O aeroporto de Lisboa vai estar em funcionamente 10, 20 ou mais anos. Nem sequer está provado que deva ser desactivado. Um novo aeroporto para a região de Lisboa (NAL) é em absoluto necessário para substituir ou completar o da Portela. É algo que decidiremos daqui a alguns anos. A última coisa que podemos agora desejar é que o debate sobre o destino a dar aos terrenos (ainda não devolutos) da Portela venha inquinar o problema da escolha da localização NAL .
Em qualquer, caso há problemas muito mais urgentes a tratar.
Assim, o Partido Socialista propos-se no seu programa eleitoral para as legislativas construir uma ponte para o Barreiro para TGV atravessarem o Tejo. No dia 6 de Março, a Secretária de Estado Ana Vitorino confirmou, na Sociedade de Geografia este propósito. No final de Março, o Ministério precisou que a ponte seria rodo-ferroviária e que a estação terminal seria nas Olaias.
No programa do Partido Socialista a ponte para o Barreiro era, porém, destina aos TGV para Badajóz, para o Algarve, para o Porto e ainda para um shuttle para o aeroporto da Ota, enquanto que, no documento "Orientações estratégicas para o sector ferrroviário" divulgado pelo MOPTC, em 28 de Outubro, está prevista uma entrada a Norte de Lisboa pelo Lumiar para o TGV para o Porto.
O que está actualmente previsto são, assim, duas entradas para o TGV em Lisboa. Se o propósito for para diante, tal significa que a Câmara de Lisboa terá de se defrontar com o gigantesco problema ambiental e urbanistico criado pela construção de 10 km de vias para os TGV circularem no interior da cidade (e ainda ninguém precisou onde serão em tunel, em viaduto ou à superfície).
Os estudos de engenharia necessários para construir a ponte do Barreiro e as linhas para os TGV no interior de Lisboa, na margem Sul, e pela margem Norte até à Ota ainda não estão feitos.(Este último trajecto foi posto ee lado há poucos anos pela REFER dado o seu custo excessivo). A decisão definitiva sobre o projecto global das entradas do TGV em Lisboa e, consequentemente, sobre a ponte do Barreiro, não está, assim, ainda tomada.
Quem tem de decidir sobre estes assuntos é, sem dúvida, o Governo.
Mas, qual é o papel da Câmara de Lisboa no meio de todas estas questões?
É a pergunta a fazer aos candidatos a esta próxima eleição. O que não é admissivel é que, enquanto o Governo faz os seus projectos, a Câmara se entretenha a aprovar urbanizações incompativeis com esses mesmos projectos.
O que propõe é que a Câmara reivindique o direito de ser ouvida e mantida informada e, ainda, que, simultaneamente, assuma como prática normal estudar com antecedência e transmitir ao Governo sugestões e opiniões sobre os problemas que interessem directamente à cidade. Mas, para isso, a Câmara tem de se preparar.
O que julgo indicado, é a Câmara criar um gabinete de estudos, francamente aberto a uma colaboração exterior, por exemplo, das Universidades, vocacionado não para decidir, mas para estudar e analisar os projectos das grandes infraestruturas de transportes.
No que diz respeito à travessia do Tejo, não acredito que vá ser tomada nenhuma decisão definitiva nestes dois anos. Há, no entanto, uma proposta simples sobre a qual parece haver consenso. A proposta de Portugal na Cimeira Ibérica deste ano propor à Espanha a construção com grande prioridade da linha TGV de Badajoz ao Pinhal Novo (onde há uma estação da Fertagus).
Um gabinete de estudos como o referido pode debruçar-se sobre esta proposta e, no caso de concordar com ela, pode propor à Câmara de Lisboa para a apoiar vivamente. Se esta proposta for aceite, teremos, então, dois ou três anos para estudar seriamente o problema da travessia do Tejo, muito relacionado com o problema do traçado da linha do TGV para o Porto. O gabinete referido deverá estudar estes problemas mantendo um diálogo com o Ministério e com os municípios vizinhos, mas dando especial atenção às suas implicações sobre Lisboa.
Entretanto, deverá dar especial atenção aos problemas internos da cidade, dialogando com a Carris, a CP e a empresa do metro. A meu ver, por exemplo, estão erradas as extensões actualmente previstas da rede vermelha do metro para o Aeroporto e para Campolide (bairro) . Lamento que tenha sido posta de lado a saida prevista para o lado de Sacavem que evitaria a entrada diária de dezenas de milhares de carros na cidade. A ligação da gare do Oriente ao Aeroporto podia ser feita com um investimento incomparavelmente menor (e mais cómodo para os utentes) por 6 autocarros que fizessem uma navete pela Avenida de Berlim. Do outro lado, o metro devia ir à estação de Campolide e não ao bairro de Campolide. Depois, devia descer a Av. de Ceuta. Transportados à superfície, os futuros moradores nesta avenida (que alguns pensam urbanizar com torres) irão inevitavelmente engarrafar o táfego vindo pela Autoestrada e pela Marginal. No que diz respeito a Campo de Ourique, o acesso às traseiras do bairro pode ser feito por escadas rolantes a partir de uma estação na Av. de Ceuta. É o processo de dignificar toda aquela zona.
São isto questões de simples bom senso, de quem pensa um bocado e conhece o locais, que podem, talvez , sensibilizar os candidatos.
António Brotas
2007/05/26
Sapo recomenda
Pela primeira vez, que eu me tenha dado conta, este blogue vinha na lista de blogues recomendados do Sapo (ontem). A razão? O texto... de José Manuel Fernandes.
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Blogues
2007/05/25
O ministro, a Ota ou como o autismo só pode criar suspeições
José Manuel Fernandes no Público de hoje:
O ministro das Obras Públicas passou da teimosia ao autismo e deste a uma tão desastrada cegueira que, com toda a frontalidade, é preciso perguntar: a quem interessa este ministro? (...) Ou o ministro e o Governo explicam a bondade da Ota, ou a dúvida instalar-se-á na opinião pública. É que se Mário Lino estivesse limitado à capacidade de raciocínio de quem tem um único neurónio, algo que por certo não sucede num engenheiro "a sério" que até está inscrito na Ordem, o que disse seria desculpável. Tendo mais neurónios, por que fez do discurso uma sucessão de atoardas, inverdades, mistificações e disparates?
Como é que um ministro diz que a Margem Sul do Tejo é um "deserto para onde seria necessário deslocar milhões de pessoas"? E como foi possível tentar corrigir agravando o disparate, dizendo que não se referia à Margem Sul, apenas às localizações alternativas propostas para o novo aeroporto? Para assim falar, ou Mário Lino nunca olhou para um mapa de Portugal, ou vive em Marte. Qualquer das alternativas fica mais perto de Lisboa do que a Ota; qualquer delas é hoje servida por duas ou três auto-estradas já construídas. Há uma linha férrea que passa por lá. Um hospital central mais perto do que haveria na Ota. Indústria por todo o lado. Há portos perto, enquanto para a Ota só se poderia contar com o "famoso" porto de águas profundas de Peniche, hipótese que alguns lunáticos já colocaram. Em suma: qualquer das novas localizações está mais próxima dos milhões de pessoas que deveria servir do que a Ota. Mesmo para quem mora em concelhos a norte do Tejo como Cascais, Sintra ou Oeiras. De resto, se para ter um aeroporto fosse necessário deslocar para as suas proximidades "milhões de pessoas", então o melhor é deixá-lo onde está, no centro de Lisboa. Mário Lino falou também de um deserto e de sítios "sem gente, sem turismo, sem comércio" quando lhe bastaria, de novo, olhar para o mapa ou abrir o Google Earth para perceber que estava a dizer um disparate. Ou não existissem estudos a defender que, excluindo o impacto ambiental, Rio Frio seria melhor do que a Ota, estudos que estão na Internet mas que Lino disse não existirem...
Não contente, interrogou-se sobre se a engenharia portuguesa teria alguma dificuldade em resolver o problema de "um aterrozinho num mundo onde se constroem aeroportos no mar". Sucede que o tal aterrozito implicará a movimentação do equivalente a uma coluna de terra com as dimensões de um campo de futebol e 10 quilómetros de altura. Faz-se, mas só com muito dinheiro. Ou, por outras palavras, dando muito dinheiro a ganhar a muita gente. Em Portugal sabe-se o que isto costuma significar. (...) A pérola final foi considerar que escolher aquelas localizações seria como construir "uma Brasília no Norte do Alentejo". Norte do Alentejo? O nosso engenheiro "a sério" já esqueceu a instrução primária, pois lá terá aprendido que os lugares em discussão ainda ficam na Estremadura, e nunca deve ter olhado para os mapas das regiões-plano, pois situam-se na que é conhecida por "Lisboa e Vale do Tejo".
2007/05/24
Pierre-Gilles de Gennes (1932-2007)
O cientista francês, galardoado com o Prémio Nobel de Física de 1991 pelo seu trabalho em polímeros e cristais líquidos (como os que temos nos visores dos relógios e telemóveis, por exemplo) faleceu na semana passada em Orsay, ao sul de Paris, onde vivia.
Só vi de Gennes uma vez, em Lisboa, por ocasião de um seminário para que foi convidado. Era um homem polémico, que gostava de dar as suas opiniões, frequentemente contra a corrente. Era um feroz crítico da organização da ciência francesa. A meu ver poderia ter razão nas suas críticas pontuais, mas no geral parece-me que o sistema francês funciona bem. Muito melhor que em Portugal, Espanha ou Itália. A sua crítica era a comum: ao centralismo e à omnipresença do estado.
P-GdG esquece-se que sem financiamento público não há ciência fundamental que se faça: há muita ciência que não tem interesse comercial, e por isso só pode funcionar com o apoio do estado. Talvez por só se ter dedicado a Física Aplicada (que teve aplicações imediatas na indústria, onde revolucionou todo um sector), de Gennes sempre criticou este apoio. Discordo, mas não é por isso que deixo de reconhecer nele um grande cientista e um homem extremamente inspirador.
De Gennes adorava a exposição pública, ser polémico e não perdia uma oportunidade de dar uma entrevista. (Ficou célebre em Portugal a entrevista que deu ao "Diário de Notícias" em 2004, onde se deixou fotografar, em fato de banho, ao lado de uma piscina.) Recomendo vivamente a todos (cientistas e não só) a leitura desta entrevista que deu aquando dessa sua passagem por Lisboa. Deixo-vos com a nota de óbito da France Presse (via Libération).
Pierre-Gilles de Gennes est mort
Prix Nobel de Physique en 1991, Pierre-Gilles de Gennes est décédé vendredi à l'âge de 74 ans. C'est par une annonce dans le carnet du Monde que l'on a appris la mort de ce chercheur polyvalent, spécialiste de la physique de la matière condensée. Pierre-Gilles de Gennes a apporté des contributions marquantes dans des domaines variés, allant du magnétisme à l'hydrodynamique en passant par la supraconductivité, les polymères et les cristaux liquides.
Né le 24 octobre 1932 à Paris, fils d'un médecin et d'une infirmière, il fut élève de l'Ecole normale supérieure. Agrégé de physique et docteur ès sciences, il a d'abord été ingénieur au Commissariat à l'énergie atomique (CEA), en 1955, avant d'être professeur à la faculté des sciences à Orsay (de 1961 à 1971). En 1971, il est nommé professeur titulaire de la chaire de physique de la matière condensée au Collège de France. Son ouvrage «The Physics of Liquid Crystals», publié en 1974, reste une référence.
En 1991, il reçoit le Nobel de physique pour avoir découvert que des méthodes développées pour étudier des phénomènes d'ordre dans les systèmes simples peuvent être généralisées à des formes plus complexes de matière, en particulier aux cristaux liquides et polymères. Pour justifier cette distinction, l'Académie Nobel parle «d'Isaac Newton de notre temps». Cette année-là, Pierre-Gilles de Gennes est le seul à recevoir cette récompense suprême habituellement partagée par deux sinon trois chercheurs.
Pierre-Gilles de Gennes a toujours tenté de comprendre l'ordre et le désordre tels qu'ils se présentent dans la nature. Il avait à cœur de partager son savoir et son expérience avec les plus jeunes. Après avoir reçu le Prix Nobel, il réfléchit au rôle social du scientifique et à la façon d'enseigner les sciences. C'est à la suite de la suggestion d'un lycéen sur le plateau de l'émission télévisée Apostrophes que Pierre-Gilles de Gennes entame une tournée d'un an et demi dans cent-cinquante établissements où il rencontre des milliers d'étudiants. Il tire de ces conférences dans les collèges ou lycées un livre : «Les Objets fragiles».
Directeur de l'Ecole supérieure de physique et chimie industrielles de la Ville de Paris de 1976 à 2002, il avait plus récemment rejoint l'Institut Curie, abordant le domaine des systèmes du vivant et la compréhension des mécanismes cellulaires. Pierre-Gilles de Gennes était membre de l'Académie des Sciences et professeur honoraire au Collège de France.
Le Nobel de physique a même joué au cinéma, dans le film «Les Palmes de M. Schutz» réalisée par Claude Pinoteau en 1997. Dans ce film inspiré de la vie de ses célèbres prédécesseurs Pierre et Marie Curie, il interprétait l'un des deux cochers, l'autre étant Georges Charpak, prix Nobel de physique 1992.
Les implications de ses travaux dans la vie quotidienne sont omniprésentes: ils ont notamment conduit à la fabrication des écrans plats de téléviseurs ou d'ordinateurs, des calculettes, des montres..., tout en contribuant à la mise au point de «superglues», qui permettent aujourd'hui d'assembler des matériaux longtemps considérés "incollables".
L'inhumation aura lieu dans la plus stricte intimité, indique sans plus de détail l'annonce parue dans le carnet du Monde mardi.
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Física
2007/05/23
Blogue "Blasfémias" defende as conquistas da revolução
Entre as consequências da Revolução Industrial está o surgimento do proletariado e do socialismo. Mas também um progresso incomparável para as nossas vidas.
Para o "Blasfémias", a grande conquista da Revolução Industrial é o carro próprio. Tudo em nome do "conforto" e - já cá faltava - da sacrossanta "liberdade individual". Quem disse que os trabalhadores é que estavam agarrados aos "direitos adquiridos"? O transporte em viatura própria dentro da cidade é um desses "direitos adquiridos" (neste caso pela burguesia) que terá que desaparecer.
"Desenvolvimento sustentável" é ideia que não passa por aquelas cabeças (e nem pela dos cidadãos em geral), o que demonstra o longo caminho que ainda se tem de percorrer. Que passa, como Paulo Varela Gomes anunciou no "Prós e Contras", por falar a verdade.
Para o "Blasfémias", a grande conquista da Revolução Industrial é o carro próprio. Tudo em nome do "conforto" e - já cá faltava - da sacrossanta "liberdade individual". Quem disse que os trabalhadores é que estavam agarrados aos "direitos adquiridos"? O transporte em viatura própria dentro da cidade é um desses "direitos adquiridos" (neste caso pela burguesia) que terá que desaparecer.
