2007/01/15
Viagens
Gosto muito de viajar, mas um dos meus desejos para 2007 é que faça menos viagens e, em contrapartida, encontre maior estabilidade profissional.
2007/01/14
Vida, louca vida
A extrema direita e o "direito social ao aborto"
Certos sectores salazaristas gostam de falar em "iliteracia" e "ignorância" mas, afinal, são eles mesmos que não sabem ler. Eu nem me vou dar ao trabalho de o desmentir, tão evidente é a contradição entre o que escrevi e o que é sugerido que eu escrevi. Ao contrário do André Azevedo Alves (que deve achar que os seus leitores são estúpidos ou analfabetos), eu confio na inteligência dos leitores do Cinco Dias e do Avesso do Avesso.
2007/01/12
O aborto, o financiamento e o referendo
Devo começar esclarecer que, por princípio, não me parece correcto serem os contribuintes a financiarem os abortos. Há excepções importantes, que enumero desde já. Em todos os casos em que, com a lei em vigor, o aborto é legal, este deve ser financiado pelo Estado, uma vez que são casos de saúde pública. Da mesma forma, os abortos por parte de adolescentes também devem ser financiados pelo Estado, qualquer que seja a situação da grávida, mesmo que o seu nome de família seja Mello ou Champô-Limão.
Agora, para mim, por uma questão de princípio uma mulher adulta que peça para abortar, sem mais nenhum motivo especial (e dentro do prazo válido), deve poder fazê-lo em liberdade e segurança (é disso que se trata), mas deve ser responsável pelo seu acto, nomeadamente pelo pagamento dos encargos associados.
Tomemos o seguinte exemplo. Um casal não usa contraceptivos, porque "é pecado". Depois a mulher engravida, e tem de fazer o "desmancho": "tem de ser". Voltam a ter relações sexuais. Não tomam precauções porque "é pecado". A mulher volta a engravidar e a fazer o "desmancho". E assim sucessivamente. Não julguem que este cenário é assim tão raro. Sei de casos assim: apesar de já terem feito vários abortos, no referendo vão votar "não", obviamente porque "é pecado". Na impossibilidade de argumentar racionalmente com o "é pecado", e não tendo o Serviço Nacional de Saúde de sustentar eternamente estes casos, não vejo outra solução que não seja responsabilizar os "pecadores".
O único senão que eu vejo é mesmo o flagelo do aborto clandestino, que é afinal tudo o que está em discussão. Ao contrário do que nos querem convencer os partidários do "não", o que está em discussão não é se vai passar a haver abortos. Os partidários do "não" gostam de nos falar como se só passasse a haver abortos se o "sim" ganhasse, mas abortos sempre houve e sempre continuará a haver. O que está em discussão é se esses abortos podem ser realizados de uma forma livre e segura, ou se devem continuar a ser feitos clandestinamente.
Ora, se o aborto for liberalizado mas se for somente o mercado a decidir o seu preço, isto é, se for um negócio privatizado, o mais provável é que continue a ser mais barato fazer um aborto clandestino e sem condições, pelo que as pessoas de menos recursos continuarão a recorrer a este. Ou seja, na prática pouco ou nada se estará a alterar para estas pessoas, justamente as mais necessitadas.
O que eu defendo, assim, é que o aborto seja pago, por uma questão de princípio (o "tendencialmente gratuito" da Constituição não se aplica aqui), mas que seja o Estado a regular toda esta actividade e a controlar os preços. Como defendo para muita coisa, nomeadamente tudo o que seja relacionado com medicina privada. É a economia, estúpido. É evidente que os nossos amigos blasfemos nos dirão que não, que o melhor para o consumidor é que o mercado seja sempre completamente livre, incluindo o dos abortos. Esta é uma discussão que já temos vindo a ter desde que há blogues. É uma discussão de modelo económico, que não tem nada a ver com o que está em discussão no próximo referendo. Ao contrário do que certos sectores extremistas defensores do "não" nos querem convencer, nada obriga o governo, na hipótese de o "sim" ganhar, a indicar que os abortos sejam feitos no Serviço Nacional de Saúde. Se o "sim" ganhar, um governo de blasfemos poderá defender que seja feito em clínicas privadas. São leis simples de financiamento que, como nota Carlos Abreu Amorim numa série de textos notável, poderão ser alteradas por qualquer governo que tenha condições para isso, sem recurso ao referendo. O que vai a referendo é a legalização do aborto até às dez semanas. Nada mais do que isso. Desde que isto fique claro, a discussão do financiamento não é para se ter agora. Não é agora que vai ser decidida.
Publicado originalmente no Cinco Dias.
2007/01/11
Não ultrapassem um escorpião!
É claro que a aplicação cega de tal estatística não contempla possibilidades como um condutor não poder escolher a cor do seu carro. Foi o meu caso, quando comprei o meu: no stand, do modelo que eu queria, só havia – adivinhem! – carros... vermelhos! (Não que eu não goste da cor, para um carro, que gosto.)
Espero que, com o estudo agora divulgado, as mesmas mentes não se lembrem de fazer depender o preço do seguro do signo astrológico do segurado. Para além do absurdo da medida, tal considerar-me-ia, mais uma vez, um condutor agressivo, de acordo com os resultados divulgados na edição em papel do DN. Acho que quando voltar a ter um carro vou pôr um autocolante: “escorpião ao volante”.
2007/01/10
João Teixeira Lopes, o dono do “sim”
Alguém explica a este senhor que o próximo referendo não é uma luta partidária? E que quantos mais líderes do centro e da direita apoiarem a despenalização, melhor para o “sim”? E que ele é que deveria deixar as críticas ao executivo da Câmara do Porto, por muito justas que sejam, para a ocasião devida, que não é a campanha do próximo referendo? Que ele deveria pôr os interesses puramente partidários de lado? Que uma vitória da despenalização não é só uma vitória do Bloco de Esquerda – é uma vitória de todos os qua a apoiam, incluindo – felizmente – Rui Rio e muitas pessoas ligadas ao PSD?
Embora eu nunca concordasse com ela – todos os apoios são bem-vindos -, uma acusação de oportunismo semelhante à lançada por João Teixeira Lopes poderia ter uma atenuante no caso de o visado se tratar de um político que em 1998 não tivesse feito campanha pelo “sim”. Mas não é esse o caso – Rui Rio nesse aspecto revelou sempre uma grande coragem política, votando mesmo contra a orientação do seu partido, como deputado, em 1997, quando a despenalização foi aprovada no Parlamento, antes de Guterres e Marcelo “decidirem” que era melhor haver um referendo. Em matéria de combate pela despenalização do aborto – e já agora de independência política – Rui Rio não deve nada a João Teixeira Lopes. Se calhar o oposto é que já não é verdade.
Já passou uma semana sobre estas tristíssimas declarações. Eu não li nenhuma referência ao assunto na blogosfera, nomeadamente por parte de dois blógueres que – tenho a certeza – não perdoariam se fosse o PCP a armar-se em “dono do sim”: este e este. Dois blógueres de quem eu gosto e respeito. No caso do Tiago, creio que tal afecta seriamente a reputação de independência que ele foi construindo. Valham-nos as senhoras que escrevem neste blogue, pelas suas crónicas de sexta feira no DN (incompletas na rede).
2007/01/09
A infalibilidade do aquecimento global
2007/01/08
O que procuram os visitantes de O Avesso do Avesso?
É futebol
2007/01/07
Balanço musical do ano de 2006
Infinito Particular é melhor que o seu gémeo Universo ao Meu Redor e bate aos pontos Carioca do regressado Chico Buarque. Do Caetano, prefiro não falar.
Quanto ao concerto do ano, a mesma Marisa Monte (um concerto profissionalíssimo e equilibrado em Lisboa) e Carlos do Carmo/Camané ou Cesária Évora na Torre de Belém seriam bons candidatos. Mas (como qualquer leitor deste blogue compreenderá), a minha escolha tem de ser o Chico Buarque. Mesmo assim, é uma escolha sem grande favor para um óptimo concerto.
