2007/03/05
Obrigado!
Actualização: obrigado também ao Daniel Oliveira e ao Pedro Correia.
2007/03/04
O velho esquema desmorona dessa vez para valer
À luz desse dia D
eu vou viver sem você!
Manuel Bento (1948-2007)

Era um dos “cromos” da minha infância. Quando era miúdo, o que eu mais gostava era de o ver sofrer golos. Mas no fundo gostava dele. Dele e de toda a equipa do Benfica da primeira metade da década de oitenta. Os jogadores eram quase todos provenientes da margem sul do Tejo, de localidades operárias. Chalana, Pietra, Veloso, Nené, Diamantino... Sven Goran Eriksson era o treinador. E Bento era o capitão. E o mais emblemático.
Eu estava pelo “outro lado”, que eram o Jordão, o Oliveira, o Venâncio, o Carlos Xavier, mais tarde o regressado Vítor Damas. Manuel Fernandes, também da margem sul do Tejo, era o capitão. E o principal adversário. As grandes rivalidades naquela altura eram estas; depois é que apareceu o Pinto da Costa e mudou tudo.
Quem faz a grandeza do Benfica não são os tais famosos “seis milhões”: é o ter na sua história homens como o Bento.
2007/03/01
Um ano
Este blogue tem sido o meu espaço de liberdade (e de prisão, às vezes). Espero que quem o visita encontre tanto prazer nisso como eu encontro em escrevê-lo. É para vocês, mas não é por vocês que eu escrevo. Por isso devo agradecer mais uma vez as vossas visitas. Muito obrigado e um abraço a todos.
2007/02/28
Carnaval na Mealhada - o Rei não ia nu

O Rei do Carnaval da Mealhada (considerado o mais brasileiro de Portugal) foi, pela primeira vez, um actor português, Ricardo Pereira. Que, mesmo assim, foi apresentado como participando na telenovela brasileira "Pé Na Jaca".
Se eu quisesse ter tirado esta fotografia, provavelmente não a teria conseguido. Mas a verdade é que a tirei. E, por acaso, nessa altura o "rei" parece estar mesmo a puxar a roupa para cima. Roupa que, pelos vistos, lhe estava grande...
Carnaval na Mealhada - Tropicália
Carnaval na Mealhada - a realeza dos bambas que quis se mostrar

Chegou a capital do samba
Dando boa noite com alegria
Viemos lhe apresentar o que a Mangueira tem
Mocidade, samba e harmonia
Nossas baianas com seus colares e guias
Até parece que eu estou na Bahia
Até parece que eu estou na Bahia
(Capital do Samba, José Ramos)
As baianas mais formosas também eram as da Mangueira.
2007/02/27
Carnaval na Mealhada - o desfile
Bella Italia - onde a esquerda é sinistra
Telegraficamente, o que diz então o Nuno? Concorda: "é fundamental impedir o acesso ao governo à direita de Berlusconi, mas para isso não é necessário ir para o governo, bastava um acordo de incidência parlamentar." Tem graça que neste caso o que falhou mesmo foi o referido "acordo de incidência parlamentar". A crise foi gerada no Senado; não teve origem no governo. E "ir para o governo, ganhando alguns lugares, em troca de abdicar do programa" não é necessariamente uma afirmação de coragem, mas também não é de oportunismo. É uma afirmação de responsabilidade: de preferir trabalhar, implementar medidas concretas e fazer o melhor que se for possível, não se limitando à posição confortável (e sem responsabilidades) da crítica no café, nas colunas de jornal ou no blogue.
2007/02/26
Parabéns, Mr. Gore!

Conseguiu o que nenhum outro Presidente ou Vice Presidente americano (nem mesmo Ronald Reagan) alguma vez tinham conseguido.
Do discurso de aceitação:
"Esta não é uma questão política, é uma questão moral. Temos tudo para começar, exceptuando talvez a vontade de actuar. E isso é uma energia renovável."
2007/02/23
O português mais português que eu conheci

(Imagem roubada daqui; foi a única que encontrei.)
No passado verão, encontrava-me eu no Público a estagiar como jornalista científico. Atrás de mim sentavam-se os designers, que se encarregavam dos suplementos semanais. Sempre que alguém desta equipa de simpáticos profissionais estava de volta da próxima edição do Inimigo Público, aparecia um indivíduo mais velho, de trajo mais formal, gel na cabeça e mãos nos bolsos.
O ambiente na redacção de um jornal não é propriamente o mais calmo: há sempre conversas entre jornalistas, de trabalho ou não, que constituem um ruído de fundo geralmente alegre e não incomodativo. Acabamos por nos habituar e conseguir trabalhar. Mas cada vez que o dito senhor aparecia, tínhamos de ouvir a sua conversa com os designers, as piadas que ele lhes contava, e que terminavam sempre com as suas gargalhadas, altíssimas e algo alarves, que se ouviam naquele andar todo. O senhor pelos vistos achava muita graça a si próprio.
Um dia eu finalmente não aguentei mais. Dirigi-me ao senhor e pedi-lhe que falasse mais baixo, pois estava a incomodar-me e não me deixava trabalhar. Embora não deva ter sido propriamente simpático, pois encontrava-me (julgo que) compreensivelmente agastado, garanto que falei sempre com bons modos. Mas tal não foi suficiente para o senhor, que (numa reacção que nunca esquecerei) me mirou de alto a baixo e perguntou: “Quem é você?” Para de seguida me acusar de o “mandar calar” (algo que nunca fiz).
Compreendo que o senhor se manifestasse surpreso por ver um estagiário dirigir-se-lhe desta forma: os estagiários estão na base da hierarquia do jornal, à procura de uma vaga no quadro. Está certo que eu não era um estagiário como os outros (nomeadamente não pensava seguir a carreira de jornalista). Mas dirigi-me a ele, sem saber quem ele era, como me teria dirigido a qualquer outra pessoa (sempre com bons modos): por estar convencido da minha razão. Nunca vislumbrei no senhor qualquer pedido de desculpas ou sinal de arrependimento. Mas pela forma como me questionou, é legítimo pensar que, se me conhecesse, nomeadamente se eu me chamasse Belmiro ou Zé Manel, a sua reacção teria sido outra. Quando alguém chama a atenção a este senhor, pelos vistos é mais importante a posição da pessoa do que a razão que eventualmente possa ter.
O episódio passou-se, e entretanto o meu estágio no Público acabou. Não fazia na altura ideia de quem era o indivíduo com quem tinha protagonizado este episódio. Vim mais tarde a descobrir tratar-se do director do suplemento Inimigo Público. E só ainda mais tarde descobri o seu nome, e que era membro permanente do painel de comentadores do programa O Eixo do Mal, estando na origem da recente iniciativa para a escolha do “pior português”. Não o vou classificar como “bom” ou “mau”, pois todos temos virtudes e defeitos. Mas pelo comportamento que evidencia no que aqui relatei sobre o barulho na redacção (sobranceiro para com os estagiários, subserviente para com os poderosos) e pela tendência para a maledicência no que diz respeito aos seus compatriotas e semelhantes, considero que, de todos os portugueses que eu conheci, Luís Pedro Nunes, ele sim, neste pequeno episódio, representou o pior de ser português.
Publicado originalmente no Cinco Dias.
