2007/01/11

Não ultrapassem um escorpião!

Quando estava nos EUA e coimprei o único carro que tive até hoje, ao preencher o formulário com os dados do carro para a seguradora achei estranho ter de indicar a cor do carro. Só mais tarde vim a descobrir que o valor a pagar variava conforme a cor do carro, pois as estatísticas indicavam que carros com certas cores tinham maior probabilidade de terem acidentes do que com outras. À cabeça estavam os carros vermelhos: quem escolhesse um carro vermelho era esperado ser um condutor agressivo, uma vez que o vermelho é tradicionalmente associado a carros desportivos como os Ferrari.
É claro que a aplicação cega de tal estatística não contempla possibilidades como um condutor não poder escolher a cor do seu carro. Foi o meu caso, quando comprei o meu: no stand, do modelo que eu queria, só havia – adivinhem! – carros... vermelhos! (Não que eu não goste da cor, para um carro, que gosto.)
Espero que, com o estudo agora divulgado, as mesmas mentes não se lembrem de fazer depender o preço do seguro do signo astrológico do segurado. Para além do absurdo da medida, tal considerar-me-ia, mais uma vez, um condutor agressivo, de acordo com os resultados divulgados na edição em papel do DN. Acho que quando voltar a ter um carro vou pôr um autocolante: “escorpião ao volante”.

2007/01/10

João Teixeira Lopes, o dono do “sim”

Já não é a primeira vez que o deputado João Teixeira Lopes, do Bloco de Esquerda, mostra todo o seu sectarismo. Foi quando se candidatou à Câmara do Porto (e baseou toda a sua campanha em ataques à CDU). Foi no debate entre Francisco Louçã e Paulo Portas (a gaffe de Louçã do “eu já procriei” é desculpável, tendo em conta o irritante oponente no debate, mas não deixa de ser uma gaffe; indesculpável pareceu-me a defesa cerrada que Teixeira Lopes fez do líder bloquista, sem paralelo mesmo no seu partido). É no ataque periódico que faz ao ministro do Ensino Superior, a maior parte das vezes sem razão. Mas a pior de todas foi a recente crítica a Rui Rio por pertencer a um movimento pelo “sim” no referendo, por alegadamente o Presidente da Câmara do Porto querer “branquear” a sua imagem junto do eleitorado de centro-esquerda.
Alguém explica a este senhor que o próximo referendo não é uma luta partidária? E que quantos mais líderes do centro e da direita apoiarem a despenalização, melhor para o “sim”? E que ele é que deveria deixar as críticas ao executivo da Câmara do Porto, por muito justas que sejam, para a ocasião devida, que não é a campanha do próximo referendo? Que ele deveria pôr os interesses puramente partidários de lado? Que uma vitória da despenalização não é só uma vitória do Bloco de Esquerda – é uma vitória de todos os qua a apoiam, incluindo – felizmente – Rui Rio e muitas pessoas ligadas ao PSD?
Embora eu nunca concordasse com ela – todos os apoios são bem-vindos -, uma acusação de oportunismo semelhante à lançada por João Teixeira Lopes poderia ter uma atenuante no caso de o visado se tratar de um político que em 1998 não tivesse feito campanha pelo “sim”. Mas não é esse o caso – Rui Rio nesse aspecto revelou sempre uma grande coragem política, votando mesmo contra a orientação do seu partido, como deputado, em 1997, quando a despenalização foi aprovada no Parlamento, antes de Guterres e Marcelo “decidirem” que era melhor haver um referendo. Em matéria de combate pela despenalização do aborto – e já agora de independência política – Rui Rio não deve nada a João Teixeira Lopes. Se calhar o oposto é que já não é verdade.
Já passou uma semana sobre estas tristíssimas declarações. Eu não li nenhuma referência ao assunto na blogosfera, nomeadamente por parte de dois blógueres que – tenho a certeza – não perdoariam se fosse o PCP a armar-se em “dono do sim”: este e este. Dois blógueres de quem eu gosto e respeito. No caso do Tiago, creio que tal afecta seriamente a reputação de independência que ele foi construindo. Valham-nos as senhoras que escrevem neste blogue, pelas suas crónicas de sexta feira no DN (incompletas na rede).

