2008/09/07
2008/09/06
Antes do primeiro jogo de qualificação
Futebolisticamente, prefiro os admiradores de Pinochet aos emuladores de Cavaco.
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Futebol
2008/08/22
Turismo científico
Vou ali a Veli Losinj. Na volta passo pela Itália. Volto em Setembro.
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Viagens
2008/08/21
Parabéns ao SLB!
Não sou capaz de seguir os Jogos Olímpicos em termos de nacionalidade, pelo que considero ridículas as discussões como a da nacionalidade de Francis Obikwelu. Querer ganhar mais medalhas nos Jogos Olímpicos que outros países é típico de ditaduras e países imperialistas. Os Jogos Olímpicos valem sobretudo pelos atletas. Da mesma forma, não sou capaz de me referir à selecção nacional de futebol, ou mesmo à minha equipa, no plural. Nunca digo “ganhámos”: digo “eles ganharam”. Fazer aproveitamentos políticos, à esquerda ou à direita, de resultados desportivos irrita-me.
Consistentemente com o que escrevi há quatro anos atrás, eu, sportinguista empedernido, tenho que dar os parabéns ao Benfica. Faz muito mais sentido ver os triunfos de atletas do Benfica como do Benfica do que de Portugal. Parabéns ao Benfica, mas acima de tudo parabéns à Vanessa Fernandes e, sobretudo, ao Nelson Évora. E a quem vê o número de medalhas nos Jogos Olímpicos como o índice de desenvolvimento de um país eu sugiro: e se se preocupassem mais com as medalhas nas Olimpíadas de Matemática ou Física?
Consistentemente com o que escrevi há quatro anos atrás, eu, sportinguista empedernido, tenho que dar os parabéns ao Benfica. Faz muito mais sentido ver os triunfos de atletas do Benfica como do Benfica do que de Portugal. Parabéns ao Benfica, mas acima de tudo parabéns à Vanessa Fernandes e, sobretudo, ao Nelson Évora. E a quem vê o número de medalhas nos Jogos Olímpicos como o índice de desenvolvimento de um país eu sugiro: e se se preocupassem mais com as medalhas nas Olimpíadas de Matemática ou Física?
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2008/08/20
Esta não é a Ana Sá Lopes
Ainda o assalto à agência de Campolide do BES. Numa crónica no suplemento Gente do DN de sábado, Ana Sá Lopes insurge-se contra quase toda a opinião publicada na imprensa e na blogosfera, que apoia incondicionalmente a suposta arbitrariedade da polícia, sendo que praticamente a única excepção viria da parte de João Miranda, no DN e no blogue Blasfémias. "Esta não é a minha polícia", afirma a jornalista, indignada, e pede ao ministro da Administração Interna que diga ou faça alguma coisa "de esquerda".
Ninguém deveria ter ficado feliz com a morte do sequestrador. É verdade que muitos comentadores parecem ter ficado, mas tal não resulta de se aceitar a acção da polícia neste caso. Eu e muitas outras pessoas apoiámo-la como mais um entre tantos males que infelizmente por vezes são necessários, mas sinceramente lamento a morte (e como eu, tenho a certeza, muita gente).
Dito isto, creio que há um equívoco da parte de Ana Sá Lopes relativamente à posição de João Miranda. Não vi João Miranda lamentar nenhuma morte. Conforme já aqui escrevi há uns dias atrás, o que incomoda João Miranda em todo este processo não é a morte do sequestrador em si, mas o facto de esta ter sido perpetrada pelo Estado (neste caso, representado pelo agente da polícia). Permitisse a legislação o livre porte de armas, resultasse a morte do sequestrador, nas mesmas circunstâncias, da acção de um segurança privado do banco ou de qualquer outro civil armado (mas nunca de um agente do Estado) e tudo estaria bem para João Miranda. Até poderia ser não só um mas vários sequestradores a morrerem. É esta a forma de pensar da direita libertária.
Embora não concorde, posso respeitar a opinião de quem acha que a polícia não deveria ter aberto fogo, dependendo dos argumentos apresentados (gostaria era de saber qual seria a sua opinião se estas pessoas fossem os reféns). Agora, pedir ao ministro que "faça alguma coisa de esquerda" e, no mesmo texto, invocar a direita libertária, como faz Ana Sá Lopes, é que me custa a perceber. Parece-me que se é assim, como diria outro Lopes, está mesmo tudo doido...
