Falar sobre eleições, mantendo-se independente, por vezes é complicado. Não quero usar este espaço para criticar candidatos à Câmara de Lisboa (mesmo aqueles que dizem que se houvesse mais como eles, haveria menos carros, mas numa entrevista publicada pouco tempo antes de as eleições terem sido convocadas afirmam tranquilamente que só andam de transporte privado dentro da cidade: boleia ou táxi. Desculpem mas não resisti).
Mas o sentido do meu voto está decidido, e eu não vou escondê-lo, até porque é sobre ele que eu vou falar. Nestas eleições vou votar na CDU. Não tenho e nem nunca tive nenhuma ligação ao PCP ou a nenhum outro partido e, talvez por isso mesmo, ao contrário da maioria dos blógueres de esquerda, não acho que este partido tenha “lepra” e sei reconhecer o mérito do trabalho dos seus eleitos. O meu voto nestas eleições é na CDU (como noutras é noutros partidos) por achar genuinamente que esta é a melhor candidatura, a que melhor serve os lisboetas, embora não seja a única boa opção (não teria problemas em votar noutras candidaturas, e acho que os lisboetas não se podem queixar de falta de boas alternativas). Mas, vejam bem, o meu objectivo com este texto é mesmo criticar a campanha desta candidatura (e não fazer campanha por ela, algo que não seria adequado neste espaço – e nem eu o faria).
A verdade é que a campanha da CDU é má, e não tira proveito nenhum dos seus candidatos. A desorientação desta campanha começa pelo slogan fácil e estereotipado, “CDU – força alternativa”. Mas alternativa a quê? O PCP não é e nunca foi “alternativo”. Quem vota no PCP não está à procura de uma “alternativa”: está à procura daquilo que o PCP sempre foi, e que em termos de trabalho nas autarquias sempre foi muito bom. “Alternativo” é o Bloco de Esquerda. Se isto continua assim, algum dia temos comida vegetariana ou japonesa e cerveja com sabor a pêssego na Festa do Avante! Começamos mal.
Um dos principais motivos para o meu voto é mesmo o candidato. Em qualquer inquérito, em qualquer pergunta que lhe seja feita, vê-se imediatamente que Rúben de Carvalho, para além de ser um homem de cultura (no verdadeiro sentido da palavra), é um lisboeta autêntico, que conhece a cidade e gosta dela como poucos. É de esquerda e tem uma cultura de esquerda como nenhum dos outros candidatos apoiados por partidos de esquerda (não necessariamente “candidatos de esquerda”) tem. E conhece bem a Câmara (sem ser responsável pelo descalabro a que lá se chegou). Não é nenhum pára-quedista: é um candidato natural, e um excelente candidato. O PCP sempre se viu como um “colectivo” e sempre recusou qualquer protagonismo individual. Faz parte da cultura do partido, e só quem o conhecer (ou, pelo menos, quem tiver lido uns livros do Álvaro Cunhal) a poderá entender. Creio sinceramente que Rúben de Carvalho representa uma mais-valia da CDU nestas eleições (como o era, ainda mais, por exemplo Carlos de Sousa em Setúbal há dois anos). Mais-valia que não está a ser usada de todo na campanha. Será que o PCP quer ficar à vontade para poder substituir o candidato, mais tarde, depois de ele ser eleito? Esperemos que não seja esse o caso.
O pior aspecto da campanha da CDU reside, a meu ver, numa confusão deliberada entre a política nacional e a política autárquica. O PCP aposta em capitalizar algum descontentamento popular com as políticas do governo, e se tiver um bom resultado vai com certeza falar em “derrota do governo”. Esta é uma aposta errada por duas razões. A primeira é que o descontentamento popular talvez seja mais aparente do que real, principalmente entre a população residente em Lisboa. Talvez o tiiro lhes saia pela culatra. Independentemente dessa circunstância, e mais importante ainda: estas são eleições locais, que nunca devem ser confundidas com eleições nacionais. É perfeitamente possível (e muito frequente) votar-se na CDU nas eleições autárquicas e apoiar-se, pelo menos na generalidade, as políticas no governo.
Vou votar na CDU e espero que tenham um bom resultado mas, no caso de este não ser atingido (ou seja, se pelo menos não se mantiver a vereação actual), a culpa será só do PCP e da sua estratégia.
2007/07/10
2007/07/09
Cristo maravilhoso?
2007/07/07
2007/07/06
A RIAPA chegou ao Insurgente
Se calhar a minha hipótese não é correcta, e nem tem de ser, mas presumo que pelo menos uma grande parte dos que aqui me lêem eram também leitores do extinto Blogue de Esquerda. Se não for esse o caso, também o resto do texto não conta muito.
Achei que não valia a pena estar a dar muita atenção às sentenças da Dra. Patrícia Lança. E isto porque toda a blogosfera está a ter uma das reacções que se impõem: ou ignora (principalmente se se situar no campo político da autora) ou ri. (Exceptuando os “leais orgânicos” André Azevedo Alves e João Miranda, que põem a protecção do seu grupo - neste caso ideológico - acima da busca da verdade. Afinal, sempre tinha alguma razão o Pedro Arroja.)
Mesmo assim há aspectos interessantes para discutir nos textos de Patrícia Lança, bem mais na forma que no conteúdo. Consta que Patrícia, há muitos anos, foi professora de raparigas de 16 anos; assim se justifica o tom com que ela escreve e se dirige aos leitores, como se fossem todos adolescentes da primeira metade do século XX, que a ouvissem e lhe obedecessem acriticamente. Embora eu creia que as posições de Patrícia Lança sejam insustentáveis, tal não significa que sejam indefensáveis: como notou, por exemplo, o Vasco Barreto, Patrícia poderia – e deveria – apresentá-las, se tivessem nenhuma base científica. Mas, como bem notou o zèd, trata-se somente de um caso de “distorção de informação na tentativa de justificar "cientificamente" uma posição cuja única justificação é moralista.” Daí o tal tom de senhora experiente a dar sermões aos jovens adolescentes.
Sempre se notou tal tom; só com os recentes textos sobre sexo anal é que tal se tornou mais visível. Reparemos nestas sentenças sobre Israel: uma série de sentenças curtas e sem nenhum tipo de justificação, que poderiam ser vinte comentários da "Quitéria Barbuda" do RIAPA no BdE. Esses comentários também tinham um ar de cartilha disfarçados de revista científica, uma suposta erudição que a autora não se cansava de apregoar, e também se auto-citavam em abundância. Ao ler o seu último texto, sobre a “sabedoria lencastriana”, só me lembrei da “sabedoria paço-arquiana”, tão apregoada era nos comentários da RIAPA no BdE (eu fartei-me de apagar comentários que se referiam a ela). Temos assim um sucedâneo da RIAPA instalado no Insurgente; quem será o “Comandante Guelas”?
Achei que não valia a pena estar a dar muita atenção às sentenças da Dra. Patrícia Lança. E isto porque toda a blogosfera está a ter uma das reacções que se impõem: ou ignora (principalmente se se situar no campo político da autora) ou ri. (Exceptuando os “leais orgânicos” André Azevedo Alves e João Miranda, que põem a protecção do seu grupo - neste caso ideológico - acima da busca da verdade. Afinal, sempre tinha alguma razão o Pedro Arroja.)
Mesmo assim há aspectos interessantes para discutir nos textos de Patrícia Lança, bem mais na forma que no conteúdo. Consta que Patrícia, há muitos anos, foi professora de raparigas de 16 anos; assim se justifica o tom com que ela escreve e se dirige aos leitores, como se fossem todos adolescentes da primeira metade do século XX, que a ouvissem e lhe obedecessem acriticamente. Embora eu creia que as posições de Patrícia Lança sejam insustentáveis, tal não significa que sejam indefensáveis: como notou, por exemplo, o Vasco Barreto, Patrícia poderia – e deveria – apresentá-las, se tivessem nenhuma base científica. Mas, como bem notou o zèd, trata-se somente de um caso de “distorção de informação na tentativa de justificar "cientificamente" uma posição cuja única justificação é moralista.” Daí o tal tom de senhora experiente a dar sermões aos jovens adolescentes.
Sempre se notou tal tom; só com os recentes textos sobre sexo anal é que tal se tornou mais visível. Reparemos nestas sentenças sobre Israel: uma série de sentenças curtas e sem nenhum tipo de justificação, que poderiam ser vinte comentários da "Quitéria Barbuda" do RIAPA no BdE. Esses comentários também tinham um ar de cartilha disfarçados de revista científica, uma suposta erudição que a autora não se cansava de apregoar, e também se auto-citavam em abundância. Ao ler o seu último texto, sobre a “sabedoria lencastriana”, só me lembrei da “sabedoria paço-arquiana”, tão apregoada era nos comentários da RIAPA no BdE (eu fartei-me de apagar comentários que se referiam a ela). Temos assim um sucedâneo da RIAPA instalado no Insurgente; quem será o “Comandante Guelas”?
2007/07/05
Maravilhas da gastronomia portuguesa
Antes do almoço: um conhecido hotel e restaurante de Coimbra pôs a votos as sete maravilhas da gastronomia portuguesa. As minhas escolhidas são: Leitão da Bairrada, Cabrito Assado, Bacalhau à Lagareiro, Arroz de Marisco, Migas, Pastel de Nata e Ovos Moles de Aveiro. E as vossas?
2007/07/04
A União
Enquanto alguém vai para o trabalho de bicicleta em Amesterdão, um coro ensaia na Estónia e um barco pesca em Malta. Turistas esperam para entrar num museu de Florença. Turcos vendem kebab em Edimburgo. Estudantes de Frankfurt passam o seu Erasmus em Istambul, esforçando-se por dominar dois ou mesmo três idiomas. Pode comprar-se leite de rena na Lapónia ou houmous em Creta usando sempre a mesma moeda; melhor ainda, pode ir-se de um lugar ao outro sem mostrar o passaporte.
Quem diria? Para muitos, este é o retrato de um continente em decadência. Na verdade, todas as cidades e regiões atrás citadas (à excepção de Istambul, que não está na UE mas cujo país já participa no programa Erasmus de troca de estudantes) fazem parte da mais interessante experiência política dos nossos tempos. São quase 500 milhões de humanos (só a China e a Índia têm mais população) numa extensão maior do que a de muitos impérios da história. Mas não é um império, é outra coisa, não se sabe bem o quê. Para muitos, deveria ser uma federação. Na verdade, pouco importa o que lhe chamemos. Eu sou um europeísta não por qualquer ufanismo europeu (na verdade estou mais próximo de um cabo-verdiano do que de um letão, e isso agrada-me) mas porque olhando para a União vejo que ela tem sido uma força de paz, liberdade e até alguma solidariedade. Com os seus muitos defeitos, a União está na primeira linha do Tribunal Penal Internacional, do Protocolo de Quioto, da cooperação e desenvolvimento. Nada disto é perfeito, mas pelo menos tenta-se.
Mas também sou um europeísta porque a União tem um grande futuro. Conheço bem, há muitos anos, as queixas dos europessimistas. Acho-as pouco convincentes. Que a União está velha (temos os velhos mais saudáveis e potencialmente mais produtivos do mundo). Que há muitos muçulmanos (que medo!, qualquer dia são quase três por cento). Que há poucos bebés (mas até os portugueses têm três meses de licença de parto paga, ao contrário dos norte-americanos). Que há imigrantes a mais (mas afinal não havia falta de gente em idade activa?). Que não faz parte da revolução tecnológica (só se inventou a Web, e em tempos mais recentes o Skype). Que está para trás na globalização (mas Londres, uma cidade da União, ultrapassou recentemente Nova Iorque como capital financeira do planeta). Enfim, que as regulamentações europeias são absurdas (mas graças a elas todo o mundo compra brinquedos mais seguros ou electrodomésticos menos poluentes).
Do lado europeísta, uma das coisas que mais se censuram à Europa é ela não ter exército nem hard power (assim em inglês "americano"). Isso não me preocupa. O "poder brando" é mais eficaz: os países que querem entrar sabem que têm de respeitar mínimos de democracia e direitos humanos. A União não exporta democracia à bomba, importa democracia com democracia. A questão que temos de resolver agora é: como manter a democracia dentro da União. A União não é uma utopia; é um compromisso. Mas deve ser, acima de tudo, um compromisso com a democracia. Ela é o nosso motor e o nosso horizonte; na falta de um cimento nacional ou linguístico, é a democracia que nos segura. É por isso que é difícil, exasperante até, ser europeísta com líderes europeus que têm medo da democracia.
Esquecem-se que irresponsável não é quem exige mais democracia, é quem foge a ela. Por mim, não me forcem a escolher entre os meus instintos europeístas e os meus instintos democráticos. Nesse caso, terei de preferir mais democracia com menos Europa a mais Europa com menos democracia.
Artigo de Rui Tavares no Público de 2 de Julho. Foi publicado parcialmente - e o "parcialmente" tem aqui mais do que um sentido - no Esquerda Republicana. O Ricardo Alves parece estar mesmo convencido de que a escolha é entre democracia ou europatriotismo. Não é essa a minha opinião, nem a do Rui Tavares.
Conferência de Ignacio Ramonet
«A Europa e os Novos Desafios Geopolíticos Contemporâneos», hoje a partir das 18h30 no Instituto Franco-Português, em Lisboa (mais informações aqui).
2007/07/03
Democratic Party

Na edição deste ano da festa de L’Unitá de Roma, nas termas de Caracalla, pensava-se o nome do futuro grande partido italiano de centro-esquerda. A festa, organizada pelo jornal L’Unitá, afecto aos Democratas de Esquerda, descendentes do antigo Partido Comunista Italiano e integrantes do futuro “Partido Democrático”, tinha por slogan “Democratic Party”, e visava quer a festa quer o partido.
Quantos italianos, mesmo dentre os participantes na festa, percebiam o duplo sentido? A avaliar pelos que sabiam inglês quando se lhes perguntava alguma coisa, muito poucos, garanto-vos. Praticamente ninguém.
A festa em si? Muito comércio; pouca comida local – o que é uma pena, pois a comida local é das melhores do mundo; alguma comida sul-americana; alguma comida africana; cuscus... vegetariano (só descobri depois de ser servido; reclamei, pois com certeza, e desenrascaram-me umas lascas de kebab por cima; mas só eu é que me lembrava de ir para ali em turismo); cervejas e vinho muito caros. Música ao vivo (parece que noutros dias também há debates). Muitos livros, de Bertinotti a Achille Ochetto e Massimo d’Alema. Traduções italianas de Marx e Engels. Rosa do Luxemburgo. E Gramsci, muito Gramsci. E ícones típicos da esquerda. Imagens de Che Guevara (o PDS italiano deve ser o único partido da Internacional Socialista que organiza uma festa com imagens de Che Guevara) alternavam com stands de empresas privadas, patrocinadoras da festa, de entrada gratuita e aberta a toda a gente.