2007/02/22
Quando as letras não pagam as expectativas
Olhando para o perfil dos licenciados em questão, vê-se que todos eles têm algo em comum. O quê? Não o terem estudado numa universidade privada: a maioria dos seleccionados até estudou no sector público. (Embora o desemprego de licenciados afecte sobretudo alunos de universidades privadas que apostam em cursos baratos – para a universidade -, de “papel e lápis”, sem qualquer preparação técnica, só para “garantir o canudo” ao cliente – o aluno.) O ISCTE, por exemplo, “contribui” com dois alunos, não ficando nada bem visto (o que, comparado com outras universidades, acaba por ser injusto). Mas qual é o problema? O que têm todos em comum? Muito simples: são “de letras” no secundário. Não estudaram matemática a partir do 10º ano. E agora deu nisto que se vê. É essa a característica básica do desempregado licenciado. Anos e anos de tolerância com o desinteresse e as más notas pela matemática deram nisto.
Mais do que um “Plano Nacional de Leitura”, do que Portugal precisa urgentemente é de um “Plano Nacional de Matemática”. Que poderia começar pela obrigatoriedade da frequência desta disciplina até ao 12º ano, qualquer que fosse o “agrupamento” de opção escolhido.
E tudo se acabou na quarta feira
Aqui por estas bandas tudo começou numa Quarta Feira de Cinzas. Há quase um ano.
2007/02/20
A música dele, sim, é de levantar poeira
2007/02/18
A minha música não é de levantar poeira
Uma das coisas que eu faço, quando se aproxima o Carnaval, é ouvir intensivamente o Chico Buarque. Quem me lê pode julgar que eu não ouço outra coisa, mesmo durante o resto do ano, mas tal não é verdade. Só mesmo no Carnaval.
O último CD do Chico Buarque é bastante atípico, e uma das razões é só haver uma vaga referência ao Carnaval (logo na melhor música, Dura na Queda) não incluir nenhuma canção dedicada à escola de samba Mangueira, como era tradição nos últimos discos. Paratodos incluía Piano na Mangueira; Uma Palavra, a excelente Estação Derradeira; As Cidades, Chão de Esmeraldas e Chico ao Vivo, para além desta última ainda tinha Capital do Samba. Fico pelas clássicas, que seja. À guisa de homenagem a Tom Jobim, no ano em que completaria 80 anos, deixo-vos com Piano na Mangueira.
2007/02/16
A esquerda "carnívora" e a esquerda "vegetariana"
2007/02/15
Para acabar de vez com o tema do referendo - a blogosfera
Eu não costumava ler o Blogue do Não, como aqui referi, mas pelo que vi quis-me parecer que nunca atingiu o mesmo patamar do Sim no Referendo. Nem mesmo com o reforço que constituia a presença do “português livre” Cláudio Téllez. Não o souberam aproveitar, é o que é. Para a posteridade fica este texto de encerramento, que eu traduzi para amigos meus de outras nacionalidades, para eles constatarem o tipo de pessoas e de argumentos com que andámos a esgrimir.
2007/02/14
O maior vencedor do fim de semana
À direita há outros vencedores (Rui Rio e Paula Teixeira da Cruz), que reforçaram as suas posições enquanto esperam que Marques Mendes e Carmona Rodrigues acabem de se queimar.
O PCP e o Bloco de Esquerda não são “grandes vencedores”, tal como o CDS não é um “grande perdedor”.
O maior derrotado do fim de semana
Fala-se de Marques Mendes. Marques Mendes é um grande derrotado: disse adeus a todas as veleidades de alguma vez poder vir a ser um político respeitado. Revelou oportunismo e falta de coerência. Mas no fundo ninguém se surpreende verdadeiramente com isso, pois ninguém espera nada dele. No fundo, confirmou a sua falta de peso político.
A quem, pelo contrário, nunca faltou peso político (talvez por não ser visto como um político profissional, apesar de nunca ter feito outra coisa na vida) é o criador político de Marques Mendes. Marcelo Rebelo de Sousa, ele sim, é o maior derrotado político desta noite. Fez campanha pelo “não” de uma forma que mais ninguém dentro do PSD fez. Utilizou os recursos que mais nenhum político tem, em nenhum país do mundo: um programa semanal, no domingo à noite, e horário nobre, na televisão pública, sem nenhum tipo de contraditório. Fez campanha com esses recursos. E perdeu em toda a linha. Uma derrota mais forte do que qualquer outra nas escassas vezes em que se lançou a uma eleição.
Ninguém mais voltará a olhar para ele como “independente” e “descomprometido” (se é que alguém alguma vez olhou). Nunca mais terá a influência que teve. O facto político mais marcante do fim de semana é o fim de um mito chamado Marcelo Rebelo de Sousa.
2007/02/13
O sorriso de Cristas

Foi ela a escolhida para ser a representante do “Não” no debate-desforra “Prós e Contras” que a RTP decidiu fazer na semana passada.
Logo no começo do debate deu para ver qual era a sua postura, ao cumprimentar o “colega de faculdade” que via todos os dias (Rui Pereira, representante do “sim”) e todos os outros participantes no debate. Assunção Cristas estava ali para conquistar adeptos para o “não” com a sua (suposta) simpatia. O realizador do programa decidira colaborar; durante a noite, Assunção Cristas foi a interveniente mais focada, mesmo quando não estava a falar. Nos momentos mais polémicos do debate, nas picardias entre os outros participantes, a cara sorridente desta representante do “não” era sempre cirurgicamente focada e transmitia uma sensação de serenidade. Tínhamos aqui uma versão portuguesa do debate Kennedy/Nixon: quem eventualmente ouvisse o debate no rádio diria que o “sim”, apesar de tudo, ganhara; quem assistisse ao debate pela televisão teria de reconhecer a vitória do “não”, dada a focagem constante do rosto cúmplice e sorridente de Cristas.
Um participante no debate não se pode aperceber disto em directo, mas a principal missão a cumprir era interpelar Cristas. Enervá-la. Exasperá-la. Forçá-la a descer da tribuna onde se colocara, serenamente, a assistir aos outros a degladiarem-se. Sobretudo retirar-lhe, por um momento que fosse, aquele sorriso da cara. Não o conseguiram, e por isso o “não” ganhou. Aquele debate.
Eu nunca gostei de pessoas que estão sempre a sorrir. Julgo que estão a rir-se de toda a gente. E eu nunca gostei que se rissem de mim. Ninguém fica a rir-se de mim por muito tempo.
Foi pena, no domingo à noite, Assunção Cristas não ter aparecido na televisão (pelo menos que eu a tivesse visto). Gostaria de lhe ter visto a cara. Gostaria de ver se ainda tinha o seu sorriso. Mas não faz mal. O importante foi que desta vez não se ficou a rir.
2007/02/12
O momento mais espectacular do fim de semana
Mudando um pouco de assunto. De seguida voltamos ao referendo.
Os grandes derrotados do fim de semana (II)
Das televisões, salvou-se a TVI. Falem-me na influência da esquerda na comunicação social, que eu digo-vos.
2007/02/11
2007/02/09
Um grande peruano
Um portentoso artigo de Mário Vargas Llosa publicado em Dezembro de 2002 em diversos jornais mundiais, incluindo o Diário de Notícias, na coluna Pedra de Toque. Original em castelhano. Embora num contexto muito peruano, reúne o essencial do que há a dizer sobre a questão do aborto.Cobardía e Hipocresía
EL cardenal Juan Luis Cipriani, arzobispo de Lima, habla a veces con una claridad tremante. En su homilía del 24 de noviembre, en la catedral de Lima, por ejemplo, llamó `cobardes e hipócritas' a los legisladores peruanos que, dos meses antes, habían considerado, en la revisión de la Constitución que se halla en marcha, exceptuar, dentro de la prohibición del aborto que consigna la carta constitucional, los casos en que el parto pondría en peligro la vida de la madre.
El Presidente de la Conferencia Episcopal del Perú, monseñor Luis Bambarén -quien, a diferencia de Cipriani, tiene unas sólidas credenciales de lucha en favor de los derechos humanos en la historia reciente del Perú- se apresuró a pedir excusas a los congresistas peruanos por el insulto, y, reiterando la oposición de la Iglesia católica al aborto, explicó que aquel exabrupto no comprometía a la Institución, sólo a su exaltado autor.
