2007/05/10

O affaire Arroja (2)

A “dupla precaução” de Arroja com os judeus é errada por ser geral. À partida eu não tenho (e não se deve ter) um preconceito contra um judeu (ou outra etnia ou religião qualquer) por um texto sobre um tema arbitrário. Posso ter uma dupla precaução se achar que existe um conflito de interesses. Por exemplo, eu tenho uma dupla precaução ao ler textos de autores judeus sobre temas sensíveis para os judeus (como o conflito do Médio Oriente). Tal como tenho uma dupla precaução ao ler textos de autores católicos sobre temas sensíveis para os católicos. Uma dupla precaução: só isso e nada mais. Não deixo que tal precaução extra influencie o meu julgamento, e frequentemente tenho surpresas agradáveis.
O primeiro texto de Arroja é infeliz pela sua generalidade e por demonstrar um preconceito e por nos tentar convencer do mesmo. Mas qualquer pessoa pode ver que o que incomoda os autores do Blasfémias não é o preconceito em si, mas o facto de esse preconceito ser dirigido contra os judeus. Fosse o dito preconceito contra católicos ou muçulmanos e aposto que não haveria incómodo nenhum por parte dos autores do Blasfémias. Já lá foram publicadas entradas extremamente ofensivas para com os muçulmanos e ninguém se ofendeu.
Já o segundo texto é muito bom, lançando dados concretos (não se baseando em preconceitos). Gostaria de o ter escrito. No meio da histeria ficou por responder.

2007/05/09

Lançamento - "Ardinas da mentira"


O meu amigo Renato Teixeira tinha um blogue, que apresentei aqui. O Renato escreveu entretanto um livro, Ardinas da Mentira, que foi apresentado no passado dia 24 de Abril em Lisboa, tendo entretanto vindo a ser apresentado noutras cidades do país. Nele o cidadão do mundo Renato relata a sua experiência de jornalista, em Portugal e noutros países. Pelo que já li, parece-me muito interessante. Amanhã o livro é apresentado na Coimbra de onde o Renato é originário, com a presença de José Mário Branco. Se estiverem em Coimbra apareçam.

Sobre as eleições francesas

A análise que faço da vitória de Sarkozy, da qual estou absolutamente convencido, é que será também uma vitória da propaganda sobre a comunicação. Existe a convicção de que na ausência dos grandes discursos ideológicos, o que é importante é a comunicação. Mas não é, porque já não há essas grandes ideologias em que as pessoas se decidem unicamente com pequenas frases, slogans, ou astúcias de comunicadores. Nicolas Sarkozy percebeu isso e fez um verdadeiro trabalho ideológico de preparação desta eleição. Fez da UMP um partido com uma tradição ideológica, um programa. (...)
A esquerda demonstrou não ter ideias claras sobre nada. Sobre todas as questões de fundo, as pessoas de esquerda estão divididas e não sabem o que dizer precisamente: sobre Europa, imigração e segurança. Há por exemplo uma parte da esquerda e do Partido Socialista que é securitária como Ségolène Royal. Não têm um projecto real. E o projecto de Ségolène Royal, o seu pacto presidencial, é em parte o antigo projecto socialista clássico, intervencionista, e em parte um projecto inspirado de Tony Blair. Mas não há nenhuma ligação entre os dois. Não há coerência. Enquanto Sarkozy tem um projecto liberal-conservador, ou liberal-autoritário, com uma coerência. A dinâmica liberal para os quadros superiores, as profissões liberais e os empresários; a segurança, a ordem, a autoridade para as classes populares. Essa é a receita da direita americana. (...)
A política faz-se com uma certa habilidade e com uma certa coerência. Podemos abrir-nos ao centro, mas sobre as questões de fundo. Ségolène falou muito pouco delas. Em vez disso, fez diligências politiqueiras propondo incluir num governo ministros da UDF e eventualmente um primeiro-ministro. Bayrou não teria existido se o PS tivesse apresentado um candidato ou uma candidata credível. Bayrou saiu do seu nicho de seis ou sete por cento porque o PS não tinha uma candidatura muito clara. O mal está feito. A França permanece um dos países mais à esquerda na Europa, mas esta é uma evolução importante.


(Eric Dupin, professor de Comunicação no Instituto de Ciência Política (Sciences Po) de Paris, Público, 6 de Maio de 2007.)

2007/05/08

Smoke/don't smoke: a minha sentença

Sucedem-se as opiniões - 1, 2, 3 - sobre a proibição do tabaco em espaços fechados por parte de pessoas que eu respeito. Sobre este assunto, cheguei a uma conclusão: tenho muitas dúvidas em alinhar definitivamente por um dos lados. Vejo fundamentalistas dos dois lados. Mas quer fumar quer ir ao restaurante são hábitos burgueses. Nada com que alguém de esquerda se deva preocupar muito. Não vou perder muito mais tempo com o assunto.

2007/05/07

O affaire Arroja (I)

Sem grande tempo para dedicar à blogosfera nos últimos dias, não queria deixar de comentar a saída de Pedro Arroja do Blasfémias, mesmo se com duas semanas de atraso.
Não sendo membro do blogue não me compete julgá-la, mas lamento deixar de contar com as opiniões de Pedro Arroja, mesmo se elas claramente destoavam no blogue. E lamento porque as referidas opiniões demonstravam claramente as incompatibilidades entre a tradição cultural católica (já nem sequer falo necessariamente do catolicismo), que é a portuguesa, e o liberalismo, da tradição anglo-saxónica. É claro que o “liberalismo” que Arroja apregoa (e que também se apregoa aqui – onde de resto Arroja nem ficava nada mal) é o completo liberalismo económico combinado com o conservadorismo na moral. Bem diferente, portanto, do liberalismo de um Carlos Abreu Amorim. Mas só pela irritação que Arroja causava aos seus colegas valia a pena lê-lo. Espero que volte.

Hei-de voltar a este assunto. Amanhã, espero, serão as eleições francesas.

2007/05/04

Mourinho

Parte de um texto muito oportuno, que eu gostaria de ter escrito. Por Bruno Prata no Público de hoje:

Mourinho é o melhor treinador português de todos os tempos. Não precisaria de fazer mais nada na sua carreira para merecer, desde já, essa distinção.
É verdade, no entanto, que ele é responsável por muitos dos anticorpos que ganhou. Uma coisa são os mind games em que tenta desestabilizar o adversário. Outra, bem diferente, é descer ao nível mostrado aquando do incidente da camisola de Rui Jorge. Ou, mais recentemente, quando questionou a cultura de Cristiano Ronaldo. Foi uma coisa rasteira e deselegante. E injusta para com um jogador a quem a vida não ofereceu as mesmas oportunidades que Mourinho teve. Ao não responder, Ronaldo mostrou-lhe que as boas escolas não são solução para tudo.
Mourinho é o expoente máximo do pragmatismo. E alguém que sempre percebeu que, no futebol, não se ganha com boas acções. Ele não está interessado em prémios de popularidade, sempre demasiado datados no tempo. Aprendeu-o em casa, se não pelo discurso, de certeza pelos exemplos que retirou da carreira do pai, tantas vezes vítima de injustiças, até no Setúbal.
Mas se é natural que tenha assimilado uma visão prática das coisas do futebol, já parece menos razoável que insista em vender a faceta de fanfarrão inveterado. Tudo o que é demasiado é moléstia e a verdade é que o reconhecimento do mérito do seu trabalho começa a ser minado por aquela imagem arrogante que ainda rende na publicidade, mas que lhe cria cada vez mais inimigos. "Mourinho só se dá bem com os que não lhe ganham", disse há dias Rafael Benítez. Alex Ferguson queixa-se mais ou menos do mesmo.
Por isso, é chegada a altura de Mourinho fazer um exame de consciência. E de mudar. Não a parte em se prepara e trabalha mais do que todos os outros treinadores. Nem aquela em que estimula os seus jogadores e transforma o seu balneário numa colmeia de operários solícitos e rendidos ao mestre. Nem sequer aquela em que deixa escapar, de supetão, duas ou três frases-chave que sabe antecipadamente irem sair nos títulos dos jornais. O que Mourinho precisa de resolver é a parte em que não respeita os adversários (...). Quando o fizer, até as vontades e as mudanças de humor de Abramovich deixarão de ter a mesma importância...

Ainda o teste político - ideologias europeias

Embora não concorde com a ordenação final no que às minhas primeiras posições políticas diz respeito, registo que as minhas primeiras seis posições são as de esquerda (as seis últimas são de direita). Exactamente o oposto dos insurgentes. É pena que ninguém tenha publicado as suas respostas, pergunta a pergunta (só o resultado final). Seria interessante ver o André Azevedo Alves a defender explicitamente o apoio do Estado a (certas) religiões.

2007/05/03

Filipe Moura, social-democrata?

Os meus resultados no teste que é proposto por O Insurgente (façam-no vocês também):

#1 You are a social democrat. Like other socialists, you believe in a more economically equal society - but you have jettisoned any belief in the idea of the planned economy. You believe in a mixed economy, where the state provides certain key services and where the productivity of the market is harnessed for the good of society as a whole. Many social democrats are hard to distinguish from social liberals, and they share a tolerant social outlook.

#2 You are an ecologist or green. You believe that the single greatest challenge of our time is the threat to our natural environment, and you feel that radical action must be taken to protect it - whether in the enlightened self-interest of humanity (in the tradition of 'shallow ecologism') or, more radically, from the perspective of the ecosystem as a whole, without treating humans as the central species (deep ecologism).

#3 You are a classical socialist, believing in equality of outcome as a principle. This might mean greater equality (e.g. Old Labour), or as close to absolute equality as possible. However, you will believe in an extensive public sector, covering not just public services (transport, healthcare etc.) but probably also the 'commanding heights' of industry (e.g. iron and steel). Your views on personal morality will be reasonably tolerant, in general, but there is considerable variation within this political group.

#4 You are a communist. You believe, at least in theory, in absolute equality of income - and you oppose the whole capitalist system per se. You want to abolish the market economy and replace it with one in which the workers (usually meaning the state) control the building blocks of the economy. Your views on personal morality will vary; traditional communists tended to be more authoritarian, while modern "eurocommunists" tend to take a liberal line.

#5 You adhere to the Third Way. The Third Way is a fairly nebulous concept, but it rests on the idea of combining economic efficiency - i.e. a market economy with some intervention - with social responsibility. The focus is emphatically on the community as a whole, and not necessarily equality per se. Adherents of the Third Way range from moderate to conservative in their social views, and have recently been willing to take a "tough" line on a range of social issues.

