2008/07/23
Concertos de uma vida
Há muitos anos que esperava por assistir a um concerto do Leonard Cohen, tal como esperei pelo do Chico Buarque (em Novembro de 2006). Tal como do Chico, só havia visto um concerto dedicado ao Leonard Cohen, em Nova Iorque (e excelente, em Junho de 2003, no Prospect Park, adaptada a filme: “I’m Your Man”. Com a família Wainwright e, ironicamente, Lou Reed!). E exactamente como no do Chico, receio que tenha sido a última oportunidade de ver o Leonard ao vivo. Por isto o concerto (9000 pessoas na assistência no Passeio Marítimo de Algés) merece um destaque especial.
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Música
2008/07/22
2008/07/21
Dinossauros? Quais dinossauros?
"Os dinossauros passaram por aqui" é a manchete do suplemento P2 do Público de hoje. Julguei que se estivesse a referir ao Leonard Cohen ou ao Lou Reed (que tocaram este fim de semana em Lisboa). Mas não: era mesmo a dinossauros.
Pequeno resumo do concerto do Leonard Cohen amanhã ou depois.
Pequeno resumo do concerto do Leonard Cohen amanhã ou depois.
2008/07/19
2008/07/18
Da conversa de Lula com o "doutor Mário"
... (quarta à noite, na RTP1), ficam principalmente estas frases, que cito de memória: "agora, que exerço o poder, não tenho o direito de sonhar mais. O mandato é de quatro anos, e eu tenho que fazer o melhor possível." Só mesmo um homem muito sábio como Lula para arrumar numa frase a "imaginação ao poder" e os soixante-huitards (que mais depressa votam nos tucanos que nele).
Também ficou muito bem a Mário Soares citar Fidel Castro, no fim da entrevista: os homens de esquerda no poder têm que ser "cavaleiros da esperança".
Também ficou muito bem a Mário Soares citar Fidel Castro, no fim da entrevista: os homens de esquerda no poder têm que ser "cavaleiros da esperança".
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Cinco Dias,
Esquerda
2008/07/17
Re: Debate sobre a Regionalização - a questão do Porto
Caro Pedro,
respondendo sinteticamente (e em estéreo):
1 - Muito obrigado pelos teus esclarecimentos. Desconhecia o facto de o centro histórico de Gaia já ter pertencido ao Porto, bem como o porto de Leixões. Eu sou favorável a municípios fortes, pelo que nada tenho a opor a essa putativa união (nem teria que me opor ou deixar de opor). Só referi essa questão porque achei graça à forma como ela foi posta no tal debate a que assistimos, na intervenção do público: houve quem falasse em o Porto "anexar" ou "absorver" Gaia. Achei graça à leviandade com que se falava em absorver, como se os gaienses, que presentemente até são mais que os portuenses (daí a minha sugestão de Gaia absorver o Porto), não fossem para ali chamados! Mas é preciso dizer que também houve quem falasse em "unir" Porto, Gaia e Matosinhos (sem falar em "absorver").
2 e 3 - Essas são as questões mais interessantes. Haveremos de as continuar a debater. Mas mantenho a impressão de que ninguém anseia mais a regionalização do que o Porto, e na verdade muitos supostos regionalistas no Porto ambicionam mais do que a regionalização. Não é "Lisboa" ter medo do Porto: é o resto do país ter medo do separatismo. Basta considerar o discurso dos regionalistas mais inflamados - o que não falta são candidatos a Umberto Bossi.
4 - Sobre o estafado argumento "constitucional", tu não o usas, e nem ninguém do Blasfémias (ninguém do Blasfémias defende a nossa constituição). Mas olha que há muita gente, principalmente à esquerda, que o usa. Suspeito mesmo que alguns elementos do Norteamos o apoiam. Já experimentaste perguntar-lhes?
