Ponto prévio: acredito que a principal preocupação de muitos pais ainda seja o controlo total dos filhos adolescentes, e partilho a grande preocupação da Maria João Pires quanto a este facto.
Dito isto, eu não vejo a introdução de um cartão magnético necessariamente ou exclusivamente como uma medida de “controlo total”. É-o em parte e é aí que eu o critico. Não me parece razoável que um aluno do secundário não possa entrar e sair livremente da escola. Não me parece sobretudo razoável que alunos do 2º ciclo (de 10 e 11 anos) sejam tratados da mesma forma que adolescentes pré-universitários. São idades muito diferentes, e esta indistinção origina uma imaturidade que hoje já se nota nos alunos do primeiro ano das universidades.
De qualquer forma, da maneira como o cartão é apresentado pela Maria João, parece que as escolas passam a ser uma espécie de “Big Brother”, onde todos os passos lá dentro são vigiados, os intervalos, o convívio com colegas, eventuais demonstrações de afecto e experiências que é suposto ter-se nesta idade. Não é assim, e ainda bem que não é. O cartão parece-me positivo até ao 9º ano, e com algumas alterações e salvaguardas importantes (poder vir cá fora ao café da D. Maria fumar um cigarrinho no intervalo – afinal não se pode fumar dentro das escolas, não é?) também mesmo no secundário.
Um dos aspectos importantes do cartão é o controlo da assiduidade. É aqui que eu não concordo com a Maria João, nomeadamente com a frase “A ideia de que alguém se mostre satisfeito pela existência de um cartão que lhe permite, por exemplo, ser avisado em tempo real de uma simples balda de um filho arrepia-me.” O controlo da assiduidade e o combate ao absentismo são de uma extrema importância em todas as actividades profissionais ao longo da vida, e a escola secundária é um bom local para começar a aprendê-lo. Nenhum aluno é impedido de faltar por isto. Aliás, tanto quanto eu sei, a única alteração deste cartão vai ser mesmo a comunicação da falta em tempo real ao encarregado de educação, pois ele já poderia tomar conhecimento de todas as faltas (não em tempo real) se assim desejasse. O cartão é é uma medida de responsabilização: o estudante deve habituar-se a assumir a responsabilidade pelos seus actos, nomeadamente pelas suas faltas. Não é encarando-as como “uma simples balda”, um “pequeno disparate” a que não se liga muito que se fomenta essa responsabilidade. A este respeito convém recordar as reacções dos alunos que vêm do estrangeiro, nomeadamente filhos de imigrantes, ao compararem a escola dos seus países de origem com a portuguesa. Todos referem que a escola portuguesa é menos exigente, que a atitude dos alunos portugueses é muito diferente da deles. Para eles a escola é para se aprender, e “uma simples balda” é algo impensável. É com estes alunos que temos que nos comparar e é como estes alunos que devemos querer que os nossos filhos sejam.
Resumindo, para mim a introdução do novo cartão é uma medida a elogiar, embora se deva rever a sua aplicação.
2008/09/24
2008/09/23
Edward Norton Lorenz (1917-2008)
Lorenz, o pai do "efeito borboleta", durante a Segunda Guerra Mundial trabalhou como meteorologista para as Forças Armadas americanas, e descobriu este comportamento caótico enquanto estudava modelos para a previsão do tempo. A descoberta foi feita completamente por acaso: ao reintroduzir os mesmos dados no mesmo modelo, Lorenz obteve resultados completamente diferentes! Ao reexaminar mais cuidadosamente os seus dados, verificou que se enganara numa casa decimal, que significara uma diferença pequeníssima numa condição inicial!
Para saber mais, os sítios do costume: o obituário do The New York Times, o The Reference Frame e a Gazeta de Física, de onde o texto foi retirado (nº 3 do volume 31).
Para saber mais, os sítios do costume: o obituário do The New York Times, o The Reference Frame e a Gazeta de Física, de onde o texto foi retirado (nº 3 do volume 31).
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Física
2008/09/22
Na semana da mobilidade
Mais uma vez, o “Dia sem carros” que, em Lisboa, consiste em fechar o trânsito entre o Rossio e o Terreiro do Paço. De utilidade muito duvidosa esta medida. Bem mais úteis são as medidas anunciadas para o transporte público nocturno ao fim de semana e véspera de feriado. De parabéns a Câmara Municipal de Lisboa, Secretaria de Estado dos Transportes e Ministério da Administração Interna.
O “Dia sem carros” é presentemente uma iniciativa simbólica que não incomoda ninguém, e não resolve o problema principal – andar de carro, em Portugal, é uma questão de status. Ainda “parece mal” andar de transporte público ou bicicleta. O “crédito fácil”, a “bolha” que parece que está a rebentar e que se traduz em os portugueses viverem aima das suas possibilidades também se reflecte no número elevado de carros novos. No entanto, conforme é visível, cada vez há mais portugueses a andarem de bicicleta. Por muito que isso custe aos bondosos proponentes destas campanhas cívicas, tal atitude dos portugueses só começou quando começaram a sentir no bolso os efeitos da – abençoada! – “crise do petróleo”.
É útil aliás perder um pouco de tempo a ler os comentários dos leitores destas notícias e comparar os comentários dos portugueses residentes no estrangeiro com alguns dos de residentes em Portugal. Como sempre, em Portugal, o bom exemplo tem que vir de fora – dos países onde há muito andar de bicicleta é um hábito corrente. Talvez assim se torne moda – se torne chic!
O “Dia sem carros” é presentemente uma iniciativa simbólica que não incomoda ninguém, e não resolve o problema principal – andar de carro, em Portugal, é uma questão de status. Ainda “parece mal” andar de transporte público ou bicicleta. O “crédito fácil”, a “bolha” que parece que está a rebentar e que se traduz em os portugueses viverem aima das suas possibilidades também se reflecte no número elevado de carros novos. No entanto, conforme é visível, cada vez há mais portugueses a andarem de bicicleta. Por muito que isso custe aos bondosos proponentes destas campanhas cívicas, tal atitude dos portugueses só começou quando começaram a sentir no bolso os efeitos da – abençoada! – “crise do petróleo”.
É útil aliás perder um pouco de tempo a ler os comentários dos leitores destas notícias e comparar os comentários dos portugueses residentes no estrangeiro com alguns dos de residentes em Portugal. Como sempre, em Portugal, o bom exemplo tem que vir de fora – dos países onde há muito andar de bicicleta é um hábito corrente. Talvez assim se torne moda – se torne chic!
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2008/09/19
Cravos vermelhos
"Para o funeral de uma democrata", disse eu à florista. A Rita gostaria.
Adeus Rita, minha colega no Conselho Pedagógico do IST e um símbolo da LEFT.
Adeus Rita, minha colega no Conselho Pedagógico do IST e um símbolo da LEFT.
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2008/09/18
Rita
2008/09/17
Os portugueses e os prazos
Há pouco mais de cinco anos, ainda estava nos EUA, candidatei-me a uma bolsa Marie Curie. Na altura as candidaturas tinham de ser enviadas para Bruxelas pr correio. Havia um prazo (e uma hora) limite para as candidaturas chegarem à Comissão Europeia.
Por atrass e falhas de comunicação com a minha instituição de acolhimento, a verdade é que só enviei a candidatura dois dias antes do prazo. Enviei-a via FedEX, que me garantia a chegada a tempo. Garantia... se não houvesse imprevistos. Mas houve. Ou o camião ficou retido nalguma estrada em Long Island, ou por outro motivo quaquer, o envelope com a minha candidatura só saiu dos EUA 24 horas depois do previsto, e chegou a Bruxelas com um atraso de poucas horas, mas o suficiente para esta não poder ser considerada.
Olhando para trás, acabei por ir para outro sítio (Paris), com outro financiamento que descobri mais tarde, e onde fui muito feliz. Creio que acabou por não ter sido mu, a posteriori, esta candidatura não ter sido bem sucedida. Mas é evidente que é frustrante ela nem sequer ter sido avaliada... E enquanto não tive a bolsa francesa mais frustrante foi. Culpei-me muitas vezes embora nada fizesse prever que a FedEx falhasse logo naquele dia.
Lembrei-me deste episódio ao saber das candidaturas falhadas das câmaras do Seixal e do Barreiro ao QREN. Será que isso só sucede a portugueses (nomeadamente portugueses de esqerda)? Nem por isso. A um amigo meu, alemão e ultra-organizado, que também se candidatava a uma bolsa Marie Curie, sucedeu-lhe exactamente o mesmo que a mim...
Por atrass e falhas de comunicação com a minha instituição de acolhimento, a verdade é que só enviei a candidatura dois dias antes do prazo. Enviei-a via FedEX, que me garantia a chegada a tempo. Garantia... se não houvesse imprevistos. Mas houve. Ou o camião ficou retido nalguma estrada em Long Island, ou por outro motivo quaquer, o envelope com a minha candidatura só saiu dos EUA 24 horas depois do previsto, e chegou a Bruxelas com um atraso de poucas horas, mas o suficiente para esta não poder ser considerada.
Olhando para trás, acabei por ir para outro sítio (Paris), com outro financiamento que descobri mais tarde, e onde fui muito feliz. Creio que acabou por não ter sido mu, a posteriori, esta candidatura não ter sido bem sucedida. Mas é evidente que é frustrante ela nem sequer ter sido avaliada... E enquanto não tive a bolsa francesa mais frustrante foi. Culpei-me muitas vezes embora nada fizesse prever que a FedEx falhasse logo naquele dia.
Lembrei-me deste episódio ao saber das candidaturas falhadas das câmaras do Seixal e do Barreiro ao QREN. Será que isso só sucede a portugueses (nomeadamente portugueses de esqerda)? Nem por isso. A um amigo meu, alemão e ultra-organizado, que também se candidatava a uma bolsa Marie Curie, sucedeu-lhe exactamente o mesmo que a mim...
2008/09/11
Quinze anos
Quinze anos, foi o tempo que passou desde a última derrota da selecção portuguesa em casa numa fase de qualificação.
Quinze anos atrás, e primeiro Portugal e depois o Sporting jogavam muito bem mas não ganhavam nada.
Quinze anos atrás, não havia mentalidade ganhadora e nem maturidade de segurar um resultado. "Merecia-se ganhar", mas perdia-se.
Quinze anos, foi quanto o futebol português regrediu ao substutuir Scolari por Carlos Queirós. E espanta-me que haja quem (principalmente sendo adepto do FCP) não perceba este facto tão básico.
Quinze anos atrás, e primeiro Portugal e depois o Sporting jogavam muito bem mas não ganhavam nada.
Quinze anos atrás, não havia mentalidade ganhadora e nem maturidade de segurar um resultado. "Merecia-se ganhar", mas perdia-se.
Quinze anos, foi quanto o futebol português regrediu ao substutuir Scolari por Carlos Queirós. E espanta-me que haja quem (principalmente sendo adepto do FCP) não perceba este facto tão básico.
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Futebol
2008/09/10
Finalmente LHC
À hora a que começa a funcionar a maior experiência já concebida, é altura de ver mais uma vez o famoso e educativo rap.
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Física
2008/09/09
Os media e a física fundamental
Pretendemos, sem ser exaustivos, reflectir sobre a cobertura por parte dos media de algumas notícias relativas à fisica fundamental.
Tomemos como exemplo o badalado reconhecimento, por parte do conhecido astrofísico Stephen Hawking, da sua derrota na famosa aposta (de uma enciclopédia de basebol) com John Preskill sobre a conservação da informação após a evaporação de um buraco negro, no verão de 2004. Na extinta Grande Reportagem, em conjunto com a notícia foi apresentado um resumo biográfico de Hawking, com as principais datas da sua vida. Desse resumo constavam as datas relativas à sua doença, a publicação do seu livro, a aposta com Preskill. Nem uma só palavra sobre os seus enormes sucessos científicos! Nada era dito sobre o que tornou Hawking reconhecido pelos seus pares e que lhe dará um lugar na História da Ciência, que não tem nada a ver com a sua doença ou os seus livros – os teoremas de singularidades, com Roger Penrose, e a radiação dos buracos negros! Os aspectos científicos eram o menos importante nesta biografia do cientista.
Um exemplo mais recente é o da publicidade nunca vista acerca da publicação de um preprint (artigo disponível na internet, sem arbitragem científica) por parte de Garrett Lisi, em Novembro de 2007, com o sugestivo título Uma Teoria de Tudo Excepcionalmente Simples. Apesar de toda essa publicidade, mais de oito meses passaram e o artigo ainda não foi aceite por nenhuma revista da especialidade. Nestes oito meses o artigo conta somente com seis citações (há artigos que atingem tal marca em menos de uma semana, e sem publicidade nenhuma na comunicação social). A única dessas citações que corresponde a um artigo efectivamente publicado tem como co-autor o consagrado Sergio Ferrara, um dos inventores da supergravidade, premiado com a medalha Dirac em 1993, e refere-se ao modelo de Lisi só para o qualificar como “sem futuro”.
Note-se que não pretendemos contestar o valor de Lisi enquanto cientista; independentemente do destino que a História reservar à sua proposta, ninguém põe em causa o seu mérito ao apresentá-la. Tão-pouco pretendemos julgar cientificamente e de uma forma definitiva a sua proposta; uma vez mais, só a História o fará. Mas do que não restam dúvidas é que, como esta proposta, há muitas outras mais, só que nenhuma mereceu tal atenção da comunicação social. A proposta de Lisi teve grande destaque nos principais jornais de referência mundiais, sendo inclusive a capa de uma prestigiada revista francesa de divulgação científica, que lhe dedicou um dossiê especial. Como explicar tal atracção da comunicação social por um trabalho que, até agora, e segundo os usuais critérios científicos, se revelou tão pouco relevante?
Uma explicação reside no facto de Lisi ser um físico fora da universidade; vive num lago no estado americano do Nevada, totalmente isolado do mundo académico e dedicando grande parte do seu tempo aos desportos radicais. Tem um perfil bem diferente do cientista tradicional, tal como Gregory Perelman, o matemático que resolveu a conjectura de Poincaré (um resultado também disponível na internet e nunca publicado em nenhum jornal). Só que o trabalho de Perelman, premiado com a medalha Fields em 2006, é reconhecido unanimemente por toda a comunidade científica, o que está muito longe de acontecer com o trabalho de Lisi. Talvez algum público tenha visto em Lisi um novo Perelman, mas cremos que o principal motivo de interesse jornalístico não é esse.
O principal motivo, a nosso ver, é o mesmo que justifica que a perda da aposta por Hawking tenha mais interesse que os seus enormes sucessos científicos: na Física fundamental, essa ciência ingrata, a razão para a notícia é sempre o fracasso de algo. A principal novidade, para o leigo, da Teoria da Relatividade, mais do que o trabalho de Einstein, era o fracasso da mecânica de Newton. No caso de Hawking, o fracasso seria mais o seu, o de um cientista que já teve muitos sucessos que não foram notícia, ao perder a aposta (se a tivesse ganho, o fracasso seria muito maior: seria o da mecânica quântica!).
