que receber o prémio juntos, mas estranha-se este não ter sido atribuído igualmente ao italiano Nicola Cabibbo. A descoberta destes cientistas é a universalidade das interacções nucleares fracas, generalizando-as para os casos em que há mais do que uma família de quarks. Kobayashi e Maskawa estabeleceram o resultado (através de uma matriz de massa, cujos vectores próprios são os estados físicos) na forma final, com três famílias de quarks. O trabalho de Cabibbo é anterior, e aplica-se somente a duas famílias. A matriz de massa escrita por Cabibbo só tem assim um parâmetro (o ângulo de Cabibbo) - actua num espaço bidimensional, das duas famílias de quarks, mudando-as de base. Mas a ideia física básica, a universalidade, está lá. Kobayashi e Maskawa introduziram (naquele que é o terceiro artigo mais citado da história da física) uma matriz para três famílias, contendo mais parâmetros que por sua vez dão origem ao fenómeno da violação de CP (cuja descoberta experimental foi premiada com o prémio Nobel em 1980, e que deverá estar na origem da assimetria bariónica do universo), e que não seria possível somente com duas famílias. Esta matriz chama-se CKM (Cabibbo-Kobayashi-Maskawa), ilustrando bem o facto de ser uma generalização (fisicamente mais rica, é verdade) do trabalho original de Cabibbo. Por isso mesmo considero uma injustiça que este prémio Nobel não seja partilhado igualmente entre os três autores da matriz CKM (que vai continuar a ser conhecida assim, apesar de só dois deles terem sido galardoados). Isto não quer dizer de maneira nenhuma que eu considere que Nambu não merece um prémio Nobel. Mas isso discutirei noutro texto.

2008/10/08

Da tradução para o acordo ortográfico

Não sei se seria essa a intenção original do autor, mas como comentário (assinado por "Antónimo") a este texto da Fernanda Câncio encontra-se um excelente argumento a favor do acordo ortográfico da língua portuguesa. Passo a transcrevê-lo (ligeiramente adaptado para este contexto):
Embora as editoras mais do que abusem (por exemplo, é raro pagarem direitos de autor - só o fazem a consagrados -, escondem as vendas a sete chaves e os livros que saem aí com jornais e revistas - tiragens de 30 mil exemplares - têm um custo de produção de 90 cêntimos) é um bocado complicado os livros em português ficarem ao preço de um da Penguin, não é?
Uma Guerra e Paz da Penguin, em inglês tem centenas de milhões de leitores. Até podiam dar os livros que não se sentia. Não há direitos de autor e imagino que as traduções foram pagas há décadas. Se os nossos leitores ainda preferem ir comprá-los em vez dos desgraçados três mil exemplares que a exemplar tradução portuguesa não esgota, mesmo se publicada desde 2005, a coisa piora.
No fundo, paga 15 euros por uma coisa que não custou nada a produzir em vez de pagar 60 euros por algo que custou consideravelmente mais.

Pois é, Fernanda, o que falta para termos livros baratos em português é um verdadeiro mercado global do livro em língua portuguesa!

(Já agora: à entrada da livraria do Instituto Superior Técnico está um anúncio desta editora onde ela se gaba de publicar "autores nacionais", e recomenda aos estudantes que escolham os livros por ela publicados em detrimento das "traduções brasileiras" (inclui mesmo a frase "Não estudes por traduções brasileiras!"). Esta editora tem desenvolvido um trabalho meritório na publicação de bons livros técnicos de autores portugueses. Mas precisava de os "promover" utilizando um "argumento" tão mesquinho e rasteiro?)

2008/10/07

Prognósticos só no fim do campeonato (que vai ser longo)

Mas, face a isto (Paulo "Peseiro" Bento? Ninguém merece tal comparação), só me resta reafirmar isto e isto. No fim a gente fala.

2008/10/06

Será estado de negação?

Em uma semana o Sporting perdeu (bem em ambos os casos) com os seus dois principais adversários na corrida ao título de campeão. Eu continuo a achar que foram dois acidentes de percurso. Que o Sporting tem a melhor equipa, o melhor treinador e uma grande possibilidade de ser campeão. Assim regressem os lesionados.

2008/10/03

Deolinda

Uma semana depois do Arraial do Caloiro, foi isto que "ficou no ouvido", Musicalmente, o arraial valeu a pena sobretudo por este grupo de Lisboa.

2008/10/02

Na segunda fase do metro do Porto

O presidente da Câmara do Porto, Rui Rio, queria uma linha a percorrer a avenida da Boavista. Mas o governo central não lhe fez a vontade, e avança antes com uma linha a percorrer a rua do Campo Alegre. Seguiu o parecer da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, que afirma que esta opção trará mais utentes. E contrariou a câmara. Um exemplo para os defensores da regionalização. Deve ser por isso que aqui ainda não se escreveu uma linha sobre este assunto.

2008/10/01

Após o arraial do caloiro no Técnico

É claro que o presidente do IST, Carlos Matos Ferreira, ao proibir as praxes, tinha que fazer alguma concessão aos alunos. E essa concessão foi realizar o arraial do caloiro no campus do Técnico. Ficámos melhor assim. Para não haver praxes humilhantes (e este ano eu não as vi) poderia haver um arraial no campus do Técnico por semana. Todas as boas universidades têm festas no campus.
Só quem não tem ideia do que é ouvir boa música, beber e conviver com amigos e de repente olhar para trás e ver que tudo aquilo se passa naquela mesma alameda onde se passa todos os dias (e nem se olha bem para ela) é que pode criticar a presença do arraial na Alameda. E mirar as torres e os feios pavilhões desenhados pelo Pardal Monteiro? Vê-se o Técnico de outra forma completamente diferente através do arraial. E é importante que se veja. Durante o semestre o Técnico pode tornar-se um local deprimente. A recordação do momento daquele arraial durante o semestre é importante. Tal como é importante que o arraial se realize no Técnico mesmo e não em sítios que só alguns lisboetas conhecem e que caloiros com 18 anos (e mesmo alunos mais velhos)não conhecem. Atrai muito mais gente. E ainda bem que é assim.

2008/09/30

Dez anos

Faz hoje dez anos que encerrou a Expo 98.
Faz hoje igualmente dez anos que, no stand da Hyundai de Huntington, NY, comprei o meu querido Accent vermelho. O único carro que tive na vida.

2008/09/29

Joaquim Maria Machado de Assis

Morreu faz hoje cem anos. Escrevia muito bem, lindamente, mesmo. Dominava a língua portuguesa como ninguém. Mas, sinceramente, não creio que isso bastasse para fazer dele um grande escritor.

2008/09/26

Regresso à Alameda

Está na altura de ir jantar, enquanto actua a tuna. Depois lá estarei.

Assim se vê a força do PC

Creio que com as reformas que são no momento necessárias (e estão ainda em curso) a presença do PCP na governo não seria de todo desejável. (O mesmo se aplica ao Bloco de Esquerda: em política interna, não vejo diferença absolutamente nenhuma entre os dois partidos. Em política externa há e não é pouca, mas ninguém põe a hipótese de termos um ministro dos negócios estrangeiros destes partidos.) Não tenho votado na CDU nas eleições legislativas e nem tenciono votar nas próximas. Mas ao ler textos como este do João Galamba, palavra que me apetece ir a correr votar no PCP. Não o farei, mas outros o farão por mim. Se o João Galamba escolhe ostracizar estes portugueses, é com ele. Eu não ostracizo, e merecem-me todo o respeito, mesmo não concordando com eles. E sei que chegará o dia em que vão perceber melhor o mundo em que vivem. Mas parece-me um reeo crasso julgá-los irrelevantes ou alheados deste mundo. Pelo respeito que me merecem, não me sinto capaz de os tratar como “dementes”. O João trata-os. Mas o João também se acha no direito de criticar António Damásio por não ter lido este ou aquele livro. Se ele me permite, recomendo-lhe este trecho de um artigo do Público de 18.09.2008, por Constança Cunha e Sá.