O concerto perdido do ano (tendo em conta a minha localização variável, e não querendo viajar só por um concerto)? Talvez Divine Comedy em Paris. Keith Jarrett ou Ben Harper em Lisboa seriam outras boas possibilidades.
É claro que esta é uma escolha pessoal e parcialíssima, baseada nas minhas limitadas escolhas.
2007/01/05
Juramentos e religiões
Aqui temos, de repente, e como quem não quer a coisa, um excelente "toy model" para o problema do véu islâmico, tema a que tenciono voltar em breve.
Também publicado no Cinco Dias.
2007/01/04
Mobilidade e endogamia nas universidades portuguesas
Sobre este assunto, uma boa leitura complementar é a excelente entrevista do ministro Mariano Gago ao Diário de Notícias ontem, que infelizmente só vem parcialmente publicada na rede.
À margem: este é mais um excelente trabalho do David Marçal, que me sucedeu como "Cientista na Redacção" no Público nos últimos três meses.
"As universidades devem competir pelo dinheiro com a investigação"
Arcadi Navarro em 2001 fez um grande estrondo quando publicou na Nature um artigo em que colocava em números o fenómeno da contratação de docentes universitários com base em critérios de proximidade social em vez de mérito científico. Acerca da situação das universidades espanholas, que não deverá ser muito diferente das portuguesas, chegou à conclusão de que preferem os defeitos dos de dentro às virtudes dos que vêm de fora. Por David Marçal (texto) e Daniel Rocha (foto)
A endogamia nas universidades é definida como a existência de uma rede social que, independentemente do mérito dos candidatos, sistematicamente atribui posições aos amigos e conhecidos. O critério usado por Arcadi Navarro, especialista em biologia evolutiva da Universidade Pompeu Fabra de Barcelona foi muito simples: comparou a morada do primeiro artigo publicado numa revista científica pelos docentes universitários com a morada actual. Em Espanha era a mesma, em 95 por cento dos casos.
Dito de outro modo, apenas cinco por cento das vagas das faculdades são atribuídas a candidatos de fora. Nos Estados Unidos, a situação é exactamente inversa: o número de candidatos externos a obter lugares é de 93 por cento. No Reino Unido é de 83 por cento e em França 50.
Tudo isto tem consequências na produtividade científica. Vários estudos demonstram que quando são escolhidos amigos em vez dos candidatos com mais mérito, o número e o impacto das publicações científicas baixa significativamente. O PÚBLICO falou com Arcadi Navarro, à margem de um debate sobre a mobilidade e endogamia nas universidades portuguesas, no Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras.
PÚBLICO - Quais são as consequências da endogamia nas universidades?
Arcadi Navarro - São horríveis. As pessoas em vez de ciência estão a fazer política de corredores e a universidade torna-se numa maneira de arranjar salários para os amigos.
Como se pode explicar as enormes diferenças entre os países?
Por sistemas muito diferentes. Há países onde é proibido arranjar um emprego na mesma universidade onde se fez o doutoramento, como na Alemanha. Em França, para entrar numa instituição do CNRS (Centro Nacional de Investigação Científica), é preciso fazer um exame nacional muito exigente.
Já em Espanha as posições são atribuídas por comités formados por pessoas de dentro da universidade. Seria um bom sistema se as instituições competissem através da investigação que fazem. Mas as universidades espanholas recebem o financiamento com base no número de alunos de licenciatura. Outro factor é a escassez de recursos em países como Espanha e Portugal, que cria um ambiente ultracompetitivo, e as coisas são organizadas um pouco ao estilo da máfia.
Que medidas poderiam ser tomadas para reduzir este problema?
Fazer as universidades competir. Permitir-lhes contratar quem queiram, mas fazer o seu financiamento depender da ciência produzida. E dar o dinheiro aos investigadores em vez de às instituições. E a agência de financiamento avalia o investigador.
O favoritismo não pode passar para essas avaliações?
Pode acontecer. De modo a evitá-lo, as avaliações devem ser anónimas e feitas por comités maioritariamente estrangeiros. Se a sua carreira depender de avaliações sérias por padrões internacionais, as pessoas trabalham. Há uns anos, em Espanha, houve quem obtivesse um lugar de professor catedrático sem um único artigo publicado numa revista científica.
Como seria a receptividade das instituições a estas medidas?
Em relação a fazê-las competir e pensar na ciência que fazem (porque isto influenciaria o seu financiamento) são contra. Quanto a criar equipas de investigação que não dependem financeiramente das instituições, mas de uma agência de financiamento externa, estão receptivas.
Tornar as universidades competitivas é uma grande mudança estrutural e cultural. Como é que pode ser feito?
[Risos] Essa é a questão. As coisas que se podem fazer não são revoluções, mas pequenas mudanças que podem ter grandes consequências.
Por exemplo, em países de topo a nível científico, a todo o financiamento atribuído a um projecto de investigação é cobrada uma enorme taxa (overhead) pelas universidades, que pode chegar até 50 por cento. O cientista recebe 100 e a instituição fica com 50 para gastar como quiser. Nos países com mais endogamia, os overheads tendem a ser baixos. Por exemplo, até este ano, em Espanha eram de 15 por cento.
Do ponto de vista dos administradores da universidade são trocos. Se baixar um pouco o dinheiro atribuído por cada aluno e aumentar o financiamento que vem dos overheads, a investigação torna-se importante porque define o dinheiro que entra no sistema. E as universidades começam a querer contratar pessoas que ganhem grandes projectos e tragam muito dinheiro.
A endogamia pode afectar a produtividade científica das universidades portuguesas
A endogamia tem um efeito claramente negativo na produtividade científica, segundo números da base de dados de publicações ISI Web of Knowledge, compilados por Arcadi Navarro.
No Reino Unido, apenas dois em cada dez elementos da faculdade são recrutados internamente, e foram em 2005 produzidos 1463 artigos científicos por milhão de habitantes. E cada um deles foi citado noutros artigos em média mais de três vezes, o que é uma medida da sua importância.
No caso espanhol, em que 19 em cada 20 professores universitários são recrutados na instituição, foram publicados 834 artigos por milhão de habitantes, citados 2,2 vezes. Portugal produziu 608 artigos por milhão de habitantes em 2005, citados em média menos de duas vezes. Não há nenhum trabalho específico sobre a endogamia nas universidades portuguesas. O Observatório da Ciência e do Ensino Superior (OCES) apresentou dados obtidos noutros estudos e apresentou-os quarta-feira no debate Endogamia e Mobilidade na Universidade Portuguesa.
Mas os números não são directamente comparáveis com os publicados por Arcadi Navarro na Nature. Nos dados do OCES foram considerados os docentes que se doutoraram na própria instituição, ao passo que o critério usado por Navarro para definir endogamia foi a instituição onde estavam quando publicaram o primeiro artigo científico. Também não são comparáveis com o estudo a nível europeu publicado por Manuel Soler na Nature (ver gráfico), porque este apenas se refere a duas áreas (zoologia e ecologia).
No entanto, os números existentes permitem concluir que a endogamia é claramente predominante nas universidades portuguesas: segundo os números do OCES, sete em cada dez professores fizeram o doutoramento na mesma universidade em que agora têm um emprego.
2007/01/03
"O Natal profano de todos nós"
(Vital Moreira, Público, 26-12-2006)Tomemos, por exemplo, o caso que neste momento se discute nos Estados Unidos. Pela primeira vez na história política norte-americana, nas eleições de Novembro foi eleito um deputado muçulmano. Tendo-se criado uma tradição política no Congresso, segundo a qual, depois da tomada de posse oficial, os deputados realizam uma cerimónia privada, para amigos e familiares, em que juram sobre a Bíblia, até agora ninguém tinha colocado a hipótese de usar outro livro sagrado. Quando muito, os poucos não crentes optavam por não fazer o juramento religioso. Por isso, causou escândalo, especialmente nos círculos da direita cristã, o anúncio feito pelo dito deputado de que fará a seu juramento sobre o Corão. Um deputado mais intolerante da direita religiosa chegou ao ponto de defender que ele deve ser proibido de levar o Corão e que, se o fizer, deve perder o mandato. A pergunta que se deve fazer é obviamente a seguinte: se os crentes cristãos têm o direito de jurar sobre o seu livro sagrado, por que é que um deputado muçulmano não goza de igual direito?