Juan Luis Cipriani no pasará a la historia por su vuelo intelectual, del que, a juzgar por sus sermones, está un tanto desprovisto, ni por su tacto, del que adolece por completo, sino por haber sido el primer religioso del Opus Dei en obtener el capelo cardenalicio, y por su complicidad con la dictadura de Montesinos y Fujimori, a la que apoyó de una manera que sonroja a buen número de católicos peruanos, que fueron sus víctimas y la combatieron. La frase que lo ha hecho famoso es haber proclamado, en aquellos tiempos siniestros en que la dictadura asesinaba, torturaba, hacía desaparecer a opositores y robaba como no se ha robado nunca en la historia del Perú, que `los derechos humanos son una cojudez' (palabrota peruana equivalente a la española `gilipollez'). Porque el cardenal Cipriani es un hombre que, cuando se exalta -lo que le ocurre con cierta frecuencia- no vacila en decir unas palabrotas que, curiosamente, en su boca tienen un retintín mucho más cómico que vulgar.
Nadie puede regatearle al arzobispo de Lima su derecho a condenar el aborto, desde luego. Éste es un tema delicado, que enciende los ánimos y provoca la beligerancia verbal -y a veces física- en los países donde se suscita, pero sería de desear que los prelados de la Iglesia que tienen posiciones tan rectilíneas y feroces sobre el tema del aborto, y no vacilan en llamar `asesinos', como él lo ha hecho, a quienes estamos en favor de su despenalización, mostraran una cierta coherencia ética en sus pronunciamientos sobre este asunto.
A quienes estamos a favor de la despenalización jamás se nos ocurriría proponer que el aborto fuera impuesto ni obligatorio, como lo fue en China Popular hasta hace algunos años, o en la India, por un breve período, cuando era Primera Ministra la señora Indira Gandhi. Por el contrario; exigimos que, como ocurre en Inglaterra, España, Francia, Suiza, Suecia y demás democracias avanzadas de Europa occidental, donde la interrupción de la maternidad está autorizada bajo ciertas condiciones, ésta sólo se pueda llevar a la práctica después de comprobar que la decisión de la madre al respecto es inequívoca, sólidamente fundada, y encuadrada dentro de los casos autorizados por la ley. A diferencia de esos fanáticos que en nombre de `la vida' incendian las clínicas donde se practican abortos, acosan y a veces asesinan a sus médicos y enfermeras, y quisieran movilizar a la fuerza pública para obligar a las madres a tener los hijos que no quieren o no pueden tener (aunque sean producto de una violación o en ello les vaya la vida), quienes defendemos la despenalización no queremos obligar a nadie a abortar: sólo pedimos que no se añada la persecución criminal a la tragedia que es siempre para una mujer verse obligada a dar ese paso tremendo y traumático que es interrumpir la gestación.
Desde luego que sería preferible que ninguna mujer tuviera que verse impelida a abortar. Para ello, por lo pronto es indispensable que haya una política avanzada de educación sexual entre los jóvenes y que el Estado y las instituciones de la sociedad civil suministren información y ayuda práctica para la planificación familiar, algo a lo que la Iglesia católica también se opone. Desde luego, la planificación familiar sólo puede consistir en facilitar una información sexual lo más amplia y objetiva posible, y una ayuda a quien la solicita, pero de ninguna manera en inducir, y mucho menos en imponer por la fuerza a las mujeres una determinada norma de conducta en torno a la gestación y el alumbramiento.
La dictadura de Fujimori y de Montesinos no lo entendió así. Estaba a favor de la `planificación familiar' y la puso en práctica, con una crueldad y salvajismo sólo comparables a las castraciones y esterilizaciones forzosas que llevaron a cabo los nazis contra los judíos, negros y gitanos en los campos de concentración. Los agentes de salud -enfermeras y médicos entre ellos- de la dictadura que asoló el Perú entre 1990 y 2000, se valían de estratagemas farsescas, en las campañas que llevaban a cabo en comunidades y aldeas campesinas, principalmente andinas, aunque también selváticas y costeñas, como convocar a las mujeres a vacunarse o a ser examinadas gratuitamente. En verdad, y sin que nunca se enteraran de ello, eran castradas. De este modo fueron esterilizadas más de 300 mil mujeres, según ha revelado una investigación parlamentaria. Fujimori seguía de cerca esta operación -en la que perecieron desangradas o por infecciones millares de campesinas- de la que le informaba semanalmente el Ministerio de Salud.
¿Dónde estaba el furibundo arzobispo de Lima mientras la dictadura de sus simpatías perpetraba, con alevosía y descaro, este crimen de lesa humanidad contra cientos de miles de mujeres humildes? ¿Por qué no salió entonces a defender `la vida' con las destempladas matonerías con que sale ahora a pedir a Dios `que no bendiga' a quienes perpetran abortos? ¿Por qué no ha dicho nada todavía contra esos cobardes e hipócritas funcionarios del fujimorato que perpetraron aquellos crímenes colectivos valiéndose del engaño más innoble para cometerlos?
Las organizaciones feministas le han recordado al arzobispo Cipriani que unos 350 mil abortos `clandestinos' se llevan a cabo anualmente en el Perú. Y pongo clandestinos entre comillas pues, en realidad, no lo son. La periodista Cecilia Valenzuela mostró, en su programa `Entre líneas', la misma noche de la homilía del cardenal, un espeluznante reportaje sobre el `aborto clandestino' en el que aparecían dantescas imágenes de fetos arrojados en las playas de Lima, y avisos publicitarios, en muchos periódicos locales, de comadronas y aborteros que ofrecían al público servicios de `raspados' y `amarre de trompas', sin el menor disimulo. Ésta es una realidad que el Estado no puede soslayar: cientos de miles de mujeres se ven obligadas a abortar y lo hacen en condiciones que reflejan la abismal disparidad social y económica de la sociedad peruana. En el Perú, como en la mayor parte de los países que penalizan el aborto, las mujeres de la clase media y alta abortan en clínicas y hospitales garantizados, y por mano de médicos diplomados. Las pobres -la inmensa mayoría-, en cambio, lo hacen en condiciones misérrimas en las que a menudo la madre se desangra y muere a causa de la falta de higiene y de infecciones. La despenalización del aborto no persigue estimular su práctica; sólo paliar y dar un mínimo de seguridad y cuidado a un quehacer desgraciadamente generalizado y cuyas víctimas principales son las mujeres de escasos recursos. No es inhumanidad y crueldad lo que lleva a innumerables madres a interrumpir el embarazo: es el espanto de traer al mundo niños que llevarán una vida de infierno debido a la miseria y la
marginación.
