2006/11/14

A diferença entre um quiosque e a blogosfera

Indispensável igualmente o artigo de Pacheco Pereira no Público na passada quinta feira. Fica aqui um extracto.

Ah! Diz-me uma voz, mas estás a misturar tudo! Pois estou, é como fazem os que falam dos blogues misturando tudo, como Miguel Sousa Tavares e Eduardo Prado Coelho fizeram recentemente para se defenderem (o que é legítimo) de acusações e falsificações anónimas. É verdade que os jornais e revistas têm responsáveis e não são como as cartas anónimas, ou os blogues que funcionam como cartas anónimas, mas quando os primeiros transcrevem os segundos ficam iguais. No caso do Miguel Sousa Tavares, o que falhou foi a imprensa tradicional, que aceitou citar fontes anónimas, sem um julgamento de mérito. A notícia não é que um blogue anónimo acuse Miguel Sousa Tavares de plágio, a notícia é que Miguel Sousa Tavares cometeu plágio, se o tivesse cometido, e aí o autor da notícia devia fazer o seu próprio julgamento e só publicar caso esse julgamento fosse que sim. Não sendo, o blogue é como uma carta anónima, incitável e inaceitável. Foi isso que falhou e hoje em dia falha cada vez mais, porque a comunicação social escrita precisa de pretextos para violar as regras de que se gaba como sendo distintivas e, na Internet, encontra-os com facilidade, entrando depois facilmente na selvajaria. Está lá no computador, para milhões verem, por isso está "publicado", logo posso citar e levar a sério, sem ter responsabilidade.
O mal não está nos blogues em si, está na nossa incapacidade para ler e escrever blogues, como para ler e escrever jornais com uma decência mínima. O problema é mais comum do que se pensa, embora seja verdade que as pessoas se sentem mais impotentes para se defenderem da Internet do que no mundo da comunicação social tradicional, mas o que é crime cá fora é crime lá dentro.
Mas a reacção aos blogues, selvagens, inúteis, desviadores da atenção, perdulários do nosso tempo, oculta-nos muita coisa de interessante que está a passar-se diante dos nossos olhos e que não percebemos porque os vemos tão misturados como o Jornal do Crime está com o PÚBLICO no quiosque de jornais, ou como se o PÚBLICO para falar de ciência citasse o Guia Astrológico como fonte. Os blogues são apenas uma das pontas do mundo novo em que já estamos, uma pequena ponta, mas tão reveladora que mesmo estes episódios lesivos de Miguel Sousa Tavares (acusado de plágio) e de Eduardo Prado Coelho (que tem um texto falso a circular na Rede) são dele sinal. Ora nunca ninguém disse que era o Admirável Mundo Novo, a não ser os utopistas que pensam que as tecnologias mudam o mundo sem o pano de fundo das sociedades onde elas existem.

2006/11/13

Tão boas séries, tão má televisão

Tanto elogio os artigos do João Miguel Tavares que há-de chegar sempre um dia com um contraexemplo. Esse ocorreu na semana passada, com o artigo Tão boas séries, tão má televisão, onde contrapõe a (falta de) qualidade das séries do horário nobre dos nossos canais de sinal aberto com a excelência das do canal americano HBO. Mas antes de entrar em comparações infundadas, convém perguntar ao João Miguel duas coisas. Saberá ele que o canal HBO é de subscrição paga (e bem paga)? Conhecerá ele a programação dos canais americanos de sinal aberto durante o horário nobre? Só esta pode ser comparada, e não fica muito longe da portuguesa. Lá como cá, quem quer boa televisão paga-a.
A única coisa que a televisão portuguesa tem má (muito má) é o total incumprimento de horários, directamente relacionado com a extensão absurda dos telejornais. Tudo estratégias de contraprogramação. Aí, sim, temos um bom retrato do país que somos.
Fossem os horários cumpridos e eu não me importaria nada que as boas séries (como as da HBO) dessem às três ou quatro da manhã. Hoje em dia um videogravador já não se pode considerar um luxo.

2006/11/12

Uma viagem à Palestina

Passada a fase ultra-buarqueana, é altura de ler o que ficou por ler. Do mais recomendável que ficou por referir foi o relato da viagem à Palestina do Daniel Oliveira. A ler de uma ponta à outra. Deixo aqui dois extractos.

Jerusalém é um bom retrato (exagerado) do que está a acontecer à sociedade israelita (e à árabe, e à americana...). Os ortodoxos tomaram conta da cidade. Reproduzem-se a um ritmo alucinante, compram ruas inteiras, fecham ruas ao sábado, apedrejam quem se atreve a conduzir naquele dia e, paulatinamente, vão comprando todas as casas numa guerra de posições. (...) Alguns ortodoxos limitam-se a receber dinheiro do Estado para não fazer nada a não ser ler os textos sagrados. As mulheres de outros são obrigadas a rapar o cabelo depois de casar e usam peruca no seu lugar. Recentemente, um representante dos ortodoxos na municipalidade quis proibir homens e mulheres de viajarem no mesmo lugares dos transportes públicos. Se alguém tomasse esta gente por legítimos representantes dos judeus, toda a gente se indignaria. Com justiça. Só que quando se toma a minoria fanática islâmica pela voz dos muçulmanos, toda a gente acha normal. (...)

[Em Gaza] Com o encerramento das fronteiras, a maquinaria para fábricas não entra e não há investimento possível. Quando chegam ao mercado os custos de transporte representam o dobro dos custos de produção. Depois de verificados ao milímetro, e esperarem durante dias no porto israelita de Ashdod (os palestinianos têm de pagar a espera), os produtos só podem ser transportados por empresas israelitas certificadas. Elas aproveitam o monopólio e inflacionam os preços. Depois, em princípio, ficam semanas ou meses à espera na fronteira, ao sabor dos humores do oficial de serviço. Se forem perecíveis, já nem vale a pena saírem de lá. Os produtos de consumo de produção israelita entram, claro. Há que fazer negócio. Os preços são muito mais altos do que em Israel e os salários infinitamente mais baixos. O pouco que os palestinianos ainda conseguem produzir para exportação só sai depois de apodrecer. O funcionamento do porto em Gaza seria uma grande ajuda para os palestinianos. Mas os israelitas não permitem que ele reabra. Entre as duas partes dos territórios (Gaza e Cisjordânia) praticamente não existem movimentos comerciais possíveis.
Como ninguém entra ou sai, o investimento externo é uma miragem. Ninguém quer empatar dinheiro com tanto risco se nem pode ter contacto com o seu negócio. Os empresários de Gaza não podem ir a reuniões no estrangeiro, tratar de negócios. Estão presos. Um gestor explica-me: «Israel retirou mas continuamos ocupados, muito pior do que antes, estamos aqui presos e condenados à miséria. Somos pessoas educadas, preparadas para os nossos negócios. Não precisamos de caridade. Apenas queremos que nos deixem trabalhar.»
Há sete meses que os funcionários públicos de Gaza e da Cisjordânia não recebem um tostão. É Israel que colecta os impostos dos palestinianos. Desde que o Hamas ganhou as eleições que fica com eles. São dois terços do Orçamento da Autoridade Palestiniana que Israel rouba e usa para seu proveito. Só os médicos recebem: 300 dólares por mês. O resto, de professores a polícias, nada. Num território com mais de 3500 pessoas por quilómetro quadrado, o poder está na rua. Não há dinheiro mas não faltam armas. Estão três mil para entrar. E os EUA fazem pressão junto de Israel para que autorize. Quer armar a Fatah para uma provável guerra civil que se avizinha. Assim como quer que entrem mais homens para engrossar a guarda pretoriana do Presidente Abbas. A Europa (que paga tudo, das infra-estruturas que os israelitas se divertem a desfazer às ajudas ao governo) descobriu o ovo do Colombo. Vai criar um regime extraordinário em que o dinheiro é entregue directamente aos funcionários, através de bancos, sem passarpelo governo. Outra parte do dinheiro irá directamente para pagar a electricidade e água que Israel fornece à Palestina. Fica-lhes com os impostos e cobra-lhes pela energia.

2006/11/11

O concerto - conclusão

É mesmo verdade que Chico não parece sentir-se muito à vontade num concerto. Está sempre retraído, não se mexe. Mas comunicou com o público.Infelizmente o Chico do século XXI não consegue escrever clássicos como os de entre os anos 60 e 80. Chico nunca se enganaria a cantar um clássico, mas esqueceu-se da letra da “Ode aos Ratos”. Mais vale Chico concentrar-se nos clássicos. O público que esgotou o Coliseu seis noites em Lisboa fica à espera de um regresso.

2006/11/10

Algumas estatísticas do concerto

Todos os temas têm a assinatura do Chico Buarque, excepto Sem Compromisso.
O concerto baseou-se em canções do mais recente álbum Carioca e dos anos 80.
Clássicos dos anos 60, só Quem Te Viu, Quem Te Vê. Dos anos 70, Mambembe, Tanto Mar e João e Maria. Os clássicos ficaram ou para a introdução, ou para o encore. Os anos 90 também ficaram reduzidos a Futuros Amantes.
Exceptuando Carioca, o álbum de originais mais representado no concerto foi Vida, com quatro temas. Do Grande Circo Místico saíram três temas. De Uma Palavra saíram cinco canções, mas este é um álbum de versões (com arranjos semelhantes às que foram cantadas). Do álbum ao vivo em Paris também saíram cinco canções.

Para a posteridade

Fica aqui o registo de uma noite inesquecível.

Mambembe
Dura na Queda
O Futebol
Morena de Angola
Renata Maria
Outros Sonhos
Imagina
Porque Era Ela, Porque Era Eu
Sempre
Mil Perdões
A História de Lily Braun
A Bela e a Fera
Ela É Dançarina
As Atrizes
Ela Faz Cinema
Eu Te Amo
Palavra de Mulher
Leve
Bolero Blues
As Vitrines
Subúrbio
Morro Dois Irmãos
Futuros Amantes
Bye Bye Brasil
Cantando no Toró
Grande Hotel
Ode aos Ratos
Na Carreira

Encore:

Tanto Mar
Quem Te Viu, Quem Te Vê
João e Maria
Sem Compromisso
Deixa a Menina

2006/11/09

Encore

Aqui o meu show de karaoke foi completo, do princípio ao fim. Começou com Tanto Mar, segundo Chico uma “música antiga que marca a minha relação com Portugal”. A versão cantada foi a de 1975, a do “Sei que estás em festa, pá”. Não sei se já não disse isto, mas Chico não muda mesmo. E é muito bom. Foi por mim entoada em plenos pulmões.
Quem Te Viu, Quem Te Vê foi cantada com a delicadeza que a sublime letra exige:
Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria
Quero que você assista na mais fina companhia
Se você sentir saudade, por favor não dê na vista
Bate palmas com vontade, faz de conta que é turista
João e Maria é presença habitual no final dos concertos de Chico. E quando tudo parecia que ia acabar, eis que regressa ao palco para acabar em beleza com Sem compromisso e Deixa a menina. Por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz. Era meia noite e o samba estava quente. Ficámos por ali, à espera de mais.

