2007/01/29

Supermercados contra a inflação

Quando estava em França, achava politicamente muito pouco neutro o slogan do Carrefour “baixar os preços e aumentar o nível de vida em França é possível”. Parecia-me ver ali um apoio implícito ao governo. Mas, e que dizer do presente slogan em Portugal: “O Pingo Doce lidera o combate à inflação”?

2007/01/28

A Economia que não lhes interessa

No local onde trabalho, de segunda a sexta feira é assinada a edição em papel do Público, que é disponibilizada na sala de café para ser lida pelos investigadores.
Ao fim do dia, pelas 20:00, já não se encontra o Público na referida sala. Julgava que fosse recolhido para a reciclagem, mas isso poderia ser feito no dia seguinte. Provavelmente ao fim do dia alguém - investigador, contínuo, secretária, não sei - leva o jornal para o ler, depois de ter estado disponível durante todo o dia. Não leva, porém, todo o jornal. Às sextas feiras, o jornal traz muitos suplementos e tem muito que ler. Se se quer ler o corpo principal do jornal, o Mil Folhas ou o Y, tem de se ir durante o dia. Mas há um suplemento que é sempre sistematicamente deixado por quem leva o jornal na sexta à noite, ficando ali esquecido durante o fim de semana. Refiro-me à Dia D. Desculpem; enganei-me na hiperligação: é aqui.

2007/01/26

Jay Leno e as "lojas de chineses"

Noutro dia preparava-me para assistir à entrevista ao Barack Obama no programa do Jay Leno, desde este ano em exibição no canal SIC Mulher. Depois do monólogo de stand-up comedy inicial, há aquela altura em que o Jay goza com erros ortográficos e gramaticais. Desta vez deu-lhe para olhar para os artigos que se compram nas lojas que, nos EUA, se chamam “de 99 cêntimos”. Está certo que o equivalente deste tipo de comércio em Portugal é frequentemente explorado por chineses. Mas não é esta etnia que detém o exclusivo deste sector do comércio. E nos EUA ainda menos – os chineses detêm um comércio muito mais diversificado, e existem muitas “99 cent stores” que não são exploradas por chineses. Ainda mais falando o Jay Leno num contexto americano, não é de todo correcto traduzir “99 cent store” por “loja de chineses”, principalmente existindo em português uma designação que, apesar da conversão ao euro, continua a ser usada desde o tempo do escudo, quando estas lojas cá apareceram: a “loja dos trezentos”. Parece-me uma designação muito mais correcta do que “loja dos chineses”. Mas a tradução que apareceu no programa foi mesmo “lojas dos chineses”. E não foi só uma vez. O Jay gozou com muitos produtos de 99 cêntimos – baixa qualidade, erros ortográficos e tal -, e cada um deles era identificado na legendagem como “mais um daqueles produtos das lojas dos chineses”. Assistimos na legendagem a um festival de achincalhamento gratuito das “lojas de chineses”, que não tinha nada a ver com o que era falado.
Um pormenor elucidativo ainda estava para vir. Houve uma altura em que o Jay Leno apontou um erro ortográfico crasso num brinquedo para miúdos de muito tenra idade. De seguida acrescentou “fortunately at this stage children can’t read”, ou seja, felizmente as crianças que supostamente utilizariam o brinquedo ainda não tinham idade para ler. Sabem qual foi a tradução na legendagem? “Felizmente os miúdos hoje em dia são uns analfabetos”!!!
Entre os responsáveis pela legendagem deve haver algum militante do PNR.

(PS – And now, for something completely different: quem terá sido a cabecinha que teve a ideia de programar o Jay Leno e o Conan O’Brien exactamente à mesma hora, em dois canais temáticos da SIC – SIC Mulher e SIC Radical, que deveriam ser complementares e não estar em concorrência directa -, sabendo que o público alvo de ambos os programas, nos EUA e ainda mais em Portugal, é exactamente o mesmo? Vamos corrigir isso?)

Publicado originalmente no Cinco Dias.

