2007/02/06

Sobre o aborto

Só esta semana falei sobre o aborto, apesar de ser o tema do momento. E isto porque não creio ter nada a acrescentar a quem tem falado muito melhor do que eu faria, a defender a minha posição, o “sim”. O sim pela despenalização, mas não pela desresponsabilização. O sim pela prevenção. O sim pelo último recurso. Mas o sim convicto.
É claro que eu poderia dar-me ao trabalho de ler os argumentos pelo “não”, e então certamente passaria a ter muito por onde pegar. Era o que fazia o Luís M. Jorge, principalmente no seu anterior blogue. Eu elogio-lhe a paciência, mas confesso que não a tenho. Facilmente se entra em disputas nada construtivas entre gente que já está convencida, e não se ajuda a convencer ninguém. O problema é mais o de mobilizar as pessoas para irem votar, pois pouca gente não terá já a sua opinião formada sobre o assunto. Mas, para ajudar a convencer quem ainda precise de ser convencido, tenho lido muito bons depoimentos, especialmente (mas não exclusivamente) no excelente blogue "Sim no Referendo", especialmente criado pela despenalização, com participantes de muito variadas tendências políticas, o que eu saúdo. A eles acrescem outros textos, como este do Ricardo Alves. Vale a pena ler o texto do Ricardo, porque é dos poucos que li até hoje que desmontam o argumento de "se são dez semanas, por que não outro número de semanas qualquer"? Um terço da gravidez (treze semanas) tem um motivo.
Amanhã apresento uma selecção de textos.

2007/02/05

Votar sim, porque o aborto existe

É difícil discutir-se uma lei num país onde ninguém cumpre as leis. Mesmo que o referendo não seja sobre uma lei específica (o que seria inconstitucional), mais do que qualquer outro povo os portugueses apregoam uma moral e praticam outra. Toda a gente acha bem que haja limites de velocidade, e no entanto muitos condutores circulam em excesso de velocidade, pelo menos de vez em quando.
E é assim que a esmagadora maioria dos portugueses é favorável à despenalização do aborto, que, como já foi tantas vezes explicado, é só – e nada mais do que isso – o que está em votação no referendo. As previsões das sondagens, mesmo pondo o "sim" em vantagem, estão longe de reflectir tal opinião. Há uma percentagem muito significativa de portugueses favoráveis à despenalização, mas que reprovam a prática do aborto. Devem ser provavelmente estes os eleitores que ainda podem estar indecisos, e serão estes a decidir o resultado final do referendo.
É directamente a este segmento do eleitorado que Marcelo Rebelo de Sousa se tem dirigido. Marcelo conhece como pouca gente o povo português, é um bom comunicador e sabe fazer-se entender, mesmo quando quer manipular os seus espectadores. E tem apelado para que votem no "não".
Este tipo de eleitor é facilmente persuadido pelo "não", pelos motivos que comecei por referir. Particularmente num país onde tanto impera o "faz o que eu digo, não faças o que eu faço". Mas mesmo muitos eleitores cuja prática é conforme aos valores que defendem julgam que não haver uma lei que penalize o aborto equivale a aprová-lo. Só quetal não tem de ser verdade. Como foi bem explicado por Vital Moreira no último "Prós e Contras", o Código Penal não deve ser necessariamente um código moral. Mas é difícil convencer quem quer queseja desta distinção, dadas as questões morais envolvidas. Marcelo Rebelo de Sousa, mesmo com uma argumentação confusa e contraditória, bem tem tentado convencer o oposto, confundindo deliberadamente as duas coisas e iludindo os seus espectadores.
Para tentar convencer estes eleitores indecisos há que esclarecer este aspecto definitivamente. E há que demonstrar que o que se pretende é, como disse Bill Clinton (muito oportunamente citado por Paula Teixeira da Cruz, uma das grandes revelações desta campanha), tornar o aborto – até às dez semanas - "legal, mas seguro e raro". O essencial, o mais importante, e esta é a mensagem que é preciso passar, é que só se pode tornar o aborto seguro e raro legalizando-o. Quem quer combater o aborto tem de se convencer de que este não pode ser combatido pela lei. Por isso, votar no "não" para combater o aborto é inútil. Se se quer combater o aborto, não se pode fingir que ele não existe. Mas é isso que faz a campanha do "não", que fala do aborto como se ele só passasse a existir no dia em que fosse legalizado. Votar no "não", assim, só serve para manter as aparências. E manter tudo na mesma.

Publicado originalmente no Cinco Dias.