Também foi um prazer conhecer-te pessoalmente, e até à próxima. Até lá haveremos de continuar a debater.
respondendo sinteticamente (e em estéreo):
1 - Muito obrigado pelos teus esclarecimentos. Desconhecia o facto de o centro histórico de Gaia já ter pertencido ao Porto, bem como o porto de Leixões. Eu sou favorável a municípios fortes, pelo que nada tenho a opor a essa putativa união (nem teria que me opor ou deixar de opor). Só referi essa questão porque achei graça à forma como ela foi posta no tal debate a que assistimos, na intervenção do público: houve quem falasse em o Porto "anexar" ou "absorver" Gaia. Achei graça à leviandade com que se falava em absorver, como se os gaienses, que presentemente até são mais que os portuenses (daí a minha sugestão de Gaia absorver o Porto), não fossem para ali chamados! Mas é preciso dizer que também houve quem falasse em "unir" Porto, Gaia e Matosinhos (sem falar em "absorver").
2 e 3 - Essas são as questões mais interessantes. Haveremos de as continuar a debater. Mas mantenho a impressão de que ninguém anseia mais a regionalização do que o Porto, e na verdade muitos supostos regionalistas no Porto ambicionam mais do que a regionalização. Não é "Lisboa" ter medo do Porto: é o resto do país ter medo do separatismo. Basta considerar o discurso dos regionalistas mais inflamados - o que não falta são candidatos a Umberto Bossi.
4 - Sobre o estafado argumento "constitucional", tu não o usas, e nem ninguém do Blasfémias (ninguém do Blasfémias defende a nossa constituição). Mas olha que há muita gente, principalmente à esquerda, que o usa. Suspeito mesmo que alguns elementos do Norteamos o apoiam. Já experimentaste perguntar-lhes?
Também foi um prazer conhecer-te pessoalmente, e até à próxima. Até lá haveremos de continuar a debater.
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Cinco Dias,
Regionalização
2008/07/16
Tudo vira bosta
Quinze dias depois, finalmente tenho um pouco de tempo para escrever sobre o concerto da Rita Lee.
Rita Lee é a recordista na interpretação de canções de abertura de telenovelas da Globo. Até há uns dois ou três anos eu não gostava da Rita Lee. Achava-a uma cantora de abertura de telenovelas (e isto nem é assim tão mau – eu gosto de uma boa telenovela brasileira). Achava-a uma cantora vulgar.
Até que calhou ouvir o álbum Acústico MTV (editado em 1998), onde os seus maiores sucessos são revisitados com arranjos excelentes. O melhor é mesmo o dueto com Milton Nascimento (que mostrei aqui), mas todo o resto do álbum é muito bom. Associado a esta descoberta tardia, veio o álbum que continha músicas deliciosas como Amor e Sexo (de Arnaldo Jabor) e, sobretudo, Tudo Vira Bosta (um hino para a esquerda que chega ao poder). A Rita Lee era acima de tudo uma entertainer que cantava umas coisas giras, que se bem musicadas dariam um óptimo resultado, mas acima de tudo era uma cantora para não se levar demasiado a sério. Por isso mesmo só era bem apreciada por quem tinha mais de trinta anos (a idade com que eu comecei a gostar da Rita Lee). Era como o vinho do Porto. Pensava eu.
No concerto, a minha opinião infelizmente mudou. Vi uma grande falta de improvisação e espontaneidade (que era o que eu mais esperava). Vi uma cantora certinha, sem rasgo e que, embora comunicasse com o público, não tinha grande graça. Que saudades da Rita Lee da Saia Justa – e eu que esperava que ela viesse fazer tricô para o palco! Ouvi as suas aventuras com as vendedoras de calças – a Rita Lee vem a Lisboa visitar os centros comerciais… Tudo parecia já visto por mim, nalgum programa de televisão. Tudo parecia igualzinho a um show da Globo. Tudo muito vulgar.
Recordo agora e compreendo melhor a minha opinião sobre a Rita Lee antes dos 30 anos. Foi essa Rita Lee que eu vi no Coliseu. Não deixarei de forma nenhuma de a ouvir, mas dificilmente ela me apanha noutro concerto.
2008/07/15
No rescaldo do Porto
O reaccionarismo latente que denunciei há quatro anos não só se mantém como está ainda mais requintado: se fizerem uma pesquisa de uma morada nos mapas do SAPO, verão que não obterão resposta nenhuma se não incluírem o "de" no nome da rua!