Uma festa que mistura empresas privadas com Che Guevara se calhar não é para se levar muito a sério. Mas se toda a Itália não é para levar muito a sério, por que razão uma festa da esquerda seria? Eu em certas circunstâncias nem me importo que a esquerda não se leve demasiadamente a sério. Desde que a esquerda seja de esquerda.
2007/07/02
A não perder
Do enviesamento ao princípio da incerteza, pelo Tiago Mendes no Cinco Dias. Deveria ser lido com atenção especialmente no Centro de Estudos Sociais.
Já mais antigo, mas mesmo muito bom: Para que serve a Matemática?, por Jorge Buescu no De Rerum Natura.
Já mais antigo, mas mesmo muito bom: Para que serve a Matemática?, por Jorge Buescu no De Rerum Natura.
2007/06/29
"Um passo a pé gasta as caligae..."

Na figura vê-se a Via Appia antiga (no piso original - e que engraçado é ver os carros a lá passarem!), local das catacumbas onde se refugiavam os cristãos, quando eram perseguidos. Vale a pena visitá-la. É mesmo muito longa. Recomendo que tomem um autocarro se lá forem. Não façam como eu, que fui a pé a partir das termas de Caracalla (de acordo com as descrições do meu péssimo guia, tudo parece muito perto).
Ao regressar estive quase uma hora à espera do tal autocarro, porém. Conformei-me em ter de regressar a pé, e meti de novo os pés a caminho. Entre duas paragens, o autocarro apareceu. Felizmente vi-o a tempo de correr para a paragem seguinte (e fazer com que ele me visse) e apanhá-lo. Neste aspecto, a minha verdadeira experiência italiana não foi (e ainda bem) completa.
(Pergunta: quem conhece a citação do título?)
2007/06/28
Luís Rainha no Público?
Para quem, como é o meu caso, se questiona sobre o que será feito do Luís, aqui têm uma bela pista: esta iniciativa do Público, a que cheguei via Nélson. Não se vê o nome dele na ficha técnica, mas eu diria que uma ideia destas só poderia sair da cabeça dele.
2007/06/27
Até já, Tony Blair

Tenho sentimentos ambíguos em relação a Tony Blair. Na política internacional creio que o seu balanço é sem dúvida muito negativo, tal resultando principalmente (mas não só) da desastrosa e irresponsável invasão do Iraque. Já na política interna britânica, apesar de não a conhecer aprofundadamente, creio que o seu balanço é largamente positivo, embora não isento de problemas. A economia cresce e o desemprego é baixo. O investimento público é alto, mas os serviços públicos são muito maus. Recorde-se a paz na Irlanda do Norte, a transferência de poderes para a Escócia e, sobretudo, as alterações democratizantes introduzidas na Câmara dos Lordes.
É claro que a Grã-Bretanha ainda é uma monarquia eurocéptica. Enfim, é claro que a Grã-Bretanha ainda é... a Grã-Bretanha, mesmo se por vontade de Blair devesse ser muito mais europeia. A minha simpatia (apesar de tudo) por este homem deve-se a isto: ele é muito maior, de horizontes bem mais largos, do que o seu próprio país. Era difícil imaginar que da Grã-Bretanha pudesse vir coisa melhor. Agora, que serviços poderá Blair ainda prestar à Europa e ao mundo?
2007/06/26
O novo tratado europeu
Sem tempo para escrever eu mesmo, gostaria ainda assim de propor a leitura do texto "Fabius chuta contra o Tratado eee... auto-golo!", do Rui Curado Silva. Destaco as seguintes partes:
A Europa é actualmente líder nalguns dos principais desafios do planeta: combate às alterações climáticas, moderação de conflitos regionais (no Líbano foi evidente), respeito pelos direitos humanos, da sexualidade, da laicidade e da paridade. Estes são desafios muito caros à esquerda, mas se os erros da esquerda retirarem à Europa a sua capacidade de iniciativa esta caberá aos EUA e à China e todos sabemos muito bem a leviandade com que cada um destes países trata estes assuntos. A responsabilidade da Esquerda Europeia estende-se à aproximação da UE aos cidadãos. Neste particular, o actual formato de realização de 27 referendos dispersos no tempo não faz qualquer sentido do ponto de vista democrático e matemático (...). Deste modo, um NÃO tem um peso excessivo, que favorece claramente a generalidade das posições anti-europeístas. Um referendo a nível europeu, realizado no mesmo dia, de uma forma clara e simples para todo o cidadão europeu, não só reforçaria o sentimento que vivemos numa casa comum, com um destino comum, como evitaria o falseamento democrático dos resultados e das reais escolhas dos europeus. Somados os votos de todos os referendos ao Tratado Constitucional, qual foi a percentagem de voto NÃO? 20%? 30%? E entre os votos NÃO havia mais esquerda ou mais direita? Havia certamente muito mais direita, e havia direita da piorzinha...
2007/06/25
De volta

Praça do Povo, Roma. Fotografia tirada da Villa Borghese. Ao fundo vê-se o Vaticano.
Tive de sair da conferência duas horas antes do fim, para contornar o sciopero ferroviario e apanhar um autocarro para Roma, de onde pude seguir para Fiumicino (para que conste - a 31 km do centro de Roma).
Não tenho muito tempo para escrever hoje, tendo de resolver assuntos pendentes, entre elas um relatório de arbitragem e uma mudança de gabinete (a título pessoal - é bom ter finalmente um gabinete com vista para a rua!). Deixo-vos com duas fotos de dois belos locais.

Cascatas do Tivoli
2007/06/22
"Sciopero nazionale del personale ferroviario"
Para acabar em beleza... greve da Trenitalia, a Ferrovia dello Stato, os caminhos de ferro italianos. Mesmo no dia do meu regresso. E eu, que ando de comboio todos os dias, nao vi nada anunciado em lado nenhum. Foi a Laura, uma colega minha italiana participante na mesma conferencia, que me falou na greve por acaso.
Quando eu chegar a Lisboa, se chegar (i.e. se nao perder o aviao gracas ao sciopero), conto pormenores da minha aventura romana.
Quando eu chegar a Lisboa, se chegar (i.e. se nao perder o aviao gracas ao sciopero), conto pormenores da minha aventura romana.
2007/06/21
Novidades no futebol
O campeao de Espanha e o Real Madrid. Nao simpatizo com o clube madrileno, mas este ano fico contente. Gosto do treinador, Fabio Capello, e por tudo o que teve de passar este ano, merece. E depois, para titulos decididos com golos marcados com a mao, ja bastou este ano o portugues.
Desde que cheguei a Italia, a minha principal preocupacao, relativamente a noticias, era so uma. Nao era Socrates em Moscovo, nem cimeiras da UE, nem nada que se parecesse. Era o Romagnoli. Sempre que me ligava a internet, tinha esta preocupacao: entao e o Romagnoli? A contratacao foi finalmente oficializada e por muito bom preco. Esta de parabens a direccao da SAD do Sporting. Bem vindo, Pipi!
Finalmente ha o Derlei. Ao contrario dos sportinguistas que eu ja li, estou convencido de que se trata de uma boa aposta. Nao se deu bem no Benfica, mas desde quando e que um jogador e mau so por nao jogar bem no Benfica? E um excelente suplente para o Liedson, talvez ate possa jogar ao lado dele, e vai fazer muitos benfiquistas calarem a boca.
Desde que cheguei a Italia, a minha principal preocupacao, relativamente a noticias, era so uma. Nao era Socrates em Moscovo, nem cimeiras da UE, nem nada que se parecesse. Era o Romagnoli. Sempre que me ligava a internet, tinha esta preocupacao: entao e o Romagnoli? A contratacao foi finalmente oficializada e por muito bom preco. Esta de parabens a direccao da SAD do Sporting. Bem vindo, Pipi!
Finalmente ha o Derlei. Ao contrario dos sportinguistas que eu ja li, estou convencido de que se trata de uma boa aposta. Nao se deu bem no Benfica, mas desde quando e que um jogador e mau so por nao jogar bem no Benfica? E um excelente suplente para o Liedson, talvez ate possa jogar ao lado dele, e vai fazer muitos benfiquistas calarem a boca.
2007/06/20
Por que nao tenho escrito muito
"Bacheca", "nuovo post", "pubblica post", "salva adesso", "mostra tutto"... E com isto que tenho de me debater no blogger (em italiano, claro). E ainda com um teclado esquisitissimo. Mas pronto, a conferencia esta a valer a pena, e estou em Roma, que vale sempre a pena...
2007/06/13
Ciao Roma!
Sigo hoje para Roma, para uma conferência em Frascati e um pouco de "turismo científico" na Cidade Eterna e nas imediações. Nos próximos dias não vou escrever com a mesma regularidade. Para a semana devo escrever qualquer coisa, mas só depois do São João devo voltar ao ritmo normal.
A liberalização (europeia) dos mercados de viagens
Há pouco menos de um ano, viajei de Lisboa para Berlim numa companhia holandesa, tendo o bilhete sido comprado (electronicamente) numa agência francesa.
Viajo hoje de Lisboa para Roma numa companhia espanhola, tendo o bilhete sido comprado (electronicamente) na mesma agência francesa.
A raão? O preço anunciado é o total (taxas incluídas), como é honesto, e como desde o princípio deste mês é obrigatório. Mas tem uma distinção que a lei portuguesa não contempla: entre as taxas de aeroporto e as taxas de emissão por parte da agência. São de natureza bem diferente, e nas agências portuguesas vêm sempre indiscriminadas como "taxas". Só que para o mesmo bilhete (qualquer que este seja), o preço nessa agência francesa é sempre sistematicamente 15 euros inferior ao de uma conhecida agência portuguesa do Grupo Espírito Santo. Na agência francesa a "frais d'émission", de 5€, é explícito. Naquela agência portuguesa é de 20€, e só é explícito após a reserva do bilhete.
Viajo hoje de Lisboa para Roma numa companhia espanhola, tendo o bilhete sido comprado (electronicamente) na mesma agência francesa.
A raão? O preço anunciado é o total (taxas incluídas), como é honesto, e como desde o princípio deste mês é obrigatório. Mas tem uma distinção que a lei portuguesa não contempla: entre as taxas de aeroporto e as taxas de emissão por parte da agência. São de natureza bem diferente, e nas agências portuguesas vêm sempre indiscriminadas como "taxas". Só que para o mesmo bilhete (qualquer que este seja), o preço nessa agência francesa é sempre sistematicamente 15 euros inferior ao de uma conhecida agência portuguesa do Grupo Espírito Santo. Na agência francesa a "frais d'émission", de 5€, é explícito. Naquela agência portuguesa é de 20€, e só é explícito após a reserva do bilhete.
2007/06/12
Cientistas portugueses em Inglaterra no DN
Recomendo a leitura da reportagem do Diário de Notícias. Para além do interesse geral da peça, há motivos pessoais. Encontro lá antigos alunos (quando eu era monitor de Matemática no IST), que já estão a acabar - alguns já acabaram - os seus doutoramentos. Encontro lá amigos. Encontro malta da LEFT. Encontro do melhor que Portugal produz e pode encontrar.(Nuno, presenteias-nos com fotos dos teus piqueniques, presenteias-nos como fotos dos pés dos participantes nos teus piqueniques, mas não falas de nada disto?)
2007/06/11
AllStars em Alvalade (II)
Para além do último golo da carreira do Sá Pinto, registe-se a assistência do Chico Buarque para golo do Linz. Quando o Chico foi substituído, afirmou (com razão) que o seu futebol não tinha sido bem aproveitado pela equipa. O locutor da televisão pediu-lhe para cantar em directo um pouco da música O Futebol (que eu coloquei na entrada anterior). Corporativamente o Chico recusou, dizendo que tal "não fazia parte do contrato". E esquecendo-se de que havia pessoas que tinham sintonizado na TVI só para verem esse pedido satisfeito. Porra, Chico!
2007/06/10
Balanço pessoal de mais uma Feira do Livro de Lisboa
Já lá não ia há uns anos. Dado os (muitos) livros que tenho para ler, ia com a intenção de passear, ver as novidades e "não comprar nada". E vim com a sensação de "não ter comprado nada". Só que larguei 35 €. Tudo grandes negócios.
2007/06/09
AllStars em Alvalade
2007/06/08
A minha escala Warhol
Retomo aqui a ideia do Francisco Frazão e do Pedro Mexia, adaptada ao meu caso: físicos famosos. Não me refiro a assistir a seminários: refiro-me a físicos com quem tenha privado uns instantes que seja (não espero que nenhum deles se lembre de mim). Restrinjo-me a laureados com o Prémio Nobel. Que eu me lembro, foram os que se seguem.
A minha recente conversa com Claude Cohen-Tannoudji foi relatada aqui. Os meus encontros com David Gross (em Santiago de Compostela) e Franck Wilczek (em Minneapolis) foram descritos aqui. Com Gerard ‘t Hooft, a olhar para o mar da Corunha, enquanto discutia com um espanhol a direcção em que ficava a Grã-Bretanha, falou-se da “estrutura fractal da costa marítima” (‘t Hooft entrou assim na discussão). Via C.N. Yang muitas vezes (doutorei-me no Instituto com o seu nome), mas a única vez que lhe falei foi numa entrevista que ele me concedeu (e ao Nuno, que me visitava), e que deve vir a ser publicada em breve.
Passando para a Medalha Fields, na Matemática, via John Milnor todos os dias no meu doutoramento (o seu instituto era ao lado do meu). Ele dizia-me sempre “hi”. (Uma vez, em Princeton, vieram sentar-se na mesa que partilhava com outros colegas ao almoço ele e o célebre John Nash, mas não lhes dissemos nada.)
Não quero deixar de referir Juan Maldacena, outro físico célebre: na referida escola de Santiago de Compostela, ele veio-me pedir e a outro colega se lhe podíamos emprestar um despertador. Depois fomos jantar umas chuletas de ternera.
Se retirasse esta fasquia “nobel”, a lista seria maior, mas como se definiria a “celebridade” sem um prémio deste género?
Ainda dentro dos “nobeis”, mas desta vez da literatura, como qualquer português que visite a Feira do Livro de Lisboa, tenho um livro autografado por José Saramago (ainda ele não era “nobel”).
E é isto.
A minha recente conversa com Claude Cohen-Tannoudji foi relatada aqui. Os meus encontros com David Gross (em Santiago de Compostela) e Franck Wilczek (em Minneapolis) foram descritos aqui. Com Gerard ‘t Hooft, a olhar para o mar da Corunha, enquanto discutia com um espanhol a direcção em que ficava a Grã-Bretanha, falou-se da “estrutura fractal da costa marítima” (‘t Hooft entrou assim na discussão). Via C.N. Yang muitas vezes (doutorei-me no Instituto com o seu nome), mas a única vez que lhe falei foi numa entrevista que ele me concedeu (e ao Nuno, que me visitava), e que deve vir a ser publicada em breve.
