2007/10/17

Adriano e a sua voz nos blogues


Adriano Correia de Oliveira, nascido no Porto a 9 de Abril de 1942, deixou-nos muito cedo, aos 40 anos.

A sua vida foi breve, mas, não foi em vão.

Entre 1960 e 1980, gravou mais de 90 temas, sendo a sua música sempre repleta de muita emotividade, evidenciando dedicação aos trabalhadores, ao povo, aos ideais da liberdade, da democracia e do socialismo.

Morreu em Avintes, localidade que o viu crescer, a 16 de Outubro de 1982.

No dia 16, vamos congregar esforços, para ouvirmos a sua voz nos blogs.


Uma excelente iniciativa do Vozes Silenciadas.

2007/10/16

Aquecimento global e Nobel da Paz

Alguns esclarecimentos sobre os comentários que os meus textos sobre o Nobel da Paz de 2007 suscitaram.
O Prémio Nobel da Paz é um prémio político. Não é um prémio científico. De nenhum modo a atribuição deste prémio significa um reconhecimento da realidade do aquecimento global. É antes um reconhecimento do seu trabalho em prol de uma causa meritória para a humanidade. É um prémio que pressupõe um julgamento moral.
Nesse aspecto dou razão ao Luís Aguiar Conraria no seu comentário: um prémio como o Nobel da Paz não deve ser atribuído para um trabalho que deve ser científico. A ciência não tem moral e nem responsabilidade social; o seu objectivo é, pura e simplesmente, a procura da verdade, por mais inconveniente que esta seja. Por isso o prémio teria sido melhor atribuído a Al Gore (cuja dedicação à causa do ambiente é muito antiga) e a grupos ecologistas.
A hipótese do aquecimento global causada pelo homem é o melhor que nós conhecemos. É presentemente a nossa realidade. É suportada por 90 por cento dos especialistas em climatologia, baseada no trabalho de perto de uma década de mais de 1000 investigadores provenientes de 130 países diferentes. O que não quer dizer que seja a última palavra a dizer sobre o assunto. Agora quem (legitimamente) não está satisfeito com a melhor explicação conhecida para o aquecimento global, que trate de propor outra e mostrar, com base em experiências credíveis, que a actual explicação está errada ou, pelo menos, que existe uma melhor explicação. É assim que funciona a ciência. Eu nunca vi isso em lado nenhum. Pelo contrário, só vi pessoas (por vezes cientistas) a contestarem a actual explicação por esta lhes ser... inconveniente. Por esta requerer uma alteração dos seus hábitos de vida, que há muito se sabe serem poluentes. Por estarem mais preocupados em continuarem a trnasportar-se de carro todos os dias, para não terem de se misturar com o “povo” em transportes públicos. Por não se quererem dar ao trabalho de reciclar. E de usar mais vidro e menos plástico. O que eu não posso aceitar é que esses cientistas disfarcem o seu comodismo e o seu egoísmo como "ciência".
Tudo isto implica um certo esforço, mas não é assim tanto. Na Holanda, toda a gente se transporta de bicicleta ou transportes públicos. Tal como se comia e bebia em louça, pode voltar-se à louça e abandonar os pratos, copos e talheres de plástico. Tudo é uma questão de mentalidade.
Finalmente, quero recordar algo ao Ricardo S. Carvalho (francamente, não sei mesmo se ele sabe). O Prémio Nobel da Paz pressupõe um julgamento moral, como referi. Ser-se “de esquerda” também. São duas coisas diferentes: o Prémio Nobel da Paz não é necessariamente de esquerda (das últimas vezes tem sido, mas nos anos 70 até ganhou o Kissinger). Pode acontecer estarem ambas erradas: prémios Nobel mal atribuídos, que não façam sentido, e opções políticas de esquerda (acontece às vezes). A verdade científica deve prevalecer, mas enquanto ela não existe (e isto admitindo que ela ainda não existe para o aquecimento global, o que está longe de ser pacífico), a esquerda tem o direito de ter as suas opções. Neste contexto, só uma opção de preservar o meio ambiente e melhorar a vida para todos no nosso planeta (contrária aos grandes interesses económicos) se pode considerar de esquerda. Isto é: só uma opção ecológica. Anteriormente falava do Prémio Nobel da Paz; agora falo de esquerda. Não estou a falar de ciência. Para isso (no que diz respeito ao aquecimento global), não sou o mais qualificado.

Sobre este assunto ler ainda o Klepsýdra, o De Rerum Natura, o Vida Breve, o Verdade ou Consequência e o Cosmic Variance.

2007/10/15

Paulo Autran (1922-2007)


Morreu talvez o maior actor do Brasil. Nunca me hei-de esquecer: uma vez, na década de 90, Autran trouxe a Portugal o seu espectáculo teatral. As críticas nos jornais foram todas bastante favoráveis, mas uma - do Público - incluia uma "sugestão" supostamente cúmplice ao mui erudito leitor, ao recomendar a peça: "esqueçam que é brasileiro"! Esqueçam que é um actor das telenovelas! Compreensivelmente, Autran declarou sentir-se discriminado em Portugal.
Já não me recordo do "crítico" que proferiu tal "recomendação". Nem interessa; ninguém se vai recordar do crítico, mas quem viu o Paulo Autran a actuar jamais o esquecerá. Masmo que tenha sido só em telenovelas, como eu.

Morreu o Bimbo


Mais aqui e aqui.

2007/10/13

Pseudo-cientistas ao serviço do lóbi das petrolíferas

Não é nada surpreendente como no Insurgente reagem ao Nobel de Al Gore. Mas sobre esta questão, dois pontos. Desde quando é que um prémio Nobel da paz é um prémio científico? Quanto à ciência propriamente dita, não é demais recordar que 90% (noventa por cento) da comunidade científica está de acordo em que o aquecimento global existe e deve-se principalmente à acção do Homem. O AAA poderia apresentar-nos argumentos dos 10% de cientistas que não concordam. Mas da próxima vez por favor não remeta para argumentos de quem de cientista não tem nada.
Sobre esta questão: realmente Al Gore não é cientista. Mas o prémio foi partilhado com o IPCC, que merece todo o crédito. Leiam ainda o Klepsýdra.

2007/10/12

Aforismo à João Miranda

De acordo com a sua forma de raciocinar, o João Miranda é um inimigo da paz.

Parabéns, Mr. Gore! (2)

Imagem Mónica Almeida/NYT

Basta vir aqui para perceber que este prémio incomoda muita gente. A batalha da opinião pública está ganha; resta o mais difícil, que é a batalha do dia a dia - convencer o cidadão comum a emitir menos CO2 reciclando, utilizando transportes públicos...

2007/10/11

Por falar em países desenvolvidos...

Eu penso que, num país desenvolvido, as pessoas trabalham se querem enriquecer. O ganhar dinheiro é visto como recompensa de um esforço, de mérito. Sobretudo, o trabalho, o esforço, o mérito são reconhecidos pela sociedade. É da sociedade que estamos a falar. E é isso, essa vontade quotidiana das pessoas, que torna esses países desenvolvidos. Tentativas de ganhar dinheiro fácil, como todo o tipo de jogo, também existem, mas só nos países onde as pessoas não acreditam que com o seu esforço seja recompensado existe um enorme entusiasmo com as apostas mútuas. Como se o sorteio do totoloto ou do euromilhões fosse o momento mais interessante da semana. A conversa típica da classe média-baixa (de que eu faço parte, e conheço bem) roda sempre à volta dos planos sobre “o que eu faço se me sair o totoloto”.
Os portugueses lideram a tabela europeia no número de apostas per capita no euromilhões, noticiava esta segunda-feira o Metro na primeira página. Ninguém fala nisto, ninguém comenta isto. Toda a gente parece achar isto muito normal. Eu acho este facto preocupante e sintomático.

2007/10/10

Superioridade civilizacional

Não tenho problemas em admitir que há países objectivamente mais desenvolvidos do que outros e onde se vive melhor, mesmo se isso já me custou chamarem-me elitista ou colonialista. Essa minha apreciação tem a ver com factos concretos e não implica um julgamento sobre os respectivos povos, que acredito que possam sempre desenvolver-se. Sei que o caminho para o desenvolvimento não é único, mas há aspectos que considero indiscutíveis.
Os aspectos em que os EUA são mais desenvolvidos prendem-se com o empreendedorismo do povo americano, que se traduz numa sociedade baseada na tecnologia e no progresso. Os aspectos em que a Europa é mais desenvolvida são (considero) civilizacionais. Um deles, de que muito me orgulho, é a rejeição do ensino do criacionismo por parte do Conselho da Europa, apesar do voto contra a resolução por parte de representantes de partidos de direita, entre os quais João Bosco Mota Amaral. O outro é a reduzida aplicação da pena de morte. Prefiro viver num país que tem um modelo social, onde o porte de armas não é livre, mas também onde não se ensina o criacionismo na escola e onde a pena de morte foi banida. Gorada que foi a instauração do dia europeu contra a pena de morte para hoje, graças ao veto da Polónia, faço votos para que em breve esta seja uma realidade em toda a Europa e,espero eu, um dia em todo o mundo.

2007/10/09

“Sem perder a ternura...”


Faz hoje 40 anos que morreu o Cristo da esquerda ingénua, Ernesto Che Guevara.
A meu ver o principal motivo para recordarmos Che (tal como Trotsky, outro ídolo de uma esquerda já não tão ingénua) não é propriamente o seu legado em vida, mas a forma cruel como foram mortos. A forma como ambos foram assassinados demonstra a crueldade de quem os assassinou (mesmo se um um assassinato não tem absolutamente nada a ver com o outro). Dito isto, a maneira como ainda hoje são recordados tem a ver com o mito de pureza revolucionária que lhes está associado. Um estudo mais aprofundado das suas vidas mostra que nenhum deles era um exemplo de pureza. Mas não há dúvida de que principalmente Che é um ícone do século XX. Um ídolo pop. Tem muito a ver com ser argentino.

Imagem tirada ao Arrastão.

2007/10/08

Richard Dawkins e as palavras que não podem ser ditas

Richard Dawkins em entrevista ao The Guardian (via O Insurgente):
When you think about how fantastically successful the Jewish lobby has been, though, in fact, they are less numerous I am told - religious Jews anyway - than atheists and [yet they] more or less monopolise American foreign policy as far as many people can see. So if atheists could achieve a small fraction of that influence, the world would be a better place.
Mais um anti-semita...

Amor nos tempos da net

Julgava que histórias como esta que li no Cinco Dias só sucediam na ficção. Mas não: sucedem mesmo na vida real.