La Iglesia católica tiene todo el derecho de defender su rechazo del aborto y de pedir a los creyentes que no lo practiquen. Pero no tienen derecho alguno de prohibir a quienes no son católicos actuar de acuerdo a sus propios criterios y a su propia conciencia, en una sociedad donde, afortunadamente, el Estado es laico, y -por el momento, al menos-, democrático. La discusión sobre dónde y cuándo comienza la vida no es ni puede ser `científica'. Decidir si el embrión de pocas semanas es ya la vida, o si el nasciturus es sólo un proyecto de vida, no es algo que los médicos o los biólogos decidan en función de la ciencia. Eso es algo que deciden en función de su fe y sus convicciones, como nosotros, los legos. Con el mismo argumento que los partidarios de la penalización proclaman que el embrión es ya `la vida' podría sostenerse que ella existe todavía antes, en el espermatozoide y que, por lo tanto, el orgasmo de cualquier índole constituye un verdadero genocidio. Por eso, en las democracias, es decir en los países más civilizados del mundo, donde impera la ley y la libertad existe, y los derechos humanos se respetan y la violencia social se ha reducido más que en el resto del mundo, esa discusión ha cedido el paso a una tolerancia recíproca donde cada cual actúa en este campo de acuerdo a sus propias convicciones, sin imponérselas a los que no piensan igual, mediante la amenaza, la fuerza o el chantaje. Y en ellos se reconoce que la decisión de tener o no tener un hijo es un derecho soberano de la madre sobre la que nadie debe interferir, siempre y cuando aquella decisión la madre la adopte con plena conciencia y dentro de los plazos y condiciones que fija la ley. Si alguna vez el país en el que nací alcanza los niveles de civilización y democracia de Inglaterra, Suecia, Suiza y (ahora) España, para citar sólo los que conozco más de cerca, ésta será también la política que terminará por imponerse en el Perú. (Ya sé que falta mucho para eso y que yo no lo veré).
Una última apostilla. Cada vez que se le afea su conducta ciudadana y sus úcases políticos, el arzobispo de Lima blande la cruz y, envuelto en la púrpura, clama, epónimo: `¡No ataquen a la Iglesia de Cristo!' Nadie ataca a la Iglesia de Cristo. Yo, por lo menos, no lo hago. Aunque no soy católico, ni creyente, tengo buenos amigos católicos, y entre ellos, incluso, hasta algunos del Opus Dei. Tuve un gran respeto y admiración por el antiguo arzobispo de Lima, el cardenal Vargas Alzamora, que defendió los derechos humanos con gran coraje y serenidad en los tiempos de la dictadura, y que fue una verdadera guía espiritual para todos los peruanos, creyentes o no. Y lo tengo por monseñor Luis Bambarén, o por el padre Juan Julio Wicht, el jesuita que se negó a salir de la embajada del Japón y prefirió compartir la suerte de los secuestrados del Movimiento Revolucionario Túpac Amaru, y por el padre Gustavo Gutiérrez, de cuyo talento intelectual disfruto cada vez que lo leo, pese a mi agnosticismo. Ellos, y muchos otros como ellos entre los fieles peruanos, me parecen representar una corriente moderna y tolerante que cada vez toma más distancia con la tradición sectaria e intransigente de la Iglesia -la de Torquemada y las parrillas de la Inquisición- que el vetusto cardenal Juan Luis Cipriani se empeña en mantener viva contra viento y marea.
Outro grande português

Artigo de Miguel Sousa Tavares no Expresso de hoje.
Aborto, mentiras e vídeo
Domingo, vou responder à única coisa que me é perguntada: se acho que a justiça deva continuar a perseguir criminalmente quem faz aborto até às dez semanas de gravidez. Já me perguntaram isto em 98, já vi a mesma pergunta feita muito antes e em muitos outros lugares e a minha resposta continua igual à que dei a mim mesmo, a primeira vez que pensei no assunto: não, não acho que essas pessoas devam ser tratadas como criminosas. Verifico que há quem, entretanto, tenha mudado de opinião, num sentido ou no outro. Respeito essa mudança, só me custa a compreender é que se possa passar directamente de militante de um dos lados para militante do outro, como fez Zita Seabra. Há uma diferença entre virada e cambalhota.
Na mesma Faculdade onde ensina Marcelo Rebelo de Sousa, ensinaram-me dois princípios fundamentais em matéria criminal: um, que só pode ser considerado crime aquilo que a consciência social colectiva reconhece como tal; e, dois, que não há crime sem pena. Do primeiro princípio, resulta que um Código Penal não pode ser cativado por uma maioria, circunstancial ou não, que, sem um largo e pacífico consenso, define em cada momento o que é e não é crime. Conheço algumas mulheres e homens que, em dado momento das suas vidas, recorreram ao aborto. Foi uma decisão pessoal e íntima deles, que não me ocorreria julgar a não ser para dizer convictamente que não reconheço nenhum deles como criminoso. Não reconheço eu nem reconhece seguramente a maior parte das pessoas, incluindo muitos que vão votar ‘não’ à despenalização. Se assim é, porque insistem então em que a lei continue a tratar tais pessoas como criminosas?
Obviamente que a despenalização significa descriminalização. Os apoiantes do ‘sim’ têm medo da palavra e têm ainda mais medo da expressão que Aguiar Branco insiste em utilizar: aborto livre. Mas é exactamente disso que se trata: despenalizar significa descriminalizar e descriminalizar significa que o aborto passa a ser livre nas condições previstas na lei. Não percebo esta hipocrisia do campo do ‘sim’: o que se discute é precisamente isso, se há crime ou não há crime.
Mas, se há crime, há pena - como qualquer jurista não-malabarista sabe. Por isso é que se chama a este ramo do direito Direito Penal. A hipocrisia dos defensores do ‘não’ consiste na versão piedosa e absurda de que se poderia inventar para este ‘crime’ um tratamento especial: continuaria a ser crime, mas sem pena. Ou então, e ainda mais absurdo, haveria crime, processo, inquirições, mas o julgamento, esse, ficaria suspenso. Como se não percebessem o essencial: que o essencial é a humilhação. Marcelo Rebelo de Sousa produziu, a propósito, um fantástico número de contorcionismo jurídico para tentar justificar o injustificável. Teve azar: o ‘Gato Fedorento’ pegou nos seus argumentos e no seu tão publicitado vídeo no ‘You Tube’ e desfê-los à gargalhada, num dos mais inesquecíveis momentos de humor e sátira política de que me lembro.
Era preciso mudar de argumentação e, a meio caminho, os do ‘não’ passaram a defender que houvesse pena, mas não de prisão, para não impressionar as pessoas. Que pena, então? A melhor sugestão veio de Bagão Félix: trabalho comunitário, ou seja, trabalho forçado. Estão a imaginar uma mulher condenada por aborto a ter de se apresentar no trabalho que lhe tivesse sido destinado e a ter de explicar porque estava ali? Porque não antes a pena de exibição em local público?
Em 1998, a profunda estupidez e arrogância intelectual da campanha do ‘sim’ levou-me a votar em branco. Porque não voto apenas em ideias e projectos políticos, mas também nos métodos e protagonistas. Felizmente, desta vez, o ‘sim’ não repetiu nem as asneiras nem os piores protagonistas. Desapareceram as celebridades a gabarem-se de serem sim ou de já terem abortado, desapareceram as “especialistas de género” e as feministas a gritarem pelo “direito da mulher ao próprio corpo”. O ‘sim’, desta vez, deixou a presunção e o mau gosto para o campo do ‘não’ e isso foi um inestimável gesto de despoluição cívica.
Do lado oposto, como era de temer, saiu todo o arsenal de demagogia, mentiras e contradições disponíveis. Começou com o argumento financeiro, esgrimido por António Borges, verdadeiramente chocante do ponto de vista político, humano e até cristão. Continuou com a hipocrisia de defender a actual lei, depois de tudo terem feito para que ela não fosse aplicada, e acabou, claro, com o argumento da vida humana do feto, que se estaria a matar.
A questão da vida ou não vida do feto até às dez semanas, como se percebeu escutando os argumentos de ambos os lados, é muito mais filosófica e religiosa do que científica. Mas há duas questões conexas que eu gostaria de ter visto discutidas e não foram. A primeira é que com tanta veemência no “direito à vida” de um feto que se transformará num filho não desejado, não ocorra pensar no direito oposto: o direito de uma criança não vir ao mundo quando aquilo que a espera é uma vida indigna e miserável. 2006 foi, entre nós, um elucidativo exemplo de casos desses: filhos abusados sexualmente pelos pais ou padrastos à vista das mães, assassinados e escondidos em parte incerta ou mortos à pancada, sem que as instituições do Estado, a sociedade civil e os piedosos militantes do ‘não’ absoluto tenham demonstrado ter a solução que nos convença que não teria sido melhor nem sequer terem chegado a nascer. Não tenho dúvidas de que existem anualmente uns milhares de abortos que não deveriam ter sido feitos. Mas existem também, infelizmente, muito mais pais que nunca o deveriam ter sido.
