2006/11/12

Uma viagem à Palestina

Passada a fase ultra-buarqueana, é altura de ler o que ficou por ler. Do mais recomendável que ficou por referir foi o relato da viagem à Palestina do Daniel Oliveira. A ler de uma ponta à outra. Deixo aqui dois extractos.

Jerusalém é um bom retrato (exagerado) do que está a acontecer à sociedade israelita (e à árabe, e à americana...). Os ortodoxos tomaram conta da cidade. Reproduzem-se a um ritmo alucinante, compram ruas inteiras, fecham ruas ao sábado, apedrejam quem se atreve a conduzir naquele dia e, paulatinamente, vão comprando todas as casas numa guerra de posições. (...) Alguns ortodoxos limitam-se a receber dinheiro do Estado para não fazer nada a não ser ler os textos sagrados. As mulheres de outros são obrigadas a rapar o cabelo depois de casar e usam peruca no seu lugar. Recentemente, um representante dos ortodoxos na municipalidade quis proibir homens e mulheres de viajarem no mesmo lugares dos transportes públicos. Se alguém tomasse esta gente por legítimos representantes dos judeus, toda a gente se indignaria. Com justiça. Só que quando se toma a minoria fanática islâmica pela voz dos muçulmanos, toda a gente acha normal. (...)

[Em Gaza] Com o encerramento das fronteiras, a maquinaria para fábricas não entra e não há investimento possível. Quando chegam ao mercado os custos de transporte representam o dobro dos custos de produção. Depois de verificados ao milímetro, e esperarem durante dias no porto israelita de Ashdod (os palestinianos têm de pagar a espera), os produtos só podem ser transportados por empresas israelitas certificadas. Elas aproveitam o monopólio e inflacionam os preços. Depois, em princípio, ficam semanas ou meses à espera na fronteira, ao sabor dos humores do oficial de serviço. Se forem perecíveis, já nem vale a pena saírem de lá. Os produtos de consumo de produção israelita entram, claro. Há que fazer negócio. Os preços são muito mais altos do que em Israel e os salários infinitamente mais baixos. O pouco que os palestinianos ainda conseguem produzir para exportação só sai depois de apodrecer. O funcionamento do porto em Gaza seria uma grande ajuda para os palestinianos. Mas os israelitas não permitem que ele reabra. Entre as duas partes dos territórios (Gaza e Cisjordânia) praticamente não existem movimentos comerciais possíveis.
Como ninguém entra ou sai, o investimento externo é uma miragem. Ninguém quer empatar dinheiro com tanto risco se nem pode ter contacto com o seu negócio. Os empresários de Gaza não podem ir a reuniões no estrangeiro, tratar de negócios. Estão presos. Um gestor explica-me: «Israel retirou mas continuamos ocupados, muito pior do que antes, estamos aqui presos e condenados à miséria. Somos pessoas educadas, preparadas para os nossos negócios. Não precisamos de caridade. Apenas queremos que nos deixem trabalhar.»
Há sete meses que os funcionários públicos de Gaza e da Cisjordânia não recebem um tostão. É Israel que colecta os impostos dos palestinianos. Desde que o Hamas ganhou as eleições que fica com eles. São dois terços do Orçamento da Autoridade Palestiniana que Israel rouba e usa para seu proveito. Só os médicos recebem: 300 dólares por mês. O resto, de professores a polícias, nada. Num território com mais de 3500 pessoas por quilómetro quadrado, o poder está na rua. Não há dinheiro mas não faltam armas. Estão três mil para entrar. E os EUA fazem pressão junto de Israel para que autorize. Quer armar a Fatah para uma provável guerra civil que se avizinha. Assim como quer que entrem mais homens para engrossar a guarda pretoriana do Presidente Abbas. A Europa (que paga tudo, das infra-estruturas que os israelitas se divertem a desfazer às ajudas ao governo) descobriu o ovo do Colombo. Vai criar um regime extraordinário em que o dinheiro é entregue directamente aos funcionários, através de bancos, sem passarpelo governo. Outra parte do dinheiro irá directamente para pagar a electricidade e água que Israel fornece à Palestina. Fica-lhes com os impostos e cobra-lhes pela energia.

2006/11/11

O concerto - conclusão

É mesmo verdade que Chico não parece sentir-se muito à vontade num concerto. Está sempre retraído, não se mexe. Mas comunicou com o público.Infelizmente o Chico do século XXI não consegue escrever clássicos como os de entre os anos 60 e 80. Chico nunca se enganaria a cantar um clássico, mas esqueceu-se da letra da “Ode aos Ratos”. Mais vale Chico concentrar-se nos clássicos. O público que esgotou o Coliseu seis noites em Lisboa fica à espera de um regresso.