Jay Leno e Barack Obama

Podem ver extractos da entrevista do Barack Obama ao Jay Leno aqui:

2007/01/25

“Uma valente cacetada nas trombas”

Afasta-se um dia o supranumerário Azevedo Alves da escrita, e o resultado no Insurgente é isto – disparates, momentos de autismo e incitamentos à violência:
«quem estiver por perto deve assestar-lhe uma valente cacetada nas trombas com qualquer coisa que tenha à mão e enchê-lo de alcatrão e penas.»
Quem ler, de repente, nem acredita que é este o blogue que, há uns meses, chamava “bárbaros” aos estudantes parisienses que protestavam contra o CPE. São “coisas”... “Há dias assim...”, pois há. É o que dá quando o caricaturista de serviço tenta escrever alguma coisa - revela-se a verdadeira face da direita trauliteira.
Uma vez regressado do retiro espiritual, o supranumerário Azevedo Alves volta a pôr a ordem na casa. E logo com um texto dos mais ilustrativos da hipocrisia do moralismo beato. O Nuno Ramos de Almeida não tem nada (que eu saiba) a ver com o “Sim no referendo”, e não apela ao voto em nenhum candidato a “Grande Português” – só revelou o seu sentido de voto. O André Azevedo Alves divide a sua actividade bloguística entre fazer campanha pelo Salazar como “Grande Português” (no Insurgente) e pelo “não” à despenalização da IVG. Aplicando – com muito mais propriedade – a sua lógica, será que no Blogue do Não não se incomodam de contar com o contributo de um salazarista?

2007/01/24

As telenovelas e o aborto

Infelizmente não é só por isto que a telenovela Páginas da Vida deve ser falada. Na história o pai da criança sugere um aborto, mas a mãe quer prosseguir com a gravidez, mesmo tendo dificuldades financeiras e familiares. Ainda bem, se ela quer ter um filho. O aborto jamais deve ser feito contra a vontade da mãe. Cada capítulo da novela inclui ainda uns segmentos finais com depoimentos verídicos sobre histórias da vida real. Ora tem acontecido alguns destes depoimentos serem pequenos discursos contra o aborto. O que não é mau em si mas, neste presente contexto, é necessariamente visto como sendo contra a sua despenalização. É propaganda do “não” exibida a mais de um milhão de pessoas (neste fim de semana Maria Aurora Homem, locutora da RTP Madeira e apoiante do “sim”, queixava-se do mesmo no DN). Se a telenovela não faz esta distinção entre o aborto e a despenalização, e sendo esses segmentos suplementares totalmente desnecessários para seguir a história, talvez um segmento como o que eu destaquei não devesse ser exibido em época de campanha eleitoral. Pois é de campanha eleitoral que se trata.
Convém recordar – eu recordo-me – que, há exactamente oito anos, por altura do outro referendo, estava em exibição uma outra telenovela do mesmo autor, “Por Amor”, na qual o tema do aborto também era retratado, então de uma forma ainda mais forte. A personagem então decide fazer um aborto, e tem de ouvir a censura de todos os seus familiares, amigos e vizinhos, pois o que ela ia fazer era um “pecado”. Isto em horário nobre, exactamente no período da campanha. Convém estar atento a estes casos.

2007/01/23

É um vírus!

Morte de Fidel é um vírus.

Páginas da vida emocionam Portugal

Imaginem a seguinte história. Uma bebé nasce e é rejeitada pela sua família, nomeadamente pelo seu pai biológico. É dada para adopção. Cinco anos depois a bebé vê-se envolvida no centro de uma disputa pela sua custódia, já que o pai biológico entretanto mudou de ideias e resolveu reclamar a filha, entretanto adoptada por outra família. Parece-vos que estou a falar do mediatizado caso da Sertã? Sim, mas também estou a falar de Páginas da Vida, a telenovela brasileira da SIC, de que já falei aqui.