2007/01/02
José Sousa Ramos (1948-2007)

Foi dele a primeira aula a que assisti no ensino superior, num anfiteatro do Pavilhão Central do Instituto Superior Técnico, às oito da manhã de um dia de Outubro. Foi dele o primeiro email que recebi na vida (numa altura em que nem fazia a mínima ideia de como se trabalhava num computador, e ninguém suspeitava ainda o que era a internet), numa área que os alunos tinham nuns computadores horríveis, num sítio horrível chamado CIIST (Centro de Informática do Instituto Superior Técnico), nas caves do mesmo pavilhão. Eram os códigos de um programa em C, já não sei para que aplicação (mas teria a ver com a “sua” teoria do caos), que quis partilhar, todo entusiasmado, com os seus alunos.
Era nosso professor de Álgebra Linear. A Álgebra Linear é uma cadeira fundamental para qualquer curso em que a Matemática seja relevante, muito fácil, quase trivial, mas demora um semestre para um caloiro se aperceber disso (não tem nada a ver com o que se estuda no secundário). O Sousa Ramos não ajudava muito a que um caloiro se apercebesse disso, pois era ele próprio, nas aulas, que declarava que aquilo tudo era muito fácil (mesmo que ninguém estivesse a perceber nada): interessante mesmo era o caos, os atractores estranhos, os fractais. Um atractor estranho era cada um dos quadros dele. Começava por escrever uma coisa num sítio, depois passava a outra num sítio completamente diferente, e assim durante a aula o quadro se ia enchendo, de uma forma completamente desordenada. Finalmente não havia mais espaço para escrever, no meio daquela confusão toda. Lá se decidia então a apagar qualquer coisa, para poder continuar a escrever. Qualquer coisa, não: quando ia apagar, escolhia sempre a última coisa que tinha escrito.
Nós olhávamos para aquilo, saudosos do liceu de onde tínhamos acabado de sair, e meio assustados. Só não estávamos completamente assustados porque ele não assustava ninguém. Era impossível não se gostar dele. O cabelo meio desgrenhado, as barbas grisalhas, a voz afável, e os olhos. Nunca até hoje vi uns olhos tão bondosos como aqueles.
Como acontece muitas vezes, no contacto pessoal, na discussão individual com os alunos, era diferente. Podia passar quase uma tarde com um aluno para lhe tirar uma dúvida. A sua paciência era infindável; se lhe punham uma questão directamente, gostava que essa questão ficasse bem esclarecida.
Também foi com ele que fiz um dos primeiros exames do ensino superior. O exame era conceptualmente bastante fácil, por vezes directo. Uma primeira leitura deixáva-nos tranquilos: era um exame dado, sabia-se fazer tudo, era só “fazer as contas”. O problema é que o exame continha a épica “matriz que não queria ser invertida”: uma matriz quatro por quatro, com entradas que eram todas números inteiros de 1 a 9 (módulo o sinal), que era suposto invertermos. Tinha determinante sete mil e qualquer coisa... Era a pergunta mais fácil daquele exame facílimo. E não houve ninguém que a respondesse, depois de passar um tempo muito precioso a somar fracções com numerador com quatro dígitos... por dezasseis vezes. Foi o exame mais fácil que eu vi na vida. E foi uma desgraça. Lembro-me da surpresa dele com a nossa atrapalhação, e da candura com que assumiu que “não esperava” que fosse tão difícil: “o Mathematica [software de computação simbólica] tinha “cuspido” a resposta num instante!” Felizmente havia uma coisa chamada “segunda época”, e as matrizes para esse exame foram por ele invertidas à mão.
Nunca mais foi meu professor, mas continuei a vê-lo estes anos todos, sempre que regressava ao Técnico. Quis sempre saber de mim e ficávamos uns minutos a conversar. Mostrava-se sempre entusiasmado com o seu trabalho. E falava às vezes do Alentejo, do bom azeite que recebia e que era produzido nas terras que a família possuía no concelho de Moura. Era a única contrapartida que pedia à cooperativa de agricultores local para usarem as suas terras, e era somente para uso pessoal. Não queria ter nada a ver com a venda desse azeite, nem receber nenhum tipo de percentagem das receitas dessa venda: “são os agricultores que produzem o azeite, e são eles que devem receber o dinheiro pelo seu trabalho”, disse-me ele uma vez.
Nunca fumou na vida, mas morreu com um cancro no pulmão galopante, durante o sono, tinha o ano de 2007 poucas horas. Deixa-nos, sobretudo à família (mulher, filhos e neta), mas também a todos os outros que o conheceram, mais pobres.
2007/01/01
Je suis très content
Bienvenu en Europe, Mr. Boloni. E boas vindas à Roménia e à Bulgária à União Europeia. Uma grande parte dos meus colegas de doutoramento desde hoje passam a ser do meu país.
2006/12/31
Bom ano novo!
São estes os meus votos para os meus amigos e leitores. Até 2007.
2006/12/30
BCP: banco do não?
2006/12/28
Já tive melhores Natais...
2006/12/27
Páginas da Vida
2006/12/22
Boas festas
Dito isto, não posso concordar com as ridículas manifestações de “politicamente correcto” que constituem a supressão de algumas celebrações de Natal em empresas europeias. Queira-se ou não, o Natal é celebrado, por razões históricas e culturais, pela esmagadora maioria das pessoas, crentes e não crentes. Já era celebrado o solestício de Inverno muito antes de Cristo! Por isso é feriado nacional. Tem de se respeitar os feriados celebrados historicamente nos diferentes locais. Em Nova Iorque observavam-se todos os feriados judeus, e eu dei aulas numa sexta-feira santa. No instituto onde me doutorei, entre os docentes a maioria era judaica. Os enfeites de Natal conviviam com as velas de Hannukah. Nunca deixou de haver uma festa na segunda ou terceira semana de Dezembro!
O final de cada ano é sempre um motivo para celebrar. Toda a gente o sente. As festas numa empresa ou numa escola não devem ter um carácter proselitista. Desde que esta condição se verifique, deve prevalecer o princípio de que uma festa, desde que desejada por um número significativo de pessoas, não pode ofender ninguém.
Concluo tudo isto desejando, muito laicamente, boas festas a todos os meus leitores e amigos.
A universidade portuguesa, mais uma vez
2006/12/21
Antes do jantar anual da LEFT
Quando eu tinha chegado aos EUA para o meu doutoramento, ele ainda andava pelo Técnico a licenciar-se em Física. E mandava aos amigos emails com passagens como esta, que transcrevo textualmente:
Caros amigos espero que com vosco esteja tudo O.K.
Venho por este meio comunicarvos que com sorte (se o papa deichar, se
me aceitarem e se houver bolsa) sou mais um a ir para a diaspora, mais
precisamente para a polytechnique.
Filipe Moura:
Confeco que nao tenho lido os teus mails com a assiduidade habitual
E mais, que eu não pude ir pesquisar. Mas em vez de Paris ele acabou por ir doutorar-se para Londres; lembro-me de me mandar outro email a dar a notícia de que tinha sido aceite no Empirial College (sic).