#6 You are an anarcho-communist, aiming for a society without the state, based on small, decentralised groups living communally.

#7 You are a fascist. You combine a strong belief in the nation with authoritarian social values, and a willingness to impose your views upon others. You strongly oppose immigration, and are willing to take radical action to combat it.

#8 You are a social liberal. Like all liberals, you believe in individual freedom as a central objective - but you believe that lack of economic opportunity, education, healthcare etc. can be just as damaging to liberty as can an oppressive state. As a result, social liberals are generally the most outspoken defenders of human rights and civil liberties, and combine this with support for a mixed economy, with an enabling state providing public services to ensure that people's social rights as well as their civil liberties are upheld.

#9 You are a Christian democrat - or, in the UK, a "One Nation conservative"; in other words, although you share the usual conservative belief in stability and duty, you believe that such duties include a responsibility on the part of the better-off to help those who are less fortunate. You will be socially conservative, but in favour of a mixed economy where the state does have a role in providing public services. Christian democracy arose after World War II, succeeding more doctrinaire Catholic parties dating from the 1870s.

#10 You are a libertarian conservative. You hold that the free market is the best way of organising economic activity, but you combine this with adherence to more traditional social values of authority and duty.

#11 You are a market liberal. You adhere to the traditional liberal belief in freedom, and take this to mean negative rather than positive freedom - i.e. a slimmed-down state is the best guarantor of freedom. You will therefore support a laissez-faire economic policy, and you will be reasonably tolerant on the social front - though less emphatically so than social liberals.

#12 You are an anarcho-capitalist. Anarcho-capitalists take the Jeffersonian belief that "that government is best which governs least", and extend it - "that government is best which governs not at all". The theory of anarcho-capitalism is that the market can replace the state as a regulator of individual behaviour (resulting in private courts, private policing etc.).

2007/05/02

Resumo da minha jornada de protesto

A manife dos precários começava na Alameda D. Afonso Henriques, mas eu decidi começar por passar pela Alameda da Universidade de Lisboa. Estava tudo animado, apesar da chuva, com stands de diversas origens. Destaques para a gastronomia na Casa do Alentejo e na Associação de Amizade Portugal-Cuba.
Os trabalhadores protestam contra a globalização, mas a música que dá o tom é o Manu Chao. Já fui a manifestações em três países diferentes, e nos últimos anos é sempre ao som do Manu Chao. Mais global não poderia ser.
Percorro a Av. do Brasil e a Av. de Roma em busca da manifestação geral, que vinha do estádio 1º de Maio.
Havia na manifestação um sector de trabalhadores do Bloco de Esquerda (com símbolo do partido e tudo). Havia ainda um carro do PCP parado fora da manifestação, que tocava o hino do partido enquanto eram distribuídos folhetos da Festa do Avante! 2007. Tudo isto... à porta do Hospital Júlio de Matos.
A ABIC (bolseiros de investigação científica) vinha à cabeça. Os trabalhadores precários vinham mesmo no fim. Não sei qual terá sido a origem desta separação, uma vez que os bolseiros são também precários e era para ter vindo tudo junto. Espero que não tenha havido sectarismo. Deixei-me estar junto aos precários. Também lá havia cientistas.
No regresso à Alameda da Universidade, a música tinha sido substituída por palavras de ordem como "com políticas de direita o país não se endireita", "flexisegurança para o capital encher a pança", "greve geral contra o que está mal", "Sócrates escuta, o povo está em luta". Tudo repetido quatro vezes por um homem e uma mulher de voz mais esganiçada que a Daniela Ruah. Achei que era demais para mim e vim-me embora, com saudades do Manu Chao.

2007/05/01

Guerra dos sexos ou defesa do trabalhador?

Dedicados a todos os trabalhadores e trabalhadoras. Protejam-se dos patrões e exploradores, mas tenham também cautela com os vossos patrões supostamente "progressistas" que estão mais interessados na "causa" em geral do que em vocês em concreto. Nunca sejam usados como um objecto!

2007/04/30

Precários de todo o mundo, rebelai-vos!


Amanhã, no Dia Mundial (excepto nos EUA) do Trabalhador, vamos ver os precários (bolseiros de investigação científica incluídos) a manifestarem-se em Lisboa. Eu estarei lá.

33 anos - Abril sempre


Bolo de comemoração dos 33 anos da Revolução dos Cravos, Arraial do 25 de Abril, Largo do Carmo, Lisboa, 2007

2007/04/28

Food in New York

Dois queridos amigos seguem esta semana para Nova Iorque e eu não quis deixar de lhes dar as minhas recomendações sobre os locais a visitar e os restaurantes onde comer.
Nova Iorque é a capital mundial da diversidade, e isso reflecte-se nos restaurantes. Dificilmente se encontram, no mesmo sítio, tantas cozinhas juntas de origens tão diferentes, reflectindo bem o que é a cidade. Mas a oferta é tanta que é difícil fazer as melhores escolhas, principalmente se não se conhece a cidade e se tem um número limitado de dias.
Para encontrar um bom restaurante em Nova Iorque eu seguia as recomendações da Time Out New York (da revista semanal, quando a lia, mas especialmente do guia de estudantes) e de uma página especializada, o Citysearch. Nunca me arrependi. Segue-se uma lista de alguns dos meus restaurantes preferidos na cidade. Relativamente baratos e bons, com ligações para o Citysearch.

Almoço

No coração de Chinatown, o meu restaurante chinês favorito no mundo inteiro: o New Chao Chow. às vezes pode demorar a conseguir uma mesa (por isso é melhor ao alomço), mas o mercado funciona. Tanta procura significa que o sítio é mesmo muito bom.

Na Amsterdam Avenue há diversos restaurantes hispânicos, ou latinos (da América do Sul) que vale a pena tentar (um deles é o Flor de Mayo mas há outros). Podem comer-se iguarias cubanas como Ropa Vieja e a autêntica banana frita, que deve ser confeccionada com bananas gigantes ("plátanos" em espanhol) às rodelas.

Perto da belíssima Universidade de Columbia, e da Catedral St. John The Divine, o mítico Tom's Restaurant, da série Seinfeld e da canção de Suzanne Vega. Um must para os amantes da cidade e da sua cultura popular. Comida americana caseira - um diner típico. Servem bom peixe grelhado (quando têm).

Jantar

Em Chelsea, um dos mais autênticos restaurantes italianos, o Pepe Giallo. Excelentes pastas e pratos de carne. No diet coke, no skimmed milk, only good food é o lema. É o único sítio nos EUA que eu conheço que serve café Segafredo.

Outra vez perto da Universidade de Columbia, o Symposium. Comida grega excelente. Decoração magnífica, com um pátio nas traseiras com um jardim (algo que nem todos os clientes conhecem, mas que eu recomendo para tomar a refeição).

Perto da Union Square, o Chat 'n' Chew. Comida americana do sul (autêntica, muito boa - recomendo vivamente a jambalaya e o honey roasted chicken).

Bom apetite, e espero que não se queixem da comida americana!

2007/04/27

A Dia D e o pluralismo da imprensa

Em Agosto do ano passado, publiquei aqui dois textos (que deram muita polémica) onde denunciava o carácter parcial e propagandístico do então suplemento semanal do Público “DiaD”, pelo menos no que à opinião publicada dizia respeito. Esses textos deram azo às mais indignadas reacções, mas nunca ninguém desmentiu as minhas afirmações. Nem podiam.
Um dos principais animadores da revista veio agora finalmente confirmar o que já sabíamos: a Dia D não era politicamente independente. Mesmo que indirectamente, e tantos meses depois (até a revista já acabou...), é bom vê-lo a reconhecer tal facto.

Problemas informáticos

Problemas com o computador com que geralmente trabalho têm-me impedido de actualizar o blogue. Espero ter o problema resolvido ainda hoje.

2007/04/25

Salazar e as eleições

Aproveito o dia de hoje para recordar um pouco de História que tem andado muito esquecida (ou não foi bem aprendida), com um texto de há um mês atrás, publicado na imprensa e em alguns blogues.

Agora que Salazar parece em vias de ganhar pela primeira vez uma "eleição", e logo contra o Afonso Henriques, convém lembrar como eram as votações quando ele era vivo.

No que diz respeito à aprovação da Constituição de 1933, foi simples. As abstenções contaram a favor. A maioria foi esmagadora. Os portugueses nem precisaram de sair de suas casas para exprimir a sua "vontade".

Nas eleições legislativas o método também era infalivel. Nas eleições de 1957, por exemplo, em Lisboa, na véspera da eleição, os responsáveis pelas mesas eleitorais foram chamados ao Governo Civil onde receberam a indicação do resultado da votação do dia seguinte com uma margem de erro de 2 %. Assim, na freguesia de São João da Pedreira o resultado devia ser 56 ou 57%.

No dia seguinte houve guarda republicanos que andaram pelas mesas de voto a levar pacotes de votos de "guardas que estavam de piquete", que foram metidos nas urnas pelos presidentes das mesas. Mas isto teve uma relativa pouca importância.

Perto do fim, depois de assegurada a ausência de testemunhas inconvenientes, os elementos das mesas multiplicaram o número total de eleitores por 0,57 e dividiram o resultado pelo número de páginas dos cadernos eleitorais. Tiveram, assim, o número de eleitores de cada página que "deviam votar".

Procederam, então, sem se preocupar em lançar votos nas urnas, à operação de "compor os cadernos eleitorais", descarregando conscenciosamente nos dois cadernos o conveniente número de eleitores que "tinham" votado. A operação foi acompanhada de comentários do tipo: " Este é comunista, mas desta vez vai votar no governo".

Depois, enviaram para o Governo Civil um documento a dizer: "Percentagem de eleitores: 57%." Mas não se ficaram por aqui: abriram as urnas, contaram os votos, e enviaram para o Governo Civil um outro documento a dizer." Percentagem real de eleitores, tantos por cento" .

No caso concreto de uma mesa, a percentagem real de eleitores, incluindo os votos dos "guardas de piquete" e 50 votos riscados foi de 28 %, mas os elementos da mesa enviaram um documento a dizer que a "percentagem real", era de 30 %. É provavel que, quando chegasse ao Salazar, esta percentagem já fosse um bocadito mais alta.