No caso de Lisi, o sucesso da sua teoria seria o fracasso das outras tentativas de quantizar a gravidade, nomeadamente (e principalmente) a mais mediática: a Teoria de Supercordas. Mas estas teorias estão longe de poderem ser vistas como acabadas ou definitivas; no entanto, frequentemente são apresentadas como as “teorias de tudo” ou as “teorias finais” em livros de divulgação. São por isso vítimas do seu próprio mediatismo, tornando-se um “alvo a abater”. Só que se as teorias de cordas não são comparáveis à mecânica newtoniana, muito menos o modelo de Lisi é comparável à relatividade. É muito positiva e desejável a atenção do público à Física fundamental, mas a discussão tem que ser mais séria e não ter como principal objectivo o de vender livros ou jornais.
Publicado no nº 3 do volume 31 da Gazeta de Física
Tomemos como exemplo o badalado reconhecimento, por parte do conhecido astrofísico Stephen Hawking, da sua derrota na famosa aposta (de uma enciclopédia de basebol) com John Preskill sobre a conservação da informação após a evaporação de um buraco negro, no verão de 2004. Na extinta Grande Reportagem, em conjunto com a notícia foi apresentado um resumo biográfico de Hawking, com as principais datas da sua vida. Desse resumo constavam as datas relativas à sua doença, a publicação do seu livro, a aposta com Preskill. Nem uma só palavra sobre os seus enormes sucessos científicos! Nada era dito sobre o que tornou Hawking reconhecido pelos seus pares e que lhe dará um lugar na História da Ciência, que não tem nada a ver com a sua doença ou os seus livros – os teoremas de singularidades, com Roger Penrose, e a radiação dos buracos negros! Os aspectos científicos eram o menos importante nesta biografia do cientista.
Um exemplo mais recente é o da publicidade nunca vista acerca da publicação de um preprint (artigo disponível na internet, sem arbitragem científica) por parte de Garrett Lisi, em Novembro de 2007, com o sugestivo título Uma Teoria de Tudo Excepcionalmente Simples. Apesar de toda essa publicidade, mais de oito meses passaram e o artigo ainda não foi aceite por nenhuma revista da especialidade. Nestes oito meses o artigo conta somente com seis citações (há artigos que atingem tal marca em menos de uma semana, e sem publicidade nenhuma na comunicação social). A única dessas citações que corresponde a um artigo efectivamente publicado tem como co-autor o consagrado Sergio Ferrara, um dos inventores da supergravidade, premiado com a medalha Dirac em 1993, e refere-se ao modelo de Lisi só para o qualificar como “sem futuro”.
Note-se que não pretendemos contestar o valor de Lisi enquanto cientista; independentemente do destino que a História reservar à sua proposta, ninguém põe em causa o seu mérito ao apresentá-la. Tão-pouco pretendemos julgar cientificamente e de uma forma definitiva a sua proposta; uma vez mais, só a História o fará. Mas do que não restam dúvidas é que, como esta proposta, há muitas outras mais, só que nenhuma mereceu tal atenção da comunicação social. A proposta de Lisi teve grande destaque nos principais jornais de referência mundiais, sendo inclusive a capa de uma prestigiada revista francesa de divulgação científica, que lhe dedicou um dossiê especial. Como explicar tal atracção da comunicação social por um trabalho que, até agora, e segundo os usuais critérios científicos, se revelou tão pouco relevante?
Uma explicação reside no facto de Lisi ser um físico fora da universidade; vive num lago no estado americano do Nevada, totalmente isolado do mundo académico e dedicando grande parte do seu tempo aos desportos radicais. Tem um perfil bem diferente do cientista tradicional, tal como Gregory Perelman, o matemático que resolveu a conjectura de Poincaré (um resultado também disponível na internet e nunca publicado em nenhum jornal). Só que o trabalho de Perelman, premiado com a medalha Fields em 2006, é reconhecido unanimemente por toda a comunidade científica, o que está muito longe de acontecer com o trabalho de Lisi. Talvez algum público tenha visto em Lisi um novo Perelman, mas cremos que o principal motivo de interesse jornalístico não é esse.
O principal motivo, a nosso ver, é o mesmo que justifica que a perda da aposta por Hawking tenha mais interesse que os seus enormes sucessos científicos: na Física fundamental, essa ciência ingrata, a razão para a notícia é sempre o fracasso de algo. A principal novidade, para o leigo, da Teoria da Relatividade, mais do que o trabalho de Einstein, era o fracasso da mecânica de Newton. No caso de Hawking, o fracasso seria mais o seu, o de um cientista que já teve muitos sucessos que não foram notícia, ao perder a aposta (se a tivesse ganho, o fracasso seria muito maior: seria o da mecânica quântica!).
No caso de Lisi, o sucesso da sua teoria seria o fracasso das outras tentativas de quantizar a gravidade, nomeadamente (e principalmente) a mais mediática: a Teoria de Supercordas. Mas estas teorias estão longe de poderem ser vistas como acabadas ou definitivas; no entanto, frequentemente são apresentadas como as “teorias de tudo” ou as “teorias finais” em livros de divulgação. São por isso vítimas do seu próprio mediatismo, tornando-se um “alvo a abater”. Só que se as teorias de cordas não são comparáveis à mecânica newtoniana, muito menos o modelo de Lisi é comparável à relatividade. É muito positiva e desejável a atenção do público à Física fundamental, mas a discussão tem que ser mais séria e não ter como principal objectivo o de vender livros ou jornais.
Publicado no nº 3 do volume 31 da Gazeta de Física
2008/09/08
Os snipers no BES e nas FARC
Regressando de viagem verifico que pelo Blasfémias pouco mudou.
João Miranda continua entretido com as suas teses libertárias, mas não percebo como pode falar em “presunção de inocência” (neste caso necessariamente do falecido assaltante) num crime que era flagrante e que estava a ser transmitido em directo pela TV. Se a polícia tivesse que pressupor sempre inocência, nunca poderia actuar e mais valia acabar com ela. No fundo, segundo a lógica habitual de Miranda milícias privadas não custariam dinheiro ao contribuinte.
Mas ocorreu-me uma comparação interessante entre o assaltante do BEs e o membro das FARC assassinado no resgate de Ingrid Betancourt e outros reféns das FARC. Este último resgate teve o júbilo merecido e justificado da maioria da blogosfera portuguesa (o meu incluído). No entanto, e embora este motivo não seja suficiente para eu lamentar a operação, tenho pena de que tenha havido uma baixa, de um guerrilheiro das FARC. Embora não defenda nem um bocadinho procedimentos das FARC (apesar de achar que existem justas razões de queixa contra o governo colombiano), aqui admito que tive pena de que aquele homem tinha morrido. E tive pena por várias razões: ele não era um dos comandos principais das FARC e, sobretudo, teve azar – estava no momento errado na hora errada.
Ao contrário do assaltante do BES, que em conjunto com o seu colega era totalmente responsável pelo que se estava a passar e deveria saber os riscos que corria, ainda assim tomando a decisão de manter o rapto e não se render, quando teve oportunidades para isso. O guerrilheiro das FARC está certo que se juntou à organização por escolha sua, e um pouco responsável seria sempre, mas não era de longe o único responsável por aquela situação. Não sabemos se teve oportunidade de se render no acto do resgate. E não há dúvida de que, em vez dele, poderia ter sido outro qualquer a morrer, pelo que evidentemente teve azar. Eu tive pena dele.
Cronistas como Ferreira Fernandes dedicaram uma crónica inteira a dizer que a morte do guerrilheiro das FARC foi justa e valeu a pena. Mas coerentemente Ferreira Fernandes também defendeu a morte do assaltante do BES.
O resgate de Ingrid Betancourt foi efusivamente comemorado no Blasfémias, onde João Miranda continua a lamentar a morte do assaltante do BES por parte da polícia do Estado. Por que razão não lamentou então João Miranda a morte do combatente das FARC?
João Miranda continua entretido com as suas teses libertárias, mas não percebo como pode falar em “presunção de inocência” (neste caso necessariamente do falecido assaltante) num crime que era flagrante e que estava a ser transmitido em directo pela TV. Se a polícia tivesse que pressupor sempre inocência, nunca poderia actuar e mais valia acabar com ela. No fundo, segundo a lógica habitual de Miranda milícias privadas não custariam dinheiro ao contribuinte.
Mas ocorreu-me uma comparação interessante entre o assaltante do BEs e o membro das FARC assassinado no resgate de Ingrid Betancourt e outros reféns das FARC. Este último resgate teve o júbilo merecido e justificado da maioria da blogosfera portuguesa (o meu incluído). No entanto, e embora este motivo não seja suficiente para eu lamentar a operação, tenho pena de que tenha havido uma baixa, de um guerrilheiro das FARC. Embora não defenda nem um bocadinho procedimentos das FARC (apesar de achar que existem justas razões de queixa contra o governo colombiano), aqui admito que tive pena de que aquele homem tinha morrido. E tive pena por várias razões: ele não era um dos comandos principais das FARC e, sobretudo, teve azar – estava no momento errado na hora errada.
Ao contrário do assaltante do BES, que em conjunto com o seu colega era totalmente responsável pelo que se estava a passar e deveria saber os riscos que corria, ainda assim tomando a decisão de manter o rapto e não se render, quando teve oportunidades para isso. O guerrilheiro das FARC está certo que se juntou à organização por escolha sua, e um pouco responsável seria sempre, mas não era de longe o único responsável por aquela situação. Não sabemos se teve oportunidade de se render no acto do resgate. E não há dúvida de que, em vez dele, poderia ter sido outro qualquer a morrer, pelo que evidentemente teve azar. Eu tive pena dele.
Cronistas como Ferreira Fernandes dedicaram uma crónica inteira a dizer que a morte do guerrilheiro das FARC foi justa e valeu a pena. Mas coerentemente Ferreira Fernandes também defendeu a morte do assaltante do BES.
O resgate de Ingrid Betancourt foi efusivamente comemorado no Blasfémias, onde João Miranda continua a lamentar a morte do assaltante do BES por parte da polícia do Estado. Por que razão não lamentou então João Miranda a morte do combatente das FARC?
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2008/09/07
2008/09/06
Antes do primeiro jogo de qualificação
Futebolisticamente, prefiro os admiradores de Pinochet aos emuladores de Cavaco.
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Futebol
2008/08/22
Turismo científico
Vou ali a Veli Losinj. Na volta passo pela Itália. Volto em Setembro.
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Viagens
2008/08/21
Parabéns ao SLB!
Não sou capaz de seguir os Jogos Olímpicos em termos de nacionalidade, pelo que considero ridículas as discussões como a da nacionalidade de Francis Obikwelu. Querer ganhar mais medalhas nos Jogos Olímpicos que outros países é típico de ditaduras e países imperialistas. Os Jogos Olímpicos valem sobretudo pelos atletas. Da mesma forma, não sou capaz de me referir à selecção nacional de futebol, ou mesmo à minha equipa, no plural. Nunca digo “ganhámos”: digo “eles ganharam”. Fazer aproveitamentos políticos, à esquerda ou à direita, de resultados desportivos irrita-me.
Consistentemente com o que escrevi há quatro anos atrás, eu, sportinguista empedernido, tenho que dar os parabéns ao Benfica. Faz muito mais sentido ver os triunfos de atletas do Benfica como do Benfica do que de Portugal. Parabéns ao Benfica, mas acima de tudo parabéns à Vanessa Fernandes e, sobretudo, ao Nelson Évora. E a quem vê o número de medalhas nos Jogos Olímpicos como o índice de desenvolvimento de um país eu sugiro: e se se preocupassem mais com as medalhas nas Olimpíadas de Matemática ou Física?
Consistentemente com o que escrevi há quatro anos atrás, eu, sportinguista empedernido, tenho que dar os parabéns ao Benfica. Faz muito mais sentido ver os triunfos de atletas do Benfica como do Benfica do que de Portugal. Parabéns ao Benfica, mas acima de tudo parabéns à Vanessa Fernandes e, sobretudo, ao Nelson Évora. E a quem vê o número de medalhas nos Jogos Olímpicos como o índice de desenvolvimento de um país eu sugiro: e se se preocupassem mais com as medalhas nas Olimpíadas de Matemática ou Física?
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Desporto
2008/08/20
Esta não é a Ana Sá Lopes
Ainda o assalto à agência de Campolide do BES. Numa crónica no suplemento Gente do DN de sábado, Ana Sá Lopes insurge-se contra quase toda a opinião publicada na imprensa e na blogosfera, que apoia incondicionalmente a suposta arbitrariedade da polícia, sendo que praticamente a única excepção viria da parte de João Miranda, no DN e no blogue Blasfémias. "Esta não é a minha polícia", afirma a jornalista, indignada, e pede ao ministro da Administração Interna que diga ou faça alguma coisa "de esquerda".
Ninguém deveria ter ficado feliz com a morte do sequestrador. É verdade que muitos comentadores parecem ter ficado, mas tal não resulta de se aceitar a acção da polícia neste caso. Eu e muitas outras pessoas apoiámo-la como mais um entre tantos males que infelizmente por vezes são necessários, mas sinceramente lamento a morte (e como eu, tenho a certeza, muita gente).
Dito isto, creio que há um equívoco da parte de Ana Sá Lopes relativamente à posição de João Miranda. Não vi João Miranda lamentar nenhuma morte. Conforme já aqui escrevi há uns dias atrás, o que incomoda João Miranda em todo este processo não é a morte do sequestrador em si, mas o facto de esta ter sido perpetrada pelo Estado (neste caso, representado pelo agente da polícia). Permitisse a legislação o livre porte de armas, resultasse a morte do sequestrador, nas mesmas circunstâncias, da acção de um segurança privado do banco ou de qualquer outro civil armado (mas nunca de um agente do Estado) e tudo estaria bem para João Miranda. Até poderia ser não só um mas vários sequestradores a morrerem. É esta a forma de pensar da direita libertária.
Embora não concorde, posso respeitar a opinião de quem acha que a polícia não deveria ter aberto fogo, dependendo dos argumentos apresentados (gostaria era de saber qual seria a sua opinião se estas pessoas fossem os reféns). Agora, pedir ao ministro que "faça alguma coisa de esquerda" e, no mesmo texto, invocar a direita libertária, como faz Ana Sá Lopes, é que me custa a perceber. Parece-me que se é assim, como diria outro Lopes, está mesmo tudo doido...
Com os seus cronistas supostamente de esquerda a invocarem desta forma a mais direitista das direitas, quem se fica a rir é o director João Marcelino.
Ninguém deveria ter ficado feliz com a morte do sequestrador. É verdade que muitos comentadores parecem ter ficado, mas tal não resulta de se aceitar a acção da polícia neste caso. Eu e muitas outras pessoas apoiámo-la como mais um entre tantos males que infelizmente por vezes são necessários, mas sinceramente lamento a morte (e como eu, tenho a certeza, muita gente).