Esta semana, também, foi publicada uma sondagem, no Correio da Manhã, que para além de assegurar a vitória do PS e a descida do CDS e do PSD, confirma, mais uma vez, o peso eleitoral do PCP e do Bloco de Esquerda, que, juntos, conseguem obter cerca de 20 por cento das intenções de voto. O Partido Comunista, em particular, surge em terceiro lugar, com um resultado superior a dez por cento, como, aliás, já tinha acontecido numa sondagem anterior. É verdade que, com o tempo, a popularidade de Jerónimo de Sousa deixou de ser uma "novidade", transformando-se num facto normal e previsível que já não suscita a admiração de ninguém. No entanto, a persistência do fenómeno não só não lhe retira singularidade como lhe acrescenta relevância política. O voto de protesto, embora explique parte do sucesso, não justifica, por si só, a capacidade de mobilização que tem, neste momento, o partido.
Ao contrário do Bloco de Esquerda, que sempre beneficiou do interesse dos jornalistas, o PCP, visto como uma aberração ideológica, foi durante muito tempo um partido ignorado, incapaz de contribuir para um debate sério sobre o desenvolvimento do país. Envelhecido, desprovido de quadros e sem intelectuais ao dispor, o PCP parecia ter os dias contados: para todos os efeitos, era uma espécie de relíquia histórica que mais tarde ou mais cedo acabaria por desaparecer, levado pela inflexibilidade de uma ortodoxia que se recusava a evoluir. Quando Carlos Carvalhas, o espelho do impasse em que se encontrava o PCP, abandonou a liderança, foi substituído, como se disse, pela velha guarda do partido. Imune às subtilezas da teoria, Jerónimo de Sousa confirmou as piores expectativas dos "renovadores". Com ele, os comunistas deixaram-se de evasivas ideológicas e, recuando no tempo, recuperaram acriticamente as suas teses do passado. Mas - e isso passou desapercebido - sem se preocuparem excessivamente com elas: o novo líder do PCP podia ser estalinista, sonhar com a antiga União Soviética ou defender regimes totalitários, mas nunca perdeu tempo a discutir o estalinismo, o modelo soviético ou o regime de Fidel. Ignorando ostensivamente as grandes questões doutrinais que envolveram a queda do Muro e o futuro do socialismo, Jerónimo de Sousa reduziu o debate ideológico aos problemas concretos dos portugueses. Daí à famosa "afectividade" que supostamente o distingue foi um passo que se acelerou com a eleição do eng.º Sócrates e com o "socialismo de mercado" que actualmente nos governa.
Pode-se dizer que a necessidade de controlar o défice, o arranque de algumas reformas e o progressivo esvaziamento dos direitos adquiridos é um terreno fértil ao florescimento do PCP e à demagogia de grande parte das suas propostas. Como se pode dizer que o projecto apresentado pelos comunistas não tem viabilidade, nem representa qualquer tipo de alternativa. Mas não se pode ignorar que grande parte da força que o PCP tem, neste momento, ultrapassa um modelo de desenvolvimento que nem sequer existe e se prende com a hipocrisia de um sistema cada vez mais desigual que privilegia os fortes e prejudica os fracos. A sobranceria do Governo e de grande parte da comunicação social em relação às questões sociais revela um arrivismo insuportável e uma total incompreensão da realidade humana e dos problemas dos mais desfavorecidos. Entre o autismo de uns e os êxtases liberais de outros, o triste quotidiano de grande parte dos portugueses fica necessariamente de fora, entregue à afectividade (se é isso que lhe querem chamar) de qualquer Jerónimo de Sousa.

Ana Rita Canário

Se havia pessoa que não gostava de praxes e tradição académica era a Rita.
Em memória da Rita está a ser feito um blogue.

2008/09/25

Chama-se provincianismo

Acerca de uma questão com um ano:

23.09.2008 - 00h58 - Tuga, Berlenga
O recrudescimento da praxe em Portugal mostra que em diversas vertentes o país andou para trás. Ela é bem o reflexo do nosso atraso de mentalidade (se fosse só económico!...). Mas a cobardia - e em demasiados casos a simpatia e até a concordância - das autoridades escolares e governativas tem sido clamorosa. Para os que acham muito úteis estas praxes à portuguesa, mesmo quando despojadas da sua quase sempre boçalidade, sugiro-lhes que procurem coisa semelhante nas faculdades de Paris, Roma, Berlim, Londres, etc. Durante a ditadura a praxe foi quase até ao fim um bastião do conservadorismo e do regime. E em Lisboa, cidade mais aberta, evoluida e cosmopolita, não existia. Agora está por todo o lado. Qual será de facto esta doença profunda que nos impede de evoluir?

É por isso que eu gosto desta escola (e deste curso)

Uma selecção minha dos comentários à notícia do Público

23.09.2008 - 10h14 - jsgm, Lisboa, Portugal
Em Setembro de 1995 um caloiro recusou as praxes "voluntárias". Perante a pressão dos veteranos que o empurravam e queriam encurralar num canto do Pav. de Civil deu um soco num "veterano". Foi perseguido por uma horda que queria tirar desforço da afronta. Refugiou-se no Conselho Directivo e os "assaltantes" quiseram rebentar as portas para o extrair de lá e "fazerem justiça". Perguntem aos Prof. Gaspar Martinho e Carlos Salema que lá estavam quanto tempo durou o cerco, que só terminou com a chegada de uma secção da PSP para dispersar a turba e escoltar o caloiro para fora do campus da Alameda.

23.09.2008 - 06h26 - Tiago Marques, Lisboa, Portugal
Acabei este ano um curso de Engenharia no IST e como tal vejo-me na condição de poder comentar este assunto. Ao longo dos 5 anos que passei no Técnico vi bastantes praxes (apesar do meu curso ser o único anti-praxe do IST) entre as quais muitas verdadeiramente humilhantes. Sem dúvida aplaudo esta decisão do Prof. Matos Ferreira, uma vez que discordo completamente da necessidade de praxe. Os seus defensores vão dizer que é para receber e integrar os alunos do primeiro ano, mas para tal não são precisas praxes. Vejam o exemplo do meu curso, Engenharia Física e Tecnológica em que tínhamos uma comissão de recepção aos alunos do primeiro ano para os integrar, mostrar-lhes o Técnico e Lisboa e realizar uma série de actividades como jogos, desporto e jantares. Acho a praxe representativa daqueles alunos que estão mais preocupados com "a vida académica" do que com a Universidade. No Técnico é para se trabalhar, se estão mal vão para a Independente.

23.09.2008 - 00h35 - Anónimo, Lisboa
Estudei no Técnico e por lá continuo, sou investigador e estudante de Doutoramento... Acho esta manifestação completamente disparatada, porque praxes, que me lembre acho que tive um dia ou dois, e não foi coisa que me fizesse perder muito tempo... Acho que existem formas diferentes de se conhecer pessoas do que a partir de um conceito completamente ultrapassado. Normalmente as pessoas no Técnico unem-se por grupos, e não é por haver praxe que se unem mais ou menos... É completamente ultrapassado e seria bom acabar com esse conceito de uma vez por todas... Hoje em dia acho que não faz sentido absolutamente nenhum...