Na carreira

Uma boa escolha para o final de espectáculo.

Ode aos ratos

Uma das melhores músicas recentes de Chico e Edu Lobo. A letra, porém, nem sempre é muito natural, e não entra logo no ouvido, uma característica do Chico século XXI. Isso mesmo foi confirmado pelo próprio Chico. A certa altura era suposto ouvir-se qualquer coisa como

Rato de rua
Aborígene do lodo
Fuça gelada
Couraça de sabão
Quase risonho
Profanador de tumba
Sobrevivente
À chacina e à lei do cão


Mas não se ouvia cantar nada: só a música. Chico encolheu os ombros e só largou um “esqueci”, sem se desmanchar. A música continuou e Chico retomou no refrão. Mesmo assim considero este episódio bastante significativo.

Grande hotel

Uma parceria com o baterista Wilson das Neves que, apesar da idade, ainda deu um passinho de dança e mostrou estar bem em forma. O desengonçado Chico nem tentou acompanhá-lo: mal se mexia. Pouco antes ocorrera um remoque ao João Miguel Tavares: “li nos jornais que eu não falo com o público, que eu nem me mexo”… Chico justificou-se com os fones, que poderiam cair.

Futuros amantes

Uma bela canção de amor, melhor que o “Eu Te Amo”. Mais simples, mais directa, mais convincente. Claro que a cantei toda: “Não se afobe não que nada é para já, amores serão sempre amáveis…” De 1993. Carioquíssima, tal como as anteriores, “Subúrbio” (de 2006) e “Morro Dois Irmãos” (de 1989).

As vitrines

Uma presença habitual nos concertos de Chico (ou pelo menos nos discos ao vivo). Umas vezes ele canta “captando a poesia que entornas no chão”; outras, como ontem, “catando”. Eu sei que se a poesia é entornada no chão, é mais lógico ser “catada”. Mas eu prefiro o “captando”. Catar não é nada poético!

2006/11/08

Eu te amo

Conheço várias pessoas que consideram esta a mais bela canção de amor alguma vez escrita. Não concordo. Quando muito, é talvez a mais carnal das canções de amor, com versos como “se nos amamos feito dois pagãos/teus seios ainda estão nas minhas mãos” ou “se na desordem do armário embutido/meu paletó enlaça o teu vestido/e o meu sapato ainda pisa no meu”. Chamem-me lírico, mas nesta canção o meu verso preferido é mesmo o “meu sangue errou de veia e se perdeu”. É uma canção para relações bem maduras; não é a canção ideal para começar uma relação. Eu deveria ter-me apercebido disso naquele recital de poesia na Casa de Portugal da Cite Universitaire de Paris, quando a recitei do princípio ao fim. Ontem, obviamente, voltei a cantá-la sem me enganar.
Seguiu-se Palavra de Mulher, a única canção da Ópera do Malandro neste espectáculo. Também a cantei toda.

O relato continua amanhã.

Ela É Dançarina

Regresso ao álbum Uma Palavra, de 1995. Também estava particularmente curioso com esta música, escrita em 1981 e que se refere ao ano 2001 no futuro. Sempre julguei que o Chico Buarque nunca mais a cantasse e que ela passasse à história. Afinal enganei-me: na sua primeira digressão no século XXI, Chico não perdeu a ocasião de a cantar. E com a letra inalterável: "no ano 2001, se juntar algum, eu peço uma licença...". Confirma-se: Chico não muda. E é muito bom.
Começou com esta canção o meu karaoke particular. A letra não mudou, como disse, e esta foi a primeira canção que eu cantei do princípio ao fim. Não errei.

A história de Lily Braun

O concerto entrava na sua melhor fase, com uma incursão no reportório do Grande Circo Místico, parceria entre Buarque e Edu Lobo. Esta Lily Braun foi a canção mais dançante. Seguia-se A Bela e a Fera. Antes, a excelente Mil Perdões.

Imagina

A homenagem a Tom Jobim. Imagina foi a primeira composição do “maestro soberano”. Só várias décadas mais tarde Chico viria a escrever a letra. Jobim brincava com a letra: em vez de “abre a porta para a noite passar”, cantava “abre as pernas para eu entrar”. Não pude deixar de me recordar desse facto durante o concerto.

Morena de Angola

Esta era uma daquelas canções que eu aguardava com mais curiosidade. Será que o verso final se mantinha como o original de 1980? Mantinha-se, sim senhor: “Morena bichinha danada, minha camarada do MPLA”. Ah, esse coração encarnado, Chico…
Em resposta a esta canção Caetano Veloso canta em “Língua”: “…e que o Chico Buarque de Holanda nos resgate e – xeque-mate! – explique-nos Luanda!” Luanda continuou por explicar por parte do Chico Buarque. O Chico não muda. E continua muito bom.

O Futebol

Chico teve a feliz ideia de cantar várias canções que incluiu no excelente álbum Uma Palavra de 1995, com arranjos do Luís Cláudio Ramos e gravado com a mesma equipa que o acompanha há anos. A primeira dessas canções, “para delírio das gerais no Coliseu”, foi O Futebol. Boa escolha. Cenário a condizer com a letra.
No final, Chico recordou que tinha um coração encarnado (por várias razões, mas uma delas deveria ser para alegrar a Ana Sá Lopes), mas dedicou a canção… ao Anderson, do FC Porto! Ponto a favor do Caetano, que no velho estádio de Alvalade cantou o Leãozinho com um cachecol do Sporting.

Dura na Queda

A melhor canção do recente álbum Carioca, bem emparelhada com Mambembe, em mais um daqueles encaixes que o arranjador Luís Cláudio Ramos descobre.

O concerto: Chico Buarque, Coliseu de Lisboa, 06/11/06

Segue agora um relato. Para facilitar a leitura, será dividido em várias entradas.

(Toda a informação relativa às músicas está disponível na página do Chico Buarque, em "obra".)

2006/11/07

Uma verdade conveniente


«Do it because the ice is melting in the Arctic, in Greenland and all over the world, and unless we take on the climate crisis soon, we could cross a point of no return.

Do it because the war in Iraq is a disaster, and our brave men and women who are fighting and dying there need an honorable and speedy path home.

Do it because in the wealthiest nation in the world, there are millions of kids who can't go the doctor when they get sick because they don't have health care.

Do it because President Bush and this Congress have chipped away at our fundamental rights-rights guaranteed every citizen-that make our country a beacon of freedom. Do it because our government shouldn't be able to wire-tap innocent citizens without a warrant.

Do it because of Abu Ghraib. Do it to tell the world that America won't sanction torture-and we fire the politicians who do. That's the real no-brainer.

Do it because five years after September 11th, President Bush and the Republican Congress have made us all less safe.

But most of all, do it because the country we all love needs our help. Our democracy is in trouble. America needs you.»

Mensagem de Al Gore aos membros do movimento MoveOn.

Obrigado Chico!

Mas alguma vez era possível não gostar disto?

Tanto Mar

Amanhã segue-se um relato pormenorizado do concerto.

(Nota: Há mais uma data suplementar. De quatro concertos inicialmente previstos em Lisboa, já vamos em seis. É amanhã. Nuno, não queres apanhar um avião?

2006/11/06

Em estágio auditivo e mental: concentração para o grande evento (5)


Eu te amo e Palavra de Mulher

Finalmente chegou o dia do concerto. E se eu não gostar?

Pouca música ouvia na minha adolescência. Limitava-me a ouvir o que estava nos tops e passava na Rádio Cidade, e nunca fui de comprar discos nem de os receber. Até que, no 12º ano, uma amiga minha me emprestou dois vinis muito antigos (dos pais dela) que viriam a mudar a minha vida: Caetano e Chico Juntos e Ao Vivo e Chico Buarque e Maria Bethânia ao Vivo (o gravado em Portugal, com Tanto Mar cantada). Nunca me fartei de os ouvir até entrar para o Técnico, onde outro amigo meu me emprestaria mais vinis dos pais, ainda dos anos 60 e 70 (com A Banda lá metida). De seguida emprestou-me uma cassete com uma colectânea que incluía O Que Será, Construção e Vai Passar. Outra colega emprestou-me uma cassete com o concerto ao vivo em Paris (mais O Que Será, Vai Passar - finalmente eu percebia esta espantosa letra - e ainda João e Maria).
O meu amigo e ex-colega de blogue André finalmente abriu-me os horizontes para o Caetano Veloso no quarto ano de curso. Mas o importante é que durante quatro anos da minha vida eu praticamente só ouvi Chico Buarque. (Graças ao André, os quatro anos seguintes foram bem mais diversificados: passei a ouvir o Caetano sem deixar de ouvir o Chico). O Chico foi o meu primeiro ídolo, e ainda hoje para mim não há outro como ele.
Hoje há um concerto do Chico Buarque. Sempre sonhei com um concerto do Chico Buarque em que ele cantasse os clássicos, que eu sei de trás para a frente, para eu poder cantar com ele. Mas pelo que já li na imprensa e vi no YouTube, os clássicos serão reduzidos ao mínimo. Para além de se basear sobretudo no último álbum, o concerto vai buscar temas dos anos 80, sobretudo parcerias com Edu Lobo.
Só vi uma vez o João Gilberto ao vivo, em Nova Iorque, no Carnegie Hall. É provável que não volte a ver o João ao vivo, mas o concerto foi perfeito. Tudo o que eu queria. Tudo o que se podia querer.
Tenho receio de que este seja o último concerto do Chico Buarque em Portugal, como escreveu o João Miguel Tavares. E que não seja este o concerto que eu queria.
Hoje vou finalmente a um concerto do Chico Buarque. Há muitos anos que ando à espera deste momento. E estou nervoso como um caloiro que vai fazer um exame ou um virgem que vai ter relações sexuais. E se eu não gostar? Fará mais alguma coisa sentido?

A crónica do blasfemo pasmado

Dois blasfemos ao almoço ficaram muito admirados pelas cheias que nos últimos anos têm repetidamente assolado Portugal, cada vez com maior frequência. Mas nós julgávamos que naquele blogue sabiam tudo sobre o assunto. Que era tudo absolutamente normal e esperado, não tendo nada a ver com a actividade humana. E afinal julgavam que era só lá nos EUA, o Gore e o Katrina... Ou na Amazónia. Mas não em Portugal, país "de clima ameno". Face ao cenário dos últimos dias, entreolham-se, pasmados, no intervalo do repasto, e encolhem os ombros, admirados: "Que país este!"
Espero que tenham feito bom proveito. Entretanto já experimentaram ler o relatório Stern? Não leiam só o vosso blogue! Experimentem ler por exemplo aqui.