Dito isto, creio que há um equívoco da parte de Ana Sá Lopes relativamente à posição de João Miranda. Não vi João Miranda lamentar nenhuma morte. Conforme já aqui escrevi há uns dias atrás, o que incomoda João Miranda em todo este processo não é a morte do sequestrador em si, mas o facto de esta ter sido perpetrada pelo Estado (neste caso, representado pelo agente da polícia). Permitisse a legislação o livre porte de armas, resultasse a morte do sequestrador, nas mesmas circunstâncias, da acção de um segurança privado do banco ou de qualquer outro civil armado (mas nunca de um agente do Estado) e tudo estaria bem para João Miranda. Até poderia ser não só um mas vários sequestradores a morrerem. É esta a forma de pensar da direita libertária.
Embora não concorde, posso respeitar a opinião de quem acha que a polícia não deveria ter aberto fogo, dependendo dos argumentos apresentados (gostaria era de saber qual seria a sua opinião se estas pessoas fossem os reféns). Agora, pedir ao ministro que "faça alguma coisa de esquerda" e, no mesmo texto, invocar a direita libertária, como faz Ana Sá Lopes, é que me custa a perceber. Parece-me que se é assim, como diria outro Lopes, está mesmo tudo doido...
Com os seus cronistas supostamente de esquerda a invocarem desta forma a mais direitista das direitas, quem se fica a rir é o director João Marcelino.
2008/08/19
Os fatos dos nadadores
Acerca da proeza de Michael Phelps, tem havido muita discussãoa cerca dos fatos dos nadadores e da influência que estes têm no seu desempenho, sendo por isso mais fácil atingir melhores marcas hoje em dia, com os fatos modernos, do que era, por exemplo, no tempo de Mark Spitz.
Para resolver esta polémica, proponho que todas as provas de natação passem a ser disputadas... em pelo. Nadadores e nadadoras como vieram ao mundo.
Para resolver esta polémica, proponho que todas as provas de natação passem a ser disputadas... em pelo. Nadadores e nadadoras como vieram ao mundo.
2008/08/18
"É doce morrer no mar.."
Graças à Maria João Pires, fiquei a par da triste notícia: Dorival Caymmi morreu. A propósito, recordo o texto que escrevi na ocasião dos seus noventa anos. Tem um vídeo (uma interpretação de Maracangalha com a família Jobim) que é uma delícia que vale sempre a pena recordar.
2008/08/17
2008/08/13
O outro texto do João Miranda
Refiro-me agora ao texto publicado no Blasfémias sobre o assalto à dependência do Banco Espírito Santo em Lisboa. Começo por esclarecer a minha posição: concordo com o procedimento da polícia. Embora lamente sinceramente que tenha sido perdida uma vida, estavam outras vidas, perfeitamente inocentes, em jogo, pelo que creio que a opção não poderia ter sido outra. Dito isto, também não concordo que se equivalham as posições do João Miranda e da maior parte das pessoas que criticam a actuação da polícia neste caso. É que quis-me parecer (mas posso estar errado) que o que mais incomoda o João Miranda é, mais do que a morte em si, o facto de esta ter sido perpetrada por um agente do Estado (polícia, neste caso). Sendo assim, e para esclarecer melhor esta minha dúvida, gostaria de colocar algumas questões ao João Miranda, nomeadamente:
- Qual é a opinião do João Miranda sobre a pena de morte? O João já escreveu sobre isto, mas não é um juiz um agente do Estado?
- Qual é a opinião do João Miranda sobre o livre porte de armas?
- Tomaria o João Miranda a mesma posição sobre a morte caso a mesma operação de resgate (com a mesma morte do assaltante) tivesse sido efectuada por um privado? Digamos que por vigilantes contratados pelo próprio banco e não pelo Estado?
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Grande texto, João Miranda
Refiro-me a este, publicado no DN de 9 de Agosto. Começa por ser sobre o computador "Magalhães", mas vai muito para além deste assunto. Leiam (também no De Rerum Natura), que vale bem a pena.
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2008/08/08
08-08-08, 08:08
No início do milénio toda a gente reparava nestas datas; agora, talvez por ser Agosto e menos gente estar a trabalhar, ninguém repara (e já só "falta" uma neste século: 09-09-09). Ninguém repara excepto os chineses, que hoje e a esta hora decidiram começar os Jogos da XXIX Olimpíada. Mas no calendário chinês isto fará algum sentido especial?
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Desporto
2008/08/07
2008/08/01
Alô Gil, aquele abraço
Quando chegou ao Ministério da Cultura, foi aclamado internacionalmente como o sucessor de Nana Mouskouri. Mas não deixou de fazer exigências: queria ter tempo para continuar a fazer as suas digressões e dar os seus espectáculos mundo fora. Pior: não queria “perder dinheiro” por ser ministro. Era essa a justificação oficial.
Lula mesmo assim aceitou, e o Brasil passou então a ter o “ministro cantor”.
Eu não estou em condições de julgar o seu trabalho enquanto ministro, e nem é esse o meu objectivo neste texto. É claro que era engraçado e original o Brasil ter um ministro que de dia tinha reuniões políticas e à noite actuava em Nova Iorque, na sede das Nações Unidas, ou em Paris, na Praça da Bastilha. Mas também era agradável para o cantor em questão ser reconhecido como “o ministro”, e seguramente tal não o tornou menos famoso. Nem as iniciativas dentro e fora do Brasil por si patrocinadas. Posso testemunhar as iniciativas associadas ao “ano do Brasil em França “ (2005): o seu nome aparecia em maiúsculas, sempre em lugar de destaque (e sem nenhuma comunicação ou outro motivo que o justificasse). Não bastava a referência às entidades em abstracto (neste caso o Ministério da Cultura): nunca faltava o “Ministro da Cultura - Gilberto Gil”.
Ficou famosa uma greve prolongada dos funcionários do seu ministério (que praticamente o parou) a exigirem melhores salários. Gil não demonstrou nenhuma solidariedade para com o ministro das Finanças, seu colega no governo: preferiu refugiar-se em mais uma digressão pelo estrangeiro e dizer que nada sabia nem tinha a ver com o assunto.
Podem ter-se visto muitos resultados desta passagem de Gil pelo Ministério da Cultura do Brasil; para além do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo (que é justo destacar), já disse que não sei. Sei o que nunca se viu (pelo menos que eu tenha dado por isso): um ministro com sentido de Estado, sentido de dever, ética republicana, espírito de missão. Gil sempre se achou mais importante que o país ou o seu ministério. Por “dificuldades para conciliar as atribuições oficiais do cargo de ministro da Cultura com a sua carreira artística”, Gilberto Gil já não é ministro da Cultura do Brasil. E o Rio de Janeiro continua lindo.
2008/07/31
Mearsheimer e Walt atacaram o AIPAC mas apoiam J Street
Continuando o texto anterior:
Em 2006, quando John J. Mearsheimer, da Universidade de Chicago, e Stephen Walt, de Harvard, publicaram The Israel Lobby amd the US Foreign Policy, primeiro um artigo na London Review of Books (LRB) e depois um livro (em 2007), receberam mais insultos que elogios. Quebraram um tabu, ao afirmar que, depois da Guerra Fria, Israel se tornou um fardo mais do que um trunfo estratégico para os Estados Unidos. Dois anos depois, o aparecimento de J Street vai ao encontro de uma das suas recomendações, no capítulo final: "A criação de um 'novo lobby' que pressione a favor de políticas mais inteligentes".
Falando em seu nome e no de Mearsheimer, numa entrevista ao P2 por e-mail, Walt esclarece que nenhum deles esteve envolvido na génese de J Street: "Achamos que é um desenvolvimento positivo [embora] não tenhamos provas de que haja uma ligação directa com o nosso livro. O que é mais evidente é que ambos [o livro e o novo lobby] reflectem uma crescente tomada de consciência de que a política dos Estados Unidos para o Médio Oriente é obviamente má e não serve os interesses da América nem os de Israel. Nós enfatizamos isto no nosso livro, mas outras pessoas, incluindo os fundadores de J Street, seguramente que compreenderam isto muito antes de o nosso livro ter sido publicado."
"Não há nada de errado em ter uma comunidade pró-israelita politicamente influente nos Estados Unidos, se [o objectivo] for lutar por políticas com sentido estratégico e moral, em vez das políticas contraproducentes dos grupos que o AIPAC [American Israel Political Action Committee] tem apoiado", frisam Walt, 53 anos, e Mearsheimer, de 61, seguidores da teoria do "realismo ofensivo", segundo a qual o interesse nacional deve ser a única motivação da política externa de um país.
Ambos mantêm a afirmação de que "o apoio incondicional de Israel - sobretudo das suas políticas brutais em relação aos palestinianos nos territórios ocupados - é uma das razões, ainda que não a única razão, do anti-americanismo crescente no mundo árabe e islâmico". E acrescentam: "Uma política mais equilibrada dos EUA em relação a Israel e aos árabes não resolveria todos os problemas na região mas afastaria um dos principais focos de tensão e facilitaria a resolução de outros problemas. Também achamos que uma política mais equilibrada seria do interesse de Israel, porque estaria mais em consonância com as noções básicas de decência e justiça."
Em The Israel Lobby, encomendado (em 2002) e rejeitado (em 2004) pela Atlantic Monthly, Mearsheimer e Walt recomendam que Israel seja tratado como "um país normal". Esse é também um velho sonho sionista, mas que prazo para isso ser possível? "Se começarmos a ter um discurso mais aberto e honesto sobre Israel e os Estados Unidos, as atitudes e as políticas podem mudar rapidamente", respondem. "Mas, claro, é por isso que grupos no [velho] lobby se esforçam tão arduamente por impedir uma discussão franca."
Apesar de acusações de "anti-semitismo", de "ensaio conspirativo" ou de "trabalho científico medíocre", os autores de The Israel Lobby garantem que as suas carreiras, como membros de uma elite académica (Walt foi, entre 2002 e 2006, reitor da Kennedy School of Government em Harvard), não foram arruinadas. "É cedo para avaliar o impacto do nosso livro, mas acreditamos que contribuímos para um debate mais livre sobre esta questão importante. Ainda é muito complicado um diálogo crítico sobre a política israelita, as relações Estados Unidos-Israel e o próprio lobby."
"Silenciar o debate, caluniando as pessoas como 'anti-semitas', é inconsistente com os princípios da liberdade de expressão e dificulta ainda mais a discussão séria de assuntos vitais", concluem os dois autores. "Se não pudermos discutir esses assuntos, os EUA vão provavelmente continuar as suas políticas insensatas no Médio Oriente, em detrimento de todos os envolvidos". M.S.L.
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"Há um novo lobby judeu na América e não tem medo de criticar Israel"
O seguinte artigo do Público de 22 de Julho aborda um dos poucos temas tabu nos EUA: é impossível ter-se uma posição (moderadamente) pró-palestiniana no conflito israelo-árabe. Um político que não jure "apoio incondicional a Israel" não tem hipótese de ser eleito. Um comentador que critique frontalmente Israel nos EUA não pode ser levado a sério.
Felizmente há um grupo - de judeus - que pretende altera minimamente est situação. Conseguirá? Pelo "apoio incondicional" a Israel já manifestado por Barack Obaa, este novo e bem vindo lóbi judeu ainda tem muito que fazer. Boa sorte é o que eu lhes desejo.
Felizmente há um grupo - de judeus - que pretende altera minimamente est situação. Conseguirá? Pelo "apoio incondicional" a Israel já manifestado por Barack Obaa, este novo e bem vindo lóbi judeu ainda tem muito que fazer. Boa sorte é o que eu lhes desejo.
Chama-se J Street. Porque não há rua J em Washington e porque a K Street está cheia de lobbies que "apoiam ruidosamente Israel em situações de guerra mas ficam silenciosos em negociações de paz". Tem um poderoso adversário: o grande lobby judeu AIPAC, "infiltrado" pela direita israelita, por neo-conservadores e cristãos fundamentalistas. Mas também um potencial aliado: Barack Obama, que hoje chega a Jerusalém.
Em Washington não há nenhuma J Street (as ruas horizontais vão directamente do I ao K), mas é aqui que as palavras de Barack Obama durante a visita que hoje inicia a Israel serão ouvidas, provavelmente, com mais atenção. J Street é o nome de um novo lobby judeu nos Estados Unidos que alguns analistas prevêem irá "mudar o mapa político americano e do Médio Oriente".
Reparem no que diz ao P2, por telefone, Daniel Levy, um dos cem membros do conselho consultivo de J Street. "Hoje em dia, é muito difícil dizer 'Eu apoio Israel, ponto final'. Porque a pergunta a seguir é. 'Que Israel? Israel dos colonos ou Israel que quer acabar com a ocupação? Israel que quer destruir o Hamas ou Israel que acredita que é preciso negociar, ainda que indirectamente, com o Hamas? Israel que quer reter os Montes Golã e não acha importante dialogar com a Síria ou Israel que quer tratados de paz com os vizinhos sendo que isso implica devolver territórios?"
"Hoje, já não é convincente o argumento de que o modo incondicional como a América apoia Israel é bom para a América e para Israel", frisa Levy, asseverando que J Street não terá medo de enfrentar um primeiro-ministro israelita que não comungue as posições do grupo - sondagens apontam como favorito em próximas legislativas o "falcão" Benjamin Netanyahu. E até podem acusá-lo de ser "anti-semita" ou "self-hating Jew" (judeu que se odeia a si próprio) - expressões frequentemente usadas para silenciar os críticos das acções de Israel. "Os israelitas, por estreita ou larga margem, podem eleger um líder que se opõe ao processo de paz, mas não seremos apoiantes de opositores de paz.".
"Haverá pessoas que irão intimar-nos: 'Vocês têm de apoiar o governo israelita!'", reconhece Levy. "Mas eu responderei que isso não se aplica a nenhum outro país. Eu posso ser pró-Venezuela e não apoiar a política de Hugo Chávez. Posso ser um grande admirador da República Checa mas posso não achar uma boa ideia instalar ali um sistema americano de defesa antimíssil. Todos nós, na América, sobretudo os judeus, temos ligações emocionais a Israel, mas não podemos deixar de ser racionais, como se Israel vivesse noutro planeta. Será uma política destrutiva ajudar Israel avaliando-o segundo padrões diferentes. Israel precisa de fronteiras negociadas e reconhecidas. Às vezes abraçamos Israel quase até à morte. Amamos Israel de uma maneira que não é saudável. É como darmos as chaves do carro a um amigo embriagado."
Israel é o maior receptor de ajuda dos Estados Unidos (3000 milhões de dólares anuais). No entanto, como já havia notado Levy num artigo na American Prospect, não é submetido a qualquer pressão. Pelo contrário, "pode gozar uma ocupação de luxo - já gastou mais de dez mil milhões de dólares em colonatos desde 1967." Ora, este "vício de mau comportamento sem consequências conduz à tentação de uma escalada (...) e estrangula uma solução viável de dois Estados."
Alternativa ao AIPAC
As palavras são duras, mas Levy é um "peso-pesado". Cientista político de origem inglesa, é filho de Michael Levy, membro da Câmara dos Lordes, líder da comunidade judaica no Reino Unido e um dos maiores angariadores de fundos da campanha de Tony Blair. Foi conselheiro de três líderes israelitas - Ehud Barak, Yossi Beilin e Haim Ramon. Participou nas negociações com os palestinianos em 1995 (Oslo B) e em 2001 (Taba). Foi um dos principais redactores da Iniciativa de Genebra (um ambicioso plano de paz) e agora é senior fellow da Century Foundation e da New American Foundation. O seu blogue, Prospects for Peace, é um dos mais lidos na Web.