22.09.2008 - 23h44 - Anónimo, Lisboa, Portugal
Haja alguém com bom senso!! Parabéns pela decisão Prof. Matos Ferreira. Tão ridículo quanto as praxes, só mesmo os trajes académicos e toda a atitute parva que normalmente a acompanha. Este país tem que perder a "mania da importância de ser dr". Ser estudante universitário ainda é um previlégio e escusam de exibi-lo a tanta e tanta gente que nunca o consegui ser. Sejam educados. Divirtam-se, mas educadamente

22.09.2008 - 21h52 - Tiago Carvalho, Lisboa
Muito boa medida do Sr. Reitor, porque em Portugal o que se quer é não respeitar a autoridade enquanto se atropelam outros direitos arrogando-se, claro está, também duma autoridade. E digo isto no sentido mais amplo. No caso do IST, como antigo estudante e actual bolseiro: só quem é parvo é que defende as praxes por estas servirem para integrar. Não há mais maneiras de as pessoas conhecerem-se senão através de jogos ridículos que só servem para acentuar a diferença hierárquica? Piadas foleiras e sexuais acompanhadas de cerveja? É singular observar-se que as mesmas alimárias que defendem e exercem a praxe são os mesmos imbecis que se vão arrastando pelo curso sem empenho e trabalho e têm a sua masturbação trajada de capa e batina só quando os caloiros entram em Setembro. Com sorte pescam uma caloira e depois entregam-nos todos à sua sorte. Não tenham dúvidas: as pessoas que praxam não são exemplo, bem pelo contrário, são um tipo de sujeitos totalmente acéfalo e preguiçosa que regozijam com a humilhação dos outros; dos caloiros não tenho pena nenhuma porque também se deixam submeter. Se querem "integrar" combinem uma hora, façam uma vaquinha, bebam uns copos. Simples e garantido

22.09.2008 - 20h58 - afonso, Portugal
a polícia fascista do politicamente correcto anda a fazer das suas... a verdadeira praxe no IST é acabar o curso

22.09.2008 - 21h13 - GZP, Lisboa
É mentira que as praxes no IST sejam puramente voluntárias. Eu entrei em Eng. Civil em 1995 e consegui escapar às brincadeiras grosseiras desses meninos por pura sorte e manha. No ano seguinte esforcei-me por ajudar outros alunos recém-chegados a fazerem o mesmo e quase que fui agredido. Concordo inteiramente com a medida do reitor: o IST não tem que ser conivente com este tipo de práticas bárbaras; se o fizerem fora do campus, no espaço público, aí valem claramente as leis civis que proíbem a agressão e a coacção.

22.09.2008 - 20h50 - F. Correia, Porto
Eu fui praxado, quando entrei na FCUL, contra a minha vontade. Fui lancado ao lago do campo grande, em Lisboa, por me recusar a obedecer aos 'veteranos' do meu curso. O resultado foi ter ficado uma semana doente (provavelmente devido à ingestao da àgua estagnada)... Nunca percebí esta necessidade que muitos estudantes universitários têm de achincalhar e abusar dos seus colegas mais novos. Mesmo nas suas manifestacoes mais brandas, a praxe resume-se a comandar os caloiros. Se esta é a forma correcta de colegas se tratarem, vou alí e já venho.

22.09.2008 - 19h31 - CM, Lisboa
Eh pessoal, mas nao acham que essa coisa de praxes cheira a provincianismo com pouca graca? Saudacoes

22.09.2008 - 19h25 - vg, oeiras
Estes meninos deviam ter juizo.Quando lá andei,aquilo era uma escola para rapazes ,com boas instalações desportivas.Agora são "tunas " e praxes à moda do Norte...Bimbos

22.09.2008 - 19h17 - Anónimo, Caldas da Rainha
As praxes são tradição no IST??????? Quando oiço falar nas praxes e na capa e batina no IST é rir a bandeiras despregadas com a historieta.

22.09.2008 - 19h01 - JT, Portugal
Praxe voluntária? Ter um brotamontes mais velho, desconhecido, numa cidade desconhecida a gritar-te aos ouvidos, enquanto estás de joelhos a olhar para o chão, que se não fores praxado és um mer... que vais ser posto de parte durante o tempo que durar o curso, etc,... isso torna a praxe voluntária? Srs Estudantes, que tal um pouco de raciocínio, de preferência antes da sétima imperial? Será que é verdade, que no século XXI , o conservadorismo obscurantista que sempre foi combatido a partir dos meios académicos, agora é defendido, sobre o pretexto do álcool, por estes? As razões dos estudantes(?) são tão válidas com as dos que defendiam que as mulheres não tinham inteligência suficiente para votar (alguns deles, de caneca na mão dirão "E têm?"), ou que os não nobres não tinham capacidades governativas (E o estudante com a capa cheia de cerveja dirá "pois claro, hic, não estudavam...")

22.09.2008 - 19h00 - Anónimo, lisboa
Concordo plenamente com o fim das praxes. As mesmas não são mais que: fizeste-me a mim, hei-de fazer a ti. É tempo de os nossos futuros Engenheiros pensarem em receber dignamente os nossos caloiros em que a maior parte deles necessita de apoio e não de praxes. Uma brincadeira de uma hora ou um dia aceito, agora praxe de uma semana? Não sejam ridículos e defendam um nome tão grande como Instituto Superior Técnico. Eu fui aí estudante e nunca participei em nenhum evento dessa natureza.

É por isso que eu gosto desta escola

Uma vez mais, o Instituto Superior Técnico dá o exemplo para o resto do país.

Comunicado do Presidente sobre praxes académicas no IST
19 Setembro 2008

Na sequência da carta enviada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior dirigida ao Presidente do Conselho de Reitores no passado dia 10 de Setembro, repudiando de forma veemente a prática das praxes académicas infligidas aos estudantes que ingressam no Ensino Superior, e dando conta da intenção de responsabilizar civil e criminalmente, por acção e por omissão, os órgãos próprios da instituição sempre que se demonstre a existência de práticas ofensivas para os estudantes, fica decidido:

Não reconhecer legitimidade a qualquer auto-denominada comissão de praxe, proibindo as actividades que neste momento lhes estão associadas nos campi da Alameda e do Taguspark;
Proibir a prática de praxes académicas nos campi da Alameda e do Taguspark, qualquer que seja a forma como são organizadas.
Qualquer violação a esta directiva deverá ser comunicada ao Conselho Directivo da Escola, que agirá em conformidade, não estando excluída a possibilidade de abertura de um processo disciplinar ao(s) elemento(s) prevaricador(es).

Carlos Matos Ferreira
Presidente do IST

2008/09/24

Sobre o cartão magnético de acesso às escolas

Ponto prévio: acredito que a principal preocupação de muitos pais ainda seja o controlo total dos filhos adolescentes, e partilho a grande preocupação da Maria João Pires quanto a este facto.
Dito isto, eu não vejo a introdução de um cartão magnético necessariamente ou exclusivamente como uma medida de “controlo total”. É-o em parte e é aí que eu o critico. Não me parece razoável que um aluno do secundário não possa entrar e sair livremente da escola. Não me parece sobretudo razoável que alunos do 2º ciclo (de 10 e 11 anos) sejam tratados da mesma forma que adolescentes pré-universitários. São idades muito diferentes, e esta indistinção origina uma imaturidade que hoje já se nota nos alunos do primeiro ano das universidades.
De qualquer forma, da maneira como o cartão é apresentado pela Maria João, parece que as escolas passam a ser uma espécie de “Big Brother”, onde todos os passos lá dentro são vigiados, os intervalos, o convívio com colegas, eventuais demonstrações de afecto e experiências que é suposto ter-se nesta idade. Não é assim, e ainda bem que não é. O cartão parece-me positivo até ao 9º ano, e com algumas alterações e salvaguardas importantes (poder vir cá fora ao café da D. Maria fumar um cigarrinho no intervalo – afinal não se pode fumar dentro das escolas, não é?) também mesmo no secundário.
Um dos aspectos importantes do cartão é o controlo da assiduidade. É aqui que eu não concordo com a Maria João, nomeadamente com a frase “A ideia de que alguém se mostre satisfeito pela existência de um cartão que lhe permite, por exemplo, ser avisado em tempo real de uma simples balda de um filho arrepia-me.” O controlo da assiduidade e o combate ao absentismo são de uma extrema importância em todas as actividades profissionais ao longo da vida, e a escola secundária é um bom local para começar a aprendê-lo. Nenhum aluno é impedido de faltar por isto. Aliás, tanto quanto eu sei, a única alteração deste cartão vai ser mesmo a comunicação da falta em tempo real ao encarregado de educação, pois ele já poderia tomar conhecimento de todas as faltas (não em tempo real) se assim desejasse. O cartão é é uma medida de responsabilização: o estudante deve habituar-se a assumir a responsabilidade pelos seus actos, nomeadamente pelas suas faltas. Não é encarando-as como “uma simples balda”, um “pequeno disparate” a que não se liga muito que se fomenta essa responsabilidade. A este respeito convém recordar as reacções dos alunos que vêm do estrangeiro, nomeadamente filhos de imigrantes, ao compararem a escola dos seus países de origem com a portuguesa. Todos referem que a escola portuguesa é menos exigente, que a atitude dos alunos portugueses é muito diferente da deles. Para eles a escola é para se aprender, e “uma simples balda” é algo impensável. É com estes alunos que temos que nos comparar e é como estes alunos que devemos querer que os nossos filhos sejam.
Resumindo, para mim a introdução do novo cartão é uma medida a elogiar, embora se deva rever a sua aplicação.