Portanto, afianço que este rapaz é perfeitamente capaz de escrever que o Paulo Portas foi “cunivente” (assim, com “u”) com o Santana Lopes. E escreveu-o, de facto, nos comentários no dito blogue colectivo. O administrador do respectivo blogue, dono de uma mente perversa e pelos vistos admirador do ex-líder do PP, é que viu no “cunivente” uma insinuação torpe. Vai daí envolveram-se numa discussão, que envolveu comentários apagados, tendo ao que consta o simpatizante de Paulo Portas feito ver ao nosso rapaz que certo tipo de assuntos, pessoas e comentários políticos (não necessariamente o do "cunivente") não eram “próprios" para serem abordados naquele blogue. O meu amigo resolveu então em boa hora abandonar um blogue tão rasca e passar a escrever com mais regularidade no seu próprio, que se passou a designar Homem à beira de um ataque de nervos. E tudo isto valeu a pena, porque como eu referi conheço este meu colega há uns dez anos e creio que foi a primeira atitude de adulto que alguma vez o vi tomar.
Estou a referir-me, como já se aperceberam, ao Luís Oliveira, que punha a cabeça em água aos autores e comentadores do Blogue de Esquerda (e do Aspirina B), que numa mesma postagem assinava diversos comentários contraditórios com identidades diferentes. Ao D. João e a Máscara. Ao Cona Verbosa, comentador compulsivo que "precisa dos blogues como do oxigénio para respirar", como lhe chamou o Bombatómica. Luís: vê lá se dás menos pontapés na gramática. E ilumina-nos. Make our days.
2006/12/20
2006/12/19
Divergências e insurgências sobre Pinochet
2006/12/18
Economistas vs. Físicos
Economists have a huge amount of influence over actual public policy, while admiration for physicists doesn’t get you too much beyond the “Isn’t that cool!” level, and occasional appearances on late-night radio. (...) These three sentences point to a definite failure on the part of physicists to successfully get their message across. (...) Unfortunately — and to a signficant extent this is our own fault — it’s not always clear to the person on the street which ideas are speculative and which have come to be accepted, nor is it clear that we have good reasons even for the wildest speculations.Esta vai com dedicatória ao Luís Aguiar Conraria, ao Sérgio dos Santos e ao João Miranda.
2006/12/17
Gatos sobreexpostos
2006/12/15
Joe Polchinski escreve no Cosmic Variance
Joseph Polchinski, o reputado físico teórico da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, dá uma visão crítica da teoria das supercordas, resumindo a sua história, os seus principais resultados, e comparando-a com as eventuais teorias concorrentes. Uma opinião a não perder, por um dos principais protagonistas dos desenvolvimentos deste tema. No Cosmic Variance.
2006/12/14
20 anos

Foi perante cerca de 60 mil espectadores, no velho Estádio Alvalade, que os leões fizeram história com aqueles 7-1 ao rival Benfica. (...) O Benfica, de John Mortimore, era líder do campeonato, sem derrotas, estava em grande forma, enquanto o Sporting, de Manuel José, irregular, em crise, estava em quarto lugar, atrás do Vitória de Guimarães. Quem ia adivinhar um resultado destes? Aquela segunda parte foi um delírio para os apaniguados leoninos e o desespero para os indefectíveis da Luz. (...) O Sporting passou bem o Natal mas não venceu nas seis jornadas seguintes e no final só conseguiu o quarto lugar, enquanto o Benfica (...) no fim sagrou-se campeão nacional. Já passaram 20 anos.(Vítor Cândido, A Bola de hoje)
2006/12/13
Retalho natalício
Por falar nisso, e como vamos de bolo-rei? Para o Natal eu gosto de comprar um decente (até pode ser no supermercado, mas desde que seja de fabrico próprio, feito no dia). Enquanto o Natal não vem, nem me importo de os ir comprando pré-feitos. Os do Minipreço este ano são supimpas (da mesma fábrica, em Tondela, de onde vinham os folares que eu comprava em Paris!). Já o Pingo Doce (pelo menos nas lojas menores) tem um pré-feito de longa duração que deixa muito a desejar quando comparado com o que costumava ter.
Resposta atrasada (II)
Esta questão do aspecto físico dos blógueres faz-me lembrar um outro blóguer que tive o prazer de conhecer, na Rua Viriato, quando ele entrei (estava ele a poucos dias de sair para a Av. Liberdade): justamente o João Pedro Henriques, colega da Fernanda. O JPH é uma excepção: ele é alto. Mas também devo dizer que é um pouco mais barrigudo e com menos cabelo do que o que estava à espera.
O mistério do aspecto físico dos blógueres que não são figuras públicas é uma das graças da blogosfera. A proposta da Fernanda parece-me um pouco radical.
2006/12/12
Resposta atrasada (I)
2006/12/11
O ditador chileno morreu...
Música do dia: Yo pisaré las calles nuevamente, de Pablo Milanés. E o traidor não pagou a sua culpa. Que a terra lhe seja pesada.
2006/12/09
Os perigos do maus jornalismo científico
2006/12/08
Reflexão (após não ter conseguido entrar no supermercado por um minuto)
2006/12/07
Resposta a "Para o Diário de Notícias, Rómulo de Carvalho não existe"
Destaco o depoimento do director do jornal, António José Teixeira:
"Todos os dias chegamos à conclusão de que poderíamos fazer melhor o nosso trabalho. Acontece em todos os ofícios. Recentemente, abordámos por duas vezes o centenário de Rómulo de Carvalho. Fizemo-lo com profissionalismo e qualidade, porventura sem nos determos com suficiência na sua obra científica. Pedimos depoimentos, nomeadamente de Marcelo Rebelo de Sousa, sobre a sua faceta pedagógica. Recebemos, aliás, um elogio da família de Rómulo de Carvalho pelo trabalho divulgado. Concordo com o leitor quanto ao interesse em dar mais espaço à ciência."Era mesmo esta última frase que eu queria "ler". Agradeço ao Provedor dos Leitores por ter concedido tanto espaço (uma página inteira no jornal, incluindo uma caricatura que, felizmente, não era da autoria do André Carrilho), o que mostra que deu importância a esta questão. E espero que o Director não se fique só pelas intenções.
PS: Apesar de vir identificado como tal, eu não sou "professor" (quem dera!). O erro deve-se provavelmente a eu ter enviado o texto do meu email profissional (e que é, de resto, o meu email pessoal há muitos anos).
PPS: O próprio "Diário de Notícias" noticiou a atribuição do Prémio Rómulo de Carvalho a Carlos Fiolhais, na secção "Pessoas", na penúltima página (indisponível na rede). O que não me parece mal. Gostei de ver um físico misturado com actores, cantores e políticos. E o texto estava muito bom.
2006/12/06
Almoço em Alvalade
O almoço foi óptimo. A mão-de-vaca estava boa e as tuas costeletas tinham bom aspecto. Gostei do restaurantezinho, embora naquelas redondezas a melhor escolha tivesse sido o Antigo Retiro Quebra Bilhas. Mas agora, para irmos ao Quebra-Bilhas, só se tu tivesses pedido uma cunha ao Grande Timoneiro Insurgente. É que, desde há pouco tempo, o Quebra-Bilhas é dos amigos dele. (Soube desta triste notícia sobre um dos meus restaurantes favoritos de Lisboa via Esquerda Republicana.)
Quem sabe no futuro o Quebra Bilhas volta a ser o que era? Até lá havemos de continuar a almoçar de vez em quando. Foi um prazer finalmente conhecer-te.
Mais outra constatação
Já esperava outra desgraça russa
Caro Paulo Bento:
- sei que deves admirar o Moutinho (um jogador parecido com o que tu foste), mas está na altura de o deixares descansar um pouco;
- está também na hora de pores cobro ao vedetismo de alguns meninos como o Nani e o Djaló, que nesta altura não devem ser titulares;
- está na altura de apostares mais vezes no Carlos Martins e no Miguel Veloso;
- está na altura de parares de ter azar com as lesões (três laterais direitos!).
