2008/07/31

"Há um novo lobby judeu na América e não tem medo de criticar Israel"

O seguinte artigo do Público de 22 de Julho aborda um dos poucos temas tabu nos EUA: é impossível ter-se uma posição (moderadamente) pró-palestiniana no conflito israelo-árabe. Um político que não jure "apoio incondicional a Israel" não tem hipótese de ser eleito. Um comentador que critique frontalmente Israel nos EUA não pode ser levado a sério.
Felizmente há um grupo - de judeus - que pretende altera minimamente est situação. Conseguirá? Pelo "apoio incondicional" a Israel já manifestado por Barack Obaa, este novo e bem vindo lóbi judeu ainda tem muito que fazer. Boa sorte é o que eu lhes desejo.

Chama-se J Street. Porque não há rua J em Washington e porque a K Street está cheia de lobbies que "apoiam ruidosamente Israel em situações de guerra mas ficam silenciosos em negociações de paz". Tem um poderoso adversário: o grande lobby judeu AIPAC, "infiltrado" pela direita israelita, por neo-conservadores e cristãos fundamentalistas. Mas também um potencial aliado: Barack Obama, que hoje chega a Jerusalém.

Em Washington não há nenhuma J Street (as ruas horizontais vão directamente do I ao K), mas é aqui que as palavras de Barack Obama durante a visita que hoje inicia a Israel serão ouvidas, provavelmente, com mais atenção. J Street é o nome de um novo lobby judeu nos Estados Unidos que alguns analistas prevêem irá "mudar o mapa político americano e do Médio Oriente".
Reparem no que diz ao P2, por telefone, Daniel Levy, um dos cem membros do conselho consultivo de J Street. "Hoje em dia, é muito difícil dizer 'Eu apoio Israel, ponto final'. Porque a pergunta a seguir é. 'Que Israel? Israel dos colonos ou Israel que quer acabar com a ocupação? Israel que quer destruir o Hamas ou Israel que acredita que é preciso negociar, ainda que indirectamente, com o Hamas? Israel que quer reter os Montes Golã e não acha importante dialogar com a Síria ou Israel que quer tratados de paz com os vizinhos sendo que isso implica devolver territórios?"
"Hoje, já não é convincente o argumento de que o modo incondicional como a América apoia Israel é bom para a América e para Israel", frisa Levy, asseverando que J Street não terá medo de enfrentar um primeiro-ministro israelita que não comungue as posições do grupo - sondagens apontam como favorito em próximas legislativas o "falcão" Benjamin Netanyahu. E até podem acusá-lo de ser "anti-semita" ou "self-hating Jew" (judeu que se odeia a si próprio) - expressões frequentemente usadas para silenciar os críticos das acções de Israel. "Os israelitas, por estreita ou larga margem, podem eleger um líder que se opõe ao processo de paz, mas não seremos apoiantes de opositores de paz.".
"Haverá pessoas que irão intimar-nos: 'Vocês têm de apoiar o governo israelita!'", reconhece Levy. "Mas eu responderei que isso não se aplica a nenhum outro país. Eu posso ser pró-Venezuela e não apoiar a política de Hugo Chávez. Posso ser um grande admirador da República Checa mas posso não achar uma boa ideia instalar ali um sistema americano de defesa antimíssil. Todos nós, na América, sobretudo os judeus, temos ligações emocionais a Israel, mas não podemos deixar de ser racionais, como se Israel vivesse noutro planeta. Será uma política destrutiva ajudar Israel avaliando-o segundo padrões diferentes. Israel precisa de fronteiras negociadas e reconhecidas. Às vezes abraçamos Israel quase até à morte. Amamos Israel de uma maneira que não é saudável. É como darmos as chaves do carro a um amigo embriagado."
Israel é o maior receptor de ajuda dos Estados Unidos (3000 milhões de dólares anuais). No entanto, como já havia notado Levy num artigo na American Prospect, não é submetido a qualquer pressão. Pelo contrário, "pode gozar uma ocupação de luxo - já gastou mais de dez mil milhões de dólares em colonatos desde 1967." Ora, este "vício de mau comportamento sem consequências conduz à tentação de uma escalada (...) e estrangula uma solução viável de dois Estados."
Alternativa ao AIPAC
As palavras são duras, mas Levy é um "peso-pesado". Cientista político de origem inglesa, é filho de Michael Levy, membro da Câmara dos Lordes, líder da comunidade judaica no Reino Unido e um dos maiores angariadores de fundos da campanha de Tony Blair. Foi conselheiro de três líderes israelitas - Ehud Barak, Yossi Beilin e Haim Ramon. Participou nas negociações com os palestinianos em 1995 (Oslo B) e em 2001 (Taba). Foi um dos principais redactores da Iniciativa de Genebra (um ambicioso plano de paz) e agora é senior fellow da Century Foundation e da New American Foundation. O seu blogue, Prospects for Peace, é um dos mais lidos na Web.
Não o confundam com os anti-sionistas de extrema-esquerda Noam Chomsky ou Norman Finkelstein. Mas também não o incluam no grupo de neo-conservadores de Bernard Lewis. Assumidamente "liberal e progressista", coloca-se no "centro político". Embora não pertença ao "núcleo duro" de J Street, cujo director executivo é Jeremy Ben-Ami, antigo conselheiro do ex-Presidente Bill Clinton e neto dos fundadores de Telavive, Daniel Levy tem sido descrito como "o ideólogo" e Ben-Ami como o "chefe de operações" do novo lobby.
E este, apresentando-se como "braço político do movimento pró-Israel e pró-paz" nos EUA (as suas bases são organizações como American for Peace Now e Israel Policy Forum), quer ser "uma alternativa" ao velho establishment judaico, "infiltrado" pela direita israelita do Likud, pelos neocon e por cristãos evangélicos fundamentalistas. Ou como Levy os caracterizou, "uma combinação que tem sido um desastre para a política americana e para Israel."
É uma tarefa árdua, "redefinir o que é ser pró-Israel", já que o AIPAC tem 200 funcionários, 100 mil membros e um orçamento anual de 60 milhões de dólares, enquanto J Street tem quatro funcionários, 1,5 milhões de dólares e, por enquanto, apenas 40 mil "filiados". Nada que atemorize Daniel Levy. "Conseguir a adesão de 40 mil pessoas em apenas três meses é significativo", sublinha. Mais: do orçamento de 1,5 milhões, cerca de 1,1 milhões já foram angariados online.
A Internet é uma das ferramentas com que J Street tenciona fazer a diferença. "Estamos a usar os instrumentos modernos de organização política, como o MoveOn.org [um projecto virtual que inspirou também a campanha de Obama]. Queremos criar uma grande circunscrição online, que permita financiar candidatos favoráveis à paz, já que somos também um PAC [Political Action Committee]".
Uma morada na Internet
Entre os primeiros candidatos ao Congresso apoiados por J Street está um republicano, Charles Boustany, o que responde às dúvidas dos que se interrogavam sobre se o novo lobby só estaria ao lado de democratas. Há quem acredite que estes apoios vão abalar, ainda que modestamente, a influência do big brother AIPAC no Capitólio. Exemplo: Agora, sempre que alguém vir o seu financiamento reduzido por ter feito declarações que o AIPAC considera "anti-Israel", pode sempre telefonar para J Street a pedir o dinheiro que faltou, ainda que J Street seja mais um endereço URL do que um edifício.
O nome foi propositadamente escolhido para preencher um vazio, tem explicado Ben-Ami. Porque não há rua J em Washington e porque a K Street está cheia de lobbies que "apoiam ruidosamente Israel em situações de guerra mas ficam silenciosos em negociações de paz". Esta frase, colocada num anúncio no New York Times, é uma implícita referência ao AIPAC com o qual muitos judeus americanos e israelitas já não se identificam.
Entre os 100 membros do conselho consultivo de J Street há rabis, académicos, políticos, CEO e prémios Nobel. E entre os supporters (apoiantes) em Israel estão diplomatas, políticos, ex-generais e antigos operacionais dos serviços secretos. É o caso de Yossi Alpher, que foi responsável da Mossad e agora colabora no site israelo-palestiniano bitterlemons.
Inquirido pelo P2 sobre a sua adesão ao novo lobby, Alpher respondeu por e-mail: "Estou convicto de que Israel merece estar mais bem representado entre os judeus americanos no que diz respeito a questões do processo de paz. J Street, ao contrário do AIPAC, é muito mais representativo da opinião dos judeus americanos."
Isso não dissuadiu, porém, Barack Obama de discursar na conferência anual da AIPAC. O senador do Illinois, cujo nome do meio é Hussein, tinha de provar as suas credenciais "pró-Israel", até porque precisa do eleitorado judeu que está a ser cortejado pelos republicanos em swing states, como a Florida. Foi aplaudido de pé quando declarou que "Jerusalém permanecerá a capital de Israel e deve continuar indivisível".
Claro está que os árabes, encorajados por anteriores declarações de Obama em que admitiu "não concordar com todas as acções do Estado de Israel" e retratou o conflito israelo-palestiniano como "uma ferida aberta que infecta toda a política externa dos EUA" (The Atlantic), ficaram decepcionados. Dias depois, Obama deu uma entrevista à CNN, esclarecendo que o estatuto de Jerusalém " é uma questão a ser negociada pelas partes".
Levy achou importante esta clarificação. "Ele aceitou os 'Parâmetros Clinton', ou seja, que os bairros árabes em Jerusalém serão palestinianos e os bairros judeus serão israelitas. O que ele quis dizer é que não deve haver um arame farpado a dividir a cidade como em 1967 [antes da Guerra dos Seis Dias], e até admitiu que a frase que usou [na convenção do AIPAC] não foi bem escolhida. Também disse que Israel precisa, para sua segurança, de uma solução de dois Estados. E esta é uma posição encorajadora."
Além disso, mais do que a referência à Jerusalém, o que foi importante, para Levy, no discurso de Obama ao AIPAC foi a promessa de que resolver o conflito israelo-palestiniano será uma prioridade. O apoio que exprimiu às negociações entre Israel e a Síria. E a afirmação de que, na abordagem ao Irão, privilegiará a diplomacia e não uma nova guerra.
O Irão e o reverendo Hagee
Quanto ao generalizado sentimento israelita de que o Irão constitui uma ameaça existencial e tem de ser contido, a análise de Levy é esta: "Acho que, em Israel, há uns genuinamente preocupados e outros que criam um pânico desnecessário, por causa das coisas nojentas que o Presidente [Mahmoud] Ahmadinejad diz e também das ambições do Irão de ser uma potência regional. Há uma mobilização em Israel para a necessidade de bombardear o Irão. Os israelitas olham para o passado e dizem: 'Bombardeámos o reactor no Iraque, bombardeámos algo na Síria e por isso OK, podemos bombardear os vizinhos, porque resulta. O problema é que o debate público não está a considerar que a situação no Irão é muito diferente e muito perigosa se houver uma guerra."
Levy compara o ambiente em Israel com o que existe em muitas sociedades em conflito. "Os israelitas são frequentemente tentados a pensar: 'Não há solução, vamos bombardeá-los', o que até é compreensível, mas não é uma boa política. Uma maioria de israelitas apoiou a guerra no Líbano há dois anos, mas agora admitem que foi um fucking mistake, mas na altura achavam que era uma grande ideia. A maioria dos israelitas apoia ataques militares na Faixa de Gaza mas também apoia o cessar-fogo com o Hamas. Há muitas dissonâncias nas sociedades em conflito. Eu creio que os israelitas ficariam muito felizes se houvesse uma solução diplomática para o Irão."
Levy está, por isso, entusiasmado com a campanha de J Street contra uma guerra no Irão: "Uma carta a todos os candidatos ao Congresso obteve mais de 30 mil assinaturas online numa semana". Outro sucesso que o novo lobby reclama é uma petição que forçou o candidato republicano, John McCain, a renegar o apoio do reverendo John Hagee, pastor da congregação Christians United for Israel (CUI), aliada do AIPAC.
Na ânsia de apressar o "segundo regresso do Messias", Hagee fez recentemente um sermão que causou uma onda de repulsa: "Deus disse a Jeremias: 'Enviarei muitos pescadores e depois enviarei muitos caçadores'. Os pescadores são os sionistas, homens como Theodor Herzl. (...) E os caçadores? Hitler foi um caçador. Como é que isso [o Holocausto] aconteceu? Porque Deus permitiu que acontecesse. Por que aconteceu? Porque Deus disse: 'A minha máxima prioridade é fazer retornar o povo judeu à Terra de Israel."