2007/10/04

“Propaganda comunista”

Em Portugal, o então professor do Instituto Superior Técnico Varela Cid, considerado na altura a autoridade do país em aeronáutica, protagonizou um episódio insólito após o lançamento do Sputnik, ao negar na televisão que isso fosse verdade. Defendeu que isso era cientificamente impossível e classificou o anúncio com “propaganda comunista”. A sua declaração correu mundo e cobriu-o de ridículo – e a Portugal com ele. O Le Monde titulou a propósito: “Les portugais sont toujours gais”. No Reino Unido nasceu a expressão “don’t be Varela” para referir argoladas.
(Texto de Filomena Naves no “Diário de Notícias” de hoje. Foi há cinquenta anos.)

Ó faxavor! É uma tese e uma apresentação oral

Não é boa ideia defender uma tese, com um júri maioritariamente benfiquista, a seguir a um jogo do Benfica. Com uma grande probabilidade o júri estará mal-disposto. Foi o que se passou hoje com a defesa de tese do Nélson que, mesmo assim, como era de se esperar, correu bastante bem. Não só porque ele é tão ou mais benfiquista que o júri, mas principalmente porque escreveu uma óptima tese e fez uma óptima apresentação. Mas nem isso era preciso: qualquer leitor dele sabe que quem escreve textos como este bem merece um mestrado em Matemática. Parabéns, pá!

2007/10/03

O PSD, o PS e as campanhas

Não creio que as recentes eleições no PSD venham a afectar muito a situação política portuguesa. Estas eleições foram desinteressantes e pouco atractivas para os “notáveis” pela mesma razão que as análogas no PS, há três anos, foram atractivas. Há três anos os militantes do PS escolhiam aquele que seria o futuro primeiro-ministro, e sabiam isso. Quem os militantes do PSD agora escolheram, muito provavelmente (espero eu!) nunca será primeiro-ministro. Se fosse ao contrário seria a mesma coisa.
O afastamento dos notáveis do PSD não é de agora: já foi claríssimo nas eleições para a Câmara de Lisboa, onde só apresentaram um candidato de terceira escolha. A culpa não é de Marques Mendes.
Quando foi que Mendes começou a perder influência? Teve um bom resultado nas autárquicas de 2005 e o seu candidato ganhou as presidenciais. A meu ver terá sido com o referendo ao aborto. Não digo que um partido não deva dar liberdade de voto em questões tão fracturantes, mas os seus dirigentes devem tomar uma posição pública clara, seja para ganhar ou perder. Durante dois ou três meses não se falou de outra coisa em Portugal que não do aborto, e Marques Mendes não aparecia. Não fazia campanha. Eclipsou-se e não voltou a aparecer.
Só para comparação, a situação no PS em 1998 era análoga: o líder tinha a sua posição mas não fez campanha e o partido não tomou posição. António Guterres ainda ganharia umas eleições, mas a sua relação com o seu eleitorado desde esse referendo não voltaria a ser a mesma.

EmPOLGAnte

2007/10/02

É hoje

Dez anos depois (e quatro anos depois da última vez que dei aulas), volto hoje a dar aulas no Técnico. será que ainda me lembro?

2007/10/01

É da praxe? MAAAAATAAAA!!! (2)

Vale a pena ler a caixa de comentários do meu texto anterior. Em particular, os comentários de um tal "so" ("Brázia") e de um "marolho". Para verem onde chega o delírio. Fica uma amostra:
É assim, urubus de capa e batina é a "puta que pariu". Se não te ensinaram a ter respeito pelas outras pessoas, ao menos aprende isso connosco. (...) Não me venhas com conversas sobre praxes em LEFT porque nem tu nem ninguém desse curso tem moral para falar sobre esse assunto. (...) Se a tradição académica não te diz nada (nem quero saber porquê) ao menos tem a hombridade de respeitar aqueles que sabem o que é ser estudante!

Que eu saiba, à porta da cantina de pós graduação não está nenhum "polícia da roupa" nem nenhum aviso especial que impeça alguém de lá entrar. Da ultima vez que vi, era um sítio livre de entrar. Isso são pensamentos de um elitista de merda.

Quem me quer dar a mim lições de "respeito" e de "ser estudante" e me acusa de "elitista"? Quem obriga - sim, obriga - os seus colegas mais novos a fazer figuras tristes enquanto os trata como "bichos". E traja um "traje académico".

2007/09/28

É da praxe? MAAAAATAAAA!!!

Finalmente parece que acabou. Passei uma semana a aturar caloiros (e veteranos) em manada na (enorme) fila do refeitório. Os veteranos estavam de capa e batina, claro. Os caloiros eram de engenharia informática. Ostentavam, pelos vistos orgulhosamente, uma etiqueta enorme pendurada ao pescoço, onde se lia em letras grandes “bicho da LEIC”. Os “bichos da LEIC” traziam ainda t-shirts com a inscrição “Fui praxado e não guinchei!” Muito bem. Grandes bichos! Só é pena que tal não corresponda exactamente à verdade, pois de tarde guinchavam bem alto enquanto passeavam em manada à volta do Técnico, sempre conduzidos pelos veteranos de capa e batina, obrigando-me a fechar a janela do gabinete.
No meu curso, de Física, a praxe sempre foi algo mais leve, de acordo com a convicção que sempre tive que tal procedimento indicia que os alunos não sabem muito bem o que vieram fazer para a faculdade. Tive oportunidade de conversar com alguns caloiros de Física, e só um estava decepcionado com a fraca praxe que teve. Queria mais! Queria que o obrigassem a fazer “uma ronda das tascas”, "como se faz em Coimbra". (Claramente, o rapaz não era de Lisboa. Também não era de Coimbra.)
Daqui a uns dez anos, quando acabarem o curso, vão estar todos, orgulhosos, na Alameda da Universidade, para lhes “benzerem as fitas”.

(Ler, a este respeito, o blogue do Movimento IST Alternativo.)

Petição pela Birmânia

Pela intervenção do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Assinar aqui.

2007/09/27

Parabéns, Santana Lopes!



Há muito que penso que a televisão portuguesa é o melhor retrato do nosso país, com os seus vícios, entre os quais está uma absoluta falta de respeito pelos espectadores e convidados. Nada funciona como deve ser. Nada do que é prometido é cumprido. Ninguém leva nada a sério, e ninguém parece importar-se minimamente com isso. Pelo contrário, quando o governo tentou, através da única forma que podia (uma lei) regular minimamente o sector, só se ouviram vozes a condenar este “autoritarismo” e esta interferência na “liberdade” (já cá faltava!) dos programadores de televisão, quando não se falava mesmo, vejam bem, num “regresso da censura”! Pois bem, esta política de “toda a liberdade” e nenhuma responsabilidade perante a sociedade (só perante os patrões) dos programadores de televisão deu nisto: um antigo primeiro-ministro estava a ser entrevistado e é interrompido para transmitir em directo a chegada de um treinador de futebol. Não importa se são o pior dos primeiros ministros e o melhor dos treinadores de futebol (que são – e nenhum deles tem culpa nenhuma do sucedido ontem); o que conta aqui é o respeito, a seriedade. Que nós já sabíamos não existirem nos canais generalistas; o que ficou ontem patente foi que tais hábitos infelizmente já se estenderam mesmo aos canais pagos. Por isso eu tenho que dar os meus parabéns a Pedro Santana Lopes pela sua atitude.
Mais tarde, numa declaração, responsáveis da SIC classificaram como “perfeitamente normal” a interrupção feita a Santana Lopes. Aqui tem toda a razão a SIC: num país a sério, tal interrupção nunca seria normal, mas em Portugal com certeza que é. O problema está aí.

2007/09/26

Finalmente acabaram-se os "lobos"!

E falando no João Miguel Tavares, sugiro a leitura da crónica dele de ontem no DN. Os jogadores de râguebi não ganharam um único jogo, e se têm tão boa imprensa é porque se chamam "Uva" e coisas do género.
Daí a transformá-los nos maiores heróis da Nação só porque andam num campeonato do mundo a perder os jogos todos (e por muitos) é capaz - digo eu - de ser um bocadinho exagerado.

Dir-me-ão: "Ah, e tal, são amadores, passaram muitos anos a lavar as suas próprias camisolas, e veja onde eles chegaram." Até pode ser. Embora, tendo em conta os estratos sociais de onde vem a maior parte daquela rapaziada, seja bem mais provável que tenha sido a dona Mariazinha ou a menina Svetlana a lavar-lhes a camisola. Mas passemos ao lado das questões de classe, ainda que elas expliquem muita coisa. O certo é que, mesmo tendo em conta os objectivos (modestos) anunciados, a selecção ainda não cumpriu nenhum.

Um pouco de Nova Iorque em Lisboa

...embora as más línguas digam que a Time Out é originária de Londres, o que eu não acredito. Lisboa tem a partir de hoje a sua Time Out. Da direcção faz parte o João Miguel Tavares, e eu desejo as maiores felicidades à nova publicação.

2007/09/25

Para acabar de vez com as FARC

Caro Tiago,
desculpa a demora mas tenho andado mesmo muito ocupado. Para encerrar (espero que de vez) a questão das FARC, e na sequência da resposta ao Pedro Correia, respondo só agora a este teu texto.
Primeiro: eu não fui à Festa do Avante. Se quisesse ter ido, não deixaria de ir pela presença de apoiantes das FARC, embora partilhar um espaço com tais pessoas me deixasse profundamente incomodado. É pouco, talvez, mas é sincero. Fico satisfeito por toda e qualquer referência às FARC ter sido eliminada da Festa, e reconheço que tal muito se deveu à campanha blogosférica e mediática que teve em ti um dos principais protagonistas.
Agora a questão é outra, Tiago, e já não vem de agora. Já não é a primeira vez que temos esta discussão. Passaste uma semana sem escreveres sobre outra coisa, sendo que questões muito mais importantes não merecem metade da tua atenção. Outro exemplo, particularmente evidente, é este outro teu texto. O nome de Catarina Eufémia foi utilizado para designar o grupo “Verde Eufémia”. Pois tu dedicaste muito mais espaço a tentares (com factos muitíssimo discutíveis) destruir a versão oficial histórica do PCP do que a comentares o que estava na ordem do dia: o ataque da “Verde Eufémia” e os transgénicos. Ao mínimo pretexto, tu estás sempre pronto a escrever um tratado anti-PCP, mesmo que este partido não tenha rigorosamente nada (como não tem, evidentemente) a ver com o “Verde Eufémia”. A tua principal preocupação, enquanto blóguer político, é atacares o PCP, Tiago, e era isso que deverias admitir. Mas é claro que o blogue é teu e podes fazer o que quiseres. Não podes é parecer imparcial nestas questões.
E por aqui me fico, até à nossa próxima polémica, que deve ocorrer lá para 7 de Novembro. Até lá, um abraço.