"Desenvolvimento sustentável" é ideia que não passa por aquelas cabeças (e nem pela dos cidadãos em geral), o que demonstra o longo caminho que ainda se tem de percorrer. Que passa, como Paulo Varela Gomes anunciou no "Prós e Contras", por falar a verdade.
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Ecologia
2007/05/22
Lisboa bem amada que mal me quis, que me quer bem
Devo começar por esclarecer que eu sou um alfacinha de gema: nasci e vivi em Lisboa até acabar o curso. Saí depois por nove anos e regressei recentemente. Conhecia muito bem a cidade quando parti, e continuo a conhecer, no que diz respeito a pontos de referência. Mas estive fora muito tempo: o tempo suficiente para não conhecer muitos dos locais da cidade que pessoas da minha idade, que cá ficaram, conhecem.
Um exemplo paradigmático é o “Lux”, onde de resto nunca estive. A primeira vez que ouvi falar no “Lux”, sem o saber, foi quando li, num artigo do Miguel Sousa Tavares
no Público, a expressão “esquerda Lux”. Percebi a quem é que o Miguel se referia, mas associei o “Lux” à conhecida marca de sabonetes. Julguei que, por alguma razão (talvez um anúncio...) o sabonete “Lux” estivesse associado à “esquerda Lux”. Ou então talvez, por algum motivo para mim obscuro, o Miguel Sousa Tavares conhecesse os hábitos de higiene pessoal de Ana Drago ou Miguel Portas.
Tudo isto para dizer que por vezes sinto-me um estranho em Lisboa, a cidade onde cresci. Em particular, não conheço praticamente nenhum dos locais que a Marta Rebelo referiu no seu texto da semana passada. O único lugar que eu conheço, simplesmente de nome, é o “Eleven”, do relato da minha irmã, cujo trabalho é ligado à Medicina, e que por pura coincidência ainda na semana passada teve um jantar de uma conferência nesse restaurante. (Os médicos adoram fazer as suas conferências nos locais mais luxuosos;dizem-me que é dos patrocínios da indústria farmacêutica. Só por comparação - e desculpem se estou a falar muito de mim - eu sou físico, e o meu orientador costuma dizer que, num banquete de físicos, as pessoas mais bem vestidas são os empregados de mesa.)
Quis o destino que eu, enquanto estive fora, vivesse nas duas “capitais do mundo”, Nova Iorque e Paris. E que eu tenha o enorme privilégio de, graças a isso, me sentir em casa nessas duas cidades. “Sentir-me em casa”, numa cidade, é saber fugir aos locais destinados aos turistas endinheirados. Paris não é só os Grands Boulevards ou o Bd. Saint Germain: também é Montparnasse (para um canard) ou a Butte Aux Cailles (para um boudin noir). Nova Iorque não é só o Rockefeller Center. Na Grande Maçã encontrar locais que não se destinem a turistas endinheirados não é fácil à partida, mas é possível. E nos arredores, como referi a semana passada, é possível comer “lagosta com todos” por menos de dez dólares. Ambas as cidades têm muitos locais principalmente destinados a fazer dinheiro com os turistas, mas recebem um volume de turistas que Lisboa não recebe e nem receberá. Apesar disso, mantêm uma vida própria: não dependem dos turistas. O comércio, a restauração, a cultura são para todos os habitantes (salve as desigualdades sociais, que principalmente em Nova Iorque são muitas), e não só para os turistas.
Posso estar a ser algo injusto, não conhecendo muitos desses locais (por não me atraírem), mas o que me deixa mais apreensivo em Lisboa é que, nestes últimos anos, parece ser uma cidade mais preocupada com os turistas do que com os seus habitantes. E, por isso, uma cidade muito pouco acolhedora. Principalmente para quem, como eu, aqui cresceu e sabe o que deveria esperar. E isto é um erro crasso: não são os turistas que vão dar vida ao centro da cidade e às zonas históricas todos os dias, todo o ano. Em Nova Iorque ou Paris há zonas que sobrevivem assim (só graças aos turistas), mas Lisboa não tem esse potencial. Por isso Lisboa tem de pensar mais sobretudo em quem cá trabalha e mora em casa alugada ou nos arredores. Nos jovens trabalhadores precários, a maior parte licenciados e doutorados. Nesse aspecto Lisboa teria muito a aprender com o Porto e com cidades portuguesas mais pequenas, com menos atractivos culturais mas uma qualidade de vida melhor.
Uma vez mais, não conheço a «Wallpaper», a revista que a Marta Rebelo refere. Mas creio que faríamos melhor se em alternativa prestássemos mais atenção a guias como o “Time Out”, ou o “Let’s Go!”, ou o “Lonely Planet”.
Publicado também no Cinco Dias.
Um exemplo paradigmático é o “Lux”, onde de resto nunca estive. A primeira vez que ouvi falar no “Lux”, sem o saber, foi quando li, num artigo do Miguel Sousa Tavares
no Público, a expressão “esquerda Lux”. Percebi a quem é que o Miguel se referia, mas associei o “Lux” à conhecida marca de sabonetes. Julguei que, por alguma razão (talvez um anúncio...) o sabonete “Lux” estivesse associado à “esquerda Lux”. Ou então talvez, por algum motivo para mim obscuro, o Miguel Sousa Tavares conhecesse os hábitos de higiene pessoal de Ana Drago ou Miguel Portas.
Tudo isto para dizer que por vezes sinto-me um estranho em Lisboa, a cidade onde cresci. Em particular, não conheço praticamente nenhum dos locais que a Marta Rebelo referiu no seu texto da semana passada. O único lugar que eu conheço, simplesmente de nome, é o “Eleven”, do relato da minha irmã, cujo trabalho é ligado à Medicina, e que por pura coincidência ainda na semana passada teve um jantar de uma conferência nesse restaurante. (Os médicos adoram fazer as suas conferências nos locais mais luxuosos;dizem-me que é dos patrocínios da indústria farmacêutica. Só por comparação - e desculpem se estou a falar muito de mim - eu sou físico, e o meu orientador costuma dizer que, num banquete de físicos, as pessoas mais bem vestidas são os empregados de mesa.)
Quis o destino que eu, enquanto estive fora, vivesse nas duas “capitais do mundo”, Nova Iorque e Paris. E que eu tenha o enorme privilégio de, graças a isso, me sentir em casa nessas duas cidades. “Sentir-me em casa”, numa cidade, é saber fugir aos locais destinados aos turistas endinheirados. Paris não é só os Grands Boulevards ou o Bd. Saint Germain: também é Montparnasse (para um canard) ou a Butte Aux Cailles (para um boudin noir). Nova Iorque não é só o Rockefeller Center. Na Grande Maçã encontrar locais que não se destinem a turistas endinheirados não é fácil à partida, mas é possível. E nos arredores, como referi a semana passada, é possível comer “lagosta com todos” por menos de dez dólares. Ambas as cidades têm muitos locais principalmente destinados a fazer dinheiro com os turistas, mas recebem um volume de turistas que Lisboa não recebe e nem receberá. Apesar disso, mantêm uma vida própria: não dependem dos turistas. O comércio, a restauração, a cultura são para todos os habitantes (salve as desigualdades sociais, que principalmente em Nova Iorque são muitas), e não só para os turistas.
Posso estar a ser algo injusto, não conhecendo muitos desses locais (por não me atraírem), mas o que me deixa mais apreensivo em Lisboa é que, nestes últimos anos, parece ser uma cidade mais preocupada com os turistas do que com os seus habitantes. E, por isso, uma cidade muito pouco acolhedora. Principalmente para quem, como eu, aqui cresceu e sabe o que deveria esperar. E isto é um erro crasso: não são os turistas que vão dar vida ao centro da cidade e às zonas históricas todos os dias, todo o ano. Em Nova Iorque ou Paris há zonas que sobrevivem assim (só graças aos turistas), mas Lisboa não tem esse potencial. Por isso Lisboa tem de pensar mais sobretudo em quem cá trabalha e mora em casa alugada ou nos arredores. Nos jovens trabalhadores precários, a maior parte licenciados e doutorados. Nesse aspecto Lisboa teria muito a aprender com o Porto e com cidades portuguesas mais pequenas, com menos atractivos culturais mas uma qualidade de vida melhor.
Uma vez mais, não conheço a «Wallpaper», a revista que a Marta Rebelo refere. Mas creio que faríamos melhor se em alternativa prestássemos mais atenção a guias como o “Time Out”, ou o “Let’s Go!”, ou o “Lonely Planet”.
Publicado também no Cinco Dias.
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Caoticidade do fluxo de Teichmüller
É o título do colóquio que o meu amigo Artur Ávila dá hoje à tarde na Sociedade Portuguesa de Matemática. Destina-se a todos os matemáticos em geral.
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Ciência
2007/05/21
A dupla bitola da extrema-direita
Se fosse em Paris, chamar-lhe-iam "escumalha". Na Avenida dos Aliados... é lamentável.
2007/05/20
21:05

"Sporting vice-campeão. Acesso directo à Champions League", dizia o painel. Acaba o campeonato mais mal perdido pelo Sporting de que eu me recordo. Não foi o campeonato em que o Sporting foi mais prejudicado pela arbitragem, mas nunca pequenos erros dos árbitros que custaram um ou outro ponto terão sido tão decisivos. Resta a taça, para a semana. Esperemos que sirva de consolação.
20:56
No dragão, vai entrar Vítor Baía para a baliza do FC Porto, que ganha por 3-1. É a última esperança: dois frangos em cinco minutos. Baía! Baía!
Para apoiar a equipa, em Alvalade pula-se e grita-se "e quem não pula é lampião!" Marcaram-se mais dois golos.
Para apoiar a equipa, em Alvalade pula-se e grita-se "e quem não pula é lampião!" Marcaram-se mais dois golos.
18:45

Na altura da inauguração deste estádio, o antigo futebolista (e responsável pelas instalações) José Eduardo anunciava, entusiasmadíssimo, muitos "sumos e hambúrgueres" que poderiam ser consumidos no interior. Ora, estádio de futebol que é estádio de futebol requer que sejam vendidos, para além das bandeiras e cachecóis, bifanas, coiratos, imperiais e vinho a copo. Tal e qual como na minha infância. Tudo continua na mesma. Fiquei mais tranquilo.
Benfica decide
Jesualdo Ferreira e "professor" Neca: dois benfiquistas decidem se o campeão é o Sporting ou o FC Porto.
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Futebol
2007/05/19
Força Aves!
Eu lá estarei em Alvalade. Espero que para celebrar um título do Sporting.
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Sporting
As eleições para a Câmara de Lisboa
Por razões pessoais não me agrada muito a data de 15 de Julho para as eleições para a Câmara de Lisboa. Estarei numa conferência fora do país de 16 a 20 de Julho (felizmente ainda não tratei da passagem aérea), e contava com esse fim de semana (e o posterior) para um pouco de "turismo científico". Mas, enfim, se tiver que viajar a 15 depois de votar, em vez de a 13 ou 14, viajarei.
Agora, eu pasmo com o tempo que estas coisas todas demoram. Novo prazo para apresentação de candidaturas: 1 de Junho. Novo prazo para coligações: 28 de Maio. Campanha eleitoral: 6 a 13 de Julho (notem o "lh"). Eleições: 15 de Julho (quando está tudo na praia).
Alguém pode explicar-me o que é que se vai andar a fazer o mês de Junho?
Agora, eu pasmo com o tempo que estas coisas todas demoram. Novo prazo para apresentação de candidaturas: 1 de Junho. Novo prazo para coligações: 28 de Maio. Campanha eleitoral: 6 a 13 de Julho (notem o "lh"). Eleições: 15 de Julho (quando está tudo na praia).
Alguém pode explicar-me o que é que se vai andar a fazer o mês de Junho?
2007/05/18
O Sporting e a Câmara de Lisboa
Estou de acordo com o Nélson (que não é propriamente adepto do meu clube, nem eu do dele). Estou de acordo com um insurgente (caso raro de todo). Aborrece-me ter que dizer isto nestas circunstâncias, mas a realidade é sempre esta.
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Sporting
2007/05/17
Dr. House: transmissão eminente
Cenas comuns na TV portuguesa: a excelente série Dr. House sempre deu na TVI às quintas à noite. Esta semana - não se sabe se excepcionalmente, se será a regra - a série dá à quarta. Não se sabe se dá outro episódio amanhã ou não. Hoje não vinha nada nos jornais. Amanhã, provavelmente, os jornais anunciarão a transmissão do episódio que foi transmitido... hoje.
Os espectadores não podem fazer nada. Se querem ver o Dr. House, só podem estar sempre sintonizados na TVI. Se quiserem ver as novelas e séries da SIC, só podem estar sempre sintonizados na SIC. Nunca se sabe o que é que os programadores vão fazer à última da hora.
Tentar alterar alguma coisa? Propor uma lei? Não se pode. Tudo em nome da liberdade, claro. Da liberdade... das estações de televisão.
Os espectadores não podem fazer nada. Se querem ver o Dr. House, só podem estar sempre sintonizados na TVI. Se quiserem ver as novelas e séries da SIC, só podem estar sempre sintonizados na SIC. Nunca se sabe o que é que os programadores vão fazer à última da hora.
Tentar alterar alguma coisa? Propor uma lei? Não se pode. Tudo em nome da liberdade, claro. Da liberdade... das estações de televisão.
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Televisão
2007/05/16
O casamento do pobre
Para acompanhar o texto anterior, e já que o João Miranda tem andado a falar em casamentos...
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Televisão
2007/05/15
A ópera do pobre
O famoso blasfemo João Miranda escreve todos os sábados no Diário de Notícias desde que João Marcelino assumiu a direcção deste jornal.
No seu último artigo, para elaborar uma das suas teses ultraliberais do costume, escreve: "dado que a ópera é tendencialmente uma actividade que interessa muito mais aos ricos que aos pobres, existe uma grande probabilidade de serem os que têm menos escolhas a financiarem os que têm mais escolhas".
Eu não sei a que contexto se estará a referir o João. Aceito que a ópera não é um espectáculo fácil, mas será por isso que só é apreciado por ricos? Será que só os ricos têm “bom gosto”? Será que não passa pela cabeça do João que qualquer pessoa pode interessar-se por ópera, mas não ter condições de a frequentar?
Quando vivi em Nova Iorque, frequentava com regularidade a Metropolitan Opera. Havia uns lugares mais em cima, de onde só se distinguia os detalhes dos intérpretes no palco com o auxílio de uns binóculos. Era o chamado “family circle”. Cada bilhete custava cerca de 20 dólares. Na Metropolitan Opera. Havia uma grande procura para estes bilhetes, bem como para todos os outros (para todas as bolsas a partir de 20 dólares). Certamente quem procurava o “family circle” ou os outros lugares mais longe do palco não era rico.