2006/11/05

Em estágio auditivo e mental: concentração para o grande evento (4)


Sem compromisso (de Geraldo Pereira e Nelson Trigueiro) e Deixa a menina. Como no CD ao vivo em Paris (1989), só que sem Mestre Marçal, entretanto falecido. Dedicado ao Nuno, que bem gostaria de ir ver o concerto se por cá andasse.

Ir ao concerto desta vez como se fosse o último

Um artigo de João Miguel Tavares, excelente como sempre, que exprime exactamente como eu me sinto e que transcrevo aqui na íntegra. Tiro a limpo amanhã à noite no Coliseu de Lisboa.

Chico Buarque em Portugal, "para ver antes que acabe"

João Miguel Tavares

Há ideias que já fazem parte da mitologia buarquiana. Ideias como "Chico Buarque é um homem tímido" ou "Chico Buarque não gosta de estar em cima de um palco". Mas o músico que se vai apresentar em Portugal a partir de hoje, para uma série de nove concertos (ver caixa), é um homem diferente daquele que actuou pela última vez em Lisboa, há 13 anos. O Chico século XXI já se move à vontade entre jornalistas, desprende charme com a precisão de um relojoeiro e dos espectáculos ao vivo chega mesmo a dizer: "Já sinto um certo prazer."

Chico não vinha a Portugal (para cantar, bem entendido) desde o disco Paratodos (1993), já que a digressão que se seguiu ao álbum As Cidades (1998) só atravessou o Atlântico em DVD. Agora veio, e, pelo que se conclui diante da abundância de salas cheias, muitos milhares continuam à sua espera. Aliás, fizeram- -lhe essa pergunta na conferência de imprensa de quinta-feira, no 19.º andar de um hotel de luxo lisboeta, junto às Amoreiras : "Como explica esta enchente de concertos em Portugal?" Ele respondeu: "Acho que as pessoas pensam: 'É melhor ver antes que acabe.'" E depois disto soltou uma longa gargalhada, embora sem explicar se tanto riso se deveu a ter achado a ideia absurda ou, pelo contrário, absolutamente plausível. Eu voto plausível.

Por isso, se alguém procura um conselho, os bilhetes são caros mas valem o investimento. O que se vai poder ouvir é: todas as 12 canções do seu novo álbum, Carioca; um tema de abertura de concerto retirado do espólio da melhor música brasileira - Voltei para Cantar, de Lamartine Babo; um alinhamento de mais 16 canções compostas sobretudo nas décadas de 80 e 90; entremeado de uma ou outra pérola escondida e nunca apresentada ao vivo, como Mambembe, de 1972; e ainda espaço no encore para clássicos como Sem Compromisso, Deixe a Menina ou Quem te Viu, Quem te Vê; e a despedida de cena ao som de João e Maria, esse notável hino surrealista para criancinhas.

Se for como no Brasil vai ser assim, e tendo em conta o rigor - há quem lhe chame rigidez - de Chico em palco não deve haver grande lugar para improvisações. Aliás, os ecos menos simpáticos da imprensa brasileira a propósito do novo show do cantor criticam precisamente os arranjos conservadores - da responsabilidade do seu velho cúmplice Luiz Cláudio Ramos -, a ausência de uma nesga que seja de improvisação e as poucas falas de Chico em palco. Portanto, se alguém quiser fazer Carnaval, convém procurar outro brasileiro.

Mas as mesmas críticas também admitem que os concertos de Chico acabam sempre da mesma maneira: público de pé, chuva de palmas, plateia em delírio. É inevitável: a mitologia buarquiana supera as suas próprias limitações. Chico é Chico, independentemente de já ter assinado discos mais inspirados, de já ter composto canções mais perfeitas, de já ter sido mais livre e sonhador, de já ter tidos os olhos mais verdes e a pele menos enrugada. Chico é Chico. É melhor ver antes que acabe.

2006/11/03

Em estágio auditivo e mental: concentração para o grande evento (1)



O que será, O futebol, Ela é dançarina, Mambembe e Dura na queda (do último álbum, Carioca).

Lula de novo com a força do povo


Atendendo ao simpático convite, hoje podem encontrar-me no Cinco Dias.

2006/11/02

Pós Halloween, pós Todos-os-Santos

Terça à noite Lisboa estava cheia de adeptos de futebol às riscas horizontais verdes e brancas. Eram os chamados "leões de Lisboa", mas não são leões nem de Lisboa. Faziam uma grande festa.
Ontem à noite estavam mais caladinhos.
A festa dos verdadeiros leões de Lisboa, de verde e branco equipados, ainda está para vir.

2006/11/01

Pós Halloween, pós Père Lachaise

É altura de recordar mais uma vez uma série de televisão da minha predilecção, também ela defunta. Já o tinha feito há dois anos, só com som. Agora, graças ao YouTube, posso mesmo ver o vídeo todo! Vejam pelo menos os primeiros dois minutos e meio.

2006/10/31

O estado português e o estado checo

Não tenho propriamente pena dos estudantes de Medicina portugueses a estudarem na Universidade Charles, em Praga, na República Checa. Dou-lhes os parabéns pelo espírito de iniciativa e por terem sido acolhidos por uma das melhores universidades europeias. Muito provavelmente, adquirirão uma formação melhor e serão muito melhores profissionais do que se fossem formados numa universidade portuguesa – falo a sério. Tive colegas checos e eslovacos no meu doutoramento e pude verificar a excelência da sua educação – durante o período comunista, numa universidade pública, é bom que seja dito. Depois da democratização da sociedade a excelência da Universidade foi preservada, e o seu estatuto também – pública. Do Estado. É por isso que leio com um sorriso quem – como o André Abrantes Amaral – aproveita esta oportunidade para criticar “o Estado”, mais uma vez. Será que o André não sabe que aqueles estudantes estão numa Universidade “do Estado” (checo – é claro)? Será que o André não vê que o problema não está “no Estado” – o problema está em Portugal, nos portugueses e no seu corporativismo?

2006/10/30

António Lobo Antunes: relato de uma visita a Israel

Extracto de uma entrevista à Pública de ontem:

R.- O horror do aeroporto. A bagagem, o interrogatório. Mostrei a carta a explicar por que ia lá, mesmo assim continuaram, os livros eram vistos página a página... Depois o clima permanente de medo. Depois a sensação de que aquele Estado foi criado sobre o ódio. O ódio dos alemães. O Holocausto, sempre, sempre, sempre. Levaram-me a um bairro alemão. E eu perguntei ao senhor que estava sempre comigo: "Então e os alemães?" "Ah, isso corremos com eles todos."
Como me chocou, por exemplo, dizerem que não tinham relações sexuais com não-judeus.
P.- Mas quem é que lhe disse isso?
R.- Esse senhor. E não foi só ele. Como me chocou, por exemplo, se sou judeu posso ir para lá morar, mas se sou judeu etíope só aceitam 300 por ano. Como me chocaram os sábados, aquilo tudo deserto, com os carros que não se podem guiar. E depois não era nada do que eu esperava, pensava que a Terra Prometida fosse muito bonita. São pedras e areia. Tudo amarelo...

Noutra parte da mesma entrevista:
P.- Quando ganhou o Jerusalem Prize, no ano passado, hesitou antes de ir?
R.- Não. Porque vinha acompanhado da garantia de que eu podia chegar lá e dizer o que quisesse em relação ao problema palestiniano, que me indigna muito. E não falei sobre isso.
P.- Mas porque não quis.
R.- Não quis ser indelicado. Era um convidado. Naqueles dias era a pessoa mais importante que lá estava. Tinha aquela segurança toda, o primeiro-ministro... Não quis. Achei que era indelicado. E achei que não era altura. Falei sobre isso com um amigo meu, o Amos Oz. E não gostei da posição que ele agora tomou, pró-guerra [no recente confronto entre Israel e o Hezzbollah libanês]. Nem entendo. Somos amigos, gosto muito dele.

Não esperava que um homem polémico como António Lobo Antunes padecesse do mesmo mal português tão comum que é o evitar conflitos a todo o custo (sem se aperceber de que muitas vezes assim se geram os maiores problemas). Desde quando é que expressar uma opinião sobre um assunto é indelicado? É claro que há formas indelicadas de expressar uma opinião, e isso eu compreendo que Lobo Antunes evite, principalmente sendo um convidado. Agora, não a exprimir de todo? Preferir calar-se para "não arranjar problemas" (para si mesmo), mesmo se esses problemas existem (e se muita gente em Israel os denuncia)? Preocupar-se mais consigo mesmo do que com os mais fracos? Não querer afrontar os poderosos?
O que me impressiona mais é que quem toma esta atitude é um escritor que, em Portugal, não tem papas na língua (a entrevista à Pública é só um exemplo). Subserviente fora de casa; em casa, dá-se ares de muito bravo. "Na guerra és vil, na cama és frouxo", já cantava o Chico Buarque do português de Calabar. Há atitude mais portuguesa que esta? António Lobo Antunes merece ser nomeado para o título de "português mais português".

2006/10/29

Voto no Lula (II)

Um sindicalista fala de um ex-sindicalista. E diz tudo:

“Volta a apoiar Lula da Silva nas presidenciais brasileiras de amanhã?”

Manuel Carvalho da Silva, secretário-geral da CGTP, responde (na revista “Notícias Sábado” de 30 de Setembro):

“Sim! O Brasil ficou menos desigual; o FMI deixou de definir a sua política; Lula devolveu presença qualificada do Brasil e da América Latina na cena internacional; com a sua iniciativa e as alianças que estabeleceu, os países pobres passaram a ter uma voz mais forte.”

2006/10/28

Peter van Nieuwenhuizen e os cálculos da supergravidade


Peter foi um dos inventores da supergravidade, na vila de Stony Brook, em Long Island (Nova Iorque), passam agora 30 anos. As teorias da supergravidade representam a extensão supersimétrica da relatividade geral de Einstein, tendo sido pioneiras na unificação da gravidade com as outras interacções. O limite de baixas energias das teorias de supercordas é uma teoria de supergravidade.
Em Paris Peter recordou a história, que envolveu muitas noites e muitos cálculos. Um empreendimento gigantesco e uma das grandes conquistas do espírito humano, reconhecida com a medalha Dirac e o prémio Heineman para os seus protagonistas. Peter trouxe consigo de Stony Brook os exemplares originais de alguns cadernos contendo os cálculos da supergravidade, objectos míticos e recheados de histórias para um aluno de doutoramento naquela universidade. No seu seminário transpareceram o entusiasmo e a energia que tornaram Peter reconhecido entre os seus pares de todo o mundo, dos EUA à Rússia então soviética.
Foi bom reencontrar em Paris um dos meus grandes mestres e verificar que continua sempre em forma.