2006/11/10

Algumas estatísticas do concerto

Todos os temas têm a assinatura do Chico Buarque, excepto Sem Compromisso.
O concerto baseou-se em canções do mais recente álbum Carioca e dos anos 80.
Clássicos dos anos 60, só Quem Te Viu, Quem Te Vê. Dos anos 70, Mambembe, Tanto Mar e João e Maria. Os clássicos ficaram ou para a introdução, ou para o encore. Os anos 90 também ficaram reduzidos a Futuros Amantes.
Exceptuando Carioca, o álbum de originais mais representado no concerto foi Vida, com quatro temas. Do Grande Circo Místico saíram três temas. De Uma Palavra saíram cinco canções, mas este é um álbum de versões (com arranjos semelhantes às que foram cantadas). Do álbum ao vivo em Paris também saíram cinco canções.

Para a posteridade

Fica aqui o registo de uma noite inesquecível.

Mambembe
Dura na Queda
O Futebol
Morena de Angola
Renata Maria
Outros Sonhos
Imagina
Porque Era Ela, Porque Era Eu
Sempre
Mil Perdões
A História de Lily Braun
A Bela e a Fera
Ela É Dançarina
As Atrizes
Ela Faz Cinema
Eu Te Amo
Palavra de Mulher
Leve
Bolero Blues
As Vitrines
Subúrbio
Morro Dois Irmãos
Futuros Amantes
Bye Bye Brasil
Cantando no Toró
Grande Hotel
Ode aos Ratos
Na Carreira

Encore:

Tanto Mar
Quem Te Viu, Quem Te Vê
João e Maria
Sem Compromisso
Deixa a Menina

2006/11/09

Encore

Aqui o meu show de karaoke foi completo, do princípio ao fim. Começou com Tanto Mar, segundo Chico uma “música antiga que marca a minha relação com Portugal”. A versão cantada foi a de 1975, a do “Sei que estás em festa, pá”. Não sei se já não disse isto, mas Chico não muda mesmo. E é muito bom. Foi por mim entoada em plenos pulmões.
Quem Te Viu, Quem Te Vê foi cantada com a delicadeza que a sublime letra exige:
Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria
Quero que você assista na mais fina companhia
Se você sentir saudade, por favor não dê na vista
Bate palmas com vontade, faz de conta que é turista
João e Maria é presença habitual no final dos concertos de Chico. E quando tudo parecia que ia acabar, eis que regressa ao palco para acabar em beleza com Sem compromisso e Deixa a menina. Por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz. Era meia noite e o samba estava quente. Ficámos por ali, à espera de mais.

Na carreira

Uma boa escolha para o final de espectáculo.

Ode aos ratos

Uma das melhores músicas recentes de Chico e Edu Lobo. A letra, porém, nem sempre é muito natural, e não entra logo no ouvido, uma característica do Chico século XXI. Isso mesmo foi confirmado pelo próprio Chico. A certa altura era suposto ouvir-se qualquer coisa como

Rato de rua
Aborígene do lodo
Fuça gelada
Couraça de sabão
Quase risonho
Profanador de tumba
Sobrevivente
À chacina e à lei do cão


Mas não se ouvia cantar nada: só a música. Chico encolheu os ombros e só largou um “esqueci”, sem se desmanchar. A música continuou e Chico retomou no refrão. Mesmo assim considero este episódio bastante significativo.

Grande hotel

Uma parceria com o baterista Wilson das Neves que, apesar da idade, ainda deu um passinho de dança e mostrou estar bem em forma. O desengonçado Chico nem tentou acompanhá-lo: mal se mexia. Pouco antes ocorrera um remoque ao João Miguel Tavares: “li nos jornais que eu não falo com o público, que eu nem me mexo”… Chico justificou-se com os fones, que poderiam cair.

Futuros amantes

Uma bela canção de amor, melhor que o “Eu Te Amo”. Mais simples, mais directa, mais convincente. Claro que a cantei toda: “Não se afobe não que nada é para já, amores serão sempre amáveis…” De 1993. Carioquíssima, tal como as anteriores, “Subúrbio” (de 2006) e “Morro Dois Irmãos” (de 1989).

As vitrines

Uma presença habitual nos concertos de Chico (ou pelo menos nos discos ao vivo). Umas vezes ele canta “captando a poesia que entornas no chão”; outras, como ontem, “catando”. Eu sei que se a poesia é entornada no chão, é mais lógico ser “catada”. Mas eu prefiro o “captando”. Catar não é nada poético!

2006/11/08

Eu te amo

Conheço várias pessoas que consideram esta a mais bela canção de amor alguma vez escrita. Não concordo. Quando muito, é talvez a mais carnal das canções de amor, com versos como “se nos amamos feito dois pagãos/teus seios ainda estão nas minhas mãos” ou “se na desordem do armário embutido/meu paletó enlaça o teu vestido/e o meu sapato ainda pisa no meu”. Chamem-me lírico, mas nesta canção o meu verso preferido é mesmo o “meu sangue errou de veia e se perdeu”. É uma canção para relações bem maduras; não é a canção ideal para começar uma relação. Eu deveria ter-me apercebido disso naquele recital de poesia na Casa de Portugal da Cite Universitaire de Paris, quando a recitei do princípio ao fim. Ontem, obviamente, voltei a cantá-la sem me enganar.
Seguiu-se Palavra de Mulher, a única canção da Ópera do Malandro neste espectáculo. Também a cantei toda.