2006/12/05
O grande circo da Física – as respostas
Sobre a velocidade do pontapé do Ronny, já o Nelson tinha falado. No seu blogue e nos comentários ele questiona como terá sido possível medir aquele tempo só com uma câmara, só de um ângulo (com várias câmaras seria impossível obter sincronização). E ao considerar o número de frames per second – um conceito que qualquer utilizador do Subtitle Workshop conhece... – demonstra-nos como o erro no tempo de vôo da bola é da mesma ordem de grandeza desse mesmo tempo, resultando assim numa grande imprecisão. Não concordo totalmente com a estimativa de erro que ele apresenta (para mim são duas fps e não quatro), mas os excelentes argumentos são válidos.
Quanto ao bolor do pão de forma, também originou uma discussão interessante. Como bem apontou o João André, essencial para criar bolor é a humidade. Embora não o tenha referido explicitamente (o objectivo era que fosse deduzido pelo leitor), o que eu notei foi que a fatia de fora estava seca, enquanto as interiores estavam húmidas, diria mesmo molhadas. O que me surpreendeu (e me levou a escrever sobre isso aqui no blogue) foi: como duas fatias adjacentes podem apresentar aspectos tão dísparos, somente devido ao maior contacto com o ar! A fatia de fora estava dura, rija e seca. Não havia bolor que lá pudesse crescer. As de dentro eram o meio de cultura ideal.É este a meu ver o factor essencial. Nos comentários a discussão ficou muito enriquecida com os comentários do João, do Manuel Anastácio e do zèd, sem esquecer o Miguel Madeira. A todos agradeço. E agora até ao próximo “circo da Física”.
2006/12/04
Utilidades de um pão de forma
2006/12/03
“E no entanto, ela move-se”
O jovem actor Afonso Pimentel era óptimo no papel de Andrea, o jovem pupilo de Galileu que fica desapontado com a “traição” do mestre (interpretado por Rui Mendes), que renega a sua teoria heliocêntrica perante a inquisição. Afinal, seria melhor Galileu ter sido queimado, como Bruno, ou permanecer vivo e terminar secretamente a sua obra, deixando-a para a posteridade, mesmo sendo entretanto obrigado a renegá-la?
Paralelamente à peça Galileu, Afonso Pimentel participa na tão criticada telenovela Floribella. O mesmo actor é assim capaz de participar em produções “de qualidade” e “menores”, sendo que é destas últimas que provém a maior parte da sua fama e da sua subsistência. Curiosamente a peça aborda esta mesma questão, mostrando-nos Galileu a “vender” o seu talento a governos, para fins militares e outros, sendo mesmo capaz de comercializar e divulgar o telescópio (que não inventara) para poder ganhar dinheiro e pagar as suas dívidas (devidas à investigação, mas também ao seu estilo de vida), que o salário de professor não permitia. A atitude de Galileu não foi bem aceite por Brecht que, no fim, nos apresenta um cientista arrependido por ver o resultado das suas pesquisas utilizado por governos. Não creio que Brecht gostasse de ver um actor de telenovelas num dos principais papéis de uma das suas peças. Mas a lição de Galileu – e de Afonso Pimentel – é essa: um cientista, tal como um actor, precisa de comer.
Texto originalmente publicado no Cinco Dias.
2006/12/01
Foda-se
Não há nada que mais me indisponha do que isto. Ainda por cima (e principalmente) quando não nos podemos queixar da arbitragem. Prefiro perder com o Estrela da Amadora ou a Naval 1º de Maio.
2006/11/30
O grande circo da Física – o pão que não ganhou bolor
Reparem bem nelas. Duas estão bem bolorentas. Mas… só duas! Por que não todas?
Se um alimento estiver hermeticamente fechado não ganha bolor, certo? Portanto o bolor aparece devido ao “contacto com o ar”. Mas sendo assim por que razão foram fatias interiores que ganharam bolor? A fatia exterior manteve-se intacta (e enganou-me, pois por eu não lhe detectar bolor julgava que o pão estivesse bom). Só ficou mais dura (o que é normal no pão após alguns dias), mas sem bolor nenhum.
Como explicar este comportamento? Será mesmo o “contacto com o ar” que causa o bolor?
2006/11/29
O grande circo da Física - a velocidade do chuto do Ronny
Parece que é essa a questão com que se debatem os dois principais diários desportivos. A Bola consultou especialistas, e fala em 120 km/h. Já o Record faz ele próprio o cálculo simples e apresenta o resultado na primeira página: 222 km/h! Poucas vezes a Física do ensino scundário tem honras de primeira página de um jornal.Dado o curto intervalo de tempo entre o chuto e a bola entrar na baliza, a aproximação que consiste em considerar a sua trajectória rectilínea (e não parabólica, desprezando a influência da gravidade) parece-me razoável. A aproximação para a distância percorrida também não me parece mal de todo, embora pudesse ser melhorada sem dificuldade (aqui o texto está mal: embora a trajectória seja "diagonal", também é "rectilínea").
O que me parece afectar o resultado é mesmo o valor do intervalo de tempo, que o Record apresenta como 28 centésimos de segundo. Não sei o rigor desta medição, mas não deve ser muito alto. Deve ser esta a origem da discrepância entre os valores dos dois jornais. Discrepância que levou A Bola, na edição de hoje, a reiterar a sua estimativa, consultando um especialista. Eu inclino-me mais o valor deste jornal. Se fosse o do Record (cerca do dobro), implicaria uma energia quatro vezes superior, algo nunca registado antes. E eu não acredito que o Ronny tenha uma energia de remate quatro vezes superior à do Roberto Carlos! A matéria de A Bola é mais completa, apresentando uma discussão comparativa. Mas a do Record apresenta números, embora se limite a fazer um cálculo elementar. Qual é que vocês preferem?
Fica entretanto a lição - os jornalistas devem consultar os especialistas, principalmente antes de fazerem manchetes de primeira página! Mas não me parece que, no Record, haja gente muito preocupada com isso.
2006/11/28
Os ortodoxos de hoje serão os renovadores de amanhã
Com o “caso” da recusa de Luísa Mesquita em abandonar o Parlamento, confirma-se uma vez mais: um membro do PCP só é “bom” se entrar em conflito com o partido. João Amaral em 1991 polemizava na imprensa com os então saídos para a efémera “Plataforma de Esquerda”. Edgar Correia e Carlos Brito estiveram convictamente ao lado de Álvaro Cunhal no apoio à tentativa de golpe na União Soviética. Na altura, ainda não eram os “grandes renovadores”. Luísa Mesquita há muitos anos é uma valorosíssima deputada; o reconhecimento só surge com este conflito. Sucediam-se e sucedem-se as críticas aos membros do PCP, sem nunca enaltecer o trabalho dos seus deputados. Mesmo agora, as atenções voltam-se só para Luísa Mesquita: ninguém fala em Odete Santos (que aceitou afastar-se após uma longa carreira de deputada). Sugiro por isso a jornalistas como o Pedro Correia que comecem a escrever o seu elogio a Jerónimo de Sousa – há de chegar a altura em que o actual secretário geral do PCP o merecerá.
Sobre a substituição dos deputados propriamente dita, a sua legalidade parece inquestionável, uma vez que estes mesmo antes de serem eleitos assinaram um documento nesse sentido com o partido. A grande questão que se põe, neste caso como na câmara de Setúbal (ou nos deputados “rotativos” do Bloco de Esquerda) é em que medida é que quem votou nos “afastados” não sabia (nem podia saber) da possibilidade de estes serem afastados, tendo votado nos candidatos e não nos partidos e sentindo-se por isso defraudado. Só nas próximas eleições tal se poderá saber.
Algumas notas:
Marcelo Rebelo de Sousa (texto na edição escrita do DN, sem ligação) fala como se o PCP entendesse substituir os deputados por completos desconhecidos, e não por quem lhes segue na lista. Os novos nomes já constavam nas listas eleitorais, e quem votou no PCP poderia tê-los eleito, caso se reunissem votos suficientes. A argumentação de Marcelo aplicar-se-ia a listas uninominais.
Joana Amaral Dias deveria recordar-se que, da primeira vez que foi deputada, também não foi eleita. Quem votou no Bloco de Esquerda também desconhecia, na altura, a “rotatividade”.