Não o confundam com os anti-sionistas de extrema-esquerda Noam Chomsky ou Norman Finkelstein. Mas também não o incluam no grupo de neo-conservadores de Bernard Lewis. Assumidamente "liberal e progressista", coloca-se no "centro político". Embora não pertença ao "núcleo duro" de J Street, cujo director executivo é Jeremy Ben-Ami, antigo conselheiro do ex-Presidente Bill Clinton e neto dos fundadores de Telavive, Daniel Levy tem sido descrito como "o ideólogo" e Ben-Ami como o "chefe de operações" do novo lobby.
E este, apresentando-se como "braço político do movimento pró-Israel e pró-paz" nos EUA (as suas bases são organizações como American for Peace Now e Israel Policy Forum), quer ser "uma alternativa" ao velho establishment judaico, "infiltrado" pela direita israelita do Likud, pelos neocon e por cristãos evangélicos fundamentalistas. Ou como Levy os caracterizou, "uma combinação que tem sido um desastre para a política americana e para Israel."
É uma tarefa árdua, "redefinir o que é ser pró-Israel", já que o AIPAC tem 200 funcionários, 100 mil membros e um orçamento anual de 60 milhões de dólares, enquanto J Street tem quatro funcionários, 1,5 milhões de dólares e, por enquanto, apenas 40 mil "filiados". Nada que atemorize Daniel Levy. "Conseguir a adesão de 40 mil pessoas em apenas três meses é significativo", sublinha. Mais: do orçamento de 1,5 milhões, cerca de 1,1 milhões já foram angariados online.
A Internet é uma das ferramentas com que J Street tenciona fazer a diferença. "Estamos a usar os instrumentos modernos de organização política, como o MoveOn.org [um projecto virtual que inspirou também a campanha de Obama]. Queremos criar uma grande circunscrição online, que permita financiar candidatos favoráveis à paz, já que somos também um PAC [Political Action Committee]".
Uma morada na Internet
Entre os primeiros candidatos ao Congresso apoiados por J Street está um republicano, Charles Boustany, o que responde às dúvidas dos que se interrogavam sobre se o novo lobby só estaria ao lado de democratas. Há quem acredite que estes apoios vão abalar, ainda que modestamente, a influência do big brother AIPAC no Capitólio. Exemplo: Agora, sempre que alguém vir o seu financiamento reduzido por ter feito declarações que o AIPAC considera "anti-Israel", pode sempre telefonar para J Street a pedir o dinheiro que faltou, ainda que J Street seja mais um endereço URL do que um edifício.
O nome foi propositadamente escolhido para preencher um vazio, tem explicado Ben-Ami. Porque não há rua J em Washington e porque a K Street está cheia de lobbies que "apoiam ruidosamente Israel em situações de guerra mas ficam silenciosos em negociações de paz". Esta frase, colocada num anúncio no New York Times, é uma implícita referência ao AIPAC com o qual muitos judeus americanos e israelitas já não se identificam.
Entre os 100 membros do conselho consultivo de J Street há rabis, académicos, políticos, CEO e prémios Nobel. E entre os supporters (apoiantes) em Israel estão diplomatas, políticos, ex-generais e antigos operacionais dos serviços secretos. É o caso de Yossi Alpher, que foi responsável da Mossad e agora colabora no site israelo-palestiniano bitterlemons.
Inquirido pelo P2 sobre a sua adesão ao novo lobby, Alpher respondeu por e-mail: "Estou convicto de que Israel merece estar mais bem representado entre os judeus americanos no que diz respeito a questões do processo de paz. J Street, ao contrário do AIPAC, é muito mais representativo da opinião dos judeus americanos."
Isso não dissuadiu, porém, Barack Obama de discursar na conferência anual da AIPAC. O senador do Illinois, cujo nome do meio é Hussein, tinha de provar as suas credenciais "pró-Israel", até porque precisa do eleitorado judeu que está a ser cortejado pelos republicanos em swing states, como a Florida. Foi aplaudido de pé quando declarou que "Jerusalém permanecerá a capital de Israel e deve continuar indivisível".
Claro está que os árabes, encorajados por anteriores declarações de Obama em que admitiu "não concordar com todas as acções do Estado de Israel" e retratou o conflito israelo-palestiniano como "uma ferida aberta que infecta toda a política externa dos EUA" (The Atlantic), ficaram decepcionados. Dias depois, Obama deu uma entrevista à CNN, esclarecendo que o estatuto de Jerusalém " é uma questão a ser negociada pelas partes".
Levy achou importante esta clarificação. "Ele aceitou os 'Parâmetros Clinton', ou seja, que os bairros árabes em Jerusalém serão palestinianos e os bairros judeus serão israelitas. O que ele quis dizer é que não deve haver um arame farpado a dividir a cidade como em 1967 [antes da Guerra dos Seis Dias], e até admitiu que a frase que usou [na convenção do AIPAC] não foi bem escolhida. Também disse que Israel precisa, para sua segurança, de uma solução de dois Estados. E esta é uma posição encorajadora."
Além disso, mais do que a referência à Jerusalém, o que foi importante, para Levy, no discurso de Obama ao AIPAC foi a promessa de que resolver o conflito israelo-palestiniano será uma prioridade. O apoio que exprimiu às negociações entre Israel e a Síria. E a afirmação de que, na abordagem ao Irão, privilegiará a diplomacia e não uma nova guerra.
O Irão e o reverendo Hagee
Quanto ao generalizado sentimento israelita de que o Irão constitui uma ameaça existencial e tem de ser contido, a análise de Levy é esta: "Acho que, em Israel, há uns genuinamente preocupados e outros que criam um pânico desnecessário, por causa das coisas nojentas que o Presidente [Mahmoud] Ahmadinejad diz e também das ambições do Irão de ser uma potência regional. Há uma mobilização em Israel para a necessidade de bombardear o Irão. Os israelitas olham para o passado e dizem: 'Bombardeámos o reactor no Iraque, bombardeámos algo na Síria e por isso OK, podemos bombardear os vizinhos, porque resulta. O problema é que o debate público não está a considerar que a situação no Irão é muito diferente e muito perigosa se houver uma guerra."
Levy compara o ambiente em Israel com o que existe em muitas sociedades em conflito. "Os israelitas são frequentemente tentados a pensar: 'Não há solução, vamos bombardeá-los', o que até é compreensível, mas não é uma boa política. Uma maioria de israelitas apoiou a guerra no Líbano há dois anos, mas agora admitem que foi um fucking mistake, mas na altura achavam que era uma grande ideia. A maioria dos israelitas apoia ataques militares na Faixa de Gaza mas também apoia o cessar-fogo com o Hamas. Há muitas dissonâncias nas sociedades em conflito. Eu creio que os israelitas ficariam muito felizes se houvesse uma solução diplomática para o Irão."
Levy está, por isso, entusiasmado com a campanha de J Street contra uma guerra no Irão: "Uma carta a todos os candidatos ao Congresso obteve mais de 30 mil assinaturas online numa semana". Outro sucesso que o novo lobby reclama é uma petição que forçou o candidato republicano, John McCain, a renegar o apoio do reverendo John Hagee, pastor da congregação Christians United for Israel (CUI), aliada do AIPAC.
Na ânsia de apressar o "segundo regresso do Messias", Hagee fez recentemente um sermão que causou uma onda de repulsa: "Deus disse a Jeremias: 'Enviarei muitos pescadores e depois enviarei muitos caçadores'. Os pescadores são os sionistas, homens como Theodor Herzl. (...) E os caçadores? Hitler foi um caçador. Como é que isso [o Holocausto] aconteceu? Porque Deus permitiu que acontecesse. Por que aconteceu? Porque Deus disse: 'A minha máxima prioridade é fazer retornar o povo judeu à Terra de Israel."
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2008/07/29
2008/07/28
O besteirol dos 500 anos
No rescaldo da atribuição do Prémio Camões 2008 a João Ubaldo Ribeiro, achei que vinha a propósito recordar aqui um artigo deste autor, publicado em 2000, sobre a famosa polémica do "achamento" versus "descobrimento" do Brasil. Sobre este assunto, creio que o autor de Viva o Povo Brasileiro sabe muito bem o que diz. É um texto polémico, porém.
O besteirol dos 500 anos, João Ubaldo Ribeiro, O Estado de S. Paulo, 24/04/2000
Levando-se em conta nossa pitoresca realidade contemporânea, até que a quantidade de besteiras ditas e escritas sobre o controvertido aniversário do Brasil não dá para surpreender. O que chateia um pouquinho é que diversas dessas besteiras continuarão a perseguir-nos pela vida afora, algumas talvez trazendo conseqüências indesejadas. A principal delas, naturalmente, é a de que o Brasil começou em 1500, quando nem mesmo no nome isso aconteceu, posto que éramos uma ilha quando os portugueses primeiro viram as terras daqui e, durante muito tempo, o Brasil que duvidosamente existia não tinha nada a ver com o Brasil de hoje.
A impressão que se tem é que, do povo às autoridades e mesmo aos entendidos, acha-se que o Brasil já estava no mapa, com as fronteiras e características atuais, no momento em que Cabral chegou. Teria tido até um nome nativo, já proposto, pelos mais exaltados, para substituir "Brasil": Pindorama, designação supostamente dada pelos índios ao nosso país. Não sou historiador, mas também não sou tão burro assim para acreditar que os índios tinham qualquer noção geopolítica, ou alguma idéia de que pertenciam a um "país" chamado Pindorama. Não havia qualquer país, é claro, nem sequer a palavra Pindorama devia fazer sentido para os ocupantes que os portugueses encontraram aqui, se é que ela era usada mesmo. No máximo, significaria o único mundo conhecido deles. Parece assim que os nossos índios administravam impérios e cidades como os dos maias, astecas ou incas, quando na verdade, que perdura até hoje, viviam neoliticamente e a maioria esgotava o numerais em três - era o máximo que conseguiam contar e o resto se designava como "muito".
O besteirol dos 500 anos, João Ubaldo Ribeiro, O Estado de S. Paulo, 24/04/2000
Levando-se em conta nossa pitoresca realidade contemporânea, até que a quantidade de besteiras ditas e escritas sobre o controvertido aniversário do Brasil não dá para surpreender. O que chateia um pouquinho é que diversas dessas besteiras continuarão a perseguir-nos pela vida afora, algumas talvez trazendo conseqüências indesejadas. A principal delas, naturalmente, é a de que o Brasil começou em 1500, quando nem mesmo no nome isso aconteceu, posto que éramos uma ilha quando os portugueses primeiro viram as terras daqui e, durante muito tempo, o Brasil que duvidosamente existia não tinha nada a ver com o Brasil de hoje.
A impressão que se tem é que, do povo às autoridades e mesmo aos entendidos, acha-se que o Brasil já estava no mapa, com as fronteiras e características atuais, no momento em que Cabral chegou. Teria tido até um nome nativo, já proposto, pelos mais exaltados, para substituir "Brasil": Pindorama, designação supostamente dada pelos índios ao nosso país. Não sou historiador, mas também não sou tão burro assim para acreditar que os índios tinham qualquer noção geopolítica, ou alguma idéia de que pertenciam a um "país" chamado Pindorama. Não havia qualquer país, é claro, nem sequer a palavra Pindorama devia fazer sentido para os ocupantes que os portugueses encontraram aqui, se é que ela era usada mesmo. No máximo, significaria o único mundo conhecido deles. Parece assim que os nossos índios administravam impérios e cidades como os dos maias, astecas ou incas, quando na verdade, que perdura até hoje, viviam neoliticamente e a maioria esgotava o numerais em três - era o máximo que conseguiam contar e o resto se designava como "muito".
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Livros
2008/07/24
O concerto

Passeio Marítimo de Algés, 19-07-2008, 21 horas. Alinhamento aproximado:
Dance Me To The End Of Love
The Future
Ain't No Cure For Love
Bird On The Wire
Everybody Knows
In My Secret Life
Who By Fire
Anthem
Intervalo
Tower Of Song
Suzanne
Gypsy Wife
Boogie Street
Hallelujah
Democracy
I'm Your Man
A Thousand Kisses Deep (recital)
Take This Waltz
Heart With No Companion
So Long, Marianne
First We Take Manhattan
That Don't Make It Junk
Closing Time
I Tried to Leave You
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Música
Closing time
Quase a encerrar um belo concerto. Tal como com Chico Buarque, eu não poderia deixar de gostar, mas de qualquer maneira foi uma grande noite. Só foi pena faltarem Chelsea Hotel e Famous Blue Raincoat. Haverá uma próxima vez?
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I'm your man
A canção com que eu mais vibrei. Apeteceu-me cantá-la (e devo ter cantado algumas partes). Belíssima e, como refere João Bonifácio - numa crónica em que em alguns aspectos não concordo -, de um sarcasmo extraordinário.
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Hallelujah
Uma bela canção e isso tudo, eu sei, mas no meio de tanta religião e misticismo deixxem-me cometer uma heresia: prefiro o Rufus Wainwright a cantá-la! Mas gostei de a ouvir pelo Cohen ao vivo.
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Tower of song
Gosto desta canção em que Cohen se refere a Hank Williams (uma figura conhecida, mas que eu confesso que não sei quem é). Tal familiaridade a referir-se a um estranho para mim soa-me aos meus amigos Cosmo Kramer (a referir-se a Bob Sacramento) ou Artista Bastos (e os seus "grandes antifascistas").
Enfim. Aplausos quando Cohen entoa "I was born with the gift of a golden voice". No fim conclui que o maior segredo místico se encontra em "doo-da-da-da" que o coro feminino entoava. O internamento num mosteiro budista deu nisto.
Enfim. Aplausos quando Cohen entoa "I was born with the gift of a golden voice". No fim conclui que o maior segredo místico se encontra em "doo-da-da-da" que o coro feminino entoava. O internamento num mosteiro budista deu nisto.
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2008/07/23
The Future
Leonard começou com Dance Me To The End Of Love. Seguiu-se esta The Future, mas a letra da versão original (“Give me crack, anal sex…”) foi substituída por “Give me unprotected sex…”. Acho que o Leonard anda a ler o Womenage à trois…
A parte final da música, “Destroy another fetus now, We don’t like children anyhow” é que não foi substituída. Foi curioso olhar para as reacções do público nesta altura. A maior parte das pessoas, que vinha entusiasmada com o resto da letra, estava algo embaraçada, mas houve uma rapariga que sorriu com um ar de desforra. Sobre este assunto é que o Leonard Cohen deveria ler o Womenage à trois…
A parte final da música, “Destroy another fetus now, We don’t like children anyhow” é que não foi substituída. Foi curioso olhar para as reacções do público nesta altura. A maior parte das pessoas, que vinha entusiasmada com o resto da letra, estava algo embaraçada, mas houve uma rapariga que sorriu com um ar de desforra. Sobre este assunto é que o Leonard Cohen deveria ler o Womenage à trois…
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Concertos de uma vida
Há muitos anos que esperava por assistir a um concerto do Leonard Cohen, tal como esperei pelo do Chico Buarque (em Novembro de 2006). Tal como do Chico, só havia visto um concerto dedicado ao Leonard Cohen, em Nova Iorque (e excelente, em Junho de 2003, no Prospect Park, adaptada a filme: “I’m Your Man”. Com a família Wainwright e, ironicamente, Lou Reed!). E exactamente como no do Chico, receio que tenha sido a última oportunidade de ver o Leonard ao vivo. Por isto o concerto (9000 pessoas na assistência no Passeio Marítimo de Algés) merece um destaque especial.