Com os seus cronistas supostamente de esquerda a invocarem desta forma a mais direitista das direitas, quem se fica a rir é o director João Marcelino.
Ninguém deveria ter ficado feliz com a morte do sequestrador. É verdade que muitos comentadores parecem ter ficado, mas tal não resulta de se aceitar a acção da polícia neste caso. Eu e muitas outras pessoas apoiámo-la como mais um entre tantos males que infelizmente por vezes são necessários, mas sinceramente lamento a morte (e como eu, tenho a certeza, muita gente).
Dito isto, creio que há um equívoco da parte de Ana Sá Lopes relativamente à posição de João Miranda. Não vi João Miranda lamentar nenhuma morte. Conforme já aqui escrevi há uns dias atrás, o que incomoda João Miranda em todo este processo não é a morte do sequestrador em si, mas o facto de esta ter sido perpetrada pelo Estado (neste caso, representado pelo agente da polícia). Permitisse a legislação o livre porte de armas, resultasse a morte do sequestrador, nas mesmas circunstâncias, da acção de um segurança privado do banco ou de qualquer outro civil armado (mas nunca de um agente do Estado) e tudo estaria bem para João Miranda. Até poderia ser não só um mas vários sequestradores a morrerem. É esta a forma de pensar da direita libertária.
Embora não concorde, posso respeitar a opinião de quem acha que a polícia não deveria ter aberto fogo, dependendo dos argumentos apresentados (gostaria era de saber qual seria a sua opinião se estas pessoas fossem os reféns). Agora, pedir ao ministro que "faça alguma coisa de esquerda" e, no mesmo texto, invocar a direita libertária, como faz Ana Sá Lopes, é que me custa a perceber. Parece-me que se é assim, como diria outro Lopes, está mesmo tudo doido...
Com os seus cronistas supostamente de esquerda a invocarem desta forma a mais direitista das direitas, quem se fica a rir é o director João Marcelino.
2008/08/19
Os fatos dos nadadores
Acerca da proeza de Michael Phelps, tem havido muita discussãoa cerca dos fatos dos nadadores e da influência que estes têm no seu desempenho, sendo por isso mais fácil atingir melhores marcas hoje em dia, com os fatos modernos, do que era, por exemplo, no tempo de Mark Spitz.
Para resolver esta polémica, proponho que todas as provas de natação passem a ser disputadas... em pelo. Nadadores e nadadoras como vieram ao mundo.
Para resolver esta polémica, proponho que todas as provas de natação passem a ser disputadas... em pelo. Nadadores e nadadoras como vieram ao mundo.
2008/08/18
"É doce morrer no mar.."
Graças à Maria João Pires, fiquei a par da triste notícia: Dorival Caymmi morreu. A propósito, recordo o texto que escrevi na ocasião dos seus noventa anos. Tem um vídeo (uma interpretação de Maracangalha com a família Jobim) que é uma delícia que vale sempre a pena recordar.
2008/08/17
2008/08/13
O outro texto do João Miranda
Refiro-me agora ao texto publicado no Blasfémias sobre o assalto à dependência do Banco Espírito Santo em Lisboa. Começo por esclarecer a minha posição: concordo com o procedimento da polícia. Embora lamente sinceramente que tenha sido perdida uma vida, estavam outras vidas, perfeitamente inocentes, em jogo, pelo que creio que a opção não poderia ter sido outra. Dito isto, também não concordo que se equivalham as posições do João Miranda e da maior parte das pessoas que criticam a actuação da polícia neste caso. É que quis-me parecer (mas posso estar errado) que o que mais incomoda o João Miranda é, mais do que a morte em si, o facto de esta ter sido perpetrada por um agente do Estado (polícia, neste caso). Sendo assim, e para esclarecer melhor esta minha dúvida, gostaria de colocar algumas questões ao João Miranda, nomeadamente:
- Qual é a opinião do João Miranda sobre a pena de morte? O João já escreveu sobre isto, mas não é um juiz um agente do Estado?
- Qual é a opinião do João Miranda sobre o livre porte de armas?