2008/09/23

Edward Norton Lorenz (1917-2008)

Lorenz, o pai do "efeito borboleta", durante a Segunda Guerra Mundial trabalhou como meteorologista para as Forças Armadas americanas, e descobriu este comportamento caótico enquanto estudava modelos para a previsão do tempo. A descoberta foi feita completamente por acaso: ao reintroduzir os mesmos dados no mesmo modelo, Lorenz obteve resultados completamente diferentes! Ao reexaminar mais cuidadosamente os seus dados, verificou que se enganara numa casa decimal, que significara uma diferença pequeníssima numa condição inicial!

Para saber mais, os sítios do costume: o obituário do The New York Times, o The Reference Frame e a Gazeta de Física, de onde o texto foi retirado (nº 3 do volume 31).

2008/09/22

Na semana da mobilidade

Mais uma vez, o “Dia sem carros” que, em Lisboa, consiste em fechar o trânsito entre o Rossio e o Terreiro do Paço. De utilidade muito duvidosa esta medida. Bem mais úteis são as medidas anunciadas para o transporte público nocturno ao fim de semana e véspera de feriado. De parabéns a Câmara Municipal de Lisboa, Secretaria de Estado dos Transportes e Ministério da Administração Interna.
O “Dia sem carros” é presentemente uma iniciativa simbólica que não incomoda ninguém, e não resolve o problema principal – andar de carro, em Portugal, é uma questão de status. Ainda “parece mal” andar de transporte público ou bicicleta. O “crédito fácil”, a “bolha” que parece que está a rebentar e que se traduz em os portugueses viverem aima das suas possibilidades também se reflecte no número elevado de carros novos. No entanto, conforme é visível, cada vez há mais portugueses a andarem de bicicleta. Por muito que isso custe aos bondosos proponentes destas campanhas cívicas, tal atitude dos portugueses só começou quando começaram a sentir no bolso os efeitos da – abençoada! – “crise do petróleo”.
É útil aliás perder um pouco de tempo a ler os comentários dos leitores destas notícias e comparar os comentários dos portugueses residentes no estrangeiro com alguns dos de residentes em Portugal. Como sempre, em Portugal, o bom exemplo tem que vir de fora – dos países onde há muito andar de bicicleta é um hábito corrente. Talvez assim se torne moda – se torne chic!

2008/09/19

Cravos vermelhos

"Para o funeral de uma democrata", disse eu à florista. A Rita gostaria.
Adeus Rita, minha colega no Conselho Pedagógico do IST e um símbolo da LEFT.

2008/09/18

Rita


A Rita Canário, a minha colega mais velha, minha parceira de lutas políticas, com quem concordei tantas vezes, de quem discordei outras, com quem tanto partilhei nos meus anos de aluno do Técnico, a minha querida amiga Rita faleceu ontem à noite. Não há palavras. Não há justificação.

2008/09/17

Os portugueses e os prazos

Há pouco mais de cinco anos, ainda estava nos EUA, candidatei-me a uma bolsa Marie Curie. Na altura as candidaturas tinham de ser enviadas para Bruxelas pr correio. Havia um prazo (e uma hora) limite para as candidaturas chegarem à Comissão Europeia.
Por atrass e falhas de comunicação com a minha instituição de acolhimento, a verdade é que só enviei a candidatura dois dias antes do prazo. Enviei-a via FedEX, que me garantia a chegada a tempo. Garantia... se não houvesse imprevistos. Mas houve. Ou o camião ficou retido nalguma estrada em Long Island, ou por outro motivo quaquer, o envelope com a minha candidatura só saiu dos EUA 24 horas depois do previsto, e chegou a Bruxelas com um atraso de poucas horas, mas o suficiente para esta não poder ser considerada.
Olhando para trás, acabei por ir para outro sítio (Paris), com outro financiamento que descobri mais tarde, e onde fui muito feliz. Creio que acabou por não ter sido mu, a posteriori, esta candidatura não ter sido bem sucedida. Mas é evidente que é frustrante ela nem sequer ter sido avaliada... E enquanto não tive a bolsa francesa mais frustrante foi. Culpei-me muitas vezes embora nada fizesse prever que a FedEx falhasse logo naquele dia.
Lembrei-me deste episódio ao saber das candidaturas falhadas das câmaras do Seixal e do Barreiro ao QREN. Será que isso só sucede a portugueses (nomeadamente portugueses de esqerda)? Nem por isso. A um amigo meu, alemão e ultra-organizado, que também se candidatava a uma bolsa Marie Curie, sucedeu-lhe exactamente o mesmo que a mim...

2008/09/11

Quinze anos

Quinze anos, foi o tempo que passou desde a última derrota da selecção portuguesa em casa numa fase de qualificação.
Quinze anos atrás, e primeiro Portugal e depois o Sporting jogavam muito bem mas não ganhavam nada.
Quinze anos atrás, não havia mentalidade ganhadora e nem maturidade de segurar um resultado. "Merecia-se ganhar", mas perdia-se.
Quinze anos, foi quanto o futebol português regrediu ao substutuir Scolari por Carlos Queirós. E espanta-me que haja quem (principalmente sendo adepto do FCP) não perceba este facto tão básico.

2008/09/10

Finalmente LHC

À hora a que começa a funcionar a maior experiência já concebida, é altura de ver mais uma vez o famoso e educativo rap.