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2008/07/22
2008/07/21
Dinossauros? Quais dinossauros?
"Os dinossauros passaram por aqui" é a manchete do suplemento P2 do Público de hoje. Julguei que se estivesse a referir ao Leonard Cohen ou ao Lou Reed (que tocaram este fim de semana em Lisboa). Mas não: era mesmo a dinossauros.
Pequeno resumo do concerto do Leonard Cohen amanhã ou depois.
Pequeno resumo do concerto do Leonard Cohen amanhã ou depois.
2008/07/19
2008/07/18
Da conversa de Lula com o "doutor Mário"
... (quarta à noite, na RTP1), ficam principalmente estas frases, que cito de memória: "agora, que exerço o poder, não tenho o direito de sonhar mais. O mandato é de quatro anos, e eu tenho que fazer o melhor possível." Só mesmo um homem muito sábio como Lula para arrumar numa frase a "imaginação ao poder" e os soixante-huitards (que mais depressa votam nos tucanos que nele).
Também ficou muito bem a Mário Soares citar Fidel Castro, no fim da entrevista: os homens de esquerda no poder têm que ser "cavaleiros da esperança".
Também ficou muito bem a Mário Soares citar Fidel Castro, no fim da entrevista: os homens de esquerda no poder têm que ser "cavaleiros da esperança".
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Cinco Dias,
Esquerda
2008/07/17
Re: Debate sobre a Regionalização - a questão do Porto
Caro Pedro,
respondendo sinteticamente (e em estéreo):
1 - Muito obrigado pelos teus esclarecimentos. Desconhecia o facto de o centro histórico de Gaia já ter pertencido ao Porto, bem como o porto de Leixões. Eu sou favorável a municípios fortes, pelo que nada tenho a opor a essa putativa união (nem teria que me opor ou deixar de opor). Só referi essa questão porque achei graça à forma como ela foi posta no tal debate a que assistimos, na intervenção do público: houve quem falasse em o Porto "anexar" ou "absorver" Gaia. Achei graça à leviandade com que se falava em absorver, como se os gaienses, que presentemente até são mais que os portuenses (daí a minha sugestão de Gaia absorver o Porto), não fossem para ali chamados! Mas é preciso dizer que também houve quem falasse em "unir" Porto, Gaia e Matosinhos (sem falar em "absorver").
2 e 3 - Essas são as questões mais interessantes. Haveremos de as continuar a debater. Mas mantenho a impressão de que ninguém anseia mais a regionalização do que o Porto, e na verdade muitos supostos regionalistas no Porto ambicionam mais do que a regionalização. Não é "Lisboa" ter medo do Porto: é o resto do país ter medo do separatismo. Basta considerar o discurso dos regionalistas mais inflamados - o que não falta são candidatos a Umberto Bossi.
4 - Sobre o estafado argumento "constitucional", tu não o usas, e nem ninguém do Blasfémias (ninguém do Blasfémias defende a nossa constituição). Mas olha que há muita gente, principalmente à esquerda, que o usa. Suspeito mesmo que alguns elementos do Norteamos o apoiam. Já experimentaste perguntar-lhes?
Também foi um prazer conhecer-te pessoalmente, e até à próxima. Até lá haveremos de continuar a debater.
respondendo sinteticamente (e em estéreo):
1 - Muito obrigado pelos teus esclarecimentos. Desconhecia o facto de o centro histórico de Gaia já ter pertencido ao Porto, bem como o porto de Leixões. Eu sou favorável a municípios fortes, pelo que nada tenho a opor a essa putativa união (nem teria que me opor ou deixar de opor). Só referi essa questão porque achei graça à forma como ela foi posta no tal debate a que assistimos, na intervenção do público: houve quem falasse em o Porto "anexar" ou "absorver" Gaia. Achei graça à leviandade com que se falava em absorver, como se os gaienses, que presentemente até são mais que os portuenses (daí a minha sugestão de Gaia absorver o Porto), não fossem para ali chamados! Mas é preciso dizer que também houve quem falasse em "unir" Porto, Gaia e Matosinhos (sem falar em "absorver").
2 e 3 - Essas são as questões mais interessantes. Haveremos de as continuar a debater. Mas mantenho a impressão de que ninguém anseia mais a regionalização do que o Porto, e na verdade muitos supostos regionalistas no Porto ambicionam mais do que a regionalização. Não é "Lisboa" ter medo do Porto: é o resto do país ter medo do separatismo. Basta considerar o discurso dos regionalistas mais inflamados - o que não falta são candidatos a Umberto Bossi.
4 - Sobre o estafado argumento "constitucional", tu não o usas, e nem ninguém do Blasfémias (ninguém do Blasfémias defende a nossa constituição). Mas olha que há muita gente, principalmente à esquerda, que o usa. Suspeito mesmo que alguns elementos do Norteamos o apoiam. Já experimentaste perguntar-lhes?
Também foi um prazer conhecer-te pessoalmente, e até à próxima. Até lá haveremos de continuar a debater.
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2008/07/16
Tudo vira bosta
Quinze dias depois, finalmente tenho um pouco de tempo para escrever sobre o concerto da Rita Lee.
Rita Lee é a recordista na interpretação de canções de abertura de telenovelas da Globo. Até há uns dois ou três anos eu não gostava da Rita Lee. Achava-a uma cantora de abertura de telenovelas (e isto nem é assim tão mau – eu gosto de uma boa telenovela brasileira). Achava-a uma cantora vulgar.
Até que calhou ouvir o álbum Acústico MTV (editado em 1998), onde os seus maiores sucessos são revisitados com arranjos excelentes. O melhor é mesmo o dueto com Milton Nascimento (que mostrei aqui), mas todo o resto do álbum é muito bom. Associado a esta descoberta tardia, veio o álbum que continha músicas deliciosas como Amor e Sexo (de Arnaldo Jabor) e, sobretudo, Tudo Vira Bosta (um hino para a esquerda que chega ao poder). A Rita Lee era acima de tudo uma entertainer que cantava umas coisas giras, que se bem musicadas dariam um óptimo resultado, mas acima de tudo era uma cantora para não se levar demasiado a sério. Por isso mesmo só era bem apreciada por quem tinha mais de trinta anos (a idade com que eu comecei a gostar da Rita Lee). Era como o vinho do Porto. Pensava eu.
No concerto, a minha opinião infelizmente mudou. Vi uma grande falta de improvisação e espontaneidade (que era o que eu mais esperava). Vi uma cantora certinha, sem rasgo e que, embora comunicasse com o público, não tinha grande graça. Que saudades da Rita Lee da Saia Justa – e eu que esperava que ela viesse fazer tricô para o palco! Ouvi as suas aventuras com as vendedoras de calças – a Rita Lee vem a Lisboa visitar os centros comerciais… Tudo parecia já visto por mim, nalgum programa de televisão. Tudo parecia igualzinho a um show da Globo. Tudo muito vulgar.
Recordo agora e compreendo melhor a minha opinião sobre a Rita Lee antes dos 30 anos. Foi essa Rita Lee que eu vi no Coliseu. Não deixarei de forma nenhuma de a ouvir, mas dificilmente ela me apanha noutro concerto.
2008/07/15
No rescaldo do Porto
O reaccionarismo latente que denunciei há quatro anos não só se mantém como está ainda mais requintado: se fizerem uma pesquisa de uma morada nos mapas do SAPO, verão que não obterão resposta nenhuma se não incluírem o "de" no nome da rua!
Mas não dêem demasiada importância a isto. Esta cidade é linda e é sempre um prazer cá voltar. Até à próxima!
Mas não dêem demasiada importância a isto. Esta cidade é linda e é sempre um prazer cá voltar. Até à próxima!
2008/07/14
2008/07/11
Do Porto
Desde anteontem encontro-me no Porto a participar em mais um Oporto Meeting on Geometry, Topology and Physics. Mas ontem à noite aproveitei para assistir a um debate sobre regionalização promovido pela Câmara Municipal do Porto e moderado por Rui Rio (ele mesmo). Ao contrário do que é costume em Lisboa, no Porto havia intervenção do público, no final. Intervim como agente provocador. Aqui estão as linhas mestras do meu comentário:
- deixei bem claro que a descentralização era indispensável e não tinha nenhum problema em especial com a regionalização. O problema era mesmo o Porto;
- falou-se no debate que o Porto deveria absorver Gaia (assim mesmo, abertamente), formando uma só cidade. A ideia não era má, mas algo incorrecta: o certo seria Gaia absorver o Porto (e acabar de vez com o Porto);
- todo o país tem que se queixar do centralismo e das desigualdades regionais, mas só no Porto se fala de regionalização. O que motiva o Porto não é a descentralização mas a inveja de Lisboa e uma nova centralização, a norte (o centralismo tripeiro);
- eu votaria contra a regionalização. Para votar a favor teria de se regionalizar todo o país excepto o Porto. A região norte seria à volta do Porto; o Porto seria um enclave nortenho da região de Lisboa;
- a quem invoca a constituição para defender a regionalização, recordo que na altura em que isso foi escrito (1975) o socialismo também era um imperativo constitucional. E que tal se, antes de implantarmos a regionalização, implantássemos o socialismo?
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2008/07/10
O exemplo de Mrs. Naugatuck


Já pelo menos noutra ocasião recordei a excelente série Maude, originalmente transmitida nos anos 70 mas que, em Portugal, só chegou no final dos anos 80. A ultraliberal e feminista Maude (uma caricatura da esquerda americana da altura) tinha, como não podia deixar de ser, uma empregada. Uma das empregadas (a que durou mais tempo na série), a inglesa Mrs. Naugatuck, era interna. Não me esqueço do episódio em que decide ter a sua própria casa e diz à patroa (que está algo contrariada, habituada a tê-la 24 horas por dia em casa), quando esta a vai visitar: “Aqui tenho a liberdade de a pôr na rua se me apetecer!”. Qualquer pessoa tem direito a isso. Qualquer pessoa tem o direito a não ter um senhorio, pelo menos a partir de certa altura na sua vida.
2008/07/09
As duas faces do proteccionismo no arrendamento
Vale a pena atentar nos comentários que um tal “Luís” (não é Lavoura nem Rainha), que alguma relação terá com a Associação Lisbonense de Proprietários, tem vindo a deixar nos meus textos. É isso que faço agora. Diz Luís:
É notável a convicção com que afirma que os imóveis “não existiriam”. Bem, não é essa a história de todos os imóveis construídos em Lisboa durante o Estado Novo. Há bairros sociais como o Arco Cego, Alvalade (atrás do Campo Grande) e a Encarnação. Não são as zonas mais dinâmicas de Lisboa, é verdade, mas ainda hoje existem e estão para durar.
Mesmo assim, se é verdade que grande parte de Lisboa foi construída no Estado Novo com o objectivo de arrendar, tal resultou de um contrato social. Imposto pelo salazarismo, é certo, mas nem por isso deixa de ser um contrato. Em que consistia o tal contrato? Em troca de acesso à compra de prédios para alugar, era imposto o congelamento de rendas. Aos senhorios Salazar facilitava a compra de casa (como facilitou muita coisa, noutra escala, a senhores como Mello e Champalimaud); aos inquilinos, era facilitado o arrendamento. O Luís lá terá as suas razões para afirmar que a construção destes prédios “deu casa a muita gente” e “não teria sido possível” se não fosse para arrendar. O que o Luís se esqueceu de perguntar foi: teriam esses prédios sido construídos, teriam essas casas sido ocupadas sem o regime de congelamento de rendas imposto por Salazar? Pois é…
De qualquer maneira não defendo de forma nenhuma o congelamento de rendas como opção ideal. Se na prática indirectamente o defendo (ou seja, se sou contra um aumento brutal das rendas) é porque tal é um mal menor. Com efeito, a meu ver a grande injustiça do mercado imobiliário está na grande concentração de prédios inteiros nessas famílias de senhorios do tempo do salazarismo (pequenos burgueses proprietários protegidos por Salazar – verdadeiros Champalimauds de trazer por casa). Uma concentração que, hoje em dia, em pleno século XXI, várias décadas depois do Estado Novo, não faz sentido absolutamente nenhum.
Dito isto, não sou contra o mercado de aluguer de casas, embora ache que não deva ser encorajado. Mas acho notável o descaramento dos vários herdeiros dos protegidos de Salazar que têm comentado os meus textos, quando afirmam que hoje em dia, com a precariedade e a instabilidade, é preferível alugar uma casa a comprá-la e que é melhor ter um senhorio “à antiga” do que ter o banco como senhorio. Embora reconheça que é preocupante a quantidade de crédito mal-parado em Portugal e me revoltem os enormes lucros do sector bancário (muito à custa dos empréstimos para comprar casa), tal comparação é profundamente desonesta. Se tudo correr bem, em condições normais, ao fim de um certo número de anos a casa comprada está paga ao banco e pertence a quem pediu o empréstimo. Hoje em dia é ainda mais uma operação de risco, e por isso quem a faz merece apoio e admiração. Uma casa alugada está a ser paga uma vida inteira pelo inquilino para no fim ficar… para os netos e bisnetos dos pequenos burgueses que compraram o prédio. Bem entendemos onde eles querem chegar, bem percebemos o que eles têm a ganhar (com um novo contrato ou se a renda for descongelada) e bem dispensamos os seus “conselhos”.
Fique sabendo que grande parte de Lisboa foi construída dos anos 30 em diante, com o objectivo de arrendar. Sim, foi a aplicação de poupanças. Deu emprego a muita gente e permitiu a muito mais ter habitação. De forma geral, os prédios foram construídos com esse fim específico. Não existiriam se assim não fosse.
É notável a convicção com que afirma que os imóveis “não existiriam”. Bem, não é essa a história de todos os imóveis construídos em Lisboa durante o Estado Novo. Há bairros sociais como o Arco Cego, Alvalade (atrás do Campo Grande) e a Encarnação. Não são as zonas mais dinâmicas de Lisboa, é verdade, mas ainda hoje existem e estão para durar.