2007/02/03

Planos para o fim de semana

Se tiver tempo e paciência, ler o ensaio em cinco volumes do Ricardo Schiappa sobre o aborto (é raro o Ricardo escrever, mas quando escreve costuma valer a pena, só que saem assim uns lençóis de texto).
Escrever eu mesmo sobre o aborto. A ver se não sai como o do João Pedro Henriques.

2007/02/02

Desta vez fui eu

Lembro-me várias vezes de uma história que o Nuno me contou e que se passou entre o pai dele e Mário Soares, quando este ainda era Presidente e visitava a cidade de onde o Nuno vem. O pai do Nuno foi convidado para três cerimónias diferentes, em três locais distintos da cidade, de recepção ao Presidente. Nas três cerimónias houve a “sessão de apertos de mão”, que Soares distribuia a toda a gente que via. O pai do Nuno levou três, no mesmo dia, um por cerimónia. Das três vezes Soares perguntou-lhe “Como está?” antes de passar ao convidado seguinte.
Na terça feira foi a minha vez de levar um aperto de mão e um “Como está?”. Ainda estou a dois do pai do Nuno, e ainda tenho esperança de o igualar. Duvido é que sejam tantos no mesmo dia...

2007/02/01

A frase da entrevista

"Eu nunca trabalhei para ficar na História - eu trabalho sempre para o presente!"

(Mário Soares, no "É a Cultura, Estúpido!", 30 de Janeiro de 2007)

Apagão mundial

Entre as 18:55 e as 19:00 de hoje, hora portuguesa. Contra o desperdício de energia. As razões estão aqui.

“Como está?, Muito prazer..., Muito obrigado.”

Foi este o diálogo que tive com Mário Soares anteontem. Quando cheguei, à entrada do São Luís Maria Barroso dizia que o seu marido “deveria estar aí a chegar”. Deixei-me estar, ainda saí à rua para confirmar mais uma vez que a bicicleta tinha ficado bem estacionada. Um carro parou. Dele saíram Vítor Ramalho e Mário Soares. Eu estou à entrada. Olho para Mário Soares, que me pergunta “como está?” Apertamos as mãos. “Muito prazer em conhecê-lo.” “Muito obrigado.” E segue. Tanta coisa eu poderia ter-lhe dito. Fica para a próxima.

2007/01/31

Pompidou


Um pedaço de Nova Iorque bem no coração de Paris. Projectado no rescaldo do Maio de 68 para ser um espaço de "hiperconsumismo cultural", o Centro Georges Pompidou foi inaugurado faz hoje 30 anos. Venham outros.

2007/01/30

O maior político português de sempre



...fala hoje no São Luís. Eu vou largar tudo, vou já para lá e espero ainda arranjar lugar.
Vou ao São Luís mas não tive tempo de ir ao segundo dia da defesa de tese do doutor do dia, a quem deixo aqui os parabéns. Mas sei que ele me perdoa.

Ó AAA, é preciso chegar a este ponto?

Do Público de hoje:
SMS anónimos levam a voto involuntário em Salazar
Maria Lopes

Produção do programa diz que é "uma forma de pirataria", mas o sistema só permite um voto por cada número de telefone

"Por favor ligue-me: 760102003." A mensagem, sem identificação do remetente ou qualquer outra informação além desta frase, anda a ser enviada há alguns dias para inúmeros telemóveis. Quem responde ao apelo apercebe-se, três segundos depois, que acaba de votar em António de Oliveira Salazar no âmbito do programa da RTP Os Grandes Portugueses.

2007/01/29

Supermercados contra a inflação

Quando estava em França, achava politicamente muito pouco neutro o slogan do Carrefour “baixar os preços e aumentar o nível de vida em França é possível”. Parecia-me ver ali um apoio implícito ao governo. Mas, e que dizer do presente slogan em Portugal: “O Pingo Doce lidera o combate à inflação”?

2007/01/28

A Economia que não lhes interessa

No local onde trabalho, de segunda a sexta feira é assinada a edição em papel do Público, que é disponibilizada na sala de café para ser lida pelos investigadores.
Ao fim do dia, pelas 20:00, já não se encontra o Público na referida sala. Julgava que fosse recolhido para a reciclagem, mas isso poderia ser feito no dia seguinte. Provavelmente ao fim do dia alguém - investigador, contínuo, secretária, não sei - leva o jornal para o ler, depois de ter estado disponível durante todo o dia. Não leva, porém, todo o jornal. Às sextas feiras, o jornal traz muitos suplementos e tem muito que ler. Se se quer ler o corpo principal do jornal, o Mil Folhas ou o Y, tem de se ir durante o dia. Mas há um suplemento que é sempre sistematicamente deixado por quem leva o jornal na sexta à noite, ficando ali esquecido durante o fim de semana. Refiro-me à Dia D. Desculpem; enganei-me na hiperligação: é aqui.