2007/09/24

"«Eles» não gostaram... e têm alguma razão"

Mário Bettencourt Resendes, provedor dos leitores do Diário de Notícias, respondeu no passado sábado à minha carta (e de outros leitores, que corroboravam). O tema era o lamentável título do artigo de Pedro Correia no passado dia 7; o conteúdo da carta não era muito diferente da última parte deste meu texto. Apesar da desconversa e da fuga para a frente do Pedro Correia, a opinião do provedor é taxativa:
Mesmo admitindo que se tratou de uma incursão, não conseguida, na "arte de titular com ironia", não colhe o argumento da "inspiração" no "ele" com que Casanova se referiu a Sócrates: a escrita jornalística de predominância noticiosa não deve colocar-se no mesmo plano em que se situa o texto de combate político. Ou seja, "eles" têm razão ao sentirem-se, assim, excluídos do universo de leitores do Diário de Notícias.
Esperemos que sirva de exemplo para o futuro, ao Pedro Correia e a outros jornalistas parciais, que escrevem sobre política com o objectivo de fazer política.
Resta a questão, que julgo interessante: quando pode um jornal referir-se a um grupo de pessoas como “eles”, excluindo-os assim do universo de potenciais leitores? A resposta não é única, mas tal só me parece aceitável se “eles” se dedicarem a actividades ilegais, sendo perseguidos por lei. É o caso da extrema direita, no que assim difere dos comunistas e da extrema esquerda. É também o caso de alguns movimentos de extrema esquerda, que não estão ligados a nenhum partido, como é o caso dos invasores da plantação de milho transgénico no Algarve. Em qualquer um desses casos, a opção dependerá sempre do critério do jornal. Mas nunca será aceitável que assim se designe numa sociedade democrática um partido legal e com representação parlamentar. Percebeu, Pedro Correia?

2007/09/21

“Mais do mesmo” ou tripeirismo recauchutado

E querem mesmo saber qual é a razão dos grandes males do PSD? Os candidatos à liderança são... “um benfiquista e um sportinguista!” Segundo a mesma lógica, certamente os males do país vêm de o primeiro ministro não ser (tal como nenhum dos últimos 25 anos, pelo menos) do FêCêPê! De onde poderia vir tal explicação? Do blogue dos liberais/tripeiros (no es lo mismo pero es igual). Bem podem o CAA e o João Miranda dar um ar renovado à coisa, mas assim se demonstra mais uma vez que a “destatização” e a “regionalização” em Portugal não são mais do que outros nomes para o tripeirismo recauchutado, defendido por uma elite portuense mesquinha, complexada, provinciana ao extremo, invejosa de Lisboa e sedenta de poder. Por muito bons argumentos que haja a favor da regionalização, não me sai da cabeça que apoiá-la é entregar um poder que influencia o resto do país a esta gente (que, como é evidente do texto em questão, só se preocupam com eles mesmos). Não contem comigo para os apoiar. Só não percebo o que pensa o sulista, sportinguista e liberal JCD deste assunto.

Pimba! Mais um anti-semita

"Para ter repercussão fala-se com o lóbi judeu, que é muito forte na imprensa de referência norte-americana." (António Carneiro Jacinto, ex-adido de imprensa da embaixada portuguesa em Washington, em entrevista ao Diário de Notícias)

2007/09/20

Até nisto somos um clube diferente


O adversário marca... e os sportinguistas aplaudem. No fundo ninguém ficou muito triste. Era um dos nossos.

Resumo do Sporting-Manchester United (2)

Resumo do Sporting-Manchester United (1)

2007/09/19

Bem vindo a casa, Ronaldo!

...mas espero que o resultado de logo seja o mesmo daquele jogo, entre as mesmas equipas, de inauguração do Estádio Alvalade XXI. O teu último jogo pelo Sporting.

"Com um estádio atrás de mim até eu lhe enfiava um tabefe"

João Miguel Tavares no Diário de Notícias:
O seleccionador devia ter vergonha não só pelo que fez mas pelas desculpas que arranjou. Porque, na verdade, não foi Scolari quem protegeu Quaresma, como até hoje ele continua a insistir. Foi Quaresma e a restante selecção que protegeram as costas de Scolari, enquanto ele perdia a cabeça em Alvalade.
Francamente o que mais me irrita na atitude de Scolari nem é o tabefe no sérvio em si. Espetar um tabefe num adversário, sendo uma atitude antidesportiva e condenável, revela um problema de temperamento. Não o saber assumir e refugiar-se em desculpas revela um problema de carácter.

2007/09/18

Os coelhos não são esferas - os coelhos são toros!

Reparem nos seguintes esclarecimentos de Dennis Overbye no The New York Times que, mais uma vez, até por isto é o melhor jornal do mundo:

August 18, 2006
Ask Science: Poincaré’s Conjecture
By DENNIS OVERBYE
Dennis Overbye answered select reader questions regarding his article about the Poincaré conjecture from this week's Science Times.

Q. The Poincaré Conjecture article has a side note stating "To a topologist, a rabbit is the same as a sphere." Every rabbit I've seen, however, has a hole (or tunnel if you prefer) running from its mouth to just under its tail. It seems to me a rabbit is really the same as a donut. – F. P. Katz

A. So you see, topology isn’t so hard after all. More readers than I care to count — by far a vast majority of those of you who wrote and phoned through all the different channels of communication available— took issue with my oversimplification of rabbit anatomy. Some were more scatalogical than the others. Yes, real live rabbits are like doughnuts, as are people, worms and sharks. As more than one reader pointed out, the development of a digestive system is no small feat for an organism.

My only excuse, and I admit it is a feeble one, is that the bunny in the graphic that accompanied this story was clearly a cleaned up version with no orifices, more like a chocolate bunny or a Disney animal than a real one. I also have to say that I never owned a rabbit, or any animal that lived in a cage that had to be cleaned up — an experience that might have reminded me of the inconvenient side of bunnies.

A mathematician friend tells me that the fact that so many readers caught me on this is very encouraging. “You should be ecstatic over this,” he wrote in an e-mail. “It means that a lot of non-mathematicians actually understood what you wrote!”

Sobre este assunto, e a relação entre a prova da conjectura de Poincaré e a teoria de supercordas, ler os comentários do Lubos Motl.

2007/09/17

22:15

Uff... Custou mas foi. Após muitas perifécias e imprevistos de última hora, a candidatura foi lacrada. Já não posso ver mais planos de trabalhos à frente. Uma vez mais alea jacta est.

2007/09/16

Recôncava


Claudionor Viana Teles Veloso, a Dona Canô, mãe de seis filhos, entre eles Caetano Veloso e Maria Bethânia, avó e bisavó, referência de Santo Amaro da Purificação na Bahia, faz hoje cem anos. Parabéns.

2007/09/14

How do we solve a problem like Scolari?

Admito, assumo, errei: quando li este texto da Fernanda Câncio, o pensamento que me veio à cabeça foi "as mulheres não percebem nada de futebol". Tal como o Scolari, eu não sou infalível (mas não preciso de me refugiar no Quaresma). Seria sempre errado chegar a esta generalização baseado num texto: no máximo, poderia chegar a alguma conclusão sobre... a Fernanda Câncio. Porque saberia que a Fernanda se irritaria, na altura decidi escrever nos comentários o eufemismo mais simpático de que me lembrei: a Fernanda "não estava nada preocupada" (eu queria era dizer "interessada") com o futebol. Mas se confirmação fosse precisa de que tal não é uma característica exclusiva das mulheres (e nem tem que ser de todas), ela foi-me dada por este texto ainda mais alucinado do Tiago Mendes. Obrigado, Tiago, por demonstrares que um homem também pode escrever despropósitos e exageros sobre futebol.
Tiago e Fernanda, eu gosto muito de vocês (a sério), apesar de provavelmente serem clientes do "El Corte Inglés" (espero que o Tiago ao menos não mande lá a criada). São duas pessoas a quem eu compraria um carro usado, como se diz nos EUA (se bem que não me parece que nenhum de vocês use carros utilitários). Mas convençam-se: o futebol é o território onde libertamos toda a nossa irracionalidade (se não fosse assim, como é que gajos de esquerda como eu estariam preocupados com gajos que ganham fortunas?). É claro que um individualista liberal como o Tiago julga que deveria partir de cada um (neste caso, de Scolari) a iniciativa de se autopunir, demitindo-se. Tal não é verdade, e nem a Federação deve tomar tal atitude, simplesmente porque tal seria desastroso, neste momento (friso o neste momento) para a selecção. Significa isto que o acto de Scolari deve passar impune? É claro que não, mas cabe a um moderador, um regulador (o equivalente ao Estado) a decidir a punição (este papel é da UEFA). A Federação deve deixar Scolari ficar até ao fim do Campeonato Europeu. Esta discussão é interessante (ler também o Daniel Oliveira); eu estou de acordo com o marialva (aqui e aqui).

2007/09/13

Não “empatámos” com a Sérvia, mas demos um murro num adversário

Este, sim, é um caso em que se pode usar o plural (embora a responsabilidade do acto seja exclusiva de Luís Filipe Scolari). Empatar, ganhar, perder, passar eliminatórias em futebol, râguebi ou básquete, sucede a todos os povos de todos os países, ou quase. Agredir adversários, árbitros, treinadores, rodear o árbitro a protestar, ser indisciplinado e ter conduta violenta, isso sim, marca a nossa imagem enquanto povo. Por muito que isso nos custe. (Ainda a propósito da polémica com o Nelson e do texto anterior.)

2007/09/12

“Ganhámos” ou “passámos”? Quem?

Deve ser defeito meu, mas confesso que me custa a compreender referências a supostos “representantes” de Portugal na primeira pessoa do plural. Para perceberem melhor o meu ponto de vista sobre esta questão, devo esclarecer que nos agradecimentos na minha tese de doutoramento coloquei as habituais referências ao meu orientador, aos meus professores, aos meus colegas, ao instituto. Mas só depois de me referir... a mim. A primeira frase desta secção da minha tese é: “Esta tese deve-se sobretudo a mim e ao meu esforço (a modéstia é para os enganadores).” Há outras razões para esta minha atitude, que eu não vou estar agora aqui a explicar. Mas o essencial é: sou mesmo muito sensível ao reconhecimento de um trabalho. Não gosto de levar louros por trabalho dos outros, mas também não gosto nada (e nem permito) que levem louros por causa do meu trabalho.
E é por isso que me faz confusão a leviandade com que se diz “ganhámos” ou “perdemos” quando se refere a uma selecção nacional. Quem “ganha” ou “perde” é a equipa (treinador incluído). E não adianta virem falar-me que eles estão a “representar o país”: nenhum deles (jogadores ou treinador) é insubstituível. Se estão lá, é porque foram escolhidos. Por isso mesmo, façam o que fizerem, a responsabilidade é deles. E os resultados que obtiverem também.
É particularmente irónico que quem escreva “ganhámos a Israel!” referindo-se à selecção de básquete seja um tipo que nem 1,70 m de altura tem. Mais ainda: o mesmo tipo tem, sem exagero, menos de metade do peso de um jogador de râguebi típico, mas escreve “perdemos 56-10”. Nelson, não jogues râguebi ou podes não sair vivo... E então empatámos 2-2 com a Polónia, hã? Aquela bola que entrou na nossa baliza depois de bater ingloriamente nas costas também teve a tua participação? Mas que grande frangueiro tu me saíste!