Mas não dêem demasiada importância a isto. Esta cidade é linda e é sempre um prazer cá voltar. Até à próxima!
Mas não dêem demasiada importância a isto. Esta cidade é linda e é sempre um prazer cá voltar. Até à próxima!
2008/07/14
2008/07/11
Do Porto
Desde anteontem encontro-me no Porto a participar em mais um Oporto Meeting on Geometry, Topology and Physics. Mas ontem à noite aproveitei para assistir a um debate sobre regionalização promovido pela Câmara Municipal do Porto e moderado por Rui Rio (ele mesmo). Ao contrário do que é costume em Lisboa, no Porto havia intervenção do público, no final. Intervim como agente provocador. Aqui estão as linhas mestras do meu comentário:
- deixei bem claro que a descentralização era indispensável e não tinha nenhum problema em especial com a regionalização. O problema era mesmo o Porto;
- falou-se no debate que o Porto deveria absorver Gaia (assim mesmo, abertamente), formando uma só cidade. A ideia não era má, mas algo incorrecta: o certo seria Gaia absorver o Porto (e acabar de vez com o Porto);
- todo o país tem que se queixar do centralismo e das desigualdades regionais, mas só no Porto se fala de regionalização. O que motiva o Porto não é a descentralização mas a inveja de Lisboa e uma nova centralização, a norte (o centralismo tripeiro);
- eu votaria contra a regionalização. Para votar a favor teria de se regionalizar todo o país excepto o Porto. A região norte seria à volta do Porto; o Porto seria um enclave nortenho da região de Lisboa;
- a quem invoca a constituição para defender a regionalização, recordo que na altura em que isso foi escrito (1975) o socialismo também era um imperativo constitucional. E que tal se, antes de implantarmos a regionalização, implantássemos o socialismo?
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Regionalização
2008/07/10
O exemplo de Mrs. Naugatuck


Já pelo menos noutra ocasião recordei a excelente série Maude, originalmente transmitida nos anos 70 mas que, em Portugal, só chegou no final dos anos 80. A ultraliberal e feminista Maude (uma caricatura da esquerda americana da altura) tinha, como não podia deixar de ser, uma empregada. Uma das empregadas (a que durou mais tempo na série), a inglesa Mrs. Naugatuck, era interna. Não me esqueço do episódio em que decide ter a sua própria casa e diz à patroa (que está algo contrariada, habituada a tê-la 24 horas por dia em casa), quando esta a vai visitar: “Aqui tenho a liberdade de a pôr na rua se me apetecer!”. Qualquer pessoa tem direito a isso. Qualquer pessoa tem o direito a não ter um senhorio, pelo menos a partir de certa altura na sua vida.
2008/07/09
As duas faces do proteccionismo no arrendamento
Vale a pena atentar nos comentários que um tal “Luís” (não é Lavoura nem Rainha), que alguma relação terá com a Associação Lisbonense de Proprietários, tem vindo a deixar nos meus textos. É isso que faço agora. Diz Luís:
É notável a convicção com que afirma que os imóveis “não existiriam”. Bem, não é essa a história de todos os imóveis construídos em Lisboa durante o Estado Novo. Há bairros sociais como o Arco Cego, Alvalade (atrás do Campo Grande) e a Encarnação. Não são as zonas mais dinâmicas de Lisboa, é verdade, mas ainda hoje existem e estão para durar.
Mesmo assim, se é verdade que grande parte de Lisboa foi construída no Estado Novo com o objectivo de arrendar, tal resultou de um contrato social. Imposto pelo salazarismo, é certo, mas nem por isso deixa de ser um contrato. Em que consistia o tal contrato? Em troca de acesso à compra de prédios para alugar, era imposto o congelamento de rendas. Aos senhorios Salazar facilitava a compra de casa (como facilitou muita coisa, noutra escala, a senhores como Mello e Champalimaud); aos inquilinos, era facilitado o arrendamento. O Luís lá terá as suas razões para afirmar que a construção destes prédios “deu casa a muita gente” e “não teria sido possível” se não fosse para arrendar. O que o Luís se esqueceu de perguntar foi: teriam esses prédios sido construídos, teriam essas casas sido ocupadas sem o regime de congelamento de rendas imposto por Salazar? Pois é…
De qualquer maneira não defendo de forma nenhuma o congelamento de rendas como opção ideal. Se na prática indirectamente o defendo (ou seja, se sou contra um aumento brutal das rendas) é porque tal é um mal menor. Com efeito, a meu ver a grande injustiça do mercado imobiliário está na grande concentração de prédios inteiros nessas famílias de senhorios do tempo do salazarismo (pequenos burgueses proprietários protegidos por Salazar – verdadeiros Champalimauds de trazer por casa). Uma concentração que, hoje em dia, em pleno século XXI, várias décadas depois do Estado Novo, não faz sentido absolutamente nenhum.