Passando para a Medalha Fields, na Matemática, via John Milnor todos os dias no meu doutoramento (o seu instituto era ao lado do meu). Ele dizia-me sempre “hi”. (Uma vez, em Princeton, vieram sentar-se na mesa que partilhava com outros colegas ao almoço ele e o célebre John Nash, mas não lhes dissemos nada.)
Não quero deixar de referir Juan Maldacena, outro físico célebre: na referida escola de Santiago de Compostela, ele veio-me pedir e a outro colega se lhe podíamos emprestar um despertador. Depois fomos jantar umas chuletas de ternera.
Se retirasse esta fasquia “nobel”, a lista seria maior, mas como se definiria a “celebridade” sem um prémio deste género?
Ainda dentro dos “nobeis”, mas desta vez da literatura, como qualquer português que visite a Feira do Livro de Lisboa, tenho um livro autografado por José Saramago (ainda ele não era “nobel”).
E é isto.
2007/06/07
2007/06/06
2007/06/05
Um pouco de “Fox News” nos comentários de um blogue de física
Passam hoje quarenta anos sobre o início da Guerra dos Seis Dias. Entretanto tem dado que falar a recusa do físico americano Steven Weinberg em participar numa conferência no Reino Unido em homenagem ao falecido físico paquistanês Abdus Salam, fundador do Centro Internacional de Física Teórica, dirigido principalmente a físicos dos países em desenvolvimento. Weinberg (judeu) e Salam (muçulmano) partilharam com Sheldon Glashow o prémio Nobel da Física de 1979 pela formulação do Modelo Padrão das interacções electrofracas, que permitiu unificar a descrição do electromagnetismo e de um certo tipo de forças nucleares.
A razão da recusa de Weinberg é um “boicote ao boicote”: académicos britânicos não desejam a presença no país dos seus colegas israelitas, como forma de protesto contra a política levada a cabo pelos sucessivos diferentes governos de Israel no Médio Oriente. Weinberg, americano e professor reformado da Universidade do Texas em Austin, decidiu solidarizar-se com os seus colegas israelitas por considerar o protesto britânico de cariz… (adivinhem!) anti-semita.
A carta de Weinberg, e os detalhes da história, podem ser lidos aqui. Lendo a carta, podemos aperceber-nos que Weinberg vê “anti-semitismo” (ou em alternativa “medo de provocar a comunidade muçulmana na Grã Bretanha”) em órgãos como a BBC, o The Guardian e o The Independent.
Devo esclarecer que não acho adequado o boicote à presença de académicos de uma certa nacionalidade ou credo. O credo ou a nacionalidade não vinculam ninguém à política colonialista e agressiva de Israel. Concordaria se o boicote se limitasse a mercadorias, a bens de consumo. Mas pessoas não são mercadorias. Deve boicotar-se o capital, mas não as pessoas. Por isso lamento o tal boicote e lamento profundamente a decisão de Weinberg. O seu colega Salam, que tão frutíferas colaborações com ele teve, não o merecia.
Soube deste episódio através do blogue The Reference Frame. E é para esta mesma entrada deste blogue que eu quero chamar a vossa atenção, nomeadamente para os seus comentários. Comentários que demonstram bem como é impossível ter uma discussão racional sobre o conflito israelo-palestiniano nos EUA. Eu tentei ter essa conversa por algumas vezes e sei o que me aconteceu. Um comentador de bom senso (europeu), Kasper Olsen, fala timidamente sobre o direito dos palestinianos a terem o seu próprio estado, e é imediatamente rodeado por falcões pró-israelitas. Convido-vos a passarem por lá e a fazerem o vosso próprio julgamento. Podem encontrar opiniões que em Portugal (por enquanto) só o colunista do DN Alberto Gonçalves tem o desplante de emitir (enquanto escreve “Palestina” entre aspas), como
“I would probably also give up at this moment and give them a country - which means that Palestinians have the right, too. If you asked what I really think, my answer would be No, they don't deserve it. The concept of the Palestinian nation is just an abstract, soft construct.”
Eu sou contra a Intifada, mas notem que toda esta opinião – o “desistir e dar-lhes um país”, apesar de achar que os palestinianos não têm direito a ele – é o melhor argumento a favor dessa mesma Intifada que eu já li.
Quero ainda destacar
“The problem is that the more land and authority they were granted... the more israelis died in terrorist attacks...”
Como se os territórios ocupados fossem uma concessão feita aos palestinianos, uma prenda que se lhes dava – e não uma devolução daquilo que legitimamente sempre lhes pertenceu. É esta a visão que prevalece na opinião pública americana (que defende um “Grande Israel”) e nos principais meios de comunicação social (não é só a “Fox News”).
Não julguem que estes comentadores são necessariamente neoconservadores, ou mesmo simplesmente republicanos. Pelo contrário: muitos deles são, infelizmente, democratas.
Espero que esta pequena (mas representativa) amostra demonstre que a principal prioridade em política internacional é a necessidade de acabar com o apoio incondicional dos EUA a Israel, se se quer ter um mundo mais seguro. Enquanto isso não acontecer, no que a Europa deve apostar é numa política de defesa comum e autónoma (sem pôr em causa as suas alianças) o mais depressa possível. Que nos proteja das ameaças dos talibãs e dos Ahmenijads, sem dúvida. Mas que nos proteja também dos Drs. Estranhoamores de Washington e dos falcões de Tel Aviv.
Publicado também no Cinco Dias.
A razão da recusa de Weinberg é um “boicote ao boicote”: académicos britânicos não desejam a presença no país dos seus colegas israelitas, como forma de protesto contra a política levada a cabo pelos sucessivos diferentes governos de Israel no Médio Oriente. Weinberg, americano e professor reformado da Universidade do Texas em Austin, decidiu solidarizar-se com os seus colegas israelitas por considerar o protesto britânico de cariz… (adivinhem!) anti-semita.
A carta de Weinberg, e os detalhes da história, podem ser lidos aqui. Lendo a carta, podemos aperceber-nos que Weinberg vê “anti-semitismo” (ou em alternativa “medo de provocar a comunidade muçulmana na Grã Bretanha”) em órgãos como a BBC, o The Guardian e o The Independent.
Devo esclarecer que não acho adequado o boicote à presença de académicos de uma certa nacionalidade ou credo. O credo ou a nacionalidade não vinculam ninguém à política colonialista e agressiva de Israel. Concordaria se o boicote se limitasse a mercadorias, a bens de consumo. Mas pessoas não são mercadorias. Deve boicotar-se o capital, mas não as pessoas. Por isso lamento o tal boicote e lamento profundamente a decisão de Weinberg. O seu colega Salam, que tão frutíferas colaborações com ele teve, não o merecia.
Soube deste episódio através do blogue The Reference Frame. E é para esta mesma entrada deste blogue que eu quero chamar a vossa atenção, nomeadamente para os seus comentários. Comentários que demonstram bem como é impossível ter uma discussão racional sobre o conflito israelo-palestiniano nos EUA. Eu tentei ter essa conversa por algumas vezes e sei o que me aconteceu. Um comentador de bom senso (europeu), Kasper Olsen, fala timidamente sobre o direito dos palestinianos a terem o seu próprio estado, e é imediatamente rodeado por falcões pró-israelitas. Convido-vos a passarem por lá e a fazerem o vosso próprio julgamento. Podem encontrar opiniões que em Portugal (por enquanto) só o colunista do DN Alberto Gonçalves tem o desplante de emitir (enquanto escreve “Palestina” entre aspas), como
“I would probably also give up at this moment and give them a country - which means that Palestinians have the right, too. If you asked what I really think, my answer would be No, they don't deserve it. The concept of the Palestinian nation is just an abstract, soft construct.”
Eu sou contra a Intifada, mas notem que toda esta opinião – o “desistir e dar-lhes um país”, apesar de achar que os palestinianos não têm direito a ele – é o melhor argumento a favor dessa mesma Intifada que eu já li.
Quero ainda destacar
“The problem is that the more land and authority they were granted... the more israelis died in terrorist attacks...”
Como se os territórios ocupados fossem uma concessão feita aos palestinianos, uma prenda que se lhes dava – e não uma devolução daquilo que legitimamente sempre lhes pertenceu. É esta a visão que prevalece na opinião pública americana (que defende um “Grande Israel”) e nos principais meios de comunicação social (não é só a “Fox News”).
Não julguem que estes comentadores são necessariamente neoconservadores, ou mesmo simplesmente republicanos. Pelo contrário: muitos deles são, infelizmente, democratas.
Espero que esta pequena (mas representativa) amostra demonstre que a principal prioridade em política internacional é a necessidade de acabar com o apoio incondicional dos EUA a Israel, se se quer ter um mundo mais seguro. Enquanto isso não acontecer, no que a Europa deve apostar é numa política de defesa comum e autónoma (sem pôr em causa as suas alianças) o mais depressa possível. Que nos proteja das ameaças dos talibãs e dos Ahmenijads, sem dúvida. Mas que nos proteja também dos Drs. Estranhoamores de Washington e dos falcões de Tel Aviv.
Publicado também no Cinco Dias.
2007/06/04
Diálogo entre um filósofo e um físico
Vale a pena ler o texto Serão as constantes da natureza contingentes? de Desidério Murcho, e os comentários dos leitores. Sobretudo do Ricardo S. Carvalho que, ausente que tem andado do blogue onde é residente, nem por isso deixa de estar atento ao que se passa. Com a licença do Ricardo (que tem um estilo "fernanda câncio" de escrita - suponho que coma brócolos do El Corte Inglés) transcrevo esta passagem, que acho imperdível. À atenção de Boaventura de Sousa Santos.
Às frases de Desidério Murcho
Às frases de Desidério Murcho
"...Quanto ao resto, dizer que uma equação guarda mais ideias do que as palavras permitem alcançar é só uma maneira não muito feliz de dizer que por vezes não compreendemos claramente as próprias equações que temos razões para acreditar que são verdadeiras..."o Ricardo contrapõe
lamento, mas é falso! ou, então, temos outro problema de comunicção :-)
as equações de einstein, por exemplo, guardam muitas surpresas que só com a sua exploração conseguimos aprender. nenhuma argumentação sobre gravitação nos teria levado a muitos conceitos fundamentais de física moderna sem realmente estudarmos com atenção e cuidado as soluções dessas equações!
um exemplo claro e recente neste sentido está relacionado com a "interpretação" da mecânica quântica. os físicos do princípio do século escolheram a via de copenhaga "shut up and compute" com um sucesso inegável. ao mesmo tempo, muitos argumentos foram debatidos ao longo dos anos sobre as "implicações filosóficas" das diversas interpretações da mecânica quântica, produzindo barbaridades científicas sem limite (até tempos recentes: lembro-me de uma conferência em boston em meados da década de 90 onde a parvoíce dita e incomprensão da mecânica quântica, por parte das pessoas que apenas se ficavam pelos "argumentos", não tinham limite).
hoje a via das equações provou a sua superioridade para atingir este fim: temos uma descrição a caminho de ser bastante completa de todos os aspectos da mecânica quântica, fazendo uso das ideias de decoerência. décadas de argumentação nem lá perto chegaram.
com isto não quero dizer que os argumentos de nada serviam; óbvio que não!! apenas quero dizer que, muitas vezes, é útil conhecer as equações e aprender a estudá-las, antes de decidir argumentar sobre certas coisas...
2007/06/03
31 no Bloco
Imperdível a cobertura no 31 da Armada da convenção do Bloco de Esquerda. Destaco sobretudo os textos Ponto Verde e a Crónica Final. Parabéns ao Rodrigo Moita de Deus, ao Henrique Burnay e ao Bloco de Esquerda. Tal (excelente) cobertura não ocorreria com qualquer partido. Nem com qualquer blóguer.
2007/06/02
Filipe Moura assinou por Carmona Rodrigues
Participei ontem na recolha de assinaturas por parte de Carmona Rodrigues para a sua candidatura à Câmara de Lisboa. Antes de assinar, deixei bem claro que Carmona não era o meu candidato, e que só assinava por querer que Carmona retire votos a Fernando Negrão, que considero o pior de todos os candidatos. Aceitaram a minha assinatura, algo contrafeitos. A democracia também é isto.
2007/06/01
O primeiro livro de ficção do Rui Tavares
...chama-se O Arquitecto, é sobre Minoru Yamasaki, "um artista amaldiçoado pela história, mais célebre pelas obras que lhe destruiram do que pelas que construiu". O livro é uma edição da Tinta da China e terá uma sessão de autógrafos com a presença do autor hoje às 21:30 na Feira do Livro de Lisboa.
A Física e a pseudociência das constantes
Vale a pena ler: Varying Speed of Light (VSL) theories: crackpots par excellence (sobre o trabalho de João Magueijo) no The Reference Frame, e ainda E ao terceiro livro passou-se: a pseudociência do ano; O que é o princípio antrópico?; Cosmologia, Deus e a Ressureição, todos no De Rerum Natura.
2007/05/31
O fim do trio-maravilha

Quem assiste aos jogos pela televisão não se apercebe tanto. Só quem assistiu ao vivo aos jogos do Sporting (como eu assisti com o Belenenses) pode aperceber-se da enorme cumplicidade entre Nani, Djaló e Miguel Veloso. João Moutinho, sendo da mesma geração, ascendeu à equipa principal mais cedo do que eles. É mais "adulto", na mentalidade, na atitude. Mas Djaló, Miguel Veloso e Nani, juntos, pareciam três colegas do liceu. Voltar a vê-los juntos, só na selecção. Desejo as maiores felicidades ao Nani, e que os outros dois façam carreiras brilhantes no Sporting.
2007/05/30
Lançamento: "O Fim do Mundo Está Próximo?"
O livro é da autoria de Jorge Buescu e é lançado em Lisboa hoje pelas 18h30, na Fnac do Centro Comercial Colombo. A apresentação do livro estará a cargo de Fernando Santo, Bastonário da Ordem dos Engenheiros, e de Nuno Crato, Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática.
A greve preventiva
Eu não estou de greve. Sou trabalhador independente precário, tanto posso trabalhar à noite e ao domingo como não trabalhar durante a semana (com limites). Em qualquer circunstância, um bolseiro como eu dizer que estava "de greve" seria ridículo. Mas não percebo os objectivos desta greve. As greves devem fazer-se quando há objectivos concretos, e não para protestar contra o governo. Para isso há as eleições. Eu não vi objectivos concretos na convocatória desta greve (que esteve longe de ser unânime, mesmo dentro da CGTP). Assim, o mecanismo da greve só fica empobrecido.
2007/05/29
O novo aeroporto e o poder local
Estou convencido da necessidade da construção de um novo Aeroporto de Lisboa. Sobre a sua localização, inclino-me mais para a Margem Sul do Tejo (Poceirão ou Faias, os tais “desertos” de que o ministro falava, que aparentemente não têm grandes problemas ambientais ou de segurança), embora não tenha uma opinião definitiva. Mas admiro-me com quem a já tem, e defende a opção Ota sem prestar atenção devida a outros argumentos.