Também havia as lagostas. O João Miranda dirá provavelmente que as lagostas “interessam muito mais aos ricos do que aos pobres”. As lagostas de Long Island são famosas (e já o eram antes de o Cosmo Kramer ser preso por causa delas, num célebre episódio de Seinfeld lá passado). Existe uma cadeia de fast-food de lagosta (“Red Lobster”). Em vilas portuárias dos arredores de Nova Iorque, com nomes como Port Washington ou Port Jefferson, podem comer-se lagostas em pubs. Uma lagosta inteira de uma libra, acompanhada por molho de manteiga, uma sopa do dia, bolachas de água e sal, uma dose de batatas fritas, molho tártaro e “cole slaw”. Tudo isto, mais cerveja e gorjeta, fica por dez dólares num pub de Long Island. Será assim a lagosta “comida de ricos”? Não são nada ricas as pessoas que frequentam estes “pubs”.
Claro que isto só era possível em Nova Iorque. Uma das coisas de que eu mais gosto em Nova Iorque é que quem conheça bem a região e saiba ir ao sítio certo pode encontrar tudo, seja o que for, barato (excepto comida francesa). Antes de lá chegar, nunca tinha provado lagosta. E nunca tinha ido à ópera. Gosto muito das duas coisas mas, de facto, como não sou rico, desde que de lá voltei nunca mais comi lagosta. E nunca mais fui à ópera. No entanto nunca consideraria que a lagosta ou a ópera só interessam aos ricos. Tal consideração seria elitista e provinciana.
O que é então tipicamente “de rico”? Não que eu seja rico, como já disse, mas ser rico não é ter interesse pelas melhores coisas da vida. Qualquer pessoa tem interesse por elas; só os ricos, porém, é que podem apreciar muitas delas com regularidade, sempre que lhes apeteça. Ser-se rico é mais do que só se viajar em classe executiva ou só ficar em hotéis de cinco estrelas ou só fazer compras no El Corte Inglés ou só comer nos restaurantes indicados pelo Duarte Calvão. Ser-se rico é usar o muito dinheiro que se possa ter para se distinguir das demais pessoas, quando não se é melhor do que elas por isso, sendo que se não se tivesse esse dinheiro, não haveria tal distinção. Ser-se rico é pior do que ser-se de direita. Ser-se rico é só se preocupar consigo e com o seu próprio conforto e nunca se preocupar com os outros. Ser-se rico é ter-se uma empregada doméstica ou secretária sem as quais não se sabe fazer absolutamente nada. Ser-se rico é nunca utilizar os transportes públicos e só andar de carro. A tudo isto eu chamaria manifestações de riquismo, novo ou velho. A tudo isto o João Miranda chamaria “liberdade individual”, provavelmente o mais burguês de todos os valores.
Publicado também no Cinco Dias.
No seu último artigo, para elaborar uma das suas teses ultraliberais do costume, escreve: "dado que a ópera é tendencialmente uma actividade que interessa muito mais aos ricos que aos pobres, existe uma grande probabilidade de serem os que têm menos escolhas a financiarem os que têm mais escolhas".
Eu não sei a que contexto se estará a referir o João. Aceito que a ópera não é um espectáculo fácil, mas será por isso que só é apreciado por ricos? Será que só os ricos têm “bom gosto”? Será que não passa pela cabeça do João que qualquer pessoa pode interessar-se por ópera, mas não ter condições de a frequentar?
Quando vivi em Nova Iorque, frequentava com regularidade a Metropolitan Opera. Havia uns lugares mais em cima, de onde só se distinguia os detalhes dos intérpretes no palco com o auxílio de uns binóculos. Era o chamado “family circle”. Cada bilhete custava cerca de 20 dólares. Na Metropolitan Opera. Havia uma grande procura para estes bilhetes, bem como para todos os outros (para todas as bolsas a partir de 20 dólares). Certamente quem procurava o “family circle” ou os outros lugares mais longe do palco não era rico.
Também havia as lagostas. O João Miranda dirá provavelmente que as lagostas “interessam muito mais aos ricos do que aos pobres”. As lagostas de Long Island são famosas (e já o eram antes de o Cosmo Kramer ser preso por causa delas, num célebre episódio de Seinfeld lá passado). Existe uma cadeia de fast-food de lagosta (“Red Lobster”). Em vilas portuárias dos arredores de Nova Iorque, com nomes como Port Washington ou Port Jefferson, podem comer-se lagostas em pubs. Uma lagosta inteira de uma libra, acompanhada por molho de manteiga, uma sopa do dia, bolachas de água e sal, uma dose de batatas fritas, molho tártaro e “cole slaw”. Tudo isto, mais cerveja e gorjeta, fica por dez dólares num pub de Long Island. Será assim a lagosta “comida de ricos”? Não são nada ricas as pessoas que frequentam estes “pubs”.
Claro que isto só era possível em Nova Iorque. Uma das coisas de que eu mais gosto em Nova Iorque é que quem conheça bem a região e saiba ir ao sítio certo pode encontrar tudo, seja o que for, barato (excepto comida francesa). Antes de lá chegar, nunca tinha provado lagosta. E nunca tinha ido à ópera. Gosto muito das duas coisas mas, de facto, como não sou rico, desde que de lá voltei nunca mais comi lagosta. E nunca mais fui à ópera. No entanto nunca consideraria que a lagosta ou a ópera só interessam aos ricos. Tal consideração seria elitista e provinciana.
O que é então tipicamente “de rico”? Não que eu seja rico, como já disse, mas ser rico não é ter interesse pelas melhores coisas da vida. Qualquer pessoa tem interesse por elas; só os ricos, porém, é que podem apreciar muitas delas com regularidade, sempre que lhes apeteça. Ser-se rico é mais do que só se viajar em classe executiva ou só ficar em hotéis de cinco estrelas ou só fazer compras no El Corte Inglés ou só comer nos restaurantes indicados pelo Duarte Calvão. Ser-se rico é usar o muito dinheiro que se possa ter para se distinguir das demais pessoas, quando não se é melhor do que elas por isso, sendo que se não se tivesse esse dinheiro, não haveria tal distinção. Ser-se rico é pior do que ser-se de direita. Ser-se rico é só se preocupar consigo e com o seu próprio conforto e nunca se preocupar com os outros. Ser-se rico é ter-se uma empregada doméstica ou secretária sem as quais não se sabe fazer absolutamente nada. Ser-se rico é nunca utilizar os transportes públicos e só andar de carro. A tudo isto eu chamaria manifestações de riquismo, novo ou velho. A tudo isto o João Miranda chamaria “liberdade individual”, provavelmente o mais burguês de todos os valores.
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2007/05/14
O Estado como garante de maior democraticidade
Sobre as eleições francesas, o resultado foi o esperado e eu não tenho muito mais a acrescentar ao que escreveu o Hugo Mendes. O que mais me impressionou foi a elevadíssima participação eleitoral, bem maior do que a que estamos habituados em Portugal. E muitíssimo maior do que em países como os EUA ou o Reino Unido. Na primeira volta (85% de participação) ainda julguei que tal se devesse a querer excluir de certeza Jean Marie Le Pen, mas os mais de 80% da segunda volta confirmam-no: a participação eleitoral na França é muito superior à de outros países de tradição anglo-saxónica e economia liberal. Quando o fenómeno da abstenção elevada começou a sentir-se em Portugal, articulistas conservadores e culturalmente britânicos como Miguel Esteves Cardoso chegaram a afirmar que a baixa participação eleitoral era um “sintoma de desenvolvimento”. É claro que tal ideia só poderia vir de uma cabeça como a deste senhor (ou como ao de João Carlos Espada). Se nestes países a participação eleitoral é mais baixa, é porque o povo sente que não pode alterar grande coisa com o seu voto. O poder está todo nas grandes corporações e nas grandes empresas. O poder político é mais fraco que o poder económico. Como dizia uma amiga minha relativamente aos EUA, naquele país o conceito de “liberdade” era “poder-se comprar tudo o que se quisesse”. Quem pudesse, como é evidente. Em França, não vou afirmar peremptoriamente que o “poder político” é mais forte que o “poder económico” (uma condição essencial para uma verdadeira democracia), mas pelo menos existe, sem dúvida, um poder político. Algo que para os ultraliberais, cuja única democracia que conhecem é o “mercado”, faz muita confusão. É claro que mesmo na democracia francesa os cidadãos podem votar mal (e têm votado mal, a meu ver, nas últimas vezes). Mas há lá uma tradição de combate político e uma sensação (legítima, e com motivos históricos) de que o voto popular conta alguma coisa para os destinos do país. É esta sensação que pode vir a ser ameaçada pela recente escolha (legítima) do eleitorado francês. Um eleitorado confuso e à procura de um país que já não é o mesmo apostou num candidato que aparece como “salvador”. Embora respeitando sempre a legitimidade do voto popular, desejo que a França seja capaz de preservar uma sociedade onde a igualdade é indispensável à democracia e à república.
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França
Cinco anos depois, soube bem voltar a ser líder
Mesmo sendo uma liderança efémera, só de uma hora. Mas eu acredito até ao fim. Domingo, força Aves!
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Sporting
2007/05/13
Se houver justiça desportiva...
...o FC Porto perde hoje em Paços de Ferreira, nem que seja com um golo marcado com a mão.
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Futebol
2007/05/12
Quatro medidas para o ensino superior
Um interessante artigo no Público de 11.05.2007, por Luis Campos e Cunha.
Quatro ideias para a reforma do ensino superior que, nem sempre pelas boas razões, está na agenda política. Quatro ideias que, sem gastos orçamentais, garantem uma revolução e são aqui apresentadas de borla! Não serão tudo, mas têm sucesso garantido quando aplicadas tanto às universidades públicas como aos politécnicos.
1. Primeira sugestão: apenas, e só, as instituições com investigação avaliada pela FCT com "muito bom" ou "excelente" podem dar o grau de doutor. É-me indiferente se é um politécnico ou é uma universidade que concede doutoramentos; o que é relevante é saber se existe nessa instituição uma actividade de investigação regular e minimamente credível. Sem investigação não há doutoramentos sérios e se a instituição não tem um centro de investigação de qualidade fica vedada a possibilidade de os conceder. Caso contrário (ou seja, na situação actual), a mediocridade reproduz-se e os doutoramentos passam a fazer parte de jogos internos de poder - quem mais doutorados produzir, mais amigos tem e mais votos terá para ser eleito para qualquer coisa dentro da sua coutada. É esta a "vida académica" de muitas instituições!
A qualidade dos doutoramentos, com esta primeira sugestão, ficaria minimamente assegurada.
2. Segunda sugestão: qualquer instituição fica proibida (sem excepções) de recrutar os seus próprios doutorados no primeiro emprego e durante, digamos, três anos. Este ponto é importantíssimo e é prática aceite nas boas escolas e já é seguida, que eu saiba, pelo menos numa faculdade em Portugal.
Desde logo, os jogos de poder dentro da instituição do tipo que referi atrás ficam muito mitigados. Os contratos para o início de uma carreira docente - professor auxiliar - são por concurso, aberto e obrigatoriamente para pessoas fora da instituição. Mais importante, cria-se um mercado de doutorados, aumenta a mobilidade, evitando a acomodação dos docentes com contratos, na prática, prematuramente vitalícios.
Hoje, se um professor quiser sair da sua faculdade tem, de facto, muita dificuldade em entrar noutra escola, pois não existe um verdadeiro mercado para professores do ensino superior. Além disso, tenho tido conhecimento de graves atropelos, se não da lei, pelo menos da ética, em matéria de concursos para professores a vários níveis. Por último, a investigação sairia beneficiada, pois o incesto intelectual seria vedado. O doutorado só se poderá candidatar à universidade onde se doutorou depois de provar que é capaz de "voar sozinho".
É de fora para dentro que as instituições de ensino superior se reformam e a obediência estrita a esta regra dará uma lufada de ar fresco que sacudiria muita poeira que existe nas nossas escolas superiores.
3. Terceira sugestão: a autogestão tem de acabar no ensino superior. Isto vem a propósito da lufada de ar fresco. É que a autogestão deu sempre maus resultados e não foi só na Jugoslávia. Os directores e reitores são eleitos, basicamente, por aqueles que devem dirigir, o que leva a um pecado original insanável. Dito de outro modo, falta accountability à sua gestão. As únicas áreas onde tal existe é na área financeira, onde há auditorias externas às contas, e na investigação, onde existem, felizmente, avaliações pela FCT com júris internacionais e independentes.
A designação e a responsabilização devem ser distintas e exteriores à instituição. Não vejo grandes problemas em admitir, por exemplo, um reitor que não seja um "professor da casa" ou até que nem seja académico. A propósito deste espírito corporativo, e como já sugeri publicamente há anos, o CRUP deve acabar nos moldes actuais. Deve haver uma instância de diálogo do ministério com as universidades, mas com outro enquadramento. Há bastante tempo, em conversa com um reitor de então, defendia exactamente isto e explicava que, estando de fora, tinha a sensação de que um terço dos membros do CRUP, reitores naturalmente, bajulava estudantes, colegas e funcionários porque tinha eleições à porta, outro terço deliciava-se em deitar cascas de banana ao ministro porque eles próprios eram candidatos a ministro e só o outro terço estava verdadeiramente preocupado com a universidade. Ao que o meu amigo reitor me respondeu: "Está muito enganado, não chegam a um terço!"
Nestas áreas da governância está em discussão um conjunto de reformas que devemos estudar atentamente. São apenas um pé da reforma mas uma parte importante. Pelo que já li, há aspectos positivos - designação do reitor, por exemplo -, mas nem se vai tão longe quanto o necessário e noutros aspectos deixa muito a desejar. Veremos.
Por último, a quarta sugestão é sujeitar as instituições do ensino superior a avaliações e acreditações académicas com júris internacionais. Sobre este ponto específico me pronunciei há duas semanas e - pese embora o gosto do meu ego para a autocitação - fico por aqui.
Vão dizer que ainda faltam mais umas vinte e sete outras medidas, mas estas quatro que proponho não custam dinheiro aos contribuintes e garantem uma pequena revolução. A eficiência do ensino superior daria um salto em poucos anos.
Com a mão-de-obra barata da China e da Índia, a nossa defesa não deve ser as tarifas alfandegárias mas antes a qualidade técnica e científica da nossa juventude e essa passa por um ensino superior de qualidade.
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Universidade
2007/05/11
O affaire Arroja (conclusão)
Aceito que os outros membros do Blasfémias se sintam incomodados por estes textos, mas tudo o que Pedro Arroja revela aí é um preconceito. Um preconceito injustificado e ofensivo, mas um preconceito assumido e pessoal de Pedro Arroja, ao qual se responde... tendo uma dupla precaução com os seus textos em relação a judeus. Nada mais do que isto. Pessoalmente eu tenho uma precaução de ordem muito elevada com os textos de ex-maoístas convertido(a)s ao liberalismo. Mas a precaução de ordem mais elevada que eu tenho é com os textos de pessoas que julgam que nunca têm nenhum tipo de preconceitos.
No caso concreto do Blasfémias, aceito que os outros autores se sentissem incomodados com os textos de Pedro Arroja (não um ou outro, mas quase todos, e esse era o problema). O que eu não aceito é que queiram passar por santos e imaculados (ou por vítimas). Pedro Arroja saiu porque as suas opiniões sobre o judaísmo eram incómodas para o status quo do blogue. E isto tem que ser assumido.