Dito isto, não sou contra o mercado de aluguer de casas, embora ache que não deva ser encorajado. Mas acho notável o descaramento dos vários herdeiros dos protegidos de Salazar que têm comentado os meus textos, quando afirmam que hoje em dia, com a precariedade e a instabilidade, é preferível alugar uma casa a comprá-la e que é melhor ter um senhorio “à antiga” do que ter o banco como senhorio. Embora reconheça que é preocupante a quantidade de crédito mal-parado em Portugal e me revoltem os enormes lucros do sector bancário (muito à custa dos empréstimos para comprar casa), tal comparação é profundamente desonesta. Se tudo correr bem, em condições normais, ao fim de um certo número de anos a casa comprada está paga ao banco e pertence a quem pediu o empréstimo. Hoje em dia é ainda mais uma operação de risco, e por isso quem a faz merece apoio e admiração. Uma casa alugada está a ser paga uma vida inteira pelo inquilino para no fim ficar… para os netos e bisnetos dos pequenos burgueses que compraram o prédio. Bem entendemos onde eles querem chegar, bem percebemos o que eles têm a ganhar (com um novo contrato ou se a renda for descongelada) e bem dispensamos os seus “conselhos”.
Fique sabendo que grande parte de Lisboa foi construída dos anos 30 em diante, com o objectivo de arrendar. Sim, foi a aplicação de poupanças. Deu emprego a muita gente e permitiu a muito mais ter habitação. De forma geral, os prédios foram construídos com esse fim específico. Não existiriam se assim não fosse.
É notável a convicção com que afirma que os imóveis “não existiriam”. Bem, não é essa a história de todos os imóveis construídos em Lisboa durante o Estado Novo. Há bairros sociais como o Arco Cego, Alvalade (atrás do Campo Grande) e a Encarnação. Não são as zonas mais dinâmicas de Lisboa, é verdade, mas ainda hoje existem e estão para durar.
Mesmo assim, se é verdade que grande parte de Lisboa foi construída no Estado Novo com o objectivo de arrendar, tal resultou de um contrato social. Imposto pelo salazarismo, é certo, mas nem por isso deixa de ser um contrato. Em que consistia o tal contrato? Em troca de acesso à compra de prédios para alugar, era imposto o congelamento de rendas. Aos senhorios Salazar facilitava a compra de casa (como facilitou muita coisa, noutra escala, a senhores como Mello e Champalimaud); aos inquilinos, era facilitado o arrendamento. O Luís lá terá as suas razões para afirmar que a construção destes prédios “deu casa a muita gente” e “não teria sido possível” se não fosse para arrendar. O que o Luís se esqueceu de perguntar foi: teriam esses prédios sido construídos, teriam essas casas sido ocupadas sem o regime de congelamento de rendas imposto por Salazar? Pois é…
De qualquer maneira não defendo de forma nenhuma o congelamento de rendas como opção ideal. Se na prática indirectamente o defendo (ou seja, se sou contra um aumento brutal das rendas) é porque tal é um mal menor. Com efeito, a meu ver a grande injustiça do mercado imobiliário está na grande concentração de prédios inteiros nessas famílias de senhorios do tempo do salazarismo (pequenos burgueses proprietários protegidos por Salazar – verdadeiros Champalimauds de trazer por casa). Uma concentração que, hoje em dia, em pleno século XXI, várias décadas depois do Estado Novo, não faz sentido absolutamente nenhum.