Mesmo assim, se é verdade que grande parte de Lisboa foi construída no Estado Novo com o objectivo de arrendar, tal resultou de um contrato social. Imposto pelo salazarismo, é certo, mas nem por isso deixa de ser um contrato. Em que consistia o tal contrato? Em troca de acesso à compra de prédios para alugar, era imposto o congelamento de rendas. Aos senhorios Salazar facilitava a compra de casa (como facilitou muita coisa, noutra escala, a senhores como Mello e Champalimaud); aos inquilinos, era facilitado o arrendamento. O Luís lá terá as suas razões para afirmar que a construção destes prédios “deu casa a muita gente” e “não teria sido possível” se não fosse para arrendar. O que o Luís se esqueceu de perguntar foi: teriam esses prédios sido construídos, teriam essas casas sido ocupadas sem o regime de congelamento de rendas imposto por Salazar? Pois é…
De qualquer maneira não defendo de forma nenhuma o congelamento de rendas como opção ideal. Se na prática indirectamente o defendo (ou seja, se sou contra um aumento brutal das rendas) é porque tal é um mal menor. Com efeito, a meu ver a grande injustiça do mercado imobiliário está na grande concentração de prédios inteiros nessas famílias de senhorios do tempo do salazarismo (pequenos burgueses proprietários protegidos por Salazar – verdadeiros Champalimauds de trazer por casa). Uma concentração que, hoje em dia, em pleno século XXI, várias décadas depois do Estado Novo, não faz sentido absolutamente nenhum.
Dito isto, não sou contra o mercado de aluguer de casas, embora ache que não deva ser encorajado. Mas acho notável o descaramento dos vários herdeiros dos protegidos de Salazar que têm comentado os meus textos, quando afirmam que hoje em dia, com a precariedade e a instabilidade, é preferível alugar uma casa a comprá-la e que é melhor ter um senhorio “à antiga” do que ter o banco como senhorio. Embora reconheça que é preocupante a quantidade de crédito mal-parado em Portugal e me revoltem os enormes lucros do sector bancário (muito à custa dos empréstimos para comprar casa), tal comparação é profundamente desonesta. Se tudo correr bem, em condições normais, ao fim de um certo número de anos a casa comprada está paga ao banco e pertence a quem pediu o empréstimo. Hoje em dia é ainda mais uma operação de risco, e por isso quem a faz merece apoio e admiração. Uma casa alugada está a ser paga uma vida inteira pelo inquilino para no fim ficar… para os netos e bisnetos dos pequenos burgueses que compraram o prédio. Bem entendemos onde eles querem chegar, bem percebemos o que eles têm a ganhar (com um novo contrato ou se a renda for descongelada) e bem dispensamos os seus “conselhos”.
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2008/07/08
Segurança
Há um argumento curioso dos defensores do arrendamento de casa – que geralmente defendem também a precariedade laboral. Estes senhores primeiro querem acabar com tudo o que seja segurança no emprego, para depois dizerem que “já não há empregos seguros” que permitam comprar casa - com a instabilidade laboral, hoje em dia quem não herdou uma casa ou não tem pais que lha ofereçam só deve alugar casa e não comprar.
Mais vale estas pessoas defenderem de vez, e abertamente, que querem acabar com o direito à casa própria (tal como querem acabar com o emprego seguro). Eu admito - considero que o mercado de aluguer de casas deve ser a excepção e não a regra. Deve ser desencorajado ao máximo. A menos que desejem uma situação como a da música do vídeo (ouçam até ao fim).
Mais vale estas pessoas defenderem de vez, e abertamente, que querem acabar com o direito à casa própria (tal como querem acabar com o emprego seguro). Eu admito - considero que o mercado de aluguer de casas deve ser a excepção e não a regra. Deve ser desencorajado ao máximo. A menos que desejem uma situação como a da música do vídeo (ouçam até ao fim).
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2008/07/07
Uma terra sem senhorios
Nesta questão das rendas de casa há vários aspectos que acho espantosos.
Acho espantoso que quem defende a “iniciativa” e o “empreendedorismo” acabe a defender uma actividade que de iniciativa e empreendedorismo tem muito pouco ou quase nada. Que empreendedorismo existe em gastar dinheiro em casas para alugar, em vez de fazer aplicações no banco ou jogar na bolsa? Que benefícios traz tal actividade para o crescimento da economia? Que empregos se criam? Que riqueza é produzida em concentrar-se um recurso que deve ser finito e, portanto, não produzido mais do que o necessário (a habitação nas grandes cidades) nas mãos de alguns senhorios endinheirados?
Dir-me-ão: a actual lei das rendas tem paradoxos? Pois é verdade. E conduz a situações ridículas? Pois conduz. Não sou um defensor da actual lei e nem da actual situação, mas não tenho nenhuma simpatia por senhorios ou pelo aluguer de casas enquanto ocupação permanente, e não posso apoiar nenhuma lei que estimule esta actividade. Reconheço que o mercado de aluguer é necessário, mas deve ser complementar, e baseado nas casas que não estão ocupadas por alguma razão. Não deve ser o fundamento, a razão de uma casa, pelo menos de uma casa particular. Uma segunda casa particular num raio mínimo de quilómetros deveria ser para vender e não para alugar. Deveria pagar impostos altos.
De entre as críticas que me fizeram foi a de “não conhecer bem outras realidades”. Pois nos EUA conheci dois casos de “senhorios” cuja única “profissão” era alugar quartos e estúdios a estudantes e investigadores (sem passar recibos e sem pagar impostos). Ganhavam o suficiente assim não só para comerem e eventualmente pagarem um seguro de saúde, mas para manterem as casas para alugarem e terem carros. Não faziam absolutamente mais nada. Não estudavam, não trabalhavam, não progrediam. Nem precisavam, com as casas que tinham recebido de herança. Não eram nenhuns coitados. Este modelo de sociedade ou estilo de vida não são defensáveis nem devem ser encorajados.
Há inquilinos que pagam rendas ridiculamente baixas e de coitados não têm nada, é verdade, mas a diferença em relação aos senhorios é que também há muitos casos de inquilinos com rendimentos de miséria. Nunca conheci nenhum senhorio que fosse pobre. Mesmo assim, gostam de se passar por gente “modesta” que investiu as suas “poupanças” numas “casas” para alugar como “complemento de reforma”. Pois bem, supondo que essas “casas” correspondem no mínimo a um prédio (muitas vezes correspondem a mais), receber rendas de dezenas de euros pelos apartamentos desse prédio correspondem a um bom “complemento de reforma”, pelo menos no que eu entendo por “complemento”. Quem chama a rendas de centenas de euros (a multiplicar por um prédio inteiro) “complemento de reforma” tem uma reforma muito boa! Não deve ter nenhum discurso miserabilista e nem merece compaixão. Em qualquer dos casos, tal rendimento (“complemento” ou não) não resulta de nenhum trabalho ou esforço. Eu não sou contra as pessoas enriquecerem, desde que trabalhem para isso.
O mais curioso é que os maiores defensores do arrendamento de casas têm todos casa própria! Defendem o estímulo do arrendamento, mas arrendar casa não é com eles. Quem os quer ver é nas suas casinhas próprias. Se viver em casa alugada é tão bom, por que não alugam as suas casas uns aos outros e deixam os trabalhadores terem casa própria, uma ambição justa e legítima?
Acho espantoso que quem defende a “iniciativa” e o “empreendedorismo” acabe a defender uma actividade que de iniciativa e empreendedorismo tem muito pouco ou quase nada. Que empreendedorismo existe em gastar dinheiro em casas para alugar, em vez de fazer aplicações no banco ou jogar na bolsa? Que benefícios traz tal actividade para o crescimento da economia? Que empregos se criam? Que riqueza é produzida em concentrar-se um recurso que deve ser finito e, portanto, não produzido mais do que o necessário (a habitação nas grandes cidades) nas mãos de alguns senhorios endinheirados?
Dir-me-ão: a actual lei das rendas tem paradoxos? Pois é verdade. E conduz a situações ridículas? Pois conduz. Não sou um defensor da actual lei e nem da actual situação, mas não tenho nenhuma simpatia por senhorios ou pelo aluguer de casas enquanto ocupação permanente, e não posso apoiar nenhuma lei que estimule esta actividade. Reconheço que o mercado de aluguer é necessário, mas deve ser complementar, e baseado nas casas que não estão ocupadas por alguma razão. Não deve ser o fundamento, a razão de uma casa, pelo menos de uma casa particular. Uma segunda casa particular num raio mínimo de quilómetros deveria ser para vender e não para alugar. Deveria pagar impostos altos.
De entre as críticas que me fizeram foi a de “não conhecer bem outras realidades”. Pois nos EUA conheci dois casos de “senhorios” cuja única “profissão” era alugar quartos e estúdios a estudantes e investigadores (sem passar recibos e sem pagar impostos). Ganhavam o suficiente assim não só para comerem e eventualmente pagarem um seguro de saúde, mas para manterem as casas para alugarem e terem carros. Não faziam absolutamente mais nada. Não estudavam, não trabalhavam, não progrediam. Nem precisavam, com as casas que tinham recebido de herança. Não eram nenhuns coitados. Este modelo de sociedade ou estilo de vida não são defensáveis nem devem ser encorajados.
Há inquilinos que pagam rendas ridiculamente baixas e de coitados não têm nada, é verdade, mas a diferença em relação aos senhorios é que também há muitos casos de inquilinos com rendimentos de miséria. Nunca conheci nenhum senhorio que fosse pobre. Mesmo assim, gostam de se passar por gente “modesta” que investiu as suas “poupanças” numas “casas” para alugar como “complemento de reforma”. Pois bem, supondo que essas “casas” correspondem no mínimo a um prédio (muitas vezes correspondem a mais), receber rendas de dezenas de euros pelos apartamentos desse prédio correspondem a um bom “complemento de reforma”, pelo menos no que eu entendo por “complemento”. Quem chama a rendas de centenas de euros (a multiplicar por um prédio inteiro) “complemento de reforma” tem uma reforma muito boa! Não deve ter nenhum discurso miserabilista e nem merece compaixão. Em qualquer dos casos, tal rendimento (“complemento” ou não) não resulta de nenhum trabalho ou esforço. Eu não sou contra as pessoas enriquecerem, desde que trabalhem para isso.
O mais curioso é que os maiores defensores do arrendamento de casas têm todos casa própria! Defendem o estímulo do arrendamento, mas arrendar casa não é com eles. Quem os quer ver é nas suas casinhas próprias. Se viver em casa alugada é tão bom, por que não alugam as suas casas uns aos outros e deixam os trabalhadores terem casa própria, uma ambição justa e legítima?
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2008/07/04
Daniel do avesso do avesso
Escreve o Daniel Oliveira, directamente dos EUA:
Eu compreendo perfeitamente o que o Daniel escreve. Também o senti muitas vezes, quando viva nos EUA. No meu caso foi, por exemplo, quando participava em manifestações gigantescas contra a Guerra no Iraque em Nova Iorque. Ou quando passava o Thanksgiving na companhia de americanos ecologistas e anarquistas. Uma vez mais, os pró-americanos aplaudiriam? E os anti-americanos reprovariam?
Muitos dos nossos antiamericanos não fazem a menor ideia do que são os EUA. Se fizessem essa ideia, talvez vissem as coisas com outros olhos. Mas exactamente o mesmo pode ser dito de muitos dos mais radicais pró-americanos, os mais ardorosos defensores da invasão do Iraque, que quanto muito dos EUA conhecem o Rockefeller Center e a Quinta Avenida.
O texto do Daniel confirma: ir aos EUA faz bem às pessoas de esquerda.
Bom 4 de Julho para todos.
Estou a adorar os comentários pró e anti-americanos aqui no blogue. Pró e anti o quê? Hoje estive numa gigantesca Marcha do orgulho gay, com polícias, pastores, bombeiros, congressistas e travestis. Os pró-americanos aplaudem? Os anti-americanos reprovam?
Eu compreendo perfeitamente o que o Daniel escreve. Também o senti muitas vezes, quando viva nos EUA. No meu caso foi, por exemplo, quando participava em manifestações gigantescas contra a Guerra no Iraque em Nova Iorque. Ou quando passava o Thanksgiving na companhia de americanos ecologistas e anarquistas. Uma vez mais, os pró-americanos aplaudiriam? E os anti-americanos reprovariam?
Muitos dos nossos antiamericanos não fazem a menor ideia do que são os EUA. Se fizessem essa ideia, talvez vissem as coisas com outros olhos. Mas exactamente o mesmo pode ser dito de muitos dos mais radicais pró-americanos, os mais ardorosos defensores da invasão do Iraque, que quanto muito dos EUA conhecem o Rockefeller Center e a Quinta Avenida.
O texto do Daniel confirma: ir aos EUA faz bem às pessoas de esquerda.
Bom 4 de Julho para todos.
2008/07/02
Algumas “delícias” sobre esses parasitas chamados senhorios
Tenho andado a comentar no Cinco Dias, a propósito de textos de Fernanda Câncio sobre o mercado de aluguer de casas. Enquanto não escrevo sobre esse assunto, vão lendo lá.
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2008/07/01
Mania da Rita
A mais completa tradução da cidade de São Paulo vai estar logo no Coliseu de Lisboa. Não vai haver um momento tão perfeito como o que a seguir mostro (no concerto para a MTV em 1998), mas de certeza que vai valer a pena. Lá estarei e aqui contarei como foi. Entretanto olhem bem para a cara do Bituca a páginas tantas...
2008/06/30
Os direitos da mulher
Fox mancha Obama
Como é suja a política norte americana, e principalmente o canal de televisão FOX News (do movimento MoveOn):
FOX's longtime pattern of smearing Obama and the black community is well documented.1 But the outrageous moments have increased in the last month.
First, a paid FOX commentator accidentally confused "Obama" with "Osama" and then joked on the air about killing Obama.2 Next, a FOX anchor said a
playful fist bump by Barack and Michelle Obama could be a "terrorist fist jab."3 And then, FOX called Michelle Obama "Obama's baby mama"-slang for
an unmarried mother of a man's child, and a clear attempt to associate the Obamas with negative stereotypes about black people.4
If you know others who'd find FOX's recent actions despicable, please ask them to sign the petition too. The more people who sign, the bigger our
impact will be.
Our friends at ColorOfChange.org-an online advocacy group focused on the issues of importance to the black community-are leading this charge. They
have already collected nearly 100,000 names to deliver as a group to FOX's headquarters (in front of other media cameras, so FOX feels more heat).
Here's how they describe the situation:
After each of the incidents mentioned [above], FOX issued some form of weak apology. But what does it mean when you slap someone in the face,
apologize the next day, then slap them again? It means the apology is meaningless.
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EUA
2008/06/27
Novos e velhos blogues
Seguem-se alguns blogues que eu encontrei recentemente.
O velho companheiro Leonardo Ralha, após uma fase difícil da sua vida, tem reactivado intermitentemente o Papagaio Morto. Ainda escreveu pouco, mas esperamos que regresse com regularidade.
O Hugo Mendes e o Renato Carmo, dois dos blógueres de esquerda mais interessantes, abriram o Pensamento do Meio Dia.
Quando o Benfica ganha eu fico mal disposto. Mas só não fico pior porque sei que pessoas como o MaC ficam contentes. O MaC tem um blogue chamado, vejam bem, Mi Mi Miccoli (ao que o Benfica chegou!). É um prazer reencontrá-lo.