Houve vários aspectos risíveis nas declarações desastradas da semana passada, quer do ministro Mário Lino, quer de Almeida Santos. Independentemente de só este último, creio eu, ter medo de construir pontes por causa dos “atentados terroristas”, a verdade é que a necessidade da construção de uma nova ponte sobre o Tejo para um aeroporto na Margem Sul é usada como argumento pelos defensores da Ota, que são maioritariamente provenientes dos distritos de Santarém, Leiria e Coimbra (não conheço praticamente nenhum defensor da Ota que não provenha de um destes distritos). O extraordinário é que estes cidadãos (que, recorde-se, já têm – ou vão ter – uma ligação ferroviária de alta velocidade que os liga aos aeroportos de Lisboa – seja ele onde for – e Porto) crêem mesmo que a margem sul é um deserto, e que serão provavelmente eles os únicos utentes do futuro aeroporto. Ninguém pensa na acessibilidade de um aeroporto na Ota aos habitantes da margem sul (especialmente do Barreiro). As Faias ou o Poceirão ficam à mesma distância de Lisboa que a Ota, é verdade. Mas ficam mais próximas da população da Margem Sul de Lisboa e Setúbal, que de outra forma ficaria muito longe de um aeroporto internacional. Ninguém parece discernir que, seja para ligar os passageiros da margem norte ao Poceirão ou para ligar partes da margem sul à Ota, uma terceira travessia do Tejo vai mesmo ter de ser construída. Chegar à Ota não é a mesma coisa que à Portela. Por muito que isso assuste Almeida Santos. Ou então se calhar há quem repare, mas nos últimos tempos para defender a Ota tem valido tudo.
Ainda por outras duas razões, e embora não tenha ainda uma opinião definitiva e nem recuse liminarmente nenhuma das hipóteses, eu tendo a preferir um aeroporto na margem sul. A primeira é por esta localização ser mais distante do Porto, e é do interesse nacional que o aeroporto do Porto não seja subalternizado em relação à Ota. O norte e centro-norte do país devem ser servidos preferencialmente pelo aeroporto do Porto. A segunda, e quanto a mim a razão principal, é que tanto quanto sei um aeroporto nas Faias ou no Poceirão será mais seguro, mais barato e terá maior expansibilidade que um aeroporto na Ota.
Mas como sempre em Portugal tudo se reduz aos interesses locais. Toda a gente quer ter um aeroporto próximo da sua cidade ou freguesia. Receio que a questão do aeroporto seja decisiva nas próximas eleições autárquicas de Lisboa (quando não é um assunto só de Lisboa). Autarcas da região centro, das mais variadas cores políticas (CDS à CDU), defendem a construção do aeroporto da Ota. Entre os muitos autarcas do PSD que apoiam esta localização está Francisco Moita Flores, presidente da Câmara de Santarém, que, com uma grande honestidade intelectual, recorda que a Ota sempre foi defendida pelo PSD até a o governo Sócrates decidir avançar. Ou seja, os interesses locais estão acima de tudo o resto, interesses partidários ou nacionais. Que seja assim com os interesses nacionais, acho pena. E o novo aeroporto de Lisboa é um grande projecto nacional (sem subalternizar os outros, como escrevi), que não diz só respeito a passageiros nacionais (se calhar diz mesmo mais respeito a passageiros estrangeiros). Deve permitir a transferência e o tráfego de passageiros entre a América do Sul, a África e outros países da Europa. Deve permitir a exportação de bens de consumo, de cargas que a Portela não está em condições de permitir. Deve ser grande o suficiente para tudo isto, que não é irrealista nem megalómano: dois pequenos/médios aeroportos, a alternativa que muita gente gosta de propor, não permitiriam nenhuma destas possibilidades.
Mas se o país se encontrasse dividido em regiões, como muita gente continua a insistir em propor, o mais provável é que se acabasse mesmo com dois aeroportos pequenos, em localizações distintas. O interesse nacional raramente coincide com a sobreposição de meros interesses locais. É bom que pensemos nisto.
Adenda: podem consultar-se as distâncias das diferentes opções a diferentes cidades no Blasfémias. A estes dados acrescento, a partir do Barreiro: Portela - 47 km, Poceirão - 54 km, Ota - 85 km.
Publicado também no Cinco Dias.
Houve vários aspectos risíveis nas declarações desastradas da semana passada, quer do ministro Mário Lino, quer de Almeida Santos. Independentemente de só este último, creio eu, ter medo de construir pontes por causa dos “atentados terroristas”, a verdade é que a necessidade da construção de uma nova ponte sobre o Tejo para um aeroporto na Margem Sul é usada como argumento pelos defensores da Ota, que são maioritariamente provenientes dos distritos de Santarém, Leiria e Coimbra (não conheço praticamente nenhum defensor da Ota que não provenha de um destes distritos). O extraordinário é que estes cidadãos (que, recorde-se, já têm – ou vão ter – uma ligação ferroviária de alta velocidade que os liga aos aeroportos de Lisboa – seja ele onde for – e Porto) crêem mesmo que a margem sul é um deserto, e que serão provavelmente eles os únicos utentes do futuro aeroporto. Ninguém pensa na acessibilidade de um aeroporto na Ota aos habitantes da margem sul (especialmente do Barreiro). As Faias ou o Poceirão ficam à mesma distância de Lisboa que a Ota, é verdade. Mas ficam mais próximas da população da Margem Sul de Lisboa e Setúbal, que de outra forma ficaria muito longe de um aeroporto internacional. Ninguém parece discernir que, seja para ligar os passageiros da margem norte ao Poceirão ou para ligar partes da margem sul à Ota, uma terceira travessia do Tejo vai mesmo ter de ser construída. Chegar à Ota não é a mesma coisa que à Portela. Por muito que isso assuste Almeida Santos. Ou então se calhar há quem repare, mas nos últimos tempos para defender a Ota tem valido tudo.
Ainda por outras duas razões, e embora não tenha ainda uma opinião definitiva e nem recuse liminarmente nenhuma das hipóteses, eu tendo a preferir um aeroporto na margem sul. A primeira é por esta localização ser mais distante do Porto, e é do interesse nacional que o aeroporto do Porto não seja subalternizado em relação à Ota. O norte e centro-norte do país devem ser servidos preferencialmente pelo aeroporto do Porto. A segunda, e quanto a mim a razão principal, é que tanto quanto sei um aeroporto nas Faias ou no Poceirão será mais seguro, mais barato e terá maior expansibilidade que um aeroporto na Ota.
Mas como sempre em Portugal tudo se reduz aos interesses locais. Toda a gente quer ter um aeroporto próximo da sua cidade ou freguesia. Receio que a questão do aeroporto seja decisiva nas próximas eleições autárquicas de Lisboa (quando não é um assunto só de Lisboa). Autarcas da região centro, das mais variadas cores políticas (CDS à CDU), defendem a construção do aeroporto da Ota. Entre os muitos autarcas do PSD que apoiam esta localização está Francisco Moita Flores, presidente da Câmara de Santarém, que, com uma grande honestidade intelectual, recorda que a Ota sempre foi defendida pelo PSD até a o governo Sócrates decidir avançar. Ou seja, os interesses locais estão acima de tudo o resto, interesses partidários ou nacionais. Que seja assim com os interesses nacionais, acho pena. E o novo aeroporto de Lisboa é um grande projecto nacional (sem subalternizar os outros, como escrevi), que não diz só respeito a passageiros nacionais (se calhar diz mesmo mais respeito a passageiros estrangeiros). Deve permitir a transferência e o tráfego de passageiros entre a América do Sul, a África e outros países da Europa. Deve permitir a exportação de bens de consumo, de cargas que a Portela não está em condições de permitir. Deve ser grande o suficiente para tudo isto, que não é irrealista nem megalómano: dois pequenos/médios aeroportos, a alternativa que muita gente gosta de propor, não permitiriam nenhuma destas possibilidades.
Mas se o país se encontrasse dividido em regiões, como muita gente continua a insistir em propor, o mais provável é que se acabasse mesmo com dois aeroportos pequenos, em localizações distintas. O interesse nacional raramente coincide com a sobreposição de meros interesses locais. É bom que pensemos nisto.
Adenda: podem consultar-se as distâncias das diferentes opções a diferentes cidades no Blasfémias. A estes dados acrescento, a partir do Barreiro: Portela - 47 km, Poceirão - 54 km, Ota - 85 km.
Publicado também no Cinco Dias.
2007/05/28
Algumas notas sobre a final

O jogo foi equilibrado, como é típico de uma final e de um jogo de final de época. O Sporting teve as melhores oportunidades e é um vencedor justo.
Como já aqui defendi, quando o Sporting nem sequer estava envolvido, é ridículo continuar-se a jogar a final da Taça de Portugal no Estádio do Jamor, um estádio obsoleto, quando há tantos estádios novos e mais confortáveis no país inteiro, alguns deles com lotação bem superior. O que se passou com os bilhetes este ano foi o resultado de uma final entre um grande e um clube com grande implantação popular (ainda por cima de Lisboa). Se fosse com dois grandes ainda seria pior, apesar de se achar menos estranho. De certa forma foi pedagógico.
De qualquer maneira não tencionei ir ao Jamor. Fui a Alvalade ver a final em écran gigante.
A festa foi bonita. Sem confrontos ou conflitos, como outras. Somos mesmo um clube diferente. O pior foram os “momentos musicais” que se teve de ouvir entre o final do jogo no Jamor e a chegada da equipa a Alvalade. Um dos “artistas”, de nome “Júnior”, trauteava uma coisa que versava sobre o consumo de “ganzas”. Era engraçado ouvi-la e olhar ao mesmo tempo para o ar compenetrado de um rapaz ao pé de mim, que queimava diligentemente uma pedra de haxixe e enrolava um charro. Musicalmente, mais teria valido um dueto entre a Maria José Valério e o João Braga.
Os jogadores foram sendo chamados um a um. O mais contente era o Carlos Martins, que provavelmente não sabe quando volta a ter hipótese de ganhar um troféu destes. A menos que vá para o Porto (tudo é possível). O último, também provavelmente pela última vez, foi o Custódio, que carregava o troféu. Qualquer um deles deu pena, mas é a vida. Desejo felicidades a ambos. Mais pena tive de não estar ali o Sá Pinto e de o Pedro Barbosa não ter subido com a equipa técnica (para não estragar a festa ao Paulo Bento?).
Houve não sei quantas repetições de “e quem não salta é lampião”... Eu não saltava – estou velho, reservo as minhas energias para o "e quem não salta é laranjinha" das manifes, e nem sequer dou esta importância a lampiões. Mas chegaram-me mesmo a perguntar, apesar do meu cachecol, se eu não era lampião! No final, cantava-se uma música dedicada ao Simão Sabrosa, que por pudor e respeito mínimo - mesmo mínimo - que ainda tenho por ele, me abstenho de aqui escrever. Rimava “sexy hot” com “pacote”. Também se entoavam as clássicas “cada lampião, cada cabrão” e “SLB, SLB, filhos da puta, SLB, são a merda que se vê”.
E foi assim. Para o ano há mais. Esperemos que outra taça, e desta vez o campeonato.
2007/05/27
António Brotas: a Ota e a Câmara de Lisboa (II)
A campanha para a Câmara de Lisboa estava em risco de se transformar num referendo pró, ou contra o aeroporto da Ota.
A intervenção de ontem do Exmo. Senhor Presidente da República alterou profundamente a situação.
O país vai mesmo discutir a localização do novo aeroporto de Lisboa (do NAL).
Esta discussão durará, possivelmente, dois anos. Se, no final, se concluir que o NAL pode ser construido num local da margem Sul (há vários locais pelo menos à primeira vista propícios para isso) são ganhos dois anos porque um aeroporto na margem Sul demora, no mínimo, quatro anos menos a construir do que um aeroporto na Ota.
Infelizmente, o ministro Mário Lino não esperou três dias. Abriu um concurso para adjudicar o projecto de um aeroporto na Ota e fez esta semana uma pré-selecção de três concorrentes. Por mais competente que seja o vencedor e por melhor que trabalhe, projectará sempre um aeroporto acanhado, com maus acessos, deficiente sobre muitos aspectos, caro, muitíssimo dificil de construir e insuficiente para servir o país por um largo periodo. (Que o ministro comparou a um indivíduo sem uma perna, com um braço partido e todo torto, mas sem um cancro).
Se, entretanto, se concluir que que o NAL pode ser construido na margem Sul, o projecto do aeroporto da Ota vai para o lixo. O país perderá bastante dinheiro, mas não fica com o futuro atrofiado como seria o caso de embarcar numa obra errada.
A única questão que pode ser impeditiva da construção do NAL na Margem Sul e que exige um estudo sério e aprofundado é o da protecção dos aquíferos subterraneos. O debate sobre esta questão, que foi levantada por alguns ambientalistas, pelo próprio ministro, pelo Presidente da CCRLVT e, mais recentemente, por alguns professores de Coimbra, deve ser conduzido com grande abertura e limpidez para ser convincente. Dispomos de dois anos para o fazer porque os estudos sobre o aeroporto da Ota propriamente dito estão atrasadíssimos.
Em qualquer caso, os estudos sobre os aquíferos serão sempre uteis, pois sensibilizarão o país para a importantíssima questão da sua protecção, que não é um problema posto unicamente pela construção de um aeroporto mas, também, por uma série de outros projectos industriais, urbanísticos e agricolas.
O outro argumento impeditivo apresentado pelo ministro, o dos choques de aviões com aves migratórias, é perfeitamente risivel. Numa primeira ocasião procurarei escrever sobre ele para recordar os estudos de 1999 e me interrogar sobre os actuais.
É altamente desejavel que os candidatos à Câmara de Lisboa se interessem por estes assuntos e exijam que sejam sériamente estudados. Mas, no periodo curto da campanha, não são eles que o podem fazer, e há outros assuntos mais directamente relacionados com a cidade que devem reter a sua atenção.
António Brotas
A intervenção de ontem do Exmo. Senhor Presidente da República alterou profundamente a situação.
O país vai mesmo discutir a localização do novo aeroporto de Lisboa (do NAL).
Esta discussão durará, possivelmente, dois anos. Se, no final, se concluir que o NAL pode ser construido num local da margem Sul (há vários locais pelo menos à primeira vista propícios para isso) são ganhos dois anos porque um aeroporto na margem Sul demora, no mínimo, quatro anos menos a construir do que um aeroporto na Ota.
Infelizmente, o ministro Mário Lino não esperou três dias. Abriu um concurso para adjudicar o projecto de um aeroporto na Ota e fez esta semana uma pré-selecção de três concorrentes. Por mais competente que seja o vencedor e por melhor que trabalhe, projectará sempre um aeroporto acanhado, com maus acessos, deficiente sobre muitos aspectos, caro, muitíssimo dificil de construir e insuficiente para servir o país por um largo periodo. (Que o ministro comparou a um indivíduo sem uma perna, com um braço partido e todo torto, mas sem um cancro).