2008/07/28

O besteirol dos 500 anos

No rescaldo da atribuição do Prémio Camões 2008 a João Ubaldo Ribeiro, achei que vinha a propósito recordar aqui um artigo deste autor, publicado em 2000, sobre a famosa polémica do "achamento" versus "descobrimento" do Brasil. Sobre este assunto, creio que o autor de Viva o Povo Brasileiro sabe muito bem o que diz. É um texto polémico, porém.

O besteirol dos 500 anos, João Ubaldo Ribeiro, O Estado de S. Paulo, 24/04/2000

Levando-se em conta nossa pitoresca realidade contemporânea, até que a quantidade de besteiras ditas e escritas sobre o controvertido aniversário do Brasil não dá para surpreender. O que chateia um pouquinho é que diversas dessas besteiras continuarão a perseguir-nos pela vida afora, algumas talvez trazendo conseqüências indesejadas. A principal delas, naturalmente, é a de que o Brasil começou em 1500, quando nem mesmo no nome isso aconteceu, posto que éramos uma ilha quando os portugueses primeiro viram as terras daqui e, durante muito tempo, o Brasil que duvidosamente existia não tinha nada a ver com o Brasil de hoje.

A impressão que se tem é que, do povo às autoridades e mesmo aos entendidos, acha-se que o Brasil já estava no mapa, com as fronteiras e características atuais, no momento em que Cabral chegou. Teria tido até um nome nativo, já proposto, pelos mais exaltados, para substituir "Brasil": Pindorama, designação supostamente dada pelos índios ao nosso país. Não sou historiador, mas também não sou tão burro assim para acreditar que os índios tinham qualquer noção geopolítica, ou alguma idéia de que pertenciam a um "país" chamado Pindorama. Não havia qualquer país, é claro, nem sequer a palavra Pindorama devia fazer sentido para os ocupantes que os portugueses encontraram aqui, se é que ela era usada mesmo. No máximo, significaria o único mundo conhecido deles. Parece assim que os nossos índios administravam impérios e cidades como os dos maias, astecas ou incas, quando na verdade, que perdura até hoje, viviam neoliticamente e a maioria esgotava o numerais em três - era o máximo que conseguiam contar e o resto se designava como "muito".

2008/07/24

O concerto


Passeio Marítimo de Algés, 19-07-2008, 21 horas. Alinhamento aproximado:

Dance Me To The End Of Love
The Future
Ain't No Cure For Love
Bird On The Wire
Everybody Knows
In My Secret Life
Who By Fire
Anthem

Intervalo

Tower Of Song
Suzanne
Gypsy Wife
Boogie Street
Hallelujah
Democracy
I'm Your Man
A Thousand Kisses Deep (recital)
Take This Waltz
Heart With No Companion
So Long, Marianne
First We Take Manhattan
That Don't Make It Junk
Closing Time
I Tried to Leave You

Closing time

Quase a encerrar um belo concerto. Tal como com Chico Buarque, eu não poderia deixar de gostar, mas de qualquer maneira foi uma grande noite. Só foi pena faltarem Chelsea Hotel e Famous Blue Raincoat. Haverá uma próxima vez?

I'm your man

A canção com que eu mais vibrei. Apeteceu-me cantá-la (e devo ter cantado algumas partes). Belíssima e, como refere João Bonifácio - numa crónica em que em alguns aspectos não concordo -, de um sarcasmo extraordinário.

Hallelujah

Uma bela canção e isso tudo, eu sei, mas no meio de tanta religião e misticismo deixxem-me cometer uma heresia: prefiro o Rufus Wainwright a cantá-la! Mas gostei de a ouvir pelo Cohen ao vivo.

Tower of song

Gosto desta canção em que Cohen se refere a Hank Williams (uma figura conhecida, mas que eu confesso que não sei quem é). Tal familiaridade a referir-se a um estranho para mim soa-me aos meus amigos Cosmo Kramer (a referir-se a Bob Sacramento) ou Artista Bastos (e os seus "grandes antifascistas").
Enfim. Aplausos quando Cohen entoa "I was born with the gift of a golden voice". No fim conclui que o maior segredo místico se encontra em "doo-da-da-da" que o coro feminino entoava. O internamento num mosteiro budista deu nisto.

2008/07/23

The Future

Leonard começou com Dance Me To The End Of Love. Seguiu-se esta The Future, mas a letra da versão original (“Give me crack, anal sex…”) foi substituída por “Give me unprotected sex…”. Acho que o Leonard anda a ler o Womenage à trois
A parte final da música, “Destroy another fetus now, We don’t like children anyhow” é que não foi substituída. Foi curioso olhar para as reacções do público nesta altura. A maior parte das pessoas, que vinha entusiasmada com o resto da letra, estava algo embaraçada, mas houve uma rapariga que sorriu com um ar de desforra. Sobre este assunto é que o Leonard Cohen deveria ler o Womenage à trois

Concertos de uma vida

Há muitos anos que esperava por assistir a um concerto do Leonard Cohen, tal como esperei pelo do Chico Buarque (em Novembro de 2006). Tal como do Chico, só havia visto um concerto dedicado ao Leonard Cohen, em Nova Iorque (e excelente, em Junho de 2003, no Prospect Park, adaptada a filme: “I’m Your Man”. Com a família Wainwright e, ironicamente, Lou Reed!). E exactamente como no do Chico, receio que tenha sido a última oportunidade de ver o Leonard ao vivo. Por isto o concerto (9000 pessoas na assistência no Passeio Marítimo de Algés) merece um destaque especial.

2008/07/22

Até sempre, grande artista...


...e obrigado por tudo, principalmente aquele título de 2002. Há muito te perdoámos os 3-6...

2008/07/21

Dinossauros? Quais dinossauros?

"Os dinossauros passaram por aqui" é a manchete do suplemento P2 do Público de hoje. Julguei que se estivesse a referir ao Leonard Cohen ou ao Lou Reed (que tocaram este fim de semana em Lisboa). Mas não: era mesmo a dinossauros.

Pequeno resumo do concerto do Leonard Cohen amanhã ou depois.

2008/07/19

The little jew who wrote the bible

Alguém me empresta um keffieh (um lenço palestiniano) para usar logo no concerto deste gajo?

2008/07/18

Da conversa de Lula com o "doutor Mário"

... (quarta à noite, na RTP1), ficam principalmente estas frases, que cito de memória: "agora, que exerço o poder, não tenho o direito de sonhar mais. O mandato é de quatro anos, e eu tenho que fazer o melhor possível." Só mesmo um homem muito sábio como Lula para arrumar numa frase a "imaginação ao poder" e os soixante-huitards (que mais depressa votam nos tucanos que nele).
Também ficou muito bem a Mário Soares citar Fidel Castro, no fim da entrevista: os homens de esquerda no poder têm que ser "cavaleiros da esperança".

2008/07/17

Re: Debate sobre a Regionalização - a questão do Porto

Caro Pedro,
respondendo sinteticamente (e em estéreo):
1 - Muito obrigado pelos teus esclarecimentos. Desconhecia o facto de o centro histórico de Gaia já ter pertencido ao Porto, bem como o porto de Leixões. Eu sou favorável a municípios fortes, pelo que nada tenho a opor a essa putativa união (nem teria que me opor ou deixar de opor). Só referi essa questão porque achei graça à forma como ela foi posta no tal debate a que assistimos, na intervenção do público: houve quem falasse em o Porto "anexar" ou "absorver" Gaia. Achei graça à leviandade com que se falava em absorver, como se os gaienses, que presentemente até são mais que os portuenses (daí a minha sugestão de Gaia absorver o Porto), não fossem para ali chamados! Mas é preciso dizer que também houve quem falasse em "unir" Porto, Gaia e Matosinhos (sem falar em "absorver").
2 e 3 - Essas são as questões mais interessantes. Haveremos de as continuar a debater. Mas mantenho a impressão de que ninguém anseia mais a regionalização do que o Porto, e na verdade muitos supostos regionalistas no Porto ambicionam mais do que a regionalização. Não é "Lisboa" ter medo do Porto: é o resto do país ter medo do separatismo. Basta considerar o discurso dos regionalistas mais inflamados - o que não falta são candidatos a Umberto Bossi.
4 - Sobre o estafado argumento "constitucional", tu não o usas, e nem ninguém do Blasfémias (ninguém do Blasfémias defende a nossa constituição). Mas olha que há muita gente, principalmente à esquerda, que o usa. Suspeito mesmo que alguns elementos do Norteamos o apoiam. Já experimentaste perguntar-lhes?

Também foi um prazer conhecer-te pessoalmente, e até à próxima. Até lá haveremos de continuar a debater.

