2007/12/05

Petições, indignações e afirmações

Circula uma petição na rede a pedir à Câmara Municipal de Lisboa a edificação de um memorial às vítimas do massacre judaico de 1506. Pessoalmente apoio essa edificação (ou, mais genericamente, de um memorial às vítimas da Inquisição, que inclui os judeus), tal como defendo a edificação de um outro memorial que ninguém defende ou para o qual não se fazem petições: às vítimas da colonização portuguesa, em particular da escravatura. Não pretendo com estes memoriais fazer acertos de contas com a História, nem acho que de forma nenhuma Portugal se deva envergonhar do seu passado. Mas hoje deve recordar-se de alguns crimes trágicos (a inquisição e a escravatura à cabeça), e admitir que os cometeu. Esses memoriais servem para manter essa memória sempre viva.
Dito isto (e espero que tenha ficado bem claro), parece-me interessante averiguar a forma como episódios como o de 1506 em Lisboa são vistos, ainda nos dias de hoje, por quem certamente estaria na linha da frente da defesa da construção do memorial agora em questão. Um exemplo elucidativo é o de George Steiner, ensaísta, filho de judeus vienenses exilados nos EUA para escapar ao nazismo e ao Holocausto. Na recente conferência “A Ciência Terá Limites?”, realizada no final de Outubro na Fundação Calouste Gulbenkian, Steiner afirmou que “uma civilização que mata os seus judeus não recupera”. Eu sou o primeiro a defender que uma civilização que expulsa os seus judeus fica muitíssimo mais pobre (já nem falo em matá-los). Se os mata, então, comete um crime hediondo. Agora… não recupera? Não recupera porquê? Será alguma cabala? E será só com os judeus? Se matar os muçulmanos, os cristãos, os negros, os ciganos, os gays, já recupera? E se essa civilização, depois de matar os judeus, construir um memorial, já pode recuperar ou ainda não chega?
Esta extraordinária afirmação de George Steiner foi proferida na mesma semana em que se discutia a “teoria empírica” de James Watson, de que os negros são menos inteligentes que os brancos, baseada na observação dos seus empregados. Ninguém ficou indiferente às declarações de Watson: pessoas houve que, a meu ver bem, as condenaram como racistas e não-científicas; outras houve que (com alguns argumentos que reconheço serem válidos) defenderam a liberdade de expressão do cientista. Mas ninguém ousou sequer criticar esta afirmação (igualmente racista) de Steiner. Porquê?
Houve uma polémica esta semana no blogue da revista Atlântico, e no seu centro estava André Azevedo Alves. Tal como há uns meses houve outra grande polémica no Blasfémias, e no seu centro estavam os textos de Pedro Arroja. Do que conheço não vejo grande diferença entre as ideias de Azevedo Alves ou de Arroja (vejo uma grande diferença no estilo, e apesar de tudo prefiro de longe o deste último). Relativamente a Azevedo Alves as posições (particularmente na direita blogosférica) dividiram-se, mas os textos de Arroja foram condenados unanimemente. (Um bom exemplo desta dualidade de critérios é mesmo o director da Revista Atlântico.) Porquê?
Nem toda a direita procedeu assim, no entanto: Carlos Abreu Amorim, no Blasfémias, distanciou-se tanto dos textos de Azevedo Alves como dos de Arroja. Deveremos portanto gabar a coerência do truculento blasfemo? Não esperem por isso. Ainda esta semana foi votado um empréstimo bancário na Câmara Municipal de Lisboa, que foi prontamente condenado no blogue onde Abreu Amorim escreve. E alguém duvida de que este ultraliberal (e “mata-mouros” ainda por cima) é contra tamanho empréstimo, preferindo antes dispensar pessoal, cortar despesas e privatizar? Pois, e voltando onde este já longo texto começou, este mesmo autor usou o seu espaço de opinião no “Correio da Manhã” para exigir a uma câmara sobreendividada que construa um memorial aos judeus assassinados em Lisboa em 1506, insurgindo-se contra o adiamento desta proposta (não se falou em recusa da proposta, mas sim em adiamento)! Independentemente do empréstimo, o memorial seria mais importante que as dívidas da câmara! Mais uma vez, porquê?
A chave para a resposta a todos estes “porquês” está, creio, na afirmação de Steiner. De todos aqueles a quem apontei incoerências, estou certo de que nenhum condenaria essa afirmação. Eu considero-a racista e condeno-a, como já referi. Sou a favor da humildade e do reconhecimento dos nossos erros; por isso sou favorável à construção dos memoriais que referi, haja dinheiro para isso. O que eu não posso aceitar – é frontalmente contra os meus princípios, causando-me reacções viscerais – é que alguém se considere naturalmente melhor do que os outros, sem nunca ter de o demonstrar.

Por falar em petições

...recomendo a assinatura da petição "Por uma lei que garanta universalidade e igualdade no acesso ao subsídio de desemprego", para a criação de um subsídio de desemprego aos docentes do Ensino Superior (algo que, talvez não saibam, na prática não existe), lançada pela FENPROF e pelo SNESup.

2007/12/04

2007/12/03

Sobre a “crise no Sporting”

Perguntem “onde está um bom guarda redes?” Já se experimentaram os três, e o de ontem, apesar da inexperiência no golo sofrido, parece-me a menos má aposta.
Perguntem “onde está um marcador de penáltis?” Um que seja. Nenhuma equipa falha 60% dos penáltis de que dispõe, em nenhuma liga, seja para ser campeão ou para lutar contra a despromoção. Se o penálti de ontem tivesse sido convertido não se falava em “crise”.
Perguntem “onde estão os reforços?” De qualidade, só o Izmailov.
Depois, perguntem pelo Paulo Bento. Também tem responsabilidades, mas é o menos culpado.

Sobre a “crise na direita”

Não quero juntar-me ao coro, porque não é o meu hábito dar pontapés em quem está no chão. Mas é de “estar no chão” que se trata. O Tiago Mendes, literalmente, deitou o André Azevedo Alves ao tapete neste texto. Disse tudo. Sinceramente, não posso deixar de lhe dar os parabéns.
São desonestas, porque parciais, as acusações do João Miranda: quem pratica sistematicamente ataques ad hominem é o André Azevedo Alves (eu mesmo já fui vítima desses ataques algumas vezes). Se o Tiago Mendes praticou um ataque ad hominem, isolado, foi porque não se identificava com tais práticas. Foi um ataque contra toda uma carreira na blogosfera baseada nesses ataques. Atacar o Tiago Mendes por um ataque ad hominem e ignorar os do outro lado é no mínimo hipócrita.
Voltarei a este assunto.

Coração de Leão (2)


Toñito

2007/12/02

2007/11/30

Um Europeu sem inglês

Quem já esteve na Suíça (eu estive uma vez, em Genebra, de visita ao CERN) reparou que tudo está escrito em quatro línguas diferentes: francês, alemão, italiano e romanche, as quatro línguas nacionais. Habituado ao francês, nem dei por que o inglês era inexistente. O inglês que, hoje em dia, quando não é a primeira língua é a segunda. Sempre presente. Deve ser caso único no mundo, este da Suíça, com todo o tipo de informações em quatro línguas e nenhuma é a inglesa. Ora, dado que o próximo Europeu de futebol é na Suíça e na Áustria e nenhuma selecção de língua inglesa vai nele participar, e se se retirasse todas as referências à língua inglesa do torneio?
Eu não tenho nada contra a língua inglesa, bem pelo contrário: uso-a todos os dias no meu trabalho, e vivi e estudei num país de língua inglesa. E é útil haver uma língua em que todos podemos comunicar. Esta ideia é talvez um bocado parva e inconveniente, pois é, mas não vos apetece variar do inglês de vez em quando?

2007/11/29

João Guerreiro, Jovem do Ano 2007


E o João, meu aluno, foi eleito. Há que dizer que teve uma divulgação e apoio que nenhum outro candidato teve (que eu tenha visto). Mesmo assim fico satisfeito por os portugueses terem premiado um feito na área da ciência, para variar.
Na aula de hoje vou dar-lhe os parabéns. Não por ter ganho uma eleição na rede. Mas sim por ser um craque a Matemática e a Física e por ser um bom colega, conforme posso observar. (E por ter derrotado o João Pereira Coutinho...)

(Nota: o João é aluno da LMAC, mas eu teimosamente continuo a arquivar estes textos no arquivo da LEFT...)

2007/11/28

Eu, o moderador

Certa vez, há muitos anos, era eu caloiro, a Associação de Estudantes do Técnico organizou um debate sobre dirigismo associativo universitário, tendo convidado antigos dirigentes. Entre eles, um então professor meu, hoje em dia ministro (não vou dizer quem é). Para moderar o debate, convidou um então jornalista, de esquerda, irmão de um outro então jornalista, de direita. O então moderador hoje é eurodeputado, e o seu irmão líder de um partido. Também não vou dizer quem é.
Assisti a um diálogo semiprivado entre os dois. O meu professor perguntou ao jornalista: “Então o que estás aqui a fazer?” O hoje eurodeputado respondeu, algo hesitante: “Bem, eu sou o moderador...” O hoje ministro atirou: “Moderador? Mas tu alguma vez moderaste alguma coisa na tua vida? Tu precisas é que te moderem a ti!”
Vem isto a propósito do simpático convite que o MISTA me endereçou para moderar o debate de hoje à tarde, sobre as eleições para a Assembleia Estatutária da Universidade Técnica de Lisboa. Se alguém me perguntar se alguma vez moderei algo na minha vida, posso sempre referir este debate. Só espero é que ninguém me diga o que o ministro disse ao eurodeputado...

2007/11/27

Boa ou má jornada?

Foi de facto uma jornada estranha, esta, em que o Sporting perdeu pontos para o FC Porto e Benfica e, ainda assim, subiu na classificação, graças às derrotas de V. Guimarães, Marítimo e V. Setúbal. "Os principais adversários do Sporting", dirão lampiões desavergonhados como este ou este. Na segunda volta vamos ver. Entretanto, hoje, divirtam-se mas vejam se jogam qualquer coisa.