(Espero que hoje à noite contra a Sérvia as coisas corram bem à nossa equipa.)

2007/09/11

Ainda Pavarotti

Pude observar a reacção dos media portugueses ao falecimento de Luciano Pavarotti, e comparar o tempo nos telejornais ou as páginas nos jornais a ele dedicadas, comparadas com as dedicadas aos dez anos da morte de Diana Spencer ou ao desaparecimento da pequena Maddie Mc Cann. Cada um saberá ao que atribui mais importância, incluindo quem escreve nos jornais ou faz os telejornais. Eu tenho pena da miúda inglesa e fiquei consternado com a morte da princesa. Mas crianças raptadas e mortes por acidentes de carro infelizmente ocorrem todos os dias, e eu não posso dizer sinceramente que a minha vida fique mais pobre sem elas. A minha vida ficará, no entanto, muito mais pobre sem Luciano Pavarotti.

2007/09/10

O “Diário de Notícias” não é um jornal para “eles”

Sobre os convidados colombianos do PCP para a Festa do Avante, não tenho muito mais a dizer do que o Nuno Ramos de Almeida: “o facto do governo da Colômbia ter presos em condições inumanas milhares de militantes de esquerda não pode justificar raptos como a da candidata presidencial Ingrid Betancourt.” Acho normais os protestos na blogosfera, apesar de o partido presente na Festa ser legal e ter representação parlamentar (ao contrário do que sucedeu o ano passado, este ano todas as referências às FARC na Festa foram eliminadas, certamente um resultado da pressão mediática). Nem sequer vou exigir que, para condenar a acção terrorista das FARC, se tenha de condenar no mesmo texto o terrorismo de estado apoiado pelo governo colombiano: as acções das FARC são condenáveis só por si. O que eu não posso aceitar é que se condene as FARC ao mesmo tempo que se apoia o governo colombiano, que mantém prisioneiros políticos e apoia grupos paramilitares assassinos de extrema-direita.
O Tiago Barbosa Ribeiro, um “habitué” em assuntos como este, coligiu diligentemente todo o material publicado nos blogues nos últimos dias sobre este assunto, incitando mesmo os autores de blogues a escreverem. Tratando-se de fazer campanhas contra o PCP, o Tiago faz tudo o que lhe for possível, nem que para isso tenha que passar uma semana a escrever sempre a mesma coisa. Num protesto desta envergadura, seria bom que o Tiago procurasse garantir uma condenação dos métodos do governo colombiano ou, pelo menos, que não incluísse na sua colectânea textos de quem o apoia. Só que não é esse o caso. A obsessão anti-PCP do Tiago é tamanha que ele nem se importa de incluir textos de apoiantes do governo de Uribe. Apoiantes esses que nunca tinham escrito nenhum material sobre Ingrid Betancourt, antes de este caso da festa do Avante ter surgido. Será que a indignação só surgiu agora? O que encontrei naquele blogue foram vários textos em defesa do governo colombiano.
Mas tudo bem: o blogue é do Tiago e ele faz o que quer nele. Ele que não venha é depois tentar passar por independente em assuntos que envolvam o PCP. Acho mais espantoso quando a parcialidade e o sectarismo são assumidos por um órgão de informação, que se deveria limitar a relatar notícias. O acto em si foi involuntário; talvez uma distracção. Mas, ao escrever, “fugiu a mão para a verdade” ao jornalista Pedro Correia, quando intitulou uma notícia como “Eles já chamam fascista a Sócrates”. Esclareço que discordo profundamente do PCP neste ponto, mas a questão principal é mesmo a do “eles”. Se um jornal se dirige aos seus leitores referindo terceiros como “eles”, não espera que estes “eles” façam parte do grupo dos leitores. Será que o DN já nem conta com os comunistas como seus leitores? De um ostracismo dos comunistas como este eu não me lembro nem nos tempos da direcção de Fernando Lima.
Aproveito para esclarecer o Pedro Correia de que a “força do PC” se vê nestes ostracismos da comunicação social, que sofre como mais nenhum outro partido. E que “eles” são dos portugueses mais honestos, bravos e trabalhadores que se podem encontrar.

2007/09/07

Uma furtiva lágrima por Pavarotti



Não o referi neste texto e nem o tinha concluído nessa altura, mas após um exame de consciência, se eu ia mais à ópera em Nova Iorque do que, por exemplo, em Lisboa, era porque lá encontrava óperas clássicas, conhecidas, que tornam o gostar de ópera mais fácil para um principiante. E pelo elenco.
A primeira vez que fui à ópera, foi justamente ver este "O Elixir do Amor", de Donizetti, na Ópera Metropolitana de Nova Iorque. Julgava que ia ver o Pavarotti; ele fazia parte do elenco. Só que ele não apareceu e foi substituído. Nunca o vi assim ao vivo, mas não por isso que eu não gostei da ópera (uma das minhas favoritas) ou que deixei de gostar do tenor agora desaparecido. Se a ópera de facto não é um espectáculo para ricos, muito o deve a este homem.

2007/09/06

Ainda sobre os transgénicos

Um pequeno comentário que deixei no Cinco Dias:

Esta questão dos transgénicos parece-me semelhante à da energia nuclear. É possível que com um melhor aproveitamento dos recursos existentes – que estão muito mal aproveitados – o recurso a elas seja desnecessário, mas tal não invalida que se investiguem e proponham formas novas de produção. O que me causa espécie é que esta investigação é logo catalogada como “sede de lucro”. Alguém duvida que, se a URSS ainda existisse, estaria a investigar em transgénicos? Seria esta putativa investigação da URSS movida pelo lucro? Não; esta história do “lucro” é só uma desculpa para disfarçar a desconfiança pela ciência e pela tecnologia. Os mesmos que são contra os transgénicos por causa da ganância propõem que os charlatães das homeopatias e outras medicinas “alternativas” sejam subsidiados pelos nossos impostos. Isto tudo é a influência do Prof. Boaventura. E só demonstra a desorientação de alguma esquerda desde a queda do muro de Berlim.

Sobre este assunto, sugiro a leitura deste texto do Rui Curado Silva.

2007/09/04

Entretanto

...amanhã começa a XVI Fall Workshop on Geometry and Physics, e parece que eu tenho que preparar uma apresentação. Vamos a isso, então.

E pronto

São 17:33. Por uma vez vou esquecer-me que o latim é uma língua de fachos e padres e dizer: alea jacta est.

2007/09/03

Xutos em Lisboa

Pela quantidade de pessoas de várias idades vestidas a rigor com t-shirts do grupo, ontem à noite na Torre de Belém pude confirmar que os Xutos são uma marca, uma gama, um estilo. Que perdura no tempo. e como não há outros em Portugal, goste-se ou não. O mérito é todo deles.
Ser-se "consagrado" musicalmente é isto: não vamos à espera de novidades, não queremos novidades. Queremos ouvir as músicas que sempre ouvimos e gostámos. Cujas letras conhecemos de cabeça. É isso que eu espero de um concerto dos Xutos.
O concerto de ontem à noite não foi bem isso. Houve músicas que eu não conhecia (mais de metade, dos álbuns mais recentes). Todas as músicas estavam vestidas com um arranjo novo, tocadas com uma orquestra de metal. Tudo bem, e parabéns aos Xutos por não se acomodarem. Mas o que me entusiasmou mesmo foram alguns dos clássicos... Ao ouvi-los, uma vontade de rir nasceu do fundo do meu ser.

(E agora, leitores, dêem-me licença mas ando apertadíssimo com um prazo muito importante. Dou comigo agarrado ao ponteiro mais pequeno.)

2007/08/29

Eduardo Prado Coelho (1944-2007)


Foi graças a Eduardo Prado Coelho que entrei no mundo dos blogues. Foi numa das suas crónicas diárias no "Público", onde teria alegadamente catalogado o pobre Pedro Mexia como "de extrema direita". Na resposta o Pedro Mexia referiu que as suas posições políticas estavam disponíveis, para quem quisesse julgá-las, em http://colunainfame.blogspot.com/ Graças às precipitações e simplismos de Eduardo Prado Coelho, cheguei aos blogues antes da maioria das pessoas e pude acompanhar dia a dia um dos melhores blogues portugueses de sempre. Devo-lhe isso.
O curiosos é que o (saudoso) EPC foi talvez o primeiro blóguer português. A sua (igualmente saudosa) coluna diária "o Fio do Horizonte", no Público, não diferia em nada de um blogue, no estilo ou no conteúdo. EPC foi um blóguer que nunca precisou de ter um blogue.

2007/08/27

Andebol, basquetebol, mão; futebol, pé

É a máxima de Paulo Bento, se bem se recordam, há cerca de um ano, a seguir ao golo sofrido com a mão no jogo Sporting-Paços de Ferreira (foi divulgada na célebre rábula do Gato Fedorento). Está na altura de o Paulo Bento a ensinar ao Stoikovic, em tratando-se de atrasos feitos por colegas de equipa. Ou então, de pôr o Rui Patrício a jogar. (Eu sabia que haveria de ter saudades do Ricardo.)

(PS: O mais cómico era ver, nos comentários da TVI, Jorge Coroado a criticar a decisão do árbitro de marcar livre indirecto, uma vez que Polga, supostamente, “não teria a intenção de passar a bola ao guarda-redes”. Ó Jorge Coroado, qual seria a intenção do Polga ao atirar a bola no sentido da baliza, marcar autogolo?

2007/08/26

Eu preferia quando a Eufémia era vermelha

E eis que em plena silly season surge algum facto político para animar: a invasão de uma herdade de cultivo de milho transgénico no Algarve por membros (de diversas nacionalidades) de um grupo com um nome bem português: “Verde Eufémia”.

A reacção da comunicação social portuguesa foi de escândalo pela “invasão da propriedade privada” para destruição de uma “plantação legal”. O facto de a plantação ser legal é importantíssimo e meu ver é o que mais merece ser discutido. Ninguém tentou saber, porém, quem trabalhava na referida herdade e em que condições. O que interessa é que é “propriedade privada”. Quem torna a referida propriedade produtiva está, ainda assim, a trabalhar em “propriedade privada”, e isso é o mais importante de tudo.Este é um triste sinal dos tempos em que vivemos, em que “Torre Bela” é só nome de documentário.