2007/01/26

Jay Leno e as "lojas de chineses"

Noutro dia preparava-me para assistir à entrevista ao Barack Obama no programa do Jay Leno, desde este ano em exibição no canal SIC Mulher. Depois do monólogo de stand-up comedy inicial, há aquela altura em que o Jay goza com erros ortográficos e gramaticais. Desta vez deu-lhe para olhar para os artigos que se compram nas lojas que, nos EUA, se chamam “de 99 cêntimos”. Está certo que o equivalente deste tipo de comércio em Portugal é frequentemente explorado por chineses. Mas não é esta etnia que detém o exclusivo deste sector do comércio. E nos EUA ainda menos – os chineses detêm um comércio muito mais diversificado, e existem muitas “99 cent stores” que não são exploradas por chineses. Ainda mais falando o Jay Leno num contexto americano, não é de todo correcto traduzir “99 cent store” por “loja de chineses”, principalmente existindo em português uma designação que, apesar da conversão ao euro, continua a ser usada desde o tempo do escudo, quando estas lojas cá apareceram: a “loja dos trezentos”. Parece-me uma designação muito mais correcta do que “loja dos chineses”. Mas a tradução que apareceu no programa foi mesmo “lojas dos chineses”. E não foi só uma vez. O Jay gozou com muitos produtos de 99 cêntimos – baixa qualidade, erros ortográficos e tal -, e cada um deles era identificado na legendagem como “mais um daqueles produtos das lojas dos chineses”. Assistimos na legendagem a um festival de achincalhamento gratuito das “lojas de chineses”, que não tinha nada a ver com o que era falado.
Um pormenor elucidativo ainda estava para vir. Houve uma altura em que o Jay Leno apontou um erro ortográfico crasso num brinquedo para miúdos de muito tenra idade. De seguida acrescentou “fortunately at this stage children can’t read”, ou seja, felizmente as crianças que supostamente utilizariam o brinquedo ainda não tinham idade para ler. Sabem qual foi a tradução na legendagem? “Felizmente os miúdos hoje em dia são uns analfabetos”!!!
Entre os responsáveis pela legendagem deve haver algum militante do PNR.

(PS – And now, for something completely different: quem terá sido a cabecinha que teve a ideia de programar o Jay Leno e o Conan O’Brien exactamente à mesma hora, em dois canais temáticos da SIC – SIC Mulher e SIC Radical, que deveriam ser complementares e não estar em concorrência directa -, sabendo que o público alvo de ambos os programas, nos EUA e ainda mais em Portugal, é exactamente o mesmo? Vamos corrigir isso?)

Publicado originalmente no Cinco Dias.

Jay Leno e Barack Obama

Podem ver extractos da entrevista do Barack Obama ao Jay Leno aqui:

2007/01/25

“Uma valente cacetada nas trombas”

Afasta-se um dia o supranumerário Azevedo Alves da escrita, e o resultado no Insurgente é isto – disparates, momentos de autismo e incitamentos à violência:
«quem estiver por perto deve assestar-lhe uma valente cacetada nas trombas com qualquer coisa que tenha à mão e enchê-lo de alcatrão e penas.»
Quem ler, de repente, nem acredita que é este o blogue que, há uns meses, chamava “bárbaros” aos estudantes parisienses que protestavam contra o CPE. São “coisas”... “Há dias assim...”, pois há. É o que dá quando o caricaturista de serviço tenta escrever alguma coisa - revela-se a verdadeira face da direita trauliteira.
Uma vez regressado do retiro espiritual, o supranumerário Azevedo Alves volta a pôr a ordem na casa. E logo com um texto dos mais ilustrativos da hipocrisia do moralismo beato. O Nuno Ramos de Almeida não tem nada (que eu saiba) a ver com o “Sim no referendo”, e não apela ao voto em nenhum candidato a “Grande Português” – só revelou o seu sentido de voto. O André Azevedo Alves divide a sua actividade bloguística entre fazer campanha pelo Salazar como “Grande Português” (no Insurgente) e pelo “não” à despenalização da IVG. Aplicando – com muito mais propriedade – a sua lógica, será que no Blogue do Não não se incomodam de contar com o contributo de um salazarista?