2006/10/27

O Père Lachaise e as vaidades

Há então duas categorias nos cidadãos enterrados no cemitério Père Lachaise: os cujo túmulo vem assinalado nas plantas distribuídas, e os cujo túmulo não vem assinalado (a grande maioria). Mas como referi anteriormente, os túmulos das celebridades estão sempre rodeados por uma grande porção de gente. É interessante a comparação: será que os túmulos assinalados no guia são os que têm mais guias? Nem por isso. Vi muitas celebridades cujos túmulos não tinham ninguém a vê-los. Mas vi mais. Vi também o oposto: túmulos de gente que não era muito famosa (pelo menos para mim) rodeados por multidões. Como é o caso da jovem Edith da fotografia, que tinha mais gente à sua volta do que a Piaf. Uma vez mais os gostos do público e do “júri” não coincidem, como sucede muitas vezes nos concursos televisivos.
Fiquei curioso por saber quem seria a tal Edith, cuja campa era objecto de peregrinação. Segundo descobri, tratava-se de uma jovem cantora morta precocemente. Pode não ter para já (e duvido que alguma vez tenha) o seu nome no guia do cemitério. Mas fãs mais dedicados do que os seus eu não vi.

2006/10/26

Père Lachaise

Em França, e especialmente em Paris, pode encontrar-se muito que nos parece déjà-vu, quiçá démodé, mas que é pioneiro. E esse papel histórico ninguém pode negar aos franceses: foram eles que inventaram muita coisa que hoje nos parece bien connue, vulgar e corriqueira, mas que não havia... antes de eles a terem inventado. Só que em França tudo é vistoso e por vezes mesmo exagerado; tudo tem de ser épatant. E não há nada mais épatant do que o cemitério do Père Lachaise.
O cemitério do Père Lachaise, no vingtième arrondissement, é um autêntico museu dos mortos e dos túmulos. Sobretudo dos túmulos, que constituem o mais espectacular que o cemitério pode oferecer ao visitante anónimo. Há ali túmulos que são obras-primas da arquitectura, ou da escultura.
Não é porém isso que torna este cenitério tão conhecido. A principal razão por que este cemitério é tão famoso e visitado, estando sempre cheio de turistas e vindo mesmo nos guias, é a quantidade de gente famosa, francesa e não só, das letras, das artes, da ciência, da política, que lá está enterrada, de Edith Piaf a Jim Morrisson, de Pissarro a Oscar Wilde. Os túmulos destes famosos são em geral reconhecíveis por estarem rodeados por uma pequena multidão. Fui-me aprecebendo disso até que, usando este mesmo critério, cheguei a um túmulo desconhecido. Antes de que eu me pudesse aperceber fosse do que fosse, um dos membros da turba pediu-me desculpa, mas disse-me que se tratava de uma “cerimónia privada”. Nem me tinha apercebido de que havia gente a rezar. No cemitério do Père Lachaise também há gente vulgar. A gente é que, rodeada por tanta história, tanta arquitectura, tanto design e tanta fama, até se esquece disso.

2006/10/25

Cláudio Tellez, um português livre

Surgiu um novo “blogue do não”, desta vez associado ao referendo da despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Dando a cara pelo “não”, encontramos algumas das figuras mais esperadas, conhecidas na blogosfera conservadora portuguesa. Alguns dos blogues onde estes autores escrevem são explicitamente referidos como “blogues alinhados”. Sem nenhuma surpresa encontra-se entre os autores o nosso bem conhecido André Azevedo Alves, cujo “liberalismo” só é válido para questões económicas. Mas curiosamente o Insurgente, que devido à obra do AAA é o blogue português mais proselitista, não surge como um “blogue alinhado”. Querem ver que o “colectivo insurgente” afinal é colectivo, existindo respeito pelas posições individuais de cada membro? Quem será então o (ou “os”) insurgente(s) a favor da despenalização do aborto?
Outro insurgente que dá a cara pelo “não” é Cláudio Tellez, um matemático católico chileno radicado no Rio de Janeiro e conhecido pelas suas posições abonatórias relativamente a Augusto Pinochet. Eu não quero de forma nenhuma pôr em causa o direito do Cláudio ou de um cidadão de qualquer outra nacionalidade de participar no debate sobre esta questão: mesmo se este debate diz respeito à situação portuguesa, a questão do aborto é universal, e é enriquecedor comparar com experiências de outras paragens. O estranho é que o “blogue do não” se autointitula “um blogue de portugueses livres”! Já sabíamos que o conceito de “liberdade” para os nossos liberais é bastante bizarro, e os “portugueses livres”, de acordo com o conceito de liberdade deles, são (felizmente) muito poucos. Mas serão assim tão poucos os “portugueses livres” que dizem não à despenalização do aborto que, para fazerem um blogue, até têm de chamar “português livre” a um chileno simpatizante de Pinochet? A menos que haja alguma ligação entre o Cláudio e Portugal que eu não conheça. Em qualquer dos casos eu gostaria de perguntar ao “português livre” Cláudio Tellez: ó pá, qual é o teu prato de bacalhau favorito?

2006/10/24

De volta o véu islâmico

A questão do véu islâmico volta a estar na ordem do dia, desta vez por causa das declarações do ex-ministro britânico Jack Straw e da decisão de uma escola suspender uma professora que insistia em dar aulas com a cara totalmente coberta, uma decisão mais tarde confirmada pelo tribunal.
Como bem afirmou Romano Prodi, primeiro-ministro italiano, quando falamos com uma pessoa queremos vê-la olhos nos olhos. Não queremos que ela se esconda. “É uma questão de bom senso.” Será assim tão complicado perceber?
Convém esclarecer que não considero que a proibição do véu islâmico nas escolas públicas seja uma discriminação de nenhuma espécie. A ostentação do véu é que é uma discriminação que a mulher islâmica se auto-impõe (ou, na maioria dos casos, lhe é imposto pela sua comunidade). Tal como o uso da kippah por parte dos judeus. Mas nas escolas públicas tais ostentações não são aceitáveis (tal como não são aceitáveis os símbolos católicos como o crucifixo). Uma das funções essenciais da escola pública é ensinar que a religião deve ser uma opção livre do cidadão, que não deve ser imposta pela sociedade e nem pela família. Diz-se que o véu islâmico faz parte da “identidade” destas mulheres. Nada mais perigoso e, isto sim, atentatório contra a liberdade individual. É um papel essencial da escola pública ensinar que a religião é uma escolha própria que deve ser livre e que não pode nunca e sob nenhuma circunstância servir para “definir” a identidade do indivíduo perante o Estado ou perante a sociedade. A escola pública não pode ser neutra nestas matérias; se fizer concessões neste aspecto, com que moral se rejeitará o ensino do criacionismo? Este é um assunto da maior importância.

2006/10/23

Cidade das ciências e da indústria


A Cité des Sciences et de L’Industrie de Paris fez no fim de semana passado 20 anos. Aproveitei para a visitar por dentro pela primeira vez e deliciar-me com uma demonstração experimental da curva de Gauss com graves em queda em direcção aleatória, simulações de movimento browniano, o caos determinista num simples moinho de água... Pude ainda prever as velocidades de escoamento de fluidos conforme o formato do recipiente, fazer experiências de acústica e óptica... Tudo isto eu mesmo. Com as minhas próprias mãos.
O conceito deu origem a iniciativas como a do Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, associado ao programa Ciência Viva. Só é pena que se a Cité des Sciences et de L'Industrie é hoje um dos sítios mais visitados de Paris, o seu equivalente em Lisboa seja muito pouco conhecido. A diferença está na atitude dos públicos. Mas está também em grande parte na programação. A Cité des Sciences et de L’Industrie é um local de referência para a divulgação científica, contando frequentemente com a presença de investigadores franceses a divulgarem o seu trabalho ao público (era só por isso que eu já a visitara antes). Tal não se costuma passar com o Pavilhão do Conhecimento. Globalmente a ciência francesa, para além de ser muito mais competitiva do que a portuguesa, está muitíssimo mais perto do público, sendo por isso mais influente junto da opinião pública. Não digo que os responsáveis do Programa Ciência Viva não façam tudo o que podem para melhorarem a situação portuguesa, mas estes exemplos demonstram que ainda há muito a fazer.

2006/10/22

Até sempre campeão


Schumacher, vamos sentir a tua falta.

2006/10/20

Um blogue também serve para isto

Parabéns, meu caro amigo. Se não fosse eu nem te lembravas de que hoje fazias anos, não era?

Cromos da Cité Universitaire - 3 - a empregada de caixa da cantina


Esta empregada é uma instituição entre os portugueses da Cité Universitaire. É portuguesa, a tuga da cantina. Está nas caixas a receber o dinheiro e dar os trocos. Dava sempre “bonjour”, até que um dia logo ao princípio me disseram que era portuguesa. Desde então comigo passou a “bom dia”.
Às vezes metia conversa com ela. É do Minho. Costuma ir a Portugal em Setembro. No dia das eleições presidenciais perguntei-lhe quem é que ela achava que ganhava. Ela não se mostrava muito interessada: “sei lá, eles são todos a mesma coisa”. Mas se a mesma pergunta fosse feita em dia de Benfica-Sporting, aí a resposta era outra: “Benfica!”, disfarçando um sorriso.
Quando pedi para fotografar o ultratímido empregado de quem falei ontem, ele recusou, e só anuiu muito a custo. Quando pedi para fotografar esta afável minhota, ela aceitou logo, e só me pediu que esperasse um bocadinho para tirar o espelho da mala e se pentear.

2006/10/19

Cromos da Cité Universitaire - 2 - o servente da cantina


Foram vezes sem conta as refeições que este empregado me serviu. Ele e o colega. Sempre com a mesma cara, verdadeiramente impassível. Inalterada. De autómato. O homem atendia-nos automaticamente, todos os dias, uns ao almoço, outros ao jantar, sempre com a mesma expressão inexpressiva.
A teoria do meu colega do Técnico é mais ou menos confirmada: o senhor é notoriamente magro, e os pratos por ele servidos têm geralmente menos comida que os da sua colega referida no texto anterior. Mas com um pormenor que nem toda a gente conhece: ao contrário desta, e mesmo com o aviso, se lhe pedirmos ele não recusa uma colher extra de acompanhamentos. Com a quantidade de comida que é desperdiçada por ficar nos pratos, esta é capaz de ser uma boa solução, partindo do pressuposto que quem lhe pedir a dose extra comerá (como eu) a comida toda. O senhor punha a dose extra. Sempre com a mesma cara.
Na verdade foi graças a este carismático empregado que decidi começar esta série, que se estende até amanhã. E porquê? Primeiro dizia que não me havia de ir embora sem lhe despejar um copo de água em cima, a ver se ele ficava zangado e ao menos punha outra cara. Depois decidi: não, vou é tirar-lhe uma fotografia. E pô-la no blogue. E foi o que eu fiz. Mas, mais uma vez, a fotografia não me saiu como eu queria. É que, ao tirar-lha, ao fim de três anos foi a primeira vez que vi o homem sorrir.