No caso concreto do Blasfémias, aceito que os outros autores se sentissem incomodados com os textos de Pedro Arroja (não um ou outro, mas quase todos, e esse era o problema). O que eu não aceito é que queiram passar por santos e imaculados (ou por vítimas). Pedro Arroja saiu porque as suas opiniões sobre o judaísmo eram incómodas para o status quo do blogue. E isto tem que ser assumido.
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Blogues
2007/05/10
O affaire Arroja (2)
A “dupla precaução” de Arroja com os judeus é errada por ser geral. À partida eu não tenho (e não se deve ter) um preconceito contra um judeu (ou outra etnia ou religião qualquer) por um texto sobre um tema arbitrário. Posso ter uma dupla precaução se achar que existe um conflito de interesses. Por exemplo, eu tenho uma dupla precaução ao ler textos de autores judeus sobre temas sensíveis para os judeus (como o conflito do Médio Oriente). Tal como tenho uma dupla precaução ao ler textos de autores católicos sobre temas sensíveis para os católicos. Uma dupla precaução: só isso e nada mais. Não deixo que tal precaução extra influencie o meu julgamento, e frequentemente tenho surpresas agradáveis.
O primeiro texto de Arroja é infeliz pela sua generalidade e por demonstrar um preconceito e por nos tentar convencer do mesmo. Mas qualquer pessoa pode ver que o que incomoda os autores do Blasfémias não é o preconceito em si, mas o facto de esse preconceito ser dirigido contra os judeus. Fosse o dito preconceito contra católicos ou muçulmanos e aposto que não haveria incómodo nenhum por parte dos autores do Blasfémias. Já lá foram publicadas entradas extremamente ofensivas para com os muçulmanos e ninguém se ofendeu.
Já o segundo texto é muito bom, lançando dados concretos (não se baseando em preconceitos). Gostaria de o ter escrito. No meio da histeria ficou por responder.
O primeiro texto de Arroja é infeliz pela sua generalidade e por demonstrar um preconceito e por nos tentar convencer do mesmo. Mas qualquer pessoa pode ver que o que incomoda os autores do Blasfémias não é o preconceito em si, mas o facto de esse preconceito ser dirigido contra os judeus. Fosse o dito preconceito contra católicos ou muçulmanos e aposto que não haveria incómodo nenhum por parte dos autores do Blasfémias. Já lá foram publicadas entradas extremamente ofensivas para com os muçulmanos e ninguém se ofendeu.
Já o segundo texto é muito bom, lançando dados concretos (não se baseando em preconceitos). Gostaria de o ter escrito. No meio da histeria ficou por responder.
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Blogues
2007/05/09
Lançamento - "Ardinas da mentira"

O meu amigo Renato Teixeira tinha um blogue, que apresentei aqui. O Renato escreveu entretanto um livro, Ardinas da Mentira, que foi apresentado no passado dia 24 de Abril em Lisboa, tendo entretanto vindo a ser apresentado noutras cidades do país. Nele o cidadão do mundo Renato relata a sua experiência de jornalista, em Portugal e noutros países. Pelo que já li, parece-me muito interessante. Amanhã o livro é apresentado na Coimbra de onde o Renato é originário, com a presença de José Mário Branco. Se estiverem em Coimbra apareçam.
Sobre as eleições francesas
A análise que faço da vitória de Sarkozy, da qual estou absolutamente convencido, é que será também uma vitória da propaganda sobre a comunicação. Existe a convicção de que na ausência dos grandes discursos ideológicos, o que é importante é a comunicação. Mas não é, porque já não há essas grandes ideologias em que as pessoas se decidem unicamente com pequenas frases, slogans, ou astúcias de comunicadores. Nicolas Sarkozy percebeu isso e fez um verdadeiro trabalho ideológico de preparação desta eleição. Fez da UMP um partido com uma tradição ideológica, um programa. (...)
A esquerda demonstrou não ter ideias claras sobre nada. Sobre todas as questões de fundo, as pessoas de esquerda estão divididas e não sabem o que dizer precisamente: sobre Europa, imigração e segurança. Há por exemplo uma parte da esquerda e do Partido Socialista que é securitária como Ségolène Royal. Não têm um projecto real. E o projecto de Ségolène Royal, o seu pacto presidencial, é em parte o antigo projecto socialista clássico, intervencionista, e em parte um projecto inspirado de Tony Blair. Mas não há nenhuma ligação entre os dois. Não há coerência. Enquanto Sarkozy tem um projecto liberal-conservador, ou liberal-autoritário, com uma coerência. A dinâmica liberal para os quadros superiores, as profissões liberais e os empresários; a segurança, a ordem, a autoridade para as classes populares. Essa é a receita da direita americana. (...)
A política faz-se com uma certa habilidade e com uma certa coerência. Podemos abrir-nos ao centro, mas sobre as questões de fundo. Ségolène falou muito pouco delas. Em vez disso, fez diligências politiqueiras propondo incluir num governo ministros da UDF e eventualmente um primeiro-ministro. Bayrou não teria existido se o PS tivesse apresentado um candidato ou uma candidata credível. Bayrou saiu do seu nicho de seis ou sete por cento porque o PS não tinha uma candidatura muito clara. O mal está feito. A França permanece um dos países mais à esquerda na Europa, mas esta é uma evolução importante.
(Eric Dupin, professor de Comunicação no Instituto de Ciência Política (Sciences Po) de Paris, Público, 6 de Maio de 2007.)
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França
2007/05/08
Smoke/don't smoke: a minha sentença
Sucedem-se as opiniões - 1, 2, 3 - sobre a proibição do tabaco em espaços fechados por parte de pessoas que eu respeito. Sobre este assunto, cheguei a uma conclusão: tenho muitas dúvidas em alinhar definitivamente por um dos lados. Vejo fundamentalistas dos dois lados. Mas quer fumar quer ir ao restaurante são hábitos burgueses. Nada com que alguém de esquerda se deva preocupar muito. Não vou perder muito mais tempo com o assunto.
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Ecologia
2007/05/07
O affaire Arroja (I)
Sem grande tempo para dedicar à blogosfera nos últimos dias, não queria deixar de comentar a saída de Pedro Arroja do Blasfémias, mesmo se com duas semanas de atraso.
Não sendo membro do blogue não me compete julgá-la, mas lamento deixar de contar com as opiniões de Pedro Arroja, mesmo se elas claramente destoavam no blogue. E lamento porque as referidas opiniões demonstravam claramente as incompatibilidades entre a tradição cultural católica (já nem sequer falo necessariamente do catolicismo), que é a portuguesa, e o liberalismo, da tradição anglo-saxónica. É claro que o “liberalismo” que Arroja apregoa (e que também se apregoa aqui – onde de resto Arroja nem ficava nada mal) é o completo liberalismo económico combinado com o conservadorismo na moral. Bem diferente, portanto, do liberalismo de um Carlos Abreu Amorim. Mas só pela irritação que Arroja causava aos seus colegas valia a pena lê-lo. Espero que volte.
Hei-de voltar a este assunto. Amanhã, espero, serão as eleições francesas.
Não sendo membro do blogue não me compete julgá-la, mas lamento deixar de contar com as opiniões de Pedro Arroja, mesmo se elas claramente destoavam no blogue. E lamento porque as referidas opiniões demonstravam claramente as incompatibilidades entre a tradição cultural católica (já nem sequer falo necessariamente do catolicismo), que é a portuguesa, e o liberalismo, da tradição anglo-saxónica. É claro que o “liberalismo” que Arroja apregoa (e que também se apregoa aqui – onde de resto Arroja nem ficava nada mal) é o completo liberalismo económico combinado com o conservadorismo na moral. Bem diferente, portanto, do liberalismo de um Carlos Abreu Amorim. Mas só pela irritação que Arroja causava aos seus colegas valia a pena lê-lo. Espero que volte.
Hei-de voltar a este assunto. Amanhã, espero, serão as eleições francesas.
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Blogues
2007/05/04
Mourinho
Parte de um texto muito oportuno, que eu gostaria de ter escrito. Por Bruno Prata no Público de hoje:
Mourinho é o melhor treinador português de todos os tempos. Não precisaria de fazer mais nada na sua carreira para merecer, desde já, essa distinção.
É verdade, no entanto, que ele é responsável por muitos dos anticorpos que ganhou. Uma coisa são os mind games em que tenta desestabilizar o adversário. Outra, bem diferente, é descer ao nível mostrado aquando do incidente da camisola de Rui Jorge. Ou, mais recentemente, quando questionou a cultura de Cristiano Ronaldo. Foi uma coisa rasteira e deselegante. E injusta para com um jogador a quem a vida não ofereceu as mesmas oportunidades que Mourinho teve. Ao não responder, Ronaldo mostrou-lhe que as boas escolas não são solução para tudo.
Mourinho é o expoente máximo do pragmatismo. E alguém que sempre percebeu que, no futebol, não se ganha com boas acções. Ele não está interessado em prémios de popularidade, sempre demasiado datados no tempo. Aprendeu-o em casa, se não pelo discurso, de certeza pelos exemplos que retirou da carreira do pai, tantas vezes vítima de injustiças, até no Setúbal.
Mas se é natural que tenha assimilado uma visão prática das coisas do futebol, já parece menos razoável que insista em vender a faceta de fanfarrão inveterado. Tudo o que é demasiado é moléstia e a verdade é que o reconhecimento do mérito do seu trabalho começa a ser minado por aquela imagem arrogante que ainda rende na publicidade, mas que lhe cria cada vez mais inimigos. "Mourinho só se dá bem com os que não lhe ganham", disse há dias Rafael Benítez. Alex Ferguson queixa-se mais ou menos do mesmo.
Por isso, é chegada a altura de Mourinho fazer um exame de consciência. E de mudar. Não a parte em se prepara e trabalha mais do que todos os outros treinadores. Nem aquela em que estimula os seus jogadores e transforma o seu balneário numa colmeia de operários solícitos e rendidos ao mestre. Nem sequer aquela em que deixa escapar, de supetão, duas ou três frases-chave que sabe antecipadamente irem sair nos títulos dos jornais. O que Mourinho precisa de resolver é a parte em que não respeita os adversários (...). Quando o fizer, até as vontades e as mudanças de humor de Abramovich deixarão de ter a mesma importância...
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Futebol
Ainda o teste político - ideologias europeias
Embora não concorde com a ordenação final no que às minhas primeiras posições políticas diz respeito, registo que as minhas primeiras seis posições são as de esquerda (as seis últimas são de direita). Exactamente o oposto dos insurgentes. É pena que ninguém tenha publicado as suas respostas, pergunta a pergunta (só o resultado final). Seria interessante ver o André Azevedo Alves a defender explicitamente o apoio do Estado a (certas) religiões.
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Política
2007/05/03
Filipe Moura, social-democrata?
Os meus resultados no teste que é proposto por O Insurgente (façam-no vocês também):
#1 You are a social democrat. Like other socialists, you believe in a more economically equal society - but you have jettisoned any belief in the idea of the planned economy. You believe in a mixed economy, where the state provides certain key services and where the productivity of the market is harnessed for the good of society as a whole. Many social democrats are hard to distinguish from social liberals, and they share a tolerant social outlook.
#2 You are an ecologist or green. You believe that the single greatest challenge of our time is the threat to our natural environment, and you feel that radical action must be taken to protect it - whether in the enlightened self-interest of humanity (in the tradition of 'shallow ecologism') or, more radically, from the perspective of the ecosystem as a whole, without treating humans as the central species (deep ecologism).
#3 You are a classical socialist, believing in equality of outcome as a principle. This might mean greater equality (e.g. Old Labour), or as close to absolute equality as possible. However, you will believe in an extensive public sector, covering not just public services (transport, healthcare etc.) but probably also the 'commanding heights' of industry (e.g. iron and steel). Your views on personal morality will be reasonably tolerant, in general, but there is considerable variation within this political group.
#4 You are a communist. You believe, at least in theory, in absolute equality of income - and you oppose the whole capitalist system per se. You want to abolish the market economy and replace it with one in which the workers (usually meaning the state) control the building blocks of the economy. Your views on personal morality will vary; traditional communists tended to be more authoritarian, while modern "eurocommunists" tend to take a liberal line.
#5 You adhere to the Third Way. The Third Way is a fairly nebulous concept, but it rests on the idea of combining economic efficiency - i.e. a market economy with some intervention - with social responsibility. The focus is emphatically on the community as a whole, and not necessarily equality per se. Adherents of the Third Way range from moderate to conservative in their social views, and have recently been willing to take a "tough" line on a range of social issues.
#6 You are an anarcho-communist, aiming for a society without the state, based on small, decentralised groups living communally.
#7 You are a fascist. You combine a strong belief in the nation with authoritarian social values, and a willingness to impose your views upon others. You strongly oppose immigration, and are willing to take radical action to combat it.
#8 You are a social liberal. Like all liberals, you believe in individual freedom as a central objective - but you believe that lack of economic opportunity, education, healthcare etc. can be just as damaging to liberty as can an oppressive state. As a result, social liberals are generally the most outspoken defenders of human rights and civil liberties, and combine this with support for a mixed economy, with an enabling state providing public services to ensure that people's social rights as well as their civil liberties are upheld.
#9 You are a Christian democrat - or, in the UK, a "One Nation conservative"; in other words, although you share the usual conservative belief in stability and duty, you believe that such duties include a responsibility on the part of the better-off to help those who are less fortunate. You will be socially conservative, but in favour of a mixed economy where the state does have a role in providing public services. Christian democracy arose after World War II, succeeding more doctrinaire Catholic parties dating from the 1870s.
#10 You are a libertarian conservative. You hold that the free market is the best way of organising economic activity, but you combine this with adherence to more traditional social values of authority and duty.
#11 You are a market liberal. You adhere to the traditional liberal belief in freedom, and take this to mean negative rather than positive freedom - i.e. a slimmed-down state is the best guarantor of freedom. You will therefore support a laissez-faire economic policy, and you will be reasonably tolerant on the social front - though less emphatically so than social liberals.
#12 You are an anarcho-capitalist. Anarcho-capitalists take the Jeffersonian belief that "that government is best which governs least", and extend it - "that government is best which governs not at all". The theory of anarcho-capitalism is that the market can replace the state as a regulator of individual behaviour (resulting in private courts, private policing etc.).
#1 You are a social democrat. Like other socialists, you believe in a more economically equal society - but you have jettisoned any belief in the idea of the planned economy. You believe in a mixed economy, where the state provides certain key services and where the productivity of the market is harnessed for the good of society as a whole. Many social democrats are hard to distinguish from social liberals, and they share a tolerant social outlook.
#2 You are an ecologist or green. You believe that the single greatest challenge of our time is the threat to our natural environment, and you feel that radical action must be taken to protect it - whether in the enlightened self-interest of humanity (in the tradition of 'shallow ecologism') or, more radically, from the perspective of the ecosystem as a whole, without treating humans as the central species (deep ecologism).