2008/07/16

Tudo vira bosta



Quinze dias depois, finalmente tenho um pouco de tempo para escrever sobre o concerto da Rita Lee.
Rita Lee é a recordista na interpretação de canções de abertura de telenovelas da Globo. Até há uns dois ou três anos eu não gostava da Rita Lee. Achava-a uma cantora de abertura de telenovelas (e isto nem é assim tão mau – eu gosto de uma boa telenovela brasileira). Achava-a uma cantora vulgar.
Até que calhou ouvir o álbum Acústico MTV (editado em 1998), onde os seus maiores sucessos são revisitados com arranjos excelentes. O melhor é mesmo o dueto com Milton Nascimento (que mostrei aqui), mas todo o resto do álbum é muito bom. Associado a esta descoberta tardia, veio o álbum que continha músicas deliciosas como Amor e Sexo (de Arnaldo Jabor) e, sobretudo, Tudo Vira Bosta (um hino para a esquerda que chega ao poder). A Rita Lee era acima de tudo uma entertainer que cantava umas coisas giras, que se bem musicadas dariam um óptimo resultado, mas acima de tudo era uma cantora para não se levar demasiado a sério. Por isso mesmo só era bem apreciada por quem tinha mais de trinta anos (a idade com que eu comecei a gostar da Rita Lee). Era como o vinho do Porto. Pensava eu.
No concerto, a minha opinião infelizmente mudou. Vi uma grande falta de improvisação e espontaneidade (que era o que eu mais esperava). Vi uma cantora certinha, sem rasgo e que, embora comunicasse com o público, não tinha grande graça. Que saudades da Rita Lee da Saia Justa – e eu que esperava que ela viesse fazer tricô para o palco! Ouvi as suas aventuras com as vendedoras de calças – a Rita Lee vem a Lisboa visitar os centros comerciais… Tudo parecia já visto por mim, nalgum programa de televisão. Tudo parecia igualzinho a um show da Globo. Tudo muito vulgar.
Recordo agora e compreendo melhor a minha opinião sobre a Rita Lee antes dos 30 anos. Foi essa Rita Lee que eu vi no Coliseu. Não deixarei de forma nenhuma de a ouvir, mas dificilmente ela me apanha noutro concerto.

2008/07/15

No rescaldo do Porto

O reaccionarismo latente que denunciei há quatro anos não só se mantém como está ainda mais requintado: se fizerem uma pesquisa de uma morada nos mapas do SAPO, verão que não obterão resposta nenhuma se não incluírem o "de" no nome da rua!
Mas não dêem demasiada importância a isto. Esta cidade é linda e é sempre um prazer cá voltar. Até à próxima!

2008/07/11

Do Porto

Desde anteontem encontro-me no Porto a participar em mais um Oporto Meeting on Geometry, Topology and Physics. Mas ontem à noite aproveitei para assistir a um debate sobre regionalização promovido pela Câmara Municipal do Porto e moderado por Rui Rio (ele mesmo). Ao contrário do que é costume em Lisboa, no Porto havia intervenção do público, no final. Intervim como agente provocador. Aqui estão as linhas mestras do meu comentário:
  • deixei bem claro que a descentralização era indispensável e não tinha nenhum problema em especial com a regionalização. O problema era mesmo o Porto;
  • falou-se no debate que o Porto deveria absorver Gaia (assim mesmo, abertamente), formando uma só cidade. A ideia não era má, mas algo incorrecta: o certo seria Gaia absorver o Porto (e acabar de vez com o Porto);
  • todo o país tem que se queixar do centralismo e das desigualdades regionais, mas só no Porto se fala de regionalização. O que motiva o Porto não é a descentralização mas a inveja de Lisboa e uma nova centralização, a norte (o centralismo tripeiro);
  • eu votaria contra a regionalização. Para votar a favor teria de se regionalizar todo o país excepto o Porto. A região norte seria à volta do Porto; o Porto seria um enclave nortenho da região de Lisboa;
  • a quem invoca a constituição para defender a regionalização, recordo que na altura em que isso foi escrito (1975) o socialismo também era um imperativo constitucional. E que tal se, antes de implantarmos a regionalização, implantássemos o socialismo?
No final do debate tive o prazer de conhecer o Luís Rocha do Blasfémias e o Pedro Menezes Simões do Norteamos, entre outros ilustres portuenses. Tudo boa gente. Faltou o Tiago Barbosa Ribeiro, para grande pena minha. Seguiu-se uma animada discussão até às tantas num bar ao pé da Praça... de Lisboa. Foi um serão bem passado; outros seguirão.

2008/07/10

O exemplo de Mrs. Naugatuck



Já pelo menos noutra ocasião recordei a excelente série Maude, originalmente transmitida nos anos 70 mas que, em Portugal, só chegou no final dos anos 80. A ultraliberal e feminista Maude (uma caricatura da esquerda americana da altura) tinha, como não podia deixar de ser, uma empregada. Uma das empregadas (a que durou mais tempo na série), a inglesa Mrs. Naugatuck, era interna. Não me esqueço do episódio em que decide ter a sua própria casa e diz à patroa (que está algo contrariada, habituada a tê-la 24 horas por dia em casa), quando esta a vai visitar: “Aqui tenho a liberdade de a pôr na rua se me apetecer!”. Qualquer pessoa tem direito a isso. Qualquer pessoa tem o direito a não ter um senhorio, pelo menos a partir de certa altura na sua vida.

2008/07/09

As duas faces do proteccionismo no arrendamento

Vale a pena atentar nos comentários que um tal “Luís” (não é Lavoura nem Rainha), que alguma relação terá com a Associação Lisbonense de Proprietários, tem vindo a deixar nos meus textos. É isso que faço agora. Diz Luís:
Fique sabendo que grande parte de Lisboa foi construída dos anos 30 em diante, com o objectivo de arrendar. Sim, foi a aplicação de poupanças. Deu emprego a muita gente e permitiu a muito mais ter habitação. De forma geral, os prédios foram construídos com esse fim específico. Não existiriam se assim não fosse.

É notável a convicção com que afirma que os imóveis “não existiriam”. Bem, não é essa a história de todos os imóveis construídos em Lisboa durante o Estado Novo. Há bairros sociais como o Arco Cego, Alvalade (atrás do Campo Grande) e a Encarnação. Não são as zonas mais dinâmicas de Lisboa, é verdade, mas ainda hoje existem e estão para durar.
Mesmo assim, se é verdade que grande parte de Lisboa foi construída no Estado Novo com o objectivo de arrendar, tal resultou de um contrato social. Imposto pelo salazarismo, é certo, mas nem por isso deixa de ser um contrato. Em que consistia o tal contrato? Em troca de acesso à compra de prédios para alugar, era imposto o congelamento de rendas. Aos senhorios Salazar facilitava a compra de casa (como facilitou muita coisa, noutra escala, a senhores como Mello e Champalimaud); aos inquilinos, era facilitado o arrendamento. O Luís lá terá as suas razões para afirmar que a construção destes prédios “deu casa a muita gente” e “não teria sido possível” se não fosse para arrendar. O que o Luís se esqueceu de perguntar foi: teriam esses prédios sido construídos, teriam essas casas sido ocupadas sem o regime de congelamento de rendas imposto por Salazar? Pois é…
De qualquer maneira não defendo de forma nenhuma o congelamento de rendas como opção ideal. Se na prática indirectamente o defendo (ou seja, se sou contra um aumento brutal das rendas) é porque tal é um mal menor. Com efeito, a meu ver a grande injustiça do mercado imobiliário está na grande concentração de prédios inteiros nessas famílias de senhorios do tempo do salazarismo (pequenos burgueses proprietários protegidos por Salazar – verdadeiros Champalimauds de trazer por casa). Uma concentração que, hoje em dia, em pleno século XXI, várias décadas depois do Estado Novo, não faz sentido absolutamente nenhum.
Dito isto, não sou contra o mercado de aluguer de casas, embora ache que não deva ser encorajado. Mas acho notável o descaramento dos vários herdeiros dos protegidos de Salazar que têm comentado os meus textos, quando afirmam que hoje em dia, com a precariedade e a instabilidade, é preferível alugar uma casa a comprá-la e que é melhor ter um senhorio “à antiga” do que ter o banco como senhorio. Embora reconheça que é preocupante a quantidade de crédito mal-parado em Portugal e me revoltem os enormes lucros do sector bancário (muito à custa dos empréstimos para comprar casa), tal comparação é profundamente desonesta. Se tudo correr bem, em condições normais, ao fim de um certo número de anos a casa comprada está paga ao banco e pertence a quem pediu o empréstimo. Hoje em dia é ainda mais uma operação de risco, e por isso quem a faz merece apoio e admiração. Uma casa alugada está a ser paga uma vida inteira pelo inquilino para no fim ficar… para os netos e bisnetos dos pequenos burgueses que compraram o prédio. Bem entendemos onde eles querem chegar, bem percebemos o que eles têm a ganhar (com um novo contrato ou se a renda for descongelada) e bem dispensamos os seus “conselhos”.

2008/07/08

Segurança

Há um argumento curioso dos defensores do arrendamento de casa – que geralmente defendem também a precariedade laboral. Estes senhores primeiro querem acabar com tudo o que seja segurança no emprego, para depois dizerem que “já não há empregos seguros” que permitam comprar casa - com a instabilidade laboral, hoje em dia quem não herdou uma casa ou não tem pais que lha ofereçam só deve alugar casa e não comprar.
Mais vale estas pessoas defenderem de vez, e abertamente, que querem acabar com o direito à casa própria (tal como querem acabar com o emprego seguro). Eu admito - considero que o mercado de aluguer de casas deve ser a excepção e não a regra. Deve ser desencorajado ao máximo. A menos que desejem uma situação como a da música do vídeo (ouçam até ao fim).

2008/07/07

Uma terra sem senhorios

Nesta questão das rendas de casa há vários aspectos que acho espantosos.
Acho espantoso que quem defende a “iniciativa” e o “empreendedorismo” acabe a defender uma actividade que de iniciativa e empreendedorismo tem muito pouco ou quase nada. Que empreendedorismo existe em gastar dinheiro em casas para alugar, em vez de fazer aplicações no banco ou jogar na bolsa? Que benefícios traz tal actividade para o crescimento da economia? Que empregos se criam? Que riqueza é produzida em concentrar-se um recurso que deve ser finito e, portanto, não produzido mais do que o necessário (a habitação nas grandes cidades) nas mãos de alguns senhorios endinheirados?

Dir-me-ão: a actual lei das rendas tem paradoxos? Pois é verdade. E conduz a situações ridículas? Pois conduz. Não sou um defensor da actual lei e nem da actual situação, mas não tenho nenhuma simpatia por senhorios ou pelo aluguer de casas enquanto ocupação permanente, e não posso apoiar nenhuma lei que estimule esta actividade. Reconheço que o mercado de aluguer é necessário, mas deve ser complementar, e baseado nas casas que não estão ocupadas por alguma razão. Não deve ser o fundamento, a razão de uma casa, pelo menos de uma casa particular. Uma segunda casa particular num raio mínimo de quilómetros deveria ser para vender e não para alugar. Deveria pagar impostos altos.

De entre as críticas que me fizeram foi a de “não conhecer bem outras realidades”. Pois nos EUA conheci dois casos de “senhorios” cuja única “profissão” era alugar quartos e estúdios a estudantes e investigadores (sem passar recibos e sem pagar impostos). Ganhavam o suficiente assim não só para comerem e eventualmente pagarem um seguro de saúde, mas para manterem as casas para alugarem e terem carros. Não faziam absolutamente mais nada. Não estudavam, não trabalhavam, não progrediam. Nem precisavam, com as casas que tinham recebido de herança. Não eram nenhuns coitados. Este modelo de sociedade ou estilo de vida não são defensáveis nem devem ser encorajados.