Dito isto, não sou contra o mercado de aluguer de casas, embora ache que não deva ser encorajado. Mas acho notável o descaramento dos vários herdeiros dos protegidos de Salazar que têm comentado os meus textos, quando afirmam que hoje em dia, com a precariedade e a instabilidade, é preferível alugar uma casa a comprá-la e que é melhor ter um senhorio “à antiga” do que ter o banco como senhorio. Embora reconheça que é preocupante a quantidade de crédito mal-parado em Portugal e me revoltem os enormes lucros do sector bancário (muito à custa dos empréstimos para comprar casa), tal comparação é profundamente desonesta. Se tudo correr bem, em condições normais, ao fim de um certo número de anos a casa comprada está paga ao banco e pertence a quem pediu o empréstimo. Hoje em dia é ainda mais uma operação de risco, e por isso quem a faz merece apoio e admiração. Uma casa alugada está a ser paga uma vida inteira pelo inquilino para no fim ficar… para os netos e bisnetos dos pequenos burgueses que compraram o prédio. Bem entendemos onde eles querem chegar, bem percebemos o que eles têm a ganhar (com um novo contrato ou se a renda for descongelada) e bem dispensamos os seus “conselhos”.
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2008/07/08
Segurança
Há um argumento curioso dos defensores do arrendamento de casa – que geralmente defendem também a precariedade laboral. Estes senhores primeiro querem acabar com tudo o que seja segurança no emprego, para depois dizerem que “já não há empregos seguros” que permitam comprar casa - com a instabilidade laboral, hoje em dia quem não herdou uma casa ou não tem pais que lha ofereçam só deve alugar casa e não comprar.
Mais vale estas pessoas defenderem de vez, e abertamente, que querem acabar com o direito à casa própria (tal como querem acabar com o emprego seguro). Eu admito - considero que o mercado de aluguer de casas deve ser a excepção e não a regra. Deve ser desencorajado ao máximo. A menos que desejem uma situação como a da música do vídeo (ouçam até ao fim).
Mais vale estas pessoas defenderem de vez, e abertamente, que querem acabar com o direito à casa própria (tal como querem acabar com o emprego seguro). Eu admito - considero que o mercado de aluguer de casas deve ser a excepção e não a regra. Deve ser desencorajado ao máximo. A menos que desejem uma situação como a da música do vídeo (ouçam até ao fim).
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2008/07/07
Uma terra sem senhorios
Nesta questão das rendas de casa há vários aspectos que acho espantosos.
Acho espantoso que quem defende a “iniciativa” e o “empreendedorismo” acabe a defender uma actividade que de iniciativa e empreendedorismo tem muito pouco ou quase nada. Que empreendedorismo existe em gastar dinheiro em casas para alugar, em vez de fazer aplicações no banco ou jogar na bolsa? Que benefícios traz tal actividade para o crescimento da economia? Que empregos se criam? Que riqueza é produzida em concentrar-se um recurso que deve ser finito e, portanto, não produzido mais do que o necessário (a habitação nas grandes cidades) nas mãos de alguns senhorios endinheirados?
Dir-me-ão: a actual lei das rendas tem paradoxos? Pois é verdade. E conduz a situações ridículas? Pois conduz. Não sou um defensor da actual lei e nem da actual situação, mas não tenho nenhuma simpatia por senhorios ou pelo aluguer de casas enquanto ocupação permanente, e não posso apoiar nenhuma lei que estimule esta actividade. Reconheço que o mercado de aluguer é necessário, mas deve ser complementar, e baseado nas casas que não estão ocupadas por alguma razão. Não deve ser o fundamento, a razão de uma casa, pelo menos de uma casa particular. Uma segunda casa particular num raio mínimo de quilómetros deveria ser para vender e não para alugar. Deveria pagar impostos altos.