- Tomaria o João Miranda a mesma posição sobre a morte caso a mesma operação de resgate (com a mesma morte do assaltante) tivesse sido efectuada por um privado? Digamos que por vigilantes contratados pelo próprio banco e não pelo Estado?
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Grande texto, João Miranda
Refiro-me a este, publicado no DN de 9 de Agosto. Começa por ser sobre o computador "Magalhães", mas vai muito para além deste assunto. Leiam (também no De Rerum Natura), que vale bem a pena.
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2008/08/08
08-08-08, 08:08
No início do milénio toda a gente reparava nestas datas; agora, talvez por ser Agosto e menos gente estar a trabalhar, ninguém repara (e já só "falta" uma neste século: 09-09-09). Ninguém repara excepto os chineses, que hoje e a esta hora decidiram começar os Jogos da XXIX Olimpíada. Mas no calendário chinês isto fará algum sentido especial?
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Desporto
2008/08/07
2008/08/01
Alô Gil, aquele abraço
Quando chegou ao Ministério da Cultura, foi aclamado internacionalmente como o sucessor de Nana Mouskouri. Mas não deixou de fazer exigências: queria ter tempo para continuar a fazer as suas digressões e dar os seus espectáculos mundo fora. Pior: não queria “perder dinheiro” por ser ministro. Era essa a justificação oficial.
Lula mesmo assim aceitou, e o Brasil passou então a ter o “ministro cantor”.
Eu não estou em condições de julgar o seu trabalho enquanto ministro, e nem é esse o meu objectivo neste texto. É claro que era engraçado e original o Brasil ter um ministro que de dia tinha reuniões políticas e à noite actuava em Nova Iorque, na sede das Nações Unidas, ou em Paris, na Praça da Bastilha. Mas também era agradável para o cantor em questão ser reconhecido como “o ministro”, e seguramente tal não o tornou menos famoso. Nem as iniciativas dentro e fora do Brasil por si patrocinadas. Posso testemunhar as iniciativas associadas ao “ano do Brasil em França “ (2005): o seu nome aparecia em maiúsculas, sempre em lugar de destaque (e sem nenhuma comunicação ou outro motivo que o justificasse). Não bastava a referência às entidades em abstracto (neste caso o Ministério da Cultura): nunca faltava o “Ministro da Cultura - Gilberto Gil”.
Ficou famosa uma greve prolongada dos funcionários do seu ministério (que praticamente o parou) a exigirem melhores salários. Gil não demonstrou nenhuma solidariedade para com o ministro das Finanças, seu colega no governo: preferiu refugiar-se em mais uma digressão pelo estrangeiro e dizer que nada sabia nem tinha a ver com o assunto.
Podem ter-se visto muitos resultados desta passagem de Gil pelo Ministério da Cultura do Brasil; para além do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo (que é justo destacar), já disse que não sei. Sei o que nunca se viu (pelo menos que eu tenha dado por isso): um ministro com sentido de Estado, sentido de dever, ética republicana, espírito de missão. Gil sempre se achou mais importante que o país ou o seu ministério. Por “dificuldades para conciliar as atribuições oficiais do cargo de ministro da Cultura com a sua carreira artística”, Gilberto Gil já não é ministro da Cultura do Brasil. E o Rio de Janeiro continua lindo.
2008/07/31
Mearsheimer e Walt atacaram o AIPAC mas apoiam J Street
Continuando o texto anterior:
Em 2006, quando John J. Mearsheimer, da Universidade de Chicago, e Stephen Walt, de Harvard, publicaram The Israel Lobby amd the US Foreign Policy, primeiro um artigo na London Review of Books (LRB) e depois um livro (em 2007), receberam mais insultos que elogios. Quebraram um tabu, ao afirmar que, depois da Guerra Fria, Israel se tornou um fardo mais do que um trunfo estratégico para os Estados Unidos. Dois anos depois, o aparecimento de J Street vai ao encontro de uma das suas recomendações, no capítulo final: "A criação de um 'novo lobby' que pressione a favor de políticas mais inteligentes".