Se, entretanto, se concluir que que o NAL pode ser construido na margem Sul, o projecto do aeroporto da Ota vai para o lixo. O país perderá bastante dinheiro, mas não fica com o futuro atrofiado como seria o caso de embarcar numa obra errada.
A única questão que pode ser impeditiva da construção do NAL na Margem Sul e que exige um estudo sério e aprofundado é o da protecção dos aquíferos subterraneos. O debate sobre esta questão, que foi levantada por alguns ambientalistas, pelo próprio ministro, pelo Presidente da CCRLVT e, mais recentemente, por alguns professores de Coimbra, deve ser conduzido com grande abertura e limpidez para ser convincente. Dispomos de dois anos para o fazer porque os estudos sobre o aeroporto da Ota propriamente dito estão atrasadíssimos.
Em qualquer caso, os estudos sobre os aquíferos serão sempre uteis, pois sensibilizarão o país para a importantíssima questão da sua protecção, que não é um problema posto unicamente pela construção de um aeroporto mas, também, por uma série de outros projectos industriais, urbanísticos e agricolas.
O outro argumento impeditivo apresentado pelo ministro, o dos choques de aviões com aves migratórias, é perfeitamente risivel. Numa primeira ocasião procurarei escrever sobre ele para recordar os estudos de 1999 e me interrogar sobre os actuais.
É altamente desejavel que os candidatos à Câmara de Lisboa se interessem por estes assuntos e exijam que sejam sériamente estudados. Mas, no periodo curto da campanha, não são eles que o podem fazer, e há outros assuntos mais directamente relacionados com a cidade que devem reter a sua atenção.
António Brotas
António Brotas: a Ota e a Câmara de Lisboa (I)
O aeroporto de Lisboa vai estar em funcionamente 10, 20 ou mais anos. Nem sequer está provado que deva ser desactivado. Um novo aeroporto para a região de Lisboa (NAL) é em absoluto necessário para substituir ou completar o da Portela. É algo que decidiremos daqui a alguns anos. A última coisa que podemos agora desejar é que o debate sobre o destino a dar aos terrenos (ainda não devolutos) da Portela venha inquinar o problema da escolha da localização NAL .
Em qualquer, caso há problemas muito mais urgentes a tratar.
Assim, o Partido Socialista propos-se no seu programa eleitoral para as legislativas construir uma ponte para o Barreiro para TGV atravessarem o Tejo. No dia 6 de Março, a Secretária de Estado Ana Vitorino confirmou, na Sociedade de Geografia este propósito. No final de Março, o Ministério precisou que a ponte seria rodo-ferroviária e que a estação terminal seria nas Olaias.
No programa do Partido Socialista a ponte para o Barreiro era, porém, destina aos TGV para Badajóz, para o Algarve, para o Porto e ainda para um shuttle para o aeroporto da Ota, enquanto que, no documento "Orientações estratégicas para o sector ferrroviário" divulgado pelo MOPTC, em 28 de Outubro, está prevista uma entrada a Norte de Lisboa pelo Lumiar para o TGV para o Porto.
O que está actualmente previsto são, assim, duas entradas para o TGV em Lisboa. Se o propósito for para diante, tal significa que a Câmara de Lisboa terá de se defrontar com o gigantesco problema ambiental e urbanistico criado pela construção de 10 km de vias para os TGV circularem no interior da cidade (e ainda ninguém precisou onde serão em tunel, em viaduto ou à superfície).
Os estudos de engenharia necessários para construir a ponte do Barreiro e as linhas para os TGV no interior de Lisboa, na margem Sul, e pela margem Norte até à Ota ainda não estão feitos.(Este último trajecto foi posto ee lado há poucos anos pela REFER dado o seu custo excessivo). A decisão definitiva sobre o projecto global das entradas do TGV em Lisboa e, consequentemente, sobre a ponte do Barreiro, não está, assim, ainda tomada.
Quem tem de decidir sobre estes assuntos é, sem dúvida, o Governo.
Mas, qual é o papel da Câmara de Lisboa no meio de todas estas questões?
É a pergunta a fazer aos candidatos a esta próxima eleição. O que não é admissivel é que, enquanto o Governo faz os seus projectos, a Câmara se entretenha a aprovar urbanizações incompativeis com esses mesmos projectos.
O que propõe é que a Câmara reivindique o direito de ser ouvida e mantida informada e, ainda, que, simultaneamente, assuma como prática normal estudar com antecedência e transmitir ao Governo sugestões e opiniões sobre os problemas que interessem directamente à cidade. Mas, para isso, a Câmara tem de se preparar.
O que julgo indicado, é a Câmara criar um gabinete de estudos, francamente aberto a uma colaboração exterior, por exemplo, das Universidades, vocacionado não para decidir, mas para estudar e analisar os projectos das grandes infraestruturas de transportes.
No que diz respeito à travessia do Tejo, não acredito que vá ser tomada nenhuma decisão definitiva nestes dois anos. Há, no entanto, uma proposta simples sobre a qual parece haver consenso. A proposta de Portugal na Cimeira Ibérica deste ano propor à Espanha a construção com grande prioridade da linha TGV de Badajoz ao Pinhal Novo (onde há uma estação da Fertagus).
Um gabinete de estudos como o referido pode debruçar-se sobre esta proposta e, no caso de concordar com ela, pode propor à Câmara de Lisboa para a apoiar vivamente. Se esta proposta for aceite, teremos, então, dois ou três anos para estudar seriamente o problema da travessia do Tejo, muito relacionado com o problema do traçado da linha do TGV para o Porto. O gabinete referido deverá estudar estes problemas mantendo um diálogo com o Ministério e com os municípios vizinhos, mas dando especial atenção às suas implicações sobre Lisboa.
Entretanto, deverá dar especial atenção aos problemas internos da cidade, dialogando com a Carris, a CP e a empresa do metro. A meu ver, por exemplo, estão erradas as extensões actualmente previstas da rede vermelha do metro para o Aeroporto e para Campolide (bairro) . Lamento que tenha sido posta de lado a saida prevista para o lado de Sacavem que evitaria a entrada diária de dezenas de milhares de carros na cidade. A ligação da gare do Oriente ao Aeroporto podia ser feita com um investimento incomparavelmente menor (e mais cómodo para os utentes) por 6 autocarros que fizessem uma navete pela Avenida de Berlim. Do outro lado, o metro devia ir à estação de Campolide e não ao bairro de Campolide. Depois, devia descer a Av. de Ceuta. Transportados à superfície, os futuros moradores nesta avenida (que alguns pensam urbanizar com torres) irão inevitavelmente engarrafar o táfego vindo pela Autoestrada e pela Marginal. No que diz respeito a Campo de Ourique, o acesso às traseiras do bairro pode ser feito por escadas rolantes a partir de uma estação na Av. de Ceuta. É o processo de dignificar toda aquela zona.
São isto questões de simples bom senso, de quem pensa um bocado e conhece o locais, que podem, talvez , sensibilizar os candidatos.
António Brotas
Em qualquer, caso há problemas muito mais urgentes a tratar.
Assim, o Partido Socialista propos-se no seu programa eleitoral para as legislativas construir uma ponte para o Barreiro para TGV atravessarem o Tejo. No dia 6 de Março, a Secretária de Estado Ana Vitorino confirmou, na Sociedade de Geografia este propósito. No final de Março, o Ministério precisou que a ponte seria rodo-ferroviária e que a estação terminal seria nas Olaias.
No programa do Partido Socialista a ponte para o Barreiro era, porém, destina aos TGV para Badajóz, para o Algarve, para o Porto e ainda para um shuttle para o aeroporto da Ota, enquanto que, no documento "Orientações estratégicas para o sector ferrroviário" divulgado pelo MOPTC, em 28 de Outubro, está prevista uma entrada a Norte de Lisboa pelo Lumiar para o TGV para o Porto.
O que está actualmente previsto são, assim, duas entradas para o TGV em Lisboa. Se o propósito for para diante, tal significa que a Câmara de Lisboa terá de se defrontar com o gigantesco problema ambiental e urbanistico criado pela construção de 10 km de vias para os TGV circularem no interior da cidade (e ainda ninguém precisou onde serão em tunel, em viaduto ou à superfície).
Os estudos de engenharia necessários para construir a ponte do Barreiro e as linhas para os TGV no interior de Lisboa, na margem Sul, e pela margem Norte até à Ota ainda não estão feitos.(Este último trajecto foi posto ee lado há poucos anos pela REFER dado o seu custo excessivo). A decisão definitiva sobre o projecto global das entradas do TGV em Lisboa e, consequentemente, sobre a ponte do Barreiro, não está, assim, ainda tomada.
Quem tem de decidir sobre estes assuntos é, sem dúvida, o Governo.
Mas, qual é o papel da Câmara de Lisboa no meio de todas estas questões?
É a pergunta a fazer aos candidatos a esta próxima eleição. O que não é admissivel é que, enquanto o Governo faz os seus projectos, a Câmara se entretenha a aprovar urbanizações incompativeis com esses mesmos projectos.
O que propõe é que a Câmara reivindique o direito de ser ouvida e mantida informada e, ainda, que, simultaneamente, assuma como prática normal estudar com antecedência e transmitir ao Governo sugestões e opiniões sobre os problemas que interessem directamente à cidade. Mas, para isso, a Câmara tem de se preparar.
O que julgo indicado, é a Câmara criar um gabinete de estudos, francamente aberto a uma colaboração exterior, por exemplo, das Universidades, vocacionado não para decidir, mas para estudar e analisar os projectos das grandes infraestruturas de transportes.
No que diz respeito à travessia do Tejo, não acredito que vá ser tomada nenhuma decisão definitiva nestes dois anos. Há, no entanto, uma proposta simples sobre a qual parece haver consenso. A proposta de Portugal na Cimeira Ibérica deste ano propor à Espanha a construção com grande prioridade da linha TGV de Badajoz ao Pinhal Novo (onde há uma estação da Fertagus).
Um gabinete de estudos como o referido pode debruçar-se sobre esta proposta e, no caso de concordar com ela, pode propor à Câmara de Lisboa para a apoiar vivamente. Se esta proposta for aceite, teremos, então, dois ou três anos para estudar seriamente o problema da travessia do Tejo, muito relacionado com o problema do traçado da linha do TGV para o Porto. O gabinete referido deverá estudar estes problemas mantendo um diálogo com o Ministério e com os municípios vizinhos, mas dando especial atenção às suas implicações sobre Lisboa.
Entretanto, deverá dar especial atenção aos problemas internos da cidade, dialogando com a Carris, a CP e a empresa do metro. A meu ver, por exemplo, estão erradas as extensões actualmente previstas da rede vermelha do metro para o Aeroporto e para Campolide (bairro) . Lamento que tenha sido posta de lado a saida prevista para o lado de Sacavem que evitaria a entrada diária de dezenas de milhares de carros na cidade. A ligação da gare do Oriente ao Aeroporto podia ser feita com um investimento incomparavelmente menor (e mais cómodo para os utentes) por 6 autocarros que fizessem uma navete pela Avenida de Berlim. Do outro lado, o metro devia ir à estação de Campolide e não ao bairro de Campolide. Depois, devia descer a Av. de Ceuta. Transportados à superfície, os futuros moradores nesta avenida (que alguns pensam urbanizar com torres) irão inevitavelmente engarrafar o táfego vindo pela Autoestrada e pela Marginal. No que diz respeito a Campo de Ourique, o acesso às traseiras do bairro pode ser feito por escadas rolantes a partir de uma estação na Av. de Ceuta. É o processo de dignificar toda aquela zona.
São isto questões de simples bom senso, de quem pensa um bocado e conhece o locais, que podem, talvez , sensibilizar os candidatos.
António Brotas
2007/05/26
Sapo recomenda
Pela primeira vez, que eu me tenha dado conta, este blogue vinha na lista de blogues recomendados do Sapo (ontem). A razão? O texto... de José Manuel Fernandes.
2007/05/25
O ministro, a Ota ou como o autismo só pode criar suspeições
José Manuel Fernandes no Público de hoje:
O ministro das Obras Públicas passou da teimosia ao autismo e deste a uma tão desastrada cegueira que, com toda a frontalidade, é preciso perguntar: a quem interessa este ministro? (...) Ou o ministro e o Governo explicam a bondade da Ota, ou a dúvida instalar-se-á na opinião pública. É que se Mário Lino estivesse limitado à capacidade de raciocínio de quem tem um único neurónio, algo que por certo não sucede num engenheiro "a sério" que até está inscrito na Ordem, o que disse seria desculpável. Tendo mais neurónios, por que fez do discurso uma sucessão de atoardas, inverdades, mistificações e disparates?
Como é que um ministro diz que a Margem Sul do Tejo é um "deserto para onde seria necessário deslocar milhões de pessoas"? E como foi possível tentar corrigir agravando o disparate, dizendo que não se referia à Margem Sul, apenas às localizações alternativas propostas para o novo aeroporto? Para assim falar, ou Mário Lino nunca olhou para um mapa de Portugal, ou vive em Marte. Qualquer das alternativas fica mais perto de Lisboa do que a Ota; qualquer delas é hoje servida por duas ou três auto-estradas já construídas. Há uma linha férrea que passa por lá. Um hospital central mais perto do que haveria na Ota. Indústria por todo o lado. Há portos perto, enquanto para a Ota só se poderia contar com o "famoso" porto de águas profundas de Peniche, hipótese que alguns lunáticos já colocaram. Em suma: qualquer das novas localizações está mais próxima dos milhões de pessoas que deveria servir do que a Ota. Mesmo para quem mora em concelhos a norte do Tejo como Cascais, Sintra ou Oeiras. De resto, se para ter um aeroporto fosse necessário deslocar para as suas proximidades "milhões de pessoas", então o melhor é deixá-lo onde está, no centro de Lisboa. Mário Lino falou também de um deserto e de sítios "sem gente, sem turismo, sem comércio" quando lhe bastaria, de novo, olhar para o mapa ou abrir o Google Earth para perceber que estava a dizer um disparate. Ou não existissem estudos a defender que, excluindo o impacto ambiental, Rio Frio seria melhor do que a Ota, estudos que estão na Internet mas que Lino disse não existirem...
Não contente, interrogou-se sobre se a engenharia portuguesa teria alguma dificuldade em resolver o problema de "um aterrozinho num mundo onde se constroem aeroportos no mar". Sucede que o tal aterrozito implicará a movimentação do equivalente a uma coluna de terra com as dimensões de um campo de futebol e 10 quilómetros de altura. Faz-se, mas só com muito dinheiro. Ou, por outras palavras, dando muito dinheiro a ganhar a muita gente. Em Portugal sabe-se o que isto costuma significar. (...) A pérola final foi considerar que escolher aquelas localizações seria como construir "uma Brasília no Norte do Alentejo". Norte do Alentejo? O nosso engenheiro "a sério" já esqueceu a instrução primária, pois lá terá aprendido que os lugares em discussão ainda ficam na Estremadura, e nunca deve ter olhado para os mapas das regiões-plano, pois situam-se na que é conhecida por "Lisboa e Vale do Tejo".