Fui testemunha parcial destes factos em 1957. Uma outra testemunha foi o escritor Luis Pacheco a quem envio, 50 anos depois, as minhas saudações e que devia ser agora ouvido. Como comentador da "eleição de Salazar" e porque pode confirmar factos importantes para esclarecer um país que, 30 anos depois do 25 de Abril, ainda está muito mal informado.

Que, ao falar nas eleições do "antigamente", ainda fala em chapeladas, como se a fraude "dos guardas que estavam de piquete" e de uns tantos legionários fosse a mais importante. Salazar era muito mais subtil. Quarenta anos depois de morto, ainda engana o país.

E não só. Quando em Novembro de 1957 cheguei a França vi que os jornais franceses analisavam a situação portuguesa a partir do resultado de 57% de votos obtidos pelo governo nas últimas eleições legislativas.

(António Brotas, 21/03/2007)

2007/04/24

Diz que é uma espécie de manifesto de esquerda

Correu a blogosfera um “manifesto das esquerdas por Israel”, tendo sido divulgado pelo meu muito prezado Tiago Barbosa Ribeiro. Fosse só mais um “manifesto por Israel”, e eu nem lhe prestaria atenção nenhuma. Mas sendo um manifesto “das esquerdas”, julgo que merece a nossa atenção.
Na origem do manifesto está a expulsão de um militante do Bloco Nacionalista Galego. O episódio foi-nos explicado pelo Tiago (sempre atento a estas questões) em termos algo vagos: a expulsão deveu-se a o ex-militante ser dirigente da Associação Galega de Amizade com Israel e “defender o estado de Israel” (defender como?). O que não explica muito, mas (sem querer julgar em definitivo um caso que não conheço) parece-me suficiente para eu não concordar com a sua expulsão, se pertencesse ao referido partido. É possível (e desejável) ser de esquerda e procurar a cooperação com sectores moderados de Israel, que existem, embora sejam escassos.
Mesmo assim, o referido manifesto não pode merecer a minha concordância. E porquê? Porque objectivamente é um manifesto de apoio a Israel e à sua política expansionista e colonialista. Um manifesto de esquerda em apoio a Israel poderia ter feito sentido noutras ocasiões, quando Israel era atacado e teve de se defender. Mas, na sequência da Guerra dos Seis Dias, Israel ocupou (e ocupa, até hoje) ilegalmente territórios que não são seus. Para além disso Israel controla todas as actividades económicas dos territórios palestinianos, cobrando impostos, comissões e portagens e mantendo monopólios no abastecimento. Israel não é um estado laico, não concedendo direitos de cidadania plena aos seus cidadãos não judeus. Israel é um estado colonialista, e é o estado que mais sistematicamente viola as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Por isso, não creio que um estado como Israel possa merecer mais apoio de quem se diz de esquerda que não seja simplesmente ao direito a defender-se dos ataques que recebe. É este, e só este, o apoio que eu dou a Israel. Mas não é essa a política externa de Israel, que está muito longe de ser uma mera política de defesa.
Tal como no manifesto, também eu defendo um reposicionamento da esquerda relativamente a Israel, só apoiando este estado na situação que referi (o que equivale a não apoiar a sua política externa e mesmo interna). Também julgo que o que aqui afirmo deve ser dito com “clareza” a Israel. A esquerda não tem (nem deve) de fazer nenhum tipo de cedência relativamente a Israel. É Israel que tem de vir ao encontro da esquerda, se quiser efectivamente o seu apoio.
O Tiago enumerou ontem as pessoas que apoiaram na blogosfera portuguesa o manifesto que ele lançou. É curioso que entre os apoiantes (de um manifesto “das esquerdas”) se contem mais pessoas de direita do que de esquerda, sendo que entre as primeiras está André Azevedo Alves, que recentemente se destacou como o maior defensor na blogosfera portuguesa de Salazar para o “maior português de sempre”. Já todos sabíamos que Israel era apoiado pela direita belicista, religiosa e fundamentalista. O que é curioso é que, em Portugal, essa direita é descendente da Inquisição e de quem expulsou do nosso país os judeus (a começar justamente pelo ultracatólico Azevedo Alves)! Servir como arma de arremesso e instrumento de chantagem da direita e da extrema direita, como este texto tão bem ilustra: é a isso que Israel chegou.

Publicado também no Cinco Dias.

2007/04/23

Eusébio em muito boas mãos

Lembro-me da história de Ronald Reagan, que quando foi vítima de um atentado e teve de ser operado de urgência, quis saber se os seus médicos eram republicanos ou democratas. Será que Eusébio quis saber se os seus médicos eram benfiquistas? O médico que o atendeu na urgência (e o acompanhou ontem) chamava-se, nem mais nem menos, José Roquette, pelo que a probabilidade de decepção era alta!

Desejo as melhoras e uma rápida recuperação ao Pantera Negra.

É da cor das cadeiras, seus cagaréus desconfiados!

Quis o destino que os meus dois clubes favoritos tivessem os estádios, construídos para o Euro 2004, desenhados pelo mesmo arquitecto, Tomás Taveira. Que é como quem diz: quis o destino que os meus dois clubes favoritos tivessem os estádios mais feios. O do Sporting, como é bem sabido, de fora parece uma casa de banho. O do Beira Mar consegue não ser tão mau, mas (como era de se esperar) tem uma combinação de cores berrantíssimas.
O Sporting, entretanto, lá chegou à final da Taça, como era a sua obrigação. No rescaldo desse jogo, o Beira Mar quer conferir o número de espectadores pagantes da partida de Alvalade, uma vez que no estádio lhes parecia estarem muito mais pessoas. Mas será que eles não sabem que um dos taveirismos mais característicos destes estádios é terem uma cadeira de cada cor (aleatoriamente distribuídas, de muitas cores diferentes)? Será que não sabem que um dos efeitos que tal taveirismo causa é, para quem está no campo, a ilusão de a assistência ser maior? Deveriam saber, pois têm o mesmo no estádio deles (que por sinal costuma estar bem vazio).
Vejam é se ganham à Académica!

2007/04/21

Eleições em França: ando com uma cara!

A escolha é difícil. Tal como o Rui Curado Silva, e precisamente pelos mesmos motivos, penso que o melhor candidato a estas eleições (visto de fora, pelo menos) é a ecologista Dominique Voynet, pelos motivos que o Rui aponta. Não é propriamente uma novidade, mas as novidades desta campanha são poucas e más.
Só que estas não são eleições legislativas. Só uma pessoa será escolhida, o Presidente da República. A esquerda francesa não pode cometer o mesmo erro de 2002 (apesar de o número de candidatos não ser muito inferior). Para evitar ter, pela segunda vez consecutiva, na segunda volta um candidato de direita e um de extrema direita (ou, pior ainda, dois candidatos de extrema direita), acho que se fosse francês acabaria por votar, muito a contragosto, em Ségolène Royal. Só que nunca, em nenhuma outra eleição, me sentiria tanto como o pai da Liberdade (da clássica tira de Quino) como nesta. Isto partindo do pressuposto que Ségolène ganha, o que está longe de ser adquirido!

2007/04/20

Cara Fernanda Câncio:

Não se preocupe com textos escritos com os pés. Responda-me antes a uma questão, sff. Isso da esquerda por israel (eu, por exemplo, às vezes) o que quer exactamente dizer? A Fernanda é às vezes por Israel? Ou é às vezes de esquerda? Ou é às vezes uma coisa, às vezes a outra?
(E continue a chatear. Chateie sempre. Não chateia nada.)

2007/04/19

Mais um massacre na terra das oportunidades (III)

Respondo agora a dois blogues que me interpelaram sobre o primeiro texto desta série.

Caro André, não desmentiste que o controlo do porte de armas diminui (não vou ao ponto de dizer que resolve) a violência, pois não? Para já é só isso que se quer: diminuir a violência num país que tem tudo para ser seguro, mas não é mais graças a incidentes como este.

Caro Pedro, existem muitas tensões entre a liberdade individual e outros valores importantes, como a igualdade (não é só a segurança). Eu não sou liberal e nem libertário, pelo que para mim a liberdade individual não é o valor supremo.

Partilho o interesse do Pedro pelas pessoas “que estão permanentemente a apelar ao respeito pelas formas organizacionais societárias árabes e outras" mas que, "sempre que estas desgraças acontecem", põem "em causa os princípios básicos da organização social norte-americana”. Mas certamente não sou eu que apelo ao respeito incondicional pela organização tradicional das sociedades árabes, como pode certamente ser confirmado por alguns dos meus textos, neste e noutros blogues.
Deduzir que, por eu ser de esquerda, sou necessariamente um defendor dessa organização, nessa e noutras sociedades, é assim como deduzir que, lá por se escrever na “Atlântico”, é-se necessariamente contra a despenalização do aborto. Não é, Pedro?

Sei perfeitamente que o porte livre de armas é (infelizmente) um princípio fundador da sociedade americana. Conheço eleitores de Ralph Nader que não são a favor do controlo de tal porte. Mas não é isso que me impede de defender que uma sociedade com livre porte de armas de fogo é, tal como uma sociedade onde as mulheres são obrigadas a usar um véu independentemente da sua vontade, contra os meus princípios. Contra ambos lutarei, pouco me importando em ambos os casos com a “liberdade individual” que (como em todas as sociedades liberais) acaba por ser só a liberdade do mais forte.

Finalmente, no meu anterior texto sobre este assunto eu afirmei que o livre porte de armas numa sociedade implica (por razões de segurança) que esta se torne numa sociedade policial (é o caso da sociedade americana). Eu afirmei que, sem descurar a importância do policiamento, prefiro uma sociedade menos policial e com o porte de armas controlado. Fiquei sem perceber qual é que os meus prezados interlocutores preferem.

Mais um massacre na terra das oportunidades (II)

Editorial do The New York Times de ontem:
Our hearts and the hearts of all Americans go out to the victims and their families. Sympathy was not enough at the time of Columbine, and eight years later it is not enough. What is needed, urgently, is stronger controls over the lethal weapons that cause such wasteful carnage and such unbearable loss.
No blogue Cosmic Variance: It is good to see some outrage
The number of children under the age of 17 shot by guns in America every year is greater than the gun-related deaths of children in all the industrialized nations of the world COMBINED.

2007/04/18

Cair na real

Cheguei a alinhavar um texto sobre Sócrates e a Universidade Independente, mas depois dos mais recentes desenvolvimentos, confesso que decidi não publicar nada por agora. Mas com isto fico com uma sensação duplamente desagradável de ter perdido tempo e de não me restar nada para dizer. Nem do futebol me apetece falar (e razões para isso não faltavam - desde gozar com os benfiquistas até à meia-final da Taça de Portugal que hoje se joga entre os meus dois clubes favoritos). Enfim, numa derradeira homenagem ao Euler (e uma vez mais graças ao Nélson), deixo-vos um cartoon com dois bons conselhos.