2008/09/09

Os media e a física fundamental

Pretendemos, sem ser exaustivos, reflectir sobre a cobertura por parte dos media de algumas notícias relativas à fisica fundamental.
Tomemos como exemplo o badalado reconhecimento, por parte do conhecido astrofísico Stephen Hawking, da sua derrota na famosa aposta (de uma enciclopédia de basebol) com John Preskill sobre a conservação da informação após a evaporação de um buraco negro, no verão de 2004. Na extinta Grande Reportagem, em conjunto com a notícia foi apresentado um resumo biográfico de Hawking, com as principais datas da sua vida. Desse resumo constavam as datas relativas à sua doença, a publicação do seu livro, a aposta com Preskill. Nem uma só palavra sobre os seus enormes sucessos científicos! Nada era dito sobre o que tornou Hawking reconhecido pelos seus pares e que lhe dará um lugar na História da Ciência, que não tem nada a ver com a sua doença ou os seus livros – os teoremas de singularidades, com Roger Penrose, e a radiação dos buracos negros! Os aspectos científicos eram o menos importante nesta biografia do cientista.
Um exemplo mais recente é o da publicidade nunca vista acerca da publicação de um preprint (artigo disponível na internet, sem arbitragem científica) por parte de Garrett Lisi, em Novembro de 2007, com o sugestivo título Uma Teoria de Tudo Excepcionalmente Simples. Apesar de toda essa publicidade, mais de oito meses passaram e o artigo ainda não foi aceite por nenhuma revista da especialidade. Nestes oito meses o artigo conta somente com seis citações (há artigos que atingem tal marca em menos de uma semana, e sem publicidade nenhuma na comunicação social). A única dessas citações que corresponde a um artigo efectivamente publicado tem como co-autor o consagrado Sergio Ferrara, um dos inventores da supergravidade, premiado com a medalha Dirac em 1993, e refere-se ao modelo de Lisi só para o qualificar como “sem futuro”.
Note-se que não pretendemos contestar o valor de Lisi enquanto cientista; independentemente do destino que a História reservar à sua proposta, ninguém põe em causa o seu mérito ao apresentá-la. Tão-pouco pretendemos julgar cientificamente e de uma forma definitiva a sua proposta; uma vez mais, só a História o fará. Mas do que não restam dúvidas é que, como esta proposta, há muitas outras mais, só que nenhuma mereceu tal atenção da comunicação social. A proposta de Lisi teve grande destaque nos principais jornais de referência mundiais, sendo inclusive a capa de uma prestigiada revista francesa de divulgação científica, que lhe dedicou um dossiê especial. Como explicar tal atracção da comunicação social por um trabalho que, até agora, e segundo os usuais critérios científicos, se revelou tão pouco relevante?
Uma explicação reside no facto de Lisi ser um físico fora da universidade; vive num lago no estado americano do Nevada, totalmente isolado do mundo académico e dedicando grande parte do seu tempo aos desportos radicais. Tem um perfil bem diferente do cientista tradicional, tal como Gregory Perelman, o matemático que resolveu a conjectura de Poincaré (um resultado também disponível na internet e nunca publicado em nenhum jornal). Só que o trabalho de Perelman, premiado com a medalha Fields em 2006, é reconhecido unanimemente por toda a comunidade científica, o que está muito longe de acontecer com o trabalho de Lisi. Talvez algum público tenha visto em Lisi um novo Perelman, mas cremos que o principal motivo de interesse jornalístico não é esse.
O principal motivo, a nosso ver, é o mesmo que justifica que a perda da aposta por Hawking tenha mais interesse que os seus enormes sucessos científicos: na Física fundamental, essa ciência ingrata, a razão para a notícia é sempre o fracasso de algo. A principal novidade, para o leigo, da Teoria da Relatividade, mais do que o trabalho de Einstein, era o fracasso da mecânica de Newton. No caso de Hawking, o fracasso seria mais o seu, o de um cientista que já teve muitos sucessos que não foram notícia, ao perder a aposta (se a tivesse ganho, o fracasso seria muito maior: seria o da mecânica quântica!).
No caso de Lisi, o sucesso da sua teoria seria o fracasso das outras tentativas de quantizar a gravidade, nomeadamente (e principalmente) a mais mediática: a Teoria de Supercordas. Mas estas teorias estão longe de poderem ser vistas como acabadas ou definitivas; no entanto, frequentemente são apresentadas como as “teorias de tudo” ou as “teorias finais” em livros de divulgação. São por isso vítimas do seu próprio mediatismo, tornando-se um “alvo a abater”. Só que se as teorias de cordas não são comparáveis à mecânica newtoniana, muito menos o modelo de Lisi é comparável à relatividade. É muito positiva e desejável a atenção do público à Física fundamental, mas a discussão tem que ser mais séria e não ter como principal objectivo o de vender livros ou jornais.

Publicado no nº 3 do volume 31 da Gazeta de Física

2008/09/08

Os snipers no BES e nas FARC

Regressando de viagem verifico que pelo Blasfémias pouco mudou.
João Miranda continua entretido com as suas teses libertárias, mas não percebo como pode falar em “presunção de inocência” (neste caso necessariamente do falecido assaltante) num crime que era flagrante e que estava a ser transmitido em directo pela TV. Se a polícia tivesse que pressupor sempre inocência, nunca poderia actuar e mais valia acabar com ela. No fundo, segundo a lógica habitual de Miranda milícias privadas não custariam dinheiro ao contribuinte.
Mas ocorreu-me uma comparação interessante entre o assaltante do BEs e o membro das FARC assassinado no resgate de Ingrid Betancourt e outros reféns das FARC. Este último resgate teve o júbilo merecido e justificado da maioria da blogosfera portuguesa (o meu incluído). No entanto, e embora este motivo não seja suficiente para eu lamentar a operação, tenho pena de que tenha havido uma baixa, de um guerrilheiro das FARC. Embora não defenda nem um bocadinho procedimentos das FARC (apesar de achar que existem justas razões de queixa contra o governo colombiano), aqui admito que tive pena de que aquele homem tinha morrido. E tive pena por várias razões: ele não era um dos comandos principais das FARC e, sobretudo, teve azar – estava no momento errado na hora errada.
Ao contrário do assaltante do BES, que em conjunto com o seu colega era totalmente responsável pelo que se estava a passar e deveria saber os riscos que corria, ainda assim tomando a decisão de manter o rapto e não se render, quando teve oportunidades para isso. O guerrilheiro das FARC está certo que se juntou à organização por escolha sua, e um pouco responsável seria sempre, mas não era de longe o único responsável por aquela situação. Não sabemos se teve oportunidade de se render no acto do resgate. E não há dúvida de que, em vez dele, poderia ter sido outro qualquer a morrer, pelo que evidentemente teve azar. Eu tive pena dele.
Cronistas como Ferreira Fernandes dedicaram uma crónica inteira a dizer que a morte do guerrilheiro das FARC foi justa e valeu a pena. Mas coerentemente Ferreira Fernandes também defendeu a morte do assaltante do BES.
O resgate de Ingrid Betancourt foi efusivamente comemorado no Blasfémias, onde João Miranda continua a lamentar a morte do assaltante do BES por parte da polícia do Estado. Por que razão não lamentou então João Miranda a morte do combatente das FARC?

2008/09/06

Antes do primeiro jogo de qualificação

Futebolisticamente, prefiro os admiradores de Pinochet aos emuladores de Cavaco.

2008/08/21

Parabéns ao SLB!

Não sou capaz de seguir os Jogos Olímpicos em termos de nacionalidade, pelo que considero ridículas as discussões como a da nacionalidade de Francis Obikwelu. Querer ganhar mais medalhas nos Jogos Olímpicos que outros países é típico de ditaduras e países imperialistas. Os Jogos Olímpicos valem sobretudo pelos atletas. Da mesma forma, não sou capaz de me referir à selecção nacional de futebol, ou mesmo à minha equipa, no plural. Nunca digo “ganhámos”: digo “eles ganharam”. Fazer aproveitamentos políticos, à esquerda ou à direita, de resultados desportivos irrita-me.
Consistentemente com o que escrevi há quatro anos atrás, eu, sportinguista empedernido, tenho que dar os parabéns ao Benfica. Faz muito mais sentido ver os triunfos de atletas do Benfica como do Benfica do que de Portugal. Parabéns ao Benfica, mas acima de tudo parabéns à Vanessa Fernandes e, sobretudo, ao Nelson Évora. E a quem vê o número de medalhas nos Jogos Olímpicos como o índice de desenvolvimento de um país eu sugiro: e se se preocupassem mais com as medalhas nas Olimpíadas de Matemática ou Física?