De entre as críticas que me fizeram foi a de “não conhecer bem outras realidades”. Pois nos EUA conheci dois casos de “senhorios” cuja única “profissão” era alugar quartos e estúdios a estudantes e investigadores (sem passar recibos e sem pagar impostos). Ganhavam o suficiente assim não só para comerem e eventualmente pagarem um seguro de saúde, mas para manterem as casas para alugarem e terem carros. Não faziam absolutamente mais nada. Não estudavam, não trabalhavam, não progrediam. Nem precisavam, com as casas que tinham recebido de herança. Não eram nenhuns coitados. Este modelo de sociedade ou estilo de vida não são defensáveis nem devem ser encorajados.
Há inquilinos que pagam rendas ridiculamente baixas e de coitados não têm nada, é verdade, mas a diferença em relação aos senhorios é que também há muitos casos de inquilinos com rendimentos de miséria. Nunca conheci nenhum senhorio que fosse pobre. Mesmo assim, gostam de se passar por gente “modesta” que investiu as suas “poupanças” numas “casas” para alugar como “complemento de reforma”. Pois bem, supondo que essas “casas” correspondem no mínimo a um prédio (muitas vezes correspondem a mais), receber rendas de dezenas de euros pelos apartamentos desse prédio correspondem a um bom “complemento de reforma”, pelo menos no que eu entendo por “complemento”. Quem chama a rendas de centenas de euros (a multiplicar por um prédio inteiro) “complemento de reforma” tem uma reforma muito boa! Não deve ter nenhum discurso miserabilista e nem merece compaixão. Em qualquer dos casos, tal rendimento (“complemento” ou não) não resulta de nenhum trabalho ou esforço. Eu não sou contra as pessoas enriquecerem, desde que trabalhem para isso.
O mais curioso é que os maiores defensores do arrendamento de casas têm todos casa própria! Defendem o estímulo do arrendamento, mas arrendar casa não é com eles. Quem os quer ver é nas suas casinhas próprias. Se viver em casa alugada é tão bom, por que não alugam as suas casas uns aos outros e deixam os trabalhadores terem casa própria, uma ambição justa e legítima?
Acho espantoso que quem defende a “iniciativa” e o “empreendedorismo” acabe a defender uma actividade que de iniciativa e empreendedorismo tem muito pouco ou quase nada. Que empreendedorismo existe em gastar dinheiro em casas para alugar, em vez de fazer aplicações no banco ou jogar na bolsa? Que benefícios traz tal actividade para o crescimento da economia? Que empregos se criam? Que riqueza é produzida em concentrar-se um recurso que deve ser finito e, portanto, não produzido mais do que o necessário (a habitação nas grandes cidades) nas mãos de alguns senhorios endinheirados?
Dir-me-ão: a actual lei das rendas tem paradoxos? Pois é verdade. E conduz a situações ridículas? Pois conduz. Não sou um defensor da actual lei e nem da actual situação, mas não tenho nenhuma simpatia por senhorios ou pelo aluguer de casas enquanto ocupação permanente, e não posso apoiar nenhuma lei que estimule esta actividade. Reconheço que o mercado de aluguer é necessário, mas deve ser complementar, e baseado nas casas que não estão ocupadas por alguma razão. Não deve ser o fundamento, a razão de uma casa, pelo menos de uma casa particular. Uma segunda casa particular num raio mínimo de quilómetros deveria ser para vender e não para alugar. Deveria pagar impostos altos.
De entre as críticas que me fizeram foi a de “não conhecer bem outras realidades”. Pois nos EUA conheci dois casos de “senhorios” cuja única “profissão” era alugar quartos e estúdios a estudantes e investigadores (sem passar recibos e sem pagar impostos). Ganhavam o suficiente assim não só para comerem e eventualmente pagarem um seguro de saúde, mas para manterem as casas para alugarem e terem carros. Não faziam absolutamente mais nada. Não estudavam, não trabalhavam, não progrediam. Nem precisavam, com as casas que tinham recebido de herança. Não eram nenhuns coitados. Este modelo de sociedade ou estilo de vida não são defensáveis nem devem ser encorajados.