A outra questão conexa que eu gostaria de ter visto explicada pelos defensores do ‘não’ é a da sua atitude perante o suposto crime, que a mim me parece totalmente hipócrita. Se eles acreditam verdadeiramente que um feto até às dez semanas é um ser humano que, pelo aborto, estará a ser morto, por que é que, em lugar de proporem penas suavíssimas ou até a isenção de pena para este ‘crime’, não propõem antes, e com toda a lógica, o seu agravamento? Como se chama o crime que consiste em tirar voluntariamente a vida a um ser humano? Homicídio, não é?
Sem dúvida que Portugal precisa de muito mais crianças, de maior taxa de natalidade. Mas isso não se consegue forçando o nascimento de crianças não desejadas, mas sim com crianças desejadas e condições para as desejar. Entretanto, temos outro problema para resolver que é o de saber como deveremos tratar as cerca de 40.000 mulheres que se estima que fazem abortos todos os anos. Temos a alternativa de continuar a deixá-las entregues a si próprias e, conforme o dinheiro que têm, optarem entre Badajoz ou a abortadeira de bairro. E temos a alternativa do Serviço Nacional de Saúde, com vigilância médica e acompanhamento psicológico. Eu defendo a segunda, da mesma forma que há muitos anos defendo que o Estado devia vender droga nos centros de saúde, sob vigilância médica e acompanhamento terapêutico e psicológico. Porque me impressiona uma sociedade que satisfaz a sua consciência chutando simplesmente os problemas para a clandestinidade e o Código Penal.
Um grande português
Alguns textos
Sugiro o excelente blogue Sim no Referendo, onde um leque variadíssimo de autores, das mais diversas religiosidades, origens sociais e tendências políticas, defendem a despenalização do aborto até às dez semanas.
Dos blogues tradicionais, o que melhor se empenhou pela despenalização foi o Causa Nossa. Vital Moreira, com a sua participação no primeiro Prós e Contras e várias intervenções muitíssimo esclarecedoras (na sua qualidade de jurista), foi das figuras mais em destaque desta campanha.
Outro excelente blogue pela despenalização é o Logicamente, Sim, de um único autor, Tiago Mendes. Um verdadeiro tour de force. Neste blogue, para além de muitos e muito bons textos de sua autoria, entre os quais artigos no Diário Económico, o autor também compilou artigos de outros autores na imprensa. Com a sua licença, remeto os leitores para lá. Recomendo assim a leitura (entre outros) dos textos de Anselmo Borges, Frei Bento Domingues, José Vítor Malheiros e, sobretudo, Carla Machado.
2007/02/08
“Páginas da Vida”: a SIC em campanha pelo “não”
Refiro-me à telenovela brasileira da noite da SIC, Páginas da Vida, que esta semana tem tido o aborto como temática central. Nada mal, se o aborto não fosse apresentado de uma perspectiva claramente pelo “não” à sua despenalização na semana da campanha. Sobretudo, se nos dias anteriores não tivessem sido exibidos dois episódios de cada vez, tendo a telenovela inclusivé sido exibida nos últimos domingos (algo que não era habitual). Tudo para que o episódio a que se assistiu ontem pudesse ser exibido nesta semana. A exibição daquele episódio é tudo menos inocente. Não sucedeu por acaso.
Ficam aqui alguns vídeos do episódio transmitido anteontem para poderem fazer o vosso julgamento. Um momento chave é aos seis minutos do primeiro vídeo. Infelizmente a pior parte, transmitida ontem, não está disponível na rede: é o sermão do patriarca da família, Tide, interpretado pelo actor Tarcísio Meira (uma personagem apresentada na telenovela como imaculado e exemplar). Um sermão “pela vida acima de tudo”, e contra o “crime do aborto”. (Podem ver a sinopse aqui.)
Adenda: os vídeos relevantes estão todos aqui, mas só para clientes do SAPO.
2007/02/07
Despenalização, descriminalização e lógica simples
Pelo que expus, é bem diferente responder “sim” ou “não” consoante o que estiver em causa for a descriminalização ou a despenalização. Um “sim” à descriminalização implica um “sim” à despenalização. Um “não” à despenalização implica um “não” à descriminalização. Por isso, estando em causa a despenalização, e ao contrário do que geralmente é referido pela campanha do “não”, a resposta “sim” é mais abrangente do que a “não”. Se estivesse em causa a descriminalização, o “não” seria mais abrangente, mas é a despenalização que está em causa na pergunta do referendo que, recordo, foi aprovada pelo Parlamento e pelo Tribunal Constitucional e promulgada pelo Presidente da República. E o “sim à despenalização” é mais abrangente porquê? Porque é a única resposta que inclui a única solução de compromisso possível: a criminalização do aborto sem a sua penalização. É isto que em certas circunstâncias (não necessariamente sobre o aborto) já se fazia “na Roma antiga”, como lembrou no debate “Prós e Contras” a moderadora Fátima Campos Ferreira. É esta solução de compromisso que defende Marcelo Rebelo de Sousa. É este o conteúdo da proposta de lei de Rosário Carneiro. Reparem: sem penalização. Portanto, quando se pergunta sobre a despenalização a resposta só pode ser “sim”. É só isto que está em causa no referendo, e tudo o mais é uma mistificação que tem como objectivo confundir as pessoas. Se fossem coerentes, Rosário Carneiro e Marcelo Rebelo de Sousa só poderiam votar “sim” à despenalização. Mas não: Marcelo Rebelo de Sousa, Rosário Carneiro e os eleitores do “não” não querem a descriminalização e nem sequer a despenalização. Quem viu um advogado como António Pinto Leite, no programa “Prós e Contras”, a apelar (textualmente) à descriminalização do aborto, que defende ser amplamente consensual na sociedade portuguesa, mas a apelar ao mesmo tempo ao voto no “não” à despenalização, só pode concluir que estas propostas de aparente “moderação” por parte dos apoiantes do “não” constituem um enorme embuste.
Se os portugueses no próximo dia 11 votarem “não” à despenalização, estão a votar por manter a penalização (e, logo, a criminalização) do aborto. Nestas circunstâncias não é possível uma solução de compromisso. Pedir uma solução de compromisso e apelar ao voto no “não” à despenalização só tem um nome: hipocrisia. A única alteração que se poderia fazer na lei seria mudar o tipo de penalização (mas mantendo uma penalização): uma proposta do género da apresentada por Bagão Félix, que manteria sempre necessariamente o estigma da criminalização, do julgamento e da humilhação da mulher. Por isso, quando José Sócrates garante que não haverá alterações à lei no sentido da despenalização se o “não à despenalização” no referendo ganhar, não está a ser casmurro e nem a fazer birra: está a garantir que se cumpre aquilo que a maioria determinar. É da democracia. E é da Teoria dos Conjuntos.