2006/10/18

Cromos da Cité Universitaire - 1 - A servente da cantina



Tenho um amigo meu que tinha a teoria, quando ambos estudávamos no Técnico e almoçávamos na cantina, que, podendo, deveríamos escolher sempre o empregado mais gordo para nos servir. Os empregados gordos, dizia ele, põem sempre mais comida do que os magros.
A teoria desse meu amigo aplica-se à gordinha empregada que vêm na fotografia, no seu trabalho na cantina da Cité Universitaire de Paris. As doses dela são as mais bem servidas de toda a cantina, melhores do que as de qualquer outro empregado. Mas não adianta, ainda assim, pedir-lhe mais comida se se tiver muita fome. O aviso bem está lá afixado (vê-se na fotografia, à direita): não adianta pedir mais do que o que põem no prato. Se mesmo assim insistirmos, na esperança de algum tipo de "gaulês-porreirismo", a resposta que levamos é sempre a mesma: não nos diz nada, olha-nos nos olhos e aponta-nos para o aviso com a colher. Gostaria de ter fotografado este momento.

2006/10/17

O Estado Social ao serviço do utente

Desde 2005 que a cantina da Cité Universitaire de Paris começou a dar prejuízo, algo inédito desde que abriu e incompreensível para uma cantina considerada um modelo (a melhor da Ilha de França, a região de Paris), que fornece um serviço em geral de qualidade muito aceitável tendo em vista os preços praticados. Um serviço que nunca se via nos países anglo-saxónicos (a estes preços) ou em Portugal (com esta qualidade). Esta cantina era um exemplo do Estado Social francês no seu melhor.
No ano lectivo passado tentou “salvar-se” a cantina, recorrendo à receita mais fácil: a redução drástica de custos. Houve alguns empregados antigos afastados (reformados), mas foram substituídos por outros. O problema não era excesso de pessoal.
Onde decidiram reduzir os custos foi no melhor que tinham: na qualidade (e quantidade) das refeições. Mantiveram um menu “barato”, mas com menor quantidade (menos um item à escolha) e muito pior qualidade. A escolha de pratos era mínima e só com um acompanhamento. Simultaneamente criaram um menu de qualidade comparável ao anterior, só que muito mais caro.
O resultado foi que a frequência da cantina baixou ainda mais, para números nunca vistos. Ao jantar tinha uma ocupação de menos de metade do que costumava ter (estimativa minha). Note-se que estamos a falar do único sítio onde todos os estudantes da Cité Universitaire (que não tinham um estúdio, mas um quarto com cozinha partilhada) podia jantar.
Aos fins de semana então o cenário era ainda mais desolador. Em 2004 e 2005, aos domingos, a fila para almoçar o cuscus chegava a ser perto de meia hora. Em 2005/06, o cuscus passou a prato “de luxo”. Para almoçar aos domingos não havia fila nenhuma...
Os mais radicais de entre os “redutores drásticos de custos” passaram mesmo a defender publicamente o impensável: o encerramento puro e simples da cantina. Essa hipótese chegou mesmo a ser discutida, mas não foi aprovada. O que foi aprovado, e era dado como certo no final do ano lectivo passado, foi o encerramento aos fins de semana, por falta de rentabilidade. Tirei mesmo fotografias ao último cuscus que lá comi no ano passado, julgando que era o último cuscus que lá comeria de todo.
Cheguei agora e verifiquei com agrado que a filosofia de redução cega de custos mudou. Embora se mantenha o menu “barato” e o “menos barato”, a qualidade do primeiro melhorou substancialmente, para níveis próximos dos de 2004 e 2005. A cantina continua aberta aos fins de semana e o tradicional cuscus de domingo até passou a ser prato “barato”. Mais: a cantina agora, ao fim de semana, até passou a estar aberta todo o dia! (E não só ao almoço e ao jantar.) O que é que eles concluíram?
Que os estudantes ao fim se demana têm um horário mais flexível. Provavelmente não querem almoçar tão cedo (mesmo se os almoços são servidos todos os dias até às 14:30). Que fizeram então? A partir desta hora, aos sábados e domingos, passam a servir só um ou dois pratos (sempre os mesmos, de carne grelhada). É muito útil para quem, como eu, só chegou do aeroporto depois das três. E fiquei surpreendido com a quantidade de pessoas que encontrei a almoçar a essa hora! A outra redução foi na escolha de pratos do fim de semana: é mais limitada que durante a semana. Mas a cantina continua aberta aos fins de semana, e pelo movimento que lá tenho visto parece-me bem rentável.
Moral da história? Varios. Por um lado, atender às necessidades efectivas dos utentes e não se limitar a uma redução cega de custos é indispensável para a manutenção de um Estado Social. Por outro, esta manutenção tem que ser um objectivo de todos, e exige cooperação de todos. Não acompanhei o processo, mas imagino que os sindicatos mais conservadores não hão-de ter achado graça nenhuma a alguns (pouquíssimos) trabalhadores passarem a trabalhar ao sábado e domingo à tarde (só a cozinhar, servir e vender senhas; os pratos ficam para lavar mais tarde). Ainda bem que chegaram todos a um acordo. E voltei a comer o meu cuscus.

"Derangement syndrome" com a demagogia propagandística da extrema direita

Ando com a cabeça ocupada com outros assuntos e não quero perder tempo com esta gente enquanto estou em Paris, mas tranquiliza-me ver que há mais quem não lhes dê descanso.

2006/10/16

Bienvenu en France

Com o Jacto Fácil cheguei ao Terminal 3 do Aeroporto Charles de Gaulle sem grandes problemas. Uma vez lá, queria apanhar o comboio regional para o centro de Paris, para o qual tinha que comprar o bilhete (8 euros). Para tal havia máquinas automáticas e guichets.
As máquinas automáticas estavam TODAS em panne. Só havia dois guichets abertos (e outros tantos fechados). Havia vários funcionários que se iam revesando, pois não podiam (e não queriam) trabalhar mais do que o que estava estipulado.
Já me tinha esquecido de como era a França...
Para este texto não ficar totalmente "anti-francês", acrescento que a maior parte do tempo dos funcionários dos dois guichets era ocupado a responder às dúvidas de turistas americanos e ingleses. Cada um passava cinco minutos a pôr todo o tipo de questões sobre bilhetes de comboio e passes. Mas aqui a culpa também era dos funcionários, que lhes respondiam em vez de os recambiarem para o guichet de informações, mesmo ao lado, que estava aberto e às moscas.
Quem estivesse atrás que esperasse. E quem (como eu) sabia perfeitamente o que queria (um bilhete para Paris), que desesperasse, que os funcionários não queriam saber e o seu salário ao fim do mês era certo. Desesperar, foi o que eu fiz. Se acrescentarmos ao tempo de espera para comprar o bilhete de comboio o de recolher a bagagem e os 45 minutos da viagem até à Cité Universitaire, digo-vos: sem exagero, demorei mais tempo do Aeroporto Charles de Gaulle à Cité do que do Aeroporto da Portela ao Charles de Gaulle.
O que vale é que estar em Paris é uma festa e compensa tudo. Mas não me retira a vontade de protestar, como um bom francês.

2006/10/15

Parabéns supergravidade!

Sejam os 25 anos, sejam os 30 anos: as comemorações do aniversário da supergravidade são sempre em “minha casa”. A conferência dos 25 anos foi literalmente "em minha casa"; a presente comemoração não se pode dizer que seja na minha “casa” presentemente (já foi). Mas estará sempre nestes dois locais uma boa parte das minhas melhores recordações.

2006/10/14

Teremos sempre Paris. A Cité Universitaire

Regresso temporário a Paris, a partir de hoje, aproveitando uma conferência e as tarifas de uma companhia de baixo custo (eu não posso estar aqui a fazer propaganda; digamos... o Jacto Fácil). Enquanto aqui estiver é provável que adopte um tom mais descritivo (sem ser necessariamente intimista) para o blogue. As polémicas à Blogue de Esquerda ficam para Lisboa; por agora permitam-me que aproveite (escrever no blogue também faz parte) o meu breve regresso a um sítio onde fui feliz.

2006/10/13

Festas académicas (II)

E vejo anunciado o “Arraial do Caloiro” do Técnico. Tudo bem – isto já havia “no meu tempo”. Mas “no meu tempo” os arraiais eram... no Técnico,que tem uma bela alameda para isso! Agora são num armazém nas Docas, em Alcântara!
Para além de perderem autenticidade – o que torna uma festa “do Técnico” é o facto de ocorrer no Técnico; nas Docas faz-se qualquer festa! -, o Técnico perde assim outra característica sua, das mais genuínas, e de que eu tinha saudades quando estava fora. Uma vez em cada semestre, tinha-se um Super Arraial. Assistia-se à montagem do palco e aos preparativos, e por vezes a concertos memoráveis, como um dos Xutos. E o principal: mesmo que o arraial fosse na sexta-feira à noite, na semana seguinte o Técnico todo ainda cheirava a cerveja e a vomitado. É uma pena que já não seja assim.

Festas académicas (I)

Vejo anunciada uma “festa Erasmus” em Lisboa, algo que eu só estava habituado a ver em Paris e que não havia quando eu era estudante aqui. Ainda bem: tal sigifica que as nossas universidades se tornam mais cosmopolitas e atractivas para alunos estrangeiros. Achei graça ao pormenor de a festa ser patrocinada pelo “Licor Beirão”. Será que no meio da festa (destinada essencialmente a estudantes estrangeiros, que pedirão vodka e whisky) vai aparecer o Zé Diogo Quintela vestido de campino a perguntar “vocês são portugueses ou são camones”?

(Quem não perceber este texto veja aqui e aqui.)

2006/10/12

O último IDS da semana

Na verdade não tenho especificamente um IDS; tenho um “derangement syndrome” com a extrema direita em geral. Mas vamos então a isto.
Já “agradeceram” ao André Azevedo Alves a presença de Salazar na lista dos “grandes portugueses” para a RTP? Saibam que tal presença muito se deve às suas diligências de obreiro extremoso e extremista. Ficamos assim a saber que para o André Azevedo Alves a omissão de Salazar da referida lista é “gritante”. De vez em quando, depois de se queixar dos desvios “centristas” do actual líder conservador, o AAA recorda-nos que existem alternativas à direita no Reino Unido. Já a subida da extrema direita na Flandres foi evusivamente (três textos) anunciada no Insurgente, mas com cópias de notícias. Ficamos sem saber o que pensa o AAA deste resultado eleitoral. Esta, sim, é uma omissão gritante, penso eu.

2006/10/11

Boa onda

É o slogan da nova campanha da Rádio Renascença. Associado a ele, boas músicas como esta. Quem conhecerá esta versão original? Eu mesmo só a conhecia numa (bela) interpretação do Caetano Veloso.