Falando em seu nome e no de Mearsheimer, numa entrevista ao P2 por e-mail, Walt esclarece que nenhum deles esteve envolvido na génese de J Street: "Achamos que é um desenvolvimento positivo [embora] não tenhamos provas de que haja uma ligação directa com o nosso livro. O que é mais evidente é que ambos [o livro e o novo lobby] reflectem uma crescente tomada de consciência de que a política dos Estados Unidos para o Médio Oriente é obviamente má e não serve os interesses da América nem os de Israel. Nós enfatizamos isto no nosso livro, mas outras pessoas, incluindo os fundadores de J Street, seguramente que compreenderam isto muito antes de o nosso livro ter sido publicado."
"Não há nada de errado em ter uma comunidade pró-israelita politicamente influente nos Estados Unidos, se [o objectivo] for lutar por políticas com sentido estratégico e moral, em vez das políticas contraproducentes dos grupos que o AIPAC [American Israel Political Action Committee] tem apoiado", frisam Walt, 53 anos, e Mearsheimer, de 61, seguidores da teoria do "realismo ofensivo", segundo a qual o interesse nacional deve ser a única motivação da política externa de um país.
Ambos mantêm a afirmação de que "o apoio incondicional de Israel - sobretudo das suas políticas brutais em relação aos palestinianos nos territórios ocupados - é uma das razões, ainda que não a única razão, do anti-americanismo crescente no mundo árabe e islâmico". E acrescentam: "Uma política mais equilibrada dos EUA em relação a Israel e aos árabes não resolveria todos os problemas na região mas afastaria um dos principais focos de tensão e facilitaria a resolução de outros problemas. Também achamos que uma política mais equilibrada seria do interesse de Israel, porque estaria mais em consonância com as noções básicas de decência e justiça."
Em The Israel Lobby, encomendado (em 2002) e rejeitado (em 2004) pela Atlantic Monthly, Mearsheimer e Walt recomendam que Israel seja tratado como "um país normal". Esse é também um velho sonho sionista, mas que prazo para isso ser possível? "Se começarmos a ter um discurso mais aberto e honesto sobre Israel e os Estados Unidos, as atitudes e as políticas podem mudar rapidamente", respondem. "Mas, claro, é por isso que grupos no [velho] lobby se esforçam tão arduamente por impedir uma discussão franca."
Apesar de acusações de "anti-semitismo", de "ensaio conspirativo" ou de "trabalho científico medíocre", os autores de The Israel Lobby garantem que as suas carreiras, como membros de uma elite académica (Walt foi, entre 2002 e 2006, reitor da Kennedy School of Government em Harvard), não foram arruinadas. "É cedo para avaliar o impacto do nosso livro, mas acreditamos que contribuímos para um debate mais livre sobre esta questão importante. Ainda é muito complicado um diálogo crítico sobre a política israelita, as relações Estados Unidos-Israel e o próprio lobby."
"Silenciar o debate, caluniando as pessoas como 'anti-semitas', é inconsistente com os princípios da liberdade de expressão e dificulta ainda mais a discussão séria de assuntos vitais", concluem os dois autores. "Se não pudermos discutir esses assuntos, os EUA vão provavelmente continuar as suas políticas insensatas no Médio Oriente, em detrimento de todos os envolvidos". M.S.L.
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EUA,
Médio Oriente
"Há um novo lobby judeu na América e não tem medo de criticar Israel"
O seguinte artigo do Público de 22 de Julho aborda um dos poucos temas tabu nos EUA: é impossível ter-se uma posição (moderadamente) pró-palestiniana no conflito israelo-árabe. Um político que não jure "apoio incondicional a Israel" não tem hipótese de ser eleito. Um comentador que critique frontalmente Israel nos EUA não pode ser levado a sério.
Felizmente há um grupo - de judeus - que pretende altera minimamente est situação. Conseguirá? Pelo "apoio incondicional" a Israel já manifestado por Barack Obaa, este novo e bem vindo lóbi judeu ainda tem muito que fazer. Boa sorte é o que eu lhes desejo.
Felizmente há um grupo - de judeus - que pretende altera minimamente est situação. Conseguirá? Pelo "apoio incondicional" a Israel já manifestado por Barack Obaa, este novo e bem vindo lóbi judeu ainda tem muito que fazer. Boa sorte é o que eu lhes desejo.