2007/11/26

Miguel Sousa Tavares

Gosto do Miguel Sousa Tavares cronista e isso não é segredo para os leitores deste blogue. Tal não implica que eu goste do Miguel Sousa Tavares escritor. Não gosto e nem deixo de gostar - não tenho opinião formada. Sou selectivo com o que leio. Miguel Sousa Tavares é para mim o melhor cronista, mesmo quando eu não concordo nada com ele. Não creio porém que alguém pense que ele é o melhor escritor. Prefiro ler os melhores cronistas e os melhores escritores. Não perco uma crónica do Miguel Sousa Tavares, mas não vou ler um livro dele enquanto houverem Balzacs, Tolstois, Dostoiewskis e Saramagos para eu ler.

2007/11/24

Wonders - Festival Europeu de Ciência

Hoje voltei a fazer um holograma, muitos anos depois de ter feito o último. Não recorri a lasers nem a mesas ópticas, nem nada: só um acetato especial, um alfinete e um transferidor! É incrível mas é verdade! Os responsáveis vinham do Laboratório de Holografia da Universidade de Aveiro, mas estão (em conjunto com cientistas de toda a Europa) a fazer divulgação da ciência este fim de semana no Festival Europeu de Ciência, no Pavilhão do Conhecimento em Lisboa. Eu fui hoje, gostei e recomendo.

2007/11/23

"Semana da Física" - balanço pessoal


Termina hoje a semana da Física no IST. Mais um sucesso, com as sessões de divulgação e a exposição do "Circo da Física" sempre cheias de curiosos, de dentro e de fora do IST, e sobretudo de alunos das escolas secundárias ("futuros caloiros", como alguém muito bem lembrava). Da minha parte, obrigado pela oportunidade de rever velhas experiências (e novas, que nunca tinha visto). Obrigado pelos simpáticos convites, pela oportunidade de falar do meu trabalho e de participar num debate sempre animado, de conhecer e ouvir alunos motivados (o melhor que a LEFT sempre teve) ...e obrigado pelo vinho! (O vinho tinto é o néctar oficial da LEFT.) Foi um bela recordação de uma bela semana. E viva a LEFT, sempre.

2007/11/22

E a Inglaterra está fora do Euro 2008

Quem é que Portugal vai eliminar nos penaltis agora? E contra quem é que o Ricardo vai brilhar? Os ingleses (e os holandeses) são fregueses, como dizem os brasileiros. Recordemos o Euro 2004 e o Mundial 2006, mas também o Sporting na Taça UEFA 2005 (depois dos grupos só eliminou equipas holandesas e inglesas). E perdeu. Será desta que Portugal ganha alguma coisa?

2007/11/21

Le feu au bobottin


Na semana da LEFT, uma "pequena produção cinematográfica bordalesa". Participa um amigo meu, antigo aluno da LEFT.

2007/11/19

Semana da Física 11

Esta é a semana da LEFT por excelência. Eu vou andar por lá (IST, Pavilhão Central). Apareçam. É entrar, senhoras e senhores, meninas e meninos, é entrar!

2007/11/16

O Terreiro do Paço agora é na Avenida dos Aliados



Os portuenses que se queixam de que só Lisboa fica com tudo deveriam pensar nisto: a horrenda “árvore de Natal” que nos últimos dois anos ocupava por esta altura do ano o Terreiro do Paço vai estar instalada este ano na Avenida dos Aliados, sendo inaugurada amanhã.
Quando era presidente da Câmara de Lisboa, Jorge Sampaio disse uma vez aos regionalistas para “levarem o Terreiro do Paço” da cidade para fora. Sampaio referia-se à burocracia e não à belíssima praça em si. Recordo agora esta frase ao ver onde está a “árvore”, um mamarracho que é uma demonstração de novo-riquismo e que de árvore não tem mesmo nada. O Porto cobiça tanta coisa de Lisboa, e vejam bem logo com o que ficou. Se era este “Terreiro do Paço” que tanto queriam levar, pois por mim agradeço que fiquem com ele. Se me permitem uma recomendação, só não lhe chamem “a maior árvore de Natal da Europa”. Aquela coisa pode ser a maior da Europa, mas não é uma árvore de Natal.
Este episódio confirma que o Porto só aspira a ter o que Lisboa tem, incluindo o poder. O Porto é tão centralista como Lisboa; a “regionalização”, para o resto do norte, seria decidir entre o Porto e Lisboa. Não há grande diferença, como se confirma pela “árvore de Natal”. Era bom que o bracarense Pedro Morgado se convencesse disso e substituísse a fotografia que eu retirei do blogue dele por uma na Avenida dos Aliados. Quanto tempo demorará até vermos a “maior árvore de Natal da Europa” em Braga?

2007/11/15

L'Europe de la Connaissance et la Stratégie de Lisbonne

Ocorre aqui, na minha segunda casinha, onde nunca vivi. O programa é interessante e os convidados também.

"Por que no te callas?"

A questão que tanto pano para mangas tem dado nos últimos dias, para mim, resume-se a boa educação e respeito pelo próximo. Zapatero estava a falar e Chávez permanentemente a interrompê-lo, quando não era a sua vez de falar. Talvez quem devesse ter intervindo era a presidência da mesa. Não interveio, e o rei, que queria ouvir o orador, protestou, como qualquer cidadão normal. Não deve ter mais nem menos direitos.
Todas as discussões que tenho lido sobre o assunto são entre monárquicos e antimonárquicos, envolvendo ainda o colonialismo. A meu ver tal está errado: como disse, é tudo uma questão de ordem na mesa. Eu sou completamente antimonárquico, mas aqui no essencial tenho que apoiar o rei. A minha opinião seria a mesma se tivesse sido Chávez a sugerir a Juan Carlos que se calasse, se este estivesse a interromper outro interveniente. Será que os monárquicos e os que agora defendem Chávez diriam o mesmo?

2007/11/14

Abaixo o governo central! Abaixo a democracia! Viva a "liberdade"! Viva a blasfémia!

Notável frase, num comentário do Insurgente: "O sistema político americano (...) é um sistema não democrático que visa limitar o poder do governo federal" (destaque meu). Quando se discutir a "regionalização" em Portugal, lembremo-nos dela.
A sério: não tenho dúvidas de que os EUA são uma democracia. Cheia de imperfeições e com dificuldades estruturais muito maiores do que outras democracias, mas uma democracia. Os políticos americanos ou ignoravam essas imperfeições do sistema político americano (tipicamente os republicanos), ou reconheciam-nas e prometiam tentar melhorá-las (tipicamente os democratas). Mas é a primeira vez que eu vejo alguém (um conhecido adversário dos governos centrais) a defender as imperfeições da democracia norte-americana e a virtudes do seu carácter "não democrático"! Parabéns ao autor do comentário, João Miranda, pela honestidade. E que isto demonstre a natureza dos projectos políticos libertários, que já representam uma corrente importante nos EUA e começam a dar os primeiros passos em Portugal.

2007/11/13

Árbitros no Prós e Contras

Não o tinha escrito aqui no blogue, mas já o tinha afirmado aqui: Pedro Henriques é o melhor árbitro português. Desorientou-se no lance da suposta mão do Katsouranis (que não era penalti), no último Benfica-Sporting, e parou o jogo. Mas ajuizou bem. Mais ainda me convenci desta minha opinião ao ouvi-lo ontem no Prós e Contras sobre a introdução de novas tecnologias no futebol (repete hoje na RTP N, e está disponível na rede).

2007/11/12

Há muito tempo que não me sucedia isto

Estar a acompanhar um jogo do Sporting, com o Sporting a perder e eu só a querer que o jogo acabasse. Desde o tempo do Peseiro que tal não me sucedia. Sucedeu-me ontem.

Mais um teste político

Desta vez foi encontrado no Kontrastes. Façam-no vocês também! Seguem-se os meus resultados.
Your Political Profile:

Overall: 20% Conservative, 80% Liberal

Social Issues: 25% Conservative, 75% Liberal

Personal Responsibility: 25% Conservative, 75% Liberal

Fiscal Issues: 25% Conservative, 75% Liberal

Ethics: 0% Conservative, 100% Liberal

Defense and Crime: 25% Conservative, 75% Liberal

2007/11/09

Cappuccino do avesso

Desta vez fui eu o convidado para responder ao inquérito do blogue Kontrastes. Podem ler lá as minhas considerações sobre o estado actual (na verdade, há uns meses atrás) da blogosfera. Agradeço ao João Ferreira Dias a gentileza.

2007/11/08

Obrigado levezinho!

Cem golos é uma marca notável, mesmo se o resultado de ontem foi um bocado difícil de engolir.

A diferença de ocorrer no Terreiro do Paço

A diferença entre um acidente de viação ocorrer no Terreiro do Paço ou em outro ponto do país é que o Terreiro do Paço é talvez a praça mais movimentada de Portugal. Por lá passam todos os dias milhares, talvez dezenas de milhares de pessoas. Não é o único local em Portugal muito movimentado (nem sequer em Lisboa), pelo que não é de todo comparável com as estradas nacionais ou ruas pouco movimentadas, que são os casos que Helena Matos refere neste seu texto. Julgo que qualquer pessoa percebe que o que importa é que houve um grave acidente no Terreiro do Paço, junto às obras que duram há anos. Que há suspeitas de que tais obras possam constituir um risco para a segurança de quem atravessa a praça todos os dias. Que um acidente isolado no Terreiro do Paço pode pôr todas estas pessoas a pensar que tal poderia ter sucedido com elas, mas tal nunca sucederia num acidente isolado numa praça qualquer de Coruche. Sem querer desrespeitar os mortos neste e em todos os outros trágicos acidentes que Helena Matos refere, o que faz a notícia e desperta o interesse neste caso não é o acidente em si (acidentes há muitos, como Helena Matos o demonstra). O que faz a notícia é mesmo o acidente ter ocorrido numa praça movimentada em obras, neste caso o Terreiro do Paço.
Temos falado aqui muito de provincianismo nos últimos dias. Este texto do Blasfémias é demagógico, populista e demonstra um certo provincianismo. Já agora: Helena Matos escreve duas vezes por semana num jornal de referência. Se acha mesmo que este caso demonstra que "os jornais de referência têm um entendimento snob da vida", por que não terá abordado este assunto lá, directamente, nas suas crónicas?