Há inquilinos que pagam rendas ridiculamente baixas e de coitados não têm nada, é verdade, mas a diferença em relação aos senhorios é que também há muitos casos de inquilinos com rendimentos de miséria. Nunca conheci nenhum senhorio que fosse pobre. Mesmo assim, gostam de se passar por gente “modesta” que investiu as suas “poupanças” numas “casas” para alugar como “complemento de reforma”. Pois bem, supondo que essas “casas” correspondem no mínimo a um prédio (muitas vezes correspondem a mais), receber rendas de dezenas de euros pelos apartamentos desse prédio correspondem a um bom “complemento de reforma”, pelo menos no que eu entendo por “complemento”. Quem chama a rendas de centenas de euros (a multiplicar por um prédio inteiro) “complemento de reforma” tem uma reforma muito boa! Não deve ter nenhum discurso miserabilista e nem merece compaixão. Em qualquer dos casos, tal rendimento (“complemento” ou não) não resulta de nenhum trabalho ou esforço. Eu não sou contra as pessoas enriquecerem, desde que trabalhem para isso.

O mais curioso é que os maiores defensores do arrendamento de casas têm todos casa própria! Defendem o estímulo do arrendamento, mas arrendar casa não é com eles. Quem os quer ver é nas suas casinhas próprias. Se viver em casa alugada é tão bom, por que não alugam as suas casas uns aos outros e deixam os trabalhadores terem casa própria, uma ambição justa e legítima?

2008/07/04

Livre


Enfim.

Um pouco de bom senso

Divórcio a pedido de um dos cônjuges sugerido pelo BE rejeitado pelo PS, PCP e PSD

Daniel do avesso do avesso

Escreve o Daniel Oliveira, directamente dos EUA:
Estou a adorar os comentários pró e anti-americanos aqui no blogue. Pró e anti o quê? Hoje estive numa gigantesca Marcha do orgulho gay, com polícias, pastores, bombeiros, congressistas e travestis. Os pró-americanos aplaudem? Os anti-americanos reprovam?

Eu compreendo perfeitamente o que o Daniel escreve. Também o senti muitas vezes, quando viva nos EUA. No meu caso foi, por exemplo, quando participava em manifestações gigantescas contra a Guerra no Iraque em Nova Iorque. Ou quando passava o Thanksgiving na companhia de americanos ecologistas e anarquistas. Uma vez mais, os pró-americanos aplaudiriam? E os anti-americanos reprovariam?
Muitos dos nossos antiamericanos não fazem a menor ideia do que são os EUA. Se fizessem essa ideia, talvez vissem as coisas com outros olhos. Mas exactamente o mesmo pode ser dito de muitos dos mais radicais pró-americanos, os mais ardorosos defensores da invasão do Iraque, que quanto muito dos EUA conhecem o Rockefeller Center e a Quinta Avenida.
O texto do Daniel confirma: ir aos EUA faz bem às pessoas de esquerda.
Bom 4 de Julho para todos.

2008/07/02

Algumas “delícias” sobre esses parasitas chamados senhorios

Tenho andado a comentar no Cinco Dias, a propósito de textos de Fernanda Câncio sobre o mercado de aluguer de casas. Enquanto não escrevo sobre esse assunto, vão lendo .

2008/07/01

Mania da Rita

A mais completa tradução da cidade de São Paulo vai estar logo no Coliseu de Lisboa. Não vai haver um momento tão perfeito como o que a seguir mostro (no concerto para a MTV em 1998), mas de certeza que vai valer a pena. Lá estarei e aqui contarei como foi. Entretanto olhem bem para a cara do Bituca a páginas tantas...

2008/06/30

Os direitos da mulher


Desenho de José Vilhena. Capa de um dos saudosos "Fala Barato" na década de 80. No rescaldo do Congresso Feminino.

Fox mancha Obama

Como é suja a política norte americana, e principalmente o canal de televisão FOX News (do movimento MoveOn):
FOX's longtime pattern of smearing Obama and the black community is well documented.1 But the outrageous moments have increased in the last month.

First, a paid FOX commentator accidentally confused "Obama" with "Osama" and then joked on the air about killing Obama.2 Next, a FOX anchor said a
playful fist bump by Barack and Michelle Obama could be a "terrorist fist jab."3 And then, FOX called Michelle Obama "Obama's baby mama"-slang for
an unmarried mother of a man's child, and a clear attempt to associate the Obamas with negative stereotypes about black people.4

If you know others who'd find FOX's recent actions despicable, please ask them to sign the petition too. The more people who sign, the bigger our
impact will be.

Our friends at ColorOfChange.org-an online advocacy group focused on the issues of importance to the black community-are leading this charge. They
have already collected nearly 100,000 names to deliver as a group to FOX's headquarters (in front of other media cameras, so FOX feels more heat).
Here's how they describe the situation:

After each of the incidents mentioned [above], FOX issued some form of weak apology. But what does it mean when you slap someone in the face,
apologize the next day, then slap them again? It means the apology is meaningless.

2008/06/27

Novos e velhos blogues

Seguem-se alguns blogues que eu encontrei recentemente.
O velho companheiro Leonardo Ralha, após uma fase difícil da sua vida, tem reactivado intermitentemente o Papagaio Morto. Ainda escreveu pouco, mas esperamos que regresse com regularidade.
O Hugo Mendes e o Renato Carmo, dois dos blógueres de esquerda mais interessantes, abriram o Pensamento do Meio Dia.
Quando o Benfica ganha eu fico mal disposto. Mas só não fico pior porque sei que pessoas como o MaC ficam contentes. O MaC tem um blogue chamado, vejam bem, Mi Mi Miccoli (ao que o Benfica chegou!). É um prazer reencontrá-lo.
Graças à Ana Matos Pires, cheguei a um blogue que só conhecia de nome, mas que me entusiasmou como há muito nenhum blogue o fazia. Refiro-me ao Ana de Amsterdam. Com este título eu só poderia gostar - Chico Buarque não engana. E encontra-se Chico Buarque logo à entrada - a cantar o Roda Viva. Mas também Rubem Fonseca, um dos meus escritores favoritos, como comprova a frequência com que o cito. Mas sobretudo encontrei um fantástico texto sobre a morte de Theo van Gogh. A ler, esta Ana-de-cabo-a-tenente, Ana de toda a patente.

2008/06/25

"A má matemática na aprovação do Tratado de Lisboa"

Numa altura em que tanto se fala do facilitismo nos exames de Matemática, um bom teste seria ver quanta gente percebe este artigo do Rui Curado Silva. Não só concordo com o dito artigo como acrescento: deveria avançar-se de vez para uma Europa a duas velocidades, com um pelotão "da frente" que quisesse aprovar uma Constituição Europeia e um "de trás" que não quisesse. O pelotão de trás haveria de querer juntar-se ao da frente passado algum tempo. É a história que o demonstra e a história, já diz Marx, é inevitável.

2008/06/23

Futebol interno

Rui Costa não tem tido uma estreia fácil à frente do futebol do Benfica. Foi o regresso de Eriksson, que fracassou. Agora perdeu supostamente o melhor jogador do plantel par o FC Porto. Geralmente estas transferências devem-se mais a despeito e provocação do que a vontade em ter os jogadores. Não sei se Rodriguéz terá no FC Porto as mesmas hipóteses que teve no Benfica. E nem isso me interessa, como sportinguista. Escrevo isto por duas razões. A primeira é que o Benfica anda mais preocupado em dedicar-se àquilo a que se dedica desde o tempo do Eusébio: tentar enganar o Sporting. Neste caso pagando o mínimo possível pelo Carlos Martins, de forma a o Sporting não receber quase nada pela transferência. Mesmo que no pacote tenha que pagar uma fortuna por outro jogador do mesmo clube que não lhe interessa nada. Mas fazem tudo para tentarem enganar o Sporting.
A segunda razão é que, apesar de consumada a transferência do Rodriguéz para o Porto, os jornais desportivos pouco destaque lhe deram, preferindo chamar às primeiras páginas... projectos de futuros reforços do Benfica! Todos os dias é um diferente! Mas enfim, é isto o que o povo quer.

2008/06/19

Acabou-se...

...os anúncios estúpidos da TMN.

Os anúncios da selecção

Apesar de tudo, não há comparação possível entre os anúncios de Scolari à Caixa Geral de Depósitos e algumas tristes figuras (que tentam vender como "anúncios") que alguns jogadores fazem a tentar vender telemóveis da TMN. O Nuno Gomes e o João Moutinho são maus, o Quaresma é péssimo e o Nani, então, eu nem vou comentar. Ao pé deles o Scolari parece um actor da Globo (faz muito bem o seu papel de "patriarca honrado" - se as coisas não correrem bem na Globo, pode ir substituir o Tarcísio Meira). Joguem mas é à bola, rapazes! Enfrentem os batalhões dos alemães e seus canhões!

2008/06/18

Os anúncios regressados

Depois de no ano passado muito aparecerem na televisão portuguesa, os anúncios ao Licor Beirão", protagonizado por José Diogo Quintela, e à Caixa Geral de Depósitos, protagonizado por Luís Filipe Scolari, no princípio deste ano de um momento para o outro "desapareceram". A razão foi a mesma para ambos: os protagonistas "caíram em desgraça". Quintela foi apanhado alcoolizado ao volante na passagem de ano, e Scolari protagonizou o triste episódio do murro.
Interroguei-me sobre se tal "queda em desgraça" seria definitiva ou temporária. Passou o Inverno, chegou o Verão, época de Europeu de futebol e de festas, e eis que Quintela e Scolari voltam em força com os mesmos anúncios (ou variações pequenas). Como eu esperava, a memória é curta. E ainda bem que é assim. Mas se por um lado Scolari não convence muito no papel do senhor afável e simpático que nos fala do "Murtosa de sempre", o Zé Diogo passou a convencer e bem no papel de um anunciante de bebidas alcoólicas... Só é pena que seja a uma bodega tão grande como o "Licor Beirão". Ele convence-nos na quantidade do seu consumo, mas não na qualidade.

2008/06/16

Quod erat demonstrandum

"O latinzinho é a basezinha", repetia o abade em Santa Olávia enquanto se servia dos melhores pedaços de frango sobre o fricassé. Pode ser a "basezinha", mas ninguém pensa em aprender latim hoje em dia se não for linguista ou estudante de letras (isto é, se o seu objectivo for só falar uma língua nova). Ninguém precisa de aprender latim se o seu objectivo for comunicar em francês, espanhol ou italiano. Ou português. A estrutura destas línguas tem origem no latim, mas aprende-se aprendendo muito bem uma. Para a maior parte das pessoas, o latinzinho é uma perdazinha de tempo. Julgo que isto é evidente para a maior parte das pessoas, exceptuando os casos perdidos de reaccionarismo atávico. Por isso costumo dizer, em mais uma das minhas generalizações, que "o latim é uma língua de fachos e padrecos". Sabia que já tinha escrito esta expressão nalgum sítio (que, repito, costumo dizer oralmente): só a encontrei aqui, no comentário da 1:10 de 4 de Maio de 2006. Vale a pena repeti-lo, dedicado aos senhores jornalistas que tanto falavam no "momentum", por exemplo, de Barack Obama (sem fazerem ideia do que é o tal "momentum"):
Se houver algum linguista que me saiba explicar o “momento”, agradeço.
Notem que em inglês há o “moment” e o “momentum”! “Moment” é p.e. o momento de uma força; “momentum” é o momento linear (que na excelente edição em português do Brasil da saudosa MIR da Mecânica do Landau e Lifshitz é o “impulso”). Em inglês um sinónimo de “momento angular” é “moment of momentum” (no Landau e Lifshitz, “momento do impulso”!).
Fernando, explica aí à malta o “moment” e o “momentum”, se puderes. Deve vir do latim, mas eu sempre achei que o latim era uma língua de fachos e padrecos.