Chama-se J Street. Porque não há rua J em Washington e porque a K Street está cheia de lobbies que "apoiam ruidosamente Israel em situações de guerra mas ficam silenciosos em negociações de paz". Tem um poderoso adversário: o grande lobby judeu AIPAC, "infiltrado" pela direita israelita, por neo-conservadores e cristãos fundamentalistas. Mas também um potencial aliado: Barack Obama, que hoje chega a Jerusalém.
Em Washington não há nenhuma J Street (as ruas horizontais vão directamente do I ao K), mas é aqui que as palavras de Barack Obama durante a visita que hoje inicia a Israel serão ouvidas, provavelmente, com mais atenção. J Street é o nome de um novo lobby judeu nos Estados Unidos que alguns analistas prevêem irá "mudar o mapa político americano e do Médio Oriente".
Reparem no que diz ao P2, por telefone, Daniel Levy, um dos cem membros do conselho consultivo de J Street. "Hoje em dia, é muito difícil dizer 'Eu apoio Israel, ponto final'. Porque a pergunta a seguir é. 'Que Israel? Israel dos colonos ou Israel que quer acabar com a ocupação? Israel que quer destruir o Hamas ou Israel que acredita que é preciso negociar, ainda que indirectamente, com o Hamas? Israel que quer reter os Montes Golã e não acha importante dialogar com a Síria ou Israel que quer tratados de paz com os vizinhos sendo que isso implica devolver territórios?"
"Hoje, já não é convincente o argumento de que o modo incondicional como a América apoia Israel é bom para a América e para Israel", frisa Levy, asseverando que J Street não terá medo de enfrentar um primeiro-ministro israelita que não comungue as posições do grupo - sondagens apontam como favorito em próximas legislativas o "falcão" Benjamin Netanyahu. E até podem acusá-lo de ser "anti-semita" ou "self-hating Jew" (judeu que se odeia a si próprio) - expressões frequentemente usadas para silenciar os críticos das acções de Israel. "Os israelitas, por estreita ou larga margem, podem eleger um líder que se opõe ao processo de paz, mas não seremos apoiantes de opositores de paz.".
"Haverá pessoas que irão intimar-nos: 'Vocês têm de apoiar o governo israelita!'", reconhece Levy. "Mas eu responderei que isso não se aplica a nenhum outro país. Eu posso ser pró-Venezuela e não apoiar a política de Hugo Chávez. Posso ser um grande admirador da República Checa mas posso não achar uma boa ideia instalar ali um sistema americano de defesa antimíssil. Todos nós, na América, sobretudo os judeus, temos ligações emocionais a Israel, mas não podemos deixar de ser racionais, como se Israel vivesse noutro planeta. Será uma política destrutiva ajudar Israel avaliando-o segundo padrões diferentes. Israel precisa de fronteiras negociadas e reconhecidas. Às vezes abraçamos Israel quase até à morte. Amamos Israel de uma maneira que não é saudável. É como darmos as chaves do carro a um amigo embriagado."
Israel é o maior receptor de ajuda dos Estados Unidos (3000 milhões de dólares anuais). No entanto, como já havia notado Levy num artigo na American Prospect, não é submetido a qualquer pressão. Pelo contrário, "pode gozar uma ocupação de luxo - já gastou mais de dez mil milhões de dólares em colonatos desde 1967." Ora, este "vício de mau comportamento sem consequências conduz à tentação de uma escalada (...) e estrangula uma solução viável de dois Estados."
Alternativa ao AIPAC
As palavras são duras, mas Levy é um "peso-pesado". Cientista político de origem inglesa, é filho de Michael Levy, membro da Câmara dos Lordes, líder da comunidade judaica no Reino Unido e um dos maiores angariadores de fundos da campanha de Tony Blair. Foi conselheiro de três líderes israelitas - Ehud Barak, Yossi Beilin e Haim Ramon. Participou nas negociações com os palestinianos em 1995 (Oslo B) e em 2001 (Taba). Foi um dos principais redactores da Iniciativa de Genebra (um ambicioso plano de paz) e agora é senior fellow da Century Foundation e da New American Foundation. O seu blogue, Prospects for Peace, é um dos mais lidos na Web.