De entre os jornais que só se importaram com a defesa da propriedade, o mais assanhado foi o “Diário de Notícias”. João Pedro Henriques, um jornalista que eu habitualmente respeito e considero muito, nas questões que coloca numa entrevista a Miguel Portas chega ao cúmulo do dislate, ao comparar a invasão da plantação de milho transgénico com uma suposta invasão da casa do eurodeputado por este fumar. Miguel Portas estaria a fumar em sua casa, algo que só diz respsito a si e à sua família. O milho transgénico, que eu saiba, não era para consumo pessoal e pode vir a ser consumido por toda a gente.

Dito isto, tenho realmente pena que os activistas, com tantos crimes ecológicos que se cometem pelo Algarve e por Portugal fora, se concentrem exclusivamente no milho transgénico. Esta é a questão que vale a pena debater, e para isso precisamos de especialistas, que eu não sou. Mas até prova em contrário eu sou favorável ao cultivo de transgénicos. Creio que as suas vantagens superam em muito os seus inconvenientes. As alternativas são o recurso a produtos químicos poluentes, que têm um impacto ambiental muito superior aos transgénicos. Ou então – e esse é com certeza o sonho da “Verde Eufémia” – um regresso à agricultura biológica. Eu conheço vários adeptos da agricultura biológica, de várias nacionalidades, todos burgueses de esquerda. A produção da agricultura biológica talvez chegue para os alimentar a eles. Talvez dê para alimentar pequenos produtores do campo com pequenas hortas. Mas nunca uma produção exclusivamente biológica permitirá fornecer todos os supermercados de uma região como a Área Metropolitana de Lisboa. Chegará para fornecer, quanto muito, o “El Corte Inglés”. Um dos principais objectivos da esquerda deve ser dar comida a toda a gente e isso, com a actual demografia, só é possível com uma agricultura de massa. Era bom que a esquerda percebesse isso.

(Encontro-me numa aldeia do distrito de Aveiro, numa casa de família com uma pequeno pomar de frutas que são biológicas desde que os meus avós morreram. Frequentemente, para me entreter, apanho um cesto de deliciosas peras. Dois ou três dias depois, metade das deliciosas peras biológicas estão boas para voltarem para a horta e servirem de adubo.)

2007/08/22

Fernando Santos


É o treinador mais mal amado do futebol português. É uma pena. Confesso que simpatizo com o engenheiro. Para além de ser com certeza um bom homem, deve ser o único treinador no mundo que conhece as equações de Maxwell, pelo menos na sua forma integral.

Dez anos


Faz hoje dez anos que desembarquei pela primeira vez no aeroporto JFK, em Nova Iorque, tendo em vista um doutoramento na State University of New York at Stony Brook. Tinha até então sempre estudado e vivido em Lisboa, em casa da minha família, pelo que esta foi uma das datas mais marcantes da minha vida. Iniciava-se uma fase nova para mim e algumas das melhores experiências que já vivi.

2007/08/20

Entretanto, as eleições americanas

I’m a longtime Barack Obama supporter, and the convention reinforced my feeling. His performance at the forum was careful and specific, not letting his charisma shine through, but he was enormously compelling in a breakout session afterward. Obama gets what it’s like to live in a complicated world, because he encapsulates a complicated world all by himself: American mother, Kenyan father, born in Hawaii, lived for four years in Indonesia as a child, educated at Harvard, trained as a street organizer in Chicago. He has an incremental but ambitious health care plan, and was anti-war from the start. Still, I’d be absolutely thrilled to support any of Obama/Clinton/Edwards against any of the embarrassments currently in contention for the Republican nomination. It’s an incredibly strong Democratic field, which is something I never thought I’d see.
(Sean Carroll)

2007/08/19

Carioca ao vivo

Não sei se já chegou às nossas lojas, mas no Brasil já está à venda Carioca ao Vivo, o mais recente álbum do Chico Buarque. Exceptuando o Tanto Mar, que só foi interpretado em Portugal, o alinhamento foi por mim anunciado aqui, no passado mês de Novembro. Quem esteve no concerto, como eu, não vai perder esta oportunidade de o "trazer para casa". Quem não esteve tem uma oportunidade única de recuperar o que não ouviu.

De uma junta de freguesia do distrito de Aveiro

É aqui que me encontro para ter acesso à internet de banda larga. A postagem não tem sido por isso tão frequente. A pouco e pouco regressaremos.

2007/08/13

Julius Wess (1934-2007)

Vi este físico alemão pela primeira e única vez na conferência dos 30 anos da supergravidade, em Paris, em Outubro passado. Ainda há duas semanas deu um seminário numa sessão plenária da SUSY 2007, a conferência anual sobre supersimetria. Morreu no passado dia 8, quando ainda era um cientista activo, até há pouco tempo líder de um grupo na Universidade de Munique, e que orientava mestrados e doutoramentos.
Será recordado na física teórica não como o inventor da supersimetria, mas um dos descobridores das primeiras teorias de campo supersimétricas consistentes. A supersimetria deixava de ser uma simetria obscura proposta por uns russos para passar a ser uma propriedade das teorias de campo que, quando estas a manifestassem, lhes conferia muito melhores propriedades quânticas. Estava lançado o mote para que se construíssem modelos em física de partículas que permitiam resolver vários problemas fenomenológicos. Wess foi ainda o co-autor de importantíssimos trabalhos em teorias quânticas de campo (não necessariamente supersimétricas), permitindo nomeadamente entender melhor as anomalias. Os seus principais trabalhos – e foram muitos – foram sempre em co-autoria com o italiano Bruno Zumino, hoje professor jubilado ainda activo da Universidade de Berkeley na Califórnia.
Wess foi ainda o autor do livro “Supersymmetry and Supergravity”, a mais divulgada obra de introdução a estes assuntos, vulgarmente designada por “Wess & Bagger”, os dois autores oficiais – Wess ditava, o estudante Bagger escrevia, e isto é mais do que má língua. É um livro péssimo que toda a gente que trabalha na área tem. Quem não conhecer o assunto não aprende absolutamente nada ao lê-lo, mas nele encontram-se muitas fórmulas úteis que de outra forma estariam dispersas por artigos. Arrependo-me muitas vezes de ter comprado o meu, mas não creio que o vendesse.
A supersimetria ainda não foi descoberta. Tem que ser quebrada no mundo em que vivemos (onde não se observa), e nos aceleradores de partículas até ao presente nunca se atingiu uma escala de energias tal que se permite observar matéria nas condições em que a supersimetria não é quebrada. Concordo com o optimista Lubos Motl: Wess morreu um ano antes de a supersimetria ser descoberta (no LHC, o novo acelerador de partículas do CERN, que daqui a menos de um ano estará a dar os primeiros resultados). E assim perdeu o prémio Nobel (que, se fosse vivo quando a supersimetria for descoberta, seria seu e de Zumino de caras). Outros prémios ganhou. Era um dos maiores físicos teóricos do nosso tempo.

2007/08/11

Em vez do vintage, eu diria um tinto alentejano reserva, produzido por uma cooperativa, claro

Mesmo para mim, que há muito enveredei pelo revisionismo, comparar o BE com o PC é como assemelhar uma sangria feita com «Teobar» e fruta transgénica a um vintage de selecção. (Comentário de r.m. no Cinco Dias.)
Eu acrescentaria: só mesmo quem enveredou pelo revisionismo poderia proferir tal frase.

2007/08/10

Comidas, La Casera e vinho

Entretanto uma das vantagens de Madrid é que se come muito bem, e por preços realmente acessíveis. As minhas melhores recordações de Madrid são de um magnífico rodovalho comido na Chueca. Também recordo com prazer umas iscas de fígado comidas no Madrid castizo, a tal minha zona preferida da cidade, entre a câmara municipal e a Praça Maior. Em qualquer dos casos incluía primeiro e segundo prato, pão, sobremesa (postre) e bebida. Tudo isto por oito euros. No Porto, talvez, mas em Lisboa já não se come assim. Em Madrid não se come assim em qualquer lugar: é preciso uma certa persistência e não se entrar no primeiro sítio que aparece (principalmente na Chueca). Mas acaba-se sempre por encontrar sítios como estes, onde se pode comer boa comida tradicional espanhola, excepto talvez nas imediações do palácio real. Com um pouco de paciência conseguem-se refeições notáveis.
Nestes sítios a comida é boa e caseira, só que é claro que o vinho não é de primeira. Mas bebe-se. Por defeito (sem que a peçamos) é-nos servido com uma garrafa de gasosa fresca, para quem a quiser misturar no vinho. Uma preciosidade espanhola chamada La Casera, que é pena que não seja mais divulgada em Portugal.

2007/08/09

Os dois grandes erros da TAP

Foram dois os erros da TAP neste processo da viagem de regresso de Amesterdão do FC Porto.
Não me refiro ao atraso do avião, que sucede em todas as companhias, numas mais do que noutras. A necessidade de desvio por a tripulação e o aparelho serem necessários com urgência em Lisboa para outros voos também é compreensível: estamos em época alta, há mais voos e todas as companhias operam no limite dos recursos disponíveis.
O que não é compreensível e nem aceitável é a mudança de destino não ter sido comunicada aos passageiros no embarque, ainda em Amesterdão. Quem vai num voo para o Porto e, meia hora antes de aterrar (já com duas horas de atraso) lhe dizem que afinal aterra em Lisboa, sente-se raptado. Sente que o voo foi desviado. A indignação é compreensível: trata-se de desrespeito pelos passageiros.
O facto de a mudança de destino só ter sido comunicada tão tarde pode querer dizer que foi uma decisão de última hora. E talvez isso justifique a sua precipitação. É que foi mesmo uma muito má decisão decidir desviar um voo em que seguia o FC Porto. Tal como seria se fosse o Sporting ou o Benfica, mas ainda mais o FC Porto que é um clube que se sabe dar ao respeito. Mais valia (do ponto de vista da imagem da TAP) deixar que os voos dependentes do avião e da tripulação, creio que para Paris e Londres, se atrasassem ainda mais. Prejudicaria mais gente, é certo, mas seriam “mais dois” voos da TAP que atrasam. Teriam certamente menos repercussão mediática que desviar o voo do FC Porto. Aqui certamente estou a ser maquiavélico, mas do ponto de vista da TAP o primeiro grande erro foi ter desviado o voo onde seguia uma equipa de futebol “grande”.
O segundo grande erro foi o lamentável pedido de desculpas, que implicitamente desautoriza a tripulação do segundo voo. Se houve incidentes a bordo abre-se um inquérito e averigua-se as responsabilidades; eventualmente pede-se desculpa depois. Mas o pior foi esse pedido de desculpas ter sido dirigido… ao FC Porto, que anunciou não mais voar com esta companhia (e que causou o escândalo). Nem uma palavra em relação aos restantes passageiros, que foram tão ou mais transtornados que a equipa. Afinal, para a TAP sempre há passageiros mais importantes que outros. Se é verdade, tal como escrevi mais valia terem-se recordado disso na altura de desviar o voo.
Receio bem que todo este incidente venha a afectar seriamente a imagem da TAP, cuja principal preocupação, a partir de agora, deveria ser a reputação de não respeitar os passageiros com que pode ter ficado. É uma pena, pois apesar deste lamentável incidente a TAP merece ter uma boa imagem.