É claro que poderão apontar-me que a pergunta do referendo não se refere só à despenalização do aborto, pura e simples: põe mais condições. (Se quiserem, na linguagem da Teoria de Conjuntos, as restrições impostas pela pergunta fazem com que as situações em que o aborto poderá ser despenalizado, em caso de vitória do “sim”, são um subconjunto de todas as situações em que o aborto poderia eventualmente ser despenalizado.) E ainda bem que põe mais condições: julgo que qualquer pessoa de bem é contra a despenalização pura e simples do aborto, se não for sob certas condições. Teoricamente é possível uma pessoa ser favorável à despenalização mas votar contra, por discordar de alguma das restrições impostas. Mas de qual restrição se poderia discordar? Das dez semanas? Mas quando haveria o aborto de ser permitido? Sem prazo? Ou com um prazo tão curto que não permitisse à mulher aperceber-se da gravidez? Também poderia discordar-se de o aborto ter de ser feito num estabelecimento legalmente autorizado, mas onde é que se iria autorizar então o aborto? Em casa? Noutro sítio qualquer, longe de pessoal qualificado e equipamento especializado, com risco para a saúde? Finalmente poderia discordar-se de o aborto ter de ser realizado por vontade da mulher, mas discordar disto implica necessariamente aceitar que o aborto possa ser realizado contra a vontade da mulher. É isto, e só isto, que significa discordar da condição “por vontade da mulher”. Mais uma vez é da Teoria dos Conjuntos.
Finalmente, poderia votar-se “não” não por discordar das restrições apresentadas, mas por achar que são poucas, por se querer mais restrições. Não será este o caso de Marcelo Rebelo de Sousa, que já acha a pergunta “muito complicada”. Mas poderia ter sido o caso da deputada Rosário Carneiro, que poderia ter posto as suas objecções à pergunta no local próprio, o Parlamento, e na altura exacta. Isto se estivesse realmente interessada na despenalização do aborto. Por só se ter lembrado da sua proposta na última semana da campanha, só pode concluir-se que não está interessada de facto na despenalização e só quer iludir os eleitores.
Não conheço e não concebo ninguém, em nenhum país do mundo, no seu perfeito juízo, que defenda a despenalização do aborto e discorde de restrições do género das que são impostas na pergunta do referendo. Por isso pode-se afirmar, e deve ficar claro, que quem vota “não” no referendo do próximo dia 11 é pela criminalização e pela penalização do aborto.
Também publicado no Sim no Referendo.
2007/02/06
Sobre o aborto
É claro que eu poderia dar-me ao trabalho de ler os argumentos pelo “não”, e então certamente passaria a ter muito por onde pegar. Era o que fazia o Luís M. Jorge, principalmente no seu anterior blogue. Eu elogio-lhe a paciência, mas confesso que não a tenho. Facilmente se entra em disputas nada construtivas entre gente que já está convencida, e não se ajuda a convencer ninguém. O problema é mais o de mobilizar as pessoas para irem votar, pois pouca gente não terá já a sua opinião formada sobre o assunto. Mas, para ajudar a convencer quem ainda precise de ser convencido, tenho lido muito bons depoimentos, especialmente (mas não exclusivamente) no excelente blogue "Sim no Referendo", especialmente criado pela despenalização, com participantes de muito variadas tendências políticas, o que eu saúdo. A eles acrescem outros textos, como este do Ricardo Alves. Vale a pena ler o texto do Ricardo, porque é dos poucos que li até hoje que desmontam o argumento de "se são dez semanas, por que não outro número de semanas qualquer"? Um terço da gravidez (treze semanas) tem um motivo.
Amanhã apresento uma selecção de textos.
2007/02/05
Votar sim, porque o aborto existe
E é assim que a esmagadora maioria dos portugueses é favorável à despenalização do aborto, que, como já foi tantas vezes explicado, é só – e nada mais do que isso – o que está em votação no referendo. As previsões das sondagens, mesmo pondo o "sim" em vantagem, estão longe de reflectir tal opinião. Há uma percentagem muito significativa de portugueses favoráveis à despenalização, mas que reprovam a prática do aborto. Devem ser provavelmente estes os eleitores que ainda podem estar indecisos, e serão estes a decidir o resultado final do referendo.
É directamente a este segmento do eleitorado que Marcelo Rebelo de Sousa se tem dirigido. Marcelo conhece como pouca gente o povo português, é um bom comunicador e sabe fazer-se entender, mesmo quando quer manipular os seus espectadores. E tem apelado para que votem no "não".
Este tipo de eleitor é facilmente persuadido pelo "não", pelos motivos que comecei por referir. Particularmente num país onde tanto impera o "faz o que eu digo, não faças o que eu faço". Mas mesmo muitos eleitores cuja prática é conforme aos valores que defendem julgam que não haver uma lei que penalize o aborto equivale a aprová-lo. Só quetal não tem de ser verdade. Como foi bem explicado por Vital Moreira no último "Prós e Contras", o Código Penal não deve ser necessariamente um código moral. Mas é difícil convencer quem quer queseja desta distinção, dadas as questões morais envolvidas. Marcelo Rebelo de Sousa, mesmo com uma argumentação confusa e contraditória, bem tem tentado convencer o oposto, confundindo deliberadamente as duas coisas e iludindo os seus espectadores.
Para tentar convencer estes eleitores indecisos há que esclarecer este aspecto definitivamente. E há que demonstrar que o que se pretende é, como disse Bill Clinton (muito oportunamente citado por Paula Teixeira da Cruz, uma das grandes revelações desta campanha), tornar o aborto – até às dez semanas - "legal, mas seguro e raro". O essencial, o mais importante, e esta é a mensagem que é preciso passar, é que só se pode tornar o aborto seguro e raro legalizando-o. Quem quer combater o aborto tem de se convencer de que este não pode ser combatido pela lei. Por isso, votar no "não" para combater o aborto é inútil. Se se quer combater o aborto, não se pode fingir que ele não existe. Mas é isso que faz a campanha do "não", que fala do aborto como se ele só passasse a existir no dia em que fosse legalizado. Votar no "não", assim, só serve para manter as aparências. E manter tudo na mesma.
Publicado originalmente no Cinco Dias.
2007/02/03
Planos para o fim de semana
Escrever eu mesmo sobre o aborto. A ver se não sai como o do João Pedro Henriques.
2007/02/02
Desta vez fui eu
Na terça feira foi a minha vez de levar um aperto de mão e um “Como está?”. Ainda estou a dois do pai do Nuno, e ainda tenho esperança de o igualar. Duvido é que sejam tantos no mesmo dia...
2007/02/01
A frase da entrevista
(Mário Soares, no "É a Cultura, Estúpido!", 30 de Janeiro de 2007)
Apagão mundial
“Como está?, Muito prazer..., Muito obrigado.”
2007/01/31
Pompidou

Um pedaço de Nova Iorque bem no coração de Paris. Projectado no rescaldo do Maio de 68 para ser um espaço de "hiperconsumismo cultural", o Centro Georges Pompidou foi inaugurado faz hoje 30 anos. Venham outros.
2007/01/30
O maior político português de sempre

...fala hoje no São Luís. Eu vou largar tudo, vou já para lá e espero ainda arranjar lugar.
Vou ao São Luís mas não tive tempo de ir ao segundo dia da defesa de tese do doutor do dia, a quem deixo aqui os parabéns. Mas sei que ele me perdoa.
Ó AAA, é preciso chegar a este ponto?
SMS anónimos levam a voto involuntário em Salazar
Maria Lopes
Produção do programa diz que é "uma forma de pirataria", mas o sistema só permite um voto por cada número de telefone
"Por favor ligue-me: 760102003." A mensagem, sem identificação do remetente ou qualquer outra informação além desta frase, anda a ser enviada há alguns dias para inúmeros telemóveis. Quem responde ao apelo apercebe-se, três segundos depois, que acaba de votar em António de Oliveira Salazar no âmbito do programa da RTP Os Grandes Portugueses.