2007/04/17

Mais um massacre na terra das oportunidades

Que posso dizer sobre o massacre da Universidade da Virginia? Recomendar a todos (uma vez mais) que vejam o Bowling for Columbine e, de uma forma algo egoísta, agradecer aos alunos da State University of New York onde estudei serem gente tão tranquila e permitirem-me estar aqui a escrever-vos.
É nestas alturas que a omnipresença da polícia na sociedade americana (em particular, neste caso, nas universidades) parece justificada. É evidente que o policiamento é importante (em particular, deveria ser maior em Portugal em geral), mas - como mais este triste caso demonstra - não resolve tudo. O grande problema da sociedade americana, a causa da insegurança, está no livre porte de armas. A solução está no controle do porte de armas, que é preferível à manutenção do estado actual, que é uma sociedade policial e securitária. Se há quem veja nesse controle uma restrição das liberdades pessoais (e daí?), pergunto-me: e o que verão numa sociedade policial e armada até aos dentes?

2007/04/16

Euler na blogosfera

"Geralmente um grande cientista fica imortalizado por uma contribuição central na sua carreira: a Gravitação de Newton, a Lei de Gauss, a Hipótese de Riemann, a Relatividade de Einstein. Mas, se um matemático referir no abstracto o “Teorema de Euler”, ninguém poderá sequer saber de que ramo da Matemática está ele a falar, tal a abrangência do seu legado científico." (Jorge Buescu, De Rerum Natura.)

"Leonhard Euler: 300th anniversary
Written three centuries after the birth of a famous 18th century string theorist
(...)
As you can see, Euler was quite an impressive mathematically-inclined string theorist who was ahead of his time. He counts as the most prolific mathematician of all time and a guy who wasn't stopped by blindness. I wonder whether back in the 18th century, aggressive crackpots were attacking Euler for not being sufficiently scientific just like they do today."
(Lubos Motl, The Reference Frame.)

O Insurgente no buraco negro

Quando os soviéticos colocaram o primeiro satélite em órbita, o Sputnik, a reacção de um responsável do regime salazarista foi de incredulidade: tudo não passava de “propaganda comunista”. Colocar um satélite em órbita implicava vencer a gravidade (neste caso da Terra), e tal não era possível (pelo menos por parte dos soviéticos). O regime salazarista vivia assim num buraco negro (de cuja gravidade não se pode efectivamente escapar), sem nenhuma comunicação com o exterior, e queria puxar Portugal para lá. É natural que o mesmo se passe com o mais salazarista dos blogues, e com alguns dos seus elementos, salazaristas ou não. Refiro-me, é claro, ao Insurgente e a este texto de Bruno Alves onde, no meio de uma série de delírios, o autor garante que “a gravidade vence sempre", isto é, não se pode escapar à gravidade. A total falta de contacto com a realidade exterior que o texto evidencia só o confirma: o autor escreve, pelos vistos, do interior de um buraco negro.

2007/04/15

Leonhard Euler



A mais bela equação da Matemática, que relaciona os cinco principais números, deve-se a este matemático nascido há 300 anos em Basileia. De entre as suas inúmeras contribuições para a Matemática, destaco as mais simples (não requerem conhecimentos técnicos para serem entendidas) e, por isso mesmo, mais poderosas. Outro exemplo, que ninguém antes tinha provado: num poliedro, o número de faces mais o de vértices é igual ao de arestas mais dois (f+v=a+2). E muito mais. Euler é seguramente das pessoas a quem a Matemática mais deve. A imagem da mais bela equação acima é extraída do Público, que publica hoje uma excelente evocação do cientista, por Ana Gerschenfeld.

2007/04/14

2007/04/13

Esta é a razão do meu desconsolo

Do Público de hoje. Da entrevista de José Sócrates:

O fax do "desconsolo"

"Foi mandado em Novembro de 1996. O professor Luís Arouca convidou-me para dar aulas na universidade, depois de eu me licenciar. E eu estava tentado a aceitar, achava até honroso o convite. Depois descobri que não podia dar aulas porque estava impedido por lei. E mandei as duas leis, fundamentalmente a de 95 como digo no fax, em que é referido a expressa incompatibilidade de funções entre membros do Governo e qualquer actividade regular de dar aulas. O desconsolo é por isso, é por não ter podido aceitar"
É assim que se contratam docentes do ensino superior em Portugal. Nas "universidades" privadas de vão de escada, tipo "Independente", é o pão-nosso de cada dia. Ele é Sócrates, ele é Marques Mendes, ele é Santana, ele é Alberto João... Tudo grandes académicos.
Sr. ministro do Ensino Superior, caro prof. Mariano Gago, e se pensasse nisto? Se se certificasse de que as universidades contratavam gente competente, já viu quantos mais bolseiros poderiam estar empregados? Ficava bem para as estatísticas de que o prof. tanto gosta...

A gente vê-se por aí, Odete

2007/04/12

A notícia do "Público" não é verdadeira

Refiro-me a este caso, sobre o qual tanta asneira se tem escrito na última semana. Imaginem se fosse com o Benfica...

"Yours": deve fazer parte da cadeira de inglês técnico

«O primeiro-ministro salientou que fazia parte de uma turma "especial", criada por alunos oriundos de outras instituições, para explicar a razão pela qual o seu professor de Inglês Técnico, o reitor Luís Arouca, não terá sido o regente dessa cadeira do curso de Engenharia Civil. (...) E, sobre o facto de ter usado como forma de se despedir, numa carta ao reitor Luís Arouca, antes de ter aulas na Independente, a expressão "do seu José Sócrates" garantiu que "costuma sempre terminar as cartas desta forma".» (Do Público de hoje.)

2007/04/11

O engenheiro da discórdia

Nunca concluiu nenhuma licenciatura. Tem um bacharelato. É engenheiro técnico. Mas toda a gente o trata por "engenheiro". Todos lhe reconhecem uma honestidade e uma firmeza de carácter a toda a prova. Estará este homem a enganar toda a gente? Ou será Portugal simplesmente um país mais obcecado por títulos do que por competência?

2007/04/10

Sobre o novo aeroporto

A minha opinião não está ainda muito bem definida, mas creio que estou a ficar mais bem informado, devido à discussão (finalmente) séria que começou nos últimos dias.
Como é lógico, antes de se discutir a localização de um novo aeroporto, o(s) governo(s) deveria(m) convencer-nos de que este novo aeroporto era mesmo necessário, algo que ninguém fez convincentemente.
À partida inclinava-me para uma solução “Portela + 1”, como o Daniel Oliveira. Expandir-se-ia a Portela a Figo Maduro, e construia-se outro aeroporto para “low-costs”. Só que, ao contrário do que o Daniel Oliveira sugere como possibilidade, um segundo aeroporto pequeno não pode ser na Ota. Devido à natureza do terreno e às terraplanagens, um aeroporto na Ota só se torna viável se tiver as dimensões sugeridas pelo projecto do governo. Não pode ser mais pequeno (a construção não é economicamente viável). Não pode ser maior (o aeroporto da Ota não pode ser expandido, o que é um dos seus maiores handicaps). Não pode haver uma “Otinha”. Tem de ser daquele tamanho e só daquele tamanho. Isto é uma questão técnica e não política.
Dito isto, o comentário que mais me convenceu da necessidade de um novo (grande) aeroporto surge no mesmo texto do Daniel Oliveira, foi colocado às 0:38 de 28 de Março e é da autoria de uma leitora, identificada simplesmente como “nanda” mas que parece saber muito bem o que diz. Sugiro a todos que o leiam. Quem acha que não é preciso um novo grande aeroporto deve rebater aqueles argumentos.
A partir daqui, há que discutir finalmente a localização do novo aeroporto. Por motivos ecológicos e ambientais, Rio Frio deve ficar fora de questão. Mas ainda assim parece-me preferível uma localização a sul do Tejo. Porque existe uma fracção muito significativa da população portuguesa que vive na margem sul do Tejo, e para quem a localização do aeroporto na Ota não é muito conveniente. Um aeroporto a sul do Tejo estaria próximo de mais pessoas do que na Ota. Ao mesmo tempo, estaria mais próximo de uma ligação de TGV a Badajoz, e mais longe do Porto. De forma a não subalternizar o aeroporto do Porto e o norte do país, parece-me preferível que o novo aeroporto se situe fora do eixo Lisboa-Porto, que ao que parece já vai ser servido pelo TGV.
A isto há que acrescentar os inconvenientes da Ota que já referi: a necessidade das terraplanagens e a pouca ou nenhuma flexibilidade quanto à área.
Espero que, uma vez confirmada a sua indispensabilidade, o projecto do novo aeroporto vá para diante, mas antes espero que se leve a cabo uma discussão aprofundada. Aguardo por mais esclarecimentos.

Publicado também no Cinco Dias.

2007/04/09

Para quem quer ver a Fórmula 1

...e não tem SportTV ou outro canal de acesso pago: existe sempre o YouTube. Para um resumo, um link útil é Historias del motor.

2007/04/08

Carinhoso

Passaram a semana passada cem anos sobre o nascimento de Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha (também conhecido por João do Barro), exímio compositor de sambas falecido no final de 2006. Uma das suas obras mais conhecidas é a letra um choro composto por Pixinguinha, Carinhoso. Para evocar o seu centenário, fiquemos com Carinhoso, interpretada pelo genialmente desafinado João Gilberto. O que é que eu estou a dizer? O João nunca desafina; os instrumentos é que não o acompanham a cantar. Espero que apreciem. Ouvir o João Gilberto é para mim uma tarde bem passada.

2007/04/07

Ferrari

A histórica marca de Maranello completou 60 anos esta semana. Um dos meus poucos desvios burgueses que ue tenho que admitir é gostar da Ferrari. Mas para gostar de Fórmula 1 sendo de esquerda há a Ferrari que, afinal, é um símbolo de Modena (daí o escudo amarelo no símbolo) e da Emilia-Romagna, a região historicamente mais à esquerda da Itália. Talvez por isso os carros sejam sempre vermelhos. Na véspera de mais um grande prémio, forza Ferrari!

2007/04/05

“Those people can be so touchy!”