2007/01/09

A infalibilidade do aquecimento global

E não é que o Papa se mostrou preocupado com o aquecimento global, no seu discurso de Ano Novo? Não é meu objectivo aqui comentar esse discurso, que como é natural contém partes com que eu concordo e outras com que não concordo nada. Não deixa de ser curioso, porém, notar que quem mais faz campanha a dizer que não acredita no aquecimento global é, ao mesmo tempo, quem mais acredita na infalibilidade papal...

2007/01/08

O que procuram os visitantes de O Avesso do Avesso?

Experimentem googlar Afonso Pimentel nu. São vários os que vêm aqui parar nos últimos dias.

É futebol

Já me estava a convencer de que este FC Porto de Jesualdo Ferreira merecia mais a dobradinha que o de Co Adriaanse (que não merecia ter ganho a Taça). Mas já não a obterá... Espero que pelo menos a Taça de Portugal acabe em Alvalade. É que nos dois últimos anos o Sporting foi literalmente empurrado para fora da prova, no campo dos adversários.

2007/01/07

Balanço musical do ano de 2006

É claro que só há música brasileira. O álbum do ano 2006 é Infinito Particular, a demonstrar uma Marisa Monte em plena maturidade criativa, mas cujo mérito também deve ser atribuído aos seus colaboradiores, especialmente os Tribalistas Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown. Hesitei entre este e In Cité, de Lenine, que apesar de ser de 2005 só foi por mim descoberto este ano. Até por isso, In Cité fica (em atraso) como melhor álbum de 2005.
Infinito Particular é melhor que o seu gémeo Universo ao Meu Redor e bate aos pontos Carioca do regressado Chico Buarque. Do Caetano, prefiro não falar.
Quanto ao concerto do ano, a mesma Marisa Monte (um concerto profissionalíssimo e equilibrado em Lisboa) e Carlos do Carmo/Camané ou Cesária Évora na Torre de Belém seriam bons candidatos. Mas (como qualquer leitor deste blogue compreenderá), a minha escolha tem de ser o Chico Buarque. Mesmo assim, é uma escolha sem grande favor para um óptimo concerto.
O concerto perdido do ano (tendo em conta a minha localização variável, e não querendo viajar só por um concerto)? Talvez Divine Comedy em Paris. Keith Jarrett ou Ben Harper em Lisboa seriam outras boas possibilidades.
É claro que esta é uma escolha pessoal e parcialíssima, baseada nas minhas limitadas escolhas.

2007/01/05

Juramentos e religiões

O tema do texto anterior dá pano para mangas. Pode ou não um deputado levar o Corão para fazer um juramento? A direita religiosa, como o André Azevedo Alves (que continua a confundir-se com O Insurgente) certamente pensa que a Bíblia é autorizada (e provavelmente deveria ser obrigatória), mas não é essa a questão mais importante. Essa questão, que (creio eu) dividirá opiniões entre as pessoas sensatas, é: "Deve ou não um representante político fazer um juramento religioso antes de tomar posse?" Muita gente reconhecerá ao deputado muçulmano o direito de jurar sobre o Corão, se outros juram sobre a Bíblia. Para mim, nenhum dos juramentos é aceitável: a religião é do foro privado, e não deve ser confundida com o exercício de funções públicas. Mesmo que tal possa ser visto como uma "restrição de liberdade". É evidente que cada deputado poderá fazer os juramentos que quiser, se for religioso – e mesmo se os deputados forem eleitos enquanto religiosos, ou devido às suas convicções religiosas. Mas tais juramentos devem constituir uma cerimónia religiosa, e nunca uma cerimónia oficial de Estado.
Aqui temos, de repente, e como quem não quer a coisa, um excelente "toy model" para o problema do véu islâmico, tema a que tenciono voltar em breve.

Também publicado no Cinco Dias.