2007/11/07

Aos 33

Aos 27 anos senti que estava perante uma encruzilhada. Naquela altura tive que escolher se queria ser homem ou se queria continuar a ser o Peter Pan. Escolhi ser homem. Agora que tenho 33, idade em que Cristo foi morto, sinto que, espiritualmente, é o momento certo para dar um salto, depois de ter estado no deserto. Não estou a dizer que sou Jesus... Este é o ano ideal para pregar o evangelho e deixar a minha marca.
(Rufus Wainwright, em conversa telefónica com Maria José Oliveira, Público, Suplemento Ípsilon, 2007/11/02)


Beautiful Child - eis como me sinto hoje.

O Coliseu dos Recreios tem-me dado boas prendas (antecipadas). Há um ano, a prenda não poderia ter sido melhor. Ontem também foi muito bom. Release the Stars não é o meu álbum preferido do Rufus Wainwright, mas ele é um grande cantor e autor. Nunca o tinha visto em Portugal. Até tive direito a "parabéns a você" interpretados por ele e pela banda - eram para o baterista, mas tomei como se fossem para mim.

7 de Novembro

No dia em que passam 90 anos sobre a tomada de São Petersburgo pelos bolcheviques, reedito aqui um texto que escrevi no Blogue de Esquerda há três anos.




Passa-se hoje mais um aniversário da Revolução dos Sovietes, mais concretamente da tomada de São Petersburgo pelos bolchevistas, que viriam a estabelecer pela primeira vez na história um regime socialista. Não me importam todos os horrores que daí advieram (não necessariamente por causa disso); não me importa que o muro de Berlim tenha caído e a URSS seja uma página virada da história; não quero saber se os nostálgicos da União Soviética são hoje um gueto que se recusa a ver e a aceitar o mundo como ele é. Não me importa o que possam dizer. Sempre comemorei e hei-de comemorar esta data por toda a minha vida.

2007/11/06

Mais praxe e provincianismo

O assunto pelos vistos – e pela repercussão que teve – é delicado. Vamos ver se a gente se entende: eu nunca disse (e nem o penso) que “provinciano é tudo o que é de fora de Lisboa”. Disse que a praxe era um costume provinciano, e afirmei que a praxe, pelo menos em Lisboa (que é onde eu conheço melhor o meio académico) é trazida pelos alunos de fora de Lisboa. Não conheço nenhum aluno de Lisboa, a estudar em Lisboa, que seja favorável à praxe. Todos os casos que eu conheço de alunos favoráveis à praxe, em Lisboa, são alunos deslocados. E isto já resulta de vários anos de observação, como aluno e docente. Admiti as limitações da minha amostra – precisava de saber, por exemplo, se há alunos naturais de Lisboa noutras cidades favoráveis à praxe. Mas estou ainda assim convencido de que a praxe não é um hábito de Lisboa. Foi (tristemente) importado pelos alunos de fora que Lisboa recebe.
Daí a concluir que não há provincianos em Lisboa (como se a praxe fosse o único critério para avaliar o “provincianismo”) ou que tudo o que vem de fora de Lisboa é provinciano é um abuso. Não escrevi nada disso, como se pode confirmar. Tais interpretações constituem mais uma manifestação de um complexo de perseguição da parte de quem não é de Lisboa.
É possível que eu não conheça bem o Minho, mas conheço muito bem Lisboa e, particularmente, o Instituto Superior Técnico. Não tem por isso razão nenhuma o Pedro Morgado quando fala nas “afamadas praxes” do Instituto Superior Técnico. Tais praxes, contra as quais me insurgi neste blogue, são um fenómeno recente. A verdadeira “tradição académica” do Técnico sempre foi não ter tradição académica nenhuma (e em particular não utilizar “traje académico”). Se a praxe ressurgiu no Técnico nos anos recentes foi uma evolução lamentável, e foi trazida de fora. O mesmo se pode dizer, aliás, das faculdades tradicionais de Lisboa. A praxe (e a “tradição académica”) em Lisboa viam-se nas “universidades” como a em que o nosso primeiro ministro obteve a sua licenciatura: era a maneira que elas tinham de parecerem universidades a sério. Se há um ressurgimento destas práticas no ensino superior público (que traduz um sentimento elitista de que quem anda na universidade é um “privilegiado”), tal deve-se a serem cada vez menos – e ainda bem - essas universidades “de vão de escada”. Há que dizer que este tipo de comportamentos não são admissíveis em universidades de qualidade. Entretanto creio que nas universidades tradicionais só em Lisboa esta noção foi adquirida. Por isso mantenho que se há praxe em Lisboa, foi trazida de fora. Ainda não vi nada que mostrasse que estou errado.

2007/11/05

Sobre o provincianismo, da praxe e não só

Julguei ter deixado bem claro no meu penúltimo texto sobre a praxe que a minha amostra era limitada e que, portanto, as minhas conclusões não podiam ser definitivas. Nomeadamente não conhecia o comportamento dos alunos naturais de Lisboa mas deslocados. E conheço poucas opiniões de alunos naturais de outras cidades e não deslocados. (Conheço um caso, de um leitor deste blogue, que sempre viveu e fez o curso no Porto e é contra a praxe.) O que escrevi foi que a praxe não era seguramente um hábito oriundo de Lisboa (há registos históricos que o comprovam, e o eloquente comentário que eu citei confirma-o mais uma vez), e que era um hábito provinciano. Deixei bem claro que tal não implicaria que quem fosse de fora de Lisboa fosse a favor da praxe, e muito menos provinciano!
Mas houve quem não entendesse bem a implicação. E tal motivou uma série de insinuações sobre, por exemplo, "a minha ignorância do resto do país." Quem ler este blogue, e mais ainda quem me conhecer pessoalmente, sabe que eu embora não conheça o que se passa em muitas partes do país, não sei só o que se passa em Lisboa (nomeadamente, tenho raízes no distrito de Aveiro). Nem sei por quanto mais tempo vou continuar a viver em Lisboa, e não teria problema nenhum em viver noutro distrito. Mas eu sinceramente nem dou grande crédito às insinuações do Luís Aguiar Conraria, que não me conhece o suficiente para as poder fazer (só revelam uma dor de cotovelo que os lisboetas estão habituados a causar a algumas pessoas). Espero é que o Luís tenha dito o mesmo aos seus amigos, que ele não especificou se eram ou não de Lisboa e que julgavam que Braga era no "interior": que eram uns "ignorantes do resto do país". O que eu queria sobre isto afirmar é que, ao contrário do Luís, eu não tive a sorte (aqui estou mesmo a falar de "sorte") de arranjar um emprego académico antes de iniciar o meu doutoramento. (O Luís é um típico liberal português: teve desde o princípio o futuro garantido e sempre o salário ao fim de todos os meses, pago pelo bom Estado, é claro.) Isso levou a que percorresse diversos pontos do mundo (EUA e Europa) ao longo da minha carreira académica. Não me estou aqui a queixar de nada: não me arrependo de ter escolhido esta carreira e ter tomado estas opções. Conheço várias universidades e muitos antigos alunos de vários países, e sei que algo como a praxe não é visto em mais nenhum país civilizado. (E conheço muitas festas, e sei que a Festa do Avante é muito boa em qualquer parte do mundo.)
Também não quero com isto dizer que me considero de alguma forma "melhor" do que outras pessoas que tenham vivido sempre em Portugal, dentro ou fora de Lisboa. Tudo isto são opções de vida. Só que no meu caso, as minhas opções de vida levaram-me a passar muitas fronteiras. E sempre vi como se vivia para além dessas fronteiras. Para mim os EUA não são só Nova Iorque, Nova Iorque não é só o Rockefeller Center, a França não é só Paris, Paris não é só o Quartier Latin, Portugal não é só Lisboa e Lisboa não é só a Baixa-Chiado.
As acusações que o Luís me faz de "incapacidade de passar da sua minúscula fronteira", por isso, em mim fazem ricochete. E reafirmo tudo o que escrevi.

2007/11/02

A lição da África do Sul

A África do Sul, pese os problemas graves que se mantêm, está infinitamente melhor do que todo o continente africano e, sobretudo, conseguiu essa proeza impensável de sair do regime intolerável do apartheid por via pacífica e democrática, evitando a guerra civil e a desforra dos negros contra os brancos, como sucedeu no vizinho Zimbabwe. No Zimbabwe, o racismo negro determinou a expulsão e o confisco de todas as terras dos brancos, conduzindo à ruína alimentar, à fome e à miséria o que fora o mais próspero território agrícola de África. Sob o comando desse criminoso corrupto e sanguinário que é Mugabe (que Sócrates insiste à viva força em deixar vir à cimeira Euro-África de Lisboa), o Zimbabwe transformou-se num quadro de terror e de devastação humana que, mesmo em África, ultrapassa tudo o que é tolerável. A África do Sul, pelo contrário, teve a sorte de encontrar em Nelson Mandela um líder que, em lugar do ressentimento e do ódio, que até seriam compreensíveis, demonstrou, desde o primeiro dia no poder, que buscava antes o perdão, a reconciliação e a prosperidade para o seu país.

O que vimos neste Mundial de râguebi, com o triunfo de uma selecção sul-africana composta essencialmente por brancos e mulatos, não seria, obviamente, possível de acontecer no Zimbabwe. E, infelizmente para o seu povo, que não tem culpa dos dirigentes que tem, o Zimbabwe nunca será conhecido por estas ou outras boas razões e nunca beneficiará, à escala planetária, de uma tão boa promoção como a que a África do Sul ficou agora a dever à sua selecção de râguebi.

O triunfo da África do Sul ensina-nos uma lição que só os ditadores, os racistas e os particularmente estúpidos se recusam a ver: que África não é dos negros, nem dos brancos, como se proclamava até aos anos sessenta, nem dos árabes, como se garantia antes disso. África é dos africanos, independentemente da cor da pele: dos que lá nasceram, lá criaram raízes e lá pretendem morrer. Não há nada mais redutor e idiota do que querer julgar a História à luz dos critérios políticos e de justiça social contemporâneos. Até meados do século XX, a história das nações não foi mais do que a história das conquistas e das derrotas e das sucessivas migrações dos povos a elas associadas. Querer negar que os europeus fizeram e fazem parte de África é o mesmo que negar que os mouros fizeram parte da história da Península ou que os negros de África fizeram, forçadamente, parte da história do Brasil. O que aconteceu, aconteceu porque foi inevitável e até natural, pelos padrões da época. Ser anticolonialista é perceber justamente que o que era natural e tido como legítimo dantes, deixou de o ser depois. Não é pretender ajustar contas com a História, perseguir os que ficaram para trás por amor à terra onde nasceram (e muitas vezes sem outra a que pudessem chamar sua) e transformar a independência conquistada a ferros numa oportunidade espúria para uma vingança fora de prazo, de que os povos autóctones acabam, a maior parte das vezes, por ser as maiores vítimas.
(Miguel Sousa Tavares, A Bola, 2007/10/23)

2007/10/31

Falando nos meus alunos...