Não o confundam com os anti-sionistas de extrema-esquerda Noam Chomsky ou Norman Finkelstein. Mas também não o incluam no grupo de neo-conservadores de Bernard Lewis. Assumidamente "liberal e progressista", coloca-se no "centro político". Embora não pertença ao "núcleo duro" de J Street, cujo director executivo é Jeremy Ben-Ami, antigo conselheiro do ex-Presidente Bill Clinton e neto dos fundadores de Telavive, Daniel Levy tem sido descrito como "o ideólogo" e Ben-Ami como o "chefe de operações" do novo lobby.
E este, apresentando-se como "braço político do movimento pró-Israel e pró-paz" nos EUA (as suas bases são organizações como American for Peace Now e Israel Policy Forum), quer ser "uma alternativa" ao velho establishment judaico, "infiltrado" pela direita israelita do Likud, pelos neocon e por cristãos evangélicos fundamentalistas. Ou como Levy os caracterizou, "uma combinação que tem sido um desastre para a política americana e para Israel."
É uma tarefa árdua, "redefinir o que é ser pró-Israel", já que o AIPAC tem 200 funcionários, 100 mil membros e um orçamento anual de 60 milhões de dólares, enquanto J Street tem quatro funcionários, 1,5 milhões de dólares e, por enquanto, apenas 40 mil "filiados". Nada que atemorize Daniel Levy. "Conseguir a adesão de 40 mil pessoas em apenas três meses é significativo", sublinha. Mais: do orçamento de 1,5 milhões, cerca de 1,1 milhões já foram angariados online.
A Internet é uma das ferramentas com que J Street tenciona fazer a diferença. "Estamos a usar os instrumentos modernos de organização política, como o MoveOn.org [um projecto virtual que inspirou também a campanha de Obama]. Queremos criar uma grande circunscrição online, que permita financiar candidatos favoráveis à paz, já que somos também um PAC [Political Action Committee]".
Uma morada na Internet
Entre os primeiros candidatos ao Congresso apoiados por J Street está um republicano, Charles Boustany, o que responde às dúvidas dos que se interrogavam sobre se o novo lobby só estaria ao lado de democratas. Há quem acredite que estes apoios vão abalar, ainda que modestamente, a influência do big brother AIPAC no Capitólio. Exemplo: Agora, sempre que alguém vir o seu financiamento reduzido por ter feito declarações que o AIPAC considera "anti-Israel", pode sempre telefonar para J Street a pedir o dinheiro que faltou, ainda que J Street seja mais um endereço URL do que um edifício.
O nome foi propositadamente escolhido para preencher um vazio, tem explicado Ben-Ami. Porque não há rua J em Washington e porque a K Street está cheia de lobbies que "apoiam ruidosamente Israel em situações de guerra mas ficam silenciosos em negociações de paz". Esta frase, colocada num anúncio no New York Times, é uma implícita referência ao AIPAC com o qual muitos judeus americanos e israelitas já não se identificam.
Entre os 100 membros do conselho consultivo de J Street há rabis, académicos, políticos, CEO e prémios Nobel. E entre os supporters (apoiantes) em Israel estão diplomatas, políticos, ex-generais e antigos operacionais dos serviços secretos. É o caso de Yossi Alpher, que foi responsável da Mossad e agora colabora no site israelo-palestiniano bitterlemons.
Inquirido pelo P2 sobre a sua adesão ao novo lobby, Alpher respondeu por e-mail: "Estou convicto de que Israel merece estar mais bem representado entre os judeus americanos no que diz respeito a questões do processo de paz. J Street, ao contrário do AIPAC, é muito mais representativo da opinião dos judeus americanos."
Isso não dissuadiu, porém, Barack Obama de discursar na conferência anual da AIPAC. O senador do Illinois, cujo nome do meio é Hussein, tinha de provar as suas credenciais "pró-Israel", até porque precisa do eleitorado judeu que está a ser cortejado pelos republicanos em swing states, como a Florida. Foi aplaudido de pé quando declarou que "Jerusalém permanecerá a capital de Israel e deve continuar indivisível".
Claro está que os árabes, encorajados por anteriores declarações de Obama em que admitiu "não concordar com todas as acções do Estado de Israel" e retratou o conflito israelo-palestiniano como "uma ferida aberta que infecta toda a política externa dos EUA" (The Atlantic), ficaram decepcionados. Dias depois, Obama deu uma entrevista à CNN, esclarecendo que o estatuto de Jerusalém " é uma questão a ser negociada pelas partes".