É claro que não se pode criticar a Bomba Inteligente sem aparecerem logo os fãs. E é mais claro ainda que não se pode associar a palavra “judeu” a um adjectivo depreciativo sem aparecerem logo acusações de “anti-semita”. Há três anos que ninguém me chamava “anti-semita”. Já tinha saudades. Devo este insulto, desta vez, ao leitor Júlio Silva Cunha, nos comentários, que aparentemente se incomodou por eu ter explicitado a religião de Sarah Silverman quando lhe chamei racista.
Há uns meses a actriz Daniela Ruah era a capa da revista Notícias Sábado. Daniela, para quem não a conhece, é protagonista de uma telenovela actualmente em exibição na TVI. O título de capa da revista era “a bela judia”. E, de facto, correspondia à verdade: Daniela é bela e consta que é judia. Mas também corresponderia totalmente à verdade um título como “a judia da voz esganiçada”. Eu que o diga, que todas as quintas feiras (como hoje) apanho uma bem sefardita dor de cabeça graças aos gritos daquela actriz na referida novela, que tenho que ver (e mais a ligação diária ao programa As Bombas e os Inteligentes. O que um tipo tem que aturar se quer ver do princípio o Dr. House!
Não vi Júlio Silva Cunha nem nenhum leitor da revista chamar “anti-semita” àquela capa, apesar de o “judia” ser bem explícito. Porquê? Porque vinha acompanhado de um elogio. Já um título como “a judia da voz esganiçada” seria rapidamente considerado ofensivo para toda a comunidade judaica. Indignações selectivas... que nem têm a ver com tratar-se de judeus. Se se substituísse “judia” por “negra”, ou “católica” ou “portuguesa” a indignação seria a mesma. E porquê? Porque a etnia (neste caso, “judia”) não tem nada a ver com a voz esganiçada. Mas também não tem nada a ver com a beleza...
No caso de Sarah Silverman incluí uma referência à sua etnia, associada ao seu racismo. Não porque, evidentemente, o racismo seja associável aos judeus. Bem pelo contrário: devido ao racismo de que sempre forma vítimas, parece-me ainda mais chocante encontrar um judeu (ou um negro) racista. Daí a minha referência.
Sarah Silverman é uma boa representante daquilo a que se chama uma “princesa judia”, um conceito bem definido nos EUA e com direito a entrada na wikipédia (será que Júlio Silva Cunha também vê anti-semitismo na wikipédia?). O melhor exemplo de uma “princesa judia” na blogosfera portuguesa é, justamente, a bomba inteligente Carla Quevedo (demonstra-o quotidianamente no seu blogue). Bem mais do que a saudosa Ana Albergaria, com quem eu tive algumas altercações (mas de quem tenho sinceras saudades). A Ana Albergaria manifestava alguma preocupação com o mundo que a rodeava (mesmo que eu nunca concordasse com ela), nunca escondia o que era e tinha um grande sentido de humor (até ensinava a malta a fazer croquetes!). A aburguesada blogosfera portuguesa (de esquerda e de direita) gosta muito da escrita da “princesa judia” portuguesa. Eu, que sou culturalmente proletário, não gosto de príncipes nem de princesas, judeus ou de qualquer outra etnia. Mas desejo a todos (de qualquer crença ou não-crença) uma Páscoa feliz e cheia de coisas boas.

2007/04/04

James Watson

Vale a pena ler a entrevista de Teresa Firmino ao descobridor da estrutura do ADN, director do laboratório de Cold Spring Harbor e Prémio Nobel da Medicina, no Público de sábado. O Tiago Barbosa Ribeiro reproduz algumas partes.















Falando de genética: estou de acordo com o biólogo quanto às suas opiniões sobre transgénicos. Estou de acordo com o lamentar o medo que a esquerda muitas vezes tem da ciência (em particular da genética). Estou de acordo em que esse medo não deve parar a investigação. Estou de acordo que, em questões científicas, a política não deve ser mais forte do que a ciência (será que o Tiago concorda com este ponto?).
Não posso estar de acordo com a redução do ambientalismo social a uma simples luta contra as grandes empresas. E fico aterrorizado com a ideia algo hitleriana de "pagar às pessoas com sucesso para terem filhos" (complementada com a sugestão de "pagar aos pobres para não terem filhos"!). Pode ser verdade que as pessoas com sucesso não estejam a ter filhos e que a taxa de natalidade dos países desenvolvidos esteja a cair. Pode ser verdade que a inteligência e a ambição (importantes para o sucesso) sejam genéticas. Mas podem ser estimuladas ao longo da vida. E enquanto a inteligência é absoluta, o sucesso é relativo.
Não me incomoda nada que se utilize a genética para produzir mais e melhores alimentos para toda a humanidade. Não recuso de todo a ideia de se utilizar a genética na cura de certas doenças. Mas recuso que a genética tenha o papel que só a evolução natural da espécie humana deve ter.

2007/04/03

As bombas e os inteligentes

Está a dar grande polémica o mais recente reality show da TVI, A Bela e o Mestre, por reforçar o estereótipo das mulheres belas e fúteis e dos homens feios e inteligentes. Fui obrigado a ir assistindo a algumas partes na semana passada, ao mesmo tempo que ia lendo qualquer coisa, no domingo (no intervalo do programa desportivo) e na segunda, enquanto aguardava por um filme que à última hora não deu. Estes directos não estavam programados nem anunciados e apanhavam de surpresa o telespectador incauto que esperava ver outro programa, mas são permitidos pela Lei de Televisão que (ainda) vamos tendo. Por pouco tempo, espero.
O Daniel Oliveira espanta-se por não perceber o que fazem no júri Rui Zink e Clara Pinto Correia. Eu vejo Carlos Quevedo e percebo tudo. Num instante tudo faz sentido. Se as participantes no referido programa querem causar boa impressão ao Carlos Quevedo, mostrem-lhe que são capazes do que ele aparentemente mais gosta. Digam-lhe que “hoje acordaram assim...” Não vale a pena (e nem convém) saberem quem é Fidel Castro ou Mikhail Gorbatchov; é preferível afirmarem publicamente que “não respeitam o Islão” ao som da racista judia Sarah Silverman. A mais completa tradução deste programa já existe, na blogosfera portuguesa, há uns bons anos. Admiro-me como as feministas portuguesas não percebem (ou fingem não perceber) isso.

2007/04/02

O primeiro de Abril do "Ciência Hoje"

O caso foi contado no De Rerum Natura (aqui vai em latim) e no Esquerda Republicana. Gostaria de saudar Jorge Buescu pela atitude que tomou e pelos princípios que defende para uma página como o Ciência Hoje. É que já não é a primeira vez que a pseudociência tem voz (infelizmente) naquela página (que, como refere o Ricardo Alves, é meritória e bem intencionada). Refiro-me concretamente a textos como este, cujo autor se apresenta como responsável por um blogue, sem mostrar nenhumas outras credenciais... que não podia. De facto o autor é engenheiro, o seu grau académico mais elevado é um mestrado (não sei por que universidade) e é professor numa universidade privada portuguesa (não sei em qual, nem de quê). Não sabemos que contribuições deu para a investigação neste assunto, que artigos publicou, em que revistas... Para enriquecer o currículo, poderia acrescentar ser referido frequentemente em tons elogiosos pelo insurgente André Azevedo Alves, que como se sabe é reconhecido pela sua isenção, independência e amor pela ciência... E é com estas credenciais que escreve no Ciência Hoje, onde põe em causa uma explicação de um facto aceite por 90% dos melhores especialistas mundiais. Felizmente o seu texto é bem refutado (logo) nos comentários, mas nem sempre se pode esperar que isso aconteça. Para o futuro, e para evitar mais casos como o que deu origem à saída de Jorge Buescu, sugiro assim ao Ciência Hoje mais cuidado com os textos de “opinião” que aceita, pois embora seja desejável e necessária a discussão em ciência, tal não se reduz à “opinião” e nem a torna democrática... Caso contrário, vemo-nos reduzidos às famosas teses de Boaventura de Sousa Santos.

Novos blogues

O do camarada Francisco Frazão, Fábrica Sombria. A pouco e pouco o velho Blogue de Esquerda está todo de volta.
O Sobre a Natureza das Coisas, já bastante conhecido e com uma constelação de autores, dos quais desejo destacar (a título pessoal) os bem conhecidos Carlos Fiolhais e Jorge Buescu (da divulgação científica) e Palmira Silva (da blogosfera).
Este blogue tem um título qualquer em latim, mas designo-o neste texto pelo seu título em português pois, para mim, o latim é uma língua de fachos e padres.
A ambos os blogues quero endereçar os meus mais calorosos cumprimentos (apesar de atrasados) e votos de boas vindas.

2007/04/01

Dia de Costanza

Era assim que, em homenagem ao maior de todos, o dia dos mentirosos deveria ser renomeado.

2007/03/31

Águas de Março fechando o inverno

O mês de Março não foi quase nada chuvoso (pelo menos de onde escrevo, em Lisboa), mas nem por isso deixa de se ouvir as Águas de Março, especialmente neste ano, em que se comemoram os 80 anos do seu genial criador, o maestro soberano António Carlos Jobim.
O clipe do YouTube que a seguir revelo tem outra particularidade, pois desvenda uma história bem conhecida pelos bons apreciadores da música brasileira: por que razão, na gravação mais conhecida da canção, no álbum Elis & Tom de 1974, a partir de uma dada altura Elis Regina se descontrola e desmancha-se a rir? A razão pode ser vista neste vídeo, gravado durante as gravações do álbum. Eu compreendo o ataque de riso da Elis (face à atitude inesperada e surpreendente do Tom); quando eu vi o vídeo pela primeira vez, tive exactamente a mesma reacção. Uma pequena pérola a encerrar o mês.

2007/03/30

Lenine - o concerto


Vem muito bem descrito no Diário de Notícias.
Voltei a verificar algo que não via tão nitidamente desde Nova Iorque. Era o normal num concerto de música brasileira: nos lugares mais caros, americanos compenetrados tentam apreciar a música sem perceberem nada da letra. Nos lugares mais baratos, os brasileiros cantam e fazem a festa.
Na quarta feira, no Tivoli praticamente cheio, a plateia não dançou. Os mais animados eram os pernambucanos do segundo balcão.

2007/03/29

Um debate à portuguesa, com certeza

Tive o prazer de participar no debate da semana passada sobre os quatro anos da Guerra do Iraque, com a participação de dois membros residentes do Cinco Dias. No balanço, nota-se bem que aquele foi um debate “à portuguesa”, sem um grande confronto, onde todos procuravam estar de acordo. Numa coisa foi um debate diferente: foi permitida a participação da audiência, através de inscrições, algo muito pouco usual em Portugal.