2007/01/22

Um ano pouco picante

Ao contrário de a muitos comentadores que o acusam de “provincianismo” – mas, que, curiosamente, até votaram nele... -, a mim agradou-me a entrevista de Aníbal e Maria Cavaco Silva à SIC onde o Presidente da República se queixava do “picante”. “Eu e a minha mulher não somos apreciadores de picante”, relatava Cavaco, muito rígido, muito sério, para a câmara, enquanto por trás dele a mulher ia metendo umas deixas, qual comadre coscuvilheira (para não dizer emplastra): “temos comido muito iogurte, e muitas frutas...” Achei aquele momento cândido e genuíno, achei aquele casal ternurento, um bom representante do que seria a generalidade dos casais portugueses em visita à Índia. E têm todo o direito de não apreciar picante na comida e de não o esconderem, tal como eu não aprecio especialmente comida japonesa e também não o escondo.
Significa isto que me estarei a render ao cavaquismo, exactamente um ano após a sua eleição, devido talvez a um primeiro ano de mandato que tem sido notoriamente pouco picante (deve ter sido cozinhado pela Maria)? Nem pensem nisso. Durante entrevistas na visita à Índia, Cavaco deixou bem claro que continua a pôr o crescimento económico e a criação de riqueza à frente de qualquer outra meta, pouco ou nada se importando com a justeza da distribuição dessa riqueza. Sobretudo falou na “alta produtividade” dos cidadãos indianos, e de como para isso contribuía uma lei segundo a qual os feriados eram celebrados numa data móvel, próxima do fim de semana, “tal como em Inglaterra”. E, obviamente, tal como ele tinha querido fazer durante um dos seus governos, e “não o tinham deixado”. Quinze anos passaram, e ele não se esquece. Não se iludam. O Prof. Cavaco continua a ser ele, e só ele, a saber o que é bom para o país. O Prof. Cavaco quer acabar agora tudo o que não acabou enquanto primeiro-ministro. Dias mais picantes virão.

2007/01/21

Guerra dos Sexos - os primos portugueses

Será que alguma vez veríamos uma versão americana disto?

2007/01/19

"Ugly Betty" ou "Betty La Fea"?

Quando eu vivia nos EUA, à noite durante a semana sintonizava o canal de televisão "Telemundo", produzido e dirigido para a crescente comunidade hispânica. Eu procurava séries e telenovelas que eram produzidas no Brasil e que em Portugal também se viam, só que lá eram dobradas em espanhol e chamavam-se "La Muralla", "Lazos de Família", "El Clon", "Esperanza" ou outros nomes semelhantes. Durante os intervalos, era impossível passar despercebida a publicidade à telenovela colombiana que dava antes da brasileira. A mais popular dessas telenovelas era a que deu a uma certa altura e que se chamava "Betty La Fea". Mesmo sem nunca a ter seguido, pude-me aperceber do verdadeiro fenómeno de que se tratava. O enredo era muito simples, um tradicional conto de fadas: uma rapariga fisicamente muito feia e de muito bom coração, a quem ninguém liga, mas que nutre uma paixão pelo seu patrão rico. Do que via, sempre de passagem, parecia-me uma história bem contada e um bom entretenimento. E pelos vistos era: a "Betty La Fea" já foi adaptada em várias línguas e países diferentes. A atenta Salma Hayek, que representa para a cultura hispânica nos EUA tudo o que Sónia Braga não soube, não conseguiu ou não procurou ser para a brasileira, envolveu-se em mais um dos seus projectos e co-produziu o ano passado uma versão em inglês de "Betty La Fea", a "Ugly Betty", destinada a todos os públicos. Não sei se a série terá sido o mesmo fenómeno de audiências do original, mas a sua qualidade foi reconhecida esta semana com a atribuição de dois globos de ouro, de melhor actriz para a protagonista e de melhor comédia televisiva. E assim temos uma telenovela colombiana (mesmo sendo uma versão) a ganhar os Globos de Ouro. Espero que se sigam muitas brasileiras. Aos nossos críticos televisivos que desdenham de tudo o que é latino e gostam de tudo o que é em inglês: não se esqueçam que a "Ugly Betty" no original era em espanhol, "Betty La Fea". Se alguma vez for transmitida em Portugal, será que vamos assistir ao original, numa língua muito mais próxima da nossa, ou a uma tradução, numa língua mais distante?
Na mesma semana em que o senador democrata afro-americano Barack Obama anunciou a sua candidatura às eleições presidenciais de 2008, uma produção de origem sul-americana conquista os Globos de Ouro. Indícios de uma América mais atenta às suas minorias, que no futuro próximo não serão minoritárias. De uma América necessariamente com uma menor preponderância branca, anglo-saxónica e protestante. De uma América melhor.