...é meu aluno o rapaz que, no último domingo à noite, no Gato Fedorento resolveu em directo o famoso cálculo dos seis por cento do PIB, que em tempos atrapalhou António Guterres. Não fui eu que lhe ensinei. Vai longe o rapaz. É de Matemática. Por que raio pus eu a etiqueta "LEFT" neste texto?

Ah! Uma corrente!

Finalmente alguém me passa uma corrente dos blogues! Daquelas que todos os blógueres passam uns aos outros! Nunca ninguém me havia passado uma! Julguei que ninguém me ligasse nenhuma. Quem ma passou foi o bacano do João Gaspar.
Pegar no livro que está mais próximo, abrir na página 161 e transcrever a quinta frase completa dessa página. No meu caso, o livro mais próximo de onde me encontro é o livro de texto da cadeira que neste semestre lecciono, Introdução à Programação em Mathematica, de Amílcar Sernadas et. al.. Na página 161 pode ler-se
Na programação funcional, tal como na programação recursiva, não é usado qualquer construtor imperativo (i.e., não se pode recorrer, nomeadamente, nem à composição sequencial de acções, via ";", nem a comandos iterativos While), assim como não se recorre à memorização de valores em variáveis através de atribuições.
Passo a corrente ao João André, ao Francisco Frazão, ao Rui Curado Silva (quando voltar de viagem ou por que não antes?), ao Nélson, ao André Abrantes Amaral, ao Leonardo Ralha (a ver se volta a activar o blogue) e ao circunspecto Hugo Mendes (homem de muuuuuitos livros).
(João Gaspar, olha que tenho alunos que gostam da praxe; acho que os vou chumbar. Estou a brincar. Obrigado e até à próxima corrente.)

2007/10/30

Para acabar de vez com a praxe

Não adianta nada desdenhar dos alunos que participam voluntariamente na praxe sem compreender que, na sua maioria, são alunos deslocados que estão sozinhos numa cidade nova e, para eles, desconhecida, sem amigos ou família. A praxe é, porventura, a única socialização possível. Mas não deixa de ser um hábito humilhante e – mantenho – provinciano. Se se quer circunscrever este hábito a quem queira legitimamente participar nele, há que fazer primeiro com que não seja a única alternativa de socialização disponível. É aqui que as faculdades devem actuar. E está visto que não basta deixar o assunto entregue às associações de estudantes, embora estas possam desempenhar um papel importante, desde que não sejam comandadas por indivíduos com traje académico que julgam que ser estudante universitário lhes dá um estatuto especial.
Para encerrar este assunto recomendo a leitura de dois interessantes e esclarecedores comentários ao meu texto anterior, pelo João André e pelo Tárique. A ambos agradeço.

2007/10/29

A praxe e o provincianismo

Ainda voltando ao tema do texto de há um mês atrás (que registou o recorde de comentários neste blogue), mas para recomendar a leitura de um comentário deixado por um dos mesmos veteranos da LEIC, só que desta vez no blogue do MISTA. Vale a pena ler:
"caros estudantes do técnico. até há poucos anos não se via ninguém do técnico de traje. perguntem a quem quiserem, nunca houve essa tradição, aliás nunca houve praticamente em toda a academia em lisboa."

Não sei se tens noção (pelos vistos não) que toda a gente em Lisboa tem noção disso. E é precisamente por isso que todos nos empenhamos em trazer a tradição académica para Lisboa. Se tu julgas que isto é uma tradição "recém-inventada tradição", cópia da "rasquice alheia" e é a causa de o técnico ser "uma merda igual às outras", tenho pena de ti porque não percebes nada disto.
Pela minha experiência pessoal, um aluno em Lisboa que seja adepto da praxe não pode ser lisboeta. Nenhum aluno lisboeta se quer sujeitar a essas figuras; só os de fora de Lisboa. Daí o referido (e eloquente) “querer trazer” a praxe da província para Lisboa. (Os meus leitores de fora de Lisboa que são contra a praxe que me desculpem o “província”; uma boa definição de “provincianismo” é ser a favor da praxe, mas tal não significa necessariamente ser-se de fora de Lisboa. A implicação oposta talvez seja verdade.)
Mas há um pormenor importante: tipicamente um aluno de Lisboa, em Lisboa, não é deslocado, isto é, vive com os pais. Um aluno deslocado acabou de sair de casa e quer “emancipar-se”. Participar na praxe, seja para se submeter ou submeter os outros, pode ser visto como parte dessa “emancipação”. Seria necessário saber o comportamento dos alunos lisboetas deslocados fora de Lisboa, e eu não sei. Mas há outras razões para a minha desconfiança: pessoas que eu conheço e considero civilizadas, tendo estudado no Porto e em Coimbra nem por isso se furtaram a usarem o “traje académico”.Até prova em contrário, portanto, continuo convencido de que a praxe é mais uma manifestação da famigerada “regionalização”. Atente-se neste episódio digno do mais típico “espírito académico”.

2007/10/26

Excelentes debates

Assisti a várias boas palestras no primeiro dia da conferência Gulbenkian "Is Science Near Its Limits?". Mas o melhor do primeiro dia só eu e mais uns poucos privilegiados pudemos assistir: um debate entre Luis Alvarez-Gaumé, Dieter Luest (a defenderem as teorias de supercordas) e Peter Woit (a atacá-las). Em breve espero poder divulgar mais sobre este debate. Hoje é o segundo e último dia.
Outro excelente debate ocorreu recentemente entre o Rui Tavares e o João Miranda, nos (mais de 100) comentários a este texto do João. Vale a pena ler os comentários e seguir o debate, sobre as polémicas declarações de James Watson e tudo o que se lhes seguiu. Altamente recomendável. Também espero abordar este assunto, mas só para a semana que vem.

2007/10/25

A ciência terá limites?

Hoje e amanhã vou andar por aqui, na Fundação Gulbenkian. Há debates imperdíveis, como o de hoje à tarde: A teoria das cordas e o paradoxo da não-verificabilidade. Sobre este assunto, sugiro as seguintes leituras:
  • String theory is losing the public debate, por Sean Carroll;
  • Some elementary myths about quantum gravity, por Lubos Motl;
  • as recomendações desta página, no item La faillite de la théorie des cordes?
Finalmente sugiro ainda a audição de um debate semelhante ao de amanhã à tarde na Gulbenkian, que teve lugar em Junho na Cité des Sciences em Paris.
Este é um debate da maior importância, que tem vindo a ocorrer um pouco pela Europa e EUA, e que finalmente chega agora a Portugal.

2007/10/24

Blasfémias na TAP é que não!

As greves do pessoal de transporte aéreo, sejam da tripulação ou do pessoal de terra, são sempre das mais incómodas e que mais transtorno causam. Por isso, aqui deixo a minha simpatia para quem tem que viajar na TAP nos próximos dias.
Dito isto, greves como esta ocorrem em todos os países civilizados. Não é só em Portugal e na TAP. Ainda esta semana houve uma greve do pessoal aéreo em Itália (que afectou a viagem do Sporting a Roma, por exemplo). Para esta semana também está marcada uma greve da Air France. Só os liberais portistas, na sua dupla cegueira anti-TAP (e empresas públicas em geral) julgam que isto só ocorre com a principal transportadora portuguesa, onde se recusam a viajar. Nem que para isso tenham que perder muito mais tempo com escalas do que perderiam num vôo directo. Nem que tenham que ir a Londres para voar do Porto até Madrid...
O CAA deve conhecer muitos aeroportos de muitas cidades. Ele que vá mandando uns postais de todas as suas escalas...

2007/10/23

Os grandes vencedores

Jean Todt soube sempre preservar os pilotos das influências externas. Recusou (e muito bem) terminantemente considerar a contratação de Fernando Alonso. Pelo contrário: disse que a Ferrari estava muito bem servida de pilotos e prolongou o contrato de Filipe Massa. E em corrida a Ferrari voltou a demonstrar uma excelente estratégia. Mas, mais do que isso, agiu como equipa. Jean Todt é um dos maiores vencedores deste campeonato, por demonstrar que não precisava de Michael Schumacher para ser campeão.
Kimi Raikkonen é outro grande vencedor. Finalmente conquistou um título e calou todos aqueles que chegaram a duvidar do seu valor – entre os quais, admito, me incluia. Preferia que fosse um piloto mais dedicado à afinação do carro, como é Alonso e eram Schumacher, Senna e Prost, mas não deixa de ser engraçado ver como campeão um piloto tão politicamente incorrecto, que diz sempre o que pensa e gosta de uma noite de farra e copos.
Falta Filipe Massa, mas os títulos não teriam sido possíveis sem ele. É o melhor segundo piloto que a Ferrari teve em mais de dez anos, e merece sem dúvida voar mais alto. Esperemos que sim.
Parabéns a todos. Para o ano isto vai ser giro...

2007/10/22

O grande derrotado

Passou uma época a ver os seus dois pilotos digladiarem-se. Não foi isento nessa luta, apostando tudo num novato que, veio-se a ver, é um grande piloto mas ainda é inexperiente. Mas não prescindiu dos (bons) serviços do bicampeão do mundo em título, que afinava o carro e sabia (como o novato não sabe e nem saberá tão cedo) tirar partido dele. O bicampeão do mundo que tem um ego sem limites e, naturalmente, achava que era o maior e que não podia ter outro concorrente à altura dentro da equipa. Ambos os seus pilotos perderam o campeonato de condutores por um ponto, o que demonstra a total ausência de “jogo de equipa”. A McLaren este ano não foi uma equipa.
Perante isto, quase que nos esquecemos do aspec to mais negativo – e vergonhoso- desta temporada: o castigo à McLaren por espionagem. Só a equipa foi castigada – os pilotos puderam continuar a disputar o mundial pois supostamente “não eram culpados”. Pois nem depois de consumada a derrota este homem desiste, e quer à viva força conseguir para o seu “menino” na secretaria o que não conseguiu na pista. Nem que para isso a duplicidade de critérios tenha que ser total: os pilotos da McLaren são inocentes dos erros da equipa, mas os da Williams ou Sauber pelos vistos já não seriam...
Ron Dennis é um trapaceiro que não sabe perder.