#3 You are a classical socialist, believing in equality of outcome as a principle. This might mean greater equality (e.g. Old Labour), or as close to absolute equality as possible. However, you will believe in an extensive public sector, covering not just public services (transport, healthcare etc.) but probably also the 'commanding heights' of industry (e.g. iron and steel). Your views on personal morality will be reasonably tolerant, in general, but there is considerable variation within this political group.
#4 You are a communist. You believe, at least in theory, in absolute equality of income - and you oppose the whole capitalist system per se. You want to abolish the market economy and replace it with one in which the workers (usually meaning the state) control the building blocks of the economy. Your views on personal morality will vary; traditional communists tended to be more authoritarian, while modern "eurocommunists" tend to take a liberal line.
#5 You adhere to the Third Way. The Third Way is a fairly nebulous concept, but it rests on the idea of combining economic efficiency - i.e. a market economy with some intervention - with social responsibility. The focus is emphatically on the community as a whole, and not necessarily equality per se. Adherents of the Third Way range from moderate to conservative in their social views, and have recently been willing to take a "tough" line on a range of social issues.
#6 You are an anarcho-communist, aiming for a society without the state, based on small, decentralised groups living communally.
#7 You are a fascist. You combine a strong belief in the nation with authoritarian social values, and a willingness to impose your views upon others. You strongly oppose immigration, and are willing to take radical action to combat it.
#8 You are a social liberal. Like all liberals, you believe in individual freedom as a central objective - but you believe that lack of economic opportunity, education, healthcare etc. can be just as damaging to liberty as can an oppressive state. As a result, social liberals are generally the most outspoken defenders of human rights and civil liberties, and combine this with support for a mixed economy, with an enabling state providing public services to ensure that people's social rights as well as their civil liberties are upheld.
#9 You are a Christian democrat - or, in the UK, a "One Nation conservative"; in other words, although you share the usual conservative belief in stability and duty, you believe that such duties include a responsibility on the part of the better-off to help those who are less fortunate. You will be socially conservative, but in favour of a mixed economy where the state does have a role in providing public services. Christian democracy arose after World War II, succeeding more doctrinaire Catholic parties dating from the 1870s.
#10 You are a libertarian conservative. You hold that the free market is the best way of organising economic activity, but you combine this with adherence to more traditional social values of authority and duty.
#11 You are a market liberal. You adhere to the traditional liberal belief in freedom, and take this to mean negative rather than positive freedom - i.e. a slimmed-down state is the best guarantor of freedom. You will therefore support a laissez-faire economic policy, and you will be reasonably tolerant on the social front - though less emphatically so than social liberals.
#12 You are an anarcho-capitalist. Anarcho-capitalists take the Jeffersonian belief that "that government is best which governs least", and extend it - "that government is best which governs not at all". The theory of anarcho-capitalism is that the market can replace the state as a regulator of individual behaviour (resulting in private courts, private policing etc.).
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Política
2007/05/02
Resumo da minha jornada de protesto
A manife dos precários começava na Alameda D. Afonso Henriques, mas eu decidi começar por passar pela Alameda da Universidade de Lisboa. Estava tudo animado, apesar da chuva, com stands de diversas origens. Destaques para a gastronomia na Casa do Alentejo e na Associação de Amizade Portugal-Cuba.
Os trabalhadores protestam contra a globalização, mas a música que dá o tom é o Manu Chao. Já fui a manifestações em três países diferentes, e nos últimos anos é sempre ao som do Manu Chao. Mais global não poderia ser.
Percorro a Av. do Brasil e a Av. de Roma em busca da manifestação geral, que vinha do estádio 1º de Maio.
Havia na manifestação um sector de trabalhadores do Bloco de Esquerda (com símbolo do partido e tudo). Havia ainda um carro do PCP parado fora da manifestação, que tocava o hino do partido enquanto eram distribuídos folhetos da Festa do Avante! 2007. Tudo isto... à porta do Hospital Júlio de Matos.
A ABIC (bolseiros de investigação científica) vinha à cabeça. Os trabalhadores precários vinham mesmo no fim. Não sei qual terá sido a origem desta separação, uma vez que os bolseiros são também precários e era para ter vindo tudo junto. Espero que não tenha havido sectarismo. Deixei-me estar junto aos precários. Também lá havia cientistas.
No regresso à Alameda da Universidade, a música tinha sido substituída por palavras de ordem como "com políticas de direita o país não se endireita", "flexisegurança para o capital encher a pança", "greve geral contra o que está mal", "Sócrates escuta, o povo está em luta". Tudo repetido quatro vezes por um homem e uma mulher de voz mais esganiçada que a Daniela Ruah. Achei que era demais para mim e vim-me embora, com saudades do Manu Chao.
Os trabalhadores protestam contra a globalização, mas a música que dá o tom é o Manu Chao. Já fui a manifestações em três países diferentes, e nos últimos anos é sempre ao som do Manu Chao. Mais global não poderia ser.
Percorro a Av. do Brasil e a Av. de Roma em busca da manifestação geral, que vinha do estádio 1º de Maio.
Havia na manifestação um sector de trabalhadores do Bloco de Esquerda (com símbolo do partido e tudo). Havia ainda um carro do PCP parado fora da manifestação, que tocava o hino do partido enquanto eram distribuídos folhetos da Festa do Avante! 2007. Tudo isto... à porta do Hospital Júlio de Matos.
A ABIC (bolseiros de investigação científica) vinha à cabeça. Os trabalhadores precários vinham mesmo no fim. Não sei qual terá sido a origem desta separação, uma vez que os bolseiros são também precários e era para ter vindo tudo junto. Espero que não tenha havido sectarismo. Deixei-me estar junto aos precários. Também lá havia cientistas.
No regresso à Alameda da Universidade, a música tinha sido substituída por palavras de ordem como "com políticas de direita o país não se endireita", "flexisegurança para o capital encher a pança", "greve geral contra o que está mal", "Sócrates escuta, o povo está em luta". Tudo repetido quatro vezes por um homem e uma mulher de voz mais esganiçada que a Daniela Ruah. Achei que era demais para mim e vim-me embora, com saudades do Manu Chao.
2007/05/01
Guerra dos sexos ou defesa do trabalhador?
Dedicados a todos os trabalhadores e trabalhadoras. Protejam-se dos patrões e exploradores, mas tenham também cautela com os vossos patrões supostamente "progressistas" que estão mais interessados na "causa" em geral do que em vocês em concreto. Nunca sejam usados como um objecto!
2007/04/30
Precários de todo o mundo, rebelai-vos!

Amanhã, no Dia Mundial (excepto nos EUA) do Trabalhador, vamos ver os precários (bolseiros de investigação científica incluídos) a manifestarem-se em Lisboa. Eu estarei lá.
33 anos - Abril sempre

Bolo de comemoração dos 33 anos da Revolução dos Cravos, Arraial do 25 de Abril, Largo do Carmo, Lisboa, 2007
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Portugal
2007/04/28
Food in New York
Dois queridos amigos seguem esta semana para Nova Iorque e eu não quis deixar de lhes dar as minhas recomendações sobre os locais a visitar e os restaurantes onde comer.
Nova Iorque é a capital mundial da diversidade, e isso reflecte-se nos restaurantes. Dificilmente se encontram, no mesmo sítio, tantas cozinhas juntas de origens tão diferentes, reflectindo bem o que é a cidade. Mas a oferta é tanta que é difícil fazer as melhores escolhas, principalmente se não se conhece a cidade e se tem um número limitado de dias.
Para encontrar um bom restaurante em Nova Iorque eu seguia as recomendações da Time Out New York (da revista semanal, quando a lia, mas especialmente do guia de estudantes) e de uma página especializada, o Citysearch. Nunca me arrependi. Segue-se uma lista de alguns dos meus restaurantes preferidos na cidade. Relativamente baratos e bons, com ligações para o Citysearch.
Almoço
No coração de Chinatown, o meu restaurante chinês favorito no mundo inteiro: o New Chao Chow. às vezes pode demorar a conseguir uma mesa (por isso é melhor ao alomço), mas o mercado funciona. Tanta procura significa que o sítio é mesmo muito bom.
Na Amsterdam Avenue há diversos restaurantes hispânicos, ou latinos (da América do Sul) que vale a pena tentar (um deles é o Flor de Mayo mas há outros). Podem comer-se iguarias cubanas como Ropa Vieja e a autêntica banana frita, que deve ser confeccionada com bananas gigantes ("plátanos" em espanhol) às rodelas.
Perto da belíssima Universidade de Columbia, e da Catedral St. John The Divine, o mítico Tom's Restaurant, da série Seinfeld e da canção de Suzanne Vega. Um must para os amantes da cidade e da sua cultura popular. Comida americana caseira - um diner típico. Servem bom peixe grelhado (quando têm).
Jantar
Em Chelsea, um dos mais autênticos restaurantes italianos, o Pepe Giallo. Excelentes pastas e pratos de carne. No diet coke, no skimmed milk, only good food é o lema. É o único sítio nos EUA que eu conheço que serve café Segafredo.
Outra vez perto da Universidade de Columbia, o Symposium. Comida grega excelente. Decoração magnífica, com um pátio nas traseiras com um jardim (algo que nem todos os clientes conhecem, mas que eu recomendo para tomar a refeição).
Perto da Union Square, o Chat 'n' Chew. Comida americana do sul (autêntica, muito boa - recomendo vivamente a jambalaya e o honey roasted chicken).
Bom apetite, e espero que não se queixem da comida americana!
Nova Iorque é a capital mundial da diversidade, e isso reflecte-se nos restaurantes. Dificilmente se encontram, no mesmo sítio, tantas cozinhas juntas de origens tão diferentes, reflectindo bem o que é a cidade. Mas a oferta é tanta que é difícil fazer as melhores escolhas, principalmente se não se conhece a cidade e se tem um número limitado de dias.
Para encontrar um bom restaurante em Nova Iorque eu seguia as recomendações da Time Out New York (da revista semanal, quando a lia, mas especialmente do guia de estudantes) e de uma página especializada, o Citysearch. Nunca me arrependi. Segue-se uma lista de alguns dos meus restaurantes preferidos na cidade. Relativamente baratos e bons, com ligações para o Citysearch.
Almoço
No coração de Chinatown, o meu restaurante chinês favorito no mundo inteiro: o New Chao Chow. às vezes pode demorar a conseguir uma mesa (por isso é melhor ao alomço), mas o mercado funciona. Tanta procura significa que o sítio é mesmo muito bom.
Na Amsterdam Avenue há diversos restaurantes hispânicos, ou latinos (da América do Sul) que vale a pena tentar (um deles é o Flor de Mayo mas há outros). Podem comer-se iguarias cubanas como Ropa Vieja e a autêntica banana frita, que deve ser confeccionada com bananas gigantes ("plátanos" em espanhol) às rodelas.
Perto da belíssima Universidade de Columbia, e da Catedral St. John The Divine, o mítico Tom's Restaurant, da série Seinfeld e da canção de Suzanne Vega. Um must para os amantes da cidade e da sua cultura popular. Comida americana caseira - um diner típico. Servem bom peixe grelhado (quando têm).
Jantar
Em Chelsea, um dos mais autênticos restaurantes italianos, o Pepe Giallo. Excelentes pastas e pratos de carne. No diet coke, no skimmed milk, only good food é o lema. É o único sítio nos EUA que eu conheço que serve café Segafredo.
Outra vez perto da Universidade de Columbia, o Symposium. Comida grega excelente. Decoração magnífica, com um pátio nas traseiras com um jardim (algo que nem todos os clientes conhecem, mas que eu recomendo para tomar a refeição).
Perto da Union Square, o Chat 'n' Chew. Comida americana do sul (autêntica, muito boa - recomendo vivamente a jambalaya e o honey roasted chicken).
Bom apetite, e espero que não se queixem da comida americana!
2007/04/27
A Dia D e o pluralismo da imprensa
Em Agosto do ano passado, publiquei aqui dois textos (que deram muita polémica) onde denunciava o carácter parcial e propagandístico do então suplemento semanal do Público “DiaD”, pelo menos no que à opinião publicada dizia respeito. Esses textos deram azo às mais indignadas reacções, mas nunca ninguém desmentiu as minhas afirmações. Nem podiam.
Um dos principais animadores da revista veio agora finalmente confirmar o que já sabíamos: a Dia D não era politicamente independente. Mesmo que indirectamente, e tantos meses depois (até a revista já acabou...), é bom vê-lo a reconhecer tal facto.
Um dos principais animadores da revista veio agora finalmente confirmar o que já sabíamos: a Dia D não era politicamente independente. Mesmo que indirectamente, e tantos meses depois (até a revista já acabou...), é bom vê-lo a reconhecer tal facto.
Problemas informáticos
Problemas com o computador com que geralmente trabalho têm-me impedido de actualizar o blogue. Espero ter o problema resolvido ainda hoje.
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Pessoal
2007/04/25
Salazar e as eleições
Aproveito o dia de hoje para recordar um pouco de História que tem andado muito esquecida (ou não foi bem aprendida), com um texto de há um mês atrás, publicado na imprensa e em alguns blogues.
Agora que Salazar parece em vias de ganhar pela primeira vez uma "eleição", e logo contra o Afonso Henriques, convém lembrar como eram as votações quando ele era vivo.
No que diz respeito à aprovação da Constituição de 1933, foi simples. As abstenções contaram a favor. A maioria foi esmagadora. Os portugueses nem precisaram de sair de suas casas para exprimir a sua "vontade".
Nas eleições legislativas o método também era infalivel. Nas eleições de 1957, por exemplo, em Lisboa, na véspera da eleição, os responsáveis pelas mesas eleitorais foram chamados ao Governo Civil onde receberam a indicação do resultado da votação do dia seguinte com uma margem de erro de 2 %. Assim, na freguesia de São João da Pedreira o resultado devia ser 56 ou 57%.
No dia seguinte houve guarda republicanos que andaram pelas mesas de voto a levar pacotes de votos de "guardas que estavam de piquete", que foram metidos nas urnas pelos presidentes das mesas. Mas isto teve uma relativa pouca importância.
Perto do fim, depois de assegurada a ausência de testemunhas inconvenientes, os elementos das mesas multiplicaram o número total de eleitores por 0,57 e dividiram o resultado pelo número de páginas dos cadernos eleitorais. Tiveram, assim, o número de eleitores de cada página que "deviam votar".
Procederam, então, sem se preocupar em lançar votos nas urnas, à operação de "compor os cadernos eleitorais", descarregando conscenciosamente nos dois cadernos o conveniente número de eleitores que "tinham" votado. A operação foi acompanhada de comentários do tipo: " Este é comunista, mas desta vez vai votar no governo".
Depois, enviaram para o Governo Civil um documento a dizer: "Percentagem de eleitores: 57%." Mas não se ficaram por aqui: abriram as urnas, contaram os votos, e enviaram para o Governo Civil um outro documento a dizer." Percentagem real de eleitores, tantos por cento" .