2007/05/24
Pierre-Gilles de Gennes (1932-2007)
O cientista francês, galardoado com o Prémio Nobel de Física de 1991 pelo seu trabalho em polímeros e cristais líquidos (como os que temos nos visores dos relógios e telemóveis, por exemplo) faleceu na semana passada em Orsay, ao sul de Paris, onde vivia.
Só vi de Gennes uma vez, em Lisboa, por ocasião de um seminário para que foi convidado. Era um homem polémico, que gostava de dar as suas opiniões, frequentemente contra a corrente. Era um feroz crítico da organização da ciência francesa. A meu ver poderia ter razão nas suas críticas pontuais, mas no geral parece-me que o sistema francês funciona bem. Muito melhor que em Portugal, Espanha ou Itália. A sua crítica era a comum: ao centralismo e à omnipresença do estado.
P-GdG esquece-se que sem financiamento público não há ciência fundamental que se faça: há muita ciência que não tem interesse comercial, e por isso só pode funcionar com o apoio do estado. Talvez por só se ter dedicado a Física Aplicada (que teve aplicações imediatas na indústria, onde revolucionou todo um sector), de Gennes sempre criticou este apoio. Discordo, mas não é por isso que deixo de reconhecer nele um grande cientista e um homem extremamente inspirador.
De Gennes adorava a exposição pública, ser polémico e não perdia uma oportunidade de dar uma entrevista. (Ficou célebre em Portugal a entrevista que deu ao "Diário de Notícias" em 2004, onde se deixou fotografar, em fato de banho, ao lado de uma piscina.) Recomendo vivamente a todos (cientistas e não só) a leitura desta entrevista que deu aquando dessa sua passagem por Lisboa. Deixo-vos com a nota de óbito da France Presse (via Libération).
Pierre-Gilles de Gennes est mort
Prix Nobel de Physique en 1991, Pierre-Gilles de Gennes est décédé vendredi à l'âge de 74 ans. C'est par une annonce dans le carnet du Monde que l'on a appris la mort de ce chercheur polyvalent, spécialiste de la physique de la matière condensée. Pierre-Gilles de Gennes a apporté des contributions marquantes dans des domaines variés, allant du magnétisme à l'hydrodynamique en passant par la supraconductivité, les polymères et les cristaux liquides.
Né le 24 octobre 1932 à Paris, fils d'un médecin et d'une infirmière, il fut élève de l'Ecole normale supérieure. Agrégé de physique et docteur ès sciences, il a d'abord été ingénieur au Commissariat à l'énergie atomique (CEA), en 1955, avant d'être professeur à la faculté des sciences à Orsay (de 1961 à 1971). En 1971, il est nommé professeur titulaire de la chaire de physique de la matière condensée au Collège de France. Son ouvrage «The Physics of Liquid Crystals», publié en 1974, reste une référence.
En 1991, il reçoit le Nobel de physique pour avoir découvert que des méthodes développées pour étudier des phénomènes d'ordre dans les systèmes simples peuvent être généralisées à des formes plus complexes de matière, en particulier aux cristaux liquides et polymères. Pour justifier cette distinction, l'Académie Nobel parle «d'Isaac Newton de notre temps». Cette année-là, Pierre-Gilles de Gennes est le seul à recevoir cette récompense suprême habituellement partagée par deux sinon trois chercheurs.
Pierre-Gilles de Gennes a toujours tenté de comprendre l'ordre et le désordre tels qu'ils se présentent dans la nature. Il avait à cœur de partager son savoir et son expérience avec les plus jeunes. Après avoir reçu le Prix Nobel, il réfléchit au rôle social du scientifique et à la façon d'enseigner les sciences. C'est à la suite de la suggestion d'un lycéen sur le plateau de l'émission télévisée Apostrophes que Pierre-Gilles de Gennes entame une tournée d'un an et demi dans cent-cinquante établissements où il rencontre des milliers d'étudiants. Il tire de ces conférences dans les collèges ou lycées un livre : «Les Objets fragiles».
Directeur de l'Ecole supérieure de physique et chimie industrielles de la Ville de Paris de 1976 à 2002, il avait plus récemment rejoint l'Institut Curie, abordant le domaine des systèmes du vivant et la compréhension des mécanismes cellulaires. Pierre-Gilles de Gennes était membre de l'Académie des Sciences et professeur honoraire au Collège de France.
Le Nobel de physique a même joué au cinéma, dans le film «Les Palmes de M. Schutz» réalisée par Claude Pinoteau en 1997. Dans ce film inspiré de la vie de ses célèbres prédécesseurs Pierre et Marie Curie, il interprétait l'un des deux cochers, l'autre étant Georges Charpak, prix Nobel de physique 1992.
Les implications de ses travaux dans la vie quotidienne sont omniprésentes: ils ont notamment conduit à la fabrication des écrans plats de téléviseurs ou d'ordinateurs, des calculettes, des montres..., tout en contribuant à la mise au point de «superglues», qui permettent aujourd'hui d'assembler des matériaux longtemps considérés "incollables".
L'inhumation aura lieu dans la plus stricte intimité, indique sans plus de détail l'annonce parue dans le carnet du Monde mardi.
2007/05/23
Blogue "Blasfémias" defende as conquistas da revolução
Entre as consequências da Revolução Industrial está o surgimento do proletariado e do socialismo. Mas também um progresso incomparável para as nossas vidas.
Para o "Blasfémias", a grande conquista da Revolução Industrial é o carro próprio. Tudo em nome do "conforto" e - já cá faltava - da sacrossanta "liberdade individual". Quem disse que os trabalhadores é que estavam agarrados aos "direitos adquiridos"? O transporte em viatura própria dentro da cidade é um desses "direitos adquiridos" (neste caso pela burguesia) que terá que desaparecer.
"Desenvolvimento sustentável" é ideia que não passa por aquelas cabeças (e nem pela dos cidadãos em geral), o que demonstra o longo caminho que ainda se tem de percorrer. Que passa, como Paulo Varela Gomes anunciou no "Prós e Contras", por falar a verdade.
Para o "Blasfémias", a grande conquista da Revolução Industrial é o carro próprio. Tudo em nome do "conforto" e - já cá faltava - da sacrossanta "liberdade individual". Quem disse que os trabalhadores é que estavam agarrados aos "direitos adquiridos"? O transporte em viatura própria dentro da cidade é um desses "direitos adquiridos" (neste caso pela burguesia) que terá que desaparecer.
"Desenvolvimento sustentável" é ideia que não passa por aquelas cabeças (e nem pela dos cidadãos em geral), o que demonstra o longo caminho que ainda se tem de percorrer. Que passa, como Paulo Varela Gomes anunciou no "Prós e Contras", por falar a verdade.
2007/05/22
Lisboa bem amada que mal me quis, que me quer bem
Devo começar por esclarecer que eu sou um alfacinha de gema: nasci e vivi em Lisboa até acabar o curso. Saí depois por nove anos e regressei recentemente. Conhecia muito bem a cidade quando parti, e continuo a conhecer, no que diz respeito a pontos de referência. Mas estive fora muito tempo: o tempo suficiente para não conhecer muitos dos locais da cidade que pessoas da minha idade, que cá ficaram, conhecem.
Um exemplo paradigmático é o “Lux”, onde de resto nunca estive. A primeira vez que ouvi falar no “Lux”, sem o saber, foi quando li, num artigo do Miguel Sousa Tavares
no Público, a expressão “esquerda Lux”. Percebi a quem é que o Miguel se referia, mas associei o “Lux” à conhecida marca de sabonetes. Julguei que, por alguma razão (talvez um anúncio...) o sabonete “Lux” estivesse associado à “esquerda Lux”. Ou então talvez, por algum motivo para mim obscuro, o Miguel Sousa Tavares conhecesse os hábitos de higiene pessoal de Ana Drago ou Miguel Portas.
Tudo isto para dizer que por vezes sinto-me um estranho em Lisboa, a cidade onde cresci. Em particular, não conheço praticamente nenhum dos locais que a Marta Rebelo referiu no seu texto da semana passada. O único lugar que eu conheço, simplesmente de nome, é o “Eleven”, do relato da minha irmã, cujo trabalho é ligado à Medicina, e que por pura coincidência ainda na semana passada teve um jantar de uma conferência nesse restaurante. (Os médicos adoram fazer as suas conferências nos locais mais luxuosos;dizem-me que é dos patrocínios da indústria farmacêutica. Só por comparação - e desculpem se estou a falar muito de mim - eu sou físico, e o meu orientador costuma dizer que, num banquete de físicos, as pessoas mais bem vestidas são os empregados de mesa.)
Quis o destino que eu, enquanto estive fora, vivesse nas duas “capitais do mundo”, Nova Iorque e Paris. E que eu tenha o enorme privilégio de, graças a isso, me sentir em casa nessas duas cidades. “Sentir-me em casa”, numa cidade, é saber fugir aos locais destinados aos turistas endinheirados. Paris não é só os Grands Boulevards ou o Bd. Saint Germain: também é Montparnasse (para um canard) ou a Butte Aux Cailles (para um boudin noir). Nova Iorque não é só o Rockefeller Center. Na Grande Maçã encontrar locais que não se destinem a turistas endinheirados não é fácil à partida, mas é possível. E nos arredores, como referi a semana passada, é possível comer “lagosta com todos” por menos de dez dólares. Ambas as cidades têm muitos locais principalmente destinados a fazer dinheiro com os turistas, mas recebem um volume de turistas que Lisboa não recebe e nem receberá. Apesar disso, mantêm uma vida própria: não dependem dos turistas. O comércio, a restauração, a cultura são para todos os habitantes (salve as desigualdades sociais, que principalmente em Nova Iorque são muitas), e não só para os turistas.
Posso estar a ser algo injusto, não conhecendo muitos desses locais (por não me atraírem), mas o que me deixa mais apreensivo em Lisboa é que, nestes últimos anos, parece ser uma cidade mais preocupada com os turistas do que com os seus habitantes. E, por isso, uma cidade muito pouco acolhedora. Principalmente para quem, como eu, aqui cresceu e sabe o que deveria esperar. E isto é um erro crasso: não são os turistas que vão dar vida ao centro da cidade e às zonas históricas todos os dias, todo o ano. Em Nova Iorque ou Paris há zonas que sobrevivem assim (só graças aos turistas), mas Lisboa não tem esse potencial. Por isso Lisboa tem de pensar mais sobretudo em quem cá trabalha e mora em casa alugada ou nos arredores. Nos jovens trabalhadores precários, a maior parte licenciados e doutorados. Nesse aspecto Lisboa teria muito a aprender com o Porto e com cidades portuguesas mais pequenas, com menos atractivos culturais mas uma qualidade de vida melhor.
Uma vez mais, não conheço a «Wallpaper», a revista que a Marta Rebelo refere. Mas creio que faríamos melhor se em alternativa prestássemos mais atenção a guias como o “Time Out”, ou o “Let’s Go!”, ou o “Lonely Planet”.
Publicado também no Cinco Dias.
Um exemplo paradigmático é o “Lux”, onde de resto nunca estive. A primeira vez que ouvi falar no “Lux”, sem o saber, foi quando li, num artigo do Miguel Sousa Tavares
no Público, a expressão “esquerda Lux”. Percebi a quem é que o Miguel se referia, mas associei o “Lux” à conhecida marca de sabonetes. Julguei que, por alguma razão (talvez um anúncio...) o sabonete “Lux” estivesse associado à “esquerda Lux”. Ou então talvez, por algum motivo para mim obscuro, o Miguel Sousa Tavares conhecesse os hábitos de higiene pessoal de Ana Drago ou Miguel Portas.
Tudo isto para dizer que por vezes sinto-me um estranho em Lisboa, a cidade onde cresci. Em particular, não conheço praticamente nenhum dos locais que a Marta Rebelo referiu no seu texto da semana passada. O único lugar que eu conheço, simplesmente de nome, é o “Eleven”, do relato da minha irmã, cujo trabalho é ligado à Medicina, e que por pura coincidência ainda na semana passada teve um jantar de uma conferência nesse restaurante. (Os médicos adoram fazer as suas conferências nos locais mais luxuosos;dizem-me que é dos patrocínios da indústria farmacêutica. Só por comparação - e desculpem se estou a falar muito de mim - eu sou físico, e o meu orientador costuma dizer que, num banquete de físicos, as pessoas mais bem vestidas são os empregados de mesa.)
Quis o destino que eu, enquanto estive fora, vivesse nas duas “capitais do mundo”, Nova Iorque e Paris. E que eu tenha o enorme privilégio de, graças a isso, me sentir em casa nessas duas cidades. “Sentir-me em casa”, numa cidade, é saber fugir aos locais destinados aos turistas endinheirados. Paris não é só os Grands Boulevards ou o Bd. Saint Germain: também é Montparnasse (para um canard) ou a Butte Aux Cailles (para um boudin noir). Nova Iorque não é só o Rockefeller Center. Na Grande Maçã encontrar locais que não se destinem a turistas endinheirados não é fácil à partida, mas é possível. E nos arredores, como referi a semana passada, é possível comer “lagosta com todos” por menos de dez dólares. Ambas as cidades têm muitos locais principalmente destinados a fazer dinheiro com os turistas, mas recebem um volume de turistas que Lisboa não recebe e nem receberá. Apesar disso, mantêm uma vida própria: não dependem dos turistas. O comércio, a restauração, a cultura são para todos os habitantes (salve as desigualdades sociais, que principalmente em Nova Iorque são muitas), e não só para os turistas.
Posso estar a ser algo injusto, não conhecendo muitos desses locais (por não me atraírem), mas o que me deixa mais apreensivo em Lisboa é que, nestes últimos anos, parece ser uma cidade mais preocupada com os turistas do que com os seus habitantes. E, por isso, uma cidade muito pouco acolhedora. Principalmente para quem, como eu, aqui cresceu e sabe o que deveria esperar. E isto é um erro crasso: não são os turistas que vão dar vida ao centro da cidade e às zonas históricas todos os dias, todo o ano. Em Nova Iorque ou Paris há zonas que sobrevivem assim (só graças aos turistas), mas Lisboa não tem esse potencial. Por isso Lisboa tem de pensar mais sobretudo em quem cá trabalha e mora em casa alugada ou nos arredores. Nos jovens trabalhadores precários, a maior parte licenciados e doutorados. Nesse aspecto Lisboa teria muito a aprender com o Porto e com cidades portuguesas mais pequenas, com menos atractivos culturais mas uma qualidade de vida melhor.
Uma vez mais, não conheço a «Wallpaper», a revista que a Marta Rebelo refere. Mas creio que faríamos melhor se em alternativa prestássemos mais atenção a guias como o “Time Out”, ou o “Let’s Go!”, ou o “Lonely Planet”.