2007/01/29
Supermercados contra a inflação
2007/01/28
A Economia que não lhes interessa
Ao fim do dia, pelas 20:00, já não se encontra o Público na referida sala. Julgava que fosse recolhido para a reciclagem, mas isso poderia ser feito no dia seguinte. Provavelmente ao fim do dia alguém - investigador, contínuo, secretária, não sei - leva o jornal para o ler, depois de ter estado disponível durante todo o dia. Não leva, porém, todo o jornal. Às sextas feiras, o jornal traz muitos suplementos e tem muito que ler. Se se quer ler o corpo principal do jornal, o Mil Folhas ou o Y, tem de se ir durante o dia. Mas há um suplemento que é sempre sistematicamente deixado por quem leva o jornal na sexta à noite, ficando ali esquecido durante o fim de semana. Refiro-me à Dia D. Desculpem; enganei-me na hiperligação: é aqui.
2007/01/26
Jay Leno e as "lojas de chineses"
Um pormenor elucidativo ainda estava para vir. Houve uma altura em que o Jay Leno apontou um erro ortográfico crasso num brinquedo para miúdos de muito tenra idade. De seguida acrescentou “fortunately at this stage children can’t read”, ou seja, felizmente as crianças que supostamente utilizariam o brinquedo ainda não tinham idade para ler. Sabem qual foi a tradução na legendagem? “Felizmente os miúdos hoje em dia são uns analfabetos”!!!
Entre os responsáveis pela legendagem deve haver algum militante do PNR.
(PS – And now, for something completely different: quem terá sido a cabecinha que teve a ideia de programar o Jay Leno e o Conan O’Brien exactamente à mesma hora, em dois canais temáticos da SIC – SIC Mulher e SIC Radical, que deveriam ser complementares e não estar em concorrência directa -, sabendo que o público alvo de ambos os programas, nos EUA e ainda mais em Portugal, é exactamente o mesmo? Vamos corrigir isso?)
Publicado originalmente no Cinco Dias.
2007/01/25
“Uma valente cacetada nas trombas”
«quem estiver por perto deve assestar-lhe uma valente cacetada nas trombas com qualquer coisa que tenha à mão e enchê-lo de alcatrão e penas.»Quem ler, de repente, nem acredita que é este o blogue que, há uns meses, chamava “bárbaros” aos estudantes parisienses que protestavam contra o CPE. São “coisas”... “Há dias assim...”, pois há. É o que dá quando o caricaturista de serviço tenta escrever alguma coisa - revela-se a verdadeira face da direita trauliteira.
Uma vez regressado do retiro espiritual, o supranumerário Azevedo Alves volta a pôr a ordem na casa. E logo com um texto dos mais ilustrativos da hipocrisia do moralismo beato. O Nuno Ramos de Almeida não tem nada (que eu saiba) a ver com o “Sim no referendo”, e não apela ao voto em nenhum candidato a “Grande Português” – só revelou o seu sentido de voto. O André Azevedo Alves divide a sua actividade bloguística entre fazer campanha pelo Salazar como “Grande Português” (no Insurgente) e pelo “não” à despenalização da IVG. Aplicando – com muito mais propriedade – a sua lógica, será que no Blogue do Não não se incomodam de contar com o contributo de um salazarista?
2007/01/24
As telenovelas e o aborto
Convém recordar – eu recordo-me – que, há exactamente oito anos, por altura do outro referendo, estava em exibição uma outra telenovela do mesmo autor, “Por Amor”, na qual o tema do aborto também era retratado, então de uma forma ainda mais forte. A personagem então decide fazer um aborto, e tem de ouvir a censura de todos os seus familiares, amigos e vizinhos, pois o que ela ia fazer era um “pecado”. Isto em horário nobre, exactamente no período da campanha. Convém estar atento a estes casos.
2007/01/23
Páginas da vida emocionam Portugal
2007/01/22
Um ano pouco picante
Significa isto que me estarei a render ao cavaquismo, exactamente um ano após a sua eleição, devido talvez a um primeiro ano de mandato que tem sido notoriamente pouco picante (deve ter sido cozinhado pela Maria)? Nem pensem nisso. Durante entrevistas na visita à Índia, Cavaco deixou bem claro que continua a pôr o crescimento económico e a criação de riqueza à frente de qualquer outra meta, pouco ou nada se importando com a justeza da distribuição dessa riqueza. Sobretudo falou na “alta produtividade” dos cidadãos indianos, e de como para isso contribuía uma lei segundo a qual os feriados eram celebrados numa data móvel, próxima do fim de semana, “tal como em Inglaterra”. E, obviamente, tal como ele tinha querido fazer durante um dos seus governos, e “não o tinham deixado”. Quinze anos passaram, e ele não se esquece. Não se iludam. O Prof. Cavaco continua a ser ele, e só ele, a saber o que é bom para o país. O Prof. Cavaco quer acabar agora tudo o que não acabou enquanto primeiro-ministro. Dias mais picantes virão.
2007/01/21
2007/01/19
"Ugly Betty" ou "Betty La Fea"?
Na mesma semana em que o senador democrata afro-americano Barack Obama anunciou a sua candidatura às eleições presidenciais de 2008, uma produção de origem sul-americana conquista os Globos de Ouro. Indícios de uma América mais atenta às suas minorias, que no futuro próximo não serão minoritárias. De uma América necessariamente com uma menor preponderância branca, anglo-saxónica e protestante. De uma América melhor.
Publicado originalmente no Cinco Dias.
2007/01/18
Comentários versão beta - aviso importante
As utilidades da migração para a versão beta deste blogue vão ficando disponíveis. É o caso da lista de marcadores, na coluna da esquerda, para melhor identificar as entradas, que tem sido aplicada às entradas recentes e foi entretanto sendo aplicada às entradas mais antigas.
2007/01/17
Os dez maiores portugueses – a minha escolha pessoal (II)
2007/01/16
Os dez maiores portugueses: a minha escolha pessoal
A ordem por que os indico é cronológica. Mas, curiosamente, é mais ou menos a ordem de importância relativa que eu lhes atribuo. Uma ordenação por importância não seria muito diferente desta, exceptuando talvez pequenos ajustamentos, como uma "despromoção" do Eça. O que se conclui daqui? Que fomos muito mais relevantes no passado do que somos agora. Esperemos que esta tendência se inverta. Afinal, indico quatro portugueses do século XX e um do século XXI.
Não poderia deixar de incluir algo relacionado com o Brasil (a nossa maior realização). Não poderia ignorar o fado. Não poderia ignorar algumas (efémeras) glórias desportivas; neste campo escolhi quem eu acho mais exemplar, pois distinguiu-se à custa do seu trabalho e não, como muitos outros, à custa de um talento inato e muitas vezes desperdiçado.
Finalmente, muitas referências à literatura (onde creio sermos mesmo bons), nenhuma à ciência. Afinal, isto é suposto ser um retrato do país!
Aqui vai a minha lista:
- Infante D. Henrique
- Vasco da Gama
- Pedro Álvares Cabral
- Luís Vaz de Camões
- Eça de Queirós
- Fernando Pessoa
- Amália Rodrigues
- Álvaro Cunhal
- José Saramago
- José Mourinho
2007/01/15
Viagens
Gosto muito de viajar, mas um dos meus desejos para 2007 é que faça menos viagens e, em contrapartida, encontre maior estabilidade profissional.
2007/01/14
Vida, louca vida
A extrema direita e o "direito social ao aborto"
Certos sectores salazaristas gostam de falar em "iliteracia" e "ignorância" mas, afinal, são eles mesmos que não sabem ler. Eu nem me vou dar ao trabalho de o desmentir, tão evidente é a contradição entre o que escrevi e o que é sugerido que eu escrevi. Ao contrário do André Azevedo Alves (que deve achar que os seus leitores são estúpidos ou analfabetos), eu confio na inteligência dos leitores do Cinco Dias e do Avesso do Avesso.