2007/01/04

Mobilidade e endogamia nas universidades portuguesas

A acabar o ano, a transcrição integral de uma entrevista do Público ao autor de um estudo que continua a dar muito o que falar. Pelas sugestões e propostas, por muito que isso possa doer a muita gente "instalada", a proposta do Ministério da Ciência e Ensino Superior de pôr as Universidades a "lutar" pelo dinheiro com base na sua qualidade é um passo no sentido certo. Para 2007 ficamos à espera de mais: do Compromisso com a Ciência e de um novo Estatuto da Carreira Docente.
Sobre este assunto, uma boa leitura complementar é a excelente entrevista do ministro Mariano Gago ao Diário de Notícias ontem, que infelizmente só vem parcialmente publicada na rede.

À margem: este é mais um excelente trabalho do David Marçal, que me sucedeu como "Cientista na Redacção" no Público nos últimos três meses.

"As universidades devem competir pelo dinheiro com a investigação"

Arcadi Navarro em 2001 fez um grande estrondo quando publicou na Nature um artigo em que colocava em números o fenómeno da contratação de docentes universitários com base em critérios de proximidade social em vez de mérito científico. Acerca da situação das universidades espanholas, que não deverá ser muito diferente das portuguesas, chegou à conclusão de que preferem os defeitos dos de dentro às virtudes dos que vêm de fora. Por David Marçal (texto) e Daniel Rocha (foto)


A endogamia nas universidades é definida como a existência de uma rede social que, independentemente do mérito dos candidatos, sistematicamente atribui posições aos amigos e conhecidos. O critério usado por Arcadi Navarro, especialista em biologia evolutiva da Universidade Pompeu Fabra de Barcelona foi muito simples: comparou a morada do primeiro artigo publicado numa revista científica pelos docentes universitários com a morada actual. Em Espanha era a mesma, em 95 por cento dos casos.
Dito de outro modo, apenas cinco por cento das vagas das faculdades são atribuídas a candidatos de fora. Nos Estados Unidos, a situação é exactamente inversa: o número de candidatos externos a obter lugares é de 93 por cento. No Reino Unido é de 83 por cento e em França 50.
Tudo isto tem consequências na produtividade científica. Vários estudos demonstram que quando são escolhidos amigos em vez dos candidatos com mais mérito, o número e o impacto das publicações científicas baixa significativamente. O PÚBLICO falou com Arcadi Navarro, à margem de um debate sobre a mobilidade e endogamia nas universidades portuguesas, no Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras.
PÚBLICO - Quais são as consequências da endogamia nas universidades?
Arcadi Navarro - São horríveis. As pessoas em vez de ciência estão a fazer política de corredores e a universidade torna-se numa maneira de arranjar salários para os amigos.
Como se pode explicar as enormes diferenças entre os países?
Por sistemas muito diferentes. Há países onde é proibido arranjar um emprego na mesma universidade onde se fez o doutoramento, como na Alemanha. Em França, para entrar numa instituição do CNRS (Centro Nacional de Investigação Científica), é preciso fazer um exame nacional muito exigente.
Já em Espanha as posições são atribuídas por comités formados por pessoas de dentro da universidade. Seria um bom sistema se as instituições competissem através da investigação que fazem. Mas as universidades espanholas recebem o financiamento com base no número de alunos de licenciatura. Outro factor é a escassez de recursos em países como Espanha e Portugal, que cria um ambiente ultracompetitivo, e as coisas são organizadas um pouco ao estilo da máfia.
Que medidas poderiam ser tomadas para reduzir este problema?
Fazer as universidades competir. Permitir-lhes contratar quem queiram, mas fazer o seu financiamento depender da ciência produzida. E dar o dinheiro aos investigadores em vez de às instituições. E a agência de financiamento avalia o investigador.
O favoritismo não pode passar para essas avaliações?
Pode acontecer. De modo a evitá-lo, as avaliações devem ser anónimas e feitas por comités maioritariamente estrangeiros. Se a sua carreira depender de avaliações sérias por padrões internacionais, as pessoas trabalham. Há uns anos, em Espanha, houve quem obtivesse um lugar de professor catedrático sem um único artigo publicado numa revista científica.
Como seria a receptividade das instituições a estas medidas?
Em relação a fazê-las competir e pensar na ciência que fazem (porque isto influenciaria o seu financiamento) são contra. Quanto a criar equipas de investigação que não dependem financeiramente das instituições, mas de uma agência de financiamento externa, estão receptivas.
Tornar as universidades competitivas é uma grande mudança estrutural e cultural. Como é que pode ser feito?
[Risos] Essa é a questão. As coisas que se podem fazer não são revoluções, mas pequenas mudanças que podem ter grandes consequências.
Por exemplo, em países de topo a nível científico, a todo o financiamento atribuído a um projecto de investigação é cobrada uma enorme taxa (overhead) pelas universidades, que pode chegar até 50 por cento. O cientista recebe 100 e a instituição fica com 50 para gastar como quiser. Nos países com mais endogamia, os overheads tendem a ser baixos. Por exemplo, até este ano, em Espanha eram de 15 por cento.
Do ponto de vista dos administradores da universidade são trocos. Se baixar um pouco o dinheiro atribuído por cada aluno e aumentar o financiamento que vem dos overheads, a investigação torna-se importante porque define o dinheiro que entra no sistema. E as universidades começam a querer contratar pessoas que ganhem grandes projectos e tragam muito dinheiro.