Só que tal oportunidade foi utilizada, sobretudo, pelos suspeitos do costume, mais habituados e mais rápidos a pedirem a palavra. Foi assim que assistimos ainda a intervenções/comício de Vasco Lourenço, Garcia Pereira e Mário Tomé, entre outros. E foi assim que nos pudemos aperceber de que estes senhores não mudaram nada na forma de verem o mundo desde há trinta anos para cá.

Ainda consegui intervir, já perto do fim, para manifestar o meu pessimismo com a situação actual da União Europeia e o “erro colossal” que constituiu o chumbo da Constituição pela esquerda, na sequência da preocupação de Freitas do Amaral com a falta de espírito europeu dos países de leste, que estão mais interessados em se aliarem aos EUA e só contam com a Europa para receberem subsídios. Tivesse eu um pouco mais de tempo e talvez tivesse conseguido pôr os senhores da mesa todos uns contra os outros (ou pelo menos, por razões diferentes, todos contra mim). Ocasiões para isso não faltavam, desde o papel da Europa no mundo e a sua política de defesa à questão iraniana: até que ponto o Irão e o seu presidente constituem uma ameaça? Até onde eles poderão chegar? E até onde os poderemos deixar chegar? Estes temas mal foram abordados no debate, e por si só dariam um outro debate muito interessante e certamente sem consensos entre os membros da mesa.

Novidade (pelo menos para mim) foi ouvir alguém particularmente autorizado na matéria (Freitas do Amaral) denunciar a falta de espírito europeu e de cooperação por parte dos estados membros da Europa de Leste, nomeadamente a Polónia e a República Checa, que só parecem contar com a União Europeia para receber subsídios: em tudo o que tenha a ver com política externa, só contam com os Estados Unidos, e a estes nunca se oporão. É aqui que vale a pena parar para pensar e perguntar: não estaremos a andar depressa demais? Não teremos alargado a União de qualquer maneira, sem nos certificarmos de que os novos membros querem fazer parte de um projecto europeu?

Publicado também no Cinco Dias.

2007/03/28

O dia em que faremos contato


"É só no palco que a gente pode mensurar realmente o trabalho que a gente faz. Eu jamais estou dentro da casa de um ouvinte quando ele está ouvindo um disco meu. Mas no palco eu vejo a reacção de cada um."
"Existe um poeta que já faleceu, Paulo Leminski, que dizia uma coisa muito interessante acerca do poder. Ele dizia que o poder é o sexo dos velhos."
"A minha formação socialista não me permite esquecer que eu tenho na música uma ferramenta realmente de transformação. Eu acho que a música - e a arte de uma maneira geral - é uma ferramenta de transformação dos povos."
"Compor para a Bethânia é uma coisa, compor para a Maria Rita é outra, compor para a Fernanda Abreu é outra e compor para a Elba Ramalho é outra."
"Imitar é o início de tudo. Qualquer um dos grandes criadores pode se sentir fragilizado em dizer isso mas eu desacredito de qualquer intérprete ou músico ou compositor que tenha começado a sua carreira sem se espelhar em alguém. Você imita alguém até ao momento em que isso começa a te incomodar e você quer esconder isso e nesse processo descobre um caminho que é seu."

(Osvaldo Lenine Pimentel Macedo, entrevista a Carlos Vaz Marques, DNa, 9 de Dezembro de 2005)

Já tenho bilhetes para o concerto de logo à noite no Tivoli.

2007/03/27

Os escolhidos pelos portugueses



(Via Esquerda Republicana, via Avenida Central.)

Liberalismo e catolicismo

Do mais interessante que se pode ler na blogosfera presentemente são as reflexões de Pedro Arroja, com as quais concordo na maior parte. É claro que Pedro Arroja utiliza aquelas reflexões para defender o liberalismo, quando eu acho que só podem ser aplicadas justamente para mostrar os problemas do liberalismo. Daí a irritação que estas reflexões têm vindo a causar aos seus colegas de blogue. A não perder, aqui e aqui. Esta última, então, bem gostaria de a ter escrito, pois descreve uma experiência que me é bem familiar.

Diálogo à hora do almoço

O diálogo é entre mim e a empregada da cantina.
- Ó faxavor! O frango de caril é para si?
- O frango é para mim, sim, mas o Faxavor é ele. Eu sou o Avesso do Avesso - respondi, enquanto apontava para o meu colega.
Não creio que ela nos lesse.

2007/03/26

O maior responsável pela entrada de Portugal na Europa

A Europa e o movimento europeu foram a grande utopia da segunda metade do século XX. Evidentemente que o socialismo é uma utopia e continuará a ser. Mas a utopia que mais foi concretizada durante estes anos foi a utopia europeia. Eu costumo dizer que não há ninguém de esquerda que não seja também europeu. Se a esquerda não é europeia não é nada. (...)
Quer se queira quer não, as coisas vão avançar. Há dois anos toda a gente pensava que não se ia ter Constituição nenhuma e agora está de novo em cima da mesa. (...)
Hoje estou a ler livros dos antigos presidentes do Banco Mundial, dos homens do FMI, dos conselheiros de Clinton e tantos outros, que eram o mais establishment possível, e que hoje estão a dizer: temos de olhar para as pessoas, temos de defender o sistema social, se não o capitalismo afunda-se, se continua nesta balbúrdia em que está, com a corrupção e os negócios escuros, sem valores nem princípios nem nada e só o dinheiro é que vale. (...)
A Inglaterra tem uma grande influência na Europa, não tenho dúvida. Mas é indispensável que se diga o seguinte: quem quer avança, quem não quer não avança. Como no euro e como em Schengen. Temos de construir uma Europa da defesa e uma Europa política, com uma política externa. A questão é: quem quer fazer parte? A Inglaterra não quer, mas não pode prejudicar os outros. Podemos fazer uma cooperação reforçada para avançar. (...) Já se sabe que eles (britânicos) têm a bomba atómica e os franceses também. O que era interessante é que, se houver uma proliferação nuclear perigosa como se está a ver, será necessário europeizar as bombas deles. Sempre pensei assim.

(Mário Soares, entrevista ao Público, 25-03-07)

2007/03/25

Europa: valores comuns

Por pressão dos suspeitos do costume (Reino Unido, Polónia, República Checa...), e por não os querer contrariar, a União Europeia aprovou uma declaração tímida e sem grande conteúdo.
Um grupo de cidadãos propõe a Declaração de Bruxelas, que qualquer cidadão pode ler e assinar na rede, e que eu quero aqui divulgar. Não deixem de passar por lá.
Quanto à União Europeia, que faz 50 anos, precisa de querer deixar de agradar a todos os seus membros, ou não irá a lado nenhum. Quem está, está; quem não está, fica para trás, e mais tarde de certeza que vai querer estar outra vez. Uma Constituição precisa-se, urgentemente.
Apesar de tudo isto, creio que a Europa está de parabéns.

Bruxelas

Uma verdadeira encruzilhada. Esta cidade cosmopolita, estando mesmo na fronteira, marca como nenhuma outra a coexistência entre as duas Europas, a do norte e a do sul, a protestante e a católica, a da manteiga e a do azeite, a da cerveja e a do vinho.

2007/03/24

Antes da Ota, há que falar na Portela

Tem toda a razão nesse aspecto o João Miranda. Hei-de voltar a este assunto.

2007/03/23

E8 e o marxista heterótico

Cientificamente uma das grandes novidades da semana foi o anúncio da descoberta da estrutura completa do E8, o maior dos grupos excepcionais. Este grupo descreve uma simetria global da mais complicada teoria de supergravidade em quatro dimensões e, sobretudo, surge como o grupo de gauge de uma das cinco teorias de supercordas existentes (e mais promissora fenomenologicamente), a corda heterótica. Mais precisamente, tal grupo de gauge é E8xE8. É daqui que eventualmente se partirá para a construção do modelo padrão das interacções.
O físico e blóguer Lubos Motl pouco diz sobre o assunto, remetendo para outras páginas. Mas em contrapartida não é todos os dias que ele fala de um professor do Técnico.

2007/03/22

O debate de anteontem

Algumas impressões soltas sobre o debate de anteontem. Mais se seguirá.
Mário Soares trata (a brincar) Joana Amaral Dias por "dra. Joana". Trata (a sério) Freitas do Amaral por "sr. Professor", e dá-lhe passagem para se sentarem à mesa do debate.
Garcia Pereira é um portento a falar às massas. Nota-se bem a escola do MRPP. É impossível não lhe prestar atenção quando fala. Nem Mário Soares consegue dormir.
Falando-se de Garcia Pereira: fala-se muito de Joana Amaral Dias, mas alguém já reparou na loura por quem ele se faz acompanhar? Só ela era capaz de disputar a nossa atenção enquanto o companheiro discursava.
Venho do debate completamente "freitista". Freitas do Amaral foi quem eu mais gostei de ouvir.
Vasco Lourenço e Mário Tomé é que continuam exactamente na mesma como há mais de 30 anos atrás.
Um resumo televisivo pode ser visto no Telejornal de ontem (primeira parte), aos 15 min. Voz amiga identificou-me na televisão, no meio da assistência, e avisou-me. Lá se vê a minha cabeça e a minha camisola verde. Sou fácil de identificar: na frente da assistência, sou o único que ainda não tem cabelos brancos.

2007/03/21

Desde o tempo dos dinossauros que os carros andam a gasolina

Eu nunca fui particularmente entusiasta dos "Dias de...", artificialmente inventados e dedicados a causas com que nos deveríamos preocupar o ano inteiro. Mas um dos "dias" de que eu me lembro, quando era miúdo, era o Dia Mundial da Árvore, que na escola era sempre dedicado a questões ecológicas. O Dia da Árvore é hoje. (Também parece que é "Dia da Poesia". Mas não havia outro dia para ser "Dia da Poesia"?)
Faz hoje vinte anos que eu plantei uma árvore, um cedro, na Escola Delfim Santos, em Lisboa. Ainda hoje está de pé. Olho sempre para ele quando por acaso lá passo. Há vinte anos, as únicas árvores que aquela escola tinha eram duas oliveiras.
Para observar a data, escolhi uma canção adequada, mais ou menos da mesma idade: Nothing But Flowers dos Talking Heads. Aqueles que só a conhecem de uma versão ensossa do Caetano Veloso (num álbum já de si desnecessário), vejam o excelente clipe de vídeo original. Não se limitem a escutar a letra irónica: leiam bem todos os factos que lá aparecem escritos. Muitos deles não perderam actualidade. Years ago, I was an angry young man...