Ler também os dois comentários de João Pedro Henriques e o de Vital Moreira.
2006/11/27
Para o Diário de Notícias, Rómulo de Carvalho não existe
2006/11/26
Computador roubado
2006/11/25
2006/11/24
Física para o povo

Assinala-se hoje a passagem dos cem anos do nascimento de Rómulo de Carvalho, o mais notável divulgador da ciência português, mas que infelizmente é praticamente só conhecido como poeta (não que não mereça também tal reconhecimento). Convido os leitores residentes na área de Lisboa a passarem pelo Pavilhão do Conhecimento e visitarem, entre outras exposições interessantes, a dedicada às experiências simples por ele propostas no livro "Física Para o Povo", posteriormente republicado com o título "Física do Dia a Dia". Em sua homenagem, e também porque estamos na Semana da Ciência e da Tecnologia, talvez venhamos a ter aqui um pouco de Física simples.
Acontece quando nos esquecemos do pão

O resto do pão de forma ficou uns dias esquecido. Mesmo estando dentro do saco aberto, como é óbvio apanhou bolor.
2006/11/23
Uma boa medida: a regulação dos horários das televisões
Gostaria de apresentar uma proposta sobre a regulação da televisão. Para quem vive nos EUA, a principal diferença na televisão relativamente a Portugal reside no facto de os horários dos programas serem sempre cumpridos. Não importa se durante o dia se tem programas tipo "O Juiz Decide" em praticamente todos os canais; se se tem o "Jerry Springer" e outros shows tais que me levem a recear que em Portugal se esteja apenas na Idade da Pedra do telelixo; se se tem intervalos comerciais a cada dez minutos. A verdade é que também se tem todos os dias episódios (antigos, é certo) do "Seinfeld", dos "Amigos" e dos "Simpsons", novelas brasileiras (dobradas em espanhol) como "O Clone" e a "Esperança", sempre à hora marcada. E tudo isto, refira-se, nos canais de acesso gratuito (acessíveis a quem tenha antena); não estou a falar de canais por cabo. A grande diferença é que nos EUA um espectador só vê o telelixo se quer, pois sabe que a programação que foi anunciada (nos jornais, nas revistas, na internet e na própria televisão) é a que é transmitida. A "contra-programação", o prolongamento de novelas por horas enquanto no outro canal está a dar desporto, aqui seriam impensáveis. Muito menos a interrupção de telejornais com directos do "Big Brother"! A verdade é que as estações de televisão, aqui, têm muito mais respeito pelos espectadores! A principal restrição que as emissoras de televisão em Portugal deveriam ter - e isto teria de ser o Estado, a tal "entidade reguladora", a fazer, mais do que propriamente interferir nos conteúdos - era a obrigação de cumprir os horários. Só isto alteraria substancialmente - para melhor - o panorama audiovisual em Portugal.É só isto e não mais do que isto que eu defendo. O que invalida por completo os argumentos pseudo-liberais do Blasfémias, onde Carlos Abreu Amorim começa logo a acenar com “critérios específicos de programação” ou “definição de alinhamentos”. Nada disto está em jogo no presente diploma, que visa somente um respeito pelo tempo perdido pelo espectador a ver o que não quer ver.
É curioso que este argumento venha de quem vem: justamente um dos maiores queixosos dos atrasos da TAP, a transportadora aérea estatal. Também já usei a TAP com regularidade e, embora não ponha em causa o testemunho do CAA, da minha parte só uma única vez (em muitos vôos) tive problemas com atrasos. Mas o CAA que tanto se preocupa com a perda de tempo por causa da TAP (quando os atrasos são muito mais justificáveis numa transportadora aérea do que numa estação de televisão), não quer saber do mesmo tempo perdido pelos telespectadores. Talvez porque a TAP é... estatal? Se a TAP fosse privatizada, talvez os atrasos fossem justificáveis? Talvez o presente diploma fosse aceitável se só se aplicasse à RTP? Ah, como é difícil ser liberal em Portugal, com um governo que se imiscui nas estações privadas... É isso?
Nos comentários ao meu texto de ontem, o Luís Rainha e o Luís Aguiar Conraria questionam-me sobre se “o governo tem mais do que se preocupar do que andar a brincar aos horários das televisões?” O Luís Rainha afirma mesmo que são textos como o meu (e portanto, presumo, medidas destas) que “dão mau nome à Esquerda; e razões a quem diz que somos um bando de palonços.” A mim não me interessa minimamente se esta é uma medida “de esquerda”, ou “de direita”, ou se é “pouco ou nada liberal”. Parece-me uma medida justíssima, e defende-la-ia qualquer que fosse o governo que a aplicasse. Um bom governo vê-se (também) por medidas destas, que melhorem a qualidade de vida de cidadãos (neste caso) indefesos. Quando o Luís Rainha ainda por cima me pergunta “e a contraprogramação é má porquê?” eu nem sei o que responder. Se o Luís Rainha, o Luís Aguiar Conraria ou o CAA não vêem televisão (ou só vêem canais por cabo) é um direito que eles têm. Mas deveriam compreender que há pessoas que querem ver os canais generalistas e que como tal devem ser por estes respeitados.
2006/11/22
Um bom passo
É claro que os nossos liberais (na verdade são mais libertários) são contra: são contra qualquer tipo de regulamentação feita pelo governo. Argumentam que se queremos horários cumpridos, pois vejamos a TV Cabo. Da mesma forma que argumentam que se queremos boa saúde, pois vamos aos hospitais privados. Ou se queremos boa educação, que a paguemos em escolas privadas.
Está de parabéns o governo por esta medida, que há muito defendo.
2006/11/21
Sobre o blackout de ontem
Telescópio Hubble mostra que o Universo jovem já tinha energia negra
2006/11/20
Lição para o futuro
Mudei de browser. Entrei logo sem problemas.
Volto amanhã. Boa noite.
2006/11/19
2006/11/18
Eu, órfão de Jospin, me confesso
Vêm aí as primárias do Partido Socialista francês para decidir quem será o candidato às eleições presidenciais. Embora havendo de certeza outros candidatos à esquerda (para já está confirmada Marie-George Buffet e fala-se em Jean-Pierre Chevènement), para um observador externo o que mais importa é o candidato do PSF, em princípio o único de esquerda com possibilidades de chegar ao Eliseu. Mesmo não sendo eu agora um observador próximo, tenho procurado seguir o processo com atenção. E o cenário não se apresenta particularmente estimulante.
Embora tenha vindo a cair nas sondagens, tudo indica que a candidata escolhida será Ségolène Royal. Pelo que tenho visto esta escolha está longe de me deixar sorridente. E com grande pena minha, pois bem gostaria de ver uma mulher a presidir aos destinos de uma sociedade tão patriarcal como ainda é a francesa. Só que – lamento ter que o dizer – parece-me que quem acusa Ségolène Royal de não ter ideias bem definidas e nem um projecto concreto tem razão. Pelas suas declarações, Ségolène tanto deve agradar a Francisco Louçã (quando fala em endurecer restrições ao capitalismo ultraliberal) como a Paulo Portas (quando fala num endurecimento das leis da imigração). Pelo meio, declara-se admiradora de Tony Blair. É obra!
A meu ver Ségolène tem o mérito de não fugir aos problemas e de os saber colocar sem tabus ideológicos, algo que é frequentemente muito difícil para a esquerda. Onde tem falhado, pelo menos no que eu tenho notado, é em propor soluções e alternativas para esses mesmos problemas, parecendo sempre querer agradar a toda a gente. Espero que, se for eleita presidente, se revele melhor na prática política do que na campanha (e tal não seria a primeira vez). É que as alternativas dentro do seu partido, para além de perdedoras face ao provável candidato da direita Sarkozy (ao contrário de Ségolène - dizem as sondagens), são ainda menos animadoras.