Graças à Ana Matos Pires, cheguei a um blogue que só conhecia de nome, mas que me entusiasmou como há muito nenhum blogue o fazia. Refiro-me ao Ana de Amsterdam. Com este título eu só poderia gostar - Chico Buarque não engana. E encontra-se Chico Buarque logo à entrada - a cantar o Roda Viva. Mas também Rubem Fonseca, um dos meus escritores favoritos, como comprova a frequência com que o cito. Mas sobretudo encontrei um fantástico texto sobre a morte de Theo van Gogh. A ler, esta Ana-de-cabo-a-tenente, Ana de toda a patente.
O velho companheiro Leonardo Ralha, após uma fase difícil da sua vida, tem reactivado intermitentemente o Papagaio Morto. Ainda escreveu pouco, mas esperamos que regresse com regularidade.
O Hugo Mendes e o Renato Carmo, dois dos blógueres de esquerda mais interessantes, abriram o Pensamento do Meio Dia.
Quando o Benfica ganha eu fico mal disposto. Mas só não fico pior porque sei que pessoas como o MaC ficam contentes. O MaC tem um blogue chamado, vejam bem, Mi Mi Miccoli (ao que o Benfica chegou!). É um prazer reencontrá-lo.
Graças à Ana Matos Pires, cheguei a um blogue que só conhecia de nome, mas que me entusiasmou como há muito nenhum blogue o fazia. Refiro-me ao Ana de Amsterdam. Com este título eu só poderia gostar - Chico Buarque não engana. E encontra-se Chico Buarque logo à entrada - a cantar o Roda Viva. Mas também Rubem Fonseca, um dos meus escritores favoritos, como comprova a frequência com que o cito. Mas sobretudo encontrei um fantástico texto sobre a morte de Theo van Gogh. A ler, esta Ana-de-cabo-a-tenente, Ana de toda a patente.
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2008/06/25
"A má matemática na aprovação do Tratado de Lisboa"
Numa altura em que tanto se fala do facilitismo nos exames de Matemática, um bom teste seria ver quanta gente percebe este artigo do Rui Curado Silva. Não só concordo com o dito artigo como acrescento: deveria avançar-se de vez para uma Europa a duas velocidades, com um pelotão "da frente" que quisesse aprovar uma Constituição Europeia e um "de trás" que não quisesse. O pelotão de trás haveria de querer juntar-se ao da frente passado algum tempo. É a história que o demonstra e a história, já diz Marx, é inevitável.
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2008/06/23
Futebol interno
Rui Costa não tem tido uma estreia fácil à frente do futebol do Benfica. Foi o regresso de Eriksson, que fracassou. Agora perdeu supostamente o melhor jogador do plantel par o FC Porto. Geralmente estas transferências devem-se mais a despeito e provocação do que a vontade em ter os jogadores. Não sei se Rodriguéz terá no FC Porto as mesmas hipóteses que teve no Benfica. E nem isso me interessa, como sportinguista. Escrevo isto por duas razões. A primeira é que o Benfica anda mais preocupado em dedicar-se àquilo a que se dedica desde o tempo do Eusébio: tentar enganar o Sporting. Neste caso pagando o mínimo possível pelo Carlos Martins, de forma a o Sporting não receber quase nada pela transferência. Mesmo que no pacote tenha que pagar uma fortuna por outro jogador do mesmo clube que não lhe interessa nada. Mas fazem tudo para tentarem enganar o Sporting.
A segunda razão é que, apesar de consumada a transferência do Rodriguéz para o Porto, os jornais desportivos pouco destaque lhe deram, preferindo chamar às primeiras páginas... projectos de futuros reforços do Benfica! Todos os dias é um diferente! Mas enfim, é isto o que o povo quer.
A segunda razão é que, apesar de consumada a transferência do Rodriguéz para o Porto, os jornais desportivos pouco destaque lhe deram, preferindo chamar às primeiras páginas... projectos de futuros reforços do Benfica! Todos os dias é um diferente! Mas enfim, é isto o que o povo quer.
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Futebol
2008/06/20
2008/06/19
Os anúncios da selecção
Apesar de tudo, não há comparação possível entre os anúncios de Scolari à Caixa Geral de Depósitos e algumas tristes figuras (que tentam vender como "anúncios") que alguns jogadores fazem a tentar vender telemóveis da TMN. O Nuno Gomes e o João Moutinho são maus, o Quaresma é péssimo e o Nani, então, eu nem vou comentar. Ao pé deles o Scolari parece um actor da Globo (faz muito bem o seu papel de "patriarca honrado" - se as coisas não correrem bem na Globo, pode ir substituir o Tarcísio Meira). Joguem mas é à bola, rapazes! Enfrentem os batalhões dos alemães e seus canhões!
2008/06/18
Os anúncios regressados
Depois de no ano passado muito aparecerem na televisão portuguesa, os anúncios ao Licor Beirão", protagonizado por José Diogo Quintela, e à Caixa Geral de Depósitos, protagonizado por Luís Filipe Scolari, no princípio deste ano de um momento para o outro "desapareceram". A razão foi a mesma para ambos: os protagonistas "caíram em desgraça". Quintela foi apanhado alcoolizado ao volante na passagem de ano, e Scolari protagonizou o triste episódio do murro.
Interroguei-me sobre se tal "queda em desgraça" seria definitiva ou temporária. Passou o Inverno, chegou o Verão, época de Europeu de futebol e de festas, e eis que Quintela e Scolari voltam em força com os mesmos anúncios (ou variações pequenas). Como eu esperava, a memória é curta. E ainda bem que é assim. Mas se por um lado Scolari não convence muito no papel do senhor afável e simpático que nos fala do "Murtosa de sempre", o Zé Diogo passou a convencer e bem no papel de um anunciante de bebidas alcoólicas... Só é pena que seja a uma bodega tão grande como o "Licor Beirão". Ele convence-nos na quantidade do seu consumo, mas não na qualidade.
Interroguei-me sobre se tal "queda em desgraça" seria definitiva ou temporária. Passou o Inverno, chegou o Verão, época de Europeu de futebol e de festas, e eis que Quintela e Scolari voltam em força com os mesmos anúncios (ou variações pequenas). Como eu esperava, a memória é curta. E ainda bem que é assim. Mas se por um lado Scolari não convence muito no papel do senhor afável e simpático que nos fala do "Murtosa de sempre", o Zé Diogo passou a convencer e bem no papel de um anunciante de bebidas alcoólicas... Só é pena que seja a uma bodega tão grande como o "Licor Beirão". Ele convence-nos na quantidade do seu consumo, mas não na qualidade.
2008/06/17
2008/06/16
Quod erat demonstrandum
"O latinzinho é a basezinha", repetia o abade em Santa Olávia enquanto se servia dos melhores pedaços de frango sobre o fricassé. Pode ser a "basezinha", mas ninguém pensa em aprender latim hoje em dia se não for linguista ou estudante de letras (isto é, se o seu objectivo for só falar uma língua nova). Ninguém precisa de aprender latim se o seu objectivo for comunicar em francês, espanhol ou italiano. Ou português. A estrutura destas línguas tem origem no latim, mas aprende-se aprendendo muito bem uma. Para a maior parte das pessoas, o latinzinho é uma perdazinha de tempo. Julgo que isto é evidente para a maior parte das pessoas, exceptuando os casos perdidos de reaccionarismo atávico. Por isso costumo dizer, em mais uma das minhas generalizações, que "o latim é uma língua de fachos e padrecos". Sabia que já tinha escrito esta expressão nalgum sítio (que, repito, costumo dizer oralmente): só a encontrei aqui, no comentário da 1:10 de 4 de Maio de 2006. Vale a pena repeti-lo, dedicado aos senhores jornalistas que tanto falavam no "momentum", por exemplo, de Barack Obama (sem fazerem ideia do que é o tal "momentum"):
Mas voltando ao latim: eu nem levava excessivamente a sério aquela minha generalização, assim como não levo as minhas generalizações em geral. Mas que fazer depois de ler este texto? Bem me queria parecer. Não se deve levar as generalizações à letra (que é como quem diz: não estou a chamar "facho" nem "padreco" ao André Azevedo Alves). Mas que as generalizações têm sempre algo de verdade, lá isso têm.
Se houver algum linguista que me saiba explicar o “momento”, agradeço.
Notem que em inglês há o “moment” e o “momentum”! “Moment” é p.e. o momento de uma força; “momentum” é o momento linear (que na excelente edição em português do Brasil da saudosa MIR da Mecânica do Landau e Lifshitz é o “impulso”). Em inglês um sinónimo de “momento angular” é “moment of momentum” (no Landau e Lifshitz, “momento do impulso”!).
Fernando, explica aí à malta o “moment” e o “momentum”, se puderes. Deve vir do latim, mas eu sempre achei que o latim era uma língua de fachos e padrecos.
Mas voltando ao latim: eu nem levava excessivamente a sério aquela minha generalização, assim como não levo as minhas generalizações em geral. Mas que fazer depois de ler este texto? Bem me queria parecer. Não se deve levar as generalizações à letra (que é como quem diz: não estou a chamar "facho" nem "padreco" ao André Azevedo Alves). Mas que as generalizações têm sempre algo de verdade, lá isso têm.
2008/06/13
Aviso à tripeiragem ressabiada
Fora de Lisboa, saudoso, longe de Alfama, das festas de Santo António. Ainda por cima nem à minha novela tenho direito: a SIC ocupa toda a sua programação com as tais "Marchas de Santo António", uma "competição" entre "bairros" que há quem queira transformar numa versão alfacinha do Carnaval do Rio. E é este aviso que eu quero deixar à tripeiragem que, como eu, também gostaria de ver a novela (ou, pelo menos, não acha que tais "marchas" justifiquem uma transmissão em directo em horário nobre): não julguem que os lisboetas médios estão mais interessados neste evento que vocês (refiro-me às marchas e não aos Santos Populares). Confundir quem está interessado e aparece nesse evento (artistas de teatro de revista e colunáveis novos ricos) com "Lisboa" ou os "lisboetas" é um erro grave que vocês, tripeiros ressabiados, cometem frequentemente. Não sei se por ignorância se por má fé.
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2008/06/11
O mercado das viagens de avião
Passei uma boa parte da manhã e praticamente a tarde toda à procura de uma boa tarifa para a viagem de avião que vou fazer para ir a uma conferência em Agosto. Isto é, uma tarifa que não me rebente com o orçamento, que é limitado e tem ainda que cobrir a inscrição e o alojamento. Perdi algumas boas tarifas instantaneamente (a sério), pois apareciam em várias agências. Outras só perdi aparentemente, pois só apareciam numa agência portuguesa quenão detecta as tarifas fechadas em tempo real. Mas, areditem, com a internet, comprar viagens de avião é pior do que jogar na bolsa! Deveria haver um índice para o preço da viagem ao destino X no mês tal.
Tal como há dois anos, quando fui a Berlim, o que me valeu foi o grupo Air France-KLM, e a agência de viagens (francesa) da SNCF. E os preços dos bilhetes de avião andam mesmo pela hora da morte. Mas com a a actual crise petrolífera isso já não deve ser novidade para ninguém.
Tal como há dois anos, quando fui a Berlim, o que me valeu foi o grupo Air France-KLM, e a agência de viagens (francesa) da SNCF. E os preços dos bilhetes de avião andam mesmo pela hora da morte. Mas com a a actual crise petrolífera isso já não deve ser novidade para ninguém.
2008/06/10
Sócrates, Paulo Bento e a imaginação no poder
Aqui fica o texto que escrevi para o Corta Fitas.
Há muitos aspectos incompreensíveis do Maio de 68, mas o que sempre mais me intrigou foi querer levar "a imaginação ao poder". Imaginação ao poder, para quê? Quem exerce o poder em princípio é um político. Alguma vez um político precisa de imaginação? Dêem-me um exemplo de um político na história que se tenha distinguido pela sua imaginação. Assim de repente não me estou a lembrar de nenhum. Os políticos com imaginação são como o Peter Pan: recusam-se a crescer e a ver a vida como ela é. Vivem numa espécie de Terra do Nunca, e julgam que a praia está debaixo da calçada. A imaginação é para o John Lennon: do que um político precisa é de ideias (que é diferente de imaginação), vontade política e, sobretudo, bom senso. É por isso que eu, que não simpatizo nada com Nicolas Sarkozy, espero que no seu projecto de acabar com a herança do Maio de 68 ele não seja bem sucedido em muitos aspectos, mas que o seja pelo menos neste: o de acabar com a ideia peregrina da "imaginação ao poder".
Vendo bem as coisas, tivemos recentemente um primeiro-ministro (não eleito) aparentemente cheio de imaginação: refiro-me evidentemente a Pedro Santana Lopes. E digo "aparentemente" porque Santana é cheio de ideias (muito pouco concretas) e em qualquer campanha onde se meta avança sempre com grandes projectos, alguns deles por sinal bem mirabolantes. Creio tratar-se mesmo do político português mais imaginoso (ou rodeado pelos assessores mais imaginosos). Só que viu-se o que era a imaginação com o santanismo no poder. O país sem rumo, sem nenhuma coerência governativa, e o governo sem fazer ideia de como pôr em prática nenhum dos imaginosos projectos.
Foi por isso que, assim que em boa hora lhe foi dada a oportunidade para isso, o país se livrou do turbilhão imaginoso santanista e elegeu um primeiro ministro que é a antítese da imaginação. Monótono, previsível, assim é José Sócrates. Com Sócrates sabemos sempre com o que podemos contar e não há surpresas. É por isso que eu gosto dele.
No Sporting a situação é análoga. Aliás os recentes treinadores do Sporting são parecidos com alguns dos últimos primeiros ministros de Portugal. Fernando Santos foi o Guterres do Sporting, boa pessoa, católico e medroso. Já Peseiro era o Santana: estava sempre a inventar nas tácticas e não oferecia confiança nenhuma aos adeptos. Mas fazia-os sonhar: imaginavam que, jogando sempre ao ataque e descurando a defesa, venceriam muitos troféus, Viu-se o que ganharam com ele. O balneário era uma desorganização e a equipa arrastava-se sem rumo.
Em boa hora os dirigentes sportinguistas despediram Peseiro (num processo complicado e tumultuoso, como foi o despedimento de Santana) e foram buscar um treinador que é o seu oposto (como Sócrates é o oposto de Santana). Tal como Sócrates, Paulo Bento não inventa, Paulo Bento é previsível, Paulo Bento é teimoso. Até na maneira de vestir são semelhantes! Com Paulo Bento sabemos sempre com o que contar, e é por isso que eu gosto tanto dele. Paulo Bento dá-nos efectivamente tranquilidade, apesar dos seus discursos repetitivos. E quanto à sua imaginação, fica sumarizada naquela conferência de imprensa a seguir ao Sporting-Paços de 2006, imortalizada pelos Gato Fedorento: "andebol, basquetebol, mão; futebol, pé".
Tenho cá para mim que enquanto os portugueses se recordarem de Santana Lopes, o primeiro-ministro será Sócrates, e enquanto os sportinguistas se recordarem de Peseiro, o treinador será Paulo Bento. Espero que ambos tenham muito sucesso e continuem muito tempo nos seus cargos.