"I was having a shit"

O novo campeão do mundo de Fórmula 1, no final da época passada.

2007/10/21

Foi lindo!

Quem eu quero que seja campeão do mundo?

Qualquer um menos o Alonso. Amanhã eu explico melhor depois de se saber o resultado.

Como estará Paris?



Faz hoje um ano que apanhei o avião no aeroporto Charles de Gaulle e, desde então, não mais lá regressei. As obras do trólei do Boulevard Jourdan, que a fotografia documenta e que me acompanharam por toda a minha estadia e mais algum tempo, já acabaram com certeza. Esta é a última foto por mim conhecida, com a minha antiga casa à direita. Como estará tudo agora? A Casa de Portugal da Cité Universitaire já reabriu, só uns meses depois do previsto. Foi inaugurado o museu da imigração. O Sarkozy é presidente.
Ninguém deveria passar mais do que um ano sem ir a Paris. Ai que saudades!

2007/10/19

Quem será a Abelha Maia?


Há três clubes chamados grandes no futebol português: a Cigarra, a Formiga e o Kalimero.
A Cigarra é o Benfica: faz-se tratar por «A Instituição» e auto-intitula-se de «maior clube do mundo». (...)
A Formiga é o FC Porto: (...) Ela sabe que, para ganhar mais vezes do que os outros é preciso muito trabalho, muito talento, muita organização, muita humildade e uma cultura de vitória que não se consegue com simples proclamações de superioridade natural.
O Kalimero é Sporting e é o caso mais problemático. (...) O Sporting não sabe perder e, por isso, adoptou a atitude do Kalimero, sempre a queixar-se dos «meninos maus» que lhe roubam a bola no recreio. É já uma cultura entranhada entre os sportinguistas, tão entranhada como o é a cultura de vitória entre os portistas ou a cultura de superioridade entre os benfiquistas.
(Miguel Sousa Tavares, A Bola, 02-10-2007)

Por mim não me importo. Sempre adorei o Calimero (com C). Agora nesta história quem é a Abelha Maia?

O testador que não resolve problemas

Um instrumento muito útil para quem usa frequentemente pilhas (mesmo recarregáveis, como eu) seria um testador digital de pilhas, como o que é proposto esta semana por uma conhecida cadeia de lojas de desconto. Só que o testador que eles propõem funciona... a pilhas. Ora pipocas.

2007/10/18

Terá Jardim influenciado o resultado do PSD?


Esta fotografia, que encontrei no blogue do João Paulo Pedrosa, recorda-me um bom motivo para a saída de Marques Mendes da liderança do PSD: a sua vergonhosa subserviência a Alberto João Jardim, para garantir os votos dos militantes da Madeira nas eleições directas. Alguém se lembra das palavras de Jardim? Segundo o Público, Marques Mendes perdeu-se na multidão do Chão da Lagoa. Jardim perguntou: “Onde é que se meteu esse sacana? É tão pequenino que ninguém o vê.” (É uma pena que não haja gravações.) Se este facto influenciou os militantes do PSD, por terem vergonha de um líder que se presta a uma cena dessas, eu fico algo aliviado. Mas não muito: não creio que com a mudança de líder a relação de Alberto João Jardim com o “continente” (a começar pelo seu próprio partido) se altere.

2007/10/17

É necessário mudar algo para que tudo fique na mesma

A Coluna Infame, o primeiro blogue que eu li (e, talvez, o melhor blogue português de sempre) voltou. Somente com os seus dois elementos produtivos, e que deram a merecida reputação ao blogue. Desta vez, a Coluna Infame chama-se Gattopardo.

Adriano e a sua voz nos blogues


Adriano Correia de Oliveira, nascido no Porto a 9 de Abril de 1942, deixou-nos muito cedo, aos 40 anos.

A sua vida foi breve, mas, não foi em vão.

Entre 1960 e 1980, gravou mais de 90 temas, sendo a sua música sempre repleta de muita emotividade, evidenciando dedicação aos trabalhadores, ao povo, aos ideais da liberdade, da democracia e do socialismo.

Morreu em Avintes, localidade que o viu crescer, a 16 de Outubro de 1982.

No dia 16, vamos congregar esforços, para ouvirmos a sua voz nos blogs.


Uma excelente iniciativa do Vozes Silenciadas.

2007/10/16

Aquecimento global e Nobel da Paz

Alguns esclarecimentos sobre os comentários que os meus textos sobre o Nobel da Paz de 2007 suscitaram.
O Prémio Nobel da Paz é um prémio político. Não é um prémio científico. De nenhum modo a atribuição deste prémio significa um reconhecimento da realidade do aquecimento global. É antes um reconhecimento do seu trabalho em prol de uma causa meritória para a humanidade. É um prémio que pressupõe um julgamento moral.
Nesse aspecto dou razão ao Luís Aguiar Conraria no seu comentário: um prémio como o Nobel da Paz não deve ser atribuído para um trabalho que deve ser científico. A ciência não tem moral e nem responsabilidade social; o seu objectivo é, pura e simplesmente, a procura da verdade, por mais inconveniente que esta seja. Por isso o prémio teria sido melhor atribuído a Al Gore (cuja dedicação à causa do ambiente é muito antiga) e a grupos ecologistas.
A hipótese do aquecimento global causada pelo homem é o melhor que nós conhecemos. É presentemente a nossa realidade. É suportada por 90 por cento dos especialistas em climatologia, baseada no trabalho de perto de uma década de mais de 1000 investigadores provenientes de 130 países diferentes. O que não quer dizer que seja a última palavra a dizer sobre o assunto. Agora quem (legitimamente) não está satisfeito com a melhor explicação conhecida para o aquecimento global, que trate de propor outra e mostrar, com base em experiências credíveis, que a actual explicação está errada ou, pelo menos, que existe uma melhor explicação. É assim que funciona a ciência. Eu nunca vi isso em lado nenhum. Pelo contrário, só vi pessoas (por vezes cientistas) a contestarem a actual explicação por esta lhes ser... inconveniente. Por esta requerer uma alteração dos seus hábitos de vida, que há muito se sabe serem poluentes. Por estarem mais preocupados em continuarem a trnasportar-se de carro todos os dias, para não terem de se misturar com o “povo” em transportes públicos. Por não se quererem dar ao trabalho de reciclar. E de usar mais vidro e menos plástico. O que eu não posso aceitar é que esses cientistas disfarcem o seu comodismo e o seu egoísmo como "ciência".
Tudo isto implica um certo esforço, mas não é assim tanto. Na Holanda, toda a gente se transporta de bicicleta ou transportes públicos. Tal como se comia e bebia em louça, pode voltar-se à louça e abandonar os pratos, copos e talheres de plástico. Tudo é uma questão de mentalidade.
Finalmente, quero recordar algo ao Ricardo S. Carvalho (francamente, não sei mesmo se ele sabe). O Prémio Nobel da Paz pressupõe um julgamento moral, como referi. Ser-se “de esquerda” também. São duas coisas diferentes: o Prémio Nobel da Paz não é necessariamente de esquerda (das últimas vezes tem sido, mas nos anos 70 até ganhou o Kissinger). Pode acontecer estarem ambas erradas: prémios Nobel mal atribuídos, que não façam sentido, e opções políticas de esquerda (acontece às vezes). A verdade científica deve prevalecer, mas enquanto ela não existe (e isto admitindo que ela ainda não existe para o aquecimento global, o que está longe de ser pacífico), a esquerda tem o direito de ter as suas opções. Neste contexto, só uma opção de preservar o meio ambiente e melhorar a vida para todos no nosso planeta (contrária aos grandes interesses económicos) se pode considerar de esquerda. Isto é: só uma opção ecológica. Anteriormente falava do Prémio Nobel da Paz; agora falo de esquerda. Não estou a falar de ciência. Para isso (no que diz respeito ao aquecimento global), não sou o mais qualificado.

Sobre este assunto ler ainda o Klepsýdra, o De Rerum Natura, o Vida Breve, o Verdade ou Consequência e o Cosmic Variance.

2007/10/15

Paulo Autran (1922-2007)


Morreu talvez o maior actor do Brasil. Nunca me hei-de esquecer: uma vez, na década de 90, Autran trouxe a Portugal o seu espectáculo teatral. As críticas nos jornais foram todas bastante favoráveis, mas uma - do Público - incluia uma "sugestão" supostamente cúmplice ao mui erudito leitor, ao recomendar a peça: "esqueçam que é brasileiro"! Esqueçam que é um actor das telenovelas! Compreensivelmente, Autran declarou sentir-se discriminado em Portugal.
Já não me recordo do "crítico" que proferiu tal "recomendação". Nem interessa; ninguém se vai recordar do crítico, mas quem viu o Paulo Autran a actuar jamais o esquecerá. Masmo que tenha sido só em telenovelas, como eu.

Morreu o Bimbo


Mais aqui e aqui.

2007/10/13

Pseudo-cientistas ao serviço do lóbi das petrolíferas

Não é nada surpreendente como no Insurgente reagem ao Nobel de Al Gore. Mas sobre esta questão, dois pontos. Desde quando é que um prémio Nobel da paz é um prémio científico? Quanto à ciência propriamente dita, não é demais recordar que 90% (noventa por cento) da comunidade científica está de acordo em que o aquecimento global existe e deve-se principalmente à acção do Homem. O AAA poderia apresentar-nos argumentos dos 10% de cientistas que não concordam. Mas da próxima vez por favor não remeta para argumentos de quem de cientista não tem nada.
Sobre esta questão: realmente Al Gore não é cientista. Mas o prémio foi partilhado com o IPCC, que merece todo o crédito. Leiam ainda o Klepsýdra.

2007/10/12

Aforismo à João Miranda

De acordo com a sua forma de raciocinar, o João Miranda é um inimigo da paz.

Parabéns, Mr. Gore! (2)

Imagem Mónica Almeida/NYT

Basta vir aqui para perceber que este prémio incomoda muita gente. A batalha da opinião pública está ganha; resta o mais difícil, que é a batalha do dia a dia - convencer o cidadão comum a emitir menos CO2 reciclando, utilizando transportes públicos...