2007/08/08

A explicação do AAA e do RAF

Subsídios para a compreensão do caso RAF, por António Figueira no Cinco Dias. Só falta explicar o Rui Carmo.

Continua, sempre

Bom, mesmo era se as viagens, os telemóveis topo de gama, as unhas de gel estivessem reservados para a fidalguia autêntica, verdadeira, os Braganças e os Távoras. As febras de porco fumegantes e o tinto carrascão ficavam para os Calvões, esses plebeus. Se tudo estivesse no seu lugar.
Tem razão, João Távora: a luta continua.

2007/08/07

Madrid só tem mesmo Starbucks

Não sei se repararam no comentário do Rui Pereira à minha mensagem “Starbucks Everywhere” (e não sei se alguma vez repararam no fotoblogue do Rui, Stopping Light – merece bem a pena). Chamou-me o Rui a atenção para o facto de existirem 22 Starbucks em Paris. Palavra que eu nunca tinha reparado em mais do que três (e se há cidade que eu conheço bem, é Paris): um no Odeon, outro na Ópera e aquele que fotografei, numa área comercial e de serviços perto de onde vivia. E isto porquê? Porque os Starbucks nem se notam em Paris. Paris tem muito mais para oferecer que os Starbucks, que passam despercebidos. Em Nova Iorque eles estão em todo o lado, tal como as Barnes and Nobles, mas há muito mais que ver. Já em Madrid, pelo contrário, não conseguem passar despercebidos, pois a capital espanhola não tem muito mais para oferecer do que os Starbucks.

2007/08/06

¡Madrid me mata… de aburrimiento!


O que é Madrid, afinal? Não sei ou, pelo menos, não descobri, nos três dias que lá passei. Visitei dois museus de qualidade (o Reina Sofia e o Prado). De resto, um rio lastimável (o Manzanares), um palácio real e uma ópera vulgares, um jardim (o Retiro) igual a tantos outros, um estádio (Santiago Bernabéu) que é um monte de betão, uma praça (Cibelles) engraçadita mas nada de extraordinário, uma Gran Via igual a tantas avenidas em todo o mundo (e sem nada que a destaque)…
Tudo o resto é uma cidade vulgaríssima, com casas, algum comércio de bairro, uns restaurantes e cafés… Mais nada. Nada de nada.
Quer-se escolher um postal de Madrid e o que há para enviar? O que distingue Madrid de outras cidades, de forma a permitir identificar a capital espanhola num postal? Só a Praça Maior. Essa, sim, é uma praça bonita e única. Distinta. As ruas à volta (a zona até à câmara municipal) são engraçadas. Só esta pequena zona à volta da Praça Maior permite a um visitante sentir que está em Madrid e não noutra cidade vulgar qualquer. Tirando isso, só mesmo Moncloa e a sua arquitectura franquista (é triste mas é verdade) permitem a alguém que tenha sido transportado para lá sem saber abrir os olhos e reconhecer que está em Madrid. Muito, muito pouco para uma capital europeia. Principalmente com as pretensões de Madrid.
Gosto de tudo o (pouco) que visitei em Espanha até hoje menos Madrid. De Oviedo, Gijon, Vigo, Corunha, Santiago de Compostela (ah… Santiago de Compostela!). Achei todas estas cidades mais interessantes do que Madrid. Mesmo El Escorial, nos arredores da capital. Acho que nunca tinha apanhado uma decepção tão grande com uma cidade.
Valham os espanhóis. Dos espanhóis, pelo contrário, guardo as melhores recordações (sobretudo de madrilenos mas não só). São o povo mais simpático que eu conheci.

2007/08/02

Ponte sobre o Mississipi

Foto The New York Times

Final de Maio de 2002 (à volta do feriado do Memorial Day). De Nova Iorque até Chicago, pelo Midwest, e depois passando pelo Wisconsin até chegar ao Minnesota. Em autocarros Greyhound e, como referi, tomando o pequeno almoço em cafés Starbucks. O meu objectivo final era as cidades gémeas, Minneapolis e Saint Paul. Separadas pelo Mississipi. E ligadas por pontes como a que caiu ontem.

Starbucks everywhere

Paris, XIV arrondissement

Serve como ilustração ao texto anterior. Apesar de eu ter passado aqui inúmeras vezes, a caminho das compras no Ed, nunca lá entrei, nem em nenhum outro dos (poucos) Starbucks em Paris. Que saudades de Paris!

2007/08/01

Em Madrid, desde que o café é café

Encontrava-me acabado de chegar à capital espanhola. Por razões que não vêm ao caso, tinha acabado de comer ameixas, sentado num banco público, em plena Gran Via. Tinha as mãos sujas e não dispunha de um guardanapo. Tinha acabado de almoçar e precisava de um café.
Mesmo em frente a mim encontrava-se uma “chocolateria”, fundada em 1935. E que parecia na mesma como em 1935, ou pelo menos como no franquismo. As mesas, as ementas, os talheres, a louça fina. A esplanada no passeio, separada por canteiros. Os aquecimentos para quem se quiser sentar ao ar livre no Inverno, uma ideia provavelmente importada de Paris. Os empregados de gravata.
A alternativa residia um quarteirão acima. Um Starbucks, algo que, como viria a descobrir depois, é bastante frequente na cidade. Hesitei; não mais entrara na cadeia de cafés norte-americana desde que saí dos EUA, há quase quatro anos. Mas a alternativa era mesmo a chocolateria, o café em Espanha às vezes é mau, e no Starbucks pode ser sempre a mesma coisa mas ao menos é seguro. Entrei.
Foi bom beber o mesmo café que bebia há quatro anos, nas minhas deambulações pela América profunda, quando queria um espresso minimamente de confiança. Foi bom reencontrar o mesmo leite à disposição do cliente, que foi parte de vários pequenos-almoços meus. Foi bom poder servir-me da casa de banho à vontade. Não li o The New York Times, mas li o El Pais e a Marca à minha vontade enquanto tomava o meu café e na sala tocava o Rufus Wainwright. Sobretudo, foi bom reencontrar-me com o mesmo tipo de pessoas de antes. Empregados simpáticos e eficientes. Clientes de proveniências diversas, jovens na sua maioria, sozinhos ou em grupos. A conversarem, a namorarem, a navegarem na internet sem rede nos seus portáteis. Foram ao Starbucks para tomarem café, nas muitas variedades em que este lá se encontra, e para passarem algum tempo e conviverem. Não para “mostrarem” aos outros clientes que também são chiques. Na verdade um cliente do Starbucks só está preocupado consigo e com a sua companhia. Desde que não o incomodem, não quer saber se os outros clientes andam com uma mochila às costas e se têm as mãos todas cagadas de ameixa. A diferença principal em relação à chocolateria é mesmo esta. Como poderia eu lá ter entrado?
Foi um prazer saborear um bom café, mas o melhor mesmo foi reencontrar um pouco de Nova Iorque em plena Madrid.
Enquanto o café em Portugal for de qualidade e barato (apesar do muito que tem aumentado), não creio que corramos o risco de sermos invadidos pelo Starbucks. Mas se a moda de servir o café com dois pires e uma bolacha em pacote se generalizar, não dou muito tempo para termos o Starbucks cá.

Este texto foi publicado originalmente no Cinco Dias. Vale a pena acompanhar a discussão nos comentários lá.

2007/07/31

Sobre a União Europeia

Um texto que vale a pena ler, por Leonídio Paulo Ferreira.
Depois de ter denunciado em 1999 as infecções como complô da CIA e da Mossad, Kadhafi começou nos últimos anos a dar sinais de certo bom senso. Mas, mais importante ainda, a diplomacia búlgara deixou de estar sozinha. (...) Tony Blair, ainda primeiro-ministro britânico, foi a Tripoli negociar. Durão Barroso telefonou a Kadhafi. Benita Ferrero-Waldner, a comissária das Relações Externas, tornou-se visitante assídua da Líbia. E Nicolas Sarkozy, ao tomar posse como Presidente da França, impôs como prioridade libertar as enfermeiras e o médico palestiniano (a quem a Bulgária ofereceu cidadania para beneficiar do acordo de extradição). Acabou por ser a primeira dama a ir num avião francês buscar os reclusos a Tripoli.

Agraciadas pelo Presidente búlgaro ainda no aeroporto de Sófia, as enfermeiras reafirmaram a inocência. Emocionado, o médico Achraf Hajuj agradeceu "à grande Bulgária" o fim de oito anos de cativeiro. Falou em búlgaro, mas bem podia ter agradecido em francês. Afinal, é a língua de Luc Montaigner, o perito em sida que denunciou as infecções em Benghazi como prévias à chegada das búlgaras. É também a língua de Nicolas e Cécilia, os amigos que Kadhafi gosta de acolher na sua tenda nos jardins do palácio Bab Azizia. E, sobretudo, é a língua que mais se ouve em Bruxelas, capital dessa UE que mostrou que mais vale falar a 27 que sozinho. Como escreveu o jornal Dnevik, de Sófia, "estar na UE representa muito mais que viajar livremente na Europa".

2007/07/30

Vale dos Caídos

Os amigos espanhóis que fiz no decorrer da escola torceram o nariz quando lhes manifestei a minha intenção desta visita. Mas, enfim, estava em El Escorial, e este é um dos grandes atractivos turísticos da região, por ser um local muito bonito e com uma bela vista. Foi só isso que me levou a visitá-lo. Infelizmente, não é só a bela vista que se pode desfrutar. Também há uma basílica, onde se encontram os túmulos de Francisco Franco e Primo de Rivera. Tudo foi preparado pelo ditador, ainda em vida, para evocar a sua vitoria na Guerra Civil e garantir a sua memória na posteridade. É dedicada a todos os que nessa gueraa morreram “em nome da Espanha e em nome de Deus”. Para cúmulo da humilhação, tudo o que refiro foi contruído pelos presos políticos do fascismo espanhol.
Isto passa-se num estado democrático membro da União Europeia em pleno século XXI. Como é possível? Há fracturas na sociedade espanhola bem mais profundas do que as associadas a certas medidas do governo Zapatero.