A direita trauliteira

Não tenho de todo grande paciência para questões politiqueiras, muito menos quando não dizem respeito à minha área política. Como devem calcular, a situação do CDS/PP não me tira o sono. O que não invalida que eu aprecie uma boa análise do momento deste partido (e do comportamento do causador da crise), por alguém daquela área política, no Blasfémias.

2007/03/20

Esquerdistas e activistas

Cesare Battisti foi incriminado com base em provas muito duvidosas, nunca tendo sido provado definitivamente que era o autor dos assassínios que lhe eram imputados nem que fosse um terrorista. Eu não sei nada sobre o senhor, até ontem nunca tinha ouvido falar dele e nem quero estar aqui a defendê-lo. Mas políticos franceses pedem que o seu julgamento seja repetido, e não estou a falar só de comunistas ou trotsquistas ou José Bové: falo também de ecologistas, da socialista Ségolène Royal e até do centrista (e a meu ver futuro Presidente de França) François Bayrou. Quem o noticiava ontem era o Diário de Notícias (na sua edição de papel), que agora até é dirigido pelo João Marcelino. E o capitalista e insuspeito Yahoo! Mas o que sabe toda esta gente comparada com Helena Matos?

2007/03/19

Convenceu-me (2)


Do pouco que eu vi da corrida, intuo que não deve ter havido nenhum "grande momento de condução", pois o ice-man Kimi ganhou a prova nas calmas. Mas foi o primeiro piloto da história da Ferrari a conseguir pole-position, melhor volta e vitória da corrida no Grande Prémio de estreia na equipa. Nada mau. O lugar é dele.
Destaque ainda para Lewis Hamilton, o primeiro negro da Fórmula 1, que chegou ao pódio na sua estreia na modalidade. Globalmente, este foi ainda o pódio mais jovem de sempre de toda a Fórmula 1. Uma corrida histórica, portanto.

Convenceu-me (1)


Renovem lá o contrato ao rapaz. Mas não lhe paguem muito.

2007/03/17

Inconvenientes da vitória

Devo começar por dizer que a vitória não me surpreende (sem falsa modéstia e sem querer desrespeitar o Porto). Tal como não me surpreendeu a eliminação da taça UEFA contra os russos. Isto para quem acompanhe o Sporting.
Os inconvenientes desta saborosa vitória são dois e são óbvios: fica mais provável a renovação do Tello (é capaz de nem ser assim tão mau) e fica mais próximo do primeiro lugar o Benfica. Não consigo estar completamente contente.

Roommates íntimos


Vamos ver quem deu melhores conselhos a quem.

2007/03/16

Pedido de visita

Há uma amiga minha, cozinheira de mão cheia - já aqui lhe gabei o caldo verde, mas ela prepara muitas outras iguarias -, que está em Paris a fazer um MBA em hotelaria. Como parte da sua especialização teve de preparar uma página na internet de anúncio a um complexo hoteleiro numa região turística francesa. A nota de uma das cadeiras do MBA dela - acreditem! - vai ser determinada pelo número de visitas que a página que ela fez receber. Posso assegurar-vos a sua competência, e espero que ela venha um dia a servir, no seu próprio restaurante, as suas excelentes especialidades (que vão muito para além da bifana e da sardinha assada), cozinhadas por ela e sem ser por vinte euros. Mas para isso esta minha amiga precisa de acabar o seu curso com boa nota. Dado o engenhoso método de classificação, posso-vos pedir uma visita à página da Diana? Não é nenhum tipo de publicidade - nem sequer precisam de ler nada; basta mesmo, acreditem, clicarem aqui. Obrigado.

(Diana, quando abrires o teu restaurante, nada de comida japonesa, OK?)

2007/03/15

A Fórmula 1 sem Schumacher

Que esperar desta época de Fórmula 1, agora que o maior dos campeões desta especialidade se retirou? Ficará a Fórmula 1 órfã de Schumacher? Por algum tempo é possível que sim, e não me refiro somente aos ferraristas como eu. Refiro-me à modalidade.
No que diz respeito à minha equipa, vamos ver o que faz Raikkonen. Simpatizei com este piloto na época de 2005 – creio que teria sido um justo campeão do mundo, não fosse o azar que o perseguiu, em várias corridas, ao longo de toda a época. Mas a forma categórica e inquestionável como foi batido por Schumacher na última temporada, e sobretudo aquela ultrapassagem da última corrida, quando Schumacher partira de trás para a última das suas recuperações, sem nada a ganhar ou a perder, e “arrumou” assim, limpinho, o seu substituto na equipa, tornam impossível, pelo menso por agora, torcer por Raikkonen sem aumentar as saudades do Schumacher. Primeiro é preciso ver-se um grande momento de condução deste piloto ao volante do Ferrari. É preciso que ele mostre que merece o lugar que ocupa. A pressão vai ser grande. Veremos se ele está à altura.
Por quem é que eu vou torcer, então? Na infância sempre sonhei que um dia um piloto que falasse português, se chamasse Filipe, o seu apelido tivesse cinco letras, a primeira das quais “m” e a última “a”, viesse a ser campeão do mundo de Fórmula 1. Ao volante de um Ferrari, como é evidente. Veremos se este ano se cumpre este meu sonho de infância.

2007/03/14

Wikipédia e originalidade

A propósito deste caso exemplar que nos é contado pelo Santiago no Conta Natura, recordo outro caso em que esteve e discussão (entre outras coisas) a utilização de fontes da internet por parte de um jornalista científico.
Devo começar por esclarecer que colaborei recentemente com a secção de Ciência do PÚBLICO, tendo sido um dos seleccionados para o programa "Cientistas na Redacção". Nunca tive nenhum tipo de relação com a jornalista em questão que não fosse de trabalho e, desde que terminou a minha colaboração com o jornal, no passado mês de Outubro, não voltei a falar com ela.
Não me vou pronunciar sobre a utilização por parte da jornalista de artigos publicados em outras revistas, científicas ou não, embora segundo julgo ter percebido todas as revistas consultadas tenham sido referidas (o que torna mais difícil, relativamente às mesmas, qualquer acusação de "plágio"). Quero concentrar-me somente sobre a utilização por parte de um jornalista de fontes que são do domínio público, que estão na Internet, mais concretamente na Wikipédia.
É possível que haja excepções, uma vez que a informação disponível na Internet é muito vasta e variada, mas pode dizer-se que, em grande parte, os conteúdos da Wikipédia não são nada originais. São baseados em informações que podem ser colhidas noutros sítios da rede, mas também em livros, jornais e revistas, especializados ou não. Em grande parte das vezes, quando se trata de informação factual, nem sequer é fornecida a fonte dessa mesma informação.
Tratando-se de dados factuais do domínio público (e que, portanto, não constituem por si valor noticioso), a utilização da Wikipédia como fonte de informação sobre estes factos parece-me tão válida como outra qualquer. Eu mesmo, enquanto jornalista científico, utilizei várias vezes informações provenientes da Wikipédia. Eram sempre informações factuais, que poderia encontrar num livro especializado - que eu provavelmente poderia encontrar numa biblioteca ou na minha colecção particular -, mas que não seria a fonte mais prática de consultar, estando na redacção do jornal e sem acesso a eles.
Refiro-me, é claro, a conceitos que são conhecidos por especialistas mas não pelo leitor comum, tendo por isso de ser explicados de uma forma básica pelo jornalista ao dar a notícia. Sobretudo - e isto é que é importante: são informações complementares, sem nenhum tipo de valor jornalístico, nunca constituindo o motivo ou o conteúdo principal do texto. Não me parece por isso correcto acusar alguém de "plágio" só por utilizar este tipo de informações num artigo. Foi este tipo de informações que eu usei (e creio poder dizer-se o mesmo das utilizadas pela jornalista do PÚBLICO).
É claro que são de evitar transcrições textuais de textos de qualquer fonte, incluindo a Wikipédia, mas convém esclarecer que, com definições técnicas, é inevitável a repetição de ideias, palavras e conceitos. Desafio quem pensar de outra forma a enunciar o teorema de Pitágoras de outra forma que não seja "o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos". Será esta última frase plágio? É assim que vem na Wikipédia.
Finalmente, convém esclarecer a prática relativa aos direitos de autor em textos de índole científica, mesmo se de divulgação. É uma prática provavelmente diferente em alguns aspectos da do jornalismo clássico, mas que se aplicará melhor ao jornalismo científico, que tem especificidades próprias. Num texto deste tipo há sempre uma distinção clara entre o que é um conceito ou facto original e o que é uma revisão. A única fonte que há a obrigação de citar é o autor do original, e não os das revisões que foram feitas desde então. Desde que não se cometam transcrições integrais, nenhum autor de uma revisão - por revisão também pode entender-se uma página da Internet como a Wikipédia - pode considerar "plágio" outro trabalho de revisão, ou pedir para ser por este citado. O que é mal visto na comunidade científica é falar-se de temas e citar-se trabalhos que não se conhece bem. É esperado que um autor de um texto entenda o que escreveu, de forma a poder ser considerado realmente o autor desse texto, mesmo se se tratar de uma revisão. Creio que o mesmo critério pode e deve ser aplicado ao jornalismo científico. É isso que distingue um bom de um mau jornalista científico. É muito fácil para um especialista, ao ler uma notícia, distinguir se quem a escreveu a entendeu ou não.
Entramos assim num domínio - a avaliação da competência de alguém - que não é e nem pode ser democrático.

2007/03/13

Encontros presidenciais

Que eu me recorde, cruzei-me três vezes com Presidentes da República em exercício. Duas no mesmo sítio, o Salão Nobre do Instituto Superior Técnico, uma vez com Jorge Sampaio (em 1996), a outra com Cavaco Silva (hoje, no seu Roteiro para a Ciência). A outra vez foi também com Sampaio, no cinema, a ver Good Bye Lenin!
A breve visita do Presidente foi rodeada de cuidados que não devem surpreender ninguém. As velhas portas corta-fogo dos corredores, que costumam permanecer abertas, estavam desta vez bem fechadas, para não se verem paredes mal pintadas, cadeiras a monte e andaimes de obras. Houve um cuidado natural na preparação da exposição, sobre fontes de energia amigas do ambiente, para a visita do Presidente: afinal, era nesta altura que vinha a comunicação social. Só que a exposição continua patente, e a partir de amanhã ninguém se importa se é visitada ou não. Se puderem, vão vê-la que vale a pena.