Levy achou importante esta clarificação. "Ele aceitou os 'Parâmetros Clinton', ou seja, que os bairros árabes em Jerusalém serão palestinianos e os bairros judeus serão israelitas. O que ele quis dizer é que não deve haver um arame farpado a dividir a cidade como em 1967 [antes da Guerra dos Seis Dias], e até admitiu que a frase que usou [na convenção do AIPAC] não foi bem escolhida. Também disse que Israel precisa, para sua segurança, de uma solução de dois Estados. E esta é uma posição encorajadora."
Além disso, mais do que a referência à Jerusalém, o que foi importante, para Levy, no discurso de Obama ao AIPAC foi a promessa de que resolver o conflito israelo-palestiniano será uma prioridade. O apoio que exprimiu às negociações entre Israel e a Síria. E a afirmação de que, na abordagem ao Irão, privilegiará a diplomacia e não uma nova guerra.
O Irão e o reverendo Hagee
Quanto ao generalizado sentimento israelita de que o Irão constitui uma ameaça existencial e tem de ser contido, a análise de Levy é esta: "Acho que, em Israel, há uns genuinamente preocupados e outros que criam um pânico desnecessário, por causa das coisas nojentas que o Presidente [Mahmoud] Ahmadinejad diz e também das ambições do Irão de ser uma potência regional. Há uma mobilização em Israel para a necessidade de bombardear o Irão. Os israelitas olham para o passado e dizem: 'Bombardeámos o reactor no Iraque, bombardeámos algo na Síria e por isso OK, podemos bombardear os vizinhos, porque resulta. O problema é que o debate público não está a considerar que a situação no Irão é muito diferente e muito perigosa se houver uma guerra."
Levy compara o ambiente em Israel com o que existe em muitas sociedades em conflito. "Os israelitas são frequentemente tentados a pensar: 'Não há solução, vamos bombardeá-los', o que até é compreensível, mas não é uma boa política. Uma maioria de israelitas apoiou a guerra no Líbano há dois anos, mas agora admitem que foi um fucking mistake, mas na altura achavam que era uma grande ideia. A maioria dos israelitas apoia ataques militares na Faixa de Gaza mas também apoia o cessar-fogo com o Hamas. Há muitas dissonâncias nas sociedades em conflito. Eu creio que os israelitas ficariam muito felizes se houvesse uma solução diplomática para o Irão."
Levy está, por isso, entusiasmado com a campanha de J Street contra uma guerra no Irão: "Uma carta a todos os candidatos ao Congresso obteve mais de 30 mil assinaturas online numa semana". Outro sucesso que o novo lobby reclama é uma petição que forçou o candidato republicano, John McCain, a renegar o apoio do reverendo John Hagee, pastor da congregação Christians United for Israel (CUI), aliada do AIPAC.
Na ânsia de apressar o "segundo regresso do Messias", Hagee fez recentemente um sermão que causou uma onda de repulsa: "Deus disse a Jeremias: 'Enviarei muitos pescadores e depois enviarei muitos caçadores'. Os pescadores são os sionistas, homens como Theodor Herzl. (...) E os caçadores? Hitler foi um caçador. Como é que isso [o Holocausto] aconteceu? Porque Deus permitiu que acontecesse. Por que aconteceu? Porque Deus disse: 'A minha máxima prioridade é fazer retornar o povo judeu à Terra de Israel."
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2008/07/29
2008/07/28
O besteirol dos 500 anos
No rescaldo da atribuição do Prémio Camões 2008 a João Ubaldo Ribeiro, achei que vinha a propósito recordar aqui um artigo deste autor, publicado em 2000, sobre a famosa polémica do "achamento" versus "descobrimento" do Brasil. Sobre este assunto, creio que o autor de Viva o Povo Brasileiro sabe muito bem o que diz. É um texto polémico, porém.