Anita vai ao Colombo

Está patente até ao próximo domingo no Centro Comercial Colombo uma exposição evocativa dos cinquenta anos da famosa Anita (que eu nunca li). Será que a Alice e o recém-chegado Pedro gostarão um dia de ler a Anita? Será que a pensar nessa hipótese o Zé Mário e a Margarida foram lá pedir um autógrafo ao autor? Bem gostaria de saber.

2006/10/10

Assim se vê a influência do Expresso

Na semana passada lá voltou a sair um Expresso cuja manchete era “fabricada”. Tratava-se de um “rumor”, de que Paulo Portas e Marcelo Rebelo de Sousa tinham um acordo sobre o aborto. Nenhum tipo de fundamentação. Só um “rumor”. Nada mais.
O “rumor” foi prontamente desmentido pelos envolvidos. Só que, no domingo, lá vinham o Público e o Diário de Notícias desmentir... o rumor do Expresso!
A “escola” do Arquitecto Saraiva (e a bem dizer, do Professor Marcelo) é esta: arranjar “rumores” que não podem ser provados, criar “casos”, tentar sempre influenciar a agenda política, sempre por dentro do “sistema”. (Ao menos o velho Independente não se limitava a publicar rumores: fazia acusações concretas. Podia só acabar em tribunal, mas as suas manchetes referiam-se a factos eventualmente comprováveis, por muito falsos que por vezes fossem. E não era um jornal do “sistema”.) O Arquitecto Saraiva gostava de se gabar e dizer que o Expresso que ele dirigia era “o mais influente jornal português”.
Agora o Arquitecto Saraiva já não dirige o Expresso, mas a sua “escola” mantém-se. E por muito que me custe admiti-lo (por não gostar nada do jornal), a “influência” também. O que dizer de um jornal que publica notícias falsas na primeira página, para no dia seguinte serem desmentidas... pelos outros jornais? Para mim, de facto, isto é "ser influente".

2006/10/09

O colectivo decidiu, está decidido – iliteracia económica geral!

Agora, para o colectivo insurgente, tudo o que se afaste da ortodoxia ultraliberal, como elogiar o papel dos sindicatos, ou mesmo o keynesianismo, revela “iliteracia económica”. Compare-se este nível com o do João Miranda, que mesmo se manipula os números (e mesmo se por vezes é críptico) argumenta. Pode ter tiques de educador do povo (que eu pessoalmente acho uma delícia), mas nunca arrumaria uma questão com argumentos de “iliteracia económica”... Assim se vê mais uma vez que quem nasceu para colectivo insurgente nunca chegará a João Miranda.
Quem poderá chegar bem a João Miranda (assim não se deixe estragar pelas práticas do colectivo insurgente) é o dos Santos. Espero que os seus textos no Insurgente, mesmo se (obviamente) ultratendenciosos (não se espera outra coisa), mantenham o nível de sempre.

2006/10/08

Paris é uma festa (mas a partir de hoje nem tanto)

Paris perdeu grande parte do seu ambiente festivo desde hoje, quando o meu amigo Sandro regressou (aparentemente de vez) a Portugal, para concluir o doutoramento. Mesmo depois da Nuit Blanche, este fim de semana, onde espero que se tenha divertido tanto como nos divertimos o ano passado. Toda a gente vai chorar em Paris: das rodas do Bando do Chorão (o samba vai virar choro) às pedras da calçada da Rue de La Tombe Issoire, principalmente perto do Gevaudan. Por onde este rapaz passe a festa é certa e boa. Mas acima de tudo vão-se entristecer os habitantes da Cité Universitaire, especialmente do sexo feminino.
Espero que o nosso país saiba aprovaitar os muitos talentos do Sandro.

2006/10/07

Ciência de qualidade na blogosfera lusa

No Cinco Dias um texto do Rui Curado Silva, autor do imprescindível Klepsýdra (se julgam que exagero no adjectivo, não sabem o que perdem).
Vale a pena acompanhar a troca de ideias entre o Agreste Avena e o Conta Natura. Ainda neste último blogue, a estreia do José Natário na blogosfera, com um texto sobre o Prémio Nobel da Física deste ano. Esperemos que esta colaboração continue.

2006/10/06

Como é bom!



Como é bom viver com liberdade de expressão e poder ofender centenas de milhões de europeus!
Como é bom ser-se brasileiro, escrever-se num blogue europeu que é "asqueroso" ver-se uma bandeira da União Europeia e a única reacção do "colectivo" dos outros membros do blogue - que vivem e pagam impostos na União Europeia - que se tem... são cinco "smileys"!
Como é bom saber que se tem a impunidade de poder ofender e ninguém ligar nenhuma! Principalmente num blogue - escrito na União Europeia - que seria o primeiro a denunciar nos termos histéricos habituais qualquer ofensa a uma bandeira de Israel ou dos Estados Unidos da América!
Como é bom ser-se brasileiro e escrever-se tal coisa - num blogue lido na sua esmagadora maioria por europeus - a partir do Brasil, onde uma ofensa à bandeira nacional é crime!
Como é bom poder escrever textos asquerosos.

2006/10/05

Descobertas excitantes

A do retrato do universo enquanto jovem, que evidencia o Big Bang, galardoada este ano com o Prémio Nobel da Física para John Mather e George Smoot.
Os testes mais precisos de sempre à teoria da Relatividade Geral, objecto de um artigo meu no Público. Fica aqui o texto.

Relatividade geral sobrevive ao mais preciso teste de sempre

Observação de um pulsar duplo permitiu a detecção indirecta de ondas gravitacionais

Uma equipa internacional de astrónomos utilizou observações de um pulsar duplo para testar a Teoria da Relatividade Geral de Einstein.
Os astrónomos, liderados por Michael Kramer do observatório Jodrell Bank, na Universidade de Manchester, no Reino Unido, basearam-se em observações feitas num par de pulsares para efectuarem os testes mais precisos alguma vez já realizados à teoria. Todos os resultados obtidos estão de acordo com os por esta previstos.
O pulsar duplo PSR J0737-3039A/B, descoberto em 2003 pela mesma equipa responsável por estas observações, situa-se a cerca de 2000 anos-luz da Terra, na direcção da constelação Puppis. É formado por duas estrelas de neutrões compactas em rotação em torno uma da outra, cada uma com um raio de cerca de dez quilómetros e massa superior à do Sol, estando separadas por uma distância de um milhão de quilómetros. Devido ao seu pequeno tamanho, elevada densidade e curto período orbital (duas horas e 24 minutos), o pulsar duplo tem um potencial gravitacional cerca de cem mil vezes superior ao do Sol, o valor mais alto conhecido em todo o Universo, excepção feita aos buracos negros. Por isto, perto destes pulsares o espaço-tempo é muito mais curvo e os efeitos relativistas são muito mais sensíveis. Os pulsares emitem radiação que pode ser captada por telescópios, permitindo determinar a curvatura do espaço-tempo e constituindo-se assim um excelente laboratório para a teoria da Relatividade Geral. Estas medições permitirão determinar se a Relatividade Geral é válida somente em regiões onde o campo gravitacional é fraco, como o nosso sistema solar, ou se o é igualmente onde o campo é muito forte.
Utilizando três dos maiores radiotelescópios do mundo, a equipa mediu cinco efeitos relativistas não previstos pelas leis de Newton. Todos os efeitos medidos estão em completo acordo com as previsões da teoria de Einstein, mas aquele em que a concordância é mais espectacular (de 0,05 por cento) é o chamado atraso de Shapiro: os sinais luminosos de um pulsar, quando passam junto ao outro, são atrasados pela curvatura do espaço-tempo.
Outro efeito relativista observado é a dilatação do tempo (o “relógio” de um pulsar anda tão mais lentamente quanto mais fortemente sentir o campo gravitacional criado pelo outro pulsar).
Dois desses efeitos, relacionados, são declínio orbital e a radiação gravitacional: os dois pulsares perdem energia devido à emissão de ondas gravitacionais (ondas que propagam campos gravitacionais no lugar dos electromagnéticos). Como consequência as estrelas desaceleram e aproximam-se em espiral, até finalmente colidirem formando-se um único corpo. Os astrónomos observaram que a distância que separa os pulsares diminui cerca de 7 milímetros por dia.
A emissão de ondas gravitacionais é uma consequência da Relatividade Geral de Einstein. Estas ondas são extremamente difíceis de detectar, nunca tendo sido observadas directamente. A diminuição do raio da órbita observada corresponde exactamente ao esperado pela perda de energia devida à sua emissão. As observações desta equipa dão assim uma prova indirecta da existência de ondas gravitacionais.
Os resultados foram publicados na edição do passado dia 14 de Setembro da revista Science. Apesar de os testes terem sido efectuados com uma precisão de 99,5 por cento, a equipa espera aumentar ainda mais esta precisão em testes futuros, de forma a observar a estrutura destas estrelas superdensas e eventualmente detectar pela primeira vez sinais de gravitação quântica, cuja presença introduziria correcções mensuráveis (embora muito pequenas) a estes resultados.

2006/10/04

O “humanismo” liberal

Para o André Abrantes Amaral os socialistas não são “humanos” e nem vêm a “essência da pessoa”. Será por contraponto aos liberais? Comparemos então com o seu texto mais recente, “Eles” sabem cada vez menos. Qual é então o “humanismo” liberal? O André primeiro garante que o dinheiro das reformas “não vai chegar para todos”. E encontra rapidamente a solução – para ele, claro: manifesta-se disposto a “pagar a reforma” do seu pai (mas que bom filho!). Ele e o pai “saberiam resolver o assunto na perfeição”.
A diferença entre o “humanismo socialista” e o “humanismo liberal” consiste nisto: mal ou bem, melhor ou pior, o primeiro procura que todo o cidadão que trabalhou toda uma vida tenha uma reforma digna; o segundo está preocupado consigo mesmo, com a sua própria reforma (e eventualmente a da família) e com a de mais ninguém. Não se preocupa nomeadamente com as reformas daqueles cujos filhos não lhas podem pagar (isto se adoptarmos o ponto de vista – discutível – de que as reformas são para serem pagas pelos filhos aos pais).

Sobre este assunto, deixo aqui um extracto de um artigo de José Vítor Malheiros no Público de ontem.