Gostei de ler

Mesmo sem concordar com tudo (especialmente no último texto), são textos que fazem pensar e que valem a pena ler, discutir, debater. Como se faz nos lugares civilizados.

2007/03/12

Quando as letras não pagam as expectativas II

Seguiu-se uma discussão muito interessante na caixa de comentários do meu texto “Quando as letras não pagam as expectativas”, que vale a pena ser lida.
Entre os comentários que recebi por email estão os de um sociólogo que me fez ver um lapso meu: para entrar no curso de Sociologia é necessária a frequência de Matemática nos ecundário. Dos cinco licenciados referidos, “apenas” quatro não tiveram Matemática.
Também valem a pena serem lidos dois textos do Tiago Mendes, um que eu já conhecia e outro que o autor teve a gentileza de me fazer chegar: Licença para pensar, sobre a empregabilidade dos cursos das universidades inglesas, e Rigor criativo, sobre a importância da Matemática.
De tudo o que eu li, gostaria de acrescentar que na situação portuguesa muitos alunos nunca chegam (e nunca chegaram) a estudar realmente matemática a partir do 6º ano: pura e simplesmente “desistem” da matemática. Decidem que irão para letras e logo se vê, pois sabem que o “pesadelo” das ciências exactas só dura até ao 9º ano.
Por outro lado, o ensino da matemática não deve ser feito a pensar que todos os alunos serão matemáticos, ou sequer estudarão ciências. Não defendo que haja falta de matemáticos; agora, há um excesso de licenciados sem nenhuns conhecimentos de matemática, que orientaram todos os seus estudos só para fugirem à matemática, e por isso mesmo não se sabe muito bem o que se lhes há-de fazer. Pior: nem esses licenciados sabem muito bem o que hão-de fazer fora da sua área de estudos. A flexibilidade e a capacidade de adaptação de que o Tiago Mendes fala, e que são absolutamente indispensáveis num mundo em evolução tecnológica vertiginosa, só se podem alcançar com uma boa base matemática. Se não compreendermos isto arriscamo-nos a continuar a formar reveladores de fotografias na era da fotografia digital.

2007/03/09

Barak, a Fox e o fumo


Eu acho bem que se protejam os direitos dos não-fumadores. Sobretudo, que se acabe com a cultura vigente em Portugal que faz com que o acto de fumar fique completamente impune. Até há uns anos um não-fumador em Portugal estava completamente indefeso. Mas o objectivo deve ser só o de proteger a saúde, e nunca o de estigmatizar e ostracizar o fumador e o acto de fumar. Via Zona Fantasma, deixo-vos com um vídeo que demonstra bem onde não se pode e não se deve chegar. E que vos dá uma ideia, ao mesmo tempo, da independência da cadeia de televisão americana Fox. Imaginem agora como são apresentados os conflitos internacionais, e quem critica a política externa americana!
Voltando ao assunto do vídeo: lamentavelmente, receio que se Barak Obama quer ter hipóteses de lutar pela nomeação democrata, terá que deixar de fumar. E isso já se confirmou: já o anunciou a semana passada.


Publicado originalmente no Cinco Dias.

2007/03/08

Receita Dia da Mulher 2007

Reactivando um hábito de outros anos, e porque entendo que o feminismo começa verdadeiramente na distribuição das tarefas domésticas elementares, de acordo com a minha ética proletária, observo o Dia da Mulher... com uma receita. Homens para a cozinha, pois então!
Confesso no entanto que a receita que escolhi este ano não foi a pensar em nenhuma mulher: é mais dedicada ao jornalista, crítico gastronómico e blóguer Duarte Calvão. O Duarte Calvão costuma publicar crónicas no Diário de Notícias sobre os excelentes restaurantes que visita, em Portugal e no mundo inteiro. E confirma-nos aquela máxima da cozinha portuguesa que a torna verdadeiramente atractiva e democrática: pobres e ricos comem as mesmas coisas (excluo os "muito pobres", como é evidente, que mal tenham dinheiro para comer). O que quero mesmo dizer é o seguinte: se excluirmos restaurantes de luxo, é frequente encontrarmos ementas semelhantes em restaurantes mais caros e mais baratos. A diferença de preço está só no local onde se come. No Brasil, pelos vistos, a situação não é muito diferente. E é assim que vemos o Duarte Calvão, na sua crónica do DN, todo orgulhoso por ter pago 15 euros em São Paulo por um hambúrguer. Recordo-me que o mesmo jornalista, no passado mês de Junho, por altura dos santos populares, escreveu outra crónica onde gabava umas sardinhas assadas que tinha comido em Alfama, pelas quais tinha pago a módica quantia de... 20 euros. Tinha gostado tanto que voltara ao mesmo restaurante para comer... umas febras de porco! Um prato que já não comia há dois anos! O crítico gastronómico Duarte Calvão não comia febras de porco há dois anos. E ficou tão comovido por as descobrir no mesmo sítio onde tinha pago 20 euros pelas sardinhas que voltou lá de propósito, só para as comer, tendo voltado a desembolsar 20 euros por um prato!
Eu não sou o Duarte Calvão, mas quando pago 20 euros por um prato num restaurante (é muito raro, mas pode acontecer), não é para comer febras de porco. Sendo assim, hoje, Dia da Mulher, dia em que os homens se deveriam habituar a ir mais à cozinha (como todos os outros), eu deixo aqui uma receita de febras de porco. Dedicada ao Duarte Calvão.

Tome as febras, tempere-as com colorau, louro e um pouco de pimenta. Junte-lhes uns dentes de alho em rodelas (Duarte, se for cortar os alhos, tenha cuidado não se vá cortar). Junte um pouco de vinho branco e deixe marinar por umas horas. Escorra-as na marinada e leve-as a fritar em margarina ou banha, a seu gosto. Estando fritas, junte a marinada até esta reduzir. Acompanhe com umas boas batatas cozidas com casca. (Duarte, se for cozer as batatas, lave-as bem primeiro, corte-as – cuidado, não se corte! É melhor não as descascar! -, ponha-as em água com sal que entretanto pôs ao lume (cuidado, não se queime!) e deixe-as cozinhar até ficarem tenras.)

E pronto: com ingredientes que compram em qualquer supermercado, têm aqui um pitéu que vale, nos restaurantes que o Duarte Calvão costuma frequentar, 20 euros. Et voilá, como dizem os chefs desses restaurantes. Bon appétit.

Publicado também no Cinco Dias.

2007/03/07

Blogues novos, blógueres não tão novos

Aproveito o aniversário do blogue para rearrumar a lista de hiperligações. Retiro alguns blogues desactivados e acrescento outros. Sem querer ser exaustivo, refiro aqui alguns.
Vítor Dias tem um blogue que merece leitura atenta. O Tempo das Cerejas é o título do blogue, e é também o título de uma canção que se tornou um símbolo da Comuna de Paris, Le Temps des Cérises. Bem vindo, Vítor Dias.

O título desta canção inspirou também o nome de um dos meus restaurantes favoritos de Paris, em plena Butte Aux Cailles, um bairro boémio do 13ème e símbolo da Comuna. No Le Temps des Cérises (um restaurante-cooperativa onde todos trabalham e todos lucram), gosto de comer as fantásticas entradas de arenque fumado (como não há outras) e o boudin noir à normanda. Quem me recomendou este restaurante foi outro blóguer histórico, o Vasco Barreto, que volta à blogosfera como autor de muitos blogues, demasiados para serem todos referidos, como se fossem suplementos de um jornal. O blogue central, federador dos outros, é o Caderno I. Alguém entendido em html dá uma ajuda com o modelo ao Vasco?

Destaco também blogues de dois antigos companheiros do saudoso Blogue de Esquerda, o Bidão Vil (um blogue que só agora descobri) e a Zona Fantasma, onde escreve um rapaz chamado Luís Rainha (o "Fantasma do Natal Passado"), fã do Tio Patinhas como eu.

O Luís que, entretanto, deixou há algum tempo um comentário sobre este texto do Miguel Sousa Tavares. Sem querer perder mais tempo: tem razão, o Luís. Creio no entanto que tal se trata simplesmente de uma passagem (muito) infeliz, mas que não chega a estragar o resto do bom artigo. É claro que o Luís, com o seu reconhecido feitio, não concorda neste ponto e "deita tudo abaixo". E faz o mesmo nos comentários do blogue de onde entretanto saíra, o Aspirina B. Mas mantém o velho hábito de fazer comentários anónimos aos textos de companheiros de blogue. Não é a pensar em mim, primeiro porque eu já conheço de ginjeira o estilo de escrita do Luís e, segundo, porque felizmente ele já assina os comentários que me deixa. Mas, se ele me permite, gostaria de lhe dar um conselho.

(Luís, se não queres mesmo ser identificado como autor de comentários anónimos, procede como te sugiro. Escreve como os outros comentadores anónimos; não precisa de ser mal, mas não com o teu português rebuscado que nenhum comentador (anónimo ou não) usa. Não uses expressões que na blogosfera só tu usas (e provavelmente só tu conheces o significado), como "supina", "fruste", "sinecura"... Sobretudo não uses uma marca do teu estilo que é única e exclusiva e que te identificaria em qualquer blogue ou fórum: não uses ponto e vírgula a seguir a "irra". Bem vindo de volta.)

Finalmente, para verem como a blogosfera é diferente da sociedade, mesmo no que diz respeito à esquerda. Os comunistas como Vítor Dias escrevem sozinhos (ó Vítor Dias, não arranja um "verde" para lhe fazer companhia?). O Peão, por sua vez, é uma grande coligação democrática unitária de blógueres de esquerda (mas, que eu saiba, sem comunistas). Inclui alguns veteranos consagrados da blogosfera. Tem uma dinâmica interna muito apreciável, como há muito não se via num blogue colectivo de esquerda. Bem vindos. Faziam falta.
Boas blogagens a todos.

2007/03/06

Seinfeld - The Lost Episode

Num interessante blogue de apoio a Barack Obama - This Much Left - encontrei um vídeo com uma colagem de episódios do Seinfeld, e com um da vida real pelo meio. Para um fã do Kramer como eu custa fazer isto, mas aqui vai. Afinal custa muito mais saber o que se passou. Mas o Michael Richards pedu desculpa.