2008/08/20

Esta não é a Ana Sá Lopes

Ainda o assalto à agência de Campolide do BES. Numa crónica no suplemento Gente do DN de sábado, Ana Sá Lopes insurge-se contra quase toda a opinião publicada na imprensa e na blogosfera, que apoia incondicionalmente a suposta arbitrariedade da polícia, sendo que praticamente a única excepção viria da parte de João Miranda, no DN e no blogue Blasfémias. "Esta não é a minha polícia", afirma a jornalista, indignada, e pede ao ministro da Administração Interna que diga ou faça alguma coisa "de esquerda".
Ninguém deveria ter ficado feliz com a morte do sequestrador. É verdade que muitos comentadores parecem ter ficado, mas tal não resulta de se aceitar a acção da polícia neste caso. Eu e muitas outras pessoas apoiámo-la como mais um entre tantos males que infelizmente por vezes são necessários, mas sinceramente lamento a morte (e como eu, tenho a certeza, muita gente).
Dito isto, creio que há um equívoco da parte de Ana Sá Lopes relativamente à posição de João Miranda. Não vi João Miranda lamentar nenhuma morte. Conforme já aqui escrevi há uns dias atrás, o que incomoda João Miranda em todo este processo não é a morte do sequestrador em si, mas o facto de esta ter sido perpetrada pelo Estado (neste caso, representado pelo agente da polícia). Permitisse a legislação o livre porte de armas, resultasse a morte do sequestrador, nas mesmas circunstâncias, da acção de um segurança privado do banco ou de qualquer outro civil armado (mas nunca de um agente do Estado) e tudo estaria bem para João Miranda. Até poderia ser não só um mas vários sequestradores a morrerem. É esta a forma de pensar da direita libertária.
Embora não concorde, posso respeitar a opinião de quem acha que a polícia não deveria ter aberto fogo, dependendo dos argumentos apresentados (gostaria era de saber qual seria a sua opinião se estas pessoas fossem os reféns). Agora, pedir ao ministro que "faça alguma coisa de esquerda" e, no mesmo texto, invocar a direita libertária, como faz Ana Sá Lopes, é que me custa a perceber. Parece-me que se é assim, como diria outro Lopes, está mesmo tudo doido...
Com os seus cronistas supostamente de esquerda a invocarem desta forma a mais direitista das direitas, quem se fica a rir é o director João Marcelino.

2008/08/19

Os fatos dos nadadores

Acerca da proeza de Michael Phelps, tem havido muita discussãoa cerca dos fatos dos nadadores e da influência que estes têm no seu desempenho, sendo por isso mais fácil atingir melhores marcas hoje em dia, com os fatos modernos, do que era, por exemplo, no tempo de Mark Spitz.
Para resolver esta polémica, proponho que todas as provas de natação passem a ser disputadas... em pelo. Nadadores e nadadoras como vieram ao mundo.

2008/08/18

"É doce morrer no mar.."


Graças à Maria João Pires, fiquei a par da triste notícia: Dorival Caymmi morreu. A propósito, recordo o texto que escrevi na ocasião dos seus noventa anos. Tem um vídeo (uma interpretação de Maracangalha com a família Jobim) que é uma delícia que vale sempre a pena recordar.

2008/08/17

Começar bem


Quero ver muito essas línguas ao longo da temporada.

2008/08/13

O outro texto do João Miranda

Refiro-me agora ao texto publicado no Blasfémias sobre o assalto à dependência do Banco Espírito Santo em Lisboa. Começo por esclarecer a minha posição: concordo com o procedimento da polícia. Embora lamente sinceramente que tenha sido perdida uma vida, estavam outras vidas, perfeitamente inocentes, em jogo, pelo que creio que a opção não poderia ter sido outra. Dito isto, também não concordo que se equivalham as posições do João Miranda e da maior parte das pessoas que criticam a actuação da polícia neste caso. É que quis-me parecer (mas posso estar errado) que o que mais incomoda o João Miranda é, mais do que a morte em si, o facto de esta ter sido perpetrada por um agente do Estado (polícia, neste caso). Sendo assim, e para esclarecer melhor esta minha dúvida, gostaria de colocar algumas questões ao João Miranda, nomeadamente:
  • Qual é a opinião do João Miranda sobre a pena de morte? O João já escreveu sobre isto, mas não é um juiz um agente do Estado?
  • Qual é a opinião do João Miranda sobre o livre porte de armas?
  • Tomaria o João Miranda a mesma posição sobre a morte caso a mesma operação de resgate (com a mesma morte do assaltante) tivesse sido efectuada por um privado? Digamos que por vigilantes contratados pelo próprio banco e não pelo Estado?
Obrigado pela atenção, e peço desculpa se alguma destas respostas já foi dada nos quase 400 comentários ao referido texto (não me é possível lê-los). Aguardo pelos esclarecimentos, se possível.

Grande texto, João Miranda

Refiro-me a este, publicado no DN de 9 de Agosto. Começa por ser sobre o computador "Magalhães", mas vai muito para além deste assunto. Leiam (também no De Rerum Natura), que vale bem a pena.

2008/08/08

08-08-08, 08:08

No início do milénio toda a gente reparava nestas datas; agora, talvez por ser Agosto e menos gente estar a trabalhar, ninguém repara (e já só "falta" uma neste século: 09-09-09). Ninguém repara excepto os chineses, que hoje e a esta hora decidiram começar os Jogos da XXIX Olimpíada. Mas no calendário chinês isto fará algum sentido especial?

2008/08/07

2008/08/01

Alô Gil, aquele abraço


Quando chegou ao Ministério da Cultura, foi aclamado internacionalmente como o sucessor de Nana Mouskouri. Mas não deixou de fazer exigências: queria ter tempo para continuar a fazer as suas digressões e dar os seus espectáculos mundo fora. Pior: não queria “perder dinheiro” por ser ministro. Era essa a justificação oficial.
Lula mesmo assim aceitou, e o Brasil passou então a ter o “ministro cantor”.
Eu não estou em condições de julgar o seu trabalho enquanto ministro, e nem é esse o meu objectivo neste texto. É claro que era engraçado e original o Brasil ter um ministro que de dia tinha reuniões políticas e à noite actuava em Nova Iorque, na sede das Nações Unidas, ou em Paris, na Praça da Bastilha. Mas também era agradável para o cantor em questão ser reconhecido como “o ministro”, e seguramente tal não o tornou menos famoso. Nem as iniciativas dentro e fora do Brasil por si patrocinadas. Posso testemunhar as iniciativas associadas ao “ano do Brasil em França “ (2005): o seu nome aparecia em maiúsculas, sempre em lugar de destaque (e sem nenhuma comunicação ou outro motivo que o justificasse). Não bastava a referência às entidades em abstracto (neste caso o Ministério da Cultura): nunca faltava o “Ministro da Cultura - Gilberto Gil”.
Ficou famosa uma greve prolongada dos funcionários do seu ministério (que praticamente o parou) a exigirem melhores salários. Gil não demonstrou nenhuma solidariedade para com o ministro das Finanças, seu colega no governo: preferiu refugiar-se em mais uma digressão pelo estrangeiro e dizer que nada sabia nem tinha a ver com o assunto.
Podem ter-se visto muitos resultados desta passagem de Gil pelo Ministério da Cultura do Brasil; para além do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo (que é justo destacar), já disse que não sei. Sei o que nunca se viu (pelo menos que eu tenha dado por isso): um ministro com sentido de Estado, sentido de dever, ética republicana, espírito de missão. Gil sempre se achou mais importante que o país ou o seu ministério. Por “dificuldades para conciliar as atribuições oficiais do cargo de ministro da Cultura com a sua carreira artística”, Gilberto Gil já não é ministro da Cultura do Brasil. E o Rio de Janeiro continua lindo.

2008/07/31

Mearsheimer e Walt atacaram o AIPAC mas apoiam J Street

Continuando o texto anterior:

Em 2006, quando John J. Mearsheimer, da Universidade de Chicago, e Stephen Walt, de Harvard, publicaram The Israel Lobby amd the US Foreign Policy, primeiro um artigo na London Review of Books (LRB) e depois um livro (em 2007), receberam mais insultos que elogios. Quebraram um tabu, ao afirmar que, depois da Guerra Fria, Israel se tornou um fardo mais do que um trunfo estratégico para os Estados Unidos. Dois anos depois, o aparecimento de J Street vai ao encontro de uma das suas recomendações, no capítulo final: "A criação de um 'novo lobby' que pressione a favor de políticas mais inteligentes".