O besteirol dos 500 anos, João Ubaldo Ribeiro, O Estado de S. Paulo, 24/04/2000
Levando-se em conta nossa pitoresca realidade contemporânea, até que a quantidade de besteiras ditas e escritas sobre o controvertido aniversário do Brasil não dá para surpreender. O que chateia um pouquinho é que diversas dessas besteiras continuarão a perseguir-nos pela vida afora, algumas talvez trazendo conseqüências indesejadas. A principal delas, naturalmente, é a de que o Brasil começou em 1500, quando nem mesmo no nome isso aconteceu, posto que éramos uma ilha quando os portugueses primeiro viram as terras daqui e, durante muito tempo, o Brasil que duvidosamente existia não tinha nada a ver com o Brasil de hoje.
A impressão que se tem é que, do povo às autoridades e mesmo aos entendidos, acha-se que o Brasil já estava no mapa, com as fronteiras e características atuais, no momento em que Cabral chegou. Teria tido até um nome nativo, já proposto, pelos mais exaltados, para substituir "Brasil": Pindorama, designação supostamente dada pelos índios ao nosso país. Não sou historiador, mas também não sou tão burro assim para acreditar que os índios tinham qualquer noção geopolítica, ou alguma idéia de que pertenciam a um "país" chamado Pindorama. Não havia qualquer país, é claro, nem sequer a palavra Pindorama devia fazer sentido para os ocupantes que os portugueses encontraram aqui, se é que ela era usada mesmo. No máximo, significaria o único mundo conhecido deles. Parece assim que os nossos índios administravam impérios e cidades como os dos maias, astecas ou incas, quando na verdade, que perdura até hoje, viviam neoliticamente e a maioria esgotava o numerais em três - era o máximo que conseguiam contar e o resto se designava como "muito".
O besteirol dos 500 anos, João Ubaldo Ribeiro, O Estado de S. Paulo, 24/04/2000
Levando-se em conta nossa pitoresca realidade contemporânea, até que a quantidade de besteiras ditas e escritas sobre o controvertido aniversário do Brasil não dá para surpreender. O que chateia um pouquinho é que diversas dessas besteiras continuarão a perseguir-nos pela vida afora, algumas talvez trazendo conseqüências indesejadas. A principal delas, naturalmente, é a de que o Brasil começou em 1500, quando nem mesmo no nome isso aconteceu, posto que éramos uma ilha quando os portugueses primeiro viram as terras daqui e, durante muito tempo, o Brasil que duvidosamente existia não tinha nada a ver com o Brasil de hoje.
A impressão que se tem é que, do povo às autoridades e mesmo aos entendidos, acha-se que o Brasil já estava no mapa, com as fronteiras e características atuais, no momento em que Cabral chegou. Teria tido até um nome nativo, já proposto, pelos mais exaltados, para substituir "Brasil": Pindorama, designação supostamente dada pelos índios ao nosso país. Não sou historiador, mas também não sou tão burro assim para acreditar que os índios tinham qualquer noção geopolítica, ou alguma idéia de que pertenciam a um "país" chamado Pindorama. Não havia qualquer país, é claro, nem sequer a palavra Pindorama devia fazer sentido para os ocupantes que os portugueses encontraram aqui, se é que ela era usada mesmo. No máximo, significaria o único mundo conhecido deles. Parece assim que os nossos índios administravam impérios e cidades como os dos maias, astecas ou incas, quando na verdade, que perdura até hoje, viviam neoliticamente e a maioria esgotava o numerais em três - era o máximo que conseguiam contar e o resto se designava como "muito".
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2008/07/24
O concerto

Passeio Marítimo de Algés, 19-07-2008, 21 horas. Alinhamento aproximado:
Dance Me To The End Of Love
The Future
Ain't No Cure For Love
Bird On The Wire
Everybody Knows
In My Secret Life
Who By Fire
Anthem
Intervalo
Tower Of Song
Suzanne
Gypsy Wife
Boogie Street
Hallelujah
Democracy
I'm Your Man
A Thousand Kisses Deep (recital)
Take This Waltz
Heart With No Companion
So Long, Marianne
First We Take Manhattan
That Don't Make It Junk
Closing Time
I Tried to Leave You
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Música
Closing time
Quase a encerrar um belo concerto. Tal como com Chico Buarque, eu não poderia deixar de gostar, mas de qualquer maneira foi uma grande noite. Só foi pena faltarem Chelsea Hotel e Famous Blue Raincoat. Haverá uma próxima vez?
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