Publicado originalmente no Cinco Dias.

2007/01/18

Comentários versão beta - aviso importante

Com a migração deste blogue para a versão beta do Blogger, alguns leitores queixaram-se que não conseguiam deixar comentários. Esclareço que, com esta versão, a identificação do utilizador deixou de ser feita com a conta do blogger, passando a ser pela conta do Google (que, na versão beta, passou a confundir-se com a conta do blogger, deixando esta última de existir). A vantagem é que basta ter um endereço de email no gmail (algo hoje em dia bastante vulgarizado) para deixar comentários. Entretanto creio que neste momento voltou a ser possível comentar em blogues beta com a conta antiga do blogger, para quem a usar. Comentadores antigos podem voltar a comentar. Recomendo de qualquer maneira aos leitores que queiram dar-me o prazer de deixar comentários que obtenham uma conta gmail e a utilizem para se identificarem.
As utilidades da migração para a versão beta deste blogue vão ficando disponíveis. É o caso da lista de marcadores, na coluna da esquerda, para melhor identificar as entradas, que tem sido aplicada às entradas recentes e foi entretanto sendo aplicada às entradas mais antigas.

2007/01/17

Os dez maiores portugueses – a minha escolha pessoal (II)

Reitero que a minha selecção baseou-se no critério de que o que era importante era escolher portugueses que ou tivessem influenciado a história da Humanidade, ou cuja obra ou simplesmente cuja história de vida fosse um exemplo para todo o mundo, e não somente para Portugal. Desta forma excluí deliberadamente “heróis nacionais” portugueses. É um critério meu, e é claro que é discutível. Mas quando se compararem as escolhas de diferentes pessoas, deve-se comparar ao mesmo tempo os diferentes critérios. Pelas escolhas dos dez finalistas de outros países, é claro que foram usados critérios bem diferentes dos meus, muito mais nacionalistas. Se eu fosse escolher pelo mesmo critério com que os britânicos escolheram o Lorde Nelson, certamente teria escolhido D. Nuno Álvares Pereira. Se fosse pelo mesmo critério com que os alemães escolheram Adenauer ou Bismarck, eu teria escolhido D. Afonso Henriques. Se fosse pelo critério com que os americanos escolheram vários dos seus presidentes (com Ronald Reagan à cabeça…) ou os alemães escolheram Willy Brandt, certamente Mário Soares não faltaria na minha lista. Mas não; escolhi de acordo com os meus critérios. Uma escolha destas também é uma escolha de critérios.

2007/01/16

Os dez maiores portugueses: a minha escolha pessoal

Faço primeiro uns esclarecimentos. Só incluí nesta lista cidadãos portugueses que se distinguiram pelo contributo que deram para o mundo. Quem eu aqui incluo, creio merecer ser conhecido por qualquer cidadão pela sua história pessoal, pela sua obra, pelo seu exemplo. Estou mais preocupado com esta visão mais universalista do que com escolher pessoas que influenciaram o Portugal que somos, mas só o nosso país. Isso explica a ausência desta lista de pessoas como D. Afonso Henriques, o Marquês de Pombal, Fontes Pereira de Melo e (sobretudo) Mário Soares, uma personalidade que, como é sabido, eu muito admiro.
A ordem por que os indico é cronológica. Mas, curiosamente, é mais ou menos a ordem de importância relativa que eu lhes atribuo. Uma ordenação por importância não seria muito diferente desta, exceptuando talvez pequenos ajustamentos, como uma "despromoção" do Eça. O que se conclui daqui? Que fomos muito mais relevantes no passado do que somos agora. Esperemos que esta tendência se inverta. Afinal, indico quatro portugueses do século XX e um do século XXI.
Não poderia deixar de incluir algo relacionado com o Brasil (a nossa maior realização). Não poderia ignorar o fado. Não poderia ignorar algumas (efémeras) glórias desportivas; neste campo escolhi quem eu acho mais exemplar, pois distinguiu-se à custa do seu trabalho e não, como muitos outros, à custa de um talento inato e muitas vezes desperdiçado.
Finalmente, muitas referências à literatura (onde creio sermos mesmo bons), nenhuma à ciência. Afinal, isto é suposto ser um retrato do país!
Aqui vai a minha lista:

  • Infante D. Henrique
  • Vasco da Gama
  • Pedro Álvares Cabral
  • Luís Vaz de Camões
  • Eça de Queirós
  • Fernando Pessoa
  • Amália Rodrigues
  • Álvaro Cunhal
  • José Saramago
  • José Mourinho

Sporting jogou com 10

Capa do jornal Record do passado sábado, antes do jogo com o Belenenses

2007/01/15

Viagens

Um marco pessoal do ano que findou: foi o ano em que bati o meu próprio record de países visitados. Estadias em Portugal, na França e na Holanda. Visitas à Alemanha (duas vezes), à Suíça e à Bélgica. Quase sempre por razões científicas de trabalho (embora em todas tenha aproveitado para fazer algum turismo e conhecer locais que não conhecia, como é evidente). Somente uma das visitas à Alemanha e a estadia na Bélgica foram apenas por turismo.
Gosto muito de viajar, mas um dos meus desejos para 2007 é que faça menos viagens e, em contrapartida, encontre maior estabilidade profissional.

2007/01/14

Vida, louca vida

...vida breve. Assim cantava o Cazuza. Mas, ao contrário do que infelizmente sucedeu com o Cazuza, uma longa vida cheia de histórias para nos contar (loucas ou não) é o que eu desejo ao Luís M. Jorge e ao seu novo blogue.

A extrema direita e o "direito social ao aborto"

Imagem via Cinco Dias


Certos sectores salazaristas gostam de falar em "iliteracia" e "ignorância" mas, afinal, são eles mesmos que não sabem ler. Eu nem me vou dar ao trabalho de o desmentir, tão evidente é a contradição entre o que escrevi e o que é sugerido que eu escrevi. Ao contrário do André Azevedo Alves (que deve achar que os seus leitores são estúpidos ou analfabetos), eu confio na inteligência dos leitores do Cinco Dias e do Avesso do Avesso.