Publicado também no Cinco Dias.
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Caoticidade do fluxo de Teichmüller
É o título do colóquio que o meu amigo Artur Ávila dá hoje à tarde na Sociedade Portuguesa de Matemática. Destina-se a todos os matemáticos em geral.
2007/05/21
A dupla bitola da extrema-direita
Se fosse em Paris, chamar-lhe-iam "escumalha". Na Avenida dos Aliados... é lamentável.
2007/05/20
21:05

"Sporting vice-campeão. Acesso directo à Champions League", dizia o painel. Acaba o campeonato mais mal perdido pelo Sporting de que eu me recordo. Não foi o campeonato em que o Sporting foi mais prejudicado pela arbitragem, mas nunca pequenos erros dos árbitros que custaram um ou outro ponto terão sido tão decisivos. Resta a taça, para a semana. Esperemos que sirva de consolação.
20:56
No dragão, vai entrar Vítor Baía para a baliza do FC Porto, que ganha por 3-1. É a última esperança: dois frangos em cinco minutos. Baía! Baía!
Para apoiar a equipa, em Alvalade pula-se e grita-se "e quem não pula é lampião!" Marcaram-se mais dois golos.
Para apoiar a equipa, em Alvalade pula-se e grita-se "e quem não pula é lampião!" Marcaram-se mais dois golos.
Intervalo
19:37
2-0 por Alecsandro. OK, toda a gente já percebeu que o Belenenses só está com a cabeça na final da Taça. Toda a gente já percebeu que a grande decisão já não passa por aqui. Jogo entra em velocidade de cruzeiro. Ouvidos no Dragão.
19:27
Já estávamos a ficar nervosos: mais de 10 minutos tinham passado e o Sporting ainda não tinha marcado. Marcou o levezinho, assegurando o título de melhor marcador.
18:45

Na altura da inauguração deste estádio, o antigo futebolista (e responsável pelas instalações) José Eduardo anunciava, entusiasmadíssimo, muitos "sumos e hambúrgueres" que poderiam ser consumidos no interior. Ora, estádio de futebol que é estádio de futebol requer que sejam vendidos, para além das bandeiras e cachecóis, bifanas, coiratos, imperiais e vinho a copo. Tal e qual como na minha infância. Tudo continua na mesma. Fiquei mais tranquilo.
Benfica decide
Jesualdo Ferreira e "professor" Neca: dois benfiquistas decidem se o campeão é o Sporting ou o FC Porto.
2007/05/19
As eleições para a Câmara de Lisboa
Por razões pessoais não me agrada muito a data de 15 de Julho para as eleições para a Câmara de Lisboa. Estarei numa conferência fora do país de 16 a 20 de Julho (felizmente ainda não tratei da passagem aérea), e contava com esse fim de semana (e o posterior) para um pouco de "turismo científico". Mas, enfim, se tiver que viajar a 15 depois de votar, em vez de a 13 ou 14, viajarei.
Agora, eu pasmo com o tempo que estas coisas todas demoram. Novo prazo para apresentação de candidaturas: 1 de Junho. Novo prazo para coligações: 28 de Maio. Campanha eleitoral: 6 a 13 de Julho (notem o "lh"). Eleições: 15 de Julho (quando está tudo na praia).
Alguém pode explicar-me o que é que se vai andar a fazer o mês de Junho?
Agora, eu pasmo com o tempo que estas coisas todas demoram. Novo prazo para apresentação de candidaturas: 1 de Junho. Novo prazo para coligações: 28 de Maio. Campanha eleitoral: 6 a 13 de Julho (notem o "lh"). Eleições: 15 de Julho (quando está tudo na praia).
Alguém pode explicar-me o que é que se vai andar a fazer o mês de Junho?
2007/05/18
O Sporting e a Câmara de Lisboa
Estou de acordo com o Nélson (que não é propriamente adepto do meu clube, nem eu do dele). Estou de acordo com um insurgente (caso raro de todo). Aborrece-me ter que dizer isto nestas circunstâncias, mas a realidade é sempre esta.
2007/05/17
Dr. House: transmissão eminente
Cenas comuns na TV portuguesa: a excelente série Dr. House sempre deu na TVI às quintas à noite. Esta semana - não se sabe se excepcionalmente, se será a regra - a série dá à quarta. Não se sabe se dá outro episódio amanhã ou não. Hoje não vinha nada nos jornais. Amanhã, provavelmente, os jornais anunciarão a transmissão do episódio que foi transmitido... hoje.
Os espectadores não podem fazer nada. Se querem ver o Dr. House, só podem estar sempre sintonizados na TVI. Se quiserem ver as novelas e séries da SIC, só podem estar sempre sintonizados na SIC. Nunca se sabe o que é que os programadores vão fazer à última da hora.
Tentar alterar alguma coisa? Propor uma lei? Não se pode. Tudo em nome da liberdade, claro. Da liberdade... das estações de televisão.
Os espectadores não podem fazer nada. Se querem ver o Dr. House, só podem estar sempre sintonizados na TVI. Se quiserem ver as novelas e séries da SIC, só podem estar sempre sintonizados na SIC. Nunca se sabe o que é que os programadores vão fazer à última da hora.
Tentar alterar alguma coisa? Propor uma lei? Não se pode. Tudo em nome da liberdade, claro. Da liberdade... das estações de televisão.
2007/05/16
O casamento do pobre
Para acompanhar o texto anterior, e já que o João Miranda tem andado a falar em casamentos...
2007/05/15
A ópera do pobre
O famoso blasfemo João Miranda escreve todos os sábados no Diário de Notícias desde que João Marcelino assumiu a direcção deste jornal.
No seu último artigo, para elaborar uma das suas teses ultraliberais do costume, escreve: "dado que a ópera é tendencialmente uma actividade que interessa muito mais aos ricos que aos pobres, existe uma grande probabilidade de serem os que têm menos escolhas a financiarem os que têm mais escolhas".
Eu não sei a que contexto se estará a referir o João. Aceito que a ópera não é um espectáculo fácil, mas será por isso que só é apreciado por ricos? Será que só os ricos têm “bom gosto”? Será que não passa pela cabeça do João que qualquer pessoa pode interessar-se por ópera, mas não ter condições de a frequentar?
Quando vivi em Nova Iorque, frequentava com regularidade a Metropolitan Opera. Havia uns lugares mais em cima, de onde só se distinguia os detalhes dos intérpretes no palco com o auxílio de uns binóculos. Era o chamado “family circle”. Cada bilhete custava cerca de 20 dólares. Na Metropolitan Opera. Havia uma grande procura para estes bilhetes, bem como para todos os outros (para todas as bolsas a partir de 20 dólares). Certamente quem procurava o “family circle” ou os outros lugares mais longe do palco não era rico.
Também havia as lagostas. O João Miranda dirá provavelmente que as lagostas “interessam muito mais aos ricos do que aos pobres”. As lagostas de Long Island são famosas (e já o eram antes de o Cosmo Kramer ser preso por causa delas, num célebre episódio de Seinfeld lá passado). Existe uma cadeia de fast-food de lagosta (“Red Lobster”). Em vilas portuárias dos arredores de Nova Iorque, com nomes como Port Washington ou Port Jefferson, podem comer-se lagostas em pubs. Uma lagosta inteira de uma libra, acompanhada por molho de manteiga, uma sopa do dia, bolachas de água e sal, uma dose de batatas fritas, molho tártaro e “cole slaw”. Tudo isto, mais cerveja e gorjeta, fica por dez dólares num pub de Long Island. Será assim a lagosta “comida de ricos”? Não são nada ricas as pessoas que frequentam estes “pubs”.
Claro que isto só era possível em Nova Iorque. Uma das coisas de que eu mais gosto em Nova Iorque é que quem conheça bem a região e saiba ir ao sítio certo pode encontrar tudo, seja o que for, barato (excepto comida francesa). Antes de lá chegar, nunca tinha provado lagosta. E nunca tinha ido à ópera. Gosto muito das duas coisas mas, de facto, como não sou rico, desde que de lá voltei nunca mais comi lagosta. E nunca mais fui à ópera. No entanto nunca consideraria que a lagosta ou a ópera só interessam aos ricos. Tal consideração seria elitista e provinciana.
O que é então tipicamente “de rico”? Não que eu seja rico, como já disse, mas ser rico não é ter interesse pelas melhores coisas da vida. Qualquer pessoa tem interesse por elas; só os ricos, porém, é que podem apreciar muitas delas com regularidade, sempre que lhes apeteça. Ser-se rico é mais do que só se viajar em classe executiva ou só ficar em hotéis de cinco estrelas ou só fazer compras no El Corte Inglés ou só comer nos restaurantes indicados pelo Duarte Calvão. Ser-se rico é usar o muito dinheiro que se possa ter para se distinguir das demais pessoas, quando não se é melhor do que elas por isso, sendo que se não se tivesse esse dinheiro, não haveria tal distinção. Ser-se rico é pior do que ser-se de direita. Ser-se rico é só se preocupar consigo e com o seu próprio conforto e nunca se preocupar com os outros. Ser-se rico é ter-se uma empregada doméstica ou secretária sem as quais não se sabe fazer absolutamente nada. Ser-se rico é nunca utilizar os transportes públicos e só andar de carro. A tudo isto eu chamaria manifestações de riquismo, novo ou velho. A tudo isto o João Miranda chamaria “liberdade individual”, provavelmente o mais burguês de todos os valores.
Publicado também no Cinco Dias.
No seu último artigo, para elaborar uma das suas teses ultraliberais do costume, escreve: "dado que a ópera é tendencialmente uma actividade que interessa muito mais aos ricos que aos pobres, existe uma grande probabilidade de serem os que têm menos escolhas a financiarem os que têm mais escolhas".
Eu não sei a que contexto se estará a referir o João. Aceito que a ópera não é um espectáculo fácil, mas será por isso que só é apreciado por ricos? Será que só os ricos têm “bom gosto”? Será que não passa pela cabeça do João que qualquer pessoa pode interessar-se por ópera, mas não ter condições de a frequentar?
Quando vivi em Nova Iorque, frequentava com regularidade a Metropolitan Opera. Havia uns lugares mais em cima, de onde só se distinguia os detalhes dos intérpretes no palco com o auxílio de uns binóculos. Era o chamado “family circle”. Cada bilhete custava cerca de 20 dólares. Na Metropolitan Opera. Havia uma grande procura para estes bilhetes, bem como para todos os outros (para todas as bolsas a partir de 20 dólares). Certamente quem procurava o “family circle” ou os outros lugares mais longe do palco não era rico.
Também havia as lagostas. O João Miranda dirá provavelmente que as lagostas “interessam muito mais aos ricos do que aos pobres”. As lagostas de Long Island são famosas (e já o eram antes de o Cosmo Kramer ser preso por causa delas, num célebre episódio de Seinfeld lá passado). Existe uma cadeia de fast-food de lagosta (“Red Lobster”). Em vilas portuárias dos arredores de Nova Iorque, com nomes como Port Washington ou Port Jefferson, podem comer-se lagostas em pubs. Uma lagosta inteira de uma libra, acompanhada por molho de manteiga, uma sopa do dia, bolachas de água e sal, uma dose de batatas fritas, molho tártaro e “cole slaw”. Tudo isto, mais cerveja e gorjeta, fica por dez dólares num pub de Long Island. Será assim a lagosta “comida de ricos”? Não são nada ricas as pessoas que frequentam estes “pubs”.
Claro que isto só era possível em Nova Iorque. Uma das coisas de que eu mais gosto em Nova Iorque é que quem conheça bem a região e saiba ir ao sítio certo pode encontrar tudo, seja o que for, barato (excepto comida francesa). Antes de lá chegar, nunca tinha provado lagosta. E nunca tinha ido à ópera. Gosto muito das duas coisas mas, de facto, como não sou rico, desde que de lá voltei nunca mais comi lagosta. E nunca mais fui à ópera. No entanto nunca consideraria que a lagosta ou a ópera só interessam aos ricos. Tal consideração seria elitista e provinciana.
O que é então tipicamente “de rico”? Não que eu seja rico, como já disse, mas ser rico não é ter interesse pelas melhores coisas da vida. Qualquer pessoa tem interesse por elas; só os ricos, porém, é que podem apreciar muitas delas com regularidade, sempre que lhes apeteça. Ser-se rico é mais do que só se viajar em classe executiva ou só ficar em hotéis de cinco estrelas ou só fazer compras no El Corte Inglés ou só comer nos restaurantes indicados pelo Duarte Calvão. Ser-se rico é usar o muito dinheiro que se possa ter para se distinguir das demais pessoas, quando não se é melhor do que elas por isso, sendo que se não se tivesse esse dinheiro, não haveria tal distinção. Ser-se rico é pior do que ser-se de direita. Ser-se rico é só se preocupar consigo e com o seu próprio conforto e nunca se preocupar com os outros. Ser-se rico é ter-se uma empregada doméstica ou secretária sem as quais não se sabe fazer absolutamente nada. Ser-se rico é nunca utilizar os transportes públicos e só andar de carro. A tudo isto eu chamaria manifestações de riquismo, novo ou velho. A tudo isto o João Miranda chamaria “liberdade individual”, provavelmente o mais burguês de todos os valores.
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2007/05/14
O Estado como garante de maior democraticidade
Sobre as eleições francesas, o resultado foi o esperado e eu não tenho muito mais a acrescentar ao que escreveu o Hugo Mendes. O que mais me impressionou foi a elevadíssima participação eleitoral, bem maior do que a que estamos habituados em Portugal. E muitíssimo maior do que em países como os EUA ou o Reino Unido. Na primeira volta (85% de participação) ainda julguei que tal se devesse a querer excluir de certeza Jean Marie Le Pen, mas os mais de 80% da segunda volta confirmam-no: a participação eleitoral na França é muito superior à de outros países de tradição anglo-saxónica e economia liberal. Quando o fenómeno da abstenção elevada começou a sentir-se em Portugal, articulistas conservadores e culturalmente britânicos como Miguel Esteves Cardoso chegaram a afirmar que a baixa participação eleitoral era um “sintoma de desenvolvimento”. É claro que tal ideia só poderia vir de uma cabeça como a deste senhor (ou como ao de João Carlos Espada). Se nestes países a participação eleitoral é mais baixa, é porque o povo sente que não pode alterar grande coisa com o seu voto. O poder está todo nas grandes corporações e nas grandes empresas. O poder político é mais fraco que o poder económico. Como dizia uma amiga minha relativamente aos EUA, naquele país o conceito de “liberdade” era “poder-se comprar tudo o que se quisesse”. Quem pudesse, como é evidente. Em França, não vou afirmar peremptoriamente que o “poder político” é mais forte que o “poder económico” (uma condição essencial para uma verdadeira democracia), mas pelo menos existe, sem dúvida, um poder político. Algo que para os ultraliberais, cuja única democracia que conhecem é o “mercado”, faz muita confusão. É claro que mesmo na democracia francesa os cidadãos podem votar mal (e têm votado mal, a meu ver, nas últimas vezes). Mas há lá uma tradição de combate político e uma sensação (legítima, e com motivos históricos) de que o voto popular conta alguma coisa para os destinos do país. É esta sensação que pode vir a ser ameaçada pela recente escolha (legítima) do eleitorado francês. Um eleitorado confuso e à procura de um país que já não é o mesmo apostou num candidato que aparece como “salvador”. Embora respeitando sempre a legitimidade do voto popular, desejo que a França seja capaz de preservar uma sociedade onde a igualdade é indispensável à democracia e à república.