2007/07/26

O Tâmisa e o Ruanda

Os problemas associados a uma política excessivamente de proximidade são exemplificados num caso como o do líder conservador inglês, David Cameron, acusado de não ter prestado atenção suficiente às cheias na região por onde foi eleito deputado. Mas que poderia um deputado e líder da oposição fazer para resolver a situação? Nada; isso é com o governo e as autoridades competentes. Quanto muito poderia fiscalizar a acção de quem tem o poder executivo. E foi isso que Cameron fez, até ter de se ausentar, na sua qualidade de líder do Partido Conservador, para uma viagem ao Ruanda. Eu compreenderia até certo ponto as críticas se se tratasse de férias. Mas tratava-se de uma viagem de trabalho!
O problema destas "políticas de proximidade" é que os eleitores tendem a sentir-se os mais importantes do mundo, e esperam uma dedicação exclusiva dos seus eleitos (sendo que tal nem se traduz numa maior participação eleitoral). Por isso não sou favorável a esta concepção de política, muito vulgar na Grã Bretanha. E que em Portugal se difundiria, se hipoteticamente fosse aprovada a famigerada regionalização.
Nem de propósito (destaques meus):
The Guardian revelava ontem que o governo britânico tinha sido avisado há três anos, em dois relatórios separados (...).
Na altura em que os relatórios foram entregues ao governo (Julho de 2004), o executivo (...) terá reconhecido a necessidade de melhorar a coordenação entre as companhias abastecedoras de água, os concelhos municipais e a Agência do Ambiente, que deveria passar a centralizar a gestão destas situações de crise.
No entanto, e a avaliar pelas revelações do Guardian, nada foi feito e a transferência de responsabilidades que todos preconizavam - e que chegou a estar agendada para o ano passado - nunca chegou a ser concretizada, dando origem a muitas das críticas que têm sido feitas nos últimos dias.

2007/07/25

É oficial: hablo español!

Tomei um contacto sério com o espanhol quando vivia nos EUA, por causa das telenovelas. Nao das mexicanas (quem vê o Conan O'Brien e conhece a rubrica "Noches de Passión con Señor O'Brien" sabe do que falo), mas das brasileiras. As mesmas que vemos aqui, e que nos EUA sao transmitidas em sinal aberto nos canais em espanhol, dirigidos aos imigrantes hispânicos. Foi a ver as novelas dobradas - e por vezes o noticiero - que me habituei ao espanhol. E aprendi algumas expressoes em espanhol, que só ouvindo ou lendo várias vezes se aprendem. Apesar de o espanhol ser uma língua muito fácil para um português,o vocabulário nao é idêntico. Por isso, e por eu ser muito "académico" e nao dispor de nenhum diploma comprovativo de que falo espanhol, sempre me recusei a admitir oficialmente (que é como quem diz, incluir no meu CV) que o fazia. (Para o inglês e o francês sempre tenho as notas do secundário, além dos anos de residência nos EUA e França).
Até que passei esta semana em Espanha. Como é óbvio, só a falar espanhol. E duas -espanholas - duas, independentemente, e sem quererem mais nada, perguntaram-me como falava espanhol tao bem. OK, é oficial - tenho a aprovaçao das espanholas (e conheci muitas). A partir de agora, o meu currículo vai incluir uma referência à língua de Cervantes. Só me resta ler o original de El Quijote - já o tenho desde a minha anterior visita a Espanha, em 2005.

2007/07/24

Teste de cultura científica

Bem sei que fazer um teste destes, principalmente para uma revista não-científica, não é tarefa fácil. Bem sei que o esforço do autor (e da revista) é meritório, e as suas intenções são com certeza as melhores. Bem sei que no meio do teste há questões bem formuladas e interessantes. Mas, ó Carlos Fiolhais, desculpe lá: se “cultura científica” é saber o nome de missões espaciais ou da universidade onde lecciona António Damásio, então eu sou muito inculto. Se calhar é verdade.

Coisas de que vou sentir falta

De ter o El Pais, de graça, todas as manhas, ao sair do colégio para a rua.
Serve esta mensagem como uma modestíssima mas sincera homenagem a Jesús de Polanco, cuja morte comoveu a Espanha.

2007/07/23

Durma-se com um barulho destes

Houve um grupo vocal que esteve alojado esta semana em El Escorial, ao mesmo tempo que eu, no mesmo colégio que eu. E cantavam, cantavam, cantavam. Comunicavam entre si a cantar. Às refeiçoes era vê-los a cantar. Levavam a vida a cantar. Eu estava com uma amigdalite forte, daquelas que cansam. Nos dois primeiros dias recolhia-me ao meu quarto para descansar em horários nao muito espanhóis. Custava-me a adormecer pois nem no meu quarto, com porta e janela fechadas, deixava de os ouvir. Ouviam-se nos corredores.
In Hora Sexta, "grupo nascido em 2002 com a vocaçao de estabelecer um diálogo entre a música vocal antiga, das épocas renascentista e barroca, e a música vocal contemporânea", deram um concerto na Igreja Velha do Mosteiro de El Escorial na passada quarta-feira. O concerto foi anunciado para os residentes do colégio, mas também para os participantes de todos os cursos (e residentes noutros colégios). Todos tinham direito a um bilhete gratuito.
Consegui o meu bilhete para o concerto de In Hora Sexta. Lamentavelmente, devido à minha convalescença e aos companheiros de colégio (e, talvez, ao fraco café espanhol), passei a primeira parte a dormir.

Texto corrigido.

2007/07/21

Coisas que me têm escapado em El Escorial

Refiro-me a eventos do Colégio Maria Cristina, em San Lorenzo de El Escorial, situado no antigo edifício de la Campaña, construído em 1590, onde me encontro instalado. O rei era Filipe II de Espanha, I de Portugal. Poucos anos antes (1584) tinha sido finalizada a construçao do Mosteiro de El Escorial. Durante esta semana tenho vindo a perder missa, celebrada todos os dias às 20:30 no Colégio. (Vim para uma Escola de Verao de Física Teórica da Universidade Complutense; aqui foi onde me alojaram.) Mas também tenho vindo a perder a piscina do colégio, gratuita pararesidentes, e o vinho Rioja,servido diariamente às refeiçoes. Tudo por causa da amigdalite com que vim para cá.
Terminei o antibiótico ontem. Está na altura de recuperar o tempo perdido.

2007/07/20

Coisas que só acontecem quando eu nao estou em Lisboa (II)

Um debate entre dois ilustres Ladroes de Bicicletas e o nao menos ilustre António Figueira. Se estivesse em Lisboa nao deixaria de ir. Assim resta-me recomendar. Detalhes aqui.

Coisas que só acontecem quando eu nao estou em Lisboa (I)

Um seminário de Ludwig Faddeev no Complexo Interdisciplinar da Universidade de Lisboa, "Mass Problem in the Quantum Yang-Mills Theory", no âmbito dos "Diálogos entre Física e Matemática". Eu já vi Faddeev falar - é um dos nomes de topo sobreviventes da escola soviética (evidentemente, soviética) de física teórica. A nao perder por quem estiver interessado.

2007/07/19

Alberto Romao Dias

Excelente evocaçao deste químico, de quem nunca fui aluno mas de que me recordo perfeitamente, pela sua aluna Palmira Ferreira da Silva. A Palmira só nao foca as suas actividades subversivas, nomeadamente vice-presidente da AEIST em pleno salazarismo...

2007/07/18

Baltazar Garzón


"Perante a ameaça do terrorismo, o Estado nunca pode perder o seu valor principal que é a credibilidade." Com esta frase se pode resumir a conferência que Baltazar Garzón deu anteontem ao fim do dias, em El Escorial, onde me encontro, no âmbito dos cursos de Verão da Universidade Complutense.
A frase aplica-se directamente aos EUA. Garzón referiu no seu discurso de um modo explícito, obviamente em termos críticos, os campos de Guantánamo. Mas nao é só disso que se trata a credibilidade: é de dizer à populaçao a verdade, e nao aterrorizá-la procurando ganhar votos, outra prática muito frequente especiamente no primeiro mandado de George W. Bush.

Concentraçao nacional de bolseiros - hoje

Eu nao vou. (Enncontro-me em San Lorenzo de El Escorial, a 60 km de Madrid. Nota-se pelo teclado.) Mas apoio incondicionalmente. A declaraçao integral da ABIC pode ser lida aqui.

2007/07/16

Após as eleiçoes em Lisboa

Uma coligaçao de esquerda urge. Para uma aliança do PS com Carmona Rodrigues, mais valia que tivesse ficado tudo na mesma

2007/07/15

Aveiro no The New York Times

Foto: Susana Raab for The New York Times

Via o atento Miguel Marujo, cheguei a esta matéria no melhor jornal do mundo sobre a melhor cidade portuguesa, que publico no dia das eleições na capital. Dá vontade de rir a escolha de restaurantes, mesmo para gringos. Tenho umas tasquinhas ao pé do parque municipal para recomendar aos senhores do Times.

Entretanto vou votar (vocês sabem em quem) e depois apanho o avião para Madrid, onde vou na próxima semana participar num curso de verão da Universidade Complutense. Escrevo-vos de lá.

2007/07/14

Compre o jornal no sábado, carago!

A mesquinhez, a inveja, a mentalidade pequena dos nossos regionalistas vê-se por pormenores destes. O CAA nem pensa em criar um semanário do Porto (os principais diários nacionais já são todos de capital nortenho): prefere queixar-se dos semanários existentes que saem um dia mais cedo para poderem publicar uma sondagem para a principal câmara do país. Ó CAA, mas se gosta do jornal ao sábado, compre-o ao sábado, canudo!

2007/07/13

No mundo ficcional da direita "liberal"

Admiti aqui que votarei na CDU no domingo. De acordo com estes senhores (e o seu habitual compagnon de route Luís Aguiar-Conraria), tal voto implica que eu quero "instaurar uma ditadura comunista" em Portugal. Certamente as dezenas de câmaras da CDU, de Peniche ao Alentejo, de Setúbal à Marinha Grande, vivem numa "ditadura comunista". Os doze anos em que a CDU partilhou a gestão autárquica de Lisboa (e que foram os melhores anos recentes da capital portuguesa) foram anos... de ditadura comunista. Agira já sabem. Agradeçam-lhes por vos avisarem. É melhor não os contrariar.

Sondagens para a Câmara de Lisboa

Todas apontam para a vitória do PS, mas são bastante díspares quanto à colocação relativa dos restantes candidatos de esquerda. Se se confirmar a do Público (Carmona à frente de Negrão e Garcia Pereira à frente de Telmo Correia), eu vou rebolar a rir.