No caso concreto de uma mesa, a percentagem real de eleitores, incluindo os votos dos "guardas de piquete" e 50 votos riscados foi de 28 %, mas os elementos da mesa enviaram um documento a dizer que a "percentagem real", era de 30 %. É provavel que, quando chegasse ao Salazar, esta percentagem já fosse um bocadito mais alta.
Fui testemunha parcial destes factos em 1957. Uma outra testemunha foi o escritor Luis Pacheco a quem envio, 50 anos depois, as minhas saudações e que devia ser agora ouvido. Como comentador da "eleição de Salazar" e porque pode confirmar factos importantes para esclarecer um país que, 30 anos depois do 25 de Abril, ainda está muito mal informado.
Que, ao falar nas eleições do "antigamente", ainda fala em chapeladas, como se a fraude "dos guardas que estavam de piquete" e de uns tantos legionários fosse a mais importante. Salazar era muito mais subtil. Quarenta anos depois de morto, ainda engana o país.
E não só. Quando em Novembro de 1957 cheguei a França vi que os jornais franceses analisavam a situação portuguesa a partir do resultado de 57% de votos obtidos pelo governo nas últimas eleições legislativas.
(António Brotas, 21/03/2007)
Agora que Salazar parece em vias de ganhar pela primeira vez uma "eleição", e logo contra o Afonso Henriques, convém lembrar como eram as votações quando ele era vivo.
No que diz respeito à aprovação da Constituição de 1933, foi simples. As abstenções contaram a favor. A maioria foi esmagadora. Os portugueses nem precisaram de sair de suas casas para exprimir a sua "vontade".
Nas eleições legislativas o método também era infalivel. Nas eleições de 1957, por exemplo, em Lisboa, na véspera da eleição, os responsáveis pelas mesas eleitorais foram chamados ao Governo Civil onde receberam a indicação do resultado da votação do dia seguinte com uma margem de erro de 2 %. Assim, na freguesia de São João da Pedreira o resultado devia ser 56 ou 57%.
No dia seguinte houve guarda republicanos que andaram pelas mesas de voto a levar pacotes de votos de "guardas que estavam de piquete", que foram metidos nas urnas pelos presidentes das mesas. Mas isto teve uma relativa pouca importância.
Perto do fim, depois de assegurada a ausência de testemunhas inconvenientes, os elementos das mesas multiplicaram o número total de eleitores por 0,57 e dividiram o resultado pelo número de páginas dos cadernos eleitorais. Tiveram, assim, o número de eleitores de cada página que "deviam votar".
Procederam, então, sem se preocupar em lançar votos nas urnas, à operação de "compor os cadernos eleitorais", descarregando conscenciosamente nos dois cadernos o conveniente número de eleitores que "tinham" votado. A operação foi acompanhada de comentários do tipo: " Este é comunista, mas desta vez vai votar no governo".
Depois, enviaram para o Governo Civil um documento a dizer: "Percentagem de eleitores: 57%." Mas não se ficaram por aqui: abriram as urnas, contaram os votos, e enviaram para o Governo Civil um outro documento a dizer." Percentagem real de eleitores, tantos por cento" .
No caso concreto de uma mesa, a percentagem real de eleitores, incluindo os votos dos "guardas de piquete" e 50 votos riscados foi de 28 %, mas os elementos da mesa enviaram um documento a dizer que a "percentagem real", era de 30 %. É provavel que, quando chegasse ao Salazar, esta percentagem já fosse um bocadito mais alta.
Fui testemunha parcial destes factos em 1957. Uma outra testemunha foi o escritor Luis Pacheco a quem envio, 50 anos depois, as minhas saudações e que devia ser agora ouvido. Como comentador da "eleição de Salazar" e porque pode confirmar factos importantes para esclarecer um país que, 30 anos depois do 25 de Abril, ainda está muito mal informado.
Que, ao falar nas eleições do "antigamente", ainda fala em chapeladas, como se a fraude "dos guardas que estavam de piquete" e de uns tantos legionários fosse a mais importante. Salazar era muito mais subtil. Quarenta anos depois de morto, ainda engana o país.
E não só. Quando em Novembro de 1957 cheguei a França vi que os jornais franceses analisavam a situação portuguesa a partir do resultado de 57% de votos obtidos pelo governo nas últimas eleições legislativas.
(António Brotas, 21/03/2007)
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Portugal
2007/04/24
Diz que é uma espécie de manifesto de esquerda
Correu a blogosfera um “manifesto das esquerdas por Israel”, tendo sido divulgado pelo meu muito prezado Tiago Barbosa Ribeiro. Fosse só mais um “manifesto por Israel”, e eu nem lhe prestaria atenção nenhuma. Mas sendo um manifesto “das esquerdas”, julgo que merece a nossa atenção.
Na origem do manifesto está a expulsão de um militante do Bloco Nacionalista Galego. O episódio foi-nos explicado pelo Tiago (sempre atento a estas questões) em termos algo vagos: a expulsão deveu-se a o ex-militante ser dirigente da Associação Galega de Amizade com Israel e “defender o estado de Israel” (defender como?). O que não explica muito, mas (sem querer julgar em definitivo um caso que não conheço) parece-me suficiente para eu não concordar com a sua expulsão, se pertencesse ao referido partido. É possível (e desejável) ser de esquerda e procurar a cooperação com sectores moderados de Israel, que existem, embora sejam escassos.
Mesmo assim, o referido manifesto não pode merecer a minha concordância. E porquê? Porque objectivamente é um manifesto de apoio a Israel e à sua política expansionista e colonialista. Um manifesto de esquerda em apoio a Israel poderia ter feito sentido noutras ocasiões, quando Israel era atacado e teve de se defender. Mas, na sequência da Guerra dos Seis Dias, Israel ocupou (e ocupa, até hoje) ilegalmente territórios que não são seus. Para além disso Israel controla todas as actividades económicas dos territórios palestinianos, cobrando impostos, comissões e portagens e mantendo monopólios no abastecimento. Israel não é um estado laico, não concedendo direitos de cidadania plena aos seus cidadãos não judeus. Israel é um estado colonialista, e é o estado que mais sistematicamente viola as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Por isso, não creio que um estado como Israel possa merecer mais apoio de quem se diz de esquerda que não seja simplesmente ao direito a defender-se dos ataques que recebe. É este, e só este, o apoio que eu dou a Israel. Mas não é essa a política externa de Israel, que está muito longe de ser uma mera política de defesa.
Tal como no manifesto, também eu defendo um reposicionamento da esquerda relativamente a Israel, só apoiando este estado na situação que referi (o que equivale a não apoiar a sua política externa e mesmo interna). Também julgo que o que aqui afirmo deve ser dito com “clareza” a Israel. A esquerda não tem (nem deve) de fazer nenhum tipo de cedência relativamente a Israel. É Israel que tem de vir ao encontro da esquerda, se quiser efectivamente o seu apoio.
O Tiago enumerou ontem as pessoas que apoiaram na blogosfera portuguesa o manifesto que ele lançou. É curioso que entre os apoiantes (de um manifesto “das esquerdas”) se contem mais pessoas de direita do que de esquerda, sendo que entre as primeiras está André Azevedo Alves, que recentemente se destacou como o maior defensor na blogosfera portuguesa de Salazar para o “maior português de sempre”. Já todos sabíamos que Israel era apoiado pela direita belicista, religiosa e fundamentalista. O que é curioso é que, em Portugal, essa direita é descendente da Inquisição e de quem expulsou do nosso país os judeus (a começar justamente pelo ultracatólico Azevedo Alves)! Servir como arma de arremesso e instrumento de chantagem da direita e da extrema direita, como este texto tão bem ilustra: é a isso que Israel chegou.
Publicado também no Cinco Dias.
Na origem do manifesto está a expulsão de um militante do Bloco Nacionalista Galego. O episódio foi-nos explicado pelo Tiago (sempre atento a estas questões) em termos algo vagos: a expulsão deveu-se a o ex-militante ser dirigente da Associação Galega de Amizade com Israel e “defender o estado de Israel” (defender como?). O que não explica muito, mas (sem querer julgar em definitivo um caso que não conheço) parece-me suficiente para eu não concordar com a sua expulsão, se pertencesse ao referido partido. É possível (e desejável) ser de esquerda e procurar a cooperação com sectores moderados de Israel, que existem, embora sejam escassos.
Mesmo assim, o referido manifesto não pode merecer a minha concordância. E porquê? Porque objectivamente é um manifesto de apoio a Israel e à sua política expansionista e colonialista. Um manifesto de esquerda em apoio a Israel poderia ter feito sentido noutras ocasiões, quando Israel era atacado e teve de se defender. Mas, na sequência da Guerra dos Seis Dias, Israel ocupou (e ocupa, até hoje) ilegalmente territórios que não são seus. Para além disso Israel controla todas as actividades económicas dos territórios palestinianos, cobrando impostos, comissões e portagens e mantendo monopólios no abastecimento. Israel não é um estado laico, não concedendo direitos de cidadania plena aos seus cidadãos não judeus. Israel é um estado colonialista, e é o estado que mais sistematicamente viola as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Por isso, não creio que um estado como Israel possa merecer mais apoio de quem se diz de esquerda que não seja simplesmente ao direito a defender-se dos ataques que recebe. É este, e só este, o apoio que eu dou a Israel. Mas não é essa a política externa de Israel, que está muito longe de ser uma mera política de defesa.
Tal como no manifesto, também eu defendo um reposicionamento da esquerda relativamente a Israel, só apoiando este estado na situação que referi (o que equivale a não apoiar a sua política externa e mesmo interna). Também julgo que o que aqui afirmo deve ser dito com “clareza” a Israel. A esquerda não tem (nem deve) de fazer nenhum tipo de cedência relativamente a Israel. É Israel que tem de vir ao encontro da esquerda, se quiser efectivamente o seu apoio.
O Tiago enumerou ontem as pessoas que apoiaram na blogosfera portuguesa o manifesto que ele lançou. É curioso que entre os apoiantes (de um manifesto “das esquerdas”) se contem mais pessoas de direita do que de esquerda, sendo que entre as primeiras está André Azevedo Alves, que recentemente se destacou como o maior defensor na blogosfera portuguesa de Salazar para o “maior português de sempre”. Já todos sabíamos que Israel era apoiado pela direita belicista, religiosa e fundamentalista. O que é curioso é que, em Portugal, essa direita é descendente da Inquisição e de quem expulsou do nosso país os judeus (a começar justamente pelo ultracatólico Azevedo Alves)! Servir como arma de arremesso e instrumento de chantagem da direita e da extrema direita, como este texto tão bem ilustra: é a isso que Israel chegou.
Publicado também no Cinco Dias.
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Cinco Dias,
Esquerda,
Médio Oriente
2007/04/23
Eusébio em muito boas mãos
Lembro-me da história de Ronald Reagan, que quando foi vítima de um atentado e teve de ser operado de urgência, quis saber se os seus médicos eram republicanos ou democratas. Será que Eusébio quis saber se os seus médicos eram benfiquistas? O médico que o atendeu na urgência (e o acompanhou ontem) chamava-se, nem mais nem menos, José Roquette, pelo que a probabilidade de decepção era alta!
Desejo as melhoras e uma rápida recuperação ao Pantera Negra.
Desejo as melhoras e uma rápida recuperação ao Pantera Negra.
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Futebol
É da cor das cadeiras, seus cagaréus desconfiados!
Quis o destino que os meus dois clubes favoritos tivessem os estádios, construídos para o Euro 2004, desenhados pelo mesmo arquitecto, Tomás Taveira. Que é como quem diz: quis o destino que os meus dois clubes favoritos tivessem os estádios mais feios. O do Sporting, como é bem sabido, de fora parece uma casa de banho. O do Beira Mar consegue não ser tão mau, mas (como era de se esperar) tem uma combinação de cores berrantíssimas.
O Sporting, entretanto, lá chegou à final da Taça, como era a sua obrigação. No rescaldo desse jogo, o Beira Mar quer conferir o número de espectadores pagantes da partida de Alvalade, uma vez que no estádio lhes parecia estarem muito mais pessoas. Mas será que eles não sabem que um dos taveirismos mais característicos destes estádios é terem uma cadeira de cada cor (aleatoriamente distribuídas, de muitas cores diferentes)? Será que não sabem que um dos efeitos que tal taveirismo causa é, para quem está no campo, a ilusão de a assistência ser maior? Deveriam saber, pois têm o mesmo no estádio deles (que por sinal costuma estar bem vazio).
Vejam é se ganham à Académica!
O Sporting, entretanto, lá chegou à final da Taça, como era a sua obrigação. No rescaldo desse jogo, o Beira Mar quer conferir o número de espectadores pagantes da partida de Alvalade, uma vez que no estádio lhes parecia estarem muito mais pessoas. Mas será que eles não sabem que um dos taveirismos mais característicos destes estádios é terem uma cadeira de cada cor (aleatoriamente distribuídas, de muitas cores diferentes)? Será que não sabem que um dos efeitos que tal taveirismo causa é, para quem está no campo, a ilusão de a assistência ser maior? Deveriam saber, pois têm o mesmo no estádio deles (que por sinal costuma estar bem vazio).
Vejam é se ganham à Académica!
2007/04/21
Eleições em França: ando com uma cara!
A escolha é difícil. Tal como o Rui Curado Silva, e precisamente pelos mesmos motivos, penso que o melhor candidato a estas eleições (visto de fora, pelo menos) é a ecologista Dominique Voynet, pelos motivos que o Rui aponta. Não é propriamente uma novidade, mas as novidades desta campanha são poucas e más.
Só que estas não são eleições legislativas. Só uma pessoa será escolhida, o Presidente da República. A esquerda francesa não pode cometer o mesmo erro de 2002 (apesar de o número de candidatos não ser muito inferior). Para evitar ter, pela segunda vez consecutiva, na segunda volta um candidato de direita e um de extrema direita (ou, pior ainda, dois candidatos de extrema direita), acho que se fosse francês acabaria por votar, muito a contragosto, em Ségolène Royal. Só que nunca, em nenhuma outra eleição, me sentiria tanto como o pai da Liberdade (da clássica tira de Quino) como nesta. Isto partindo do pressuposto que Ségolène ganha, o que está longe de ser adquirido!
Só que estas não são eleições legislativas. Só uma pessoa será escolhida, o Presidente da República. A esquerda francesa não pode cometer o mesmo erro de 2002 (apesar de o número de candidatos não ser muito inferior). Para evitar ter, pela segunda vez consecutiva, na segunda volta um candidato de direita e um de extrema direita (ou, pior ainda, dois candidatos de extrema direita), acho que se fosse francês acabaria por votar, muito a contragosto, em Ségolène Royal. Só que nunca, em nenhuma outra eleição, me sentiria tanto como o pai da Liberdade (da clássica tira de Quino) como nesta. Isto partindo do pressuposto que Ségolène ganha, o que está longe de ser adquirido!