Mas voltando ao latim: eu nem levava excessivamente a sério aquela minha generalização, assim como não levo as minhas generalizações em geral. Mas que fazer depois de ler este texto? Bem me queria parecer. Não se deve levar as generalizações à letra (que é como quem diz: não estou a chamar "facho" nem "padreco" ao André Azevedo Alves). Mas que as generalizações têm sempre algo de verdade, lá isso têm.

2008/06/13

Aviso à tripeiragem ressabiada

Fora de Lisboa, saudoso, longe de Alfama, das festas de Santo António. Ainda por cima nem à minha novela tenho direito: a SIC ocupa toda a sua programação com as tais "Marchas de Santo António", uma "competição" entre "bairros" que há quem queira transformar numa versão alfacinha do Carnaval do Rio. E é este aviso que eu quero deixar à tripeiragem que, como eu, também gostaria de ver a novela (ou, pelo menos, não acha que tais "marchas" justifiquem uma transmissão em directo em horário nobre): não julguem que os lisboetas médios estão mais interessados neste evento que vocês (refiro-me às marchas e não aos Santos Populares). Confundir quem está interessado e aparece nesse evento (artistas de teatro de revista e colunáveis novos ricos) com "Lisboa" ou os "lisboetas" é um erro grave que vocês, tripeiros ressabiados, cometem frequentemente. Não sei se por ignorância se por má fé.

2008/06/11

O mercado das viagens de avião

Passei uma boa parte da manhã e praticamente a tarde toda à procura de uma boa tarifa para a viagem de avião que vou fazer para ir a uma conferência em Agosto. Isto é, uma tarifa que não me rebente com o orçamento, que é limitado e tem ainda que cobrir a inscrição e o alojamento. Perdi algumas boas tarifas instantaneamente (a sério), pois apareciam em várias agências. Outras só perdi aparentemente, pois só apareciam numa agência portuguesa quenão detecta as tarifas fechadas em tempo real. Mas, areditem, com a internet, comprar viagens de avião é pior do que jogar na bolsa! Deveria haver um índice para o preço da viagem ao destino X no mês tal.
Tal como há dois anos, quando fui a Berlim, o que me valeu foi o grupo Air France-KLM, e a agência de viagens (francesa) da SNCF. E os preços dos bilhetes de avião andam mesmo pela hora da morte. Mas com a a actual crise petrolífera isso já não deve ser novidade para ninguém.

2008/06/10

Sócrates, Paulo Bento e a imaginação no poder

Aqui fica o texto que escrevi para o Corta Fitas.

Há muitos aspectos incompreensíveis do Maio de 68, mas o que sempre mais me intrigou foi querer levar "a imaginação ao poder". Imaginação ao poder, para quê? Quem exerce o poder em princípio é um político. Alguma vez um político precisa de imaginação? Dêem-me um exemplo de um político na história que se tenha distinguido pela sua imaginação. Assim de repente não me estou a lembrar de nenhum. Os políticos com imaginação são como o Peter Pan: recusam-se a crescer e a ver a vida como ela é. Vivem numa espécie de Terra do Nunca, e julgam que a praia está debaixo da calçada. A imaginação é para o John Lennon: do que um político precisa é de ideias (que é diferente de imaginação), vontade política e, sobretudo, bom senso. É por isso que eu, que não simpatizo nada com Nicolas Sarkozy, espero que no seu projecto de acabar com a herança do Maio de 68 ele não seja bem sucedido em muitos aspectos, mas que o seja pelo menos neste: o de acabar com a ideia peregrina da "imaginação ao poder".
Vendo bem as coisas, tivemos recentemente um primeiro-ministro (não eleito) aparentemente cheio de imaginação: refiro-me evidentemente a Pedro Santana Lopes. E digo "aparentemente" porque Santana é cheio de ideias (muito pouco concretas) e em qualquer campanha onde se meta avança sempre com grandes projectos, alguns deles por sinal bem mirabolantes. Creio tratar-se mesmo do político português mais imaginoso (ou rodeado pelos assessores mais imaginosos). Só que viu-se o que era a imaginação com o santanismo no poder. O país sem rumo, sem nenhuma coerência governativa, e o governo sem fazer ideia de como pôr em prática nenhum dos imaginosos projectos.
Foi por isso que, assim que em boa hora lhe foi dada a oportunidade para isso, o país se livrou do turbilhão imaginoso santanista e elegeu um primeiro ministro que é a antítese da imaginação. Monótono, previsível, assim é José Sócrates. Com Sócrates sabemos sempre com o que podemos contar e não há surpresas. É por isso que eu gosto dele.
No Sporting a situação é análoga. Aliás os recentes treinadores do Sporting são parecidos com alguns dos últimos primeiros ministros de Portugal. Fernando Santos foi o Guterres do Sporting, boa pessoa, católico e medroso. Já Peseiro era o Santana: estava sempre a inventar nas tácticas e não oferecia confiança nenhuma aos adeptos. Mas fazia-os sonhar: imaginavam que, jogando sempre ao ataque e descurando a defesa, venceriam muitos troféus, Viu-se o que ganharam com ele. O balneário era uma desorganização e a equipa arrastava-se sem rumo.
Em boa hora os dirigentes sportinguistas despediram Peseiro (num processo complicado e tumultuoso, como foi o despedimento de Santana) e foram buscar um treinador que é o seu oposto (como Sócrates é o oposto de Santana). Tal como Sócrates, Paulo Bento não inventa, Paulo Bento é previsível, Paulo Bento é teimoso. Até na maneira de vestir são semelhantes! Com Paulo Bento sabemos sempre com o que contar, e é por isso que eu gosto tanto dele. Paulo Bento dá-nos efectivamente tranquilidade, apesar dos seus discursos repetitivos. E quanto à sua imaginação, fica sumarizada naquela conferência de imprensa a seguir ao Sporting-Paços de 2006, imortalizada pelos Gato Fedorento: "andebol, basquetebol, mão; futebol, pé".
Tenho cá para mim que enquanto os portugueses se recordarem de Santana Lopes, o primeiro-ministro será Sócrates, e enquanto os sportinguistas se recordarem de Peseiro, o treinador será Paulo Bento. Espero que ambos tenham muito sucesso e continuem muito tempo nos seus cargos.

2008/06/07

Hoje corto uma fita

Passou-se o mês de Maio, os 40 anos do Maio de 68, e não referi a alergia que me causam slogans como "sejamos realistas, peçamos o impossível" e, sobretudo, "a imaginação ao poder". Imaginação ao poder para quê? Sem abdicar das convicções e das ideias, em política é preferível o realismo e o bom senso. Já é sabido, desde Lenine a José Sócrates, passando por Hillary Clinton e, espero, por Barack Obama. 40 anos depois do Maio de 68, espero que a esquerda (francesa e não só) se livre da "tralha imaginosa". Abordo esta questão, num contexto governativo e futebolístico português, num texto que escrevi para o Corta Fitas, através de um simpático convite do Pedro Correia (a quem aqui agradeço). Convido-vos agora a irem lê-lo.

2008/06/06

O "status" de andar de bicicleta

Ainda no rescaldo do Dia do Ambiente, destaco um bom texto - já com alguns dias -, vejam bem, de Luís Rocha (o "mata-mouros" que escreve sempre a azul), no Blasfémias (não é todos os dias): "É tudo uma questão de status". Já não digo que Luís Rocha ande de bicicleta (o relevo do Porto de facto não ajuda muito), mas espero ao menos que não ande de carro e aproveite o excelente Metro do Porto. Será?

Efectivamente, em Portugal quem não anda de carro não tem "status" - e é nestes pequenos pormenores que se vê como somos um país de gente pobre, que dá muito valor às aparências, preza o enriquecimento fácil e despreza o trabalho. Pode comer-se mal, mas ai de nós se não formos de carrinho. Para não ir de transportes públicos, por exemplo, diz-que que eles "não funcionam bem" (em Lisboa poderiam funcionar melhor, de facto, mas parece que há quem queira ter uma estação de metro sempre à porta, e não se lembre que numa cidade atafulhada de carros não andam nem os carros, nem os autocarros). Para não ir de bicicleta, inventam-se as desculpas mais baratas, como o "relevo de Lisboa" (as colinas de Lisboa são evidentemente acidentadas, mas a maior parte da área da cidade é quase plana ou pouco inclinada, Avenida da Liberdade incluída). Ou, como não poderia deixar de ser, o "status"! É neste texto da sua colega Helena Matos, um belo exemplo de como um suposto "feminismo" pode servir para disfarçar o reaccionarismo. Mas o preço do petróleo tem subido, e há de continuar a subir. Só que enquanto eu vir as nossas cidades cheias de carros privados, não me venham dizer que a gasolina está cara. Leiam a resposta do Tárique.

2008/06/05

Uma decisão que se impunha

Universidades vão passar a ser responsabilizadas pelas praxes, e não as Associações de Estudantes. Mais uma vez de parabéns o ministro Mariano Gago.

2008/06/04

Da necessidade de Portugal pertencer à União Europeia

(Neste caso não é a UE, mas a UEFA; o raciocínio é o mesmo.)
Não somos capazes de afrontar os poderosos. A lei em Portugal nunca é cega. Têm de ser os europeus a fazer justiça.
Eu não sou antiportista (de todo), mas se se deu como provada a corrupção a punição da Liga ao FC Porto é ridícula. Teve de ser a UEFA a repor um pouco de justiça.
O que mais me faz rir nisto tudo (sim, rir - e repito que não sou antiportista) - é o FC Porto ser castigado não pela corrupção mas pela incompetência dos seus dirigentes. Sim: isto é um caso da mais pura incompetência. Um exemplo perfeito. Eu não sou portista e nada tenho a ver com este assunto, mas como observador externo creio que não resta outra alternativa à direcção do FC Porto que não seja demitir-se. O contrário (o mais provável) denota apego ao poder e flta de vergonha.