As reformas dos outros
José Vitor Malheiros

Existem, relativamente à Segurança Social, duas grandes posições de princípio. De um lado, os que consideram que a Segurança Social é um mecanismo estrutural de solidariedade social e que os seus descontos de hoje se destinam a assegurar as necessidades dos seus concidadãos mais frágeis (idosos, doentes, desempregados), na certeza de que, quando eles próprios se encontrarem em situação de fragilidade, os seus concidadãos estarão disponíveis para os ajudar financeiramente. De outro lado, os que consideram que os seus descontos para a Segurança Social são uma espécie de poupança pessoal, que estão dispostos a desembolsar mensalmente apenas devido à certeza de que, quando necessitarem, poderão utilizar essa reserva que constituíram e que esperam que o Estado tenha gerido sabiamente de forma a ter aumentado o seu pecúlio.
Os primeiros preocupam-se com a garantia de que, no momento em que dela necessitarem, a Segurança Social terá receitas suficientes (o que significa, entre outras coisas, contribuintes suficientes) para prover às suas necessidades.
Os segundos são os que costumam comparar a "performance financeira" dos seus descontos com o rendimento de fundos de investimento privados e que sonham com o dia em que possam deixar de pagar a "reforma dos outros", para confiar exclusivamente na sua capacidade de investimento para se sustentarem na velhice e na doença. (...)
Neste momento, a investida da direita neoliberal e das empresas que exploram o ramo consiste em tentar convencer os mais ricos a investir em esquemas privados com apelos ao egoísmo e ataques ao estado social (os "ciganos do rendimento mínimo"). E, enquanto esse ataque se faz por todos os meios do marketing empresarial, o Estado social responde apenas no pouco glamoroso plano político.
Há fortes razões (solidárias e egoístas, religiosas e económicas, políticas e éticas, humanitárias e pragmáticas) para defender o Estado social. Mas é preciso que o Estado e os cidadãos para quem a solidariedade é um valor central o façam pelo menos com a mesma convicção dos seus inimigos.

2006/10/03

Os aproveitamentos políticos do prémio Nobel

Provavelmente desconhecem em absoluto a obra de Harold Pinter, mas no ano passado disseram cobras e lagartos do dramaturgo a propósito do seu prémio Nobel, devido às suas convicções políticas.
Este ano, não têm mais nada a dizer sobre os nobeis da Medicina e da Física (e ainda vamos só no início) – só interessa que os galardoados são “americanos”.
Muitas vezes o tenho escrito – o Nobel é pessoal. Destina-se a premiar o trabalho dew uma pessoa (ou de um grupo). Não tem raça, credo, ideologia. Sobretudo, não tem nacionalidade. Mas há gente que não aprende nunca.

Prémio Científico IBM 2005

Foi hoje atribuído. Parabéns ao Paulo Mateus.

Águas de Outubro fechando o verão

Trombas de água como a de ontem à noite em Lisboa são importantes para nos convencermos de que chegámos ao outono.

2006/10/02

Ainda mal saí

Ainda nem há uma hora saí da Rua Viriato pela última vez enquanto jornalista... E já estou com saudades daquela vida. Foi bom.

De volta à universidade

Pensou que eu não vinha mais, pensou?

Trilha incidental: De Volta ao Samba, de Chico Buarque.

2006/10/01

Voto no Lula

Falando no Chico Buarque, é altura para recordar uma entrevista com cinco meses. Subscrevo na íntegra o seu ponto de vista.

2006/09/30

Buarqueanos retardatários, apressem-se

Acrescentaram mais duas datas aos concertos do Chico Buarque, uma no Porto e outra em Lisboa (no dia dos meus anos). Eu já tenho bilhete (para a véspera – para passar o dia seguinte com o Chico no ouvido). As restantes datas já estão quase esgotadas e não me admiro que as novas datas esgotem num instante.

2006/09/29

Como identificar um Marujo numa redacção

(Não é este, mas se calhar também servia.)
Há três sintomas:
- na parede por trás da secretária, retratos do Papa;
- colados ao écran do computador, autocolantes da ATTAC;
- em cima da secretária, discreto mas sempre presente, um emblema do Beira Mar.

(Com um abraço ao António.)

Aforismo antes do plenário

Homens engravatados a passearem pela redacção são sinal de que se aproximam despedimentos.

2006/09/28

Ladrar é morder

Dentro dos amigos que fiz aqui no Público destaco o Renato, que se sentava na secretária ao lado da minha e com quem era um prazer conversar. O Renato começou há pouco tempo um blogue, Ladrar É Morder. Esquerda a doer.

Reflexões antes da partida

Por aqui vivo os meus últimos dias no Público. E com o ambiente que se vive aqui parece que são mesmo os últimos dias do Público como o conhecemos. Espero no entanto que a oportunidade que eu e mais três cientistas tivemos (e que para mim tem sido muitíssimo enriquecedora) se repita para o ano que vem. Aqui na redacção as pessoas olham umas para as outras à espera de uma convocatória para uma reunião com a administração. Os que já a tiveram discutem se aceitam a rescisão, se acertam a indemnização, como arranjar emprego...
Com isto, a produção e edição do jornal tem-se sentido, em particular a secção de ciência, afectada por férias de colaboradores. Da minha parte, não tendo directamente nada a ver com o assunto tenho feito o meu trabalho. Quando sair deixarei diversos artigos em agenda.
Se exceptuarmos casos de interesse mediático (ainda por cima este interesse é por vezes discutível) como o caso do “estatuto de Plutão”, o jornalismo científico não tem data de saída definida. E porquê? Porque é um tipo de jornalismo que não se esgota tão rapidamente. Não perde actualidade tão depressa como a política, a sociedade ou o desporto. Por isso mesmo – e não estou com isto a queixar-me do salário! – tem valor comercial: por não ser tão efémero.
A natureza da crise por que passam os jornais diários a nível mundial passa por aqui: desde que surgiu a internet, a informação efémera deixou de ter qualquer valor comercial. As pessoas não pagam para lerem hoje de manhã o mesmo que já leram de graça ontem à tarde na internet. O sucesso dos gratuitos deve-se a terem percebido isto muito bem. Por isso... são gratuitos, e estão aqui a demonstrar cabalmente a minha tese sobre a informação efémera.
Os jornais, para venderem, têm de conter informação que não seja só efémera: que não venha nos gratuitos. Precisamos de jornalismo que aprofunde os conteúdos; que não se limite a repetir o que vem nas agências noticiosas. Agora: será isso viável? Receio bem que não. E a culpa não é dos leitores: é mesmo da dimensão do mercado.
Em qualquer lugar do mundo um jornal de qualidade necessita de N colaboradores. Não sei quantos, mas contando com pequenas variações, pelo menos a ordem de grandeza de N deve ser bem definida e independente de especificidades locais (mercado, país, produtividade, ...). Agora, de certeza que N é muito maior do que o número de colaboradores de um jornal popular ou gratuito. O jornalismo de qualidade dá muito trabalho; o Público ou o Diário de Notícias têm de ter muito mais colaboradores que o 24 Horas ou o Correio da Manhã. É preciso perceber este ponto importante.
Para poder sustentar esse número de colaboradores, o jornal precisa vender T exemplares (supõe-se para efeitos de simplificação para T o mesmo que para N). Há mercados em que tal é viável; se o mercado (se o país...) não for grande o suficiente para esses T exemplares serem vendidos diariamente, a conclusão é que talvez um jornal diário de qualidade não seja viável.
Nos EUA o mercado é enorme, e por isso consegue-se fazer entre outros o The New York Times, o melhor e mais completo jornal do mundo e principal referência jornalística a nível mundial.
Na Grã Bretanha consegue fazer-se o The Guardian (um jornal de que eu não gosto, mas isso fica para outra ocasião); em Espanha, o El País. Em França o Libération tem problemas que, no entanto, talvez sejam específicos do jornal.
Em Portugal, se calhar, não há mercado para se ter jornais diários de qualidade. Havia, mas a internet veio roubá-lo. Presentemente se calhar não se consegue vender no mercado português T exemplares por dia e sustentar N colaboradores. Se calhar não é mesmo viável estar a tentar vender todos os dias jornalismo de referência. Haverá sempre mercado para ele, mas não todos os dias. Talvez só aos fins de semana. Por isso não prevejo grandes dificuldades aos semanários. Talvez no futuro só os diários gratuitos e os semanários sejam viáveis. Talvez por isso jornais como o Público e o DN, para sobreviverem, tenham de evoluir para um modelo misto, gratuito ou a preço simbólico durante a semana e com edições especiais pagas ao fim de semana. Não sei. Há que defender o jornalismo de qualidade, mas há que encarar as evidências.

Para ler mais: o João Pedro Henriques, de quem fui colega por uns dias antes de ele se mudar para a Av. da Liberdade, há muito escreve sobre este assunto.

2006/09/27

Fé e Ciência, Opus Dei e Insurgente

Aleluia! O Opus Dei aparentemente deixou de ser tabu e até já aparecem no Insurgente (onde mais?) ligações explícitas às páginas da organização católica. "Fé e Ciência", é o título do texto. Dedico por isso a minha entrada anterior aos doutores Guanghua Yang e André Azevedo Alves. Espero que os exemplos de Gabriel Burdett, Ellen Carlson e outros cientistas evangélicos os inspire e lhes dê forças para a sua causa: Ciência - sempre ao serviço da Fé!

E o nome da força unificadora é Jesus!

Evangelical Scientists Refute Gravity With New Intelligent Falling Theory

The Onion

Evangelical Scientists Refute Gravity With New 'Intelligent Falling' Theory

TOPEKA, KS-Evangelical physicists are now asserting that objects fall because a higher power is pushing them down.


Sugiro a leitura completa. Deixo aqui alguns destaques:

"According to the ECFR paper published simultaneously this week in the International Journal Of Science and the adolescent magazine God's Word For Teens!, there are many phenomena that cannot be explained by secular gravity alone, including such mysteries as how angels fly, how Jesus ascended into Heaven, and how Satan fell when cast out of Paradise.

The ECFR, in conjunction with the Christian Coalition and other Christian conservative action groups, is calling for public-school curriculums to give equal time to the Intelligent Falling theory. They insist they are not asking that the theory of gravity be banned from schools, but only that students be offered both sides of the issue "so they can make an informed decision."

"We just want the best possible education for Kansas' kids," Burdett said.

Proponents of Intelligent Falling assert that the different theories used by secular physicists to explain gravity are not internally consistent. Even critics of Intelligent Falling admit that Einstein's ideas about gravity are mathematically irreconcilable with quantum mechanics. This fact, Intelligent Falling proponents say, proves that gravity is a theory in crisis.

"Let's take a look at the evidence," said ECFR senior fellow Gregory Lunsden."In Matthew 15:14, Jesus says, 'And if the blind lead the blind, both shall fall into the ditch.' He says nothing about some gravity making them fall—just that they will fall. Then, in Job 5:7, we read, 'But mankind is born to trouble, as surely as sparks fly upwards.' If gravity is pulling everything down, why do the sparks fly upwards with great surety? This clearly indicates that a conscious intelligence governs all falling."

Critics of Intelligent Falling point out that gravity is a provable law based on empirical observations of natural phenomena. Evangelical physicists, however, insist that there is no conflict between Newton's mathematics and Holy Scripture.

"Closed-minded gravitists cannot find a way to make Einstein's general relativity match up with the subatomic quantum world," said Dr. Ellen Carson, a leading Intelligent Falling expert known for her work with the Kansan Youth Ministry. "They've been trying to do it for the better part of a century now, and despite all their empirical observation and carefully compiled data, they still don't know how." (...)