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França
2007/04/20
Cara Fernanda Câncio:
Não se preocupe com textos escritos com os pés. Responda-me antes a uma questão, sff. Isso da esquerda por israel (eu, por exemplo, às vezes) o que quer exactamente dizer? A Fernanda é às vezes por Israel? Ou é às vezes de esquerda? Ou é às vezes uma coisa, às vezes a outra?
(E continue a chatear. Chateie sempre. Não chateia nada.)
(E continue a chatear. Chateie sempre. Não chateia nada.)
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Blogues,
Esquerda,
Médio Oriente
2007/04/19
Mais um massacre na terra das oportunidades (III)
Respondo agora a dois blogues que me interpelaram sobre o primeiro texto desta série.
Caro André, não desmentiste que o controlo do porte de armas diminui (não vou ao ponto de dizer que resolve) a violência, pois não? Para já é só isso que se quer: diminuir a violência num país que tem tudo para ser seguro, mas não é mais graças a incidentes como este.
Caro Pedro, existem muitas tensões entre a liberdade individual e outros valores importantes, como a igualdade (não é só a segurança). Eu não sou liberal e nem libertário, pelo que para mim a liberdade individual não é o valor supremo.
Partilho o interesse do Pedro pelas pessoas “que estão permanentemente a apelar ao respeito pelas formas organizacionais societárias árabes e outras" mas que, "sempre que estas desgraças acontecem", põem "em causa os princípios básicos da organização social norte-americana”. Mas certamente não sou eu que apelo ao respeito incondicional pela organização tradicional das sociedades árabes, como pode certamente ser confirmado por alguns dos meus textos, neste e noutros blogues.
Deduzir que, por eu ser de esquerda, sou necessariamente um defendor dessa organização, nessa e noutras sociedades, é assim como deduzir que, lá por se escrever na “Atlântico”, é-se necessariamente contra a despenalização do aborto. Não é, Pedro?
Sei perfeitamente que o porte livre de armas é (infelizmente) um princípio fundador da sociedade americana. Conheço eleitores de Ralph Nader que não são a favor do controlo de tal porte. Mas não é isso que me impede de defender que uma sociedade com livre porte de armas de fogo é, tal como uma sociedade onde as mulheres são obrigadas a usar um véu independentemente da sua vontade, contra os meus princípios. Contra ambos lutarei, pouco me importando em ambos os casos com a “liberdade individual” que (como em todas as sociedades liberais) acaba por ser só a liberdade do mais forte.
Finalmente, no meu anterior texto sobre este assunto eu afirmei que o livre porte de armas numa sociedade implica (por razões de segurança) que esta se torne numa sociedade policial (é o caso da sociedade americana). Eu afirmei que, sem descurar a importância do policiamento, prefiro uma sociedade menos policial e com o porte de armas controlado. Fiquei sem perceber qual é que os meus prezados interlocutores preferem.
Caro André, não desmentiste que o controlo do porte de armas diminui (não vou ao ponto de dizer que resolve) a violência, pois não? Para já é só isso que se quer: diminuir a violência num país que tem tudo para ser seguro, mas não é mais graças a incidentes como este.
Caro Pedro, existem muitas tensões entre a liberdade individual e outros valores importantes, como a igualdade (não é só a segurança). Eu não sou liberal e nem libertário, pelo que para mim a liberdade individual não é o valor supremo.
Partilho o interesse do Pedro pelas pessoas “que estão permanentemente a apelar ao respeito pelas formas organizacionais societárias árabes e outras" mas que, "sempre que estas desgraças acontecem", põem "em causa os princípios básicos da organização social norte-americana”. Mas certamente não sou eu que apelo ao respeito incondicional pela organização tradicional das sociedades árabes, como pode certamente ser confirmado por alguns dos meus textos, neste e noutros blogues.
Deduzir que, por eu ser de esquerda, sou necessariamente um defendor dessa organização, nessa e noutras sociedades, é assim como deduzir que, lá por se escrever na “Atlântico”, é-se necessariamente contra a despenalização do aborto. Não é, Pedro?
Sei perfeitamente que o porte livre de armas é (infelizmente) um princípio fundador da sociedade americana. Conheço eleitores de Ralph Nader que não são a favor do controlo de tal porte. Mas não é isso que me impede de defender que uma sociedade com livre porte de armas de fogo é, tal como uma sociedade onde as mulheres são obrigadas a usar um véu independentemente da sua vontade, contra os meus princípios. Contra ambos lutarei, pouco me importando em ambos os casos com a “liberdade individual” que (como em todas as sociedades liberais) acaba por ser só a liberdade do mais forte.
Finalmente, no meu anterior texto sobre este assunto eu afirmei que o livre porte de armas numa sociedade implica (por razões de segurança) que esta se torne numa sociedade policial (é o caso da sociedade americana). Eu afirmei que, sem descurar a importância do policiamento, prefiro uma sociedade menos policial e com o porte de armas controlado. Fiquei sem perceber qual é que os meus prezados interlocutores preferem.
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Mais um massacre na terra das oportunidades (II)
Editorial do The New York Times de ontem:
Our hearts and the hearts of all Americans go out to the victims and their families. Sympathy was not enough at the time of Columbine, and eight years later it is not enough. What is needed, urgently, is stronger controls over the lethal weapons that cause such wasteful carnage and such unbearable loss.No blogue Cosmic Variance: It is good to see some outrage
The number of children under the age of 17 shot by guns in America every year is greater than the gun-related deaths of children in all the industrialized nations of the world COMBINED.
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EUA
2007/04/18
Cair na real
Cheguei a alinhavar um texto sobre Sócrates e a Universidade Independente, mas depois dos mais recentes desenvolvimentos, confesso que decidi não publicar nada por agora. Mas com isto fico com uma sensação duplamente desagradável de ter perdido tempo e de não me restar nada para dizer. Nem do futebol me apetece falar (e razões para isso não faltavam - desde gozar com os benfiquistas até à meia-final da Taça de Portugal que hoje se joga entre os meus dois clubes favoritos). Enfim, numa derradeira homenagem ao Euler (e uma vez mais graças ao Nélson), deixo-vos um cartoon com dois bons conselhos.
2007/04/17
Mais um massacre na terra das oportunidades
Que posso dizer sobre o massacre da Universidade da Virginia? Recomendar a todos (uma vez mais) que vejam o Bowling for Columbine e, de uma forma algo egoísta, agradecer aos alunos da State University of New York onde estudei serem gente tão tranquila e permitirem-me estar aqui a escrever-vos.
É nestas alturas que a omnipresença da polícia na sociedade americana (em particular, neste caso, nas universidades) parece justificada. É evidente que o policiamento é importante (em particular, deveria ser maior em Portugal em geral), mas - como mais este triste caso demonstra - não resolve tudo. O grande problema da sociedade americana, a causa da insegurança, está no livre porte de armas. A solução está no controle do porte de armas, que é preferível à manutenção do estado actual, que é uma sociedade policial e securitária. Se há quem veja nesse controle uma restrição das liberdades pessoais (e daí?), pergunto-me: e o que verão numa sociedade policial e armada até aos dentes?
É nestas alturas que a omnipresença da polícia na sociedade americana (em particular, neste caso, nas universidades) parece justificada. É evidente que o policiamento é importante (em particular, deveria ser maior em Portugal em geral), mas - como mais este triste caso demonstra - não resolve tudo. O grande problema da sociedade americana, a causa da insegurança, está no livre porte de armas. A solução está no controle do porte de armas, que é preferível à manutenção do estado actual, que é uma sociedade policial e securitária. Se há quem veja nesse controle uma restrição das liberdades pessoais (e daí?), pergunto-me: e o que verão numa sociedade policial e armada até aos dentes?
2007/04/16
Euler na blogosfera
"Geralmente um grande cientista fica imortalizado por uma contribuição central na sua carreira: a Gravitação de Newton, a Lei de Gauss, a Hipótese de Riemann, a Relatividade de Einstein. Mas, se um matemático referir no abstracto o “Teorema de Euler”, ninguém poderá sequer saber de que ramo da Matemática está ele a falar, tal a abrangência do seu legado científico." (Jorge Buescu, De Rerum Natura.)
"Leonhard Euler: 300th anniversary
Written three centuries after the birth of a famous 18th century string theorist
(...)
As you can see, Euler was quite an impressive mathematically-inclined string theorist who was ahead of his time. He counts as the most prolific mathematician of all time and a guy who wasn't stopped by blindness. I wonder whether back in the 18th century, aggressive crackpots were attacking Euler for not being sufficiently scientific just like they do today." (Lubos Motl, The Reference Frame.)
"Leonhard Euler: 300th anniversary
Written three centuries after the birth of a famous 18th century string theorist
(...)
As you can see, Euler was quite an impressive mathematically-inclined string theorist who was ahead of his time. He counts as the most prolific mathematician of all time and a guy who wasn't stopped by blindness. I wonder whether back in the 18th century, aggressive crackpots were attacking Euler for not being sufficiently scientific just like they do today." (Lubos Motl, The Reference Frame.)
O Insurgente no buraco negro
Quando os soviéticos colocaram o primeiro satélite em órbita, o Sputnik, a reacção de um responsável do regime salazarista foi de incredulidade: tudo não passava de “propaganda comunista”. Colocar um satélite em órbita implicava vencer a gravidade (neste caso da Terra), e tal não era possível (pelo menos por parte dos soviéticos). O regime salazarista vivia assim num buraco negro (de cuja gravidade não se pode efectivamente escapar), sem nenhuma comunicação com o exterior, e queria puxar Portugal para lá. É natural que o mesmo se passe com o mais salazarista dos blogues, e com alguns dos seus elementos, salazaristas ou não. Refiro-me, é claro, ao Insurgente e a este texto de Bruno Alves onde, no meio de uma série de delírios, o autor garante que “a gravidade vence sempre", isto é, não se pode escapar à gravidade. A total falta de contacto com a realidade exterior que o texto evidencia só o confirma: o autor escreve, pelos vistos, do interior de um buraco negro.
2007/04/15
Leonhard Euler

A mais bela equação da Matemática, que relaciona os cinco principais números, deve-se a este matemático nascido há 300 anos em Basileia. De entre as suas inúmeras contribuições para a Matemática, destaco as mais simples (não requerem conhecimentos técnicos para serem entendidas) e, por isso mesmo, mais poderosas. Outro exemplo, que ninguém antes tinha provado: num poliedro, o número de faces mais o de vértices é igual ao de arestas mais dois (f+v=a+2). E muito mais. Euler é seguramente das pessoas a quem a Matemática mais deve. A imagem da mais bela equação acima é extraída do Público, que publica hoje uma excelente evocação do cientista, por Ana Gerschenfeld.
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Ciência
2007/04/14
Encontro Público com a Ciência
Em Lisboa, é no Pavilhão do Conhecimento. A entrada é gratuita. Passem por lá.
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Ciência
2007/04/13
Esta é a razão do meu desconsolo
Do Público de hoje. Da entrevista de José Sócrates:
Sr. ministro do Ensino Superior, caro prof. Mariano Gago, e se pensasse nisto? Se se certificasse de que as universidades contratavam gente competente, já viu quantos mais bolseiros poderiam estar empregados? Ficava bem para as estatísticas de que o prof. tanto gosta...
O fax do "desconsolo"É assim que se contratam docentes do ensino superior em Portugal. Nas "universidades" privadas de vão de escada, tipo "Independente", é o pão-nosso de cada dia. Ele é Sócrates, ele é Marques Mendes, ele é Santana, ele é Alberto João... Tudo grandes académicos.
"Foi mandado em Novembro de 1996. O professor Luís Arouca convidou-me para dar aulas na universidade, depois de eu me licenciar. E eu estava tentado a aceitar, achava até honroso o convite. Depois descobri que não podia dar aulas porque estava impedido por lei. E mandei as duas leis, fundamentalmente a de 95 como digo no fax, em que é referido a expressa incompatibilidade de funções entre membros do Governo e qualquer actividade regular de dar aulas. O desconsolo é por isso, é por não ter podido aceitar"
Sr. ministro do Ensino Superior, caro prof. Mariano Gago, e se pensasse nisto? Se se certificasse de que as universidades contratavam gente competente, já viu quantos mais bolseiros poderiam estar empregados? Ficava bem para as estatísticas de que o prof. tanto gosta...
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Universidade
2007/04/12
A notícia do "Público" não é verdadeira
Refiro-me a este caso, sobre o qual tanta asneira se tem escrito na última semana. Imaginem se fosse com o Benfica...
"Yours": deve fazer parte da cadeira de inglês técnico
«O primeiro-ministro salientou que fazia parte de uma turma "especial", criada por alunos oriundos de outras instituições, para explicar a razão pela qual o seu professor de Inglês Técnico, o reitor Luís Arouca, não terá sido o regente dessa cadeira do curso de Engenharia Civil. (...) E, sobre o facto de ter usado como forma de se despedir, numa carta ao reitor Luís Arouca, antes de ter aulas na Independente, a expressão "do seu José Sócrates" garantiu que "costuma sempre terminar as cartas desta forma".» (Do Público de hoje.)
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Política
2007/04/11
O engenheiro da discórdia
Nunca concluiu nenhuma licenciatura. Tem um bacharelato. É engenheiro técnico. Mas toda a gente o trata por "engenheiro". Todos lhe reconhecem uma honestidade e uma firmeza de carácter a toda a prova. Estará este homem a enganar toda a gente? Ou será Portugal simplesmente um país mais obcecado por títulos do que por competência?
2007/04/10
Sobre o novo aeroporto
A minha opinião não está ainda muito bem definida, mas creio que estou a ficar mais bem informado, devido à discussão (finalmente) séria que começou nos últimos dias.
Como é lógico, antes de se discutir a localização de um novo aeroporto, o(s) governo(s) deveria(m) convencer-nos de que este novo aeroporto era mesmo necessário, algo que ninguém fez convincentemente.
À partida inclinava-me para uma solução “Portela + 1”, como o Daniel Oliveira. Expandir-se-ia a Portela a Figo Maduro, e construia-se outro aeroporto para “low-costs”. Só que, ao contrário do que o Daniel Oliveira sugere como possibilidade, um segundo aeroporto pequeno não pode ser na Ota. Devido à natureza do terreno e às terraplanagens, um aeroporto na Ota só se torna viável se tiver as dimensões sugeridas pelo projecto do governo. Não pode ser mais pequeno (a construção não é economicamente viável). Não pode ser maior (o aeroporto da Ota não pode ser expandido, o que é um dos seus maiores handicaps). Não pode haver uma “Otinha”. Tem de ser daquele tamanho e só daquele tamanho. Isto é uma questão técnica e não política.
Dito isto, o comentário que mais me convenceu da necessidade de um novo (grande) aeroporto surge no mesmo texto do Daniel Oliveira, foi colocado às 0:38 de 28 de Março e é da autoria de uma leitora, identificada simplesmente como “nanda” mas que parece saber muito bem o que diz. Sugiro a todos que o leiam. Quem acha que não é preciso um novo grande aeroporto deve rebater aqueles argumentos.