Dominique Strauss-Kahn é um barão, um cinzento homem do aparelho, sem grande capacidade para mobilizar o seu partido, muito menos a França e a Europa. Quanto a Laurent Fabius, é um populista oportunista (e de baixo nível, como atesta a sua pergunta sobre como seria ter Ségolène presidente: "E quem vai tomar conta dos filhos?"). A sua eventual escolha como candidato só serviria para descredibilizar e desmoralizar o PSF, lançando a esquerda francesa numa crise de resultados imprevisíveis (quiçá piores do que os de 2002).
Durante muito tempo, mesmo quando já se dava como garantido o duelo Ségo-Sarko, tive a esperança de um regresso de Lionel Jospin. Mesmo depois de, após a forma totalmente inglória e imerecida como falhou a passagem à segunda volta das eleições de 2002, ter dado por finda a sua carreira política. Pelos sinais que deu durante este ano é óbvio que pretendia voltar. Teria sido melhor ter-se mantido como reserva, sem nunca ter fechado a porta. Optou por uma "estratégia do tabu", sem dar indicações claras se pretendia avançar ou não. E quando é assim, os apoios não surgem: dirigem-se mais facilmente para quem avança sem reservas. Por vezes os calculismos pagam-se caro: quando Jospin foi à procura de apoios, já não os tinha e teve de recuar. Para a história fica um grande político, protagonista de uma era de paz e progresso no mundo como poucas outras.
Sendo assim, agora é indispensável encontrar-se um candidato de esquerda capaz de vencer a eleição. Mas, primeiro – e se calhar mais difícil do que isso – é garantir que esse candidato chegue à segunda volta.
2006/11/17
Com o Beaujolais novo veio Ségolène
Ségolène Royal foi portanto escolhida pelos militantes do PS como candidata à presidência da República no mesmo dia em que é provada (e vendida) a nova colheita do vinho Beaujolais. Que grande bebedeira deve ter sido na Rue de Solférino!
O meu texto Eu, órfão de Jospin, me confesso pode ser lido aqui.
2006/11/16
A América segundo Miguel Sousa Tavares
Tudo acontecia como nos filmes, era tudo rigorosamente verdade: aquela era verdadeiramente “ the land of the free”, um país onde a liberdade individual, a sensação de que se é absolutamente dono de si, do seu tempo, da sua vontade e do seu destino, era tal forma inebriante que era preciso um esforço de contenção diário para não se deixar ir atrás do fluxo, aparentemente sem nexo, das coisas e do tempo.
Um excelente artigo no Expresso, que eu encontrei aqui via Aspirina B. Está recheado de imprecisões históricas diligentemente colectadas por Joaquim Vieira, mas que em nada afectam a ideia principal do texto, como sempre muito bem transmitida. Que alguém se dê ao trabalho de expor estas imprecisões (algumas bem óbvias, outras nem tanto) sem ao mesmo tempo comentar sequer o conteúdo do (repito, óptimo) artigo só revela como o Miguel Sousa Tavares é objecto de inveja para muito boa gente. No caso de Joaquim Vieira, deve ter a ver com a extinta “Grande Reportagem”.
2006/11/15
A ciência de qualidade é “inconstitucional”?
Talvez não seja tanto assim com ciências sociais, mas em ciências naturais há uma grande diferença entre a divulgação científica e o fazer ciência a sério. A primeira deve ser, em Portugal, feita em português sempre que possível. A segunda, pelo contrário, presentemente só pode ser feita em inglês. Há uma questão essencial, que eu já aqui foquei várias vezes: a ciência de qualidade não tem (não pode ter) nacionalidade. Deve interessar (e, por isso, poder ser entendida) por qualquer especialista em qualquer lugar do mundo. Por isso inevitavelmente a ciência de qualidade tem de ser comunicada, entendida e avaliada (todas as três) numa “língua franca”, que hoje em dia só pode ser o inglês. Na eventualidade de mais ninguém no mundo entender a ciência do Prof. António Fidalgo que não uns lusófonos (ou espanhóis), só posso lamentá-lo. Mas o Prof. António Fidalgo tem de entender que é ele que tem de se adaptar aos padrões da ciência de qualidade (uma actividade global no sentido mais completo do termo), e não o contrário. A sua proposta é ainda mais anacrónica no contexto de Bolonha. Presentemente as melhores universidades europeias (incluindo supostamente “chauvinistas” universidades francesas) organizam-se para fornecerem formação avançada em parcerias. Obviamente em inglês.
O artigo chega ao ponto de utilizar argumentos que seriam inacreditáveis se não estivessem escritos e pudessem ser lidos, como de “constitucionalidade”. Cito ainda esta passagem:
“os falantes nativos têm acesso ao substrato de uma língua de uma forma que não têm os que a falam como segunda língua. O inglês enquanto língua franca não é o inglês das literaturas inglesa e americana, antes um inglês de superfície, onde as palavras e as expressões são despidas da sua profundidade histórica, do seu sentido múltiplo. É um inglês à Forrest Gump, de uma dimensão simplista e por vezes idiota. A síndrome de Asperger, de que essa conhecida personagem fílmica sofre, encontra o seu espelho na forma como o inglês é falado pela grande maioria dos que o falam como segunda língua: repetem os mesmos termos e expressões, ignoram segundos, terceiros e ulteriores sentidos, adquirem tiques estranhos, e é-lhes inacessível o humor e a ironia.”
Num artigo científico não há “humor” ou “ironia”. Há comunicação científica objectiva e rigorosa, que pode ser feita mesmo por quem nunca tenha lido Shakespeare e só tenha da língua conhecimentos técnicos (uma noção que pelos vistos escapa ao Prof. Fidalgo). Quem frequentemente parece o “Forrest Gump” a falar inglês nas conferências são cientistas de países onde certas concepções do Prof. Fidalgo prevalecem, nomeadamente havendo dobragens e não legendagem de filmes e séries na televisão, como a Itália ou a Espanha.
Esta posição de António Fidalgo pelos vistos não é de agora. Recomendo a leitura de uma resposta de António Granado a uma outra tomada de posição deste autor.
2006/11/14
Era bom que trocássemos umas ideias...
É lutar pela igualdade tendo sempre presente que um valor essencial para isso é a liberdade.
A diferença entre um quiosque e a blogosfera
Ah! Diz-me uma voz, mas estás a misturar tudo! Pois estou, é como fazem os que falam dos blogues misturando tudo, como Miguel Sousa Tavares e Eduardo Prado Coelho fizeram recentemente para se defenderem (o que é legítimo) de acusações e falsificações anónimas. É verdade que os jornais e revistas têm responsáveis e não são como as cartas anónimas, ou os blogues que funcionam como cartas anónimas, mas quando os primeiros transcrevem os segundos ficam iguais. No caso do Miguel Sousa Tavares, o que falhou foi a imprensa tradicional, que aceitou citar fontes anónimas, sem um julgamento de mérito. A notícia não é que um blogue anónimo acuse Miguel Sousa Tavares de plágio, a notícia é que Miguel Sousa Tavares cometeu plágio, se o tivesse cometido, e aí o autor da notícia devia fazer o seu próprio julgamento e só publicar caso esse julgamento fosse que sim. Não sendo, o blogue é como uma carta anónima, incitável e inaceitável. Foi isso que falhou e hoje em dia falha cada vez mais, porque a comunicação social escrita precisa de pretextos para violar as regras de que se gaba como sendo distintivas e, na Internet, encontra-os com facilidade, entrando depois facilmente na selvajaria. Está lá no computador, para milhões verem, por isso está "publicado", logo posso citar e levar a sério, sem ter responsabilidade.
O mal não está nos blogues em si, está na nossa incapacidade para ler e escrever blogues, como para ler e escrever jornais com uma decência mínima. O problema é mais comum do que se pensa, embora seja verdade que as pessoas se sentem mais impotentes para se defenderem da Internet do que no mundo da comunicação social tradicional, mas o que é crime cá fora é crime lá dentro.