Falando em seu nome e no de Mearsheimer, numa entrevista ao P2 por e-mail, Walt esclarece que nenhum deles esteve envolvido na génese de J Street: "Achamos que é um desenvolvimento positivo [embora] não tenhamos provas de que haja uma ligação directa com o nosso livro. O que é mais evidente é que ambos [o livro e o novo lobby] reflectem uma crescente tomada de consciência de que a política dos Estados Unidos para o Médio Oriente é obviamente má e não serve os interesses da América nem os de Israel. Nós enfatizamos isto no nosso livro, mas outras pessoas, incluindo os fundadores de J Street, seguramente que compreenderam isto muito antes de o nosso livro ter sido publicado."
"Não há nada de errado em ter uma comunidade pró-israelita politicamente influente nos Estados Unidos, se [o objectivo] for lutar por políticas com sentido estratégico e moral, em vez das políticas contraproducentes dos grupos que o AIPAC [American Israel Political Action Committee] tem apoiado", frisam Walt, 53 anos, e Mearsheimer, de 61, seguidores da teoria do "realismo ofensivo", segundo a qual o interesse nacional deve ser a única motivação da política externa de um país.
Ambos mantêm a afirmação de que "o apoio incondicional de Israel - sobretudo das suas políticas brutais em relação aos palestinianos nos territórios ocupados - é uma das razões, ainda que não a única razão, do anti-americanismo crescente no mundo árabe e islâmico". E acrescentam: "Uma política mais equilibrada dos EUA em relação a Israel e aos árabes não resolveria todos os problemas na região mas afastaria um dos principais focos de tensão e facilitaria a resolução de outros problemas. Também achamos que uma política mais equilibrada seria do interesse de Israel, porque estaria mais em consonância com as noções básicas de decência e justiça."
Em The Israel Lobby, encomendado (em 2002) e rejeitado (em 2004) pela Atlantic Monthly, Mearsheimer e Walt recomendam que Israel seja tratado como "um país normal". Esse é também um velho sonho sionista, mas que prazo para isso ser possível? "Se começarmos a ter um discurso mais aberto e honesto sobre Israel e os Estados Unidos, as atitudes e as políticas podem mudar rapidamente", respondem. "Mas, claro, é por isso que grupos no [velho] lobby se esforçam tão arduamente por impedir uma discussão franca."
Apesar de acusações de "anti-semitismo", de "ensaio conspirativo" ou de "trabalho científico medíocre", os autores de The Israel Lobby garantem que as suas carreiras, como membros de uma elite académica (Walt foi, entre 2002 e 2006, reitor da Kennedy School of Government em Harvard), não foram arruinadas. "É cedo para avaliar o impacto do nosso livro, mas acreditamos que contribuímos para um debate mais livre sobre esta questão importante. Ainda é muito complicado um diálogo crítico sobre a política israelita, as relações Estados Unidos-Israel e o próprio lobby."
"Silenciar o debate, caluniando as pessoas como 'anti-semitas', é inconsistente com os princípios da liberdade de expressão e dificulta ainda mais a discussão séria de assuntos vitais", concluem os dois autores. "Se não pudermos discutir esses assuntos, os EUA vão provavelmente continuar as suas políticas insensatas no Médio Oriente, em detrimento de todos os envolvidos". M.S.L.

"Há um novo lobby judeu na América e não tem medo de criticar Israel"

O seguinte artigo do Público de 22 de Julho aborda um dos poucos temas tabu nos EUA: é impossível ter-se uma posição (moderadamente) pró-palestiniana no conflito israelo-árabe. Um político que não jure "apoio incondicional a Israel" não tem hipótese de ser eleito. Um comentador que critique frontalmente Israel nos EUA não pode ser levado a sério.
Felizmente há um grupo - de judeus - que pretende altera minimamente est situação. Conseguirá? Pelo "apoio incondicional" a Israel já manifestado por Barack Obaa, este novo e bem vindo lóbi judeu ainda tem muito que fazer. Boa sorte é o que eu lhes desejo.

Chama-se J Street. Porque não há rua J em Washington e porque a K Street está cheia de lobbies que "apoiam ruidosamente Israel em situações de guerra mas ficam silenciosos em negociações de paz". Tem um poderoso adversário: o grande lobby judeu AIPAC, "infiltrado" pela direita israelita, por neo-conservadores e cristãos fundamentalistas. Mas também um potencial aliado: Barack Obama, que hoje chega a Jerusalém.