Anti-falling physicists have been theorizing for decades about the 'electromagnetic force,' the 'weak nuclear force,' the 'strong nuclear force,' and so-called 'force of gravity,'" Burdett said. "And they tilt their findings toward trying to unite them into one force. But readers of the Bible have already known for millennia what this one, unified force is: His name is Jesus."

(Agradeço a dica ao Agreste Avena.)

2006/09/26

Onde estava o Professor Pedro Arroja no 25 de Abril?

A resposta a esta e a muitas outras perguntas na entrevista que Pedro Arroja deu (ou terá vendido?) a Fernanda Câncio, em 1994. É o Blasfémias condensado num texto. Vale a pena ler. Obrigado ao zèd pela sugestão. Alguns destaques:
«Mas é precisamente a pensar nos pobres que eu punha a questão da transacção do voto. Se uma pessoa tem direito a um voto mas não quer usá-lo, tem de o deitar fora. Noutro sistema, poderá vendê-lo a alguém que queira votar várias vezes. Já viu quantos pobrezinhos ficavam beneficiados?»

Ou ainda:
«Por isso é que eu acho que a Constituição devia seguir o exemplo da americana, que diz o que o Estado não deve fazer, ao invés de dizer, como a nossa, o que ele deve fazer. A ideia é limitar os poderes do Estado, que é para prestar serviços gerais à população, como a defesa. Não é para andar a tratar da vida de toda a gente, a dar saúde, emprego, etc. Isso cada um trata da sua vida.»

Ou melhor (destaques meus):
«Posso-lhe dizer que não há país do mundo onde os negros vivam tão bem como na América. (...) Repare, eu acho que eles têm todo o direito à liberdade, é a terra deles. Agora não se esqueça que os negros americanos não estão na sua própria terra. (...) Foram eles que foram. Atraídos pelo nível de vida que não têm em mais parte nenhuma do mundo. (...) Alguns foram levados como escravos. Mas ainda hoje há gente a emigrar para lá, negros. E deixe-me dizer-lhe uma coisa. O homem que ganhou o prémio Nobel, este ano, Robert Fogel, provou que se o sistema da escravatura era politicamente inaceitável, em termos económicos, para os negros, era um sistema muito eficaz. Mais: que o trabalhador negro da época, escravo, vivia melhor que o trabalhador médio branco. Certamente que a conclusão é surpreendente, é por isso que ganhou um prémio nobel. Mas documentou extraordinariamente bem (...) Diz-se que os negros não trabalham, não sei quê, e isto vem provar o contrário: mesmo sob condições de adversidade, a escravatura, os negros eram duplamente mais produtivos que os brancos. E os estados do sul, onde eles estavam concentrados, prosperaram muito mais do que os do Norte. Fantástico. (...) Sabe, não há nenhum prémio Nobel da economia a sair dos países católicos do sul da Europa, e é porque a pretensão é chocante. Estou aqui a falar de estudos documentados, prémios Nobel, e as pessoas riem-se, porque não é aceitável. Eu acho admirável a capacidade de levar a razão humana a este ponto.»

É de morrer a rir. E isto é só uma pequena amostra. Passem por e leiam tudo. A vantagem de se viver na Europa é esta: na Europa lemos uma entrevista destas e rimo-nos.

2006/09/25

Para os portugueses com mais de 55 anos, um verdadeiro combatente pela liberdade é necessariamente um antifascista

É claro que “combatente pela liberdade” e “antifascista” não são em geral sinónimos. E é igualmente claro que nas últimas três décadas não houve (felizmente) necessidade de combater o fascismo em Portugal. Uma vez vencida a ditadura, e só então, puderam surgir livremente os tais “combatentes” da “liberdade” de que fala o Blasfémias, e onde se inclui o Professor Pedro Arroja. Quem defende essa “liberdade” tem de facto um combate a travar (pelo menos cultural), pois não é esse o meu conceito de liberdade e nem o do comum cidadão. Mas sobre a diferença entre os conceitos de liberdade de liberais como os membros do Blasfémias e o comum cidadão escreverei noutra altura. O que parece indiscutível é que, para os portugueses da geração do Professor Pedro Arroja, não havia liberdade. Pedro Arroja não será da geração de Badaró ou Raul Solnado, mas tem idade para ter sentido a falta de liberdade do salazarismo. Para merecer a classificação de “um dos grandes combatentes pela liberdade das últimas décadas”, e no caso de ter vivido o fascismo como jovem adulto, tem de ter algum passado antifascista. Confesso que não sei – desconheço a sua idade e a sua biografia: esteve o Professor Pedro Arroja na Universidade em Portugal antes de 1974? Se esteve, o que fez para merecer ser caracterizado como um grande “combatente pela liberdade”? Agradeço que me esclareçam. Cabe então perguntar: onde estava o Professor Pedro Arroja no 25 de Abril?

2006/09/22

Força Ronny!


Não partilho de todo a posição do presidente do Sporting de defender um novo jogo Sporting-Paços de Ferreira. Só a defenderia se esse passasse a ser um procedimento comum para cada jogo em que o árbitro influenciasse o resultado com erros escandalosos em prejuízo de uma das equipas, o que de facto aconteceu em Alvalade no fim de semana passado. Só que a sugestão de Soares Franco seria somente a de um acto isolado. Poderia corrigir a injustiça do jogo do Sporting, mas há que corrigir as injustiças todas. Ainda na semana anterior o Beira Mar foi roubado em Leiria (tendo perdido dois pontos, enquanto o Sporting, à custa do árbitro, só perdeu um). Não vi Soares Franco ou ninguém a pedir a repetição desse jogo. Os erros (voluntários ou não) acontecem a todos. Mais contra o Sporting do que contra os seus adversários directos, é verdade. Mas aguentar este facto faz parte da condição de sportinguista. Para mantermos a nossa superioridade moral, para pedirmos o fim dos erros temos de pedir o fim dos erros todos.
Acresce a isto que quer José Mota, o técnico do Paços de Ferreira, quer o jogador infractor (Ronny) foram de uma grande humildade (ao contrário de outros que no passado ganharam ao Sporting com a ajuda do árbitro). O Ronny reconheceu mesmo que marcar o golo com a mão tinha sido “instintivo”, não inventando desculpas ou procurando negar o inegável. A um jogador assim eu só posso desejar as maiores felicidades pessoais. E que continue a marcar muitos golos, com o pé ou com a mão. De preferência já no próximo jogo, hoje à noite.

2006/09/21

Eça, as letras e os jornalistas

O Diário de Notícias oferece agora uma colecção de medalhas de portugueses famosos. Na edição impressa (mas não na edição electrónica), é incluída uma pequena nota biográfica sobre o homenageado. Na semana passada (creio que na sexta feira), calhou ser Eça de Queirós. O grande mestre da prosa novecentista era descrito como uma das figuras de proa do romantismo, o que já de si é um erro crasso, como qualquer aluno do 9º ano reconhecerá. Românticos eram Almeida Garrett ou Camilo Castelo Branco; Eça era um realista, como Balzac, Zola, Flaubert e outros.
Mas nem era este o único erro num texto de menos de dois mil caracteres. Numa passagem elogiavam a “riqueza” do vocabulário do Eça de Queirós. Ora se há crítica que é feita ao Eça de Queirós pelos seus detractores é a de ter um vocabulário algo limitado, recorrendo frequentemente aos galicismos (“chaminé” em vez de “lareira” e assim por diante). Mesmo admitindo que isso possa ser verdade, este facto realça no entanto a qualidade de Eça de Queirós que eu mais admiro: como consegue ser tão extraordinariamente sugestivo com uma tamanha economia de recursos. O uso por parte de Eça dos adjectivos e advérbios é o mais bonito que eu já vi. Mais do que nenhum outro romancista que eu conheça, a prosa queirosiana é uma obra de arte. E tudo isto com o referido vocabulário “limitado” e económico, características que eu aprecio num escritor. A escrita de Eça vale por si mesma, não necessita de adornos vocabulares pedantes e dispensa a consulta do dicionário. Eu nunca gostei de ir ao dicionário.
Assim encontramos, num texto simples de um jornal, dois erros de palmatória. Escritos provavelmente por um jornalista que teve muitas cadeiras de literatura (mais do que eu, que só tive o português do ensino secundário). No entanto, um bom aluno do 11º ano notará estes erros. Mas nem todos os alunos notarão. Esta biografia também será lida por estudantes da obra de Eça, que encontram assim no jornal de todos os dias uma contradição com aquilo que devem aprender na escola.
O editor de sociedade do Diário de Notícias, um rapaz que, calhando, até sabe calcular uns integrais e, se se esforçar, ainda inverte uma matriz, escreveu há tempos um artigo onde refere a falta que fazem melhores jornais. Tem razão, mas às vezes eu acho que também fazem falta melhores jornalistas.

2006/09/20

A definição de planeta e os “limites da ciência”

Pedro Correia é um jornalista e blóguer que costumo gostar muito de ler. Escreveu no mês passado no seu blogue um texto (que poderia ser subscrito por muitas outras pessoas) sobre a pífia questão do estatuto de Plutão. Já andava para o comentar há algum tempo, mas só agora pude.
O que é curioso no caso do Pedro Correia é que alguns dos comentários no seu texto revelam que ele ironicamente em certos aspectos está mais próximo das teses do Prof. Boaventura de Sousa Santos do que à partida poderia julgar.
Convém prestar um esclarecimento: a “definição” de planeta não passa disso: uma definição. Uma convenção. Nada mais que isso. Saber se Plutão é ou não um “planeta” é completamente irrelevante para entender a estrutura do Universo. Para entender isto melhor, nada como mais um dos deliciosos textos “para educar o povo” do João Miranda. É pura e simplesmente uma questão de semântica. Nem sequer é ciência.
Em que é que a nova definição de planeta é “uma clara demonstração dos limites da ciência contemporânea na interpretação e catalogação da realidade - incluindo a própria realidade "física", que muitos pensavam ser facilmente traduzível por fórmulas, equações e etiquetas”? Eu tenho a certeza de que Plutão era um planeta de acordo com a definição antiga, e não o é com a nova... E daí? Em que é que isso altera a nossa visão do Universo? Pode quanto muito ter de levar à alteração de muitos manuais escolares. O que é uma questão importante. Mas não é uma questão científica.
Muito mais importantes são acontecimentos como a descoberta da matéria escura, de que falei atrás. Só tenho a lamentar que esse facto (ele, sim, importante para a compreensão do Universo) tenha sido praticamente omitido das páginas da maioria dos jornais portugueses, em detrimento de mais não sei quantas críticas literárias, musicais ou cinematográficas ou da pífia questão do estatuto de Plutão.
(Esta é uma opinião pessoal e que não vincula o jornal onde escrevo até ao fim deste mês.)

Para ler mais: The Cash Value of Astronomical Ideas, no Cosmic Variance.