Mas a reacção aos blogues, selvagens, inúteis, desviadores da atenção, perdulários do nosso tempo, oculta-nos muita coisa de interessante que está a passar-se diante dos nossos olhos e que não percebemos porque os vemos tão misturados como o Jornal do Crime está com o PÚBLICO no quiosque de jornais, ou como se o PÚBLICO para falar de ciência citasse o Guia Astrológico como fonte. Os blogues são apenas uma das pontas do mundo novo em que já estamos, uma pequena ponta, mas tão reveladora que mesmo estes episódios lesivos de Miguel Sousa Tavares (acusado de plágio) e de Eduardo Prado Coelho (que tem um texto falso a circular na Rede) são dele sinal. Ora nunca ninguém disse que era o Admirável Mundo Novo, a não ser os utopistas que pensam que as tecnologias mudam o mundo sem o pano de fundo das sociedades onde elas existem.
2006/11/13
Tão boas séries, tão má televisão
A única coisa que a televisão portuguesa tem má (muito má) é o total incumprimento de horários, directamente relacionado com a extensão absurda dos telejornais. Tudo estratégias de contraprogramação. Aí, sim, temos um bom retrato do país que somos.
Fossem os horários cumpridos e eu não me importaria nada que as boas séries (como as da HBO) dessem às três ou quatro da manhã. Hoje em dia um videogravador já não se pode considerar um luxo.
2006/11/12
Uma viagem à Palestina
Jerusalém é um bom retrato (exagerado) do que está a acontecer à sociedade israelita (e à árabe, e à americana...). Os ortodoxos tomaram conta da cidade. Reproduzem-se a um ritmo alucinante, compram ruas inteiras, fecham ruas ao sábado, apedrejam quem se atreve a conduzir naquele dia e, paulatinamente, vão comprando todas as casas numa guerra de posições. (...) Alguns ortodoxos limitam-se a receber dinheiro do Estado para não fazer nada a não ser ler os textos sagrados. As mulheres de outros são obrigadas a rapar o cabelo depois de casar e usam peruca no seu lugar. Recentemente, um representante dos ortodoxos na municipalidade quis proibir homens e mulheres de viajarem no mesmo lugares dos transportes públicos. Se alguém tomasse esta gente por legítimos representantes dos judeus, toda a gente se indignaria. Com justiça. Só que quando se toma a minoria fanática islâmica pela voz dos muçulmanos, toda a gente acha normal. (...)
[Em Gaza] Com o encerramento das fronteiras, a maquinaria para fábricas não entra e não há investimento possível. Quando chegam ao mercado os custos de transporte representam o dobro dos custos de produção. Depois de verificados ao milímetro, e esperarem durante dias no porto israelita de Ashdod (os palestinianos têm de pagar a espera), os produtos só podem ser transportados por empresas israelitas certificadas. Elas aproveitam o monopólio e inflacionam os preços. Depois, em princípio, ficam semanas ou meses à espera na fronteira, ao sabor dos humores do oficial de serviço. Se forem perecíveis, já nem vale a pena saírem de lá. Os produtos de consumo de produção israelita entram, claro. Há que fazer negócio. Os preços são muito mais altos do que em Israel e os salários infinitamente mais baixos. O pouco que os palestinianos ainda conseguem produzir para exportação só sai depois de apodrecer. O funcionamento do porto em Gaza seria uma grande ajuda para os palestinianos. Mas os israelitas não permitem que ele reabra. Entre as duas partes dos territórios (Gaza e Cisjordânia) praticamente não existem movimentos comerciais possíveis.
Como ninguém entra ou sai, o investimento externo é uma miragem. Ninguém quer empatar dinheiro com tanto risco se nem pode ter contacto com o seu negócio. Os empresários de Gaza não podem ir a reuniões no estrangeiro, tratar de negócios. Estão presos. Um gestor explica-me: «Israel retirou mas continuamos ocupados, muito pior do que antes, estamos aqui presos e condenados à miséria. Somos pessoas educadas, preparadas para os nossos negócios. Não precisamos de caridade. Apenas queremos que nos deixem trabalhar.»
Há sete meses que os funcionários públicos de Gaza e da Cisjordânia não recebem um tostão. É Israel que colecta os impostos dos palestinianos. Desde que o Hamas ganhou as eleições que fica com eles. São dois terços do Orçamento da Autoridade Palestiniana que Israel rouba e usa para seu proveito. Só os médicos recebem: 300 dólares por mês. O resto, de professores a polícias, nada. Num território com mais de 3500 pessoas por quilómetro quadrado, o poder está na rua. Não há dinheiro mas não faltam armas. Estão três mil para entrar. E os EUA fazem pressão junto de Israel para que autorize. Quer armar a Fatah para uma provável guerra civil que se avizinha. Assim como quer que entrem mais homens para engrossar a guarda pretoriana do Presidente Abbas. A Europa (que paga tudo, das infra-estruturas que os israelitas se divertem a desfazer às ajudas ao governo) descobriu o ovo do Colombo. Vai criar um regime extraordinário em que o dinheiro é entregue directamente aos funcionários, através de bancos, sem passarpelo governo. Outra parte do dinheiro irá directamente para pagar a electricidade e água que Israel fornece à Palestina. Fica-lhes com os impostos e cobra-lhes pela energia.
2006/11/11
O concerto - conclusão
2006/11/10
Algumas estatísticas do concerto
O concerto baseou-se em canções do mais recente álbum Carioca e dos anos 80.
Clássicos dos anos 60, só Quem Te Viu, Quem Te Vê. Dos anos 70, Mambembe, Tanto Mar e João e Maria. Os clássicos ficaram ou para a introdução, ou para o encore. Os anos 90 também ficaram reduzidos a Futuros Amantes.
Exceptuando Carioca, o álbum de originais mais representado no concerto foi Vida, com quatro temas. Do Grande Circo Místico saíram três temas. De Uma Palavra saíram cinco canções, mas este é um álbum de versões (com arranjos semelhantes às que foram cantadas). Do álbum ao vivo em Paris também saíram cinco canções.
Para a posteridade
Mambembe
Dura na Queda
O Futebol
Morena de Angola
Renata Maria
Outros Sonhos
Imagina
Porque Era Ela, Porque Era Eu
Sempre
Mil Perdões
A História de Lily Braun
A Bela e a Fera
Ela É Dançarina
As Atrizes
Ela Faz Cinema
Eu Te Amo
Palavra de Mulher
Leve
Bolero Blues
As Vitrines
Subúrbio
Morro Dois Irmãos
Futuros Amantes
Bye Bye Brasil
Cantando no Toró
Grande Hotel
Ode aos Ratos
Na Carreira
Encore:
Tanto Mar
Quem Te Viu, Quem Te Vê
João e Maria
Sem Compromisso
Deixa a Menina
2006/11/09
Encore
Já Quem Te Viu, Quem Te Vê foi cantada com a delicadeza que a sublime letra exige:
Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeriaJoão e Maria é presença habitual no final dos concertos de Chico. E quando tudo parecia que ia acabar, eis que regressa ao palco para acabar em beleza com Sem compromisso e Deixa a menina. Por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz. Era meia noite e o samba estava quente. Ficámos por ali, à espera de mais.
Quero que você assista na mais fina companhia
Se você sentir saudade, por favor não dê na vista
Bate palmas com vontade, faz de conta que é turista
Ode aos ratos
Rato de rua
Aborígene do lodo
Fuça gelada
Couraça de sabão
Quase risonho
Profanador de tumba
Sobrevivente
À chacina e à lei do cão
Mas não se ouvia cantar nada: só a música. Chico encolheu os ombros e só largou um “esqueci”, sem se desmanchar. A música continuou e Chico retomou no refrão. Mesmo assim considero este episódio bastante significativo.
Grande hotel
Futuros amantes
As vitrines
2006/11/08
Eu te amo
Seguiu-se Palavra de Mulher, a única canção da Ópera do Malandro neste espectáculo. Também a cantei toda.
O relato continua amanhã.