Em Washington não há nenhuma J Street (as ruas horizontais vão directamente do I ao K), mas é aqui que as palavras de Barack Obama durante a visita que hoje inicia a Israel serão ouvidas, provavelmente, com mais atenção. J Street é o nome de um novo lobby judeu nos Estados Unidos que alguns analistas prevêem irá "mudar o mapa político americano e do Médio Oriente".
Reparem no que diz ao P2, por telefone, Daniel Levy, um dos cem membros do conselho consultivo de J Street. "Hoje em dia, é muito difícil dizer 'Eu apoio Israel, ponto final'. Porque a pergunta a seguir é. 'Que Israel? Israel dos colonos ou Israel que quer acabar com a ocupação? Israel que quer destruir o Hamas ou Israel que acredita que é preciso negociar, ainda que indirectamente, com o Hamas? Israel que quer reter os Montes Golã e não acha importante dialogar com a Síria ou Israel que quer tratados de paz com os vizinhos sendo que isso implica devolver territórios?"
"Hoje, já não é convincente o argumento de que o modo incondicional como a América apoia Israel é bom para a América e para Israel", frisa Levy, asseverando que J Street não terá medo de enfrentar um primeiro-ministro israelita que não comungue as posições do grupo - sondagens apontam como favorito em próximas legislativas o "falcão" Benjamin Netanyahu. E até podem acusá-lo de ser "anti-semita" ou "self-hating Jew" (judeu que se odeia a si próprio) - expressões frequentemente usadas para silenciar os críticos das acções de Israel. "Os israelitas, por estreita ou larga margem, podem eleger um líder que se opõe ao processo de paz, mas não seremos apoiantes de opositores de paz.".
"Haverá pessoas que irão intimar-nos: 'Vocês têm de apoiar o governo israelita!'", reconhece Levy. "Mas eu responderei que isso não se aplica a nenhum outro país. Eu posso ser pró-Venezuela e não apoiar a política de Hugo Chávez. Posso ser um grande admirador da República Checa mas posso não achar uma boa ideia instalar ali um sistema americano de defesa antimíssil. Todos nós, na América, sobretudo os judeus, temos ligações emocionais a Israel, mas não podemos deixar de ser racionais, como se Israel vivesse noutro planeta. Será uma política destrutiva ajudar Israel avaliando-o segundo padrões diferentes. Israel precisa de fronteiras negociadas e reconhecidas. Às vezes abraçamos Israel quase até à morte. Amamos Israel de uma maneira que não é saudável. É como darmos as chaves do carro a um amigo embriagado."
Israel é o maior receptor de ajuda dos Estados Unidos (3000 milhões de dólares anuais). No entanto, como já havia notado Levy num artigo na American Prospect, não é submetido a qualquer pressão. Pelo contrário, "pode gozar uma ocupação de luxo - já gastou mais de dez mil milhões de dólares em colonatos desde 1967." Ora, este "vício de mau comportamento sem consequências conduz à tentação de uma escalada (...) e estrangula uma solução viável de dois Estados."
Alternativa ao AIPAC
As palavras são duras, mas Levy é um "peso-pesado". Cientista político de origem inglesa, é filho de Michael Levy, membro da Câmara dos Lordes, líder da comunidade judaica no Reino Unido e um dos maiores angariadores de fundos da campanha de Tony Blair. Foi conselheiro de três líderes israelitas - Ehud Barak, Yossi Beilin e Haim Ramon. Participou nas negociações com os palestinianos em 1995 (Oslo B) e em 2001 (Taba). Foi um dos principais redactores da Iniciativa de Genebra (um ambicioso plano de paz) e agora é senior fellow da Century Foundation e da New American Foundation. O seu blogue, Prospects for Peace, é um dos mais lidos na Web.
Não o confundam com os anti-sionistas de extrema-esquerda Noam Chomsky ou Norman Finkelstein. Mas também não o incluam no grupo de neo-conservadores de Bernard Lewis. Assumidamente "liberal e progressista", coloca-se no "centro político". Embora não pertença ao "núcleo duro" de J Street, cujo director executivo é Jeremy Ben-Ami, antigo conselheiro do ex-Presidente Bill Clinton e neto dos fundadores de Telavive, Daniel Levy tem sido descrito como "o ideólogo" e Ben-Ami como o "chefe de operações" do novo lobby.
E este, apresentando-se como "braço político do movimento pró-Israel e pró-paz" nos EUA (as suas bases são organizações como American for Peace Now e Israel Policy Forum), quer ser "uma alternativa" ao velho establishment judaico, "infiltrado" pela direita israelita do Likud, pelos neocon e por cristãos evangélicos fundamentalistas. Ou como Levy os caracterizou, "uma combinação que tem sido um desastre para a política americana e para Israel."
É uma tarefa árdua, "redefinir o que é ser pró-Israel", já que o AIPAC tem 200 funcionários, 100 mil membros e um orçamento anual de 60 milhões de dólares, enquanto J Street tem quatro funcionários, 1,5 milhões de dólares e, por enquanto, apenas 40 mil "filiados". Nada que atemorize Daniel Levy. "Conseguir a adesão de 40 mil pessoas em apenas três meses é significativo", sublinha. Mais: do orçamento de 1,5 milhões, cerca de 1,1 milhões já foram angariados online.
A Internet é uma das ferramentas com que J Street tenciona fazer a diferença. "Estamos a usar os instrumentos modernos de organização política, como o MoveOn.org [um projecto virtual que inspirou também a campanha de Obama]. Queremos criar uma grande circunscrição online, que permita financiar candidatos favoráveis à paz, já que somos também um PAC [Political Action Committee]".
Uma morada na Internet
Entre os primeiros candidatos ao Congresso apoiados por J Street está um republicano, Charles Boustany, o que responde às dúvidas dos que se interrogavam sobre se o novo lobby só estaria ao lado de democratas. Há quem acredite que estes apoios vão abalar, ainda que modestamente, a influência do big brother AIPAC no Capitólio. Exemplo: Agora, sempre que alguém vir o seu financiamento reduzido por ter feito declarações que o AIPAC considera "anti-Israel", pode sempre telefonar para J Street a pedir o dinheiro que faltou, ainda que J Street seja mais um endereço URL do que um edifício.
O nome foi propositadamente escolhido para preencher um vazio, tem explicado Ben-Ami. Porque não há rua J em Washington e porque a K Street está cheia de lobbies que "apoiam ruidosamente Israel em situações de guerra mas ficam silenciosos em negociações de paz". Esta frase, colocada num anúncio no New York Times, é uma implícita referência ao AIPAC com o qual muitos judeus americanos e israelitas já não se identificam.
Entre os 100 membros do conselho consultivo de J Street há rabis, académicos, políticos, CEO e prémios Nobel. E entre os supporters (apoiantes) em Israel estão diplomatas, políticos, ex-generais e antigos operacionais dos serviços secretos. É o caso de Yossi Alpher, que foi responsável da Mossad e agora colabora no site israelo-palestiniano bitterlemons.
Inquirido pelo P2 sobre a sua adesão ao novo lobby, Alpher respondeu por e-mail: "Estou convicto de que Israel merece estar mais bem representado entre os judeus americanos no que diz respeito a questões do processo de paz. J Street, ao contrário do AIPAC, é muito mais representativo da opinião dos judeus americanos."
Isso não dissuadiu, porém, Barack Obama de discursar na conferência anual da AIPAC. O senador do Illinois, cujo nome do meio é Hussein, tinha de provar as suas credenciais "pró-Israel", até porque precisa do eleitorado judeu que está a ser cortejado pelos republicanos em swing states, como a Florida. Foi aplaudido de pé quando declarou que "Jerusalém permanecerá a capital de Israel e deve continuar indivisível".
Claro está que os árabes, encorajados por anteriores declarações de Obama em que admitiu "não concordar com todas as acções do Estado de Israel" e retratou o conflito israelo-palestiniano como "uma ferida aberta que infecta toda a política externa dos EUA" (The Atlantic), ficaram decepcionados. Dias depois, Obama deu uma entrevista à CNN, esclarecendo que o estatuto de Jerusalém " é uma questão a ser negociada pelas partes".
Levy achou importante esta clarificação. "Ele aceitou os 'Parâmetros Clinton', ou seja, que os bairros árabes em Jerusalém serão palestinianos e os bairros judeus serão israelitas. O que ele quis dizer é que não deve haver um arame farpado a dividir a cidade como em 1967 [antes da Guerra dos Seis Dias], e até admitiu que a frase que usou [na convenção do AIPAC] não foi bem escolhida. Também disse que Israel precisa, para sua segurança, de uma solução de dois Estados. E esta é uma posição encorajadora."
Além disso, mais do que a referência à Jerusalém, o que foi importante, para Levy, no discurso de Obama ao AIPAC foi a promessa de que resolver o conflito israelo-palestiniano será uma prioridade. O apoio que exprimiu às negociações entre Israel e a Síria. E a afirmação de que, na abordagem ao Irão, privilegiará a diplomacia e não uma nova guerra.
O Irão e o reverendo Hagee
Quanto ao generalizado sentimento israelita de que o Irão constitui uma ameaça existencial e tem de ser contido, a análise de Levy é esta: "Acho que, em Israel, há uns genuinamente preocupados e outros que criam um pânico desnecessário, por causa das coisas nojentas que o Presidente [Mahmoud] Ahmadinejad diz e também das ambições do Irão de ser uma potência regional. Há uma mobilização em Israel para a necessidade de bombardear o Irão. Os israelitas olham para o passado e dizem: 'Bombardeámos o reactor no Iraque, bombardeámos algo na Síria e por isso OK, podemos bombardear os vizinhos, porque resulta. O problema é que o debate público não está a considerar que a situação no Irão é muito diferente e muito perigosa se houver uma guerra."
Levy compara o ambiente em Israel com o que existe em muitas sociedades em conflito. "Os israelitas são frequentemente tentados a pensar: 'Não há solução, vamos bombardeá-los', o que até é compreensível, mas não é uma boa política. Uma maioria de israelitas apoiou a guerra no Líbano há dois anos, mas agora admitem que foi um fucking mistake, mas na altura achavam que era uma grande ideia. A maioria dos israelitas apoia ataques militares na Faixa de Gaza mas também apoia o cessar-fogo com o Hamas. Há muitas dissonâncias nas sociedades em conflito. Eu creio que os israelitas ficariam muito felizes se houvesse uma solução diplomática para o Irão."
Levy está, por isso, entusiasmado com a campanha de J Street contra uma guerra no Irão: "Uma carta a todos os candidatos ao Congresso obteve mais de 30 mil assinaturas online numa semana". Outro sucesso que o novo lobby reclama é uma petição que forçou o candidato republicano, John McCain, a renegar o apoio do reverendo John Hagee, pastor da congregação Christians United for Israel (CUI), aliada do AIPAC.
Na ânsia de apressar o "segundo regresso do Messias", Hagee fez recentemente um sermão que causou uma onda de repulsa: "Deus disse a Jeremias: 'Enviarei muitos pescadores e depois enviarei muitos caçadores'. Os pescadores são os sionistas, homens como Theodor Herzl. (...) E os caçadores? Hitler foi um caçador. Como é que isso [o Holocausto] aconteceu? Porque Deus permitiu que acontecesse. Por que aconteceu? Porque Deus disse: 'A minha máxima prioridade é fazer retornar o povo judeu à Terra de Israel."