Há muitos aspectos incompreensíveis do Maio de 68, mas o que sempre mais me intrigou foi querer levar "a imaginação ao poder". Imaginação ao poder, para quê? Quem exerce o poder em princípio é um político. Alguma vez um político precisa de imaginação? Dêem-me um exemplo de um político na história que se tenha distinguido pela sua imaginação. Assim de repente não me estou a lembrar de nenhum. Os políticos com imaginação são como o Peter Pan: recusam-se a crescer e a ver a vida como ela é. Vivem numa espécie de Terra do Nunca, e julgam que a praia está debaixo da calçada. A imaginação é para o John Lennon: do que um político precisa é de ideias (que é diferente de imaginação), vontade política e, sobretudo, bom senso. É por isso que eu, que não simpatizo nada com Nicolas Sarkozy, espero que no seu projecto de acabar com a herança do Maio de 68 ele não seja bem sucedido em muitos aspectos, mas que o seja pelo menos neste: o de acabar com a ideia peregrina da "imaginação ao poder".
Vendo bem as coisas, tivemos recentemente um primeiro-ministro (não eleito) aparentemente cheio de imaginação: refiro-me evidentemente a Pedro Santana Lopes. E digo "aparentemente" porque Santana é cheio de ideias (muito pouco concretas) e em qualquer campanha onde se meta avança sempre com grandes projectos, alguns deles por sinal bem mirabolantes. Creio tratar-se mesmo do político português mais imaginoso (ou rodeado pelos assessores mais imaginosos). Só que viu-se o que era a imaginação com o santanismo no poder. O país sem rumo, sem nenhuma coerência governativa, e o governo sem fazer ideia de como pôr em prática nenhum dos imaginosos projectos.
Foi por isso que, assim que em boa hora lhe foi dada a oportunidade para isso, o país se livrou do turbilhão imaginoso santanista e elegeu um primeiro ministro que é a antítese da imaginação. Monótono, previsível, assim é José Sócrates. Com Sócrates sabemos sempre com o que podemos contar e não há surpresas. É por isso que eu gosto dele.
No Sporting a situação é análoga. Aliás os recentes treinadores do Sporting são parecidos com alguns dos últimos primeiros ministros de Portugal. Fernando Santos foi o Guterres do Sporting, boa pessoa, católico e medroso. Já Peseiro era o Santana: estava sempre a inventar nas tácticas e não oferecia confiança nenhuma aos adeptos. Mas fazia-os sonhar: imaginavam que, jogando sempre ao ataque e descurando a defesa, venceriam muitos troféus, Viu-se o que ganharam com ele. O balneário era uma desorganização e a equipa arrastava-se sem rumo.
Em boa hora os dirigentes sportinguistas despediram Peseiro (num processo complicado e tumultuoso, como foi o despedimento de Santana) e foram buscar um treinador que é o seu oposto (como Sócrates é o oposto de Santana). Tal como Sócrates, Paulo Bento não inventa, Paulo Bento é previsível, Paulo Bento é teimoso. Até na maneira de vestir são semelhantes! Com Paulo Bento sabemos sempre com o que contar, e é por isso que eu gosto tanto dele. Paulo Bento dá-nos efectivamente tranquilidade, apesar dos seus discursos repetitivos. E quanto à sua imaginação, fica sumarizada naquela conferência de imprensa a seguir ao Sporting-Paços de 2006, imortalizada pelos Gato Fedorento: "andebol, basquetebol, mão; futebol, pé".
Tenho cá para mim que enquanto os portugueses se recordarem de Santana Lopes, o primeiro-ministro será Sócrates, e enquanto os sportinguistas se recordarem de Peseiro, o treinador será Paulo Bento. Espero que ambos tenham muito sucesso e continuem muito tempo nos seus cargos.
2008/06/07
Hoje corto uma fita
Passou-se o mês de Maio, os 40 anos do Maio de 68, e não referi a alergia que me causam slogans como "sejamos realistas, peçamos o impossível" e, sobretudo, "a imaginação ao poder". Imaginação ao poder para quê? Sem abdicar das convicções e das ideias, em política é preferível o realismo e o bom senso. Já é sabido, desde Lenine a José Sócrates, passando por Hillary Clinton e, espero, por Barack Obama. 40 anos depois do Maio de 68, espero que a esquerda (francesa e não só) se livre da "tralha imaginosa". Abordo esta questão, num contexto governativo e futebolístico português, num texto que escrevi para o Corta Fitas, através de um simpático convite do Pedro Correia (a quem aqui agradeço). Convido-vos agora a irem lê-lo.
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2008/06/06
O "status" de andar de bicicleta
Ainda no rescaldo do Dia do Ambiente, destaco um bom texto - já com alguns dias -, vejam bem, de Luís Rocha (o "mata-mouros" que escreve sempre a azul), no Blasfémias (não é todos os dias): "É tudo uma questão de status". Já não digo que Luís Rocha ande de bicicleta (o relevo do Porto de facto não ajuda muito), mas espero ao menos que não ande de carro e aproveite o excelente Metro do Porto. Será?
Efectivamente, em Portugal quem não anda de carro não tem "status" - e é nestes pequenos pormenores que se vê como somos um país de gente pobre, que dá muito valor às aparências, preza o enriquecimento fácil e despreza o trabalho. Pode comer-se mal, mas ai de nós se não formos de carrinho. Para não ir de transportes públicos, por exemplo, diz-que que eles "não funcionam bem" (em Lisboa poderiam funcionar melhor, de facto, mas parece que há quem queira ter uma estação de metro sempre à porta, e não se lembre que numa cidade atafulhada de carros não andam nem os carros, nem os autocarros). Para não ir de bicicleta, inventam-se as desculpas mais baratas, como o "relevo de Lisboa" (as colinas de Lisboa são evidentemente acidentadas, mas a maior parte da área da cidade é quase plana ou pouco inclinada, Avenida da Liberdade incluída). Ou, como não poderia deixar de ser, o "status"! É neste texto da sua colega Helena Matos, um belo exemplo de como um suposto "feminismo" pode servir para disfarçar o reaccionarismo. Mas o preço do petróleo tem subido, e há de continuar a subir. Só que enquanto eu vir as nossas cidades cheias de carros privados, não me venham dizer que a gasolina está cara. Leiam a resposta do Tárique.
Efectivamente, em Portugal quem não anda de carro não tem "status" - e é nestes pequenos pormenores que se vê como somos um país de gente pobre, que dá muito valor às aparências, preza o enriquecimento fácil e despreza o trabalho. Pode comer-se mal, mas ai de nós se não formos de carrinho. Para não ir de transportes públicos, por exemplo, diz-que que eles "não funcionam bem" (em Lisboa poderiam funcionar melhor, de facto, mas parece que há quem queira ter uma estação de metro sempre à porta, e não se lembre que numa cidade atafulhada de carros não andam nem os carros, nem os autocarros). Para não ir de bicicleta, inventam-se as desculpas mais baratas, como o "relevo de Lisboa" (as colinas de Lisboa são evidentemente acidentadas, mas a maior parte da área da cidade é quase plana ou pouco inclinada, Avenida da Liberdade incluída). Ou, como não poderia deixar de ser, o "status"! É neste texto da sua colega Helena Matos, um belo exemplo de como um suposto "feminismo" pode servir para disfarçar o reaccionarismo. Mas o preço do petróleo tem subido, e há de continuar a subir. Só que enquanto eu vir as nossas cidades cheias de carros privados, não me venham dizer que a gasolina está cara. Leiam a resposta do Tárique.
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2008/06/05
Uma decisão que se impunha
Universidades vão passar a ser responsabilizadas pelas praxes, e não as Associações de Estudantes. Mais uma vez de parabéns o ministro Mariano Gago.
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2008/06/04
Da necessidade de Portugal pertencer à União Europeia
(Neste caso não é a UE, mas a UEFA; o raciocínio é o mesmo.)
Não somos capazes de afrontar os poderosos. A lei em Portugal nunca é cega. Têm de ser os europeus a fazer justiça.
Eu não sou antiportista (de todo), mas se se deu como provada a corrupção a punição da Liga ao FC Porto é ridícula. Teve de ser a UEFA a repor um pouco de justiça.
O que mais me faz rir nisto tudo (sim, rir - e repito que não sou antiportista) - é o FC Porto ser castigado não pela corrupção mas pela incompetência dos seus dirigentes. Sim: isto é um caso da mais pura incompetência. Um exemplo perfeito. Eu não sou portista e nada tenho a ver com este assunto, mas como observador externo creio que não resta outra alternativa à direcção do FC Porto que não seja demitir-se. O contrário (o mais provável) denota apego ao poder e flta de vergonha.
Não somos capazes de afrontar os poderosos. A lei em Portugal nunca é cega. Têm de ser os europeus a fazer justiça.
Eu não sou antiportista (de todo), mas se se deu como provada a corrupção a punição da Liga ao FC Porto é ridícula. Teve de ser a UEFA a repor um pouco de justiça.
O que mais me faz rir nisto tudo (sim, rir - e repito que não sou antiportista) - é o FC Porto ser castigado não pela corrupção mas pela incompetência dos seus dirigentes. Sim: isto é um caso da mais pura incompetência. Um exemplo perfeito. Eu não sou portista e nada tenho a ver com este assunto, mas como observador externo creio que não resta outra alternativa à direcção do FC Porto que não seja demitir-se. O contrário (o mais provável) denota apego ao poder e flta de vergonha.
2008/06/03
Ir à Feira do Livro e não ver a Caminho nem a D. Quixote
Estava à espera de encontrar na Feira do Livro de Lisboa uma "Praça Leya" muito melhor que as outras supostas "barracas", muito mais vistosa, com muito mais espaço. Puro engano. A Leya representa algumas das editoras portuguesas com melhores catálogos (caso da D. Quixote e da Caminho). Por isso mesmo, anteriormente estas editoras tinham um merecido lugar de destaque na Feira do Livro, ocupando várias das tais "barracas" que são "todas iguais". Mas não: uma barraquita para a Caminho, duas para a D. Quixote, semivazias, apenas com as principais novidades. Das três ou quatro barracas que cada uma destas editoras costumava ocupar, a atafulharem com todo o seu catálogo, nem sinal. É para isso que eu e, creio, a maioria das pessoas vão a Feiras do Livro: as "novidades" encontram-se em qualquer livraria. Tanto barulho causado pela Leya e, afinal, o resultado é ir à Feira do Livro e não encontrar a Caminho e nem a D. Quixote. Se era esse o objectivo da Leya (desconfio que sim), poderiam ter dito logo, e escusavam de ter vindo com os estafados argumentos do "direito à diferença" e da "liberdade" contra o "igualitarismo" do modelo tradicional. Os "liberais" da Leya, sob o argumento hipócrita da "liberdade individual" de cada editora ter o espaço que quiser, não estão nada interessados na Feira do Livro. Tal como outros liberais falam muito mas não estão nada interessados na escola pública e nem no sistema nacional de saúde.
O José Saramago, que nos outros anos era presença obrigatória na Feira do Livro de Lisboa a dar autógrafos, este ano (segundo li) não vai lá nem um dia.
Para ler mais: Francisco José Viegas (subscrevo inteiramente este texto) e José Mário Silva.
O José Saramago, que nos outros anos era presença obrigatória na Feira do Livro de Lisboa a dar autógrafos, este ano (segundo li) não vai lá nem um dia.
Para ler mais: Francisco José Viegas (subscrevo inteiramente este texto) e José Mário Silva.
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2008/06/02
O 1968 que vale a pena recordar

Em cena no Teatro Aberto, em Lisboa, até ao fim da semana: Rock and Roll, de Tom Stoppard. Imperdível. O prof. Max seria eu se tivesse vivido naquela altura e fosse professor em Cambridge (marxistas em Cambridge ou Oxford era coisa que não existia naquela altura).
2008/05/30
O meu presidente
Não merece causar a celeuma que causou, mas hoje em dia tudo o que seja para atacar o governo tem honras de primeira página. Mesmo que não seja essa a intenção principal.
Refiro-me ao artigo de terça feira de Mario Soares no DN, que é um portento. Façam favor de o ler. Mário Soares continua a valer mais que qualquer convergência de esquerdas burguesas.
Refiro-me ao artigo de terça feira de Mario Soares no DN, que é um portento. Façam favor de o ler. Mário Soares continua a valer mais que qualquer convergência de esquerdas burguesas.
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2008/05/29
Google takes on Portuguese, and wins
Um belo texto sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa no Times de Londres. Curiosamente, via o blogue que mais se tem oposto a este acordo, o De Rerum Natura.
2008/05/27
O previsível CAA
Havia boas razões para apoiar quer o Chelsea quer o Manchester United na final da Liga dos Campeões. Eu fiquei contente pela vitória do Manchester, que queria que ganhasse. Porque o contrário era uma derrota do Mourinho (e eu gosto do Mourinho). E, sobretudo, pelo Cristiano Ronaldo.
Como era de se esperar, o Carlos Abreu Amorim estava pelo Chelsea. Não pelo Ricardo Carvalho nem pelo Paulo Ferreira, nem pelo Drogba ou pelo Ballack: seguramente, pelas origens do treinador Avram Grant.
Ah, como eu tenho pena que o Avram Grant não vá para treinador do Benfica, como se chegou a falar! Lá teríamos o CAA no Estádio da Luz, de kippah vermelha, a torcer pelo Benfica.
Como era de se esperar, o Carlos Abreu Amorim estava pelo Chelsea. Não pelo Ricardo Carvalho nem pelo Paulo Ferreira, nem pelo Drogba ou pelo Ballack: seguramente, pelas origens do treinador Avram Grant.
Ah, como eu tenho pena que o Avram Grant não vá para treinador do Benfica, como se chegou a falar! Lá teríamos o CAA no Estádio da Luz, de kippah vermelha, a torcer pelo Benfica.
2008/05/26
Um governo de esquerda
“A igualdade é o valor mais nobre da democracia”, declarou a nova ministra da Igualdade de Espanha, a andaluza Bibiana Aído, no seu discurso de posse. (Via Corta-Fitas.)
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2008/05/23
Dez anos de Expo 98

Só quem não viu a montra de uma agência de viagens de uma pequena cidade de Long Island, no estado de Nova Iorque (sem nenhuma comunidade portuguesa ao lado), com referências e anúncios exclusivos a Portugal (não só Lisboa e a Expo), com um "Gil" gigantesco por trás, poderá pôr em causa a importância que a Expo teve para a promoção do país.
2008/05/21
As conferências do divã

São em torno do livro A Globalização no Divã. Alguns dos autores deste livro são daqui, outros daqui, e ainda este. Hoje é a primeira conferência, Ciência e sociedade num mundo globalizado. Às 18 horas na Livraria Pó dos Livros, em Lisboa. Uma co-organização do Le Monde Diplomatique (em cuja página pode ser visto o programa todo). Eu serei um dos intervenientes. Apareçam!
2008/05/20
Um físico na prisão de Estaline
Saiu mais uma edição da Gazeta de Física. O meu objectivo não é fazer aqui publicidade (mas comprem! Leiam! Divulguem!). O meu objectivo é chamar a atenção para o artigo de Carlos Fiolhais lá publicado sobre Lev Landau, para ser lido em conjunto com este meu texto.
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