2007/10/11

Por falar em países desenvolvidos...

Eu penso que, num país desenvolvido, as pessoas trabalham se querem enriquecer. O ganhar dinheiro é visto como recompensa de um esforço, de mérito. Sobretudo, o trabalho, o esforço, o mérito são reconhecidos pela sociedade. É da sociedade que estamos a falar. E é isso, essa vontade quotidiana das pessoas, que torna esses países desenvolvidos. Tentativas de ganhar dinheiro fácil, como todo o tipo de jogo, também existem, mas só nos países onde as pessoas não acreditam que com o seu esforço seja recompensado existe um enorme entusiasmo com as apostas mútuas. Como se o sorteio do totoloto ou do euromilhões fosse o momento mais interessante da semana. A conversa típica da classe média-baixa (de que eu faço parte, e conheço bem) roda sempre à volta dos planos sobre “o que eu faço se me sair o totoloto”.
Os portugueses lideram a tabela europeia no número de apostas per capita no euromilhões, noticiava esta segunda-feira o Metro na primeira página. Ninguém fala nisto, ninguém comenta isto. Toda a gente parece achar isto muito normal. Eu acho este facto preocupante e sintomático.

2007/10/10

Superioridade civilizacional

Não tenho problemas em admitir que há países objectivamente mais desenvolvidos do que outros e onde se vive melhor, mesmo se isso já me custou chamarem-me elitista ou colonialista. Essa minha apreciação tem a ver com factos concretos e não implica um julgamento sobre os respectivos povos, que acredito que possam sempre desenvolver-se. Sei que o caminho para o desenvolvimento não é único, mas há aspectos que considero indiscutíveis.
Os aspectos em que os EUA são mais desenvolvidos prendem-se com o empreendedorismo do povo americano, que se traduz numa sociedade baseada na tecnologia e no progresso. Os aspectos em que a Europa é mais desenvolvida são (considero) civilizacionais. Um deles, de que muito me orgulho, é a rejeição do ensino do criacionismo por parte do Conselho da Europa, apesar do voto contra a resolução por parte de representantes de partidos de direita, entre os quais João Bosco Mota Amaral. O outro é a reduzida aplicação da pena de morte. Prefiro viver num país que tem um modelo social, onde o porte de armas não é livre, mas também onde não se ensina o criacionismo na escola e onde a pena de morte foi banida. Gorada que foi a instauração do dia europeu contra a pena de morte para hoje, graças ao veto da Polónia, faço votos para que em breve esta seja uma realidade em toda a Europa e,espero eu, um dia em todo o mundo.

2007/10/09

“Sem perder a ternura...”


Faz hoje 40 anos que morreu o Cristo da esquerda ingénua, Ernesto Che Guevara.
A meu ver o principal motivo para recordarmos Che (tal como Trotsky, outro ídolo de uma esquerda já não tão ingénua) não é propriamente o seu legado em vida, mas a forma cruel como foram mortos. A forma como ambos foram assassinados demonstra a crueldade de quem os assassinou (mesmo se um um assassinato não tem absolutamente nada a ver com o outro). Dito isto, a maneira como ainda hoje são recordados tem a ver com o mito de pureza revolucionária que lhes está associado. Um estudo mais aprofundado das suas vidas mostra que nenhum deles era um exemplo de pureza. Mas não há dúvida de que principalmente Che é um ícone do século XX. Um ídolo pop. Tem muito a ver com ser argentino.

Imagem tirada ao Arrastão.

2007/10/08

Richard Dawkins e as palavras que não podem ser ditas

Richard Dawkins em entrevista ao The Guardian (via O Insurgente):
When you think about how fantastically successful the Jewish lobby has been, though, in fact, they are less numerous I am told - religious Jews anyway - than atheists and [yet they] more or less monopolise American foreign policy as far as many people can see. So if atheists could achieve a small fraction of that influence, the world would be a better place.
Mais um anti-semita...

Amor nos tempos da net

Julgava que histórias como esta que li no Cinco Dias só sucediam na ficção. Mas não: sucedem mesmo na vida real.

2007/10/04

“Propaganda comunista”

Em Portugal, o então professor do Instituto Superior Técnico Varela Cid, considerado na altura a autoridade do país em aeronáutica, protagonizou um episódio insólito após o lançamento do Sputnik, ao negar na televisão que isso fosse verdade. Defendeu que isso era cientificamente impossível e classificou o anúncio com “propaganda comunista”. A sua declaração correu mundo e cobriu-o de ridículo – e a Portugal com ele. O Le Monde titulou a propósito: “Les portugais sont toujours gais”. No Reino Unido nasceu a expressão “don’t be Varela” para referir argoladas.
(Texto de Filomena Naves no “Diário de Notícias” de hoje. Foi há cinquenta anos.)

Ó faxavor! É uma tese e uma apresentação oral

Não é boa ideia defender uma tese, com um júri maioritariamente benfiquista, a seguir a um jogo do Benfica. Com uma grande probabilidade o júri estará mal-disposto. Foi o que se passou hoje com a defesa de tese do Nélson que, mesmo assim, como era de se esperar, correu bastante bem. Não só porque ele é tão ou mais benfiquista que o júri, mas principalmente porque escreveu uma óptima tese e fez uma óptima apresentação. Mas nem isso era preciso: qualquer leitor dele sabe que quem escreve textos como este bem merece um mestrado em Matemática. Parabéns, pá!

2007/10/03

O PSD, o PS e as campanhas

Não creio que as recentes eleições no PSD venham a afectar muito a situação política portuguesa. Estas eleições foram desinteressantes e pouco atractivas para os “notáveis” pela mesma razão que as análogas no PS, há três anos, foram atractivas. Há três anos os militantes do PS escolhiam aquele que seria o futuro primeiro-ministro, e sabiam isso. Quem os militantes do PSD agora escolheram, muito provavelmente (espero eu!) nunca será primeiro-ministro. Se fosse ao contrário seria a mesma coisa.
O afastamento dos notáveis do PSD não é de agora: já foi claríssimo nas eleições para a Câmara de Lisboa, onde só apresentaram um candidato de terceira escolha. A culpa não é de Marques Mendes.
Quando foi que Mendes começou a perder influência? Teve um bom resultado nas autárquicas de 2005 e o seu candidato ganhou as presidenciais. A meu ver terá sido com o referendo ao aborto. Não digo que um partido não deva dar liberdade de voto em questões tão fracturantes, mas os seus dirigentes devem tomar uma posição pública clara, seja para ganhar ou perder. Durante dois ou três meses não se falou de outra coisa em Portugal que não do aborto, e Marques Mendes não aparecia. Não fazia campanha. Eclipsou-se e não voltou a aparecer.
Só para comparação, a situação no PS em 1998 era análoga: o líder tinha a sua posição mas não fez campanha e o partido não tomou posição. António Guterres ainda ganharia umas eleições, mas a sua relação com o seu eleitorado desde esse referendo não voltaria a ser a mesma.

EmPOLGAnte

2007/10/02

É hoje

Dez anos depois (e quatro anos depois da última vez que dei aulas), volto hoje a dar aulas no Técnico. será que ainda me lembro?

2007/10/01

É da praxe? MAAAAATAAAA!!! (2)

Vale a pena ler a caixa de comentários do meu texto anterior. Em particular, os comentários de um tal "so" ("Brázia") e de um "marolho". Para verem onde chega o delírio. Fica uma amostra:
É assim, urubus de capa e batina é a "puta que pariu". Se não te ensinaram a ter respeito pelas outras pessoas, ao menos aprende isso connosco. (...) Não me venhas com conversas sobre praxes em LEFT porque nem tu nem ninguém desse curso tem moral para falar sobre esse assunto. (...) Se a tradição académica não te diz nada (nem quero saber porquê) ao menos tem a hombridade de respeitar aqueles que sabem o que é ser estudante!

Que eu saiba, à porta da cantina de pós graduação não está nenhum "polícia da roupa" nem nenhum aviso especial que impeça alguém de lá entrar. Da ultima vez que vi, era um sítio livre de entrar. Isso são pensamentos de um elitista de merda.

Quem me quer dar a mim lições de "respeito" e de "ser estudante" e me acusa de "elitista"? Quem obriga - sim, obriga - os seus colegas mais novos a fazer figuras tristes enquanto os trata como "bichos". E traja um "traje académico".

2007/09/28

É da praxe? MAAAAATAAAA!!!

Finalmente parece que acabou. Passei uma semana a aturar caloiros (e veteranos) em manada na (enorme) fila do refeitório. Os veteranos estavam de capa e batina, claro. Os caloiros eram de engenharia informática. Ostentavam, pelos vistos orgulhosamente, uma etiqueta enorme pendurada ao pescoço, onde se lia em letras grandes “bicho da LEIC”. Os “bichos da LEIC” traziam ainda t-shirts com a inscrição “Fui praxado e não guinchei!” Muito bem. Grandes bichos! Só é pena que tal não corresponda exactamente à verdade, pois de tarde guinchavam bem alto enquanto passeavam em manada à volta do Técnico, sempre conduzidos pelos veteranos de capa e batina, obrigando-me a fechar a janela do gabinete.
No meu curso, de Física, a praxe sempre foi algo mais leve, de acordo com a convicção que sempre tive que tal procedimento indicia que os alunos não sabem muito bem o que vieram fazer para a faculdade. Tive oportunidade de conversar com alguns caloiros de Física, e só um estava decepcionado com a fraca praxe que teve. Queria mais! Queria que o obrigassem a fazer “uma ronda das tascas”, "como se faz em Coimbra". (Claramente, o rapaz não era de Lisboa. Também não era de Coimbra.)
Daqui a uns dez anos, quando acabarem o curso, vão estar todos, orgulhosos, na Alameda da Universidade, para lhes “benzerem as fitas”.

(Ler, a este respeito, o blogue do Movimento IST Alternativo.)

Petição pela Birmânia

Pela intervenção do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Assinar aqui.

2007/09/27

Parabéns, Santana Lopes!