Até já, Ricardo


Foste muito mal vendido e, sinceramente, vou ter muitas saudades tuas. Espero que os dirigentes da SAD aprendam a acautelar as cláusulas de rescisão.

2007/07/12

A Portela + 1

Um texto de António Brotas que subscrevo na íntegra e que sumariza a minha posição relativamente ao futuro aeroporto.

A expressão "Portela + 1" , hoje muito usada na Comunicação Social pode significar que o aeroporto da Portela deve continuar em funcionamento durante um largo periodo (não inferior a duas décadas) e que devemos iniciar o mais rapidamente possivel a construção por fases de um novo aeroporto num local onde possa vir a ter uma muito grande possibilidade de expansão. Se a primeira fase (uma pista e algo mais) puder ser inaugurada daqui a 5 ou 6 anos, todas as difuculdades aeronauticas presentes e futuras da região de Lisboa ficam resolvidas. Daqui a uns 10 anos, ou mais, quando começarmos a pensar na construção da 2ª fase do novo aeroporto, teremos de decidir se ele se deve expandir de modo a substituir completamente a Portela, ou se devemos adoptar em definitivo o modelo dos dois aeroportos em funcionamento. Esta discussão agora é prematura.

A fórmula "Portela + 1" pode, no entanto, também significar que devemos, desde já, desviar para bases militares e outros aeroportos parte dos voos low cost que actualmente sobrecarregam a Portela, retardando assim a sua saturação. Tenho defendido esta solução, desde que ela seja feita com encargos muito reduzidos. As duas concepções são perfeiramente conciliáveis. O que me parece totalmente errado é encararmos a solução "Portela + bases militares" como uma solução definitiva que nos dispense de pensarmos num novo aeroporto.

O projecto de um novo aeroporto convenientemente planeado e a construir de um modo faseado numa zona onde possa ter uma grande possibilidade de expansão, como é o caso da Carreira de Alcochete, pode ser, com as actividades anexas que pode estimular e desenvolver , um projecto com um imenso impacto no desenvolvimento português neste meio século. (António Brotas)

2007/07/11

O Zé faz falta

Refiro-me ao José Cidade Mourão. (Obrigado pelo excelente artigo que me indicaste, Zé.

Mais “traduções” do Jay Leno


Estava eu noutro dia a preparar-me para ver a entrevista a John e Elizabeth Edwards no programa do Jay Leno, transmitido na SIC Mulher. No momento de comédia anterior à entrevista, Jay fala no ataque dos golfinhos que mordem as pessoas na Florida, “not to be confused with the dolphins that suck: those are from Miami”. Eu não percebo nada de futebol (ou qualquer outro desporto) americano, mas creio que a piada era clara: os “Miami Dolphins” são uma equipa de um desporto qualquer (a primeira coisa a aparecer se se procurar no Google), que joga mal, não presta (“suck”). Tradução nas legendas da SIC Mulher? “Não confundir com os golfinhos que chupam: esses são em Miami”. Autenticamente. Onde é que eu já vi isto?

(A tradução era de Ana Sofia Jesus.)

PS: Não encontrei outra fotografia para ilustrar este texto que não esta, de 2004, era John Edwards também candidato presidencial. Na crónica de João Lopes no DN, sobre esta entrevista (recente), a foto era a mesma.)

2007/07/10

O meu voto em Lisboa

Falar sobre eleições, mantendo-se independente, por vezes é complicado. Não quero usar este espaço para criticar candidatos à Câmara de Lisboa (mesmo aqueles que dizem que se houvesse mais como eles, haveria menos carros, mas numa entrevista publicada pouco tempo antes de as eleições terem sido convocadas afirmam tranquilamente que só andam de transporte privado dentro da cidade: boleia ou táxi. Desculpem mas não resisti).
Mas o sentido do meu voto está decidido, e eu não vou escondê-lo, até porque é sobre ele que eu vou falar. Nestas eleições vou votar na CDU. Não tenho e nem nunca tive nenhuma ligação ao PCP ou a nenhum outro partido e, talvez por isso mesmo, ao contrário da maioria dos blógueres de esquerda, não acho que este partido tenha “lepra” e sei reconhecer o mérito do trabalho dos seus eleitos. O meu voto nestas eleições é na CDU (como noutras é noutros partidos) por achar genuinamente que esta é a melhor candidatura, a que melhor serve os lisboetas, embora não seja a única boa opção (não teria problemas em votar noutras candidaturas, e acho que os lisboetas não se podem queixar de falta de boas alternativas). Mas, vejam bem, o meu objectivo com este texto é mesmo criticar a campanha desta candidatura (e não fazer campanha por ela, algo que não seria adequado neste espaço – e nem eu o faria).
A verdade é que a campanha da CDU é má, e não tira proveito nenhum dos seus candidatos. A desorientação desta campanha começa pelo slogan fácil e estereotipado, “CDU – força alternativa”. Mas alternativa a quê? O PCP não é e nunca foi “alternativo”. Quem vota no PCP não está à procura de uma “alternativa”: está à procura daquilo que o PCP sempre foi, e que em termos de trabalho nas autarquias sempre foi muito bom. “Alternativo” é o Bloco de Esquerda. Se isto continua assim, algum dia temos comida vegetariana ou japonesa e cerveja com sabor a pêssego na Festa do Avante! Começamos mal.
Um dos principais motivos para o meu voto é mesmo o candidato. Em qualquer inquérito, em qualquer pergunta que lhe seja feita, vê-se imediatamente que Rúben de Carvalho, para além de ser um homem de cultura (no verdadeiro sentido da palavra), é um lisboeta autêntico, que conhece a cidade e gosta dela como poucos. É de esquerda e tem uma cultura de esquerda como nenhum dos outros candidatos apoiados por partidos de esquerda (não necessariamente “candidatos de esquerda”) tem. E conhece bem a Câmara (sem ser responsável pelo descalabro a que lá se chegou). Não é nenhum pára-quedista: é um candidato natural, e um excelente candidato. O PCP sempre se viu como um “colectivo” e sempre recusou qualquer protagonismo individual. Faz parte da cultura do partido, e só quem o conhecer (ou, pelo menos, quem tiver lido uns livros do Álvaro Cunhal) a poderá entender. Creio sinceramente que Rúben de Carvalho representa uma mais-valia da CDU nestas eleições (como o era, ainda mais, por exemplo Carlos de Sousa em Setúbal há dois anos). Mais-valia que não está a ser usada de todo na campanha. Será que o PCP quer ficar à vontade para poder substituir o candidato, mais tarde, depois de ele ser eleito? Esperemos que não seja esse o caso.
O pior aspecto da campanha da CDU reside, a meu ver, numa confusão deliberada entre a política nacional e a política autárquica. O PCP aposta em capitalizar algum descontentamento popular com as políticas do governo, e se tiver um bom resultado vai com certeza falar em “derrota do governo”. Esta é uma aposta errada por duas razões. A primeira é que o descontentamento popular talvez seja mais aparente do que real, principalmente entre a população residente em Lisboa. Talvez o tiiro lhes saia pela culatra. Independentemente dessa circunstância, e mais importante ainda: estas são eleições locais, que nunca devem ser confundidas com eleições nacionais. É perfeitamente possível (e muito frequente) votar-se na CDU nas eleições autárquicas e apoiar-se, pelo menos na generalidade, as políticas no governo.
Vou votar na CDU e espero que tenham um bom resultado mas, no caso de este não ser atingido (ou seja, se pelo menos não se mantiver a vereação actual), a culpa será só do PCP e da sua estratégia.

2007/07/09

Cristo maravilhoso?


Eu não quero de todo aborrecer católicos ou brasileiros, especialmente cariocas. Mas alguém pode explicar-me o que há de maravilhoso nisto, quando comparado com a Acrópole, a Torre Eiffel ou o Kremlin? A imagem é bonita, mas bonita é a cidade. Lindo é o Rio de Janeiro.

2007/07/07

Contestação global ao aquecimento global

LiveEarth - a globalização de que eu gosto.

2007/07/06

A RIAPA chegou ao Insurgente

Se calhar a minha hipótese não é correcta, e nem tem de ser, mas presumo que pelo menos uma grande parte dos que aqui me lêem eram também leitores do extinto Blogue de Esquerda. Se não for esse o caso, também o resto do texto não conta muito.
Achei que não valia a pena estar a dar muita atenção às sentenças da Dra. Patrícia Lança. E isto porque toda a blogosfera está a ter uma das reacções que se impõem: ou ignora (principalmente se se situar no campo político da autora) ou ri. (Exceptuando os “leais orgânicos” André Azevedo Alves e João Miranda, que põem a protecção do seu grupo - neste caso ideológico - acima da busca da verdade. Afinal, sempre tinha alguma razão o Pedro Arroja.)
Mesmo assim há aspectos interessantes para discutir nos textos de Patrícia Lança, bem mais na forma que no conteúdo. Consta que Patrícia, há muitos anos, foi professora de raparigas de 16 anos; assim se justifica o tom com que ela escreve e se dirige aos leitores, como se fossem todos adolescentes da primeira metade do século XX, que a ouvissem e lhe obedecessem acriticamente. Embora eu creia que as posições de Patrícia Lança sejam insustentáveis, tal não significa que sejam indefensáveis: como notou, por exemplo, o Vasco Barreto, Patrícia poderia – e deveria – apresentá-las, se tivessem nenhuma base científica. Mas, como bem notou o zèd, trata-se somente de um caso de “distorção de informação na tentativa de justificar "cientificamente" uma posição cuja única justificação é moralista.” Daí o tal tom de senhora experiente a dar sermões aos jovens adolescentes.
Sempre se notou tal tom; só com os recentes textos sobre sexo anal é que tal se tornou mais visível. Reparemos nestas sentenças sobre Israel: uma série de sentenças curtas e sem nenhum tipo de justificação, que poderiam ser vinte comentários da "Quitéria Barbuda" do RIAPA no BdE. Esses comentários também tinham um ar de cartilha disfarçados de revista científica, uma suposta erudição que a autora não se cansava de apregoar, e também se auto-citavam em abundância. Ao ler o seu último texto, sobre a “sabedoria lencastriana”, só me lembrei da “sabedoria paço-arquiana”, tão apregoada era nos comentários da RIAPA no BdE (eu fartei-me de apagar comentários que se referiam a ela). Temos assim um sucedâneo da RIAPA instalado no Insurgente; quem será o “Comandante Guelas”?

2007/07/05

Maravilhas da gastronomia portuguesa

Antes do almoço: um conhecido hotel e restaurante de Coimbra pôs a votos as sete maravilhas da gastronomia portuguesa. As minhas escolhidas são: Leitão da Bairrada, Cabrito Assado, Bacalhau à Lagareiro, Arroz de Marisco, Migas, Pastel de Nata e Ovos Moles de Aveiro. E as vossas?