A endogamia pode afectar a produtividade científica das universidades portuguesas

A endogamia tem um efeito claramente negativo na produtividade científica, segundo números da base de dados de publicações ISI Web of Knowledge, compilados por Arcadi Navarro.
No Reino Unido, apenas dois em cada dez elementos da faculdade são recrutados internamente, e foram em 2005 produzidos 1463 artigos científicos por milhão de habitantes. E cada um deles foi citado noutros artigos em média mais de três vezes, o que é uma medida da sua importância.
No caso espanhol, em que 19 em cada 20 professores universitários são recrutados na instituição, foram publicados 834 artigos por milhão de habitantes, citados 2,2 vezes. Portugal produziu 608 artigos por milhão de habitantes em 2005, citados em média menos de duas vezes. Não há nenhum trabalho específico sobre a endogamia nas universidades portuguesas. O Observatório da Ciência e do Ensino Superior (OCES) apresentou dados obtidos noutros estudos e apresentou-os quarta-feira no debate Endogamia e Mobilidade na Universidade Portuguesa.
Mas os números não são directamente comparáveis com os publicados por Arcadi Navarro na Nature. Nos dados do OCES foram considerados os docentes que se doutoraram na própria instituição, ao passo que o critério usado por Navarro para definir endogamia foi a instituição onde estavam quando publicaram o primeiro artigo científico. Também não são comparáveis com o estudo a nível europeu publicado por Manuel Soler na Nature (ver gráfico), porque este apenas se refere a duas áreas (zoologia e ecologia).
No entanto, os números existentes permitem concluir que a endogamia é claramente predominante nas universidades portuguesas: segundo os números do OCES, sete em cada dez professores fizeram o doutoramento na mesma universidade em que agora têm um emprego.

2007/01/03

"O Natal profano de todos nós"

Ainda a propósito deste assunto:

Tomemos, por exemplo, o caso que neste momento se discute nos Estados Unidos. Pela primeira vez na história política norte-americana, nas eleições de Novembro foi eleito um deputado muçulmano. Tendo-se criado uma tradição política no Congresso, segundo a qual, depois da tomada de posse oficial, os deputados realizam uma cerimónia privada, para amigos e familiares, em que juram sobre a Bíblia, até agora ninguém tinha colocado a hipótese de usar outro livro sagrado. Quando muito, os poucos não crentes optavam por não fazer o juramento religioso. Por isso, causou escândalo, especialmente nos círculos da direita cristã, o anúncio feito pelo dito deputado de que fará a seu juramento sobre o Corão. Um deputado mais intolerante da direita religiosa chegou ao ponto de defender que ele deve ser proibido de levar o Corão e que, se o fizer, deve perder o mandato. A pergunta que se deve fazer é obviamente a seguinte: se os crentes cristãos têm o direito de jurar sobre o seu livro sagrado, por que é que um deputado muçulmano não goza de igual direito?