Há inquilinos que pagam rendas ridiculamente baixas e de coitados não têm nada, é verdade, mas a diferença em relação aos senhorios é que também há muitos casos de inquilinos com rendimentos de miséria. Nunca conheci nenhum senhorio que fosse pobre. Mesmo assim, gostam de se passar por gente “modesta” que investiu as suas “poupanças” numas “casas” para alugar como “complemento de reforma”. Pois bem, supondo que essas “casas” correspondem no mínimo a um prédio (muitas vezes correspondem a mais), receber rendas de dezenas de euros pelos apartamentos desse prédio correspondem a um bom “complemento de reforma”, pelo menos no que eu entendo por “complemento”. Quem chama a rendas de centenas de euros (a multiplicar por um prédio inteiro) “complemento de reforma” tem uma reforma muito boa! Não deve ter nenhum discurso miserabilista e nem merece compaixão. Em qualquer dos casos, tal rendimento (“complemento” ou não) não resulta de nenhum trabalho ou esforço. Eu não sou contra as pessoas enriquecerem, desde que trabalhem para isso.
O mais curioso é que os maiores defensores do arrendamento de casas têm todos casa própria! Defendem o estímulo do arrendamento, mas arrendar casa não é com eles. Quem os quer ver é nas suas casinhas próprias. Se viver em casa alugada é tão bom, por que não alugam as suas casas uns aos outros e deixam os trabalhadores terem casa própria, uma ambição justa e legítima?
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2008/07/04
Daniel do avesso do avesso
Escreve o Daniel Oliveira, directamente dos EUA:
Eu compreendo perfeitamente o que o Daniel escreve. Também o senti muitas vezes, quando viva nos EUA. No meu caso foi, por exemplo, quando participava em manifestações gigantescas contra a Guerra no Iraque em Nova Iorque. Ou quando passava o Thanksgiving na companhia de americanos ecologistas e anarquistas. Uma vez mais, os pró-americanos aplaudiriam? E os anti-americanos reprovariam?
Muitos dos nossos antiamericanos não fazem a menor ideia do que são os EUA. Se fizessem essa ideia, talvez vissem as coisas com outros olhos. Mas exactamente o mesmo pode ser dito de muitos dos mais radicais pró-americanos, os mais ardorosos defensores da invasão do Iraque, que quanto muito dos EUA conhecem o Rockefeller Center e a Quinta Avenida.
O texto do Daniel confirma: ir aos EUA faz bem às pessoas de esquerda.
Bom 4 de Julho para todos.
Estou a adorar os comentários pró e anti-americanos aqui no blogue. Pró e anti o quê? Hoje estive numa gigantesca Marcha do orgulho gay, com polícias, pastores, bombeiros, congressistas e travestis. Os pró-americanos aplaudem? Os anti-americanos reprovam?
Eu compreendo perfeitamente o que o Daniel escreve. Também o senti muitas vezes, quando viva nos EUA. No meu caso foi, por exemplo, quando participava em manifestações gigantescas contra a Guerra no Iraque em Nova Iorque. Ou quando passava o Thanksgiving na companhia de americanos ecologistas e anarquistas. Uma vez mais, os pró-americanos aplaudiriam? E os anti-americanos reprovariam?
Muitos dos nossos antiamericanos não fazem a menor ideia do que são os EUA. Se fizessem essa ideia, talvez vissem as coisas com outros olhos. Mas exactamente o mesmo pode ser dito de muitos dos mais radicais pró-americanos, os mais ardorosos defensores da invasão do Iraque, que quanto muito dos EUA conhecem o Rockefeller Center e a Quinta Avenida.
O texto do Daniel confirma: ir aos EUA faz bem às pessoas de esquerda.
Bom 4 de Julho para todos.
2008/07/02
Algumas “delícias” sobre esses parasitas chamados senhorios
Tenho andado a comentar no Cinco Dias, a propósito de textos de Fernanda Câncio sobre o mercado de aluguer de casas. Enquanto não escrevo sobre esse assunto, vão lendo lá.
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2008/07/01
Mania da Rita
A mais completa tradução da cidade de São Paulo vai estar logo no Coliseu de Lisboa. Não vai haver um momento tão perfeito como o que a seguir mostro (no concerto para a MTV em 1998), mas de certeza que vai valer a pena. Lá estarei e aqui contarei como foi. Entretanto olhem bem para a cara do Bituca a páginas tantas...
2008/06/30
Os direitos da mulher
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