2007/01/24

As telenovelas e o aborto

Infelizmente não é só por isto que a telenovela Páginas da Vida deve ser falada. Na história o pai da criança sugere um aborto, mas a mãe quer prosseguir com a gravidez, mesmo tendo dificuldades financeiras e familiares. Ainda bem, se ela quer ter um filho. O aborto jamais deve ser feito contra a vontade da mãe. Cada capítulo da novela inclui ainda uns segmentos finais com depoimentos verídicos sobre histórias da vida real. Ora tem acontecido alguns destes depoimentos serem pequenos discursos contra o aborto. O que não é mau em si mas, neste presente contexto, é necessariamente visto como sendo contra a sua despenalização. É propaganda do “não” exibida a mais de um milhão de pessoas (neste fim de semana Maria Aurora Homem, locutora da RTP Madeira e apoiante do “sim”, queixava-se do mesmo no DN). Se a telenovela não faz esta distinção entre o aborto e a despenalização, e sendo esses segmentos suplementares totalmente desnecessários para seguir a história, talvez um segmento como o que eu destaquei não devesse ser exibido em época de campanha eleitoral. Pois é de campanha eleitoral que se trata.
Convém recordar – eu recordo-me – que, há exactamente oito anos, por altura do outro referendo, estava em exibição uma outra telenovela do mesmo autor, “Por Amor”, na qual o tema do aborto também era retratado, então de uma forma ainda mais forte. A personagem então decide fazer um aborto, e tem de ouvir a censura de todos os seus familiares, amigos e vizinhos, pois o que ela ia fazer era um “pecado”. Isto em horário nobre, exactamente no período da campanha. Convém estar atento a estes casos.

2007/01/23

É um vírus!

Morte de Fidel é um vírus.

Páginas da vida emocionam Portugal

Imaginem a seguinte história. Uma bebé nasce e é rejeitada pela sua família, nomeadamente pelo seu pai biológico. É dada para adopção. Cinco anos depois a bebé vê-se envolvida no centro de uma disputa pela sua custódia, já que o pai biológico entretanto mudou de ideias e resolveu reclamar a filha, entretanto adoptada por outra família. Parece-vos que estou a falar do mediatizado caso da Sertã? Sim, mas também estou a falar de Páginas da Vida, a telenovela brasileira da SIC, de que já falei aqui.

2007/01/22

Um ano pouco picante

Ao contrário de a muitos comentadores que o acusam de “provincianismo” – mas, que, curiosamente, até votaram nele... -, a mim agradou-me a entrevista de Aníbal e Maria Cavaco Silva à SIC onde o Presidente da República se queixava do “picante”. “Eu e a minha mulher não somos apreciadores de picante”, relatava Cavaco, muito rígido, muito sério, para a câmara, enquanto por trás dele a mulher ia metendo umas deixas, qual comadre coscuvilheira (para não dizer emplastra): “temos comido muito iogurte, e muitas frutas...” Achei aquele momento cândido e genuíno, achei aquele casal ternurento, um bom representante do que seria a generalidade dos casais portugueses em visita à Índia. E têm todo o direito de não apreciar picante na comida e de não o esconderem, tal como eu não aprecio especialmente comida japonesa e também não o escondo.
Significa isto que me estarei a render ao cavaquismo, exactamente um ano após a sua eleição, devido talvez a um primeiro ano de mandato que tem sido notoriamente pouco picante (deve ter sido cozinhado pela Maria)? Nem pensem nisso. Durante entrevistas na visita à Índia, Cavaco deixou bem claro que continua a pôr o crescimento económico e a criação de riqueza à frente de qualquer outra meta, pouco ou nada se importando com a justeza da distribuição dessa riqueza. Sobretudo falou na “alta produtividade” dos cidadãos indianos, e de como para isso contribuía uma lei segundo a qual os feriados eram celebrados numa data móvel, próxima do fim de semana, “tal como em Inglaterra”. E, obviamente, tal como ele tinha querido fazer durante um dos seus governos, e “não o tinham deixado”. Quinze anos passaram, e ele não se esquece. Não se iludam. O Prof. Cavaco continua a ser ele, e só ele, a saber o que é bom para o país. O Prof. Cavaco quer acabar agora tudo o que não acabou enquanto primeiro-ministro. Dias mais picantes virão.

2007/01/21

Guerra dos Sexos - os primos portugueses

Será que alguma vez veríamos uma versão americana disto?