2007/01/12
O aborto, o financiamento e o referendo
Devo começar esclarecer que, por princípio, não me parece correcto serem os contribuintes a financiarem os abortos. Há excepções importantes, que enumero desde já. Em todos os casos em que, com a lei em vigor, o aborto é legal, este deve ser financiado pelo Estado, uma vez que são casos de saúde pública. Da mesma forma, os abortos por parte de adolescentes também devem ser financiados pelo Estado, qualquer que seja a situação da grávida, mesmo que o seu nome de família seja Mello ou Champô-Limão.
Agora, para mim, por uma questão de princípio uma mulher adulta que peça para abortar, sem mais nenhum motivo especial (e dentro do prazo válido), deve poder fazê-lo em liberdade e segurança (é disso que se trata), mas deve ser responsável pelo seu acto, nomeadamente pelo pagamento dos encargos associados.
Tomemos o seguinte exemplo. Um casal não usa contraceptivos, porque "é pecado". Depois a mulher engravida, e tem de fazer o "desmancho": "tem de ser". Voltam a ter relações sexuais. Não tomam precauções porque "é pecado". A mulher volta a engravidar e a fazer o "desmancho". E assim sucessivamente. Não julguem que este cenário é assim tão raro. Sei de casos assim: apesar de já terem feito vários abortos, no referendo vão votar "não", obviamente porque "é pecado". Na impossibilidade de argumentar racionalmente com o "é pecado", e não tendo o Serviço Nacional de Saúde de sustentar eternamente estes casos, não vejo outra solução que não seja responsabilizar os "pecadores".
O único senão que eu vejo é mesmo o flagelo do aborto clandestino, que é afinal tudo o que está em discussão. Ao contrário do que nos querem convencer os partidários do "não", o que está em discussão não é se vai passar a haver abortos. Os partidários do "não" gostam de nos falar como se só passasse a haver abortos se o "sim" ganhasse, mas abortos sempre houve e sempre continuará a haver. O que está em discussão é se esses abortos podem ser realizados de uma forma livre e segura, ou se devem continuar a ser feitos clandestinamente.
Ora, se o aborto for liberalizado mas se for somente o mercado a decidir o seu preço, isto é, se for um negócio privatizado, o mais provável é que continue a ser mais barato fazer um aborto clandestino e sem condições, pelo que as pessoas de menos recursos continuarão a recorrer a este. Ou seja, na prática pouco ou nada se estará a alterar para estas pessoas, justamente as mais necessitadas.
O que eu defendo, assim, é que o aborto seja pago, por uma questão de princípio (o "tendencialmente gratuito" da Constituição não se aplica aqui), mas que seja o Estado a regular toda esta actividade e a controlar os preços. Como defendo para muita coisa, nomeadamente tudo o que seja relacionado com medicina privada. É a economia, estúpido. É evidente que os nossos amigos blasfemos nos dirão que não, que o melhor para o consumidor é que o mercado seja sempre completamente livre, incluindo o dos abortos. Esta é uma discussão que já temos vindo a ter desde que há blogues. É uma discussão de modelo económico, que não tem nada a ver com o que está em discussão no próximo referendo. Ao contrário do que certos sectores extremistas defensores do "não" nos querem convencer, nada obriga o governo, na hipótese de o "sim" ganhar, a indicar que os abortos sejam feitos no Serviço Nacional de Saúde. Se o "sim" ganhar, um governo de blasfemos poderá defender que seja feito em clínicas privadas. São leis simples de financiamento que, como nota Carlos Abreu Amorim numa série de textos notável, poderão ser alteradas por qualquer governo que tenha condições para isso, sem recurso ao referendo. O que vai a referendo é a legalização do aborto até às dez semanas. Nada mais do que isso. Desde que isto fique claro, a discussão do financiamento não é para se ter agora. Não é agora que vai ser decidida.
Publicado originalmente no Cinco Dias.
2007/01/11
Não ultrapassem um escorpião!
É claro que a aplicação cega de tal estatística não contempla possibilidades como um condutor não poder escolher a cor do seu carro. Foi o meu caso, quando comprei o meu: no stand, do modelo que eu queria, só havia – adivinhem! – carros... vermelhos! (Não que eu não goste da cor, para um carro, que gosto.)
Espero que, com o estudo agora divulgado, as mesmas mentes não se lembrem de fazer depender o preço do seguro do signo astrológico do segurado. Para além do absurdo da medida, tal considerar-me-ia, mais uma vez, um condutor agressivo, de acordo com os resultados divulgados na edição em papel do DN. Acho que quando voltar a ter um carro vou pôr um autocolante: “escorpião ao volante”.
2007/01/10
João Teixeira Lopes, o dono do “sim”
Alguém explica a este senhor que o próximo referendo não é uma luta partidária? E que quantos mais líderes do centro e da direita apoiarem a despenalização, melhor para o “sim”? E que ele é que deveria deixar as críticas ao executivo da Câmara do Porto, por muito justas que sejam, para a ocasião devida, que não é a campanha do próximo referendo? Que ele deveria pôr os interesses puramente partidários de lado? Que uma vitória da despenalização não é só uma vitória do Bloco de Esquerda – é uma vitória de todos os qua a apoiam, incluindo – felizmente – Rui Rio e muitas pessoas ligadas ao PSD?
Embora eu nunca concordasse com ela – todos os apoios são bem-vindos -, uma acusação de oportunismo semelhante à lançada por João Teixeira Lopes poderia ter uma atenuante no caso de o visado se tratar de um político que em 1998 não tivesse feito campanha pelo “sim”. Mas não é esse o caso – Rui Rio nesse aspecto revelou sempre uma grande coragem política, votando mesmo contra a orientação do seu partido, como deputado, em 1997, quando a despenalização foi aprovada no Parlamento, antes de Guterres e Marcelo “decidirem” que era melhor haver um referendo. Em matéria de combate pela despenalização do aborto – e já agora de independência política – Rui Rio não deve nada a João Teixeira Lopes. Se calhar o oposto é que já não é verdade.
Já passou uma semana sobre estas tristíssimas declarações. Eu não li nenhuma referência ao assunto na blogosfera, nomeadamente por parte de dois blógueres que – tenho a certeza – não perdoariam se fosse o PCP a armar-se em “dono do sim”: este e este. Dois blógueres de quem eu gosto e respeito. No caso do Tiago, creio que tal afecta seriamente a reputação de independência que ele foi construindo. Valham-nos as senhoras que escrevem neste blogue, pelas suas crónicas de sexta feira no DN (incompletas na rede).
2007/01/09
A infalibilidade do aquecimento global
2007/01/08
O que procuram os visitantes de O Avesso do Avesso?
É futebol
2007/01/07
Balanço musical do ano de 2006
Infinito Particular é melhor que o seu gémeo Universo ao Meu Redor e bate aos pontos Carioca do regressado Chico Buarque. Do Caetano, prefiro não falar.
Quanto ao concerto do ano, a mesma Marisa Monte (um concerto profissionalíssimo e equilibrado em Lisboa) e Carlos do Carmo/Camané ou Cesária Évora na Torre de Belém seriam bons candidatos. Mas (como qualquer leitor deste blogue compreenderá), a minha escolha tem de ser o Chico Buarque. Mesmo assim, é uma escolha sem grande favor para um óptimo concerto.
O concerto perdido do ano (tendo em conta a minha localização variável, e não querendo viajar só por um concerto)? Talvez Divine Comedy em Paris. Keith Jarrett ou Ben Harper em Lisboa seriam outras boas possibilidades.
É claro que esta é uma escolha pessoal e parcialíssima, baseada nas minhas limitadas escolhas.