2008/06/03

Ir à Feira do Livro e não ver a Caminho nem a D. Quixote

Estava à espera de encontrar na Feira do Livro de Lisboa uma "Praça Leya" muito melhor que as outras supostas "barracas", muito mais vistosa, com muito mais espaço. Puro engano. A Leya representa algumas das editoras portuguesas com melhores catálogos (caso da D. Quixote e da Caminho). Por isso mesmo, anteriormente estas editoras tinham um merecido lugar de destaque na Feira do Livro, ocupando várias das tais "barracas" que são "todas iguais". Mas não: uma barraquita para a Caminho, duas para a D. Quixote, semivazias, apenas com as principais novidades. Das três ou quatro barracas que cada uma destas editoras costumava ocupar, a atafulharem com todo o seu catálogo, nem sinal. É para isso que eu e, creio, a maioria das pessoas vão a Feiras do Livro: as "novidades" encontram-se em qualquer livraria. Tanto barulho causado pela Leya e, afinal, o resultado é ir à Feira do Livro e não encontrar a Caminho e nem a D. Quixote. Se era esse o objectivo da Leya (desconfio que sim), poderiam ter dito logo, e escusavam de ter vindo com os estafados argumentos do "direito à diferença" e da "liberdade" contra o "igualitarismo" do modelo tradicional. Os "liberais" da Leya, sob o argumento hipócrita da "liberdade individual" de cada editora ter o espaço que quiser, não estão nada interessados na Feira do Livro. Tal como outros liberais falam muito mas não estão nada interessados na escola pública e nem no sistema nacional de saúde.
O José Saramago, que nos outros anos era presença obrigatória na Feira do Livro de Lisboa a dar autógrafos, este ano (segundo li) não vai lá nem um dia.
Para ler mais: Francisco José Viegas (subscrevo inteiramente este texto) e José Mário Silva.

2008/06/02

O 1968 que vale a pena recordar


Em cena no Teatro Aberto, em Lisboa, até ao fim da semana: Rock and Roll, de Tom Stoppard. Imperdível. O prof. Max seria eu se tivesse vivido naquela altura e fosse professor em Cambridge (marxistas em Cambridge ou Oxford era coisa que não existia naquela altura).

2008/05/30

O meu presidente

Não merece causar a celeuma que causou, mas hoje em dia tudo o que seja para atacar o governo tem honras de primeira página. Mesmo que não seja essa a intenção principal.
Refiro-me ao artigo de terça feira de Mario Soares no DN, que é um portento. Façam favor de o ler. Mário Soares continua a valer mais que qualquer convergência de esquerdas burguesas.

2008/05/29

Google takes on Portuguese, and wins

Um belo texto sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa no Times de Londres. Curiosamente, via o blogue que mais se tem oposto a este acordo, o De Rerum Natura.

2008/05/27

O previsível CAA

Havia boas razões para apoiar quer o Chelsea quer o Manchester United na final da Liga dos Campeões. Eu fiquei contente pela vitória do Manchester, que queria que ganhasse. Porque o contrário era uma derrota do Mourinho (e eu gosto do Mourinho). E, sobretudo, pelo Cristiano Ronaldo.
Como era de se esperar, o Carlos Abreu Amorim estava pelo Chelsea. Não pelo Ricardo Carvalho nem pelo Paulo Ferreira, nem pelo Drogba ou pelo Ballack: seguramente, pelas origens do treinador Avram Grant.
Ah, como eu tenho pena que o Avram Grant não vá para treinador do Benfica, como se chegou a falar! Lá teríamos o CAA no Estádio da Luz, de kippah vermelha, a torcer pelo Benfica.

2008/05/26

Um governo de esquerda

“A igualdade é o valor mais nobre da democracia”, declarou a nova ministra da Igualdade de Espanha, a andaluza Bibiana Aído, no seu discurso de posse. (Via Corta-Fitas.)

2008/05/23

Dez anos de Expo 98


Só quem não viu a montra de uma agência de viagens de uma pequena cidade de Long Island, no estado de Nova Iorque (sem nenhuma comunidade portuguesa ao lado), com referências e anúncios exclusivos a Portugal (não só Lisboa e a Expo), com um "Gil" gigantesco por trás, poderá pôr em causa a importância que a Expo teve para a promoção do país.

2008/05/21

As conferências do divã



São em torno do livro A Globalização no Divã. Alguns dos autores deste livro são daqui, outros daqui, e ainda este. Hoje é a primeira conferência, Ciência e sociedade num mundo globalizado. Às 18 horas na Livraria Pó dos Livros, em Lisboa. Uma co-organização do Le Monde Diplomatique (em cuja página pode ser visto o programa todo). Eu serei um dos intervenientes. Apareçam!

2008/05/20

Um físico na prisão de Estaline

Saiu mais uma edição da Gazeta de Física. O meu objectivo não é fazer aqui publicidade (mas comprem! Leiam! Divulguem!). O meu objectivo é chamar a atenção para o artigo de Carlos Fiolhais lá publicado sobre Lev Landau, para ser lido em conjunto com este meu texto.

2008/05/19

Tudo no seu lugar



FC Porto campeão, Sporting vice campeão, vencedor da Taça de Portugal e apurado para a Liga dos Campeões: tudo no seu devido lugar. Tudo como já é hábito. Tudo como é justo que seja.
Esperemos que para o ano nem tudo seja assim, para que algo continue a ser assim. Espero que o Sporting continue a vencer a Taça e mantenha o apuramento directo para a Liga dos Campeões. Acredito que é possível, se os reforços previstos se concretizarem e se não houver venda de jogadores.
Os números não enganam: desde 1974 que o Sporting não ganhava troféus importantes em dois anos seguidos (campeonatos e taças). Desde 1971 que não ficava acima do terceiro lugar por dois anos seguidos (este resultado foi igualado o ano passado). Desde a década de 50 que não ficava acima do terceiro lugar por três anos seguidos.
Mas os números também não enganam: não fossem as penalizações do apito Dourado e o Sporting acabava o campeonato a 20 pontos do FC Porto que nem sequer foi um supercampeão. O ano que vem tem que ser melhor. Com o mesmo treinador e uma melhor equipa.

Diz antes: deveriam chamar-se "livres à Inácio"?

Nos comentários do Sporting-Porto, na SIC, em directo, Augusto Inácio, após a marcação de um livre contra o FC Porto por Miguel Veloso:
Toda a gente chama a estes livres "livres à Camacho", mas na verdade eles foram introduzidos por André Cruz e César Prates.

2008/05/16

Ir às fontes

Das origens da palavra "betinho" (uma novela brasileira, pois claro), do seu significado e da sua aplicação em diferentes contextos (a propósito do recente dicionário dos utilizadores de drogas) hoje, no Cinco Dias. Mete Chico Buarque.

2008/05/15

Bar des sciences


Debate entre Peter Stilwell e Clara Pinto Correia, hoje à tarde no Instituto Franco-Português em Lisboa.

2008/05/14

"Nunca haverá uma solução militar"

Via Esquerda Republicana, cheguei a um artigo do maestro israelo-argentino Daniel Baremboim a propósito dos 60 anos de Israel no El País. Um extracto:
En la actualidad, muchos israelíes no tienen ni idea de lo que sienten los palestinos, de cómo es la vida en una ciudad como Nablus, una prisión con 180.000 reclusos en la que no hay ni restaurantes, ni cafés ni cines. ¿Qué ha ocurrido con la famosa inteligencia judía? Ni siquiera estoy hablando de justicia o de amor. ¿Por qué se continúa alimentando el odio en la franja de Gaza? Nunca podrá haber una solución militar, porque dos pueblos luchan por una sola tierra. Por fuerte que sea Israel, siempre sufrirá inseguridad y miedo. El conflicto se devora a sí mismo y al alma judía, y siempre se le ha permitido que lo haga. Quisimos hacernos con tierras que nunca pertenecieron a los judíos y construir en ellas asentamientos. En ese hecho, los palestinos ven, y con razón, una provocación imperialista. Su resistencia, su no, es absolutamente comprensible, pero no los medios que utilizan para llevarla a cabo, ni tampoco la violencia o la inhumanidad indiscriminada.

Los israelíes debemos finalmente encontrar el valor para no reaccionar ante esa violencia, el valor de ser fieles a nuestra historia. Los palestinos no podían esperar que después del Holocausto nos ocupáramos de alguien que no fuéramos nosotros mismos: teníamos que sobrevivir. Ahora que lo hemos hecho, unos y otros debemos mirar colectivamente hacia delante. Aún no ha nacido el primer ministro israelí capaz de esa empresa. Fundamentalmente, hoy en día no hemos avanzado nada respecto a 1947, cuando las Naciones Unidas votaron la partición de Palestina. Peor aún: en 1947 todavía era posible imaginarse un Estado binacional, pero, 60 años después, parece algo inconcebible. Hoy en día, los israelíes, al referirse a una solución basada en la existencia de dos Estados, hablan de separación, de divorcio: ¡qué cinismo! Normalmente, los divorcios afectan a personas que en su día se quisieron... (...) Hace años que no vivo en Israel y soy muy consciente de que mi perspectiva es la de un forastero. A veces, la gente me pregunta "¿qué es un judío?". La respuesta es la siguiente: un judío que tiene experiencias antisemitas en el Berlín de 2008 es diferente al que las tenía en 1940. El de 1940 se sentía amenazado; el de la actualidad puede pensar en su propia tierra, en Israel. Hoy en día puedo decirle al antisemita que "o bien aprendes a vivir conmigo o podemos seguir cada uno nuestro camino. Y punto", y esto supone una diferencia fundamental. A medio plazo, soy pesimista respecto a Oriente Próximo, pero a largo plazo soy optimista. O encontramos una forma de vivir con el otro o nos matamos.

As saudades que eu já tinha deste homem

Que bom foi vê-lo no "Prós e Contras" a demonstrar o que é o "sistema"! Mas, sobretudo, que bom foi vê-lo, no mesmo programa, a responder a Miguel Beleza enunciando-lhe os males do capitalismo desenfreado, da presente globalização e do ultraliberalismo, e o estado a que tais práticas conduziram a economia mundial! Digam lá se eu não tinha razão - que belo presidente da República ele daria! Melhor do que presidente do Sporting.

Bem vindo de volta a casa, Roca!

Aeroporto de Lisboa, zona de embarques, Janeiro de 2006

Agora só faltam o Caneira, o Hugo Viana... e o Ricardo (este último é um sonho).
E farto-me de rir com as críticas do costume ao Roca, e ao "fracasso" que constituiu a sua passagem por Inglaterra. Mas o Fábio tem alguma coisa a provar em Portugal? E quando - digam-me um só -, quando é que um jogador brasileiro teve sucesso no campeonato inglês? No espanhol, no italiano, ou pelo menos no francês ou no alemão. Agora no inglês? A ida do Rochemback para Inglaterra foi um grande rro, que finalmente foi agora corrigido. Há quase três anos que esperávamos por este dia. Bem vindo de volta a casa!

2008/05/12

2008/05/10

O provincianismo da praxe

Em tempos de semanas académicas, "Queima das Fitas" (ou é bênção? Nunca percebi), vale a pena ler o texto "E eles, pimba!" de Carlos Fiolhais e os respectivos comentários (incluindo o do João André), que têm a ver com os assuntos destes meus dois textos, a propósito deste outro.