(Vital Moreira, Público, 26-12-2006)

2007/01/02

José Sousa Ramos (1948-2007)


Foi dele a primeira aula a que assisti no ensino superior, num anfiteatro do Pavilhão Central do Instituto Superior Técnico, às oito da manhã de um dia de Outubro. Foi dele o primeiro email que recebi na vida (numa altura em que nem fazia a mínima ideia de como se trabalhava num computador, e ninguém suspeitava ainda o que era a internet), numa área que os alunos tinham nuns computadores horríveis, num sítio horrível chamado CIIST (Centro de Informática do Instituto Superior Técnico), nas caves do mesmo pavilhão. Eram os códigos de um programa em C, já não sei para que aplicação (mas teria a ver com a “sua” teoria do caos), que quis partilhar, todo entusiasmado, com os seus alunos.
Era nosso professor de Álgebra Linear. A Álgebra Linear é uma cadeira fundamental para qualquer curso em que a Matemática seja relevante, muito fácil, quase trivial, mas demora um semestre para um caloiro se aperceber disso (não tem nada a ver com o que se estuda no secundário). O Sousa Ramos não ajudava muito a que um caloiro se apercebesse disso, pois era ele próprio, nas aulas, que declarava que aquilo tudo era muito fácil (mesmo que ninguém estivesse a perceber nada): interessante mesmo era o caos, os atractores estranhos, os fractais. Um atractor estranho era cada um dos quadros dele. Começava por escrever uma coisa num sítio, depois passava a outra num sítio completamente diferente, e assim durante a aula o quadro se ia enchendo, de uma forma completamente desordenada. Finalmente não havia mais espaço para escrever, no meio daquela confusão toda. Lá se decidia então a apagar qualquer coisa, para poder continuar a escrever. Qualquer coisa, não: quando ia apagar, escolhia sempre a última coisa que tinha escrito.
Nós olhávamos para aquilo, saudosos do liceu de onde tínhamos acabado de sair, e meio assustados. Só não estávamos completamente assustados porque ele não assustava ninguém. Era impossível não se gostar dele. O cabelo meio desgrenhado, as barbas grisalhas, a voz afável, e os olhos. Nunca até hoje vi uns olhos tão bondosos como aqueles.
Como acontece muitas vezes, no contacto pessoal, na discussão individual com os alunos, era diferente. Podia passar quase uma tarde com um aluno para lhe tirar uma dúvida. A sua paciência era infindável; se lhe punham uma questão directamente, gostava que essa questão ficasse bem esclarecida.
Também foi com ele que fiz um dos primeiros exames do ensino superior. O exame era conceptualmente bastante fácil, por vezes directo. Uma primeira leitura deixáva-nos tranquilos: era um exame dado, sabia-se fazer tudo, era só “fazer as contas”. O problema é que o exame continha a épica “matriz que não queria ser invertida”: uma matriz quatro por quatro, com entradas que eram todas números inteiros de 1 a 9 (módulo o sinal), que era suposto invertermos. Tinha determinante sete mil e qualquer coisa... Era a pergunta mais fácil daquele exame facílimo. E não houve ninguém que a respondesse, depois de passar um tempo muito precioso a somar fracções com numerador com quatro dígitos... por dezasseis vezes. Foi o exame mais fácil que eu vi na vida. E foi uma desgraça. Lembro-me da surpresa dele com a nossa atrapalhação, e da candura com que assumiu que “não esperava” que fosse tão difícil: “o Mathematica [software de computação simbólica] tinha “cuspido” a resposta num instante!” Felizmente havia uma coisa chamada “segunda época”, e as matrizes para esse exame foram por ele invertidas à mão.
Nunca mais foi meu professor, mas continuei a vê-lo estes anos todos, sempre que regressava ao Técnico. Quis sempre saber de mim e ficávamos uns minutos a conversar. Mostrava-se sempre entusiasmado com o seu trabalho. E falava às vezes do Alentejo, do bom azeite que recebia e que era produzido nas terras que a família possuía no concelho de Moura. Era a única contrapartida que pedia à cooperativa de agricultores local para usarem as suas terras, e era somente para uso pessoal. Não queria ter nada a ver com a venda desse azeite, nem receber nenhum tipo de percentagem das receitas dessa venda: “são os agricultores que produzem o azeite, e são eles que devem receber o dinheiro pelo seu trabalho”, disse-me ele uma vez.
Nunca fumou na vida, mas morreu com um cancro no pulmão galopante, durante o sono, tinha o ano de 2007 poucas horas. Deixa-nos, sobretudo à família (mulher, filhos e neta), mas também a todos os outros que o conheceram, mais pobres.