A partir daqui, há que discutir finalmente a localização do novo aeroporto. Por motivos ecológicos e ambientais, Rio Frio deve ficar fora de questão. Mas ainda assim parece-me preferível uma localização a sul do Tejo. Porque existe uma fracção muito significativa da população portuguesa que vive na margem sul do Tejo, e para quem a localização do aeroporto na Ota não é muito conveniente. Um aeroporto a sul do Tejo estaria próximo de mais pessoas do que na Ota. Ao mesmo tempo, estaria mais próximo de uma ligação de TGV a Badajoz, e mais longe do Porto. De forma a não subalternizar o aeroporto do Porto e o norte do país, parece-me preferível que o novo aeroporto se situe fora do eixo Lisboa-Porto, que ao que parece já vai ser servido pelo TGV.
A isto há que acrescentar os inconvenientes da Ota que já referi: a necessidade das terraplanagens e a pouca ou nenhuma flexibilidade quanto à área.
Espero que, uma vez confirmada a sua indispensabilidade, o projecto do novo aeroporto vá para diante, mas antes espero que se leve a cabo uma discussão aprofundada. Aguardo por mais esclarecimentos.
Publicado também no Cinco Dias.
Como é lógico, antes de se discutir a localização de um novo aeroporto, o(s) governo(s) deveria(m) convencer-nos de que este novo aeroporto era mesmo necessário, algo que ninguém fez convincentemente.
À partida inclinava-me para uma solução “Portela + 1”, como o Daniel Oliveira. Expandir-se-ia a Portela a Figo Maduro, e construia-se outro aeroporto para “low-costs”. Só que, ao contrário do que o Daniel Oliveira sugere como possibilidade, um segundo aeroporto pequeno não pode ser na Ota. Devido à natureza do terreno e às terraplanagens, um aeroporto na Ota só se torna viável se tiver as dimensões sugeridas pelo projecto do governo. Não pode ser mais pequeno (a construção não é economicamente viável). Não pode ser maior (o aeroporto da Ota não pode ser expandido, o que é um dos seus maiores handicaps). Não pode haver uma “Otinha”. Tem de ser daquele tamanho e só daquele tamanho. Isto é uma questão técnica e não política.
Dito isto, o comentário que mais me convenceu da necessidade de um novo (grande) aeroporto surge no mesmo texto do Daniel Oliveira, foi colocado às 0:38 de 28 de Março e é da autoria de uma leitora, identificada simplesmente como “nanda” mas que parece saber muito bem o que diz. Sugiro a todos que o leiam. Quem acha que não é preciso um novo grande aeroporto deve rebater aqueles argumentos.
A partir daqui, há que discutir finalmente a localização do novo aeroporto. Por motivos ecológicos e ambientais, Rio Frio deve ficar fora de questão. Mas ainda assim parece-me preferível uma localização a sul do Tejo. Porque existe uma fracção muito significativa da população portuguesa que vive na margem sul do Tejo, e para quem a localização do aeroporto na Ota não é muito conveniente. Um aeroporto a sul do Tejo estaria próximo de mais pessoas do que na Ota. Ao mesmo tempo, estaria mais próximo de uma ligação de TGV a Badajoz, e mais longe do Porto. De forma a não subalternizar o aeroporto do Porto e o norte do país, parece-me preferível que o novo aeroporto se situe fora do eixo Lisboa-Porto, que ao que parece já vai ser servido pelo TGV.
A isto há que acrescentar os inconvenientes da Ota que já referi: a necessidade das terraplanagens e a pouca ou nenhuma flexibilidade quanto à área.
Espero que, uma vez confirmada a sua indispensabilidade, o projecto do novo aeroporto vá para diante, mas antes espero que se leve a cabo uma discussão aprofundada. Aguardo por mais esclarecimentos.
Publicado também no Cinco Dias.
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2007/04/09
Para quem quer ver a Fórmula 1
...e não tem SportTV ou outro canal de acesso pago: existe sempre o YouTube. Para um resumo, um link útil é Historias del motor.
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Fórmula 1
2007/04/08
Carinhoso
Passaram a semana passada cem anos sobre o nascimento de Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha (também conhecido por João do Barro), exímio compositor de sambas falecido no final de 2006. Uma das suas obras mais conhecidas é a letra um choro composto por Pixinguinha, Carinhoso. Para evocar o seu centenário, fiquemos com Carinhoso, interpretada pelo genialmente desafinado João Gilberto. O que é que eu estou a dizer? O João nunca desafina; os instrumentos é que não o acompanham a cantar. Espero que apreciem. Ouvir o João Gilberto é para mim uma tarde bem passada.
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Música
2007/04/07
Ferrari
A histórica marca de Maranello completou 60 anos esta semana. Um dos meus poucos desvios burgueses que ue tenho que admitir é gostar da Ferrari. Mas para gostar de Fórmula 1 sendo de esquerda há a Ferrari que, afinal, é um símbolo de Modena (daí o escudo amarelo no símbolo) e da Emilia-Romagna, a região historicamente mais à esquerda da Itália. Talvez por isso os carros sejam sempre vermelhos. Na véspera de mais um grande prémio, forza Ferrari!
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Fórmula 1
2007/04/05
“Those people can be so touchy!”
É claro que não se pode criticar a Bomba Inteligente sem aparecerem logo os fãs. E é mais claro ainda que não se pode associar a palavra “judeu” a um adjectivo depreciativo sem aparecerem logo acusações de “anti-semita”. Há três anos que ninguém me chamava “anti-semita”. Já tinha saudades. Devo este insulto, desta vez, ao leitor Júlio Silva Cunha, nos comentários, que aparentemente se incomodou por eu ter explicitado a religião de Sarah Silverman quando lhe chamei racista.
Há uns meses a actriz Daniela Ruah era a capa da revista Notícias Sábado. Daniela, para quem não a conhece, é protagonista de uma telenovela actualmente em exibição na TVI. O título de capa da revista era “a bela judia”. E, de facto, correspondia à verdade: Daniela é bela e consta que é judia. Mas também corresponderia totalmente à verdade um título como “a judia da voz esganiçada”. Eu que o diga, que todas as quintas feiras (como hoje) apanho uma bem sefardita dor de cabeça graças aos gritos daquela actriz na referida novela, que tenho que ver (e mais a ligação diária ao programa As Bombas e os Inteligentes. O que um tipo tem que aturar se quer ver do princípio o Dr. House!
Não vi Júlio Silva Cunha nem nenhum leitor da revista chamar “anti-semita” àquela capa, apesar de o “judia” ser bem explícito. Porquê? Porque vinha acompanhado de um elogio. Já um título como “a judia da voz esganiçada” seria rapidamente considerado ofensivo para toda a comunidade judaica. Indignações selectivas... que nem têm a ver com tratar-se de judeus. Se se substituísse “judia” por “negra”, ou “católica” ou “portuguesa” a indignação seria a mesma. E porquê? Porque a etnia (neste caso, “judia”) não tem nada a ver com a voz esganiçada. Mas também não tem nada a ver com a beleza...
No caso de Sarah Silverman incluí uma referência à sua etnia, associada ao seu racismo. Não porque, evidentemente, o racismo seja associável aos judeus. Bem pelo contrário: devido ao racismo de que sempre forma vítimas, parece-me ainda mais chocante encontrar um judeu (ou um negro) racista. Daí a minha referência.
Sarah Silverman é uma boa representante daquilo a que se chama uma “princesa judia”, um conceito bem definido nos EUA e com direito a entrada na wikipédia (será que Júlio Silva Cunha também vê anti-semitismo na wikipédia?). O melhor exemplo de uma “princesa judia” na blogosfera portuguesa é, justamente, a bomba inteligente Carla Quevedo (demonstra-o quotidianamente no seu blogue). Bem mais do que a saudosa Ana Albergaria, com quem eu tive algumas altercações (mas de quem tenho sinceras saudades). A Ana Albergaria manifestava alguma preocupação com o mundo que a rodeava (mesmo que eu nunca concordasse com ela), nunca escondia o que era e tinha um grande sentido de humor (até ensinava a malta a fazer croquetes!). A aburguesada blogosfera portuguesa (de esquerda e de direita) gosta muito da escrita da “princesa judia” portuguesa. Eu, que sou culturalmente proletário, não gosto de príncipes nem de princesas, judeus ou de qualquer outra etnia. Mas desejo a todos (de qualquer crença ou não-crença) uma Páscoa feliz e cheia de coisas boas.
2007/04/04
James Watson
Vale a pena ler a entrevista de Teresa Firmino ao descobridor da estrutura do ADN, director do laboratório de Cold Spring Harbor e Prémio Nobel da Medicina, no Público de sábado. O Tiago Barbosa Ribeiro reproduz algumas partes.
Falando de genética: estou de acordo com o biólogo quanto às suas opiniões sobre transgénicos. Estou de acordo com o lamentar o medo que a esquerda muitas vezes tem da ciência (em particular da genética). Estou de acordo em que esse medo não deve parar a investigação. Estou de acordo que, em questões científicas, a política não deve ser mais forte do que a ciência (será que o Tiago concorda com este ponto?).
Não posso estar de acordo com a redução do ambientalismo social a uma simples luta contra as grandes empresas. E fico aterrorizado com a ideia algo hitleriana de "pagar às pessoas com sucesso para terem filhos" (complementada com a sugestão de "pagar aos pobres para não terem filhos"!). Pode ser verdade que as pessoas com sucesso não estejam a ter filhos e que a taxa de natalidade dos países desenvolvidos esteja a cair. Pode ser verdade que a inteligência e a ambição (importantes para o sucesso) sejam genéticas. Mas podem ser estimuladas ao longo da vida. E enquanto a inteligência é absoluta, o sucesso é relativo.
Não me incomoda nada que se utilize a genética para produzir mais e melhores alimentos para toda a humanidade. Não recuso de todo a ideia de se utilizar a genética na cura de certas doenças. Mas recuso que a genética tenha o papel que só a evolução natural da espécie humana deve ter.
2007/04/03
As bombas e os inteligentes
Está a dar grande polémica o mais recente reality show da TVI, A Bela e o Mestre, por reforçar o estereótipo das mulheres belas e fúteis e dos homens feios e inteligentes. Fui obrigado a ir assistindo a algumas partes na semana passada, ao mesmo tempo que ia lendo qualquer coisa, no domingo (no intervalo do programa desportivo) e na segunda, enquanto aguardava por um filme que à última hora não deu. Estes directos não estavam programados nem anunciados e apanhavam de surpresa o telespectador incauto que esperava ver outro programa, mas são permitidos pela Lei de Televisão que (ainda) vamos tendo. Por pouco tempo, espero.
O Daniel Oliveira espanta-se por não perceber o que fazem no júri Rui Zink e Clara Pinto Correia. Eu vejo Carlos Quevedo e percebo tudo. Num instante tudo faz sentido. Se as participantes no referido programa querem causar boa impressão ao Carlos Quevedo, mostrem-lhe que são capazes do que ele aparentemente mais gosta. Digam-lhe que “hoje acordaram assim...” Não vale a pena (e nem convém) saberem quem é Fidel Castro ou Mikhail Gorbatchov; é preferível afirmarem publicamente que “não respeitam o Islão” ao som da racista judia Sarah Silverman. A mais completa tradução deste programa já existe, na blogosfera portuguesa, há uns bons anos. Admiro-me como as feministas portuguesas não percebem (ou fingem não perceber) isso.
O Daniel Oliveira espanta-se por não perceber o que fazem no júri Rui Zink e Clara Pinto Correia. Eu vejo Carlos Quevedo e percebo tudo. Num instante tudo faz sentido. Se as participantes no referido programa querem causar boa impressão ao Carlos Quevedo, mostrem-lhe que são capazes do que ele aparentemente mais gosta. Digam-lhe que “hoje acordaram assim...” Não vale a pena (e nem convém) saberem quem é Fidel Castro ou Mikhail Gorbatchov; é preferível afirmarem publicamente que “não respeitam o Islão” ao som da racista judia Sarah Silverman. A mais completa tradução deste programa já existe, na blogosfera portuguesa, há uns bons anos. Admiro-me como as feministas portuguesas não percebem (ou fingem não perceber) isso.
2007/04/02
O primeiro de Abril do "Ciência Hoje"
O caso foi contado no De Rerum Natura (aqui vai em latim) e no Esquerda Republicana. Gostaria de saudar Jorge Buescu pela atitude que tomou e pelos princípios que defende para uma página como o Ciência Hoje. É que já não é a primeira vez que a pseudociência tem voz (infelizmente) naquela página (que, como refere o Ricardo Alves, é meritória e bem intencionada). Refiro-me concretamente a textos como este, cujo autor se apresenta como responsável por um blogue, sem mostrar nenhumas outras credenciais... que não podia. De facto o autor é engenheiro, o seu grau académico mais elevado é um mestrado (não sei por que universidade) e é professor numa universidade privada portuguesa (não sei em qual, nem de quê). Não sabemos que contribuições deu para a investigação neste assunto, que artigos publicou, em que revistas... Para enriquecer o currículo, poderia acrescentar ser referido frequentemente em tons elogiosos pelo insurgente André Azevedo Alves, que como se sabe é reconhecido pela sua isenção, independência e amor pela ciência... E é com estas credenciais que escreve no Ciência Hoje, onde põe em causa uma explicação de um facto aceite por 90% dos melhores especialistas mundiais. Felizmente o seu texto é bem refutado (logo) nos comentários, mas nem sempre se pode esperar que isso aconteça. Para o futuro, e para evitar mais casos como o que deu origem à saída de Jorge Buescu, sugiro assim ao Ciência Hoje mais cuidado com os textos de “opinião” que aceita, pois embora seja desejável e necessária a discussão em ciência, tal não se reduz à “opinião” e nem a torna democrática... Caso contrário, vemo-nos reduzidos às famosas teses de Boaventura de Sousa Santos.
Novos blogues
O do camarada Francisco Frazão, Fábrica Sombria. A pouco e pouco o velho Blogue de Esquerda está todo de volta.
O Sobre a Natureza das Coisas, já bastante conhecido e com uma constelação de autores, dos quais desejo destacar (a título pessoal) os bem conhecidos Carlos Fiolhais e Jorge Buescu (da divulgação científica) e Palmira Silva (da blogosfera).
Este blogue tem um título qualquer em latim, mas designo-o neste texto pelo seu título em português pois, para mim, o latim é uma língua de fachos e padres.
A ambos os blogues quero endereçar os meus mais calorosos cumprimentos (apesar de atrasados) e votos de boas vindas.
O Sobre a Natureza das Coisas, já bastante conhecido e com uma constelação de autores, dos quais desejo destacar (a título pessoal) os bem conhecidos Carlos Fiolhais e Jorge Buescu (da divulgação científica) e Palmira Silva (da blogosfera).
Este blogue tem um título qualquer em latim, mas designo-o neste texto pelo seu título em português pois, para mim, o latim é uma língua de fachos e padres.
A ambos os blogues quero endereçar os meus mais calorosos cumprimentos (apesar de atrasados) e votos de boas vindas.
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