2008/05/08

Luzes e sombras de Israel

Luces y sombras de Israel
Por MARIO VARGAS LLOSA

Si el conflicto palestino israelí no existiera, o hubiera sido ya resuelto de manera definitiva, el mundo entero vería en Israel uno de los éxitos más notables de la historia contemporánea: un país que en poco más de medio siglo -nació como Estado en 1948- consigue pasar del tercer al primer mundo, se convierte en una nación próspera y moderna, integra en su seno a inmigrantes procedentes de todas las razas y culturas -aunque, por lo menos en apariencia, de una misma religión-, resucita como idioma nacional una lengua muerta, el hebreo, y la vivifica y moderniza, alcanza altísimos niveles de desarrollo tecnológico y científico, y se dota de armas atómicas y de un ejército equipado con la infraestructura más avanzada en materia bélica y capaz de poner en pie de guerra en brevísimo plazo a un millón de combatientes (la quinta parte de su población).

Este logro es todavía más significativo si se tiene en cuenta que la Palestina donde llegaron los primeros sionistas procedentes de Europa, en 1909, era la más miserable provincia del imperio otomano, un páramo de desiertos pedregosos convertido ahora, gracias al trabajo y al sacrificio de muchas generaciones, en poco menos que un vergel. Es verdad que Israel ha contado con una generosa ayuda exterior, procedente principalmente de Estados Unidos, del que recibe anualmente cerca de tres mil millones de dólares, y de la diáspora judía, un factor que hay que tener en cuenta, pero que de ninguna manera explica por sí solo la impresionante transformación de Israel en uno de los países más desarrollados y de más altos niveles de vida del mundo. Por ejemplo, Egipto recibe una ayuda más o menos equivalente de Estados Unidos y nadie diría que le ha sacado el menor provecho para el conjunto de su población. Y los grandes países productores de petróleo, como Venezuela o Arabia Saudí, sobre quienes el oro negro hace llover desde hace muchos años una vertiginosa hemorragia de dólares, siguen, debido a la ineficiencia, el despotismo y la cancerosa corrupción de sus gobiernos, profundamente enraizados en el subdesarrollo. Ninguno de ellos ha aprovechado de sus recursos y de las oportunidades creadas por la globalización como Israel.

Es verdad que, en los últimos años, a medida que, gracias a su despegue industrial, sobre todo en el campo de las nuevas tecnologías, el crecimiento económico israelí se disparaba y el país dejaba de ser rural y se volvía urbano, la sociedad más o menos igualitaria y solidaria con la que soñaban las primeras generaciones de sionistas, y de la que todavía era posible encontrar huellas en el Israel que yo conocí hace treinta años, iba siendo reemplazada por otra, mucho más dividida y antagónica, donde las distancias entre los sectores más ricos y los más pobres aumentaban de manera dramática y el idealismo de los pioneros y fundadores de Israel iba siendo reemplazado por el egoísmo individualista y el materialismo generalizado que es rasgo universal de todas las grandes sociedades contemporáneas.

Israel se jacta de haber cumplido esta veloz trayectoria histórica hacia el bienestar dentro de la legalidad y la libertad, respetando los valores y principios de la cultura democrática, algo que ha brillado y sigue brillando por su ausencia en todo el Medio Oriente. Ésta es una verdad relativa, que exige importantes matizaciones. Israel es una democracia en el sentido cabal de la palabra para todos los ciudadanos judíos israelíes quienes viven, en efecto, dentro de un Estado de Derecho, que respeta los derechos humanos, garantiza la libertad de expresión y de crítica, y en la que quien siente vulnerados sus derechos puede recurrir a unos jueces y tribunales que funcionan con independencia y eficiencia. He estado cinco veces en Israel, a lo largo de tres décadas, y siempre me ha impresionado la energía y la firmeza con que se practica allí la crítica, y la diversidad de opiniones en los periódicos y revistas publicados allí en lenguas a mi alcance, en debates y discusiones o pronunciamientos públicos de partidos, instituciones o figuras individuales formadoras de opinión. No creo exagerado afirmar que probablemente en ninguna otra sociedad se critica de manera tan constante, y a veces tan acerba, a los gobiernos de Israel como entre los propios israelíes.

Estas excelentes costumbres democráticas se reducen considerablemente, y a veces desaparecen por completo, cuando se trata del millón y pico de árabes israelíes -musulmanes en su gran mayoría y una minoría cristiana- que constituyen aproximadamente el 20 por ciento de la población. En teoría son ciudadanos a carta cabal, con los mismos derechos y deberes que los judíos. Pero, en la práctica no lo son, sino ciudadanos discriminados, para los que no existen las mismas oportunidades de que gozan aquellos y que tienen tanto los accesos a los servicios públicos -educación, salud- como al empleo, la adquisición de propiedades, o el simple movimiento físico, mediatizados, recortados o suprimidos con el argumento de que estas cortapisas y limitaciones son indispensables para la seguridad de Israel.

Pero los ciudadanos árabes israelíes, pese a todo ello, viven en condiciones envidiables si se compara su caso con el de los millones de palestinos del West Bank y, hasta ayer, de la Franja de Gaza, es decir los territorios que Israel ocupó en 1967, luego de la Guerra de los Seis días, en que derrotó a los Ejércitos de Siria, Jordania y Egipto. (El West Bank estaba entonces bajo el dominio jordano y Gaza bajo el egipcio). Esta victoria, de la que la gran mayoría de los israelíes se sienten orgullosos por razones militares y/o religiosas -su pequeño país derrotaba en un cerrar de ojos a una gran coalición militar del mundo árabe y recuperaba para los judíos la totalidad del ámbito de su historia bíblica-, convirtió a Israel en algo que ha sido su pesadilla desde entonces y lo que ha contribuido más que nada a desencadenar la antipatía o la franca hostilidad hacia sus gobiernos de una buena parte de la opinión pública internacional: en un país colonial. Y nada corrompe tanto a una nación, desde los puntos de vista cívico y moral, como volverse una potencia colonizadora. Coincidiendo con aquella conflagración de 1967, el general de Gaulle hizo entonces una descripción de los israelíes que generó una gran polémica (y mereció, entre otras muchas, la respuesta encendida de Raymond Aron). Los llamó "pueblo de elite, seguro de sí mismo y dominador". No estoy seguro de que entonces fuera cierto; pero sí lo estoy de que, de entonces a ahora, insensiblemente, y debido a la conquista de aquellos territorios así como a su enriquecimiento y poderío, Israel se ha ido acercando a lo que, cuando fue lanzada, nos pareció a muchos una injusta y exagerada descripción.En lo que concierne a su relación con los palestinos, todas son sombras que maculan moralmente el formidable progreso material y social de Israel. En los 38 años de ocupación, los palestinos han visto sus tierras expropiadas e invadidas por cientos de miles de colonos que, casi siempre alegando los derechos divinos, se posesionaban de un lugar y de unos campos, los cercaban y venía luego el Ejército a proteger su seguridad y a consumar el despojo, manteniendo a raya o expulsando a los despojados. Pese a las duras rivalidades que las enfrentan, tanto la izquierda como la derecha israelí, han coincidido en esta política de apoyar la multiplicación y el ensanchamiento de los asentamientos por colonos convencidos de que, actuando de este modo, cumplían la voluntad de Dios. Este proceder abusivo ha sido el mayor obstáculo para un acuerdo de paz, pues, a la vez que, de palabra, los gobiernos israelíes decían siempre desearla, en la práctica la desmentían con una política que a ojos vista iba aumentando y refrendando la ocupación colonial.

No hay duda alguna de que, debido a sus enormes divisiones políticas internas, a la práctica del terrorismo, a la ineficiencia y torpeza de sus líderes, los palestinos han defendido muy mal su causa, desaprovechando a veces oportunidades como la que, a mi juicio -el tema es objeto de tremendas controversias en Israel y en Palestina- representaron las negociaciones de Camp David y de Taba en el año 2000, en los finales del gobierno laborista de Ehud Barak. Pero, aun así, y sin que ello signifique la menor justificación del salvajismo irracional de los atentados contra la población civil y de las bombas de los suicidas palestinos -voladura de autobuses, restaurantes, cafés, discotecas, tiendas-, los atropellos cometidos por el Gobierno israelí contra la población palestina en general -puniciones colectivas, demoliciones de casas, asesinato de líderes terroristas aunque para ello sea inevitable que mueran civiles inocentes, detenciones arbitrarias, torturas indiscriminadas, juicios de caricatura en que los jueces condenan a los acusados a largas penas sin que los abogados defensores puedan siquiera conocer el acta de acusación, que se mantiene secreta por razones de inteligencia militar, etcétera- son injustificables e indignas de un país civilizado.

Después del fracaso de los acuerdos de Oslo, que habían despertado tanta euforia en todo el mundo y en especial en Israel -yo estuve allí por aquellos días y viví ese entusiasmo-, y luego de la subida al poder de Ariel Sharon, bestia negra de los pacifistas y de todos los partidos moderados del país, las esperanzas de paz parecían enterradas por un buen tiempo. Nadie había promovido tanto como aquél la política de los asentamientos de colonos en los territorios ocupados ni nadie había saboteado con tanta vehemencia todos los intentos de solución negociada del conflicto -desde Oslo a Camp David y Taba- como el líder del Likud. ¿Quién hubiera dicho que la misma persona que dirigió la invasión militar de Líbano, que estuvo implicada en las matanzas de refugiados palestinos de Sabra y Shatila y que con su paseo provocador por la Plaza de las Mezquitas contribuyó a desatar la segunda Intifada y a frustrar los acuerdos de paz de Oslo, iba pocos años después, de manera unilateral, a cerrar los 21 asentamientos coloniales de la Franja de Gaza y a devolver esta tierra arrebatada al pueblo palestino?

¿Qué ha habido detrás de esta audaz iniciativa? ¿Una concesión táctica, para distraer la atención internacional mientras Israel acentúa la política de apropiación de las tierras del West Bank? ¿O un intento serio de mostrar al mundo la voluntad de Israel de poner de una vez por todas un fin razonable a este conflicto? ¿Qué piensan de ello los israelíes y los palestinos? Para tratar de averiguarlo, acabo de pasar quince días en Israel y en los territorios ocupados, hablando con gente de toda condición e ideología, viendo y oyendo lo más que podía y tratando de sobrevivir al calor, la intensidad de las vivencias y la fatiga. Porque en Israel y en Palestina se vive más que en otras partes y el tiempo parece durar allá menos que en el resto del mundo. Acaso esa sea la razón por la que tres de las cuatro grandes religiones de la historia de la humanidad tengan allí sus raíces y por la que ese puñado de kilómetros cuadrados haya hecho correr desde hace cuatro milenios más sangre y locura que cualquier otra región del mundo.

(Original no El Pais, 18/09/2005, na sequência de uma visita do autor e da filha a Israel)

2008/05/07

Santa Apolónia e a crise alimentar

Imperdível o artigo de Miguel Sousa Tavares no Expresso desta semana.