2007/01/01

Je suis très content

Bienvenu en Europe, Mr. Boloni. E boas vindas à Roménia e à Bulgária à União Europeia. Uma grande parte dos meus colegas de doutoramento desde hoje passam a ser do meu país.

2006/12/31

Bom ano novo!

Espero um bom ano de 2007. É preciso manter o optimismo.
São estes os meus votos para os meus amigos e leitores. Até 2007.

2006/12/30

BCP: banco do não?

O Nuno Ramos de Almeida e o Ricardo Alves lançaram a suspeita; a pronta resposta do amigo de Jardim Gonçalves e Paulo Teixeira Pinto (do BCP e conhecidos membros do Opus Dei) confirmou. Os meus votos para 2007 para o André Azevedo Alves são que continue assim, primário e previsível.

2006/12/28

Já tive melhores Natais...

Problemas familiares têm-me impedido de actualizar esta página com a regularidade habitual. Depois do Ano Novo espero voltar a escrever diariamente (ou quase).

2006/12/27

Páginas da Vida

Ainda não vi a nova novela da SIC, e já sei muito. Já sei que a personagem principal é uma senhora de meia idade, da classe média-alta, invariavelmente chamada Helena. Já sei que o cenário é o Rio de Janeiro, mais precisamente o Leblon. Já sei que a história vai andar à volta de pessoas como ela, envolvidas em circunstâncias extremas (bebés trocados, leucemia...) mas verosímeis. Já sei que as personagens são concebidas com o maior cuidado, até ao mais ínfimo pormenor. Já sei que estou na presença de uma novela muito bem escrita. Já sei que o genérico vai ser com uma música do Tom Jobim, e que a banda sonora vai estar impregnada de bossa nova. Já sei que estou na presença do melhor retrato de um certo Rio de Janeiro, o dos dias de hoje mas que ainda é o de Vinicius e Jobim, que nos pode ser oferecido. Já sei que estou na presença de uma novela do Manoel Carlos, o mesmo autor de Por Amor e Laços de Família. Ainda não vi, e já sei que vou gostar.

2006/12/22

Boas festas

Começo por discordar na argumentação deste texto do Tiago Barbosa Ribeiro: conforme lá escrevi algo provocatoriamente, antes uns burgueses terem os seus carros queimados à porta do que ter-se um “In God we trust” impresso nas notas! Ou um “God bless America” nas contas do supermercado, como eu tinha depois do 11 de Setembro. A relação dos Estados Unidos com a religião está longe de ser modelo para algum país desenvolvido. Ao contrário do que o Tiago Ribeiro provavelmente julga, não é só no Irão que existem fundamentalistas religiosos. Eles existem também nos EUA e têm mais influência do que ele possa julgar, incluindo a administração Bush filho (mais do que qualquer outra). Pode haver respeito de umas religiões relativamente às outras, mas há um predomínio da religião (de Deus) traduzido no “In God We Trust” nas notas bancárias, que pelos vistos tanto lhe agrada. A América é uma nação temente a Deus, seja este qual for. Pouco lugar há para agnósticos e ateus: são uns excêntricos que vivem no mundo académico e pouco mais.
Dito isto, não posso concordar com as ridículas manifestações de “politicamente correcto” que constituem a supressão de algumas celebrações de Natal em empresas europeias. Queira-se ou não, o Natal é celebrado, por razões históricas e culturais, pela esmagadora maioria das pessoas, crentes e não crentes. Já era celebrado o solestício de Inverno muito antes de Cristo! Por isso é feriado nacional. Tem de se respeitar os feriados celebrados historicamente nos diferentes locais. Em Nova Iorque observavam-se todos os feriados judeus, e eu dei aulas numa sexta-feira santa. No instituto onde me doutorei, entre os docentes a maioria era judaica. Os enfeites de Natal conviviam com as velas de Hannukah. Nunca deixou de haver uma festa na segunda ou terceira semana de Dezembro!
O final de cada ano é sempre um motivo para celebrar. Toda a gente o sente. As festas numa empresa ou numa escola não devem ter um carácter proselitista. Desde que esta condição se verifique, deve prevalecer o princípio de que uma festa, desde que desejada por um número significativo de pessoas, não pode ofender ninguém.