O relato continua amanhã.

Ela É Dançarina

Regresso ao álbum Uma Palavra, de 1995. Também estava particularmente curioso com esta música, escrita em 1981 e que se refere ao ano 2001 no futuro. Sempre julguei que o Chico Buarque nunca mais a cantasse e que ela passasse à história. Afinal enganei-me: na sua primeira digressão no século XXI, Chico não perdeu a ocasião de a cantar. E com a letra inalterável: "no ano 2001, se juntar algum, eu peço uma licença...". Confirma-se: Chico não muda. E é muito bom.
Começou com esta canção o meu karaoke particular. A letra não mudou, como disse, e esta foi a primeira canção que eu cantei do princípio ao fim. Não errei.

A história de Lily Braun

O concerto entrava na sua melhor fase, com uma incursão no reportório do Grande Circo Místico, parceria entre Buarque e Edu Lobo. Esta Lily Braun foi a canção mais dançante. Seguia-se A Bela e a Fera. Antes, a excelente Mil Perdões.

Imagina

A homenagem a Tom Jobim. Imagina foi a primeira composição do “maestro soberano”. Só várias décadas mais tarde Chico viria a escrever a letra. Jobim brincava com a letra: em vez de “abre a porta para a noite passar”, cantava “abre as pernas para eu entrar”. Não pude deixar de me recordar desse facto durante o concerto.

Morena de Angola

Esta era uma daquelas canções que eu aguardava com mais curiosidade. Será que o verso final se mantinha como o original de 1980? Mantinha-se, sim senhor: “Morena bichinha danada, minha camarada do MPLA”. Ah, esse coração encarnado, Chico…
Em resposta a esta canção Caetano Veloso canta em “Língua”: “…e que o Chico Buarque de Holanda nos resgate e – xeque-mate! – explique-nos Luanda!” Luanda continuou por explicar por parte do Chico Buarque. O Chico não muda. E continua muito bom.

O Futebol

Chico teve a feliz ideia de cantar várias canções que incluiu no excelente álbum Uma Palavra de 1995, com arranjos do Luís Cláudio Ramos e gravado com a mesma equipa que o acompanha há anos. A primeira dessas canções, “para delírio das gerais no Coliseu”, foi O Futebol. Boa escolha. Cenário a condizer com a letra.
No final, Chico recordou que tinha um coração encarnado (por várias razões, mas uma delas deveria ser para alegrar a Ana Sá Lopes), mas dedicou a canção… ao Anderson, do FC Porto! Ponto a favor do Caetano, que no velho estádio de Alvalade cantou o Leãozinho com um cachecol do Sporting.

Dura na Queda

A melhor canção do recente álbum Carioca, bem emparelhada com Mambembe, em mais um daqueles encaixes que o arranjador Luís Cláudio Ramos descobre.

O concerto: Chico Buarque, Coliseu de Lisboa, 06/11/06

Segue agora um relato. Para facilitar a leitura, será dividido em várias entradas.

(Toda a informação relativa às músicas está disponível na página do Chico Buarque, em "obra".)

2006/11/07

Uma verdade conveniente


«Do it because the ice is melting in the Arctic, in Greenland and all over the world, and unless we take on the climate crisis soon, we could cross a point of no return.

Do it because the war in Iraq is a disaster, and our brave men and women who are fighting and dying there need an honorable and speedy path home.

Do it because in the wealthiest nation in the world, there are millions of kids who can't go the doctor when they get sick because they don't have health care.

Do it because President Bush and this Congress have chipped away at our fundamental rights-rights guaranteed every citizen-that make our country a beacon of freedom. Do it because our government shouldn't be able to wire-tap innocent citizens without a warrant.

Do it because of Abu Ghraib. Do it to tell the world that America won't sanction torture-and we fire the politicians who do. That's the real no-brainer.

Do it because five years after September 11th, President Bush and the Republican Congress have made us all less safe.

But most of all, do it because the country we all love needs our help. Our democracy is in trouble. America needs you.»

Mensagem de Al Gore aos membros do movimento MoveOn.

Obrigado Chico!

Mas alguma vez era possível não gostar disto?

Tanto Mar

Amanhã segue-se um relato pormenorizado do concerto.

(Nota: Há mais uma data suplementar. De quatro concertos inicialmente previstos em Lisboa, já vamos em seis. É amanhã. Nuno, não queres apanhar um avião?