Acompanhado pelo seu incontornável ministro dos Gastos Públicos, Mário Lino, José Sócrates anunciou mais uma "obra estruturante" para o país: investir cerca de duzentos milhões de euros do Estado para multiplicar por quatro a área do terminal marítimo de contentores de Alcântara, no coração de Lisboa. A obra é um velho sonho do Porto de Lisboa - tapar o rio com contentores ou o que seja para que os lisboetas desfrutem dele o menos possível. E é também um velho sonho da empresa que detém, por concessão, o monopólio do negócio dos contentores no porto de Lisboa: a Liscont, pertencente à Mota-Engil (sim, a de Jorge Coelho). Para servir os interesses da empresa, o Estado vai então gastar dinheiro a dragar o rio e a enterrar o comboio e redesenhar os acessos rodoviários à zona, porque não é brincadeira fazer escoar milhares de contentores diariamente do centro da cidade. Oferece-lhe ainda uma área de luxo para desfrute em exclusivo e a histórica Gare Marítima de Alcântara, com os painéis de Almada, por onde gerações de portugueses partiram para a emigração ou para a Guerra de África e gerações de turistas desembarcaram em busca da cidade debruçada sobre o rio. Mas a Liscont também investe a sua parte: 227 milhões. Condoído do seu esforço, porém, o Governo compensa-a por esse magnânimo gesto, prorrogando-lhe por mais vinte e sete anos, até 2042, o monopólio que detém e que expirava dentro de sete anos.
Portanto, saem dali os paquetes de passageiros que, desde que me lembro, desde que o meu avô me levava a vê-los em criança e eu aos meus filhos, era a única coisa de interesse em Alcântara e uma das coisas que faziam de Lisboa uma cidade diferente. E para onde vão? Vão para onde deviam ir os contentores: para uma extrema da cidade e da frente de rio, para Santa Apolónia. Parece-vos absurdo que se lembrem de pôr os turistas a desembarcar numa ponta desabitada da cidade e os contentores a desembarcarem nas Docas, junto aos Jerónimos e à Torre de Belém? Não, não é absurdo: faz parte de um plano maquiavélico do Porto de Lisboa (mais um), arquitectado passo a passo. Com o abandono da Doca de Passageiros de Alcântara e a sua transferência para Santa Apolónia, onde nenhuma infra-estrutura existe para os acolher, o Porto de Lisboa tem assim uma excelente oportunidade para lançar mãos àquilo de que mais gosta: a construção e especulação imobiliária à beira-rio. A APL propõe-se construir um contínuo de edifícios em Santa Apolónia ocupando uma frente de rio de 600 metros para o novo terminal de passageiros (até se prevê a construção de um hotel, partindo do raciocínio lógico que os turistas, uma vez acostados ao cais, abandonarão os seus camarotes já pagos a bordo para se irem instalar no hotel em frente ao navio...). De modo que, de um só golpe e com a habitual justificação do interesse público para enganar tolos, os engenheiros que nos governam acabam de roubar mais um bom pedaço de rio a Lisboa: 600 metros em Santa Apolónia e outros tantos em Alcântara. Chama-se a isto uma expropriação pública em benefício de interesses particulares.

E, como de costume, quando se trata de dispor da cidade e do rio, com pontes ou terminais de contentores, é Sócrates e a sua equipa do Ministério das Obras Inúteis quem faz a festa e lança os foguetes. Se é que Lisboa tem um presidente de Câmara, mais uma vez ninguém o viu nem ouviu.

À falta de outros interessados no assunto e face à suprema nulidade política dos governantes do mundo desenvolvido, é a ONU apenas que parece preocupada com a escalada avassaladora do preço dos alimentos, a acrescentar à da energia. Entregues a si próprios, os mercados e os governos reagem de acordo com a lei do salve-se quem puder, dando um lindo exemplo prático das delícias da globalização: os países exportadores de alimentos fecham as portas de saída para evitar problemas políticos internos; os países exportadores de petróleo recusam-se a intervir no mercado para fazer estancar a subida do crude, empolada artificialmente; e os que não têm petróleo, como a Itália e a Inglaterra, regressam em força ao carvão e que se lixe o aquecimento global, com o incremento da mais poluidora fonte de energia. Assim entramos numa espiral de loucos: a alta do preço do petróleo faz subir o preço dos alimentos e o preço destes o do petróleo; os especuladores da finança e do imobiliário, cuja ganância mergulhou a economia mundial em crise, fogem agora das bolsas para as matérias-primas, como o petróleo, os alimentos e a água, fazendo aumentar ainda mais o seu preço; os países que têm dinheiro mas precisam de energia dedicam-se a comprar terras aos pobres de África e da Ásia para nelas produzir biocombustíveis, a partir dos cereais; menos terras agrícolas, menos comida ainda: aqueles que não têm nem alimentos, nem energia nem terras disponíveis, só podem esperar morrer de inanição - segundo a ONU são trezentos milhões em todo o mundo ameaçados de morrer de fome.

Mas a crise do preço da alimentação é também um momento de ajuste de contas com o passado recente, em países como Portugal. Antes de entrarmos na UE produzíamos mais de metade do que comíamos, tínhamos ainda um mundo rural e agrícola e um país relativamente equilibrado entre o interior e o litoral, a província e as grandes cidades. Mais de duas décadas depois, o que vemos? Produzimos menos de um quarto daquilo que comemos; à força de subsídios, desmantelámos a frota pesqueira e deitámos fora toda uma cultura e saber que demorara gerações infinitas a apurar, passando a importar todo o peixe que vem à mesa; gastámos fortunas a pagar aos agricultores para eles abandonarem os campos ou ficarem sentados a ver em que paravam as modas, sem investir, sem inovar, sem arriscar - até lhes demos uma barragem, a maior da Europa, para eles se distraírem a fazer regadio, já que diziam que as culturas de sequeiro não davam, mas, assim que se viram com a barragem feita, venderam as terras aos espanhóis, agarraram nas mais-valias que os contribuintes lhes tinham facultado e agora só querem regressar ao local do crime para fazer urbanizações turísticas à beira de Alqueva; de caminho, desmantelámos a fileira florestal tradicional, substituindo-a por um oceano de pinheiros e eucaliptos, contribuindo ainda mais para a desertificação e os incêndios de Verão, porque um ex-ministro, hoje muito bem na vida, declarou solenemente que "os eucaliptos são o nosso petróleo verde"; enfim, como resultado último de toda esta clarividência, gastámos os rios de dinheiros europeus que nos poderiam e deveriam ter garantido a solvabilidade e independência económica para sempre, a construir auto-estradas e duas megacidades onde as pontes e os terminais de transportes de toda a ordem nunca são suficientes para acolher o Portugal que fugiu do interior morto.

Demos cabo do país e não foi por falta de avisos nem por particular estupidez dos governantes. Foi, claramente, para servir os interesses particulares que vegetam perpetuamente à sombra do Estado. Essa clique infecta dos falsos empresários e dos traficantes de influências que sugam toda a riqueza do país.

Não me admira nada que até o presidente da Companhia das Lezírias - uma empresa estatal que ocupa as melhores terras agrícolas de Portugal e que o empresário Américo Amorim tentou há tempos privatizar a seu favor - venha dizer que não pode deixar de aproveitar a "oportunidade" do futuro aeroporto de Alcochete para se lançar também na especulação imobiliária em parte dos terrenos que lhe cabe administrar. A bem do "ordenamento do território", é claro. A sua desfaçatez é um exemplo eloquente das razões pelas quais chegámos a este ponto de desesperança. Mas será que o senhor, ao menos, não lê jornais e não sabe que estamos à beira de uma severa crise alimentar? Será que não lhe explicaram que o objectivo da Companhia das Lezírias é a agricultura e não a especulação turística? Ou achará, como o eng.º Sócrates, que, no futuro vamos todos comer betão e jogar golfe?

2008/05/06

O metro mais bem planeado e os autarcas mais inteligentes

Há sessenta anos que há aeroporto na Portela, e há cinquenta que há metropolitano em
Lisboa. Há quantos anos há metro no aeroporto (dentro da cidade)? Ainda não há; estão a construí-lo. Há cinquenta anos que os utentes do Aeroporto de Lisboa poderiam usar o metro para lá chegar – se a estação do aeroporto existisse. Não existe, e os autocarros são escassos e não estão preparados para bagagens – na sua maioria, os utentes têm que ir de carro ou táxi. Parece que a estação de metro finalmente vai ser inaugurada… pela mesma altura em que o aeroporto da Portela supostamente será desactivado.
Não sei há quantos anos existe a estação de comboios de Santa Apolónia, mas foi muito antes de haver metro. Desde que há metro que os utentes da estação de Santa Apolónia poderiam usar o metro para lá chegar – se a estação de Santa Apolónia existisse. Já existe: foi inaugurada há quatro meses. Construí-la foi uma monumental obra pública, que teve seriíssimos problemas durante a sua execução, demorou anos e anos e custou o triplo ou o quádruplo do inicialmente previsto. E quatro meses depois de inaugurada a conclusão de tão longa empreitada, tão trabalhosa, tão cara e tão custosa para os lisboetas, qual é a ideia? Encerrar a estação de Santa Apolónia à actividade ferroviária (e guardá-la para “terminal de cruzeiros” – é bem sabido que quem faz cruzeiros em Portugal anda de metro todos os dias). Digam lá – há coisa mais bem planeada que o metro de Lisboa? Haverá pessoas mais iluminadas que os autarcas de Lisboa?

2008/05/05

Grandes marcas com quanto por cento de desconto?


Anuncia-nos o Continente o vinho tinto regional da Adega Cooperativa de Nelas (colheita normalíssima) a 2,50€, com 50% de desconto em cartão, ou seja, para portadores do cartão “Continente” o referido vinho sai ao módico preço de 1,25€ a garrafa. Aparentemente um grande negócio… não se desse o facto de o preço normal desse mesmo vinho, no Minipreço, ser 1,39€. Então, das duas uma: ou o Continente vende em geral o vinho muito mais caro do que o Minipreço, ou o preço deste vinho foi inflacionado durante esta promoção, de forma a um desconto de 0,14€ ser assim apresentado como de 50%, ou seja, de 1,25€. Este tipo de inflação temporária, de forma a um pequeno desconto ser apresentado como substancial, é prática comum nas grandes superfícies (não só do Continente). A ASAE deveria estar atenta a estes casos. Se o mais importante aqui é a liberdade de o hipermercado fixar os preços do vinho, há que ser consistente com o preço fixo não só durante o período de promoção. Neste caso, haveria que obrigar o Continente a vender aquele vinho ao preço regular de 2,50€ durante um período considerável, digamos seis meses.

2008/05/04

No Dia das Mães

...e em todos os outros ouçamos Chico Buarque. A escolha para hoje: Cuidado com a outra, da autoria de Nélson Cavaquinho e Augusto Tomaz Jr., do álbum Sinal Fechado.

2008/05/02

Proselitismo de 1º de Maio

Em plena Alameda, na concentração da CGTP, resguardados da multidão, cá atrás, dois mórmones perguntam-me, com sotaque americano: "o senhor não quer preencher o nosso questionário?" Bem em frente ao antigo Império, sede da Igreja Universal do Reino de Deus.