Publicado também no Cinco Dias.
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Cinco anos depois, soube bem voltar a ser líder
Mesmo sendo uma liderança efémera, só de uma hora. Mas eu acredito até ao fim. Domingo, força Aves!
2007/05/13
Se houver justiça desportiva...
...o FC Porto perde hoje em Paços de Ferreira, nem que seja com um golo marcado com a mão.
2007/05/12
Quatro medidas para o ensino superior
Um interessante artigo no Público de 11.05.2007, por Luis Campos e Cunha.
Quatro ideias para a reforma do ensino superior que, nem sempre pelas boas razões, está na agenda política. Quatro ideias que, sem gastos orçamentais, garantem uma revolução e são aqui apresentadas de borla! Não serão tudo, mas têm sucesso garantido quando aplicadas tanto às universidades públicas como aos politécnicos.
1. Primeira sugestão: apenas, e só, as instituições com investigação avaliada pela FCT com "muito bom" ou "excelente" podem dar o grau de doutor. É-me indiferente se é um politécnico ou é uma universidade que concede doutoramentos; o que é relevante é saber se existe nessa instituição uma actividade de investigação regular e minimamente credível. Sem investigação não há doutoramentos sérios e se a instituição não tem um centro de investigação de qualidade fica vedada a possibilidade de os conceder. Caso contrário (ou seja, na situação actual), a mediocridade reproduz-se e os doutoramentos passam a fazer parte de jogos internos de poder - quem mais doutorados produzir, mais amigos tem e mais votos terá para ser eleito para qualquer coisa dentro da sua coutada. É esta a "vida académica" de muitas instituições!
A qualidade dos doutoramentos, com esta primeira sugestão, ficaria minimamente assegurada.
2. Segunda sugestão: qualquer instituição fica proibida (sem excepções) de recrutar os seus próprios doutorados no primeiro emprego e durante, digamos, três anos. Este ponto é importantíssimo e é prática aceite nas boas escolas e já é seguida, que eu saiba, pelo menos numa faculdade em Portugal.
Desde logo, os jogos de poder dentro da instituição do tipo que referi atrás ficam muito mitigados. Os contratos para o início de uma carreira docente - professor auxiliar - são por concurso, aberto e obrigatoriamente para pessoas fora da instituição. Mais importante, cria-se um mercado de doutorados, aumenta a mobilidade, evitando a acomodação dos docentes com contratos, na prática, prematuramente vitalícios.
Hoje, se um professor quiser sair da sua faculdade tem, de facto, muita dificuldade em entrar noutra escola, pois não existe um verdadeiro mercado para professores do ensino superior. Além disso, tenho tido conhecimento de graves atropelos, se não da lei, pelo menos da ética, em matéria de concursos para professores a vários níveis. Por último, a investigação sairia beneficiada, pois o incesto intelectual seria vedado. O doutorado só se poderá candidatar à universidade onde se doutorou depois de provar que é capaz de "voar sozinho".
É de fora para dentro que as instituições de ensino superior se reformam e a obediência estrita a esta regra dará uma lufada de ar fresco que sacudiria muita poeira que existe nas nossas escolas superiores.
3. Terceira sugestão: a autogestão tem de acabar no ensino superior. Isto vem a propósito da lufada de ar fresco. É que a autogestão deu sempre maus resultados e não foi só na Jugoslávia. Os directores e reitores são eleitos, basicamente, por aqueles que devem dirigir, o que leva a um pecado original insanável. Dito de outro modo, falta accountability à sua gestão. As únicas áreas onde tal existe é na área financeira, onde há auditorias externas às contas, e na investigação, onde existem, felizmente, avaliações pela FCT com júris internacionais e independentes.
A designação e a responsabilização devem ser distintas e exteriores à instituição. Não vejo grandes problemas em admitir, por exemplo, um reitor que não seja um "professor da casa" ou até que nem seja académico. A propósito deste espírito corporativo, e como já sugeri publicamente há anos, o CRUP deve acabar nos moldes actuais. Deve haver uma instância de diálogo do ministério com as universidades, mas com outro enquadramento. Há bastante tempo, em conversa com um reitor de então, defendia exactamente isto e explicava que, estando de fora, tinha a sensação de que um terço dos membros do CRUP, reitores naturalmente, bajulava estudantes, colegas e funcionários porque tinha eleições à porta, outro terço deliciava-se em deitar cascas de banana ao ministro porque eles próprios eram candidatos a ministro e só o outro terço estava verdadeiramente preocupado com a universidade. Ao que o meu amigo reitor me respondeu: "Está muito enganado, não chegam a um terço!"
Nestas áreas da governância está em discussão um conjunto de reformas que devemos estudar atentamente. São apenas um pé da reforma mas uma parte importante. Pelo que já li, há aspectos positivos - designação do reitor, por exemplo -, mas nem se vai tão longe quanto o necessário e noutros aspectos deixa muito a desejar. Veremos.
Por último, a quarta sugestão é sujeitar as instituições do ensino superior a avaliações e acreditações académicas com júris internacionais. Sobre este ponto específico me pronunciei há duas semanas e - pese embora o gosto do meu ego para a autocitação - fico por aqui.
Vão dizer que ainda faltam mais umas vinte e sete outras medidas, mas estas quatro que proponho não custam dinheiro aos contribuintes e garantem uma pequena revolução. A eficiência do ensino superior daria um salto em poucos anos.
Com a mão-de-obra barata da China e da Índia, a nossa defesa não deve ser as tarifas alfandegárias mas antes a qualidade técnica e científica da nossa juventude e essa passa por um ensino superior de qualidade.
2007/05/11
O affaire Arroja (conclusão)
Aceito que os outros membros do Blasfémias se sintam incomodados por estes textos, mas tudo o que Pedro Arroja revela aí é um preconceito. Um preconceito injustificado e ofensivo, mas um preconceito assumido e pessoal de Pedro Arroja, ao qual se responde... tendo uma dupla precaução com os seus textos em relação a judeus. Nada mais do que isto. Pessoalmente eu tenho uma precaução de ordem muito elevada com os textos de ex-maoístas convertido(a)s ao liberalismo. Mas a precaução de ordem mais elevada que eu tenho é com os textos de pessoas que julgam que nunca têm nenhum tipo de preconceitos.
No caso concreto do Blasfémias, aceito que os outros autores se sentissem incomodados com os textos de Pedro Arroja (não um ou outro, mas quase todos, e esse era o problema). O que eu não aceito é que queiram passar por santos e imaculados (ou por vítimas). Pedro Arroja saiu porque as suas opiniões sobre o judaísmo eram incómodas para o status quo do blogue. E isto tem que ser assumido.
No caso concreto do Blasfémias, aceito que os outros autores se sentissem incomodados com os textos de Pedro Arroja (não um ou outro, mas quase todos, e esse era o problema). O que eu não aceito é que queiram passar por santos e imaculados (ou por vítimas). Pedro Arroja saiu porque as suas opiniões sobre o judaísmo eram incómodas para o status quo do blogue. E isto tem que ser assumido.
2007/05/10
O affaire Arroja (2)
A “dupla precaução” de Arroja com os judeus é errada por ser geral. À partida eu não tenho (e não se deve ter) um preconceito contra um judeu (ou outra etnia ou religião qualquer) por um texto sobre um tema arbitrário. Posso ter uma dupla precaução se achar que existe um conflito de interesses. Por exemplo, eu tenho uma dupla precaução ao ler textos de autores judeus sobre temas sensíveis para os judeus (como o conflito do Médio Oriente). Tal como tenho uma dupla precaução ao ler textos de autores católicos sobre temas sensíveis para os católicos. Uma dupla precaução: só isso e nada mais. Não deixo que tal precaução extra influencie o meu julgamento, e frequentemente tenho surpresas agradáveis.
O primeiro texto de Arroja é infeliz pela sua generalidade e por demonstrar um preconceito e por nos tentar convencer do mesmo. Mas qualquer pessoa pode ver que o que incomoda os autores do Blasfémias não é o preconceito em si, mas o facto de esse preconceito ser dirigido contra os judeus. Fosse o dito preconceito contra católicos ou muçulmanos e aposto que não haveria incómodo nenhum por parte dos autores do Blasfémias. Já lá foram publicadas entradas extremamente ofensivas para com os muçulmanos e ninguém se ofendeu.
Já o segundo texto é muito bom, lançando dados concretos (não se baseando em preconceitos). Gostaria de o ter escrito. No meio da histeria ficou por responder.
O primeiro texto de Arroja é infeliz pela sua generalidade e por demonstrar um preconceito e por nos tentar convencer do mesmo. Mas qualquer pessoa pode ver que o que incomoda os autores do Blasfémias não é o preconceito em si, mas o facto de esse preconceito ser dirigido contra os judeus. Fosse o dito preconceito contra católicos ou muçulmanos e aposto que não haveria incómodo nenhum por parte dos autores do Blasfémias. Já lá foram publicadas entradas extremamente ofensivas para com os muçulmanos e ninguém se ofendeu.
Já o segundo texto é muito bom, lançando dados concretos (não se baseando em preconceitos). Gostaria de o ter escrito. No meio da histeria ficou por responder.
2007/05/09
Lançamento - "Ardinas da mentira"

O meu amigo Renato Teixeira tinha um blogue, que apresentei aqui. O Renato escreveu entretanto um livro, Ardinas da Mentira, que foi apresentado no passado dia 24 de Abril em Lisboa, tendo entretanto vindo a ser apresentado noutras cidades do país. Nele o cidadão do mundo Renato relata a sua experiência de jornalista, em Portugal e noutros países. Pelo que já li, parece-me muito interessante. Amanhã o livro é apresentado na Coimbra de onde o Renato é originário, com a presença de José Mário Branco. Se estiverem em Coimbra apareçam.
Sobre as eleições francesas
A análise que faço da vitória de Sarkozy, da qual estou absolutamente convencido, é que será também uma vitória da propaganda sobre a comunicação. Existe a convicção de que na ausência dos grandes discursos ideológicos, o que é importante é a comunicação. Mas não é, porque já não há essas grandes ideologias em que as pessoas se decidem unicamente com pequenas frases, slogans, ou astúcias de comunicadores. Nicolas Sarkozy percebeu isso e fez um verdadeiro trabalho ideológico de preparação desta eleição. Fez da UMP um partido com uma tradição ideológica, um programa. (...)
A esquerda demonstrou não ter ideias claras sobre nada. Sobre todas as questões de fundo, as pessoas de esquerda estão divididas e não sabem o que dizer precisamente: sobre Europa, imigração e segurança. Há por exemplo uma parte da esquerda e do Partido Socialista que é securitária como Ségolène Royal. Não têm um projecto real. E o projecto de Ségolène Royal, o seu pacto presidencial, é em parte o antigo projecto socialista clássico, intervencionista, e em parte um projecto inspirado de Tony Blair. Mas não há nenhuma ligação entre os dois. Não há coerência. Enquanto Sarkozy tem um projecto liberal-conservador, ou liberal-autoritário, com uma coerência. A dinâmica liberal para os quadros superiores, as profissões liberais e os empresários; a segurança, a ordem, a autoridade para as classes populares. Essa é a receita da direita americana. (...)
A política faz-se com uma certa habilidade e com uma certa coerência. Podemos abrir-nos ao centro, mas sobre as questões de fundo. Ségolène falou muito pouco delas. Em vez disso, fez diligências politiqueiras propondo incluir num governo ministros da UDF e eventualmente um primeiro-ministro. Bayrou não teria existido se o PS tivesse apresentado um candidato ou uma candidata credível. Bayrou saiu do seu nicho de seis ou sete por cento porque o PS não tinha uma candidatura muito clara. O mal está feito. A França permanece um dos países mais à esquerda na Europa, mas esta é uma evolução importante.
(Eric Dupin, professor de Comunicação no Instituto de Ciência Política (Sciences Po) de Paris, Público, 6 de Maio de 2007.)
2007/05/08
Smoke/don't smoke: a minha sentença
Sucedem-se as opiniões - 1, 2, 3 - sobre a proibição do tabaco em espaços fechados por parte de pessoas que eu respeito. Sobre este assunto, cheguei a uma conclusão: tenho muitas dúvidas em alinhar definitivamente por um dos lados. Vejo fundamentalistas dos dois lados. Mas quer fumar quer ir ao restaurante são hábitos burgueses. Nada com que alguém de esquerda se deva preocupar muito. Não vou perder muito mais tempo com o assunto.
2007/05/07
O affaire Arroja (I)
Sem grande tempo para dedicar à blogosfera nos últimos dias, não queria deixar de comentar a saída de Pedro Arroja do Blasfémias, mesmo se com duas semanas de atraso.
Não sendo membro do blogue não me compete julgá-la, mas lamento deixar de contar com as opiniões de Pedro Arroja, mesmo se elas claramente destoavam no blogue. E lamento porque as referidas opiniões demonstravam claramente as incompatibilidades entre a tradição cultural católica (já nem sequer falo necessariamente do catolicismo), que é a portuguesa, e o liberalismo, da tradição anglo-saxónica. É claro que o “liberalismo” que Arroja apregoa (e que também se apregoa aqui – onde de resto Arroja nem ficava nada mal) é o completo liberalismo económico combinado com o conservadorismo na moral. Bem diferente, portanto, do liberalismo de um Carlos Abreu Amorim. Mas só pela irritação que Arroja causava aos seus colegas valia a pena lê-lo. Espero que volte.
Hei-de voltar a este assunto. Amanhã, espero, serão as eleições francesas.
Não sendo membro do blogue não me compete julgá-la, mas lamento deixar de contar com as opiniões de Pedro Arroja, mesmo se elas claramente destoavam no blogue. E lamento porque as referidas opiniões demonstravam claramente as incompatibilidades entre a tradição cultural católica (já nem sequer falo necessariamente do catolicismo), que é a portuguesa, e o liberalismo, da tradição anglo-saxónica. É claro que o “liberalismo” que Arroja apregoa (e que também se apregoa aqui – onde de resto Arroja nem ficava nada mal) é o completo liberalismo económico combinado com o conservadorismo na moral. Bem diferente, portanto, do liberalismo de um Carlos Abreu Amorim. Mas só pela irritação que Arroja causava aos seus colegas valia a pena lê-lo. Espero que volte.
Hei-de voltar a este assunto. Amanhã, espero, serão as eleições francesas.
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