2007/01/12

O aborto, o financiamento e o referendo

Ultimamente tem sido esta a principal questão da campanha, com sectores liberais que se afirmam favoráveis à despenalização a admitirem abster-se, ou mesmo votar "não", se o aborto for integrado no Sistema Nacional de Saúde e for genericamente financiado pelo Estado, isto é, pelos contribuintes.
Devo começar esclarecer que, por princípio, não me parece correcto serem os contribuintes a financiarem os abortos. Há excepções importantes, que enumero desde já. Em todos os casos em que, com a lei em vigor, o aborto é legal, este deve ser financiado pelo Estado, uma vez que são casos de saúde pública. Da mesma forma, os abortos por parte de adolescentes também devem ser financiados pelo Estado, qualquer que seja a situação da grávida, mesmo que o seu nome de família seja Mello ou Champô-Limão.
Agora, para mim, por uma questão de princípio uma mulher adulta que peça para abortar, sem mais nenhum motivo especial (e dentro do prazo válido), deve poder fazê-lo em liberdade e segurança (é disso que se trata), mas deve ser responsável pelo seu acto, nomeadamente pelo pagamento dos encargos associados.
Tomemos o seguinte exemplo. Um casal não usa contraceptivos, porque "é pecado". Depois a mulher engravida, e tem de fazer o "desmancho": "tem de ser". Voltam a ter relações sexuais. Não tomam precauções porque "é pecado". A mulher volta a engravidar e a fazer o "desmancho". E assim sucessivamente. Não julguem que este cenário é assim tão raro. Sei de casos assim: apesar de já terem feito vários abortos, no referendo vão votar "não", obviamente porque "é pecado". Na impossibilidade de argumentar racionalmente com o "é pecado", e não tendo o Serviço Nacional de Saúde de sustentar eternamente estes casos, não vejo outra solução que não seja responsabilizar os "pecadores".
O único senão que eu vejo é mesmo o flagelo do aborto clandestino, que é afinal tudo o que está em discussão. Ao contrário do que nos querem convencer os partidários do "não", o que está em discussão não é se vai passar a haver abortos. Os partidários do "não" gostam de nos falar como se só passasse a haver abortos se o "sim" ganhasse, mas abortos sempre houve e sempre continuará a haver. O que está em discussão é se esses abortos podem ser realizados de uma forma livre e segura, ou se devem continuar a ser feitos clandestinamente.
Ora, se o aborto for liberalizado mas se for somente o mercado a decidir o seu preço, isto é, se for um negócio privatizado, o mais provável é que continue a ser mais barato fazer um aborto clandestino e sem condições, pelo que as pessoas de menos recursos continuarão a recorrer a este. Ou seja, na prática pouco ou nada se estará a alterar para estas pessoas, justamente as mais necessitadas.
O que eu defendo, assim, é que o aborto seja pago, por uma questão de princípio (o "tendencialmente gratuito" da Constituição não se aplica aqui), mas que seja o Estado a regular toda esta actividade e a controlar os preços. Como defendo para muita coisa, nomeadamente tudo o que seja relacionado com medicina privada. É a economia, estúpido. É evidente que os nossos amigos blasfemos nos dirão que não, que o melhor para o consumidor é que o mercado seja sempre completamente livre, incluindo o dos abortos. Esta é uma discussão que já temos vindo a ter desde que há blogues. É uma discussão de modelo económico, que não tem nada a ver com o que está em discussão no próximo referendo. Ao contrário do que certos sectores extremistas defensores do "não" nos querem convencer, nada obriga o governo, na hipótese de o "sim" ganhar, a indicar que os abortos sejam feitos no Serviço Nacional de Saúde. Se o "sim" ganhar, um governo de blasfemos poderá defender que seja feito em clínicas privadas. São leis simples de financiamento que, como nota Carlos Abreu Amorim numa série de textos notável, poderão ser alteradas por qualquer governo que tenha condições para isso, sem recurso ao referendo. O que vai a referendo é a legalização do aborto até às dez semanas. Nada mais do que isso. Desde que isto fique claro, a discussão do financiamento não é para se ter agora. Não é agora que vai ser decidida.

Publicado originalmente no Cinco Dias.

2007/01/11

Não ultrapassem um escorpião!

Quando estava nos EUA e coimprei o único carro que tive até hoje, ao preencher o formulário com os dados do carro para a seguradora achei estranho ter de indicar a cor do carro. Só mais tarde vim a descobrir que o valor a pagar variava conforme a cor do carro, pois as estatísticas indicavam que carros com certas cores tinham maior probabilidade de terem acidentes do que com outras. À cabeça estavam os carros vermelhos: quem escolhesse um carro vermelho era esperado ser um condutor agressivo, uma vez que o vermelho é tradicionalmente associado a carros desportivos como os Ferrari.
É claro que a aplicação cega de tal estatística não contempla possibilidades como um condutor não poder escolher a cor do seu carro. Foi o meu caso, quando comprei o meu: no stand, do modelo que eu queria, só havia – adivinhem! – carros... vermelhos! (Não que eu não goste da cor, para um carro, que gosto.)
Espero que, com o estudo agora divulgado, as mesmas mentes não se lembrem de fazer depender o preço do seguro do signo astrológico do segurado. Para além do absurdo da medida, tal considerar-me-ia, mais uma vez, um condutor agressivo, de acordo com os resultados divulgados na edição em papel do DN. Acho que quando voltar a ter um carro vou pôr um autocolante: “escorpião ao volante”.