Há muito que penso que a televisão portuguesa é o melhor retrato do nosso país, com os seus vícios, entre os quais está uma absoluta falta de respeito pelos espectadores e convidados. Nada funciona como deve ser. Nada do que é prometido é cumprido. Ninguém leva nada a sério, e ninguém parece importar-se minimamente com isso. Pelo contrário, quando o governo tentou, através da única forma que podia (uma lei) regular minimamente o sector, só se ouviram vozes a condenar este “autoritarismo” e esta interferência na “liberdade” (já cá faltava!) dos programadores de televisão, quando não se falava mesmo, vejam bem, num “regresso da censura”! Pois bem, esta política de “toda a liberdade” e nenhuma responsabilidade perante a sociedade (só perante os patrões) dos programadores de televisão deu nisto: um antigo primeiro-ministro estava a ser entrevistado e é interrompido para transmitir em directo a chegada de um treinador de futebol. Não importa se são o pior dos primeiros ministros e o melhor dos treinadores de futebol (que são – e nenhum deles tem culpa nenhuma do sucedido ontem); o que conta aqui é o respeito, a seriedade. Que nós já sabíamos não existirem nos canais generalistas; o que ficou ontem patente foi que tais hábitos infelizmente já se estenderam mesmo aos canais pagos. Por isso eu tenho que dar os meus parabéns a Pedro Santana Lopes pela sua atitude.
Mais tarde, numa declaração, responsáveis da SIC classificaram como “perfeitamente normal” a interrupção feita a Santana Lopes. Aqui tem toda a razão a SIC: num país a sério, tal interrupção nunca seria normal, mas em Portugal com certeza que é. O problema está aí.

2007/09/26

Finalmente acabaram-se os "lobos"!

E falando no João Miguel Tavares, sugiro a leitura da crónica dele de ontem no DN. Os jogadores de râguebi não ganharam um único jogo, e se têm tão boa imprensa é porque se chamam "Uva" e coisas do género.
Daí a transformá-los nos maiores heróis da Nação só porque andam num campeonato do mundo a perder os jogos todos (e por muitos) é capaz - digo eu - de ser um bocadinho exagerado.

Dir-me-ão: "Ah, e tal, são amadores, passaram muitos anos a lavar as suas próprias camisolas, e veja onde eles chegaram." Até pode ser. Embora, tendo em conta os estratos sociais de onde vem a maior parte daquela rapaziada, seja bem mais provável que tenha sido a dona Mariazinha ou a menina Svetlana a lavar-lhes a camisola. Mas passemos ao lado das questões de classe, ainda que elas expliquem muita coisa. O certo é que, mesmo tendo em conta os objectivos (modestos) anunciados, a selecção ainda não cumpriu nenhum.

Um pouco de Nova Iorque em Lisboa

...embora as más línguas digam que a Time Out é originária de Londres, o que eu não acredito. Lisboa tem a partir de hoje a sua Time Out. Da direcção faz parte o João Miguel Tavares, e eu desejo as maiores felicidades à nova publicação.

2007/09/25

Para acabar de vez com as FARC

Caro Tiago,
desculpa a demora mas tenho andado mesmo muito ocupado. Para encerrar (espero que de vez) a questão das FARC, e na sequência da resposta ao Pedro Correia, respondo só agora a este teu texto.
Primeiro: eu não fui à Festa do Avante. Se quisesse ter ido, não deixaria de ir pela presença de apoiantes das FARC, embora partilhar um espaço com tais pessoas me deixasse profundamente incomodado. É pouco, talvez, mas é sincero. Fico satisfeito por toda e qualquer referência às FARC ter sido eliminada da Festa, e reconheço que tal muito se deveu à campanha blogosférica e mediática que teve em ti um dos principais protagonistas.
Agora a questão é outra, Tiago, e já não vem de agora. Já não é a primeira vez que temos esta discussão. Passaste uma semana sem escreveres sobre outra coisa, sendo que questões muito mais importantes não merecem metade da tua atenção. Outro exemplo, particularmente evidente, é este outro teu texto. O nome de Catarina Eufémia foi utilizado para designar o grupo “Verde Eufémia”. Pois tu dedicaste muito mais espaço a tentares (com factos muitíssimo discutíveis) destruir a versão oficial histórica do PCP do que a comentares o que estava na ordem do dia: o ataque da “Verde Eufémia” e os transgénicos. Ao mínimo pretexto, tu estás sempre pronto a escrever um tratado anti-PCP, mesmo que este partido não tenha rigorosamente nada (como não tem, evidentemente) a ver com o “Verde Eufémia”. A tua principal preocupação, enquanto blóguer político, é atacares o PCP, Tiago, e era isso que deverias admitir. Mas é claro que o blogue é teu e podes fazer o que quiseres. Não podes é parecer imparcial nestas questões.
E por aqui me fico, até à nossa próxima polémica, que deve ocorrer lá para 7 de Novembro. Até lá, um abraço.

2007/09/24

"«Eles» não gostaram... e têm alguma razão"

Mário Bettencourt Resendes, provedor dos leitores do Diário de Notícias, respondeu no passado sábado à minha carta (e de outros leitores, que corroboravam). O tema era o lamentável título do artigo de Pedro Correia no passado dia 7; o conteúdo da carta não era muito diferente da última parte deste meu texto. Apesar da desconversa e da fuga para a frente do Pedro Correia, a opinião do provedor é taxativa:
Mesmo admitindo que se tratou de uma incursão, não conseguida, na "arte de titular com ironia", não colhe o argumento da "inspiração" no "ele" com que Casanova se referiu a Sócrates: a escrita jornalística de predominância noticiosa não deve colocar-se no mesmo plano em que se situa o texto de combate político. Ou seja, "eles" têm razão ao sentirem-se, assim, excluídos do universo de leitores do Diário de Notícias.
Esperemos que sirva de exemplo para o futuro, ao Pedro Correia e a outros jornalistas parciais, que escrevem sobre política com o objectivo de fazer política.
Resta a questão, que julgo interessante: quando pode um jornal referir-se a um grupo de pessoas como “eles”, excluindo-os assim do universo de potenciais leitores? A resposta não é única, mas tal só me parece aceitável se “eles” se dedicarem a actividades ilegais, sendo perseguidos por lei. É o caso da extrema direita, no que assim difere dos comunistas e da extrema esquerda. É também o caso de alguns movimentos de extrema esquerda, que não estão ligados a nenhum partido, como é o caso dos invasores da plantação de milho transgénico no Algarve. Em qualquer um desses casos, a opção dependerá sempre do critério do jornal. Mas nunca será aceitável que assim se designe numa sociedade democrática um partido legal e com representação parlamentar. Percebeu, Pedro Correia?

2007/09/21

“Mais do mesmo” ou tripeirismo recauchutado

E querem mesmo saber qual é a razão dos grandes males do PSD? Os candidatos à liderança são... “um benfiquista e um sportinguista!” Segundo a mesma lógica, certamente os males do país vêm de o primeiro ministro não ser (tal como nenhum dos últimos 25 anos, pelo menos) do FêCêPê! De onde poderia vir tal explicação? Do blogue dos liberais/tripeiros (no es lo mismo pero es igual). Bem podem o CAA e o João Miranda dar um ar renovado à coisa, mas assim se demonstra mais uma vez que a “destatização” e a “regionalização” em Portugal não são mais do que outros nomes para o tripeirismo recauchutado, defendido por uma elite portuense mesquinha, complexada, provinciana ao extremo, invejosa de Lisboa e sedenta de poder. Por muito bons argumentos que haja a favor da regionalização, não me sai da cabeça que apoiá-la é entregar um poder que influencia o resto do país a esta gente (que, como é evidente do texto em questão, só se preocupam com eles mesmos). Não contem comigo para os apoiar. Só não percebo o que pensa o sulista, sportinguista e liberal JCD deste assunto.

Pimba! Mais um anti-semita

"Para ter repercussão fala-se com o lóbi judeu, que é muito forte na imprensa de referência norte-americana." (António Carneiro Jacinto, ex-adido de imprensa da embaixada portuguesa em Washington, em entrevista ao Diário de Notícias)

2007/09/19

Bem vindo a casa, Ronaldo!

...mas espero que o resultado de logo seja o mesmo daquele jogo, entre as mesmas equipas, de inauguração do Estádio Alvalade XXI. O teu último jogo pelo Sporting.

"Com um estádio atrás de mim até eu lhe enfiava um tabefe"

João Miguel Tavares no Diário de Notícias:
O seleccionador devia ter vergonha não só pelo que fez mas pelas desculpas que arranjou. Porque, na verdade, não foi Scolari quem protegeu Quaresma, como até hoje ele continua a insistir. Foi Quaresma e a restante selecção que protegeram as costas de Scolari, enquanto ele perdia a cabeça em Alvalade.
Francamente o que mais me irrita na atitude de Scolari nem é o tabefe no sérvio em si. Espetar um tabefe num adversário, sendo uma atitude antidesportiva e condenável, revela um problema de temperamento. Não o saber assumir e refugiar-se em desculpas revela um problema de carácter.

2007/09/18

Os coelhos não são esferas - os coelhos são toros!

Reparem nos seguintes esclarecimentos de Dennis Overbye no The New York Times que, mais uma vez, até por isto é o melhor jornal do mundo:

August 18, 2006
Ask Science: Poincaré’s Conjecture
By DENNIS OVERBYE
Dennis Overbye answered select reader questions regarding his article about the Poincaré conjecture from this week's Science Times.

Q. The Poincaré Conjecture article has a side note stating "To a topologist, a rabbit is the same as a sphere." Every rabbit I've seen, however, has a hole (or tunnel if you prefer) running from its mouth to just under its tail. It seems to me a rabbit is really the same as a donut. – F. P. Katz

A. So you see, topology isn’t so hard after all. More readers than I care to count — by far a vast majority of those of you who wrote and phoned through all the different channels of communication available— took issue with my oversimplification of rabbit anatomy. Some were more scatalogical than the others. Yes, real live rabbits are like doughnuts, as are people, worms and sharks. As more than one reader pointed out, the development of a digestive system is no small feat for an organism.

My only excuse, and I admit it is a feeble one, is that the bunny in the graphic that accompanied this story was clearly a cleaned up version with no orifices, more like a chocolate bunny or a Disney animal than a real one. I also have to say that I never owned a rabbit, or any animal that lived in a cage that had to be cleaned up — an experience that might have reminded me of the inconvenient side of bunnies.

A mathematician friend tells me that the fact that so many readers caught me on this is very encouraging. “You should be ecstatic over this,” he wrote in an e-mail. “It means that a lot of non-mathematicians actually understood what you wrote!”