Concluo tudo isto desejando, muito laicamente, boas festas a todos os meus leitores e amigos.


"Tendências fascistas"...

... no Insurgente: "Com liberais assim..." no Blogue Liberal Social (via Esquerda Republicana).

A universidade portuguesa, mais uma vez

Fale-se do relatório OCED, de Bolonha... Mas leiam-se experiências como as do Nélson.

2006/12/21

Antes do jantar anual da LEFT

Um rapaz que eu conheço há uns dez anos escrevia num blogue colectivo, tendo dele saído aparentemente por culpa de um erro de ortografia!
Quando eu tinha chegado aos EUA para o meu doutoramento, ele ainda andava pelo Técnico a licenciar-se em Física. E mandava aos amigos emails com passagens como esta, que transcrevo textualmente:

Caros amigos espero que com vosco esteja tudo O.K.
Venho por este meio comunicarvos que com sorte (se o papa deichar, se
me aceitarem e se houver bolsa) sou mais um a ir para a diaspora, mais
precisamente para a polytechnique.

Filipe Moura:
Confeco que nao tenho lido os teus mails com a assiduidade habitual


E mais, que eu não pude ir pesquisar. Mas em vez de Paris ele acabou por ir doutorar-se para Londres; lembro-me de me mandar outro email a dar a notícia de que tinha sido aceite no Empirial College (sic).

Portanto, afianço que este rapaz é perfeitamente capaz de escrever que o Paulo Portas foi “cunivente” (assim, com “u”) com o Santana Lopes. E escreveu-o, de facto, nos comentários no dito blogue colectivo. O administrador do respectivo blogue, dono de uma mente perversa e pelos vistos admirador do ex-líder do PP, é que viu no “cunivente” uma insinuação torpe. Vai daí envolveram-se numa discussão, que envolveu comentários apagados, tendo ao que consta o simpatizante de Paulo Portas feito ver ao nosso rapaz que certo tipo de assuntos, pessoas e comentários políticos (não necessariamente o do "cunivente") não eram “próprios" para serem abordados naquele blogue. O meu amigo resolveu então em boa hora abandonar um blogue tão rasca e passar a escrever com mais regularidade no seu próprio, que se passou a designar Homem à beira de um ataque de nervos. E tudo isto valeu a pena, porque como eu referi conheço este meu colega há uns dez anos e creio que foi a primeira atitude de adulto que alguma vez o vi tomar.
Estou a referir-me, como já se aperceberam, ao Luís Oliveira, que punha a cabeça em água aos autores e comentadores do Blogue de Esquerda (e do Aspirina B), que numa mesma postagem assinava diversos comentários contraditórios com identidades diferentes. Ao D. João e a Máscara. Ao Cona Verbosa, comentador compulsivo que "precisa dos blogues como do oxigénio para respirar", como lhe chamou o Bombatómica. Luís: vê lá se dás menos pontapés na gramática. E ilumina-nos. Make our days.

2006/12/20

Blogomaratona sobre Carl Sagan

Passados dez anos sobre a morte do distinto professor de Astronomia e divulgador da ciência. Aqui.