Sobre este assunto, e a relação entre a prova da conjectura de Poincaré e a teoria de supercordas, ler os comentários do Lubos Motl.

2007/09/17

22:15

Uff... Custou mas foi. Após muitas perifécias e imprevistos de última hora, a candidatura foi lacrada. Já não posso ver mais planos de trabalhos à frente. Uma vez mais alea jacta est.

2007/09/16

Recôncava


Claudionor Viana Teles Veloso, a Dona Canô, mãe de seis filhos, entre eles Caetano Veloso e Maria Bethânia, avó e bisavó, referência de Santo Amaro da Purificação na Bahia, faz hoje cem anos. Parabéns.

2007/09/14

How do we solve a problem like Scolari?

Admito, assumo, errei: quando li este texto da Fernanda Câncio, o pensamento que me veio à cabeça foi "as mulheres não percebem nada de futebol". Tal como o Scolari, eu não sou infalível (mas não preciso de me refugiar no Quaresma). Seria sempre errado chegar a esta generalização baseado num texto: no máximo, poderia chegar a alguma conclusão sobre... a Fernanda Câncio. Porque saberia que a Fernanda se irritaria, na altura decidi escrever nos comentários o eufemismo mais simpático de que me lembrei: a Fernanda "não estava nada preocupada" (eu queria era dizer "interessada") com o futebol. Mas se confirmação fosse precisa de que tal não é uma característica exclusiva das mulheres (e nem tem que ser de todas), ela foi-me dada por este texto ainda mais alucinado do Tiago Mendes. Obrigado, Tiago, por demonstrares que um homem também pode escrever despropósitos e exageros sobre futebol.
Tiago e Fernanda, eu gosto muito de vocês (a sério), apesar de provavelmente serem clientes do "El Corte Inglés" (espero que o Tiago ao menos não mande lá a criada). São duas pessoas a quem eu compraria um carro usado, como se diz nos EUA (se bem que não me parece que nenhum de vocês use carros utilitários). Mas convençam-se: o futebol é o território onde libertamos toda a nossa irracionalidade (se não fosse assim, como é que gajos de esquerda como eu estariam preocupados com gajos que ganham fortunas?). É claro que um individualista liberal como o Tiago julga que deveria partir de cada um (neste caso, de Scolari) a iniciativa de se autopunir, demitindo-se. Tal não é verdade, e nem a Federação deve tomar tal atitude, simplesmente porque tal seria desastroso, neste momento (friso o neste momento) para a selecção. Significa isto que o acto de Scolari deve passar impune? É claro que não, mas cabe a um moderador, um regulador (o equivalente ao Estado) a decidir a punição (este papel é da UEFA). A Federação deve deixar Scolari ficar até ao fim do Campeonato Europeu. Esta discussão é interessante (ler também o Daniel Oliveira); eu estou de acordo com o marialva (aqui e aqui).

2007/09/13

Não “empatámos” com a Sérvia, mas demos um murro num adversário

Este, sim, é um caso em que se pode usar o plural (embora a responsabilidade do acto seja exclusiva de Luís Filipe Scolari). Empatar, ganhar, perder, passar eliminatórias em futebol, râguebi ou básquete, sucede a todos os povos de todos os países, ou quase. Agredir adversários, árbitros, treinadores, rodear o árbitro a protestar, ser indisciplinado e ter conduta violenta, isso sim, marca a nossa imagem enquanto povo. Por muito que isso nos custe. (Ainda a propósito da polémica com o Nelson e do texto anterior.)

2007/09/12

“Ganhámos” ou “passámos”? Quem?

Deve ser defeito meu, mas confesso que me custa a compreender referências a supostos “representantes” de Portugal na primeira pessoa do plural. Para perceberem melhor o meu ponto de vista sobre esta questão, devo esclarecer que nos agradecimentos na minha tese de doutoramento coloquei as habituais referências ao meu orientador, aos meus professores, aos meus colegas, ao instituto. Mas só depois de me referir... a mim. A primeira frase desta secção da minha tese é: “Esta tese deve-se sobretudo a mim e ao meu esforço (a modéstia é para os enganadores).” Há outras razões para esta minha atitude, que eu não vou estar agora aqui a explicar. Mas o essencial é: sou mesmo muito sensível ao reconhecimento de um trabalho. Não gosto de levar louros por trabalho dos outros, mas também não gosto nada (e nem permito) que levem louros por causa do meu trabalho.
E é por isso que me faz confusão a leviandade com que se diz “ganhámos” ou “perdemos” quando se refere a uma selecção nacional. Quem “ganha” ou “perde” é a equipa (treinador incluído). E não adianta virem falar-me que eles estão a “representar o país”: nenhum deles (jogadores ou treinador) é insubstituível. Se estão lá, é porque foram escolhidos. Por isso mesmo, façam o que fizerem, a responsabilidade é deles. E os resultados que obtiverem também.
É particularmente irónico que quem escreva “ganhámos a Israel!” referindo-se à selecção de básquete seja um tipo que nem 1,70 m de altura tem. Mais ainda: o mesmo tipo tem, sem exagero, menos de metade do peso de um jogador de râguebi típico, mas escreve “perdemos 56-10”. Nelson, não jogues râguebi ou podes não sair vivo... E então empatámos 2-2 com a Polónia, hã? Aquela bola que entrou na nossa baliza depois de bater ingloriamente nas costas também teve a tua participação? Mas que grande frangueiro tu me saíste!

(Espero que hoje à noite contra a Sérvia as coisas corram bem à nossa equipa.)

2007/09/11

Ainda Pavarotti

Pude observar a reacção dos media portugueses ao falecimento de Luciano Pavarotti, e comparar o tempo nos telejornais ou as páginas nos jornais a ele dedicadas, comparadas com as dedicadas aos dez anos da morte de Diana Spencer ou ao desaparecimento da pequena Maddie Mc Cann. Cada um saberá ao que atribui mais importância, incluindo quem escreve nos jornais ou faz os telejornais. Eu tenho pena da miúda inglesa e fiquei consternado com a morte da princesa. Mas crianças raptadas e mortes por acidentes de carro infelizmente ocorrem todos os dias, e eu não posso dizer sinceramente que a minha vida fique mais pobre sem elas. A minha vida ficará, no entanto, muito mais pobre sem Luciano Pavarotti.

2007/09/10

O “Diário de Notícias” não é um jornal para “eles”

Sobre os convidados colombianos do PCP para a Festa do Avante, não tenho muito mais a dizer do que o Nuno Ramos de Almeida: “o facto do governo da Colômbia ter presos em condições inumanas milhares de militantes de esquerda não pode justificar raptos como a da candidata presidencial Ingrid Betancourt.” Acho normais os protestos na blogosfera, apesar de o partido presente na Festa ser legal e ter representação parlamentar (ao contrário do que sucedeu o ano passado, este ano todas as referências às FARC na Festa foram eliminadas, certamente um resultado da pressão mediática). Nem sequer vou exigir que, para condenar a acção terrorista das FARC, se tenha de condenar no mesmo texto o terrorismo de estado apoiado pelo governo colombiano: as acções das FARC são condenáveis só por si. O que eu não posso aceitar é que se condene as FARC ao mesmo tempo que se apoia o governo colombiano, que mantém prisioneiros políticos e apoia grupos paramilitares assassinos de extrema-direita.
O Tiago Barbosa Ribeiro, um “habitué” em assuntos como este, coligiu diligentemente todo o material publicado nos blogues nos últimos dias sobre este assunto, incitando mesmo os autores de blogues a escreverem. Tratando-se de fazer campanhas contra o PCP, o Tiago faz tudo o que lhe for possível, nem que para isso tenha que passar uma semana a escrever sempre a mesma coisa. Num protesto desta envergadura, seria bom que o Tiago procurasse garantir uma condenação dos métodos do governo colombiano ou, pelo menos, que não incluísse na sua colectânea textos de quem o apoia. Só que não é esse o caso. A obsessão anti-PCP do Tiago é tamanha que ele nem se importa de incluir textos de apoiantes do governo de Uribe. Apoiantes esses que nunca tinham escrito nenhum material sobre Ingrid Betancourt, antes de este caso da festa do Avante ter surgido. Será que a indignação só surgiu agora? O que encontrei naquele blogue foram vários textos em defesa do governo colombiano.
Mas tudo bem: o blogue é do Tiago e ele faz o que quer nele. Ele que não venha é depois tentar passar por independente em assuntos que envolvam o PCP. Acho mais espantoso quando a parcialidade e o sectarismo são assumidos por um órgão de informação, que se deveria limitar a relatar notícias. O acto em si foi involuntário; talvez uma distracção. Mas, ao escrever, “fugiu a mão para a verdade” ao jornalista Pedro Correia, quando intitulou uma notícia como “Eles já chamam fascista a Sócrates”. Esclareço que discordo profundamente do PCP neste ponto, mas a questão principal é mesmo a do “eles”. Se um jornal se dirige aos seus leitores referindo terceiros como “eles”, não espera que estes “eles” façam parte do grupo dos leitores. Será que o DN já nem conta com os comunistas como seus leitores? De um ostracismo dos comunistas como este eu não me lembro nem nos tempos da direcção de Fernando Lima.
Aproveito para esclarecer o Pedro Correia de que a “força do PC” se vê nestes ostracismos da comunicação social, que sofre como mais nenhum outro partido. E que “eles” são dos portugueses mais honestos, bravos e trabalhadores que se podem encontrar.

2007/09/07

Uma furtiva lágrima por Pavarotti



Não o referi neste texto e nem o tinha concluído nessa altura, mas após um exame de consciência, se eu ia mais à ópera em Nova Iorque do que, por exemplo, em Lisboa, era porque lá encontrava óperas clássicas, conhecidas, que tornam o gostar de ópera mais fácil para um principiante. E pelo elenco.
A primeira vez que fui à ópera, foi justamente ver este "O Elixir do Amor", de Donizetti, na Ópera Metropolitana de Nova Iorque. Julgava que ia ver o Pavarotti; ele fazia parte do elenco. Só que ele não apareceu e foi substituído. Nunca o vi assim ao vivo, mas não por isso que eu não gostei da ópera (uma das minhas favoritas) ou que deixei de gostar do tenor agora desaparecido. Se a ópera de facto não é um espectáculo para